Histórias, Reviravoltas do Universo

José Mãos Limpas, por Vera Duarte

Acto Primeiro

Giovana Martins tinha-se tornado, nos últimos tempos, na mais famosa cientista africana. Ela tinha feito o curso de Física Nuclear em Portugal no Instituto Superior Técnico de Lisboa e depois fora fazer um doutoramento nos Estados Unidos da América, em Silicon Valley, na Califórnia.
Desde pequena que ela amava as máquinas e tinha por elas uma infinita curiosidade. Muitas das bonecas e outras prendas que lhe ofereciam acabavam invariavelmente desmontadas e montadas por ela vezes sem conta. Contrariamente a muitas das suas colegas da escola primária e do liceu, que se sentiam à vontade nas disciplinas de línguas, história, filosofia e política, ela era boa em matemática, física e ciências naturais.
Os pais, que seguiam com muita atenção os cinco filhos, cedo viram que ela tinha algo de diferente em relação aos outros. Enquanto estes preferiam a algazarra das brincadeiras com os primos e amigos para ocupar os tempos livres, Giovana sempre preferira as brincadeiras mais “sentadas” como eles diziam, ou seja, os jogos de computadores, a desmontagem dos brinquedos seguido de sua montagem e os robôs, quaisquer que eles fossem. Assim, a robótica passou a ocupar um lugar cada vez mais importante e central na vida de Giovana. Após o curso e a pós-graduação nos Estados Unidos, e apesar dos convites que recebeu para lá ficar a trabalhar, regressou a Cabo Verde, já acompanhada de Francisco Almeida, com quem se tinha casado logo no segundo ano de formação em Silicon Valley. Ele também estava a fazer uma pós-graduação em Inovação Digital e era filho de um imigrante cabo-verdiano que há muitos anos se fixara em Boston e aí constituíra família com uma americana.
Os dois tinham-se sentido atraídos um pelo outro praticamente desde o momento em que foram apresentados, ainda no primeiro ano. Foram-se encontrando cada vez com mais frequência e rapidamente à empatia inicial sucedeu o amor. Entenderam que se deviam casar logo e assim se apoiarem mutuamente.
Francisco acompanhou Giovana para Cabo Verde e durante alguns anos deram aulas no Liceu da Praia. Entretanto tiveram dois filhos.
Ao fim de alguns anos ficou claro que, apesar de quererem viver no seu país de origem, não havia condições para desenvolverem o trabalho de investigação que pretendiam. Com o currículo que ambos tinham não foi difícil serem colocados num grande centro de investigação na África do Sul.
Entre o trabalho profissional e a criação dos filhos, Giovana não podia deixar de notar o desregulamento que estava a acontecer em muitos países africanos, entre os quais a própria África do Sul pós Nelson Mandela e, sobretudo, em Angola e Moçambique, países irmãos do seu país natal. Ela via com grande consternação a miséria em que viviam as populações desses países e a riqueza ostensiva e vexatória dos governantes e de um grupo reduzido de cidadãos próximos ao poder. Ela e o marido falavam muito sobre isso com os filhos que, cada vez mais crescidos, também viam com desagrado as inúmeras situações de mal estar das populações africanas, o que muito os interpelava.
Um dia, no momento em que a família estava a passar férias em Cabo Verde, no período entre o Natal e o Fim do Ano, Giovana chamou o marido e os filhos, ambos já a fazerem curso superior, e disse-lhes que naquele dia, enquanto estava a fazer o seu footing matinal, tinha tido uma epifania que gostaria de compartilhar com eles.
Todos ficaram curiosos e perguntaram o que seria.
Ela então explicou que gostaria de construir um robô que permitisse verificar a genuinidade das boas intenções de qualquer candidato que pretendesse concorrer ou que fosse indicado a um cargo público de direcção, para ver se estava a fazer de consciência limpa, a fim de trabalhar em prol do bem comum e não para procurar enriquecer indevidamente, mediante a apropriação descarada dos bens públicos.
O governo da África do Sul, a quem Giovana apresentou o projecto em primeira mão, não quis financiá-lo. Moçambique também se recusou alegando falta de recursos. Já o governo de Angola, presidido por um economista, que estava activamente a tentar mudar o status quo de corrupção em que o país independente se tinha afundado, aceitou o projecto de braços abertos.
Giovana e o marido mudaram-se de armas e bagagens para Angola e ao longo de dois anos trabalharam afincadamente na construção do robô a que chamaram “José Mãos Limpas” como o tinham baptizado desde que a ideia nascera.

Cheios de esperança, Giovana, Francisco e a equipa de investigadores com quem eles tinham trabalhado ao longo dos dois anos, foram entregar o resultado do seu trabalho ao Presidente.
“José Mãos Limpas” era um robô em forma de cadeira, com a aparência de um homenzinho sentado, que tinha na mão direita um capacete e na mão esquerda uma espécie de folha de papel, tudo ligado entre si por uma sofisticadíssima rede de conexões.
O capacete era aplicado sobre a cabeça do candidato quando este já se encontrava sentado e a folha de papel sobre o seu coração.
Ao fim de quatro horas de trabalho de auscultação o robô estaria em condições de elaborar um relatório onde daria indicações sobre o carácter do candidato, os valores, os objectivos, as ambições e, sobretudo, se tencionava trabalhar em prol de todos ou apenas para o seu bolso. A folha de papel sobre o coração permitia ver se ele estava apetrechado de bons sentimentos ou se apenas de cobiça, ódio, rancor ou outro sentimento negativo. O relatório resultaria das respostas dadas pelo candidato a uma série de cem perguntas, conduzidas pelo robô. 
Uma jovem activista de Direitos Humanos, Diana Carolina, que seguia com interesse os trabalhos da equipa de Giovana, foi a primeira pessoa a ser auscultada pois estava interessada em candidatar-se a deputada nas próximas eleições.
A prova decorreu sem incidentes e ao fim de quatro horas veio o resultado: aprovada com distinção! 
A partir desse momento, todos os candidatos a qualquer cargo público em Angola passariam a ser submetidos a esse teste. A Assembleia Nacional do país, preparou e aprovou uma legislação referente ao uso do “José Mãos Limpas” e os primeiros resultados começaram a aparecer pouco tempo depois de a legislação ter entrado em vigor.
Outros países foram a pouco e pouco aderindo ao projecto “José Mãos Limpas”, que passou também a ser conhecido como “Joseph Clean Hands”.

Acto Segundo

 Vinte anos depois, Susana acordou do coma em que um condutor embriagado a tinha atirado, quando atravessava calmamente a rua de Praia de Bote em Mindelo.
Vinha dizendo baixinho que o mundo seria bem melhor se não houvesse essas coisas de fascismo, imperialismo, colonialismo, racismo, chauvinismo, machismo e sobretudo…
Nesse momento, um enorme buraco negro abriu-se no seu espírito e caiu num poço sem fundo.

candidato que pretendesse concorrer ou que fosse indicado a um cargo público de direcção, para ver se estava a fazer de consciência limpa, a fim de trabalhar em prol do bem comum e não para procurar enriquecer indevidamente, mediante a apropriação descarada dos bens públicos.
O governo da África do Sul, a quem Giovana apresentou o projecto em primeira mão, não quis financiá-lo. Moçambique também se recusou alegando falta de recursos. Já o governo de Angola, presidido por um economista, que estava activamente a tentar mudar o status quo de corrupção em que o país independente se tinha afundado, aceitou o projecto de braços abertos.
Giovana e o marido mudaram-se de armas e bagagens para Angola e ao longo de dois anos trabalharam afincadamente na construção do robô a que chamaram “José Mãos Limpas” como o tinham baptizado desde que a ideia nascera.

Cheios de esperança, Giovana, Francisco e a equipa de investigadores com quem eles tinham trabalhado ao longo dos dois anos, foram entregar o resultado do seu trabalho ao Presidente.
“José Mãos Limpas” era um robô em forma de cadeira, com a aparência de um homenzinho sentado, que tinha na mão direita um capacete e na mão esquerda uma espécie de folha de papel, tudo ligado entre si por uma sofisticadíssima rede de conexões.
O capacete era aplicado sobre a cabeça do candidato quando este já se encontrava sentado e a folha de papel sobre o seu coração.
Ao fim de quatro horas de trabalho de auscultação o robô estaria em condições de elaborar um relatório onde daria indicações sobre o carácter do candidato, os valores, os objectivos, as ambições e, sobretudo, se tencionava trabalhar em prol de todos ou apenas para o seu bolso. A folha de papel sobre o coração permitia ver se ele estava apetrechado de bons sentimentos ou se apenas de cobiça, ódio, rancor ou outro sentimento negativo. O relatório resultaria das respostas dadas pelo candidato a uma série de cem perguntas, conduzidas pelo robô. 
Uma jovem activista de Direitos Humanos, Diana Carolina, que seguia com interesse os trabalhos da equipa de Giovana, foi a primeira pessoa a ser auscultada pois estava interessada em candidatar-se a deputada nas próximas eleições.
A prova decorreu sem incidentes e ao fim de quatro horas veio o resultado: aprovada com distinção! 
A partir desse momento, todos os candidatos a qualquer cargo público em Angola passariam a ser submetidos a esse teste. A Assembleia Nacional do país, preparou e aprovou uma legislação referente ao uso do “José Mãos Limpas” e os primeiros resultados começaram a aparecer pouco tempo depois de a legislação ter entrado em vigor.
Outros países foram a pouco e pouco aderindo ao projecto “José Mãos Limpas”, que passou também a ser conhecido como “Joseph Clean Hands”.

Acto Segundo

 Vinte anos depois, Susana acordou do coma em que um condutor embriagado a tinha atirado, quando atravessava calmamente a rua de Praia de Bote em Mindelo.
Vinha dizendo baixinho que o mundo seria bem melhor se não houvesse essas coisas de fascismo, imperialismo, colonialismo, racismo, chauvinismo, machismo e sobretudo…
Nesse momento, um enorme buraco negro abriu-se no seu espírito e caiu num poço sem fundo.

– … e sobretudo se não houvesse tanta corrupção… – concluiu Susana com uma voz fraquinha, quase inaudível, espantando a enfermeira que estava sentada ao seu lado desde que o hospital se tinha apercebido que os sinais vitais pareciam tender a melhorar.

– É um milagre, está a acontecer um autêntico milagre – comentou baixinho para si própria a enfermeira enquanto se dirigia a Susana – Calma, calma o médico já vem aí.
O médico não tardou a chegar. Ao fim de todos aqueles anos de coma aquela mulher voltara a vida.


Susana era uma jovem jornalista muito activa, que vinha fazendo uma série de reportagens, denunciando a corrupção que grassava em Angola e como o povo angolano, dono de um país tão rico, na sua maioria vivia na pobreza e na miséria. Chegou-se a desconfiar que o acidente tivesse sido encomendado. Mas nunca se provou nada… 


Levou algum tempo até que Susana se recobrasse das mazelas que o coma prolongado lhe tinha provocado. Aliás, ela nunca iria recobrar-se completamente. Mas o curioso é que animicamente ela continuava a mesma. E apesar dos seus combalidos quase cinquenta anos, ela ansiava voltar a trabalhar e queria ir a Angola. Havia um zum zum no ar que a estava a intrigar…  


Três meses após ter saído do coma Susana desembarcou no aeroporto de Luanda. Logo ali começou o seu espanto. As pessoas tinham um ar mais arrumado, mais contente, de maior bem-estar. Mesmo os homens que carregavam as bagagens. A miséria, que era a primeira coisa que saltava à vista quando se chegava a Luanda, não irrompia como cogumelos. O que se passava? Onde estavam os grandes outdoors do Presidente? Onde estavam as palavras de ordem do Presidente? Onde as moedas cunhadas com o busto do Presidente? Onde as notas com a face do Presidente? E até no táxi não viu as bandeirolas com o rosto do Presidente omnipresente. Como estava muito cansada foi logo para o hotel.


Aí a mesma surpresa. Em nenhuma parede estava dependurado o retrato ligeiramente sorridente do Presidente. Adormeceu com uma estranha sensação de alívio.
No dia seguinte, a caminho da cadeia de Viana, o espanto foi total. Nem mendicidade, nem deficientes, nem meninos magros de barrigas inchadas. Ela lembrou-se que o que mais a tinha chocado, quando estivera em Luanda a preparar as reportagens cerca de vinte anos atrás, tinha sido exactamente a quantidade de mendigos, de deficientes físicos, de crianças rotas e subnutridas e velhos abandonados a sua sorte. Tinha mesmo entrevistado alguns no caminho que levava à prisão de Viana. Não cabia em si a ansiedade que sentia.
Atónita, perguntou a um transeunte como se tinha chegado a tal estádio de harmonização da sociedade angolana e este respondeu algo espantado:

– Então, não sabe que desde que inventaram a máquina da verdade que todos os candidatos ou indicados a qualquer cargo público são obrigatoriamente a ela submetidos e todos os que forem reconhecidos como vendilhões do templo, corruptos, racistas, fundamentalistas, ditadores, são automaticamente excluídos? Assim, qualquer órgão de governação e qualquer lugar de direcção pública em todo o país só podem ser ocupados por homens e mulheres íntegros, compassivos e competentes, que pensam e trabalham em prol do bem comum e não para o seu enriquecimento pessoal ou dos seus familiares e amigos. É, por isso, que desde então Angola vem mudando radicalmente.

– E como funciona essa máquina da verdade? – Perguntou Susana, ainda atónita.

– É relativamente simples. Quando alguém se candidata ou é indicado para algum cargo de governação ou direcção em organismo público, antes de se submeter à eleição ou aceitar a indicação, é sujeito a um exame na máquina da verdade, onde se infere o seu carácter e a verdadeira nobreza de suas intenções. Se der positivo, sinal verde, segue adiante. Se der negativo, sinal vermelho, fica inibido durante pelo menos dez anos de se candidatar a outro cargo público. Angola e todos os países que têm aderido a este sistema estão a expurgar a horda de criminosos de colarinho branco que há anos conspurcavam a gestão pública. A máquina da verdade chama-se “José Mãos Limpas” ou JML como também é conhecida.

Epílogo
 
Fascinada e embevecida, Susana pôde finalmente aquietar o seu coração e abençoou os anos cinquenta do século vinte e um, que era claramente uma época de prosperidade, sobretudo, para uma parcela da humanidade que tanto necessitara.
Procurou então a cientista Giovana Martins e começou a fazer uma série de reportagens sobre ela e o robô “José Mãos Limpas”. Foi aí que ficou a saber que agora a presidente do país, Diana Carolina fora a primeira candidata a ser submetida a JML.
Dois anos depois Giovana Martins e o marido foram galardoados com o Prémio Nobel da Paz pela enorme contribuição que estavam a dar à consecução da democracia e do desenvolvimento em África e no mundo com a invenção do “Joseph Clean Hands”. 

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

@Todos os direitos reservados

Conheça as outras 30 histórias desta antologia, disponível em formato físico e audiobook em USB. Subscreva aos nossos canais e acompanhe as nossas publicações mensais.

Blog

https://diariodeqawwi.com/

Facebook

https://www.facebook.com/qawwi.reviews

Youtube

https://youtube.com/channel/UCmofxzsaPKlOmH2E0eSsIFA

Compre a Antologia, Aqui

Resenhas

Oitentanoventa: entrevista com Marcelo Panguana

As conversas da iniciativa OitentaNoventa estão de volta!

Nesta sessão (12 de Maio de 2022), Álvaro Taruma, poeta, senta-se, para, numa conversa informal conversar com Marcelo Panguana, escritor, jornalista, cronista, crítico literário, autor de livros como “Como um louco ao fim da tarde” (2010) ou “Conversas do fim do mundo” (2012). Nesta conversa, Panguana fala sobre o seu medo em escrever poesia, sobre o que o move a acreditar na literatura e o que ainda há por publicar.

Marcelo Panguana nasceu, em Maputo, em 1951. É escritor, jornalista, cronista e crítico literário. Publicou dentre várias obras “As Vozes que Falam de Verdade” (1987), “A Balada dos Deuses” (1991), “O Chão das Coisas” (2004), “Como um louco ao fim da tarde” (2010) e “Conversas do fim do mundo” (2012). Foi agraciado com o Prémio FUNDAC Rui de Noronha com a obra “Como um louco ao fim da tarde”.

Sobre o entrevistador:

Álvaro Fausto Taruma, poeta, nasceu em Maputo. Publicou “Animais do Ocaso (Editora Exclamação, 2021), “Matéria Para Um Grito” (Cavalo do Mar, 2018) e “Para uma Cartografia da Noite” (Literatas, 2014). Com “Matéria Para Um Grito” foi galardoado com o prémio BCI de Literatura 2019. Para António Cabrita, Taruma, que é formado em Sociologia e Antropologia pela Universidade Pedagógica em Maputo, é um dos nomes cimeiros da actual poesia moçambicana.

ACOMPANHE a conversa AQUI

Histórias

O Capricho das Borboletas, por Daniel da Costa

Depois do ciclone, o relógio da natureza é assaltado pelos demónios da lentidão e do desânimo. O pescador tem mais tempo para ruminar em silêncio o azar que lhe bateu à porta. Desde o nascer-do-sol ao baile das estrelas, ele abandona-se a um canto do seu vasto quintal, debaixo da única árvore que a fúria dos ventos não arrancou pelas raízes.

Liva foi cuspido para a depressão, uma espécie de varanda do suicídio. Num abrir e fechar de olhos escapou-se-lhe por entre os dedos o sentido da vida, uma vida inteira dedicada à mulher e às artes da pesca. E sem filhos.

A fúria dos ventos não só lhe roubou a esposa. Tirou-lhe o telhado da casa e a esperança que florescia na machamba. A maior parte das cabeças de gado foi devorada pela corrente do rio, com troncos disformes à mistura, umas tantas galinhas cafreais e incontáveis utensílios domésticos.

Agora não consegue tirar o olhar das borboletas que interpretam uma coreografia de cores divinas no seu quintal cercado de plantas espinhosas. As borboletas dão piruetas à volta das flores que teimam em espreguiçar-se com esplendor, exactamente no lugar onde antes o pescador gostava de conversar com a esposa.

Dentro do corpo, da sua alma e do pensamento, tudo continua a doer por inteiro. Ele parece ausente, numa pose de quem fumou soruma, proveniente do planalto. Se calhar, porque o passado lhe acena somente com duas bandeiras: a fiel companhia de um cão rafeiro e uma canoa cujo casco reclama um conserto de pequena monta.

Liva esboça o primeiro plano para evitar o naufrágio nas borboletas da nostalgia, indo pelo atalho mais fácil. De garrafa em punho, passa a encharcar-se de álcool, de domingo a domingo.

Isto, com um agravante. Nos quintais onde o pombe impera, abundam amigos ruidosamente solidários, dispostos a pagar ao pescador uma dúzia de copos do que quer que seja.

Com improvisados sopros de flauta feita de bambú, as sessões são animadas. É quase sempre num estado andrajoso que o pescador acaba por acertar com o portão de casa, auxiliado pelos extraordinários dotes do seu cão rafeiro.

Mesmo assim, Liva tenta subir a fasquia. Da bebida para as saias, vai só um metro. É o bêbado no seu melhor. Mas aí esbarra com a falta de dinheiro para se fazer rodear de mulheres, independentemente da categoria.

Espicaçados pela crise, os prostíbulos também reviram em alta o preço da oferta. O único serviço acessível destina-se a garotos com um pé na puberdade. São as matinées.

As prostitutas içam a capulana para que, num lampejo, os garotos consigam espreitar as suas partes íntimas, preferencialmente sem roupa interior. A partir desse fugaz golpe de vista, os garotos dão asas à imaginação, viajando excitados para bem longe do prostíbulo e da vigilância dos pais.

A dona do sítio não vai dar ao pescador o tratamento concedido aos garotos, mesmo sabendo que as suas finanças não gozam de boa saúde e que, desde a passagem do maldito ciclone, a sua virilidade segue a rota da desgraça.

Mas Liva pertence a uma casta com pouco mais de sessenta anos. Apesar dos constrangimentos sociais e biológicos, merece o respeito da dona do prostíbulo. Por isso, ela propõe um arranjo generoso. Excepcionalmente, o pescador pode frequentar a sua casa, fora das horas de expediente.

Tem direito a uma sessão de matinée, vamos lá dizer, reforçada. A partir da janela da casa de banho, está autorizado a contemplar as suas curvas, durante os banhos. Embora ela não possua a frescura de uma donzela, a oferta não lhe parece má. Para um leão velho, pensa o pescador, é sempre melhor do que nada.

Há, entretanto, um preço para o arranjo. Nesta vida, há sempre um preço a pagar. A troco desta investida essencialmente platónica, Liva deve entregar à dona do prostíbulo uma parte do peixe que capturar durante a faina.  

Selado o insólito acordo, o cão rafeiro passa a ser visto com frequência na varanda da generosa senhora, em dias fixos e à mesma hora. O quadrúpede denuncia o paradeiro de Liva que, nesta altura, já se tornou demasiado dependente dos remendos platónicos.

Os meses voam e, a pouco e pouco, ele consegue passar de simples cliente a amigo. É costume o tempo pregar partidas.

Podes vir almoçar comigo este domingo?

O pescador aceita o convite, agradecido. É a primeira vez que recebe um convite a sério, um convite de mulher, desde que o ciclone despenteou a sua vida, e o deixou na implacável dependência de álcool e das migalhas atiradas pela janela da casa-de-banho.

A muito custo, claro, conserva-se sóbrio. Na data marcada, Liva até sai de casa mais cedo do que o costume, a cantarolar uma letra popular, memorizada numa bebedeira qualquer. É um hino à felicidade.

Desce animadamente em direcção ao rio, atravessando um espesso nevoeiro que não o deixa ver um metro além do achatado nariz. O despertar dos pássaros encontra-o no meio do rio a verificar a eficácia das armadilhas.

Apanha dois peixes, enormes. Retira-lhes as vísceras e lava-os, de forma adequada. Escolhe o mais bonito para o almoço e destina o outro para a venda no cais. Liva arruma a canoa num lugar seguro e vai ao banho, necessariamente demorado.

É aí onde nota que o céu está repleto de borboletas. Intriga-o que, depois do banho, elas o sigam até à sua casa, recentemente reconstruída por voluntários de uma organização não-governamental.

Centenas de borboletas do rio juntam-se à dança entre as flores de casa. Boquiaberto, Liva contempla aquele invulgar espectáculo de cores em movimento.

Perto da hora agendada, mete-se por um caminho que bem conhece. Para não se atrasar, encurta a distância. Não vá o diabo tecê-las. A nuvem gigante de borboletas que o persegue deixa atónitos todos os adultos com os quais se cruza na rua. As crianças, maravilhadas. 

Sem que se aperceba, ao longo do trajecto, as suas rugas vão caindo, uma a uma. As mágoas e os cabelos brancos, também. Liva sente os passos a desenharem no chão pegadas mais firmes, a coluna a endireitar-se e o corpo a despir-se do vício e da fadiga.

Ainda cortejado pelas bailarinas de asas delicadas, o homem chega ao destino e bate à porta, suavemente.

Ao abri-la, a anfitriã fica pasmada. O quintal está deslumbrantemente colorido e o pescador untado pela frescura sedutora de um príncipe retirado de uma fábula.

O que é que se passa aqui, amigo? pergunta ela. 

Liva não consegue encontrar no dicionário palavras para lhe explicar aquele capricho da natureza. Limita-se a segurar o peixe numa mão, enquanto tenta, com a outra, acalmar o cão que, desde o rio, não pára de ladrar para as borboletas.

Nada voltou a ser como antes entre o pescador e a dona dos prazeres.

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

@Todos os direitos reservados

Conheça as outras 30 histórias desta antologia, disponível em formato físico e audiobook em USB. Subscreva aos nossos canais e acompanhe as nossas publicações mensais.

Blog

https://diariodeqawwi.com/

Facebook

https://www.facebook.com/qawwi.reviews

Youtube

https://youtube.com/channel/UCmofxzsaPKlOmH2E0eSsIFA

Opiniões

Resenha do Livro Espíritos Quânticos – Uma jornada por histórias de África em Ficção Especulativa

O livro, Espíritos Quânticos – Uma jornada por entre histórias de África em Ficção Especulativa, é organizado pela romancista moçambicana Virgília Ferrão. Esse projeto editorial cumpre, com proeza e diversidade, alguns dos objetivos do blog Diário de Uma Qawwi: promover histórias de ficção especulativa em língua portuguesa, por autores africanos, e incentivar a publicação de novos e novas autores e autoras.

Virgília Ferrão é natural de Maputo, Moçambique. É graduada em Direito, pelo Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM). Atualmente, trabalha para a TotalEnergies EP Mozambique Area 1, como consultora jurídica. É administradora do blog Diário de uma Qawwi. Em 2005, publicou a sua primeira obra literária O Romeu é Xingondo e a Julieta Machangane, através da Imprensa Universitária da Universidade Eduardo Mondlane. A sua segunda obra, O Inspector de Xindzimila, foi publicada em 2016, pela editora brasileira Selo Jovem. Recebeu o “Prêmio Literário 10 de Novembro”, em 2019, concedido pelo Conselho Municipal de Maputo, tendo sido a primeira mulher a vencer este prêmio. Em breve, lançará o romance Os Nossos Feitiços, pelo Selo Katuka Edições, do Brasil.

Os 32 textos, que compõem Espíritos Quânticos, foram selecionados, neste ano, através de um edital de chamada pública, bem como de um convite dirigido a alguns autores. Participam dessa antologia: Adelino Luís, Agnaldo Bata, Álvaro Taruma, Andreia da Silva, Bento Baloi, Came, Dalêncio Benjamin, Daniel da Costa, Jeconias Mocumbe, João Baptista Caetano Gomes, Jorge Ferrão, José Luís Mendonça, Lex Mucache, Léo Cote, Luís Eusébio, Marcelo Panguana, Marvin Muhoro, Mateus Licusse, Mélio Tinga, Mia Couto, Nick Wood, Oghenechovwe Donald Ekpeki, Ortega Teixeira, Ossulo Wripa, Shadreck Chikoti, Sonia Jona, Suleiman Cassamo, Teresa Taímo, Vera Duarte, Virgília Ferrão e Zukiswa Wanner. Esses e essas contistas forjam invenções de histórias de Áfricas pelo viés da ficção especulativa.

Múltiplas vozes narram, dentre outras temáticas, sobre o sobrenatural, a feitiçaria, legados e patrimônio culturais africanos, o invisível, a ocidentalização de práticas culturais, consideradas tradicionais africanas, o mundo encantado, o mistério, a possessão, o curandeirismo, a premonição, os espíritos de ancestrais, mitos e ritos africanos, como é inerente às narrativas denominadas pelo ocidente como especulativas. Assim, os contos transitam entre a ficção científica, as ficções utópicas e distópicas, até o afrofuturismo.

O inusitado e o quase inexplicável desfilam como chaves discursivas e elementos fundantes e argumentativos das narrativas. A fantasia e a imaginação, neste interim, entrecruzam-se, por vezes, com o estranhamento aparente e as vivências do “desconhecido” dos (das) narradores (as), quiçá, dos (das) autores (as) de Espíritos Quânticos, pondo em relevância uma possível diluição das fronteiras entre o ficcional e o real. Em seus contos, o natural e o sobrenatural, os mundos visível e invisível aparecem, pois, sem dicotomias e entrecruzados.

A ficção especulativa, comumente, evidencia olhares criativos e indagativos sobre passados históricos, eventos do tempo presente e ou “viagens” e narrativas futuristas, tensionando mundos, nem sempre visíveis, mas todos sempre inventados, e “experiências” que se distanciam, normalmente, das convenções sociais e de diversas “ditas realidades”. Nas narrativas da coletânea Espíritos Quânticos, entretanto, diferentemente da via ocidental, os tempos se interseccionam e os mundos visíveis e invisíveis coexistem, como é inerente à existência humana na África. Os contos, desse modo, se apresentam como possibilidades de se nutrir e, ao mesmo tempo, (re)criar, (re)significar, ficcionalmente, o vivido e o desejado e (re)desenhar perspectivas envoltas às várias temporalidades e espacialidades africanas. Não tão somente o passado ou o futuro compõem e interessam às narrativas; ao contrário, o presente, passado e futuro se amalgamam e decorrem, com circularidade, em imaginários, mitologias, cosmogonias, territórios e práticas culturais africanas, diminuindo (ou até desconsiderando), por exemplo, as vertentes do horror e do fantástico, normalmente, imputados pelo ocidente às literaturas fantástica e científica.

A leitura de Espíritos Quânticos, neste tocante, permite transitar entre histórias que aconteceram (ou não) na África e, mais ainda, poderiam acontecer, esmiuçando os limites entre o possível e o impossível, ou seja, realidades distópicas podem ser experimentadas e ou narradas. Outrossim, os textos da coletânea apresentam narrativas instigantes sobre as vicissitudes que permeiam a existência, mas também sobre fenômenos, eventos e dinamicidades culturais que povoam e surpreendem o cotidiano em territórios africanos.

Espíritos Quânticos é uma relevante travessia ficcional para desvendar mundos, figuras, tempos, lugares e histórias da África. Indico a sua leitura porque, provavelmente, propiciará o conhecimento de eventos históricos e do presente e traços culturais africanos. Além disso, ler as suas narrativas, certamente, oportunizará reflexões sobre singularidades de seus signos linguísticos, culturais e sagrados e, indubitavelmente, favorecerá o importante exercício de (re) intepretação de seus sentidos e significados.

Salvador-BA, Brasil, 24 de novembro de 2021.

Ana Rita Santiago

Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

e da Universidade do Estado da Bahia.

Coordenadora Editorial do Selo Katuka Edições.

Lançamentos!

Editora 3009 busca contos inéditos de jovens mulheres estreantes

És mulher moçambicana e gostarias de ver o teu trabalho publicado pela conceituada editora 3009?

Com vista à celebração do dia 07 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, a Editora Trinta Zero Nove e respectivos parceiros pretendem publicar uma colectânea de contos no feminino. Se és mulher, moçambicana e tens um conto ou uma colectânea inédita que gostarias de ver publicada, faz como a Neusia. Deverás submeter um conto com um mínimo de 1500 (mil e quinhentas) e um máximo de 3000 (três mil palavras) acompanhado da tua biografia, declaração de que o conto é inédito e da tua autoria e dados de contacto para editor@editoratrintazeronove.org até às 23:59 de 03/02/22.

Outras maravilhas humanas

Oitentanoventa: entrevista com Mbate Pedro

Foi ao ar no dia 26 de Janeiro de 2022, a quarta (e primeira deste ano – 2022) sessão OITENTANOVENTA.

Nesta sessão, Venâncio Calisto conversou com Mbate Pedro.

Mbate Pedro nasceu em Maputo, Moçambique. É autor de vários livros de poemas, com destaque para Minarete de Medos e Outros Poemas (Índico, 2009), Debaixo do Silêncio que Arde (Índico, 2015), Vácuos (Cavalo do Mar, 2017) e Os Crimes Montanhosos (em co-autoria com António Cabrita, Cavalo do Mar, 2018). Com Debaixo do Silêncio que Arde foi agraciado com o Prémio BCI 2016 (para o melhor livro do ano publicado em Moçambique) e com uma menção honrosa do Prémio Glória de Sant’Anna 2015 (Portugal). Vácuos foi finalista do Oceanos 2018, Prémio Literário para os Autores dos Países de Língua Portuguesa. Mbate tem os seus textos (poemas e ensaios) dispersos em várias revistas literárias e jornais e tem colaboração em diversas antologias. Seus trabalhos estão traduzidos para inglês e italiano. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).

Sobre o entrevistador:

Venâncio Calisto nasceu em Maputo. É actor e encenador. Escreveu e dirigiu uma dúzia de peças; tendo-se já apresentado no Brasil e em Portugal. É fundador e director das companhias Katchoro e (In)versos. Publicou “O alguidar que chora ou a história das pedras que falam” (Humus, 2021). Participou nas antologias: Contos e crónicas para ler em casa – Volume I (Literatas, 2020) e Idai – marcas em verso e prosa (Gala Gala Edições, 2020). É membro do Movimento literário Kuphaluxa desde 2013 e colaborador permanente da Revista LITERATAS.Colaborou como jornalista cultural no Semanário Savana.Actualmente vive em Portugal, onde frequenta o Mestrado em Teatro, especialização em Teatro e Comunidade na Escola Superior de Teatro e Cinema, IPL. É formado em Teatro pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. Em 2018 foi distinguido com o prémio de Artes e Cultura da Mozal, na categoria de Teatro.

ACOMPANHE a conversa AQUI

Lançamentos!, Livros, Resenhas

Lançamentos: 12 sugestões para este Natal (em prosa e poesia)

Com o natal ao virar da esquina, vale a pena recordar que o livro é sempre um dos melhores presentes. Os livros estimulam a nossa imaginação e às vezes transformam as nossas vidas. Ao oferecermos um livro, acabamos também, por de certa forma, subscrever uma escolha para o leitor, uma escolha que de outra forma pode ser difícil, perante tantos livros e propostas disponíveis no mercado.

E por falar em tantos livros, em Moçambique os últimos meses foram repletos de novidades e lançamentos!

Preparámos a lista abaixo, contendo alguns livros novos, como sugestão para este Natal. Confira:

Prosa

  1. As Raízes do Rei, de Susana Machamale

Foi lançado no dia 9 de Dezembro de 2021, em Maputo, “As Raízes do Rei”, livro de estreia de Suzana Machamale. Este é o primeiro volume de uma tetralogia chamada “Príncipes Sangrentos”.

Durante o lançamento, a autora relatou o processo de publicação do livro, tendo dito que no início não acreditava ser possível a publicação em Moçambique deste seu primeiro trabalho, inclusive pela temática que aborda. Com mais de 290 páginas, o livro sai pela chancela da Kulera Editores.

Eis uma breve passagem da sinopse: “Dois reinos, quatro cabeças, mas apenas duas coroas. O carismático Ânjor e a ambiciosa Hanjy Karavejo são filhos da rainha de Taravin. mas, por serem gémeos, só pelo voto do povo pode-se definir qual dos dois será o primeiro na linha de sucessão ao trono. A angelical Yasy e a perversa Yagui Dantaze são filhas do reu Nunny.

Segundo o apresentador da obra, o professor Daúde Amade, “o livro retrata uma história de membros da mesma família que disputam a sucessão ao trono, chegando, até, a odiar-se. Entre os irmãos que disputam o trono e os reinos que se opõem pelo poder, forjam-se falsos sorrisos, traições, mortes e muito sangue mancha a história de uma família que, caso fosse possível, daria tudo pela permanência de um passado sossegado e sem conflitos”.

2. Gole de Lâminas, de Alberto Dalela

Fonte de imagem: Vymaps

Foi lançado no dia 24 de Novembro de 2021, “Gole de Lâminas”, livro de estreia de Albert Dalela, chancelado pela Ethale Publishers. Segundo a nota do blog Mbenga, esta é uma proposta que consiste em apresentar o sub-mundo da cidade de Maputo, ou seja, reflectir em torno da complexidade de conceitos e ideias da questão de ser e estar nas zonas suburbanas e na cidade.

3. O Abismo aos Pés, de Elton Pila e Eduardo Quive (organizadores)

Fonte de imagem: Amazon

Este livro, chancelado pela Editora Literatas, foi publicado em finais de 2020, tendo sido em Novembro de 2021 apresentado no Instituto de Camões, em Maputo, numa conversa com os organizadores, Elton Pila e Eduardo Quive. Contendo 232 páginas em entrevistas efectuadas a 25 escritores lusófonos, “O Abismo aos Pés” reflecte sobre a iminência do fim do mundo e oferece uma das leituras mais instigantes e inquietantes de todos os tempos.

4. No Verso da Cicatriz, de Bento Baloi

Fonte de imagem: Almedina

Um dos livros mais interessantes publicados este ano é sem dúvida “No Verso da Cicatriz”, romance que narra a história de Bernardo (e sua Helena). A trama é ambientada nos primeiros anos após a independência de Moçambique, iniciando com o protagonista Bernardo sendo afastado da amada, pelo Governo, que o leva de Maguaza (sua zona de origem) a Carico, sob a falsa acusação de ser uma Testemunha de Jeová.

Conforme se lê numa matéria da RFI, para além do conflito armado, Bento Baloi também aborda a operação durante a qual, nos anos 80, milhares de pessoas se viram forçadas a ir trabalhar em meio rural, longe das suas zonas de origem.”

O livro foi lançado em Agosto de 2021, simultaneamente em Moçambique e em Portugal, pela Editora Índico e pela Alêtheia Editores, respectivamente.

5. Histórias do outro mundo, de Carlos dos Santos

Fonte da imagem: Alcance

Nós do Diário de Uma Qawwi, amantes da ficção especulativa, não poderíamos, obviamente, deixar de mencionar o novo livro de Carlos dos Santos. Editado pela Alcance Editores e com cerca de 112 páginas, o livro reúne oito contos nos géneros ficção científica e fantástico, acompanhados de belíssimas ilustrações. Imperdível!

6. Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão

Por último, no género da prosa, fazemos menção, com muita alegria, à “Sina de Aruanda”, romance lançado no dia 8 de Dezembro de 2021, terceiro obra da administradora do Diário de Uma Qawwi. Num dos momentos mais marcantes da cerimónia, o apresentador do livro, o professor Albino Macuácua, mencionou que Sina de Aruanda “é um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico, ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, do “verdadeiro” amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.”

O livro sai pela chancela da Fundação Fernando Leite Couto em Maputo, e será publicado em 2022 pela Editora Malé, do Brasil.

Poesia

7. O Lugar das Ilhas

“O Lugar das Ilhas” é o novo livro da poeta Sónia Sultuane.

Sobre a obra, o apresentador do livro, o professor de literatura Nataniel Ngomane, explicou que as ilhas retratadas no novo livro de Sónia Sultuane não são necessariamente geográficas (Ilha de Moçambique, Cuba e as ilhas da Grécia), são ilhas que existem na forma de pensar humana”. In OPais

8. O Escutador de Silêncios, de Ricardo Santos

Também foi lançado recentemente um livro de poesia, de Ricardo Santos.

Os textos em “O Escutador de Silêncios” foram escritos na sua quase totalidade entre 2016 e 2019. Sobre esta obra, diz-nos o escritor Leo Cote, que “o prosaismo que esta poesia reflecte e sugere, resulta da vontade de contar histórias, muito ao jeito da tradição oral, e de construir um discurso que seja a ficção do hodierno e do simples, atingindo o natural e o espontâneo. Não é por acaso que o poema “Ânfora” faz alusão a isso.” In Mbenga.

9. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos, de Énia Lipanga

Este livro foi lançado no dia 12 de Novembro de 2021 e é a segunda obra de poemas de Énia Lipanga.

Segundo a Editora que chancela a obra, a Gala Gala Edições, “as vozes deste livro são femininas, ora inteiras, ora nada, ora em pedaços, para cantar os seus gozos e alegrias, e também as suas feridas e cicatrizes. “Talvez, por isso, chovam gotas íntimas em seus versos que escorrem fios e fiapos de prazer e, quiçá, de amor, travestidos de incertezas, poeiras, nuvens, sombras e desejos que incitam dores, emoções, saudades, menos regressos e mais recomeços”, escreve a professora Ana Rita Santiago.” In Gala Gala Edições

10. Calvário e a Cruz, de Jeconias Mocumbe

Recentemente lançado, em edição do autor, o livro de Jeconias Mocumbe (pseudónimo de Edilson Sostino Mocumbe) é uma antologia de poemas. Segundo Elísio Miambo, o apresentador do livro, a obra “apresenta-se como um exercício de exploração dos limites da metáfora, havendo, nesse processo, momentos em que ela própria (a metáfora) são lhe apresentados os seus vícios enquanto forma de codificação discursiva. De facto: se por um lado existem livros que tomam o leitor como imbecil a ponto de fornecerem informação desnecessária e que se resvala pela prolixidez, por outro, livros há que ou sobrevalorizam o leitor ou o seu autor não liga a mínima para uma possibilidade de haver alguma interatividade entre o leitor e a obra, correndo assim o risco de se tornarem incompreensíveis.”

Prosa em Infanto Juvenil

11. A Estranha Metamorfose de Thandi

Lançado no dia 24 de Novembro de 2021, o novo livro de Mauro Brito apresenta o conto “A estranha metamorfose de Thandi”, e é ilustrado pelo artista plástico Samuel Djive.

José dos Remédios, no OPais, descreve-o como “uma história de amor entre mãe e filha, Mbali e Thandi, personagens agrestes que constantemente enunciam lições universais, atinentes às circunstâncias domésticas e até mesmo comunitárias.”

A estranha metamorfose de Thandi levar-nos-á pelos meandros do interdito, do destino e da libertação, numa linguagem onde a narrativa e a poesia, o real e o imaginário, o presente e o passado se cruzam num espaço sem fronteiras distintas.

12. As Aventuras de Manuelito, de João Baptista Caetano Gomes

Esta foi uma das obras vencedoras do concurso Literário “Nó de Gaveta”, promovido pela Associação cultural Nkariganarte, em parceria com a Kuvaninga cartão d’arte. João Baptista venceu pela zona centro de Moçambique, ao lado de Cleyde Pamela (com o texto “O Sonho de Chinguana”) e Laliana Mahumane (com o texto “O outro lado das flores”), das zonas Norte e Sul, respectivamente. O autor participou da antologia Memórias do Idai, uma colecção de crónicas literárias que resultou de um concurso promovido pela Editora Fundza. Participa em antologias nacionais e internacionais. Em 2021, seu texto “Os vendedores de sol e lua” foi um dos 12 selecionados para a Oficina de Ficção Narrativa organizado pela Fundação Fernando Leite Couto. Tem escrito prefácios de livros e tem apresentado obras literárias de alguns escritores emergentes da Literatura Moçambicana.

Gostou das dicas? Inscreva-se no nosso blog ou siga-nos no noso facebook para ficar a par de outras novidades.

Outras maravilhas humanas

Oitentanoventa: entrevista com Luís Carlos Patraquim

Foi ao ar no dia 8 de Dezembro de 2021, a terceira sessão OITENTANOVENTA.

Nesta sessão, Hirondina Joshua e Léo Cote conversaram com Luís Carlos Patraquim.

Luís Carlos Patraquim, jornalista e poeta de créditos firmados, nasceu em Maputo em 1953. Foi co-fundador da Agência de Informação de Moçambique (AIM) e do Instituto Nacional de Cinema (INC) onde exerceu desde 1977 a 1986 a função de roteirista, argumentista, e redactor do jornal cinematográfico “Kuxa Kanema”. Fundou e coordenou a “Gazeta de Arte e Letras” da revista Tempo, em 1984. Da sua vasta obra, assinalam-se , por exemplo, os seguintes projectos: Monção (1980), A Inadiável Viagem (1985), Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora (1992), Lidemburgo Blues (1997), O Osso Côncavo e outros poemas (2005) e O deus restante (2017), este último vencedor do Prémio Oceanos (2018). Foi ainda distinguido com o Prémio Nacional de Poesia, Moçambique, em 1995. Patraquim vive em Portugal desde 1986.

Sobre os entrevistadores:

Hirondina Joshua é poeta moçambicana. Faz parte da nova geração de autores moçambicanos, com poemas traduzidos em Italiano. É redactora da revista InComunidade (Portugal) e curadora do projecto literário no Mbenga Artes & Reflexões. Publicou OS ÂNGULOS DA CASA (2016), COMO UM LEVITA À SOMBRA DOS ALTARES (2021) e A ESTRANHEZA FORA DA PÁGINA (Co-autoria com Ana Mafalda Leite, 2021). Foi distinguida com a Menção Honrosa do Premio Mondiale di Poesia Nósside (Itália, 2014). Hirondina Joshua é formada em Direito pela Universidade Eduardo Mondlane.

Léo Sidónio de Jesus Cote nasceu em Maputo. Frequentou o curso de Linguística e Literatura na Universidade Eduardo Mondlane. Foi professor do ensino primário e secundário. Atualmente exerce a profissão de revisor linguístico. Publicou EVA (2021), obra distinguida com a menção honrosa do Prémio INCM/Eugénio Lisboa 2020, EROTICUS: ONZE POEMAS E UMA QUADRA SOB MEDIDA (2020), CARTO POEMAS DE SOL A SAL (2012) e POESIA TOTAL (2013), esta última resultado do prémio literário 10 de novembro do Concelho Municipal da Cidade de Maputo, o qual venceu em 2012.

ACOMPANHE a conversa Aqui

Resenhas

Oitentanoventa: entrevista com Suleiman Cassamo

Foi ao ar ontem, dia 3 de Dezembro de 2021, a segunda sessão OITENTANOVENTA.

A OitentaNoventa é uma iniciativa focada na conexão intergeracional, que coloca as novas vozes literárias (escritores, poetas e críticos de arte) diante dos seus autores preferidos, para conversar sobre a escrita, os livros e a vida.

Nesta sessão, Mélio Tinga e Fernando Absalão conversaram com Suleiman Cassamo.

Suleiman Cassamo nasceu em 2 de Novembro de 1962 no distrito de Marracuene, província de Maputo.Em 1994 O REGRESSO DO MORTO foi apontado pela UNESCO como “obra representativa no património literário universal”. No mesmo ano, com o conto “O Caminho de Pháti”, foi vencedor do Prémio Guimarães Rosa, da RFI, União Latina e Casa das Américas em Paris num concurso aberto a contistas de língua portuguesa; com a A CARTA DA MBONGA, foi vencedor em 2015 do Grande Prémio Sonangol de Literatura, para autores dos países africanos de língua portuguesa e em 2017, do Prémio BCI de Literatura. Nesse mesmo ano, recebeu do Ministério da Cultura do governo de Moçambique o Diploma de Honra em reconhecimento ao seu contributo na promoção e desenvolvimento da Literatura Moçambicana.

ACOMPANHE a conversa AQUI

Lançamentos!

Divulgação de Resultados – Selecção para Antologia

Antologia Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa

Por ocasião do terceiro ano de existência do Diário de uma Qawwi, que se assinala este ano, foi aberto um edital para a recepção de textos a constar na antologia em epígrafe. O Diário de uma Qawwi pretende apoiar o desenvolvimento de novos tipos de produção literária africana, com particular enfâse à ficção especulativa.

Durante o período de submissões, foram recebidos e analisados 26 textos. Após uma cuidadosa e aturada leitura, a equipa do Diário de Uma Qawwi, determinou que 15 dos textos submetidos, reúnem os requisitos solicitados no edital publicado em Julho do corrente ano. Deste modo, foram aprovados os seguintes textos:

  1. O Caçador de Elefantes, de Adelino Albano Luís;
  2. O Portal de Chinhamapere, de Lex Mucache;
  3. No encalço de um espírito esperto, de Félix Casimiro Benhane;
  4. Náufrago de Sonhos, de Jeconias Mocumbe;
  5. Os Guardiões da Terra, de Andreia Edna da Silva;
  6. Clube de Vinganças, de João Baptista Caetano Gomes;
  7. O Receptáculo, de Marvin Muhoro;
  8. Túmulo Errado, de Ortega Teixeira;
  9. Mistérios da Terra, de Sónia Chagas;
  10. A Alima, a Mafurreira e Eu, de Ildo Isac Temótio;
  11. O Perdão de Nwalumambo, de Agnaldo Bata;
  12. A Paróquia do Padre João Pedro, de Teresa Taimo;
  13. A Mulher Hiena, de Luís Eusébio;
  14. O Arrendado imóvel com xipoco, de Mateus Tomáz Licusse; e
  15. As Chamas da Melancolia, de Dalencio Benjamim.

Todos os autores seleccionados neste edital são de Moçambique.

Por fim, o Diário de Uma Qawwi agradece o grupo de autores, que muito gentilmente aceitou o convite para contribuir e apoiar a materialização deste projecto. São estes, os seguintes escritores:

  1. Ávaro Taruma (Moçambique);
  2. Bento Baloi (Moçambique);
  3. Daniel da Costa (Moçambique);
  4. José Luis Mendonça (Angola);
  5. Jorge Ferrão (Moçambique);
  6. Leo Cote (Moçambique);
  7. Marcelo Panguana (Moçambique);
  8. Mélio Tinga (Moçambique);
  9. Mia Couto (Moçambique);
  10. Nick Wood (África do Sul);
  11. Oghenechovwe Donald Ekpeki (Nigéria);
  12. Shadreck Chitoki (Malawi);
  13. Suleiman Cassamo (Moçambique);
  14. Vera Duarte (Cabo Verde); e
  15. Zukiswa Wanner (África do Sul).

O lançamento da antologia esta previsto para o primeiro semestre de 2022.

Maputo,

Os Coordenadores da Antologia