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Literatura | Flashforward – e se pudéssemos ter uma visão do futuro? – opinião

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Autor: Robert J. Sawyer

Edição: 2010

Editora: Saída de Emergência

 

 

 

Sinopse

“Em Flashforward, é iniciada uma experiência científica que conduz ao inesperado: o mundo inteiro cai inconsciente por instantes e todas as mentes são projectadatas vinte anos no futuro. Quando a humanidade desperta, o caos impera por todo o lado: carros arruinados, cirurgias falhadas, quedas, destruição em massa e um elevado número de mortes. Mas esse é apenas o início. Passado o choque das visões, cada indivíduo tentará desesperadamente evitar ou assegurar o seu próprio futuro vislumbrado”

Opinião

O que o ser humano faria se tivesse uma visão do seu próprio futuro? Esta é a premissa básica que guia o enredo de Flashforward, romance que aborda uma experiência científica que acaba por provocar um desastre mundial, num cenário onde todos os seres humanos perdem a consciência durante cerca de 2 minutos. Nesse curto espaço, a humanidade faz um salto temporal e cada um dá por si a vislumbrar como será o futuro dali a 20 anos. Alguns ficam felizes. Outros, nem por isso.

Flashforward pode não ter a melhor escrita, mas o conceito proposto é dos mais brilhantes. O autor consegue facilmente prender a atenção do leitor. Sendo uma obra essencialmente de ficção científica, o tema é explorado de vários ângulos, inclusive na vertente do suspense, quando o personagem Theo Procopides, por exemplo, inicia uma incansável investigação para saber quem é o desgraçado que dali a 20 anos o vai matar.

A narrativa causa várias provocações filosóficas. Afinal de contas, podemos mudar o nosso destino? Ou o futuro já está traçado pelo universo e pelas leis da física? O que é que um governo normal faria se pudesse prever o futuro?

Flashforward foi adaptado para a televisão, numa das melhores séries de sempre, a qual carrega o mesmo nome. A série, contrariamente ao habitual, consegue em alguns aspectos ser melhor que o livro, ao explorar com mais profundidade o impacto deste conceito (previsão do futuro) nos relacionamentos e na vida pessoal. O livro o faz, mas superficialmente e com menos emoção.

A série, de igual modo, toma um rumo diferente do livro ao colocar Mark Benford (Joseph Fiennes), agente do FBI, como protagonista. No livro, os protagonistas são Llyod Simcoe e Theo Procopides, os dois cientistas responsáveis pelo evento. Na adaptação cinematográfica, as pessoas vem o seu futuro dali a 6 meses e não 20 anos, como no livro.

A diagramação e a paginação do livro são confortáveis e a leitura flui depressa. Recomendamos tanto o livro, como a série (já agora, pode conferir no link abaixo o trailer):

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas

Desabafo de uma qawwi, Dia a dia de uma qawwi, Dicas

#15| Sete premissas que aumentam as chances de o seu filho tornar-se um adulto equilibrado e feliz

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Planear o futuro não é somente hábito dos humanos. Como qawwi, eu também traço (e tracei) metas e objectivos para a minha vida. Mas, como todos vocês certamente compreendem, por mais fantásticos que os nossos planos sejam, as águas do destino desviam o percurso e os levam pela correnteza. A mesma correnteza que acabou por fazer-me apaixonar-me por um humano e tornar-me mãe adoptiva de uma linda menina. Quer dizer, mãe e ponto final. Sem falar do facto de que estou prestes a casar-me, mas os detalhes sobre isto ficam para os próximos dias.

Por ora, resta-me afirmar, sem muita margem de dúvida, que não há forma mais bonita e sublime de aperfeiçoarmos a nossa essência humana, senão pela experiência de sermos pais. Entretanto, a sociedade e todo o planeta terra, exige muito dos humanos como pais. Como se já não bastasse a pressão imposta por nós próprios quando se trata de educar. Afinal, o que mais importa para os pais, senão criar os filhos para que estes sejam felizes e bem sucedidos?

Não, não é fácil. Educar Érica, por exemplo, tem se revelado um desafio maior do que previsto. Onde é que Will e eu estamos a errar? De onde surge tanta rebeldia? É normal que o coração de um pai, especialmente de primeira viagem, que tanto desejou a chegada do filho, derrame de amor e acabe por exagerar nos mimos. O bem-estar das crianças é vital e muitas vezes é difícil encontrar um equilíbrio no acto de dar amor, dar o melhor e dar o que é preciso.

É nisto que tenho estado a reflectir e por isso decidi partilhar convosco, sete valores e premissas essenciais a incutir na infância do seu filho, para que no futuro ele seja um adulto equilibrado e feliz. Vamos reflectir juntos?

  1. Autonomia

Segundo alguns estudos, o estimulo da autonomia da criança desde cedo, impacta positivamente no desenvolvimento cognitivo. Esta função engloba a memória de trabalho, raciocínio, capacidade de resolução de problemas e flexibilidade de tarefas. Por essa razão, é importante que você como pai/mãe, diminua a tendência de resolver todos os problemas para o seu filho. Ao aprender a andar, por exemplo, o seu filho vai cair, inúmeras vezes. Correr automaticamente para o levantar do chão, apenas prolongará a dependência da criança. Por mais difícil que seja, é importante deixar a criança levantar-se sozinha e perceber que a queda é natural e faz parte do processo de aprendizagem.

  1. Honestidade

Você já reparou que certas crenças e valores que nos acompanham na fase de adulto, fazem parte de um conjunto de informação que recebemos muito cedo, quando crianças? Pois bem, os valores importantes para o ser humano devem ser inculcados logo cedo. De acordo com a neurocientista e psicóloga Bruna Velasques, “de zero aos seis anos é o momento mais importante, chamada idade de ouro para o desenvolvimento cerebral. É quando os neurônios estão mais aptos a receber informações do ambiente”. Fonte | Fonte BBC

Esta é a fase mais propícia para se aprender (línguas por exemplo) e é importante que já nesta altura se comece a transmitir os ensinamentos que nos são mais vitais. E a propósito disto, um dos pilares para que o seu filho seja um adulto equilibrado e gentil, é a honestidade. Ensine o seu filho a honestidade, sendo você o modelo. Não faça promessas que não irá cumprir, por mais inofensivas que pareçam, pois apesar de pequenas, as crianças gravam essa informação e ficam com a percepção de que não tem problema faltar com a palavra.

  1. Merecimento

Ensine o seu filho a merecer e a lutar pelas coisas que quer. Por exemplo, não se limite simplesmente a comprar aquele carrinho ou boneca que ele quer, só porque pediu e chorou por ele. Estimule-o a explicar exactamente o porquê de ele querer aquele e não outro brinquedo (quando, por exemplo, já tem outro em casa). Ensine-o, sobretudo, a ter paciência.

  1. Boas maneiras

Usar desde cedo as palavras “obrigada”, “desculpa” e “por favor” na interacção com os seus filhos, irá ajudá-los a tornarem-se adultos gentis e amáveis.

  1. Saber partilhar

Esta questão tem gerado controvérsia entre os humanos. Saber dividir é importante, e incube-nos a nós, como pais, ensinar esta qualidade aos nossos filhos. Todavia, existe uma corrente de estudiosos que advoga que não devemos ensinar a criança a partilhar. Segundo esta teoria, na primeira fase da educação, a criança está a apreender a ser capaz de reconhecer as próprias obrigações e não se pretende que ela sinta-se no dever de interromper o seu trabalho para ‘dar’ alguma coisa para outra criança só porque aquela pediu”. (Confira: Porque não ensinar a partilhar)

Seja qual for o método que você adopte, assegure-se de encontrar um equilíbrio, e ensinar, pelo menos em casa, a importância de saber partilhar, sobretudo com os que ama. Isto vai ser um grande alicerce para que como adulto, ele(a) saiba corresponder as necessidades de outro ser humano e não se torne uma pessoa egoísta.

  1. Saber lidar com o não

Esta é talvez a maior dificuldade dos pais, especialmente os de primeira viagem como Will e eu. Nós dois tínhamos imensas dificuldades em dizer “não” a um pedido de Érica, o que por fim, chegou a resultar com que ela usasse o choro como uma espécie de manipulação. A verdade é que é necessário estabelecer limites e ensinar a virtude da paciência. A frustração e a desilusão fazem parte da natureza e do crescimento humano. Quanto mais cedo o seu filho aprender a lidar com momentos de frustração, mais facilmente ele aprenderá a ter autocontrole e a saber esperar, tornando-se assim, no futuro, uma pessoa equilibrada.

  1. Ensine-os a quererem o melhor

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É sempre boa ideia a mãe envolver tanto meninos como meninas nas tarefas da casa, inclusive na gestão. Assim, ambos saberão que a lida e a gestão da casa podem ser feitas por todos, independente do género. E o pai, por exemplo, pode sempre ser atencioso e cavalheiro com a mãe e com as crianças, para que os meninos sigam o exemplo e as meninas, saibam o que esperar de um parceiro no futuro.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | Bandersnatch – assista, mas com cautela | Opinião

 

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Título: Banrdersnatch

Direcção: David Slade

Elenco Principal: Fionn Whitehead; Will Poulter; Asim Chaundhry; Craig Parkinson; Género: Ficção interativa

Ano: 2018

 

Imagem via Netflix

Sinopse:

No ano de 1984, um jovem problemático começa a questionar a realidade ao seu redor, à medida em que tenta adaptar um livro para vídeo game, e começa a enfrentar questões perturbadoras.

Opinião:

O entusiasmo foi enorme quando a Netflix divulgou o trailer de Bandersnatch em finais de Dezembro de 2018, um filme baseado na série Black Mirror. A película começa com uma breve explicação ao telespectador, de que este terá 10 segundos para tomar decisões ao longo do filme, findo o qual, será feita uma decisão aleatória em seu lugar. Após este estimulante introdutório, seguimos a história de Stefan, um jovem programador que está a tentar adaptar um livro-jogo chamado Bandersnatch, para um vídeo-game. E vamos fazendo escolhas em nome do protagonista.

O percurso do longa é de cerca de 90 minutos, que pode, entretantoo, variar dependendo das decisões que o telespectador toma, com diferentes resultados. Apesar deste enigmático conceito, onde um filme torna-se vídeo-game e vice-versa, sentimos que Bandersntach caí num limbo, sem chegar necessariamente a ser um filme, nem um video game. Uma imprecisão que não retira a inovação da proposta. Aliás, a ideia de misturar os dois elementos e de envolver o telespectador num papel de um ente superior, lidando com temas como destino vs livre arbítrio, é fantástica.

Para quem, contudo, esperava sentir-se, digamos, desafiado (coisa facilmente de acontecer com Black Mirror) pode ficar desapontado, já que esta é uma proposta muito mais suave que o habitual. Por certo, Black Mirror conseguiu distanciar-se do que era previsível.

Recomedamos, entretanto, toda a cauetla nas respostas que você, como telespectador, vai dar durante o filme. Muitas das perguntas que são feitas têm um cunho ético e mesmo que seja para efeitos de mero entretenimento, a Netflix terá acesso as respostas dos telespectadores e ao perfil dos mesmos. Não queremos por descuido, deixar o rastro de um perfil de “psicopata” na base de dados da Netflix, pois não?

Tirando este senão, é uma experiência aceitável, e foi um bom presente da Netflix para os amantes de Black Mirror que encerraram 2018, na grande expectativa do que 2019 trará para esta série.

A nossa pontuação: 3.0 em 5 estrelas.

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=XM0xWpBYlNM

Cinema (Filmes / Séries), Outras maravilhas humanas

Vencedor sorteio – DVD

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Quase perdiamo-nos se na Via Láctea, mas felizmente regressamos. Um pouco atrasados, estamos aqui para anunciar o vencedor do sorteio do DVD, alusivo ao dia dos namorados.
O vencedor encontrado aleartoriamente pela caixa automática exclusiva de Stefanotis é Malikezi Wa Tiane! Parabéns Malikezi!

A todos, um abraço do tamanho da terra e continuem ligados ao diário de uma qaawi!

Desabafo de uma qawwi

#14|Como um defensor do ambiente propôs-me em casamento

ambientalista

A sesta depois do almoço apenas serviu para trazer-me pesadelos. Vi um bando de ikras liderados pelo qawwi Vallen, invadindo a terra e destruindo os qlubs. Ainda bem que foi só um sonho. Enquanto conseguir manter-me escondida aqui na Nova Zelândia, Vallen não poderá interferir com a minha missão. Para afastar o pesadelo, decido tomar um banho. Estico o braço na direcção da toalha pendurada na cadeira e, num segundo, ela salta para a minha mão.

Já mais fresca, percorro a casa. O silencio é atípico. Érica não está a correr, nem a ver desenhos animados. O que andará ela a fazer?

– Coloquei-a de castigo, portou-se mal outra vez – explica-me Will, que está na varanda a pintar um móvel. Parece-me uma peça nova.

O sol desce na linha de horizonte, sobre a baía oriental. Os últimos raios acendem a cidade, deixando-a num esplendoroso doirado. Vistos do lado da costa, os edifícios parecem estar tão somente a acordar. É como se o próprio planeta terra dançasse uma valsa, em homenagem àquele humano que mudou as minhas convicções.

– Chega perto, Linan – pede-me Will – Vê se gostas disto.

Observo o móvel. É feito de papelão e pintado de esferas azuis, a minha cor favorita.

– O que é isto?

– Precisavas de uma cómoda nova e decidi fazer uma para ti. É de material reciclável. Agrada-te?

Humm. Este Will tem muita classe. Não me refiro a forma sedutora como ele dobra as mangas da camisa. Falo das suas ideias. De como ele as comunica, do entusiasmo no seu olhar. Tudo nele atrai-me. Incluindo as suas manias e os seus defeitos. Will é teimoso, é atrapalhado, mas é também equilibrado. Se há humanos que ainda podem salvar os qlubs, ele é um deles. O seu amor por animais, por exemplo. É enternecedor. Assim como é a sua paixão pelo mar. Will preocupa-se com o ambiente. Em casa, decretou que quem deixar as luzes acesas sem necessidade, pagará uma multa. Incluindo a pequena Erica. Ele ensina a filha a não desperdiçar água. Recorda-nos sempre de desligar as tomadas e os aparelhos quando não estão a ser usados. Anda de bicicleta, não apenas por fazer bem e ser económico, mas por ajudar a reduzir a poluição. E é ele quem está a incentivar-me a abandonar certos hábitos alimentares. Quem diria! Eu, uma qawwi, a cair nas armadilhas dos apetites mundanos. Lastimável. Facto é, que a comida que se consome neste planeta e a forma como ela é produzida determina a saúde tanto dos humanos como desta terra. Se os humanos não começarem a comer mais fruta e vegetais do que carne e açúcar, será impossível alimentar uma população que vai crescer até 10 biliões no ano de 2050 (se até lá os qlubs ainda existirem).

Olho de novo para a cómoda ecológica  de papelão.

– Oh Will, não existem dois como tu!!

– É só uma prenda simbólica para comemorar o dia de hoje, meu amor.

– O dia de hoje? – o  coração salta-me uma batida – é meu aniversário?

Eu só comecei a celebrar os anos por causa de Will. Em Stefanotis estas coisas são diferentes e eu nem sequer sabia o dia em que tinha nascido. Todavia, há outras datas em que os humanos trocam presentes. Perante o olhar decepcionado de Will, sinto o estômago contrair. Oh. Será que esqueci de alguma coisa? Será que…

– Faz dois anos hoje desde que nos conhecemos, Linan.

Se a vergonha é um arco íris, o meu rosto adquiriu todas as suas cores. Como pude esquecer-me? Foi há dois anos que o vi pela primeira vez, acreditando que ele fosse um sem abrigo. Neste planeta vivemos rodeados de pessoas, de amigos, de festas. Mas Will ensinou-me que é bom ter alguém com quem contar, quando as festas terminam. Com ele aprendi a sentar no banco de um jardim, ao lado de alguém, apenas para respirar, sem ser preciso falar, apreciando somente o silêncio do amor.

E mais tarde descobrimos a verdade. Ambos. Ele não era um sem abrigo. E eu, não era uma humana. Para Will, a verdade foi mais esmagadora, mas o amor acabou por convence-lo  a aceitar-me. E embora ele jure querer-me por perto, percorre-me sempre um grande receio: eu não estou a conseguir ser humana o suficiente para o corresponder.

– Perdão, Will – apetece-me chorar – não me lembrei e não preparei nada especial para oferecer-te, mas… vou improvisar. Que tal um super delicioso jantar, com mariscos, como tu gostas!

O seu sorriso malicioso preocupa-me.

– Eu sei muito bem como podes compensar. Mas vá, experimenta aí as gavetas da cómoda, vê se te agradam e se funcionam bem.

Abro-as de par em par.

– Funcionam, claro, até porque…

Ao deparar-me com uma caixinha veluda na terceira gaveta, fico muda. Contenho-me. Segundo a seguir, escancaro-a.

A primeira vez que Will colocou um anel à minha frente, causou-me pânico. O sentimento continua. Mas agora é acompanhado por uma espécie de agradável surpresa. Fascinação, para bem dizer.

– Will! Continuas com esta ideia? Mesmo que…

– Sempre. Tu e a Érica são a minha família. Vamos oficializar isso de acordo com as leis da minha terra e do meu coração, por favor. Dá-me esse presente.

– Will…

– Eu sei. Linan, eu sei.

Ele sabe. Sabe que eu sou uma qawwi, e que tenho o poder de controlar a mente humanas. Tem noção de que a qualquer momento posso teletransportar-me para outro lugar. Que ao contrário dele, vou demorar séculos a envelhecer. Que tenho uma missão. Que corro perigo. E que ele também, ao meu lado, corre perigo.

– Eu sei – repete – Somos diferentes e enfrentaremos dificuldades. Haverá alturas em que lutaremos contra forças maiores. Mas o derradeiro fim da vida é o amor Linan, e eu não vou abrir do nosso. Enquanto respirar, vou estar ao teu lado.

Então, avança para um beijo terno, mas a minha indecisão impede-me de corresponder. Mesmo que a minha missão seja um sucesso, como fico eu, se daqui a 100 anos tiver de perder este humano? Sou uma qawwi, mas saberei algum dia voltar a estar no universo sem ele?

Will insiste no beijo. Então, a mensagem penetra. Quer dizer, ela não penetra. Ela já lá estava. Os beijos apenas ajudam a mostrar os sentimentos adormecidos, cuja a intensidade as vezes esquecemos. A ânsia e a confiança que nos apertam nesse instante parecem maiores do que o próprio universo.

– Casa comigo – repete ofegante, depois que separa os seus lábios dos meus, o anel encontrando um lugar confortável no meu dedo.

O gesto é como um golpe para a cratera romper e impulsionar uma força nos meus olhos. Sinto o meu rosto molhado. Não há outra opção para salvar-me daquela gigantesca onda, senão responder:

– Sim, Will. Mil vezes, sim.

Lançamentos!, Livros, Opiniões

Meu chefe, meu pecado

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Autora: Karina Jamal

Edição: 2018

Real Design

 

 

 

 

O convite para o lançamento desta obra circulou muito nas redes sociais. Tanto, que acabou atraindo a nossa atenção, pese embora nunca tivéssemos ouvido falar da autora. Para começar, gostaríamos de dar os parabens a Karina Jamal, por escolher, entre tantos hobbies e desafios, este que é dos mais exigentes e só persiste por genuína paixão: a escrita. Felicitamos a autora não só por escrever, mas também pela coragem de lançar a obra de forma independente, num mercado editorial de natureza complexo (mas também, o que é que não é complexo?). Para nós do diário de uma qawwi, todos que trilham por este caminho merecem a nossa atenção e admiração.

Com relação ao livro: o romance é ambientado em Maputo e traz a história de uma jovem secretária que apaixona-se pelo chefe e envolve-se com este, num relacionamento secreto e um pouco, digamos, desiquilibrado. O título, típico das fan fictions abundantes no Wattpad e outras plataformas do género, já dava esses indícios. Por falar em fan fiction, é mesmo essa impressão que dá meu chefe meu pecado: de estar na trilha de 50 sombras de Grey. Não lemos o Grey. Mas sabemos que a legião de fãs discute alguns valores morais na referida obra. De igual forma, nós também questionamos a protagonista que Karina oferece, a qual desconstrói a noção de independência emocional da mulher. Ou do ser humano no geral, se assim quiserem. Por outro lado, encontramos no par da protagonista, um protótipo cada vez mais típico na sociedade masculina, pelo que, é um tipo de personagem facilmente de reconhecer entre nós. Seja como for, há muitos apreciadores deste gênero, razão pela qual, esta obra, poderia, por ventura, encontrar um apreciável nicho no mercado.

Todavia, não é só de história que vive a narrativa. Se a autora trouxe uma história de pecados no ofício, nesta resenha gostaríamos de falar de alguns pecados na escrita.

O mercado editorial de hoje tem outra face. Aspirantes a escritores já não precisam de levar com portas na cara, de editoras que só apostam em autores que enquadram-se nas suas directrizes. A possibilidade da auto publicação nunca esteve tão mais disponível quanto na actualidade. Grandes autores, como John Grisham, por exemplo, começaram assim a sua carreira.

É certo, porém, que o escritor que sai pela chancela de uma editora tem mais ajuda e facilidade para fazer chegar um maior número de obras ao público, e consequentemente, estar mais propenso a atingir o sucesso. O que não significa que um autor independente não possa igualar.

O que há então de comum entre estes escritores? Ambos seguem algumas regras básicas. Leitura como ferramenta de trabalho diária, e revisão na construção do texto. Por melhor que o escritor seja, é aconselhável solicitar, sempre, a revisão de um terceiro. Reparem que, mesmo após muita revisão, escapa sempre um ou outro erro. Que dirá na total ausência? A autora de meu chefe meu pecado, desculpou-se na nota, pelos eventuais erros de revisão, visto que ela própria encarregou-se desta actividade. Efectivamente, os olhos de um escritor estão tão habituados à sua obra, que não detectam as falhas, as quais podem, por fim, comprometer bastante a leitura.

A capa é sugestiva, mas a diagramação e a paginação podiam ser melhores. Fora isto, temos fé que a manter-se a paixão de Karina, e se ela aplicar melhor as ferramentas apropriadas, poderá vir a contribuir para este género no mercado editorial.

Desabafo de uma qawwi

#13| Finanças em tempos de crise: como prosperar – sem tornar-se um vírus perigoso para o sistema

Como é que alguns humanos conseguem prosperar e gerir as suas contas, enquanto outros afundam em dívidas? É nisto que estou a pensar enquanto coloco dois garrafões de água no carrinho, e vou ao encontro de Will e Erica no caixa do supermercado.

Neste planeta tudo tem um preço. Inclusive a água. E os humanos chamaram esta invenção de “laissez-faire”. Um mercado, onde as coisas só funcionam à base de troca. Para quem vem de um planeta onde toda e qualquer criatura tem acesso aos recursos, sem restrições, compreender essa tal “economia” é traumatizante.

Seja como for, por mais absurdo que seja, a verdade é que neste planeta, a sobrevivência depende desse factor: o dinheiro. Para lidar com isto, uma parte dos humanos recebe um “salário”, e o que é um salário? Uma espécie de prémio atribuído pelo sistema, mediante 30 dias de “trabalho” consecutivo prestado à outrem. Outros, entretanto, fazem o rendimento acontecer por conta própria. Há também os que agem de forma muito bizarra, mais ou menos como vírus. Estes são uma ameaça, pois podem corromper o sistema.

Corrupção

Viver neste planeta é isto. É saber lidar com a gestão de uma casa, de uma família, e de um salário para sobreviver. Normalmente eu não utilizo os meus poderes de qawwi para burlar o sistema e arranjar dinheiro. Isso só faria de mim mais um vírus.

Mas então, será que no meio deste caos, existe alguma forma de gerir correctamente as finanças e ter um equilíbrio? Estou inclinada a dizer que sim. Ora vejamos:

  1. Trabalhar no que se gosta

Na minha perspectiva de qawwi (que pode estar errada), quem realmente gosta do que faz, está mais propenso a ter êxito e consequentemente, a gerar melhor uma renda. Certo?

  1. Gastar menos do que ganha

Aqui a lógica parece simples. Utilizar somente os recursos de que se dispõem. Mas a realidade neste planeta não é essa. Muitos humanos têm a tendência de gastar além do que a sua conta permite, contraindo assim dívidas. O primeiro passo para o equilibro é eliminar este hábito.

  1. Controlar e moderar os hábitos

No meu planeta eu não precisava de alimentar-me, mas bastou chegar à terra para transformar-me no monstro do garfo. Quando trata-se de finanças, a comida é a minha ruina. Não sei qual é a sua fraqueza, mas para a mesma, tenho apenas uma palavra: moderação. Não apegue-se demasiado ao dinheiro, mas também não esbanje. Crie um budget mensal e respeite esse bugdet. Tenha autocontrole e adquira, primeiro, aquilo que realmente precisa.

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4. Traçar prioridades e metas

O tempo de estadia dos humanos no planeta terra é bastante curto. Logo, os humanos preocupam-se em aproveitar o máximo deste reduzido tempo (se não o fazem, deviam). As metas e prioridades são particulares à cada um. A minha prioridade, por exemplo, é viajar pelo mundo inteiro, até resgatar os qlubs. Mas para humanos como Will, por exemplo, a meta e o sonho pode ser fazer o tal “doutoramento”, passear num cruzeiro, casar, ter casa própria ou então organizar a tal “reforma”.

Estabeleça as suas prioridades e prazos realistas para atingir os seus objectivos.

5. Fazer uma poupança

A realização de alguns sonhos e metas requer planificação. Pela “poupança”, o humano guarda parte do seu rendimento para ter uma reserva que o permite mais tarde realizar os sonhos a longo prazo (ou aguentar imprevistos). Não importa o tamanho do seu salário/mesada/rendimento. O acto de poupar dinheiro, pouco que seja, ajuda a construir disciplina. É melhor poupar 10 e ao fim de um ano ter 120, do que não poupar nada. Eis alguns exemplos de como poupar:

As crianças e adolescentes (e também os adultos), podem ter um mealheiro para gerir as suas economias, criando deste modo, desde pequenino, o hábito de poupar;

– Crédito rotativo informal (xitique) – dependendo do número de pessoas a participar, é possível a curto e médio prazo ter um retorno garantido, sem estar sujeito à taxas nem comissões.

Depósitos a prazo – está a guardar dinheiro para projectos a longo prazo? Em vez de o deixar parado debaixo do colchão, porque não abrir uma conta a prazo ou uma conta poupança num banco? Assim, o seu dinheiro não só vai estar guardado, como também vai crescer e dar lucros que você pode utilizar.

6. Não se tornar um gatuno nem corromper o sistema:

Quaisquer que sejam as circunstâncias, não caia na tentação de apossar-se de dinheiro que não o pertence nem de o adquirir de forma ilegal. Isso só fara de você um vírus no sistema, que prejudica os demais.

Não imponha limites nos seus sonhos, nem nas formas de obter rendimentos para os realizar. Apenas o faça com responsabilidade e honestidade.

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