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#24 |O preço da liberdade

Uma lua plena dominava o céu escuro de Sydney, a cidade escolhida para a nossa última paragem. A janela do apartamento com vista para uma linha férrea, parecia o espelho do mundo. Comboios traziam chegadas e partidas, como quem traz ar para dentro e fora dos pulmões.

Sentada numa cabeceira tão pequena quanto a minha liberdade, lutava para terminar a tarefa. Era quase como tentar vencer o espaço. Restavam-me cinco minutos. A cabeça latejava, os braços tremiam. Agora tinha apenas dois minutos. Levei a mão ao rosto e limpei uma gota de suor. Sacudi a gola da camisola, decidida a controlar o meu destino. Mais um toque, um gemido de dor, e a pedra abriu-se. A luz que explodiu de dentro dela, irradiando todo o meu ser, não era outra coisa senão o meu coração em jubilo. Suspirei, aliviada. A partir daquele momento, caso a minha teoria estivesse certa, tudo o que eu tinha feito desde que chegara ao planeta terra, tudo o que havia tocado com a força dos meus poderes, permaneceria intacto. Acontecesse o que acontecesse. Isso significava que já podia voltar para casa. Após dois anos de ausência, a correr pelo mundo com Vallen, a fingir abraçar uma causa que não era minha, iria tornar a abraçar a minha família humana.

Nervosa e sem tempo, deambulei pelo apartamento. As janelas nuas entregavam-se solenemente aos reflexos do luar. Em desespero, procurei o oitavo qlub. Não podia deixar que Vallen ficasse na posse do objecto. É claro que ele consideraria o meu acto uma afronta, uma traição. Mas não existiam outras opções. Eu ia voltar para casa, e carregaria comigo as chances do inimigo destruir o planeta terra. Deparei-me, por fim, com o objecto. Vallen não se esforçara para o esconder.

Contei cada um dos meus medos, por forma a que pudesse medi-los. Primeiro os mais pequenos: medo de a minha teoria falhar. De não ser capaz de conviver com isso. Depois os maiores: medo de não recuperar a minha família. De ser apanhada por Vallen e perder os meus poderes. Porém, o medo de um mal, só leva à um mal ainda maior.

Meti o objecto no bolso.

– Aonde é que vais com o qlub, Linan?

Sabia que a voz às minhas costas pertencia ao meu maior medo. Vallen se tinha materializado dentro do quarto. Talvez estivesse a vigiar-me há muito tempo. Virei-me para ele buscando força em cada fibra do meu corpo. Disso dependia o meu futuro como qawwi. Arremessei-o para longe, mas Vallen regressou como tempestade. Todas as peças no quarto levitaram e vieram disparadas na minha posição. Desviei-me e atirei flechas quentes. A minha pontaria andava tão certeira quanto o meu desejo de voltar para casa. Vallen caiu no chão. Uma fecha despontava vitoriosa no seu ombro. Julgava eu ter vencido a batalha, mas tal pensamento desvaneceu-se quando dei por mim, parada no mesmo local, incapaz de teletransportar-me. A luz do luar relampejava pelo quarto inteiro.

– Eu sou um qawwi de palavra, Linan – Vallen lançava-me um olhar decepcionado, ao mesmo tempo que erguia-se, com uma mão pousada no ombro em cicatrização. Tinha os olhos vermelhos quando ergueu o braço na minha direcção – por ordens do Rei Réon que dá-me poderes e autoridade para isto.

– Não – murmurei lívida de pânico, sem conseguir mover-me.

– Vais sair daqui sim, Linan, mas não como qawwi.

E então percebi, quão alto era o preço da liberdade. Não era capaz de o pagar.

– Vallen, por favor, não.

Ele meteu a mão na minha cara. Senti os meus olhos acuarem-se, num misto de súplica e ira. Vallen transpirava. Sentia dor. Custava-lhe. Mas ainda assim não se deteve. Gritei, pois parecia que me cortavam à faca. A minha pele adquiria um tom acinzentado, sangue corria-me pelo nariz, e o meu rosto começou a esticar-se, como se quisesse abandonar o corpo. A minha essência de qawwi libertava-se, para sempre, do meu ser.

Vallen baixou a mão e eu tombei para o lado.

Ele agachou-se, vasculhou-me os bolsos e tirou o oitavo qlub.

– Aí tens. Tira bastante proveito dos dias que te restam na reles vida que escolheste como humana.

E desapareceu do quarto.

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Imagem: TVD – canal CW – Fonte Theodysseyonline

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#23|Destino versus livre arbítrio: será que as nossas escolhas e decisões são controladas pelo universo?

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Imagem: a mente maravilhosa

“Isso é coisa do destino”, dizem os humanos amiúde. Então pergunto agora aos meus amigos: será que eu podia ter evitado que a cerimónia do meu casamento terminasse com o rapto da minha filha? Ou isso estava fora do meu controle? Coloco outra questão: terá a França ganho o último campeonato mundial de futebol porque jogou bem, ou porque estava destinada a ganhar? E você desse lado? Tivesse feito as coisas de forma diferente, estaria noutra situação? Podia ter feito outras escolhas e por exemplo, estar noutro emprego, noutra casa? Em outras palavras: está nas suas mãos transformar-se na próxima estrela do futebol como Cristiano Ronaldo, ou isso depende do destino?

Vejamos, alguns humanos adoptam a filosofia de que eles, e somente eles, estão em controlo das suas vidas. Este tipo de pessoas está mais propensa a sofrer abalos, quando contrariadas pelas forças do universo. Outro grupo, contrariamente, toma uma posição passiva (mais conformista, assim digamos), e acredita que não adianta fazer esforços nem lutar, pois tudo na vida já está predestinado. Estes acabam por ficar parados na estrada da caminhada.

Ora bem, os conceitos de “livre arbítrio” e “determinismo” (este último é o tal destino, se assim preferirem) têm sido objecto de estudo há milhares de anos. Cientistas, filósofos e religiosos debateram acirradamente a questão. Jean Paul Satre, por exemplo, foi bastante claro: o homem está condenado a ser livre e tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável pelo que faz.

Mas, se de facto somos seres livres, onde cabe então a filosofia do “maktub” (palavra árabe que significa “já estava escrito”)?

Analisemos uma recente e interessante descoberta científica:

Um estudo mostrou que, talvez o livre arbítrio humano não nos pertença de todo. Neste teste, os pesquisadores deram ao participante dois botões, um na mão direita, outro na esquerda, enquanto o seu cérebro era scanado. O participante tinha de fazer uma decisão aleatória e pressionar um dos botões. Os resultados foram surpreendentes, pois o sistema foi capaz de determinar, correctamente, qual seria a escolha do individuo, 6 segundos antes que ele próprio estivesse consciente da decisão que ia fazer. In QuoraBrainmagazine.

O que significa isso? Significa que são os nossos neurónios (e não nós), os responsáveis pelas escolhas e decisões que fazemos? E nesse caso, o que faz os nossos neurónios dispararem numa e não noutra direcção? A força motriz que os concebeu? Seja como for, para mim, isso não diminui o livre arbítrio humano. Você, por exemplo, tem o poder de decidir, se continua a ler este texto, ou simplesmente se sai da página agora mesmo, não é verdade? Portanto, as nossas escolhas podem ser mudadas a todo o momento, e com isso, podemos mudar a nossa história. Seja lá qual for a força que impulsiona isso.

Entretanto, o ser humano, como qualquer outra criatura neste universo, é apenas uma manifestação fenomenológica de existência, numa série continua de criação cósmica que acontece neste planeta, tudo resultado de um universo em desenvolvimento. O que significa que você, amigo humano, é uma pequena entidade que ocupa a terra, nesse processo de evolução. In Physcology today.

Desta forma, é compreensível que a vida seja “predeterminada” por certos factores externos, como o ambiente, a nossa genética, o lugar onde nascemos, a forma como respondemos a esses factores, entre outros aspectos. Assim, o nosso livre arbítrio acaba sendo limitado pelas circunstâncias à nossa volta.

Voltando agora à pergunta que coloquei no princípio: está nas suas mãos transformar-se no próximo Cristiano Ronaldo, ou isso depende do destino? Oxalá tivesse uma resposta clara para esta questão, mas o certo é que, nesta equação, não cabe a exclusão de um ou de outro factor. A matemática só funciona quando juntamos os dois: o livre arbítrio e o destino. Ambos no mesmo saco. Ou seja: todas as escolhas e decisões que dependam exclusivamente do ser humano enquanto entidade única, formam uma estrada que conduzem a um certo resultado. Assim funciona o nosso livre arbítrio. Este resultado, entretanto, apesar de ser atribuído à responsabilidade do autor do livre arbítrio, pode não ser aquele que foi previsto, pois está condicionado por circunstâncias externas que não dependem apenas da pessoa como entidade única. É nesse resultado e nas circunstâncias, onde escondem-se as artimanhas do imprevisível “destino”, controlado por forças maiores que nós.

Assim, os humanos podem, e devem, tomar as rédeas do seu destino. Para o efeito, é preciso manter-se em constante movimento, fazendo sempre escolhas e decisões, até chegar ao resultado. Pode dar certo, pode não dar. E se não der certo, não era para ser.

 

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#22|Aloé vera, mel, canela – As curas milagrosas para os humanos

No planeta terra, a aplicação de plantas no tratamento de enfermidades remonta dos tempos antigos. Essa é uma lição que aprendi tarde, a muito custo. Tal como a lição de que, no planeta terra, alguns males veem para fortalecer.

Eu nunca tinha parado para pensar, como é que é, para os humanos, enfrentar uma doença. Nunca deixei que a minha Érica adoecesse por muito tempo. Sempre tratei de eliminar rapidamente, através dos meus poderes, aquela, “dor”, “tosse” ou “gripe”, que vinham debilitá-la. Assim que conheci Will, curei-o de uma doença fatal. Hoje, afastada deles, percebo que as minhas acções, por mais bem-intencionadas, podem não ter sido as melhores. Devia saber que nem sempre estaria com eles, e consequentemente, nem sempre poderia curá-los. Os humanos são criaturas solitárias e frágeis, sujeitas a conviver com essa inconstância. Eles dependem apenas de si mesmos, para criarem defesas, tanto para o corpo como para a alma.

E agora? Se eu perder os meus poderes, tudo o que fiz por estes humanos que tanto amo, será anulado.

Como é que os humanos curam-se das doenças? Como é que eu posso ajudar a minha família, mesmo que um dia perca os meus poderes? Deve haver uma lacuna nessas leis. Sempre há.

Faz muitos meses desde que parti com Vallen em viajem pelo mundo. Vallen acredita que sou sua cúmplice. Que abracei a sua causa, que o estou a ajudar e que desisti da minha família humana. Mas a verdade é que durante este tempo todo, o meu único interesse é encontrar respostas para estas três questões.

E eis o que descobri durante as minhas pesquisas, sobre alguns tratamentos neste planeta: existem ser humanos qualificados para ajudar no caso de doenças. Chamam-se “médicos”. É imprescindível buscar a ajuda deles. Entretanto, a natureza também oferece auxílio. É importante, contudo, notar, que nem tudo o que é natural é benéfico. “As plantas necessitam de recursos químicos para se defenderem, como alguns alcaloides. Assim, algumas dessas substâncias podem actuar positivamente no organismo humano, mas outras provocam sérios danos”, alerta a farmacêutica Ivana Suffredini. Fonte: saude-plantas que curam

De qualquer forma, certas plantas e produtos naturais, com alguma cautela (e repito, sem descurar de assistência médica) são bastante recomendáveis, e já provaram trazer benefícios extremos à saúde, incluindo na eliminação de doenças incuráveis, agindo assim, à semelhança dos meus poderes, ou então, como diriam os humanos, de forma quase “milagrosa”. Vamos conferir:

Aloé Vera – A cura milagrosa

A Aloé Vera é uma planta única, bastante utilizada e conhecida por trazer benefícios medicinais. Esta planta é rica em diversos nutrientes que lhe confere um grande poder de desintoxicação do corpo e de cura de doenças imunológicas. O Frei Romano Zago partilhou uma receita a base de aloé vera, mel e whiskey, que, alegadamente, pode prevenir e curar doenças como o cancro. Confira:

O poder da Aloé Vera

Receita do Frei Romano vídeo

Receita do Frei Romano texto

Gengibre e mel – Adeus gripe e resfriado

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Imagem: Dicavida

As propriedades do mel e do gengibre são óptimas para aliviar os sintomas do resfriado, sem ser preciso produtos químicos. O mel é um poderoso ingrediente antiviral e antibacteriano que tem sido utilizado desde a antiguidade, como um complemento natural para os problemas que afectam o trato respiratório. Já o gengibre, é um tempero com propriedades anti-inflamatórias e expetcorantes, usado há séculos como parte do tratamento de resfriados. Combinados num chá ou xarope, os dois elementos fornecem nutrientes e propriedades ao corpo para a sua fortificação e defesa. Fonte: melhor com saúde

Kakana – Não faltará leite para o recém-nascido

Diz o saber de cultura popular, que a kakana, uma planta rastejante de sabor amargo e abundante em alguns países da África como Moçambique, tem propriedades medicinais. Além de servir para a alimentação, quando fervida ajuda na limpeza do sangue e dos rins. Diz-se ainda que a kakana cozinhada estimula a produção do leite materno.

Amigos(as) humanos, confirmam?

Canela e banana – Acabaram-se as insónias

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Imagem: Reddit

A união das qualidades nutricionais da banana com as da canela, tem como resultado um remédio natural com propriedades sedativas espetaculares que induzem o sono e permitem dormir melhor. Ambas são preparadas num chá natural com o qual são reduzidos os níveis de cortisol, para acalmar o stress e outras emoções que nos impedem de descansar bem. A bebida tem poucas calorias e contém compostos activos que melhoram o metabolismo e os níveis de açúcar no sangue. Fonte: melhor com saúde

E vocês? O que acham destas dicas? Serei capaz de cuidar da minha família, mesmo sem poderes? Quais outros remédios naturais são poderosos?

 

 

 

 

 

 

 

 

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#21| Leva contigo o meu coração

Apesar da grandeza do Rio de Janeiro, consegui localizá-lo. Mais rápido do que previ. Rondava pelo telhado do prédio, quando finalmente vi o meu inimigo. Aterrei no pulo de um gato e comecei a disparar várias flechas contra ele. Os qawwis só perecem se atingidos no peito ou na cabeça. Todavia, o ferimento que causei, embora fosse cicatrizar automaticamente, servira para o neutralizar. Lancei bolhas de energia e de seguida atirei-me sobre o seu pescoço.

– Devolve a humana, agora!

Vallen grunhiu.

– Ai sim? Se não o quê? – Apesar de sufocada, a voz abafada daquele qawwi vil continuava eivada de afronta. Isso irritou-me e fez-me cercá-lo com muito mais força.

– Se não eu mato-te e vou sozinha atrás dela. Vou encontrá-la, Vallen, demore o que demorar.

Podia ser pelo facto de ter passado as últimas noites em claro. Ou então, por apenas há alguns dias, eu ter casado e perdido a família. Numa única noite. Mas a verdade é que eu tinha sede daquele confronto. Sentia a morte no ventre. E não duvidava que um de nós fosse sucumbir. Estava na hora.

Vallen fez um novo grunhido. Uma gargalhada confinada.

– Tu não me vais matar, Linan.

– Qual seria a razão para não o fazer?

– É simples – as suas veias pulsavam como um vulcão em erupção – matas-me e estarás também a matar a tua querida humaninha. A minha vida está atada à dela, minha cara, portanto, tudo o que fizeres comigo, será sentido por ela.

Imediatamente tirei o braço. Sabia que o que ele dissera era possível, e portanto, havia todas as chances de ser verdade.

– Ai minha doce Linan…- Vallen ajeitou a camisa e cruzou os braços – Pelo Rei Réon tu já terias sido permanentemente banida de Stefanotis. Eu trago autorização dele para extirpar-te dos teus poderes. Só não o fiz porque ainda tenho esperança em ti. Estou ao teu lado, Linan.

– Faz-me rir. Se tivesses o poder de extirpar-me, já o terias feito…

– Acontece que preciso de ti com os teus plenos poderes. Da-me o oitavo qlub.

– Não sei nada sobre o oitavo qlub. Ainda estou a meio da minha missão.

Vallen adquiriu um brilho nos olhos.

– Eu sei. Mas acredito nas tuas habilidades, Linan. Ajuda-me a encontrar o oitavo qlub, e eu dou a minha palavra que não rei extirpar-te. Se não me obedeceres, executo a decisão do rei Réon agora mesmo.

O meu sangue gelou. Ser extirpado significa perder a essência. É um dos piores castigos no meu planeta. E só Reon, qawwi supremo, podia aplicar tal medida. Um qawwi extirpado deixa de ter os seus dons, fica imune às doenças e não demora a envelhecer. Em outras palavras, torna-se humano. Algo que eu, nem sequer, conseguia cogitar. Então quais eram as minhas opções? Pôr-me em primeiro lugar e salvar-me? Ajudar Vallen na destruição do planeta terra? Era isso que eu devia fazer?

– Prefiro morrer a juntar-me à ti, Vallen.

O brilho nos seus olhos desapareceu e ele avançou.

Na rapidez de um cometa, senti-me mergulhar num buraco negro. Ia deixar de ser uma qawwi.

Então, subitamente, Vallen retrocedeu. Parecia admirado:

– Preferes mesmo ser extirpada, do que obedecer o rei Réon? De facto deves amar bastante essa tal humanidade. O que é que eles fizeram por ti? – o vinco na testa dele desapareceu e o sorriso jocoso regressou – mas seja feita a tua vontade, Linan. Lembra-te apenas de uma coisa: os teus poderes e dons vão desaparecer para sempre e tudo o que fizeste antes será anulado. Eu faço-te a vontade…

– Espera!

Ergui o braço em defesa. Percebi nesse instante que não estava preparada para tamanha crueldade. Não queria deixar de ser uma qawwi. Essa revelação pesou ainda mais, ao lembrar-me de que eu tinha usado os meus poderes para curar Will de uma doença fatal. Se os meus poderes desaparecessem, era provável que tudo voltasse ao estado original. Will podia morrer. Coisa normal neste mundo que eu tanto queria abraçar. No entanto, não era capaz.

– Eu faço o que queres, Vallen. Vou contigo procurar o oitavo qlub – ele rompeu num urro de vitória, que tratei de interromper. – mas tem uma condição: temos de devolver a menina ao pai.

– Trato feito, minha amiga! Devolvemos a menina, e seguimos a nossa viagem.

Pouco depois, estávamos em frente de casa. Vallen permitiu que me despedisse de Will. Entretanto ao vê-lo de longe, pelo vidro da varanda, não tive coragem de entrar. Will esperava ardentemente pelo nosso regresso. Eu sentia-o. Mas se chegasse perto, não teria força para abondona-lo.

Ajoelhei-me em frente de Érica e arranjei-lhe a gola do vestidinho. Até os canários do jardim percebiam a minha tristeza.

– Quero que corras para casa, minha filha. Vai dar um abraço ao pai.

– Mãe… tu não vens?

Olhei mais uma vez para a varanda envidraçada. Will ainda não tinha dado pela nossa presença. Afaguei o cabelo de Érica.

– Venho mais tarde – era a primeira vez que mentia para a minha filha – Diz ao pai que a mãe ama muito vocês, e vai amar para sempre. Sê uma boa menina.

– Está na hora de partirmos Linan. – advertiu Vallen.

Abracei Érica com muita força.

– Corre, vai dar um abraço ao pai!

Ela correu. E com ela levou o meu coração.

Vallen estendeu-me a mão. Era como se a gravidade e os astros se tivessem feito ausentes. Precisava de recuperar o equilíbrio, e agarrei-me ao apoio mais próximo. A mão de Vallen. Foi nesse instante que Will abriu a porta para Érica e viu-me. Poucos segundos antes de Vallen e eu desparecermos pela noite preta.

Dia a dia de uma qawwi, Outras maravilhas humanas

Somamos 20 capítulos no diário de uma qawwi!

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Para os novos visitantes do blog, e também para os actuais amigos, gostaria de partilhar e esclarecer o conteúdo aqui veiculado. Estamos no ar há sensivelmente 6 meses. Desde então, foram publicados cerca de 60 textos, dentre os quais, resenhas de livros, filmes, e o diário da história da minha vida como extraterrestre no planeta terra, na rubrica “desabafos de uma qawwi”. Neste momento, a minha história possui 20 capítulos, todos eles numerados. O mês de Março esteve voltado ao tema “casamento”, porque efectivamente casei-me com um humano. Agora regressamos a realidade.

Muito obrigada pelas visitas, e sobretudo, por serem bons amigos! Um beijo enorme,

Linan, a qawwi

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#15| Sete premissas que aumentam as chances de o seu filho tornar-se um adulto equilibrado e feliz

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Planear o futuro não é somente hábito dos humanos. Como qawwi, eu também traço (e tracei) metas e objectivos para a minha vida. Mas, como todos vocês certamente compreendem, por mais fantásticos que os nossos planos sejam, as águas do destino desviam o percurso e os levam pela correnteza. A mesma correnteza que acabou por fazer-me apaixonar-me por um humano e tornar-me mãe adoptiva de uma linda menina. Quer dizer, mãe e ponto final. Sem falar do facto de que estou prestes a casar-me, mas os detalhes sobre isto ficam para os próximos dias.

Por ora, resta-me afirmar, sem muita margem de dúvida, que não há forma mais bonita e sublime de aperfeiçoarmos a nossa essência humana, senão pela experiência de sermos pais. Entretanto, a sociedade e todo o planeta terra, exige muito dos humanos como pais. Como se já não bastasse a pressão imposta por nós próprios quando se trata de educar. Afinal, o que mais importa para os pais, senão criar os filhos para que estes sejam felizes e bem sucedidos?

Não, não é fácil. Educar Érica, por exemplo, tem se revelado um desafio maior do que previsto. Onde é que Will e eu estamos a errar? De onde surge tanta rebeldia? É normal que o coração de um pai, especialmente de primeira viagem, que tanto desejou a chegada do filho, derrame de amor e acabe por exagerar nos mimos. O bem-estar das crianças é vital e muitas vezes é difícil encontrar um equilíbrio no acto de dar amor, dar o melhor e dar o que é preciso.

É nisto que tenho estado a reflectir e por isso decidi partilhar convosco, sete valores e premissas essenciais a incutir na infância do seu filho, para que no futuro ele seja um adulto equilibrado e feliz. Vamos reflectir juntos?

  1. Autonomia

Segundo alguns estudos, o estimulo da autonomia da criança desde cedo, impacta positivamente no desenvolvimento cognitivo. Esta função engloba a memória de trabalho, raciocínio, capacidade de resolução de problemas e flexibilidade de tarefas. Por essa razão, é importante que você como pai/mãe, diminua a tendência de resolver todos os problemas para o seu filho. Ao aprender a andar, por exemplo, o seu filho vai cair, inúmeras vezes. Correr automaticamente para o levantar do chão, apenas prolongará a dependência da criança. Por mais difícil que seja, é importante deixar a criança levantar-se sozinha e perceber que a queda é natural e faz parte do processo de aprendizagem.

  1. Honestidade

Você já reparou que certas crenças e valores que nos acompanham na fase de adulto, fazem parte de um conjunto de informação que recebemos muito cedo, quando crianças? Pois bem, os valores importantes para o ser humano devem ser inculcados logo cedo. De acordo com a neurocientista e psicóloga Bruna Velasques, “de zero aos seis anos é o momento mais importante, chamada idade de ouro para o desenvolvimento cerebral. É quando os neurônios estão mais aptos a receber informações do ambiente”. Fonte | Fonte BBC

Esta é a fase mais propícia para se aprender (línguas por exemplo) e é importante que já nesta altura se comece a transmitir os ensinamentos que nos são mais vitais. E a propósito disto, um dos pilares para que o seu filho seja um adulto equilibrado e gentil, é a honestidade. Ensine o seu filho a honestidade, sendo você o modelo. Não faça promessas que não irá cumprir, por mais inofensivas que pareçam, pois apesar de pequenas, as crianças gravam essa informação e ficam com a percepção de que não tem problema faltar com a palavra.

  1. Merecimento

Ensine o seu filho a merecer e a lutar pelas coisas que quer. Por exemplo, não se limite simplesmente a comprar aquele carrinho ou boneca que ele quer, só porque pediu e chorou por ele. Estimule-o a explicar exactamente o porquê de ele querer aquele e não outro brinquedo (quando, por exemplo, já tem outro em casa). Ensine-o, sobretudo, a ter paciência.

  1. Boas maneiras

Usar desde cedo as palavras “obrigada”, “desculpa” e “por favor” na interacção com os seus filhos, irá ajudá-los a tornarem-se adultos gentis e amáveis.

  1. Saber partilhar

Esta questão tem gerado controvérsia entre os humanos. Saber dividir é importante, e incube-nos a nós, como pais, ensinar esta qualidade aos nossos filhos. Todavia, existe uma corrente de estudiosos que advoga que não devemos ensinar a criança a partilhar. Segundo esta teoria, na primeira fase da educação, a criança está a apreender a ser capaz de reconhecer as próprias obrigações e não se pretende que ela sinta-se no dever de interromper o seu trabalho para ‘dar’ alguma coisa para outra criança só porque aquela pediu”. (Confira: Porque não ensinar a partilhar)

Seja qual for o método que você adopte, assegure-se de encontrar um equilíbrio, e ensinar, pelo menos em casa, a importância de saber partilhar, sobretudo com os que ama. Isto vai ser um grande alicerce para que como adulto, ele(a) saiba corresponder as necessidades de outro ser humano e não se torne uma pessoa egoísta.

  1. Saber lidar com o não

Esta é talvez a maior dificuldade dos pais, especialmente os de primeira viagem como Will e eu. Nós dois tínhamos imensas dificuldades em dizer “não” a um pedido de Érica, o que por fim, chegou a resultar com que ela usasse o choro como uma espécie de manipulação. A verdade é que é necessário estabelecer limites e ensinar a virtude da paciência. A frustração e a desilusão fazem parte da natureza e do crescimento humano. Quanto mais cedo o seu filho aprender a lidar com momentos de frustração, mais facilmente ele aprenderá a ter autocontrole e a saber esperar, tornando-se assim, no futuro, uma pessoa equilibrada.

  1. Ensine-os a quererem o melhor

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É sempre boa ideia a mãe envolver tanto meninos como meninas nas tarefas da casa, inclusive na gestão. Assim, ambos saberão que a lida e a gestão da casa podem ser feitas por todos, independente do género. E o pai, por exemplo, pode sempre ser atencioso e cavalheiro com a mãe e com as crianças, para que os meninos sigam o exemplo e as meninas, saibam o que esperar de um parceiro no futuro.

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Aprenda a salvar os seus acessórios favoritos

A cada dia que passa, nós do diário de uma qawwi descobrimos que afinal de contas existem muitas semelhanças entre o planeta terra e o planeta da nossa qawwi.

Quem nunca caiu em desespero ao notar que o ferro de engomar queimou a nossa roupa favorita, ou então que o nosso acessório preferido está todo velho, coçado, ou rasgado? Grande desgraça, não é verdade? Acontece em muitos planetas.

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Antes de deitar fora artigos velhos ou rasgados, reconsidere. Há várias formas de recriar os seus acessórios favoritos e hoje falaremos de uma delas.

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Aliás, ouvimos falar do conceito dos 3 R da sustentabilidade (reduzir, reutilizar e reciclar) em algumas partes do planeta, acções que visam minimizar o desperdício de materiais e produtos. Achamos que esta ideia encaixa bem com este conceito.

Fonte:

É desta forma que hoje trazemos dicas de como reaproveitar e transformar os seus acessórios favoritos, a custo baixo, utilizando a capulana (print wax/canga).

Capulana

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Imagem via http://espacodemocraticoentrenos.blogspot.com/2011/05/kanga-capulanas-historia.html

A capulana[1] é usada nos países africanos de diferentes formas. Em Moçambique, por exemplo, as mulheres usam-na no seu dia-a-dia e principalmente em cerimónias tradicionais como funerais, casamentos, ritos de iniciação, cerimónias mágico-religiosas, e outras. Também chamada de “pano” em Angola, “Kitenge” ou “Chitenge”, na Zambia, Namíbia, e “Canga” no Brasil, o seu uso vai muito além da moda.

Fonte http://www.conexaolusofona.org/capulana-um-tecido-carregado-de-historia/

Na verdade, actualmente, a capulana está em voga em todo o mundo. Há várias peças e diversos acessórios úteis que podem ser feitos com este tecido.

O filme Black Panther, blockbuster do cinema mostrou a versatilidade na moda da capulana.

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Pois bem, vejamos então exemplos de como a capulana pode salvar os seus acessórios favoritos:

  1. Uma bolsa rasgada

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Olhe bem para esta bolsa de napa.

A faixa feita pela estampa verde foi inserida para cobrir o rasgão que ela tinha. A bolsa não só ressuscitou, como ganhou um certo toque original. E isto não custou mais de 150 Meticais (cerca de 2 Euros / 11 Reais). E pronto, a bolsa voltou a estar em circulação!

 

 

2. Blusa, casaco, ou camisa – (ferro de engomar atrevido)

 

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As vezes o ferro de engomar passa-se da carica e nos estraga a roupa (há que atribuir a culpa ao ferro). Antes de deitar fora a roupa queimada, considere recortar a parte estragada e substituir por um pedaço de capulana. A foto aqui ilustra um exemplo.

3. Pasta de Notebook

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O que lhe vem a cabeça ao olhar para este magnifico acessório? Pois é, a pasta não era assim. Como já estava um pouco desgastada, foi forrada com capulana e o resultado é este: uma nova pasta, única e original.

Compre artigos de capulana

Se a sua peça não tiver recuperação, sempre pode optar por adquirir um novo acessório. Os artigos de capulana são óptimos, não só pela beleza e originalidade, mas por também serem ambientalmente amigáveis. Veja, por exemplo, os sacos e pastas da Kassunga. Vai apaixonar-se pelos lindos e ecológicos artigos.

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Em conclusão, antes de deitar fora uma roupa ou um acessório, veja se não pode reciclá-lo, usando umas das dicas acima.

Ah, e já que estamos a falar de dicas para o dia a dia, recomendamos que espreite o blog Pitacos e Achados, plataforma que o diário de uma qawwi tem seguido, e que dá ideias verdadeiramente inspiradoras na área do bem-estar.

E claro, não se esqueça de subscrever ao nosso blog e ao nosso facebook para ficar a par das nossas resenhas, opiniões literárias e histórias da nossa qawwi.

Até lá.

[1] “Print wax” nos países de expressão inglesa