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#23|Destino versus livre arbítrio: será que as nossas escolhas e decisões são controladas pelo universo?

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Imagem: a mente maravilhosa

“Isso é coisa do destino”, dizem os humanos amiúde. Então pergunto agora aos meus amigos: será que eu podia ter evitado que a cerimónia do meu casamento terminasse com o rapto da minha filha? Ou isso estava fora do meu controle? Coloco outra questão: terá a França ganho o último campeonato mundial de futebol porque jogou bem, ou porque estava destinada a ganhar? E você desse lado? Tivesse feito as coisas de forma diferente, estaria noutra situação? Podia ter feito outras escolhas e por exemplo, estar noutro emprego, noutra casa? Em outras palavras: está nas suas mãos transformar-se na próxima estrela do futebol como Cristiano Ronaldo, ou isso depende do destino?

Vejamos, alguns humanos adoptam a filosofia de que eles, e somente eles, estão em controlo das suas vidas. Este tipo de pessoas está mais propensa a sofrer abalos, quando contrariadas pelas forças do universo. Outro grupo, contrariamente, toma uma posição passiva (mais conformista, assim digamos), e acredita que não adianta fazer esforços nem lutar, pois tudo na vida já está predestinado. Estes acabam por ficar parados na estrada da caminhada.

Ora bem, os conceitos de “livre arbítrio” e “determinismo” (este último é o tal destino, se assim preferirem) têm sido objecto de estudo há milhares de anos. Cientistas, filósofos e religiosos debateram acirradamente a questão. Jean Paul Satre, por exemplo, foi bastante claro: o homem está condenado a ser livre e tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável pelo que faz.

Mas, se de facto somos seres livres, onde cabe então a filosofia do “maktub” (palavra árabe que significa “já estava escrito”)?

Analisemos uma recente e interessante descoberta científica:

Um estudo mostrou que, talvez o livre arbítrio humano não nos pertença de todo. Neste teste, os pesquisadores deram ao participante dois botões, um na mão direita, outro na esquerda, enquanto o seu cérebro era scanado. O participante tinha de fazer uma decisão aleatória e pressionar um dos botões. Os resultados foram surpreendentes, pois o sistema foi capaz de determinar, correctamente, qual seria a escolha do individuo, 6 segundos antes que ele próprio estivesse consciente da decisão que ia fazer. In QuoraBrainmagazine.

O que significa isso? Significa que são os nossos neurónios (e não nós), os responsáveis pelas escolhas e decisões que fazemos? E nesse caso, o que faz os nossos neurónios dispararem numa e não noutra direcção? A força motriz que os concebeu? Seja como for, para mim, isso não diminui o livre arbítrio humano. Você, por exemplo, tem o poder de decidir, se continua a ler este texto, ou simplesmente se sai da página agora mesmo, não é verdade? Portanto, as nossas escolhas podem ser mudadas a todo o momento, e com isso, podemos mudar a nossa história. Seja lá qual for a força que impulsiona isso.

Entretanto, o ser humano, como qualquer outra criatura neste universo, é apenas uma manifestação fenomenológica de existência, numa série continua de criação cósmica que acontece neste planeta, tudo resultado de um universo em desenvolvimento. O que significa que você, amigo humano, é uma pequena entidade que ocupa a terra, nesse processo de evolução. In Physcology today.

Desta forma, é compreensível que a vida seja “predeterminada” por certos factores externos, como o ambiente, a nossa genética, o lugar onde nascemos, a forma como respondemos a esses factores, entre outros aspectos. Assim, o nosso livre arbítrio acaba sendo limitado pelas circunstâncias à nossa volta.

Voltando agora à pergunta que coloquei no princípio: está nas suas mãos transformar-se no próximo Cristiano Ronaldo, ou isso depende do destino? Oxalá tivesse uma resposta clara para esta questão, mas o certo é que, nesta equação, não cabe a exclusão de um ou de outro factor. A matemática só funciona quando juntamos os dois: o livre arbítrio e o destino. Ambos no mesmo saco. Ou seja: todas as escolhas e decisões que dependam exclusivamente do ser humano enquanto entidade única, formam uma estrada que conduzem a um certo resultado. Assim funciona o nosso livre arbítrio. Este resultado, entretanto, apesar de ser atribuído à responsabilidade do autor do livre arbítrio, pode não ser aquele que foi previsto, pois está condicionado por circunstâncias externas que não dependem apenas da pessoa como entidade única. É nesse resultado e nas circunstâncias, onde escondem-se as artimanhas do imprevisível “destino”, controlado por forças maiores que nós.

Assim, os humanos podem, e devem, tomar as rédeas do seu destino. Para o efeito, é preciso manter-se em constante movimento, fazendo sempre escolhas e decisões, até chegar ao resultado. Pode dar certo, pode não dar. E se não der certo, não era para ser.

 

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#22|Aloé vera, mel, canela – As curas milagrosas para os humanos

No planeta terra, a aplicação de plantas no tratamento de enfermidades remonta dos tempos antigos. Essa é uma lição que aprendi tarde, a muito custo. Tal como a lição de que, no planeta terra, alguns males veem para fortalecer.

Eu nunca tinha parado para pensar, como é que é, para os humanos, enfrentar uma doença. Nunca deixei que a minha Érica adoecesse por muito tempo. Sempre tratei de eliminar rapidamente, através dos meus poderes, aquela, “dor”, “tosse” ou “gripe”, que vinham debilitá-la. Assim que conheci Will, curei-o de uma doença fatal. Hoje, afastada deles, percebo que as minhas acções, por mais bem-intencionadas, podem não ter sido as melhores. Devia saber que nem sempre estaria com eles, e consequentemente, nem sempre poderia curá-los. Os humanos são criaturas solitárias e frágeis, sujeitas a conviver com essa inconstância. Eles dependem apenas de si mesmos, para criarem defesas, tanto para o corpo como para a alma.

E agora? Se eu perder os meus poderes, tudo o que fiz por estes humanos que tanto amo, será anulado.

Como é que os humanos curam-se das doenças? Como é que eu posso ajudar a minha família, mesmo que um dia perca os meus poderes? Deve haver uma lacuna nessas leis. Sempre há.

Faz muitos meses desde que parti com Vallen em viajem pelo mundo. Vallen acredita que sou sua cúmplice. Que abracei a sua causa, que o estou a ajudar e que desisti da minha família humana. Mas a verdade é que durante este tempo todo, o meu único interesse é encontrar respostas para estas três questões.

E eis o que descobri durante as minhas pesquisas, sobre alguns tratamentos neste planeta: existem ser humanos qualificados para ajudar no caso de doenças. Chamam-se “médicos”. É imprescindível buscar a ajuda deles. Entretanto, a natureza também oferece auxílio. É importante, contudo, notar, que nem tudo o que é natural é benéfico. “As plantas necessitam de recursos químicos para se defenderem, como alguns alcaloides. Assim, algumas dessas substâncias podem actuar positivamente no organismo humano, mas outras provocam sérios danos”, alerta a farmacêutica Ivana Suffredini. Fonte: saude-plantas que curam

De qualquer forma, certas plantas e produtos naturais, com alguma cautela (e repito, sem descurar de assistência médica) são bastante recomendáveis, e já provaram trazer benefícios extremos à saúde, incluindo na eliminação de doenças incuráveis, agindo assim, à semelhança dos meus poderes, ou então, como diriam os humanos, de forma quase “milagrosa”. Vamos conferir:

Aloé Vera – A cura milagrosa

A Aloé Vera é uma planta única, bastante utilizada e conhecida por trazer benefícios medicinais. Esta planta é rica em diversos nutrientes que lhe confere um grande poder de desintoxicação do corpo e de cura de doenças imunológicas. O Frei Romano Zago partilhou uma receita a base de aloé vera, mel e whiskey, que, alegadamente, pode prevenir e curar doenças como o cancro. Confira:

O poder da Aloé Vera

Receita do Frei Romano vídeo

Receita do Frei Romano texto

Gengibre e mel – Adeus gripe e resfriado

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Imagem: Dicavida

As propriedades do mel e do gengibre são óptimas para aliviar os sintomas do resfriado, sem ser preciso produtos químicos. O mel é um poderoso ingrediente antiviral e antibacteriano que tem sido utilizado desde a antiguidade, como um complemento natural para os problemas que afectam o trato respiratório. Já o gengibre, é um tempero com propriedades anti-inflamatórias e expetcorantes, usado há séculos como parte do tratamento de resfriados. Combinados num chá ou xarope, os dois elementos fornecem nutrientes e propriedades ao corpo para a sua fortificação e defesa. Fonte: melhor com saúde

Kakana – Não faltará leite para o recém-nascido

Diz o saber de cultura popular, que a kakana, uma planta rastejante de sabor amargo e abundante em alguns países da África como Moçambique, tem propriedades medicinais. Além de servir para a alimentação, quando fervida ajuda na limpeza do sangue e dos rins. Diz-se ainda que a kakana cozinhada estimula a produção do leite materno.

Amigos(as) humanos, confirmam?

Canela e banana – Acabaram-se as insónias

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Imagem: Reddit

A união das qualidades nutricionais da banana com as da canela, tem como resultado um remédio natural com propriedades sedativas espetaculares que induzem o sono e permitem dormir melhor. Ambas são preparadas num chá natural com o qual são reduzidos os níveis de cortisol, para acalmar o stress e outras emoções que nos impedem de descansar bem. A bebida tem poucas calorias e contém compostos activos que melhoram o metabolismo e os níveis de açúcar no sangue. Fonte: melhor com saúde

E vocês? O que acham destas dicas? Serei capaz de cuidar da minha família, mesmo sem poderes? Quais outros remédios naturais são poderosos?

 

 

 

 

 

 

 

 

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#21| Leva contigo o meu coração

Apesar da grandeza do Rio de Janeiro, consegui localizá-lo. Mais rápido do que previ. Rondava pelo telhado do prédio, quando finalmente vi o meu inimigo. Aterrei no pulo de um gato e comecei a disparar várias flechas contra ele. Os qawwis só perecem se atingidos no peito ou na cabeça. Todavia, o ferimento que causei, embora fosse cicatrizar automaticamente, servira para o neutralizar. Lancei bolhas de energia e de seguida atirei-me sobre o seu pescoço.

– Devolve a humana, agora!

Vallen grunhiu.

– Ai sim? Se não o quê? – Apesar de sufocada, a voz abafada daquele qawwi vil continuava eivada de afronta. Isso irritou-me e fez-me cercá-lo com muito mais força.

– Se não eu mato-te e vou sozinha atrás dela. Vou encontrá-la, Vallen, demore o que demorar.

Podia ser pelo facto de ter passado as últimas noites em claro. Ou então, por apenas há alguns dias, eu ter casado e perdido a família. Numa única noite. Mas a verdade é que eu tinha sede daquele confronto. Sentia a morte no ventre. E não duvidava que um de nós fosse sucumbir. Estava na hora.

Vallen fez um novo grunhido. Uma gargalhada confinada.

– Tu não me vais matar, Linan.

– Qual seria a razão para não o fazer?

– É simples – as suas veias pulsavam como um vulcão em erupção – matas-me e estarás também a matar a tua querida humaninha. A minha vida está atada à dela, minha cara, portanto, tudo o que fizeres comigo, será sentido por ela.

Imediatamente tirei o braço. Sabia que o que ele dissera era possível, e portanto, havia todas as chances de ser verdade.

– Ai minha doce Linan…- Vallen ajeitou a camisa e cruzou os braços – Pelo Rei Réon tu já terias sido permanentemente banida de Stefanotis. Eu trago autorização dele para extirpar-te dos teus poderes. Só não o fiz porque ainda tenho esperança em ti. Estou ao teu lado, Linan.

– Faz-me rir. Se tivesses o poder de extirpar-me, já o terias feito…

– Acontece que preciso de ti com os teus plenos poderes. Da-me o oitavo qlub.

– Não sei nada sobre o oitavo qlub. Ainda estou a meio da minha missão.

Vallen adquiriu um brilho nos olhos.

– Eu sei. Mas acredito nas tuas habilidades, Linan. Ajuda-me a encontrar o oitavo qlub, e eu dou a minha palavra que não rei extirpar-te. Se não me obedeceres, executo a decisão do rei Réon agora mesmo.

O meu sangue gelou. Ser extirpado significa perder a essência. É um dos piores castigos no meu planeta. E só Reon, qawwi supremo, podia aplicar tal medida. Um qawwi extirpado deixa de ter os seus dons, fica imune às doenças e não demora a envelhecer. Em outras palavras, torna-se humano. Algo que eu, nem sequer, conseguia cogitar. Então quais eram as minhas opções? Pôr-me em primeiro lugar e salvar-me? Ajudar Vallen na destruição do planeta terra? Era isso que eu devia fazer?

– Prefiro morrer a juntar-me à ti, Vallen.

O brilho nos seus olhos desapareceu e ele avançou.

Na rapidez de um cometa, senti-me mergulhar num buraco negro. Ia deixar de ser uma qawwi.

Então, subitamente, Vallen retrocedeu. Parecia admirado:

– Preferes mesmo ser extirpada, do que obedecer o rei Réon? De facto deves amar bastante essa tal humanidade. O que é que eles fizeram por ti? – o vinco na testa dele desapareceu e o sorriso jocoso regressou – mas seja feita a tua vontade, Linan. Lembra-te apenas de uma coisa: os teus poderes e dons vão desaparecer para sempre e tudo o que fizeste antes será anulado. Eu faço-te a vontade…

– Espera!

Ergui o braço em defesa. Percebi nesse instante que não estava preparada para tamanha crueldade. Não queria deixar de ser uma qawwi. Essa revelação pesou ainda mais, ao lembrar-me de que eu tinha usado os meus poderes para curar Will de uma doença fatal. Se os meus poderes desaparecessem, era provável que tudo voltasse ao estado original. Will podia morrer. Coisa normal neste mundo que eu tanto queria abraçar. No entanto, não era capaz.

– Eu faço o que queres, Vallen. Vou contigo procurar o oitavo qlub – ele rompeu num urro de vitória, que tratei de interromper. – mas tem uma condição: temos de devolver a menina ao pai.

– Trato feito, minha amiga! Devolvemos a menina, e seguimos a nossa viagem.

Pouco depois, estávamos em frente de casa. Vallen permitiu que me despedisse de Will. Entretanto ao vê-lo de longe, pelo vidro da varanda, não tive coragem de entrar. Will esperava ardentemente pelo nosso regresso. Eu sentia-o. Mas se chegasse perto, não teria força para abondona-lo.

Ajoelhei-me em frente de Érica e arranjei-lhe a gola do vestidinho. Até os canários do jardim percebiam a minha tristeza.

– Quero que corras para casa, minha filha. Vai dar um abraço ao pai.

– Mãe… tu não vens?

Olhei mais uma vez para a varanda envidraçada. Will ainda não tinha dado pela nossa presença. Afaguei o cabelo de Érica.

– Venho mais tarde – era a primeira vez que mentia para a minha filha – Diz ao pai que a mãe ama muito vocês, e vai amar para sempre. Sê uma boa menina.

– Está na hora de partirmos Linan. – advertiu Vallen.

Abracei Érica com muita força.

– Corre, vai dar um abraço ao pai!

Ela correu. E com ela levou o meu coração.

Vallen estendeu-me a mão. Era como se a gravidade e os astros se tivessem feito ausentes. Precisava de recuperar o equilíbrio, e agarrei-me ao apoio mais próximo. A mão de Vallen. Foi nesse instante que Will abriu a porta para Érica e viu-me. Poucos segundos antes de Vallen e eu desparecermos pela noite preta.

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#20|Soneto de fidelidade – Meu casamento, meu pesadelo

É a minha pequena Érica quem lidera o cortejo. Entusiasmada com a tarefa, ela saltita pela trilha de areia, cercada de candeeiros e velas. As suas mãos vão largando pétalas vermelhas. A ínfima quantidade que os seus dedinhos conseguem tirar do cestinho.

Sigo atrás dela, acompanhada pelo pai de Will. Os meus pés descalços estão cobertos pelo longo cetim do vestido cor da lua. O mar e as estrelas, quietos, tentam disfarçar os risos, mas certamente estão espantados. Afinal, conheço Will há quê…? Três anos do planeta terra? Todavia, vendo-o ali, parado, trémulo, sorridente, pronto para jurar-me amor eterno num altar coberto de flores e de sonhos, fico com a impressão de que é a primeira vez que o vejo. E é uma visão que deixa-me muda. Inunda-me os olhos. Quando Will toma-me pela mão, o meu peito transborda. De infinito contentamento.

Caríssimos irmãos – inicia o tal “padre”. O ritual é bastante estranho. Mas na sua estranheza, sinto as palavras tornarem-se uma ponte de cristal, a reflectir a verdade que arde dentro de mim, quando chega a vez de dizer os votos:

– Will: contigo aprendi o que há de melhor nos seres humanos. Aprendi que amar é ter no outro o nosso lar, a nossa alma. Que o verdadeiro amor não vê diferenças, mesmo num universo vasto como este. Eu prometo, perante todos, que vou amar-te com força maior que a da gravidade. Cada segundo em que viver neste planeta.

Will mantém o seu olhar fixo no meu, deixa escapar um leve suspiro, e revela:

– Linan: até há algum tempo atrás, precisamente há três anos, o que eu queria era desaparecer. Despedir-me e esquecer-me de tudo. Mas acabei encontrando-te à ti, e contigo não há despedidas. Agradeço-te, infinitamente, por existires. Sobre o meu amor por ti, confesso com a ajuda de Vinícius de Moraes:

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

O jantar no restaurante da praia parece estar ao agrado dos 12 convidados. Isso tranquiliza-me. Enquanto dançámos ao som de “Janeiro à Janeiro”, sinto uma mãozinha puxar a cauda do meu vestido.

– Mãe… a tia Fatinha não deixa-me comer o bolo!

Carrego-a ao colo e dou-lhe um leve beijo.

– Daqui a pouco a tia Fatinha deixa, tens de ter paciência, está bem?

Para a minha surpresa, já que é uma criança persistente, Érica acena, desce do colo, e volta a estar com Fatinha, a minha grande amiga, agora também madrinha.

Will encosta a sua testa a minha. Parece esbaforido quando sussurra:

– Se pudesse, casava-me contigo todos os dias, Linan.

Uma falha na corrente eléctrica não permite que responda ao comentário. No minuto a seguir, a escuridão impera. E o meu coração acelera como um raio.

– Érica – é tudo o que consigo murmurar.

– O quê?

– Ele está lá fora. Vallen. Com ela!

A corrente é restabelecida mas eu já lancei-me à porta, sem nem perceber que Will corria na direcção oposta. Lá fora, uma brisa sopra na minha direcção, trazendo a visão que veste a forma do meu pior pesadelo: Vallen. Segurando Érica ao colo. A minha filha está dominada pela influência do poder de um qawwi.

– Linan, Linan… falta de educação não convidar os amigos ao casamento, não achas?

Levanto as mãos e faço emergir várias camadas de energia. Mas preciso encontrar a melhor de atacar, sem ferir Érica. É nesse momento que Will junta-se a mim. Para o meu espanto, vem munido de um arco e de flechas quentes.

Ergue uma das flechas:

– Larga a minha filha!

As sombras de Vallen curvam-se:

– A sério Linan? Tiveste o atrevimento de ensinar um humano a usar as nossas armas?

– Por favor – decido que não quero arriscar a vida de Érica – é a mim que queres, deixa a menina ir.

– Com certeza, Linan – Vallen agarra-se mais à Erica – Podes vir buscá-la quando quiseres. Localizei o qlub da esperança. Saberás muito bem onde encontrar-nos.

E em menos de segundos, tanto ele como a minha filha tinham desaparecido. Vallen acabara de fazer algo que poucos qawwis conseguem: teletransportar-se com um humano.

Os olhos de Will toldam-se de sombras. Ele está lívido. Nunca o vi tão transfigurado. O seu rosto é a moldura acesa do desespero. Da dor, e da fúria. É como se o amor e a vida tivessem secado naqueles poucos segundos.

– Não… eu não posso perder a minha filha!

– A nossa filha, Will. – corrijo com pesar – A nossa filha. Vou trazê-la de volta.

Ele encara-me, rígido.

– Leva-me contigo. Temos de ajudar a nossa filha… leva-me contigo!

Então, uma lágrima cai no meu rosto. Quem me dera ter a capacidade de teletransportar-me para tão longe, levando-o comigo. Mas não posso. Mesmo que pudesse, seria o equivalente a assinar a sua sentença de morte.

– Prometo que a terás de volta, sã e salva. Tão breve, meu amor. Confia em mim.

Fatinha, apercebendo-se do movimento, viera atrás de nós. Ela despe a camisola que traz e coloca-a sobre os meus ombros. Não percebe nada, mas de alguma pressente o terrível destino que me espera. A busca por Érica será longa. E o meu vestido de cetim, não é necessariamente o melhor traje para uma viagem destas.

Despeço-me deles. E dos dias de calor e de amor que tanto ansiamos mas que agora serão substituídas por noites geladas, numa estrada solitária. Olho para as estrelas, em busca de força.

– Linan – Will parece derradeiramente assustado quando segura-me pelo braço – não posso perder ambas. imploro.

Devolvo o olhar. Vejo os aneis nos nossos dedos. E com isso, teletransporto-me.

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Imagem: TVD – do canal CW

Desabafo de uma qawwi

#19|Músicas para o casamento: as 30 melhores escolhas dignas do grande dia

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Imagem (GIF): TVD – do canal CW

Não imaginei que houvesse tanto para pensar e organizar em torno de um casamento. Desde a escolha dos padrinhos, a etiqueta, o orçamento, a roupa, o menú de copo de água, até a música de ambientação. Felizmente para mim e para Will, muitos destes aspectos são simples de resolver, já que optamos por uma cerimónia discreta, com apenas uma dúzia de convidados. Neste exacto momento, depois de ter experimentado o meu vestido de noiva, coloco headphones nos ouvidos para escutar a playlist organizada pelo meu noivo. Já escolhemos as músicas que não queremos para esse dia. Agora é chegada a hora de seleccionar aquelas canções que sussuram directo aos nossos corações.

A playlist de um casamento deve ser equilibrada para agradar tanto os convidados como os apaixonados. Para os momentos mais solenes, normalmente são escolhidas músicas pessoais, que têm uma história para o casal, ou que mostram a sua personalidade / o seu estilo. Na ausência de uma música pessoal, existem temas clássicos que de igual forma desempenham, e maravilhosamente bem, o mesmo papel. É como se estas músicas tivessem sido escritas especialmente para você, e para todos que estarão consigo neste grande dia. E no geral, são músicas agradáveis para qualquer ouvido.

Vamos escolher juntos?

PARTE 1 – ENTRADA OU ABERTURA DE SALA – PADRINHOS

  1. Unforgatable – Nat King Cole

Conforme o próprio título, este elegante clássico é inesquecivel e encata até os dias de hoje. Escute

2. At last – versão de Beyónce (original Etta James)

Esta canção carrega classe. Não foi por acaso que o ex-presidente dos EUA Barack Obama e a esposa Michelle, abriram a sala no dia da tomada de posse ao som desta melodia, na interpretação de Beyoncé. Escute

PARTE 2 – ENTRADA OU ABERTURA DE SALA – PAIS

3. Criação divina – Paula Fernandes e Zezé Di Camargo

Canção que fala universalmente do amor. Escute

4. To make you feel my love – versão de Adele

Na melodia e na voz de Adele, esta música derrete o mais frio dos corações. Escute

PARTE 3 – ENTRADA DOS NOIVOS NA IGREJA, NO REGISTO E NA RECEPÇÃO

Os tradicionais

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Crédito foto: Zigy Kaluzny-CharlesThatcher/The Image Bank/Getty Images

5. Marcha Nupcial

Para os mais tradicionais, a entrada pode ser feita ao som da marcha nupcial neste belo arranjo. Escute

Os modernos

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Crédito foto: Wedding Frog

Hoje em dia pode inovar-se nestas “entradas triunfantes”. A T-Mobile inclusive idealizou numa campanha, como seria uma animada entrada da família real do Reino Unido no casamento de Kate & William (veja aqui o vídeo da dança do casamento real que na altura tornou-se viral).

Assim sendo, os mais ousados que se sentem inclinados a entrar em ambiente de farra num beat mais uplifting, numa coreografia sensual ou engraçada, podem optar por um destes temas:

6. You’re the first, the last, my everything – Barry White – Escute

7. Shape of you – Ed SheeranEscute

8. I got a feeling – Black Eyed PeasEscute

9. Happy – PharellEscute

10. Just the two of us – Bill WhitersEscute

Já os mais românticos, podem entrar com temas como estes, que são verdadeiras e emocionantes declarações de amor de quem e para quem, está a subir no altar.

11. Porque queremos ver-nos – Vanesa Martin feat Matias Damásio – Escute

12. Beautiful in white – Westlife – Escute

13. Marry me – Train – Escute

14. From this moment on – Shania Twain – Escute

15. Thousand years – Cristina Perry – Escute

16. Amole Mu – Calema – Escute

PARTE 4 – ABERTURA DE SALA

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O momento mais especial para os apaixonados noivos merece uma música a altura. Qualquer um dos temas abaixo dignifica o momento:

17. De Janeiro e Janeiro – Roberta Campos e Nando Reis – Escute

18. I finally found someone – Bryan Adams feat Barbra Streisand – Escute

19. Soul on Soul – Rod Stewart – Escute

20. For the first time – Rod Stewart – Escute

21. Heaven sent – Keyshia Cole – Escute

22. Loucos – Matias Damásio – Escute

23. Para tu amor – Juanes – Escute

PARTE 5 – ATIRAR O BOUQUET DA NOIVA / LEILÃO DA GRAVATA DO NOIVO (OU OUTRAS BRINCADEIRAS/ TRADIÇÕES TOLAS)

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Foto crédito: Instagram: @wife_and_husband_247

Este são momentos de diversão e alegria. E já que a ideia é dar sorte aos solteiros, ninguém vai ficar parado se o DJ soltar uma destas animadas e vibrantes músicas.

Noivas:

24. Walking on sunshine – Katrina & the Waves – Escute 

25. Single ladies – Beyonce – Escute

Noivos:

26. Marry you – Bruno Mars – Escute

27. Number one – Mr. Bow & Liloca – Escute

PARTE 6 – CORTEJO DE SAÍDA

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Foto crédito: DJ Plus

E que tal sair da cerimónia em grande estilo, ao ritmo destas fabulosas músicas? Palmas, flores, fogos de artifício, bolhas de sabão, balões… tudo será bem vindo. Afinal, é uma nova vida que começa.

28. Time of my life – Bill Medley & Jennifer Warnes – Escute

29. Save the last dance for me – Michael Buble – Escute

30. Wedding Day – Brenda Fassie – Escute

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E porque tem uma história e significado especial para nós, Will e eu escolhemos para entrada na recepção a música Just the two of us, e para a nossa dança especial, a música de Janeiro e Janeiro.

Desabafo de uma qawwi, Dicas

#18| Imploramos: jamais toque estas músicas no dia do seu casamento

A música é das melhores criações do ser humano. Ela revela os vários sentimentos que trazemos dentro de nós. O meu noivo Will disse-me que num casamento, as músicas tocadas, especialmente as para os momentos mais solenes, definem o tom do próprio casamento. Por essa razão, eu e ele estamos a escolher com rigor os temas que vão ambientar a nossa cerimónia. Segundo o meu noivo, existem músicas que são bastante inapropriadas para este tipo de evento, mas que por serem tão populares (e de facto muito boas) ou por terem um caris (aparentemente) romântico, acabam por entrar no repertório e até são dançadas, sem nos apercebermos de que na verdade trazem uma mensagem oposta daquilo que sentimos ou que gostaríamos de partilhar. Nesta lista, Will e eu seleccionámos algumas músicas que não queremos, de jeito nenhum, no dia do nosso casamento. E partilhamos para que você também implore ao seu DJ para jamais tocar na sua cerimónia.

  1. O grande amor da minha vida – Vavá

Não deixe-se levar pelo título desta música. Você não vai querer dar a entender que está a casar-se mas que o grande amor da sua vida é outra pessoa. Portanto, mate o DJ se ele colocar esta música durante a cerimónia.

  1. When I was your Man – Bruno Mars

Por muito bonita e romântica que seja esta balada, a mensagem é simplesmente lamentável para um casamento.

  1. Suspicious Mind – Elvis Presley

Will e eu adoramos esta música, mas para um casamento a mensagem é inapropriada. Se decidimos casar, com certeza que não estamos presos numa armadilha, nem desconfiados um do outro.

  1. Gold Digger – Kenny Waste

Por acaso o(a) seu(sua) amado(a) é um(a) gold digger? Cremos que não, então, por amor do Deus, não toquemos esta música.

  1. To all the girls I loved before – Julio Iglesias e Willie Nelson

Clássico apelativo, mas totalmente fora do contexto. O dia é dedicado ao amor da sua vida, e não aos amores do seu passado.

  1. A outra – Matias Damásio

De facto, muito popular. Mas dá para um casamento? Escute e tire as suas próprias conclusões.

  1. Its over – Rod Stewart

Apesar de metade desta balada dedicar-se a descrever aquilo que foi um casamento bonito, a música fala de um divórcio sangrento. Risque do repertório

7 – Take a picture of this – Don Henley

A música (tradução) diz algo mais ou menos assim: “no dia do nosso casamento, todos os nossos amigos regressaram para dar os parabéns. Criamos a nossa família, fomos tão felizes. Mas agora essas crianças cresceram e seguiram em frente. Isto é uma mala. Já não há razão para ficar. Passaste toda a tua vida a olhar para fotos do passado. Aqui está mais uma para o álbum. Tira uma foto disto. Eu a ir embora. Tira uma foto disto. Eu a partir.”

  1. Send my love – Adele

Adele é das melhores artistas do planeta, mas sinceramente, é melhor evitar fomentar recadinhos de ex companheiros(as) no casamento. O mesmo aplica-se a outras músicas da Adele, como “somenone like you” e “hello”. Inconvenientes e constrangedoras, no mínimo.

  1. Everybreath you take – the Police

Começamos a entrar em território cada vez mais perigoso. Este maravilhoso clássico dos the Police, a primeira vista parece ser uma declaração de amor, mas não é. Trata-se de alguém com comportamento doentio, de “stalker” (perseguidor). Você não é um “stalker” na vida do(a) seu(sua) amado(a), pois não?

  1. Love Hurts – Nazareth

O amor não dói, nem é espinhoso para quem está a casar. Ou é?

  1. Highway to Hell – ACDC

Dá muita vontade de cantar e seguir o coro deste tema. De preferência usando uns óculos escuros, como nos filmes. 5 será que o altar é uma auto estrada para o inferno? Cremos que não.

  1. End of the Road – Boys II Men

Quantas pessoas já não abriram a sala ao som desta bonita balada? Entretanto, esta música fala de um casal que chegou ao fim da linha no seu relacionamento. Exactamente o oposto do que está a acontecer neste dia tão especial. Nao aposte neste tema para o seu casamento.

  1. You’re beautiful – James Blunt

Esta popular canção já foi muitas vezes escolhida para cortejar a entrada dos noivos na cerimónia. Não é para menos, pois é bastante romântica e de facto, teria tudo para ser perfeita para esta ocasião. Entretanto, o tema narra a história de um homem que lamenta o facto de o seu amor estar longe do seu alcance, ao lado de outro homem. E se prestarem atenção, o final (I will never be with you) não é nada feliz.

Desabafo de uma qawwi

#17| Dúvidas de uma qawwi: qual regime escolher no casamento?

O que é que se espera de uma mulher, uma humana normal, na sociedade terráquea? Que cresça, estude, arranje um trabalho de sucesso, case, e por fim tenha filhos. Esta é a ordem das coisas. Mas eu, pobre de mim, sou uma criatura a parte. Nem mulher, nem humana. Não tenho um emprego convencional e vivo à toa pelo planeta terra em busca de uma missão cada vez mais dúbia. E como um carangeujo, os meus passos foram na retaguarda. “Solteira”, se assim quiserem chamar, ao aceitar ficar com Will, ganhei uma menina que agora é minha filha. E então, depois de ganhar uma filha, aceitei o tal casamento.

As pessoas que desconhecem a minha história acreditam que fiz as coisas de forma errada. Têm pena de mim, consideram-me a “desgraçada que aceitou criar a filha do outro, sem sequer casar”.

Será que elas têm noção do que estão a dizer? Sabem a minha trajectória (como vocês sabem)? Claro que não. O mundo de fora julga-nos, alheio às nossas razões, aos nossos caminhos, e à nossa história. O universo supera comandos sociais. E embora estes tenham a sua razão de ser, não podemos esquecer que o universo concebeu cada um de nós com fórmulas únicas. Não adianta quereremos seguir o mesmo caminho. Caranguejos e cavalos, todos têm a sua corrida. É apenas uma questão de tempo.

Pois bem. Eis-me aqui, num novo caminho. Antes de vir a este planeta, desconhecia por completo a noção de “casamento”. Fiquei com medo. Daí a inicial reluctância em aceitar. Mas Will é persistente. A esta altura ele já devia saber que um papel assinado não vai assegurar, mais do que o meu abraço, que o amarei por toda a minha vida. Facto é, entretanto, que para ele e para os humanos no geral, esta oficialização é importante. E eu respeito isso. Respeito, acima de tudo, o humano que o meu coração escolheu. E estou contente em poder planear com ele todos os detalhes da cerimónia. Este mês vai ser muito agitado! O tal “casamento”, nas suas várias formas pelo mundo, costuma ser um evento assinalado com muita pompa e circunstância. O nosso não será necessariamente assim. Will teve que ceder e contentar-se com uma cerimónia bastante restrita.

Iremos fazer o enlace numa praia (oh mar, a mais bela das coisas da terra!) num lugar que é especial para mim: Moçambique. Depois dos últimos eventos, decidimos buscar refúgio nesta terra, por uns tempos. Na cerimónia, seremos nós dois, a nossa filha Érica, os pais de Will e a minha amiga Fatinha. Talvez mais alguns amigos comuns. Não mais de doze pessoas.

Há, entretanto, alguns aspectos do casamento, em toda a sua natureza e propósito, que são de difícil compreensão para uma qawwi como eu: o registo civil. O que será que isto implica? Embora para mim seja, sinceramente, despropositado, entendo e reconheço que pela condição humana e o meio em que esta espécie vive, seja de vital importância. Andei a estudar a questão e descobri algumas informações que podem ser úteis, não só para mim, mas para quem também estiver a organizar o seu casamento. O regime de bens a adoptar. Vamos analisar juntos?

Convenção antenupcial

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O casal pode optar, ou não, por um documento chamado “convenção antenupcial”. Se os noivos optarem por fazer uma convenção antenupcial, poderão escolher o regime que querem que se aplique na gestão dos bens do casamento. Entre outras matérias, podem também definir neste documento, como como será, por exemplo, a guarda dos filhos em caso de divórcio.

Estranho, não é? Mas para vocês humanos, talvez faça todo o sentido.

Comunhão de bens adquiridos

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Na falta da tal convenção antenupcial, o casamento considera-se celebrado sob o regime de bens adquiridos. O que significa que todos os bens adquiridos pelo casal depois do casamento, são de ambos (excepto bens que recebam como doação ou herança, ou material de trabalho de cada um).

Regime da comunhão geral de bens

Se o casal adoptar este regime, significa que o património comum é constituído por todos os bens presentes e futuros do casal. Ou seja, todas as coisas serão nossas.

Regime da separação de bens

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Se o casal adoptar este regime, cada um deles conservará o domínio de todos os bens futuros e presentes, podendo dispor livremente desses bens. Ou seja, o que é meu, é meu, o que é dele, é dele.

Espero que para vocês humanos a informação seja útil e faça sentido. Quanto a mim, completamente sem ideias. Algum conselho?