Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema | 3 por cento – temporada 3 – Opinião

Opinião

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Imagem via Netflix

Quem acompanhou as temporadas anteriores de 3% por cento, irá facilmente compreender os motivos de muitos considerarem esta série como a versão brasileira de hunger games. De facto, num universo tão distópico quanto o da referida produção americana, 3º por cento apresentou-se forte e estabeleceu um alto padrão de qualidade, capaz de satisfazer tanto o público alvo, como o menos comum

A 3ª temporada mantém os temas do início. Apesar da ligeira desaceleração e da ausência de algumas personagens chaves, há desenvolvimento de novas narrativas, com uma dinâmica fresca, colmatando estas ausências. Nesta nova fase, Michelle (Bianca Comparato), criou a concha, um sistema alternativo ao do Mar Alto e ao do Continente. O sistema tinha tudo para dar certo, até começar a descarrilar, por causa da natureza humana.

A discussão sobre valores morais, a miséria e a divisão de mundos continua premente. Porém, nesta temporada, onde os personagens são assaz voláteis, somos capazes de ver, de forma interessante, até que ponto a fome é capaz de transformar as personalidades, aflorando o nosso lado mais negro. Se isto é um ponto positivo, deve admitir-se também que houve algum exagero, pois alguns personagens acabam passando a impressão de ter excessiva ambiguidade. Rafael (Rodolfo Valente) e Marco (Rafael Lozano) cresceram bastante nesta fase. Já Joana (Vaneza Oliveira), continua consistente ao que já nos habituou.

Apesar do acréscimo no orçamento para este ano, julgamos que a nível estético os cenários poderiam estar melhor. Já a música seguiu original.

Esta temporada, por certo, mostra um amadurecimento da produção e abre espaço para a continuação da exploração destes temas que tendem a mostrar-se cada vez mais relevantes no mundo actual.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema |La casa de papel – temporada 3 -Opinião

Opinião

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Imagem via Netflix

Finalmente foi lançada (a 19 de Julho) na Netflix, a nova temporada de La casa de Papel (Money Heist) tão aguardada pelos fãs. Esta sequela não entra de forma tão arrebatadora como as predecessoras, mas depressa amadurece nos episódios seguintes, arrancando o fôlego do telespectador.

A nova temporada centra-se na saga desta corajosa e adorada gangue, que tenta  resgatar Rio, cativo pela Polícia. Para tal, embarcam num novo plano de assalto, liderado pelo Professor (Álvaro Morte).

 A nova temporada também abre as portas para novas personagens, que incrementam a dinâmica do grupo. É feito um incrível trabalho com os flashbacks. Aliás, esta técnica, que permite que a história não siga necessariamente uma sequência, foi sempre bem conseguida nesta produção. A boa notícia é que, por esta via, Berlim (Pedro Alonso) está mais vivo do que nunca.

A trama não difere muito da que foi apresentada antes, com a ferrenha batalha entre a polícia e os ladrões no foco, coadjuavada pelo drama que nasce dos relacionamentos entre os personagens.

O assalto e as motivações, fazem desta a mais cínica e audaciosa das séries. Causa impressão a forma como são retratadas as autoridades, para que o roteiro funcione e haja empatia com relação aos anti-heróis (caso para pensar que a nova inspectora, Alicia Sierra (Najwa Nimri), fria e destemida, ainda vai dar o que falar).

Destaque vai para Nairobi (Agatha Jimenez), que ganhou mais força nesta nova fase e continua com uma sólida interpretação. Denver (Jaime Lorente), o mais emotivo de todos, também segue a brilhar. Temas como empoderamento e o género seguem evidentes nesta nova temporada.

Se você gostou das temporadas anteriores, vai apreciar esta continuação, pese embora possa ficar com uma certa sensação de angústia, visto que, muito ao seu estilo, na história desta gangue, tudo pode dar errado. Nada que um bom desfecho não resolva, aquando da 4ª temporada, ainda sem data prevista para o lançamento.

Confira o trailer:

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas.

Telenovelas

Novelão: vampiros, anjos, demónios e outros personagens fantásticos nas telenovelas

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Sétimo Guardião – Léon (Reprodução/TV

Personagens fantásticos e seres sobrenaturais ambientam o mundo da literatura fantástica. Autores como J.R.R. Tolkien, George Martin e J.K Rowling são algumas referências de excelência na matéria, tanto que muitas das suas obras ganharam adaptações cinematográficas.

No mundo das telenovelas, tal também é notável, através do realismo mágico, que caracteriza, por exemplo, várias novelas de Aguinaldo da Silva. O sétimo guardião, novela deste autor, que acaba de terminar na TV Globo, parece ter envolvido todo um cenário mágico / fantástico, com seres sobrenaturais, como Leon, o gato que assume forma humana (ou vice-versa). Pelas repercussões nas redes sociais, o sétimo guardião talvez não tenha tido das melhor recepções pelo público. Entretanto, há tramas do passado da TV Globo que trouxeram personagens sobrenaturais memoráveis, entre anjos, vampiros, demónios, fantasmas e videntes à mistura.

Na resenha desta semana, reunimos dez personagens que valem a pena ser relembrados quando se trata de misticismo. Vamos conferir?

10. Sete Pecados (2007) – Custódia, o anjo atrapalhado

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Foto: Leo Lemos, divulgação Globo

Soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria são os sete pecados capitais que definiam a trama de Walcyr Carrasco. Nesta novela, Custódia (Cláudia Jimenez) era o anjo da guarda de Beatriz (Priscila Fantin). Custódia tem uma harpa que tenta tocar nas horas vagas, mas é muito desafinada. Por ordem de Gabriel (Erik Marmo), tem a missão de salvar Beatriz, mas o anjo atrapalhado acaba somente por criar mais confusões.

9. Um anjo caiu do céu (2001) – Rafa, o anjo meninão

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João Medeiros (Tarcísio Meira) e Rafael (Caio Blat) em Um Anjo Caiu do Céu (divulgação)

Um Anjo Caiu do Céu, novela de António Calmon, é uma comédia sentimental que conta a história de um famoso fotógrafo (Tarcísio Meira), que durante muito tempo dedicou-se exclusivamente às causas humanitárias. Durante uma exposição em Praga, ele sofre um atentado que deixa-o à beira da morte. A sua vida é salva pelo anjo Rafael (Caio Blat). Nas suas aparições iniciais, Rafael funciona basicamente no humor e, não fosse o ambiente sobrenatural, pareceria simplesmente um jovem muito simpático e normal. (in memórias da Globo).

8. A Indomada (1997) – Emanuel, o anjo sensível

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Nesta telenovela, os autores Aguinaldo da Silva e Ricardo Linhares misturaram o realismo fantástico, a cultura nordestina e os hábitos ingleses para fazer um retrato bem-humorado do Brasil (in memórias Globo). Na história, Emanuel (Selton Mello), filho de Teobaldo (José Mayer) é um rapaz diferente, cândido e inocente. Tem crises repentinas e premonições. A sua natureza é explicada na recta final da novela, quando ele transforma-se em anjo.

7. Fera Ferida (1993) – Camila, o anjo que dorme

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Foto : http://4.bp.blogspot.com/-R

A vingança e a cobiça eram temas de Fera Ferida, trama de Aguinaldo da Silva e Ricardo Linhares. Na história, Camila é um anjo que dorme durante meses e, de repente, acorda a levitar, depois de sentir o cheiro da sua comida favorita.

6. Olho no Olho (1993) – Fred, o paranormal demoníaco

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Foto: Tv história

Olho no olho, escrita por António Calmon, abordou a paranolmalidade, a corrupção, e a luta entre o bem e o mal. É dito que a trama “pesada”, na altura, afugentou um pouco os telespectadores. Não era para menos, já que Fred, jovem paranormal bastante perverso, era filho do demónio. Este é o tipo de novela que poderia ser vista com outros olhos numa reprise (já agora, porque é que ainda não houve uma reprise?)

5. O fim do mundo (1997) – Joãozinho Dagmar, o profeta do apocalipse

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Foto: Globo Extra

A novela criada por Dias Gomes era bastante curta, mas trazia uma interessante provocação: o que faríamos se nos restasse somente um dia antes do fim do mundo? Joãozinho Dagmar, o protagonista, é um vidente e paranormal, que faz várias previsões acertadas. Ele demonstra os seus poderes exalando perfumes, entortando metais à distância, transformando água em cachaça e eliminando alguns problemas da vida das pessoas. É ele quem acaba por trazer as más notícias sobre os dias do fim.

4. Vamp (1991) – Natasha, a vampira estrela do rock

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Vlad (Ney Latorraca) e Natasha (Claudia Ohana) em Vamp (Divulgação/TV Globo)

De António Calmon, vamp, um grande hit da época, trazia uma comédia sobre vampiros, ambientada por muito suspense e rock. A famosa estrela de rock Natasha (Cláudia Ohana) conquistou sucesso graças a um pacto sombrio feito com o vampiro Vladimir Polanski (Ney Latorraca) que a transformou em vampira. No decorrer da trama, Natasha tenta desfazer o pacto.

3. O beijo do vampiro (2002) – Zeca, o pequeno e amoroso vampiro

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Foto: Gianne Carvalho / Globo

De António Calmon, trata-se de uma novela que veio novamente explorar o mundo dos vampiros. A trama retracta a história de Zeca, um rapaz amoroso e amado pela família, que, entretanto, é filho de um vampiro com mais de 800 anos. Os problemas de Zeca começam quando ele descobre a sua real natureza.

2. Cara e Coroa – Geninho, o fantasma do quadro

Mais uma novela de António Calmon, Cara & Coroa retratou a história de duas mulheres fisicamente idênticas mas com personalidades distintas. Na história, Luis Fernando Camarão dava vida a Geninho, o menino do retrato num quadro, que regressa do passado e dos mortos para conversar e apoiar a pequena Belinha (Luiza Curvo).

1. A viagem (1994) – Alexandre, o fantasma vingativo

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De Ivani Ribeiro e com um tema mais intenso e mais dramático do que as novelas anteriormente mencionadas, a viagem abordava a vida após a morte, de acordo com a doutrina espírita kardecista. Retratados desta forma, alguns espíritos davam muito que pensar. Tal era o caso de Alexandre, um espirito mau e vingativo que atormentava praticamente a todos da novela. Bastava a sua aparição de negro, e o seu olhar azul afiado, para gelar até os próprios telespectadores.

Concorda com a nossa lista? Qual outro personagem você colocaria aqui?

Desabafo de uma qawwi

#30|Seria a malária de uma cruz, o amor febril sob um céu azul?

A malária é uma doença infecciosa, transmitida por mosquitos e causada por protozoários transmitidos pela fêmea infectada por plasmódio. O período de incubação da malária varia de acordo com a espécie de plasmódio e qualquer humano pode contrai-la. Os sintomas mais comuns da malária são a febre, calafrios, fadiga, vómitos, náuseas e dores de cabeça. Em casos graves pode causar convulsões, coma ou morte. Entre as principais medidas de prevenção individual da malária estão o uso de mosquiteiros, roupas que protejam pernas e braços, telas em portas e janelas e uso de repelentes. É muito importante, assim que diagnosticado, tratar a doença.

Oxalá eu tivesse sabido toda esta informação há algumas semanas, antes da minha última viagem. Achava que o meu corpo não pudesse sofrer nada além de uma “dorzinha de cabeça”. Mas podia.

Passei a tarde inteira sem apetite. A moleza a roer os ossos é a sensação mais estranha que já tive em toda a minha vida. É oficial: pela primeira vez, estou doente.

– Tens que ir ao hospital – adverte Érica que está a passar uma temporada comigo – meu Deus – assustada, retira a mão da minha testa, como se tivesse levado um esticão – vou ligar para o pai.

– Filha, nem pensar.

A minha cabeça turva-se de pensamentos tumultuosos. Embora esteja perplexa com os acontecimentos no meu corpo, não quero incomodar Will. Mas o estômago desafia-me. E todas as minhas caras ilusões, de ser autossuficiente e aguentar-me só, como uma valsa despojada de orquestra, começam a dissipar-se debaixo dos calafrios que congelam-me a pele. Érica parece estar certa. Talvez seja melhor ir ao hospital. Penso em chamar um táxi, mas quem tomaria conta da menina? Em quem confiar? Incapaz de fazer mais equações, agarro-me ao que resta de lucidez e faço a tão temida chamada.

Estou?

– Will, podes vir à minha casa, por favor?

Capto uma espécie de impaciência na sua voz.

– Agora? – e depressa acrescenta – Passa-se algo com a Érica…?

– Nao, Will, sou eu. Acho que não estou muito bem.

Dou por mim no meio da neve de Russia. Mas depois lembro-me que já não sou do tipo que se teletransporta. Russia é o meu próprio corpo.

– Talvez precise de ir ao hospital. – digo com urgência.

Sinto uma respiração pesada e hesitante do outro lado da linha.

– Certo. Estarei aí em dez minutos. Quinze no máximo. Até já.

A verdade é que não me lembro de como ele chegou. Tenho a vaga ideia de ver Érica abrir uma porta, ter estado numa clínica, e finalmente, debruçada sobre um lavatório todo vomitado.

Abro os olhos no leito da cama. Toalhas húmidas e carteiras de medicamentos quedam-se pela cabeceira. Um sobretudo escuro espreita pelo braço da poltrona e uma voz familiar atravessa a porta fechada.

Lamento imenso. Posso ter outra chance? Sim, eu sei. Acabei perdendo o voo, mas deveu-se a uma emergência. A minha esposa está doente, tive que cancelar a viagem. Sim, sim… claro, engenheiro, é bastante razoável. Agradeço eu pela compreensão. Grato e até breve.

Alguns minutos depois, a porta afasta-se num chiar, revelando a figura de Will. Envergonho-me por sentir-me tão parvamente aliviada.

Ele senta-se à borda da cama, e ao ver o meu hermético trejeito, faz-me um carinho no rosto.

– Malária de uma cruz não é brincadeira, meu anjo. Mas já, já estás melhor.

– Ias viajar Will?

Ele sorri apologeticamente, continuando a carícia.

– Não te preocupes com isso, já remarquei, está tudo tratado.

– Oh Wilson…

Claro que preocupava-me. E desejo escapar desta minha ineficiência. Ressinto-me da ausência de tenacidade da carne humana, consome-me um estrepitoso embaraço.

– Lamento que tenha prejudicado os teus planos Will, não imaginei.

– Não lamentes – ele faz com que a sua mão deslize pelo meu cabelo, com o vagar e a harmonia da água de chuva, que corre simétrica entre os dedos – Tu e a Érica são muito importantes para mim. Vocês são o meu bem mais precioso. Sabes disso.

Querendo retardar a dor súbita, de imaginar-me a estar sem ele, olho-o nos olhos.

– Quanto tempo demora para isto curar, Will?

Ele inclina a cabeça e junta as mãos. O gesto dá-me a entender que tem uma questão mais premente aguardando a luz.

– Pelo que eu saiba, Linan, tu tens o dom da cura – de seguida abana a cabeça, incrédulo – nunca foste de ficar doente. Ou de teres um trabalho como o meu… quer dizer, mundano. De repente pareces tão…

– Humana?

Will aspira a assumpção com os olhos contritos de perplexidade.

– Foi uma escolha minha – asseguro. E agora que o digo alto, percebo que é verdade. Não foi responsabilidade dele, nem de Érica. A concretização do destino exigiu que atravessasse a singularidade das minhas escolhas e aceitasse as consequências. Exclusivamente minhas. É verdade que a transformação tinha sido dolorosa. Foi como abrir feridas por dentro, renunciar à própria sombra, correr para poder alcançar-me, mordida de revolta, de angústia. De tanto correr, vendaram-se os meus olhos. Julguei que ser humana era saber depender apenas de mim própria. E era. Porém, equivoquei-me ao pensar que tal implicava ignorar o amor que ainda sentia por Will. Reprimido na sua infinitude. Um soluço apertado. O tipo de amor que não se afoga nem num buraco negro.

– Lamento, Will.

Sob o lençol, seguro a sua mão. Ele aperta-a com força. O seu coração parece um balão a inflamar. Olho para baixo, para os nossos dedos entrelaçados. Os seus tremem. Acarico-os com o polegar, até que se acalmem.

– Devia ter ficado feliz por teres tentado seguir em frente quando parti, Will.

– Nunca segui, Linan.

– Não, não te atrevas. Não te condenes. Seguir e recriar laços é o que humanos fazem. Amo-te muito. Mesmo que estejamos separados. Não importa onde, nem como. Quero que sigas feliz. Sempre. E…

– E quem disse que eu me separei de ti? – a luz que eu achava ter desaparecido dos olhos de Will resplandece no momento em que a sua boca assalta a minha, num beijo quase violento de avidez, com um tipo de febre que suplanta o calor do meu corpo. Eram toneladas de desejo acumulado que ferviam no sangue. – Não me separei de ti – reafirma sem fôlego – e nunca o farei – continua selando o derradeiro facto nos meus lábios.

– Mas… – gaguejo afastando-me por um segundo – e os papéis…?

– Dei-te o espaço que pediste. O divórcio que querias. E odiei nós dois por isso. Mas depois acabei por compreender o que sempre tentaste dizer-me. O amor é livre. Não é um papel que vai ditar as suas condições. Devia ter respeitado isso. É um direito natural ser amado, não é?

Os meus pulmões ardem quando solto o ar para fazer um pedido, que não mais podia hesitar:

– Engenheiro Wilson, beije-me de novo.

Tomo a liberdade de moldar-me ao seu corpo, como o mel que adere às paredes de um forno quente.

– Pára, mulher – ele segura-me os pulsos tentando travar-me – estás doente.

Puxo-o de novo, tonta com os meus próprios movimentos. Onde estaria a cura senão no amor? Rendido, ele entrega-se, incapaz de abrandar, percorrendo o meu corpo com uma sede tão insaciável quanto a minha.

– Valha-me Deus, Linan! – aflito, recobra a razão que o força a impor uma pausa – há que termos juízo. Precisas de descansar.

Aceito a mistura de prazer, dor e fadiga como um sinal de que se calhar ele tem razão. Então, encosto a cabeça no seu colo e deixo-me ficar quieta, apreciando o céu azul e o luar que penetra pelas janelas. Pelas leis escritas, nenhum dos dois estava obrigado a ficar. Podiamos sair da vida um do outro a qualquer altura. Mas ambos queríamos ficar. E se calhar íriamos continuar a querer. Pelo menos naquela noite. Talvez também na manhã seguinte. Se possível, na semana posterior. E quem sabe, a vida inteira.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | Aladdin – o tapete mágico para uma saudosa viagem | Opinião

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Imagem: Pipocasclub

Título: Aladdin

Direcção: Guy Ritchie

Elenco Principal: Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Nasim Pedrad

Género: Fantasia; Romance; Live-action; Musical

Ano: 2019

Sinopse

Um jovem humilde descobre uma lâmpada mágica, com um gênio que pode conceder-lhe 3 desejos. Agora, o rapaz quer conquistar a jovem por quem apaixonou-se, desconhecendo o facto de que a mesma é a princesa do reino. Com a ajuda do gênio, ele tenta passar-se pelo Príncipe Ali, para conquistar o amor de Jasmine e a confiança do sultão.

 Opinião

Deste lado somos da geração que até hoje guarda na memória cada diálogo e canção deste que é um dos clássicos mais bonitos da Disney. Não é assim de surpreender, que estivéssemos muito curiosos com relação a esta live-action, quando não para conferir as impressões inicias, para matar as saudades desta animação. E é isto que o filme proporciona: uma agradável viagem pelo tempo, no tapete mágico das lendas árabes. Todavia, embora tente manter-se fiel ao clássico, com as devidas (e necessárias) adaptações, o filme acaba por perder parte do glamour e do brilho da animação original. O que terá acontecido com os elefantes, os camelos, os mamíferos raros e toda a pompa que acompanha a grande entrada do príncipe Ali? E o ambiente idílico, com direito a passagem por magníficas garças e pelas pirâmides de Gizé, na canção “a whole new word”? Pode ter sido deficiência dos efeitos CGI ou meramente, alguma falta de esmero nesses detalhes?

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Olhando para os personagens, ficamos, honestamente, deveras desiludidos com a escolha para Jasmine. Nada contra Naomi Scott, que provou ser uma excelente actriz, à altura desta nova personagem, ávida por direitos iguais e empoderamento. Excepto, entretanto, que em nada ela parece a Jasmine da animação. Marwan Kenzari, tão pouco esteve à altura do carismático Jafar. Na verdade, Kenzari está extremamente fraco, demasiado sério, e nada vilanesco. Mas também, convenhamos, seria difícil conseguir trazer na plenitude a elegância do clássico vilão. Fora estes senões, há aspectos dignos de apreciação.

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Imagem: portalapmais

A interpretação de Will Smith é das mais originais e rende à película diversas cenas engraçadas e inesperadas, fazendo justiça à personagem da animação, vivida em voz pelo saudoso Robin Williams.

Por outro lado, apesar de não ter a mesma energia do Aladdin original, Mena Massoud transmite sensibilidade e charmes únicos, fazendo deste ladrão generoso um personagem muito querido. Mena revela-se assim, uma escolha bastante apropriada. É fácil temo-lo como o Aladdin da vida real.

As canções do filme estão soberbas, com destaque para novos hits, incluindo “Speechless”, que tem uma belíssima interpretação de Naomi Scott. Em resumo, é um bom filme, que apesar de ficar algo aquém da animação, vai entreter e encantar os amantes de Aladdin.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Desabafo de uma qawwi, Dia a dia de uma qawwi, Dicas

#29 | artigos que não podem faltar em casa (e no coração) de um ser humano – casos de emergência

 

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Imagem: rutagourment

Sonolenta, deambulo pelas vastas esquinas do centro comercial. Porque é que estas tais “lojas” tem de ser tão grandes? Por outro lado, tivesse eu dormido na cama, teria evitado as dores nas costas. Todavia, adormeci no sofá da sala, a ver na tv as notícias sobre ciclones tropicais. Por conta disso, a primeira coisa que fiz ao acordar na manhã seguinte, antes de ir ao cartório, foi verificar os armários, e compilar uma lista de compras. Neste planeta, tudo é possível, especialmente nos últimos dias, em que as mudanças climáticas fazem valer a sua definição. Desastres naturais são imprevisíveis e inevitáveis. Em caso de emergência, um pouco de preparação e alerta, pode significar a linha ténue entre a vida e a morte.

Começo a recolher da prateleira os itens da minha lista. O primeiro é a água. Os humanos julgam que este bem está disponível a todo o tempo. Por causa da minha missão, posso garantir com toda a segurança, que não é o caso. Até porque pode ocorrer de ficarmos sem sistema de abastecimento, ou simplesmente impedidos de sair de casa. Regra de ouro: ter boas reservas de água potável. 4 litros por pessoa, por dia, deve ser suficiente.

Item número dois: medicamentos. Apesar de recorrer a eles só em última instância, é sempre bom ter um kit com pelo menos paracetamol. E no meu caso, já que agora qualquer ferimento precisa de cuidados (ja não cicratizo automaticamente), um kit de primeiros socorros também ajuda.

O terceiro item são velas. Corrente eléctrica pode falhar. Manter um conjunto de velas e um pacote de fósforos pode salvar do escuro durante esses períodos incertos.

Quarto item: comida não perecível. A cruz vermelha recomenda ter sempre comida para pelo menos duas semanas em caso de nos encontrarmos retidos em casa ou à espera de evacuação. Não é necessário que se acumule somente enlatados de feijão. Podemos ter comida não perecível que na verdade vamos gostar de comer, numa situação destas.

Por último, vou atrás de pilhas. Desde que estejamos bem preparados, telemóveis e computadores (essas ferramentas que tornaram-se um só com os humanos), podem continuar a funcionar, mesmo se a electricidade for abaixo. É sempre bom manter power banks carregados, baterias carregáveis e pilhas para os paraelhos que funcionam a essa base. Assim mantemos contacto com os mais próximos em caso de emergência.

– Linan?

As pilhas quase caem no chão. Não creio nos meus olhos.

– Fatinha…!

Recebo dois ardentes beijos no rosto. O calor deixa-me embaraçada. O que faço com esta vontade de abraçar Fatinha? À medida que o tempo sarou-me, senti a sua falta. Da sua amizade. Enquanto em conflito comigo mesma, não fui capaz de perceber que havia sido algo injusta com ela. Ensaio dentro de mim as desculpas. Mas limito-me a comentar:

– Há muito que não te via, Fatinha.

– Mudei de cidade. Linan, sinto-me tão culpada por tudo o que aconteceu…

– Fatinha…

– Deixa-me falar, por favor. Nunca tivemos oportunidade.

– E nem é preciso…

– Para mim é – interrompe com firmeza – Fiquei para morrer quando tu e Will terminaram. Estávamos arrasados pelo teu desaparecimento e talvez tenha sido esse desespero que acabou levando-nos a cometer aquele deslize. Porque foi só isso, um deslize. Algo passageiro, numa noite de bebedeira e de lágrimas. Depressa nos apercebemos que tinha sido um erro. Will é um homem especial, e não vai amar outra que não tu. E sinceramente, nunca perdoei-me por ter perdido a tua amizade.

As palavras entalam-se na língua. Dou por mim envolvida pela lembrança da visita ao cartório naquela manhã. Tinha sido com o propósito de assinar os papéis do divórcio. Não foi uma experiência agradável. A sala quente guardara uma gelada agonia. Uma tensão parecida a do ambiente que espera um caçador abater a presa. É um processo doloroso por natureza. Pouco humano. Will e eu assináramos a certidão, sem trocarmos muitas palavras. No fim, ele foi-se embora. Nem sequer lembro-me de ter visto o seu rosto. Parte de mim ficou derrubada ao saber que “oficialmente”, passáramos a ser nada um para o outro. Mas assim era. A reciclagem humana. O varrer e o despejo dos cacos.

– Não guardo ressentimentos Fatinha, e honestamente, peço desculpas se tratei-te mal. Na verdade o Will e e eu acabamos de assinar o divórcio.

– Oh não. Linan…

– Va la Fatinha – os meus lábios curvam-se num leve sorriso e então abraço-a. – não te sintas mal. Compreendo. Passa lá por casa um dia destes.

– Passo sim – concorda Fatinha

É incrível como tudo passa. Quem diria. Neste momento, nada do que tinha acontecido importava. Eram apenas marcas e recordações, como a foz que desaguou no mar.

Confiro os itens no cesto. Está completo. E dentro de mim, como a ponta de uma vela, acende-se uma estrela, clareando o sentimento renovado de tranquilidade e reconciliação. Coisas indispensáveis para o coração de um ser humano.

Resenhas

7 passos para superar o fim do relacionamento através da música

O fim ou a perda de qualquer relacionamento humano (amizade, namoro, rompimento familiar) é doloroso. Especialmente quando a pessoa com quem rompemos é importante para nós. Por isso os psicólogos equiparam à uma perda física. É dito, inclusive, que os 5 estágios da perda (negação, negociação, ira, depressão e aceitação) também aplicam-se a um rompimento.

Há quem atravessa esses estágios de uma vez. Há quem o faça aos poucos. Há quem não segue a sequência, e há os mais fortes, que dispensam algumas ou todas essas etapas.

Onde entra a música aqui?

Bom, canções não servem somente para entreter. Elas têm um impacto mais profundo no nosso consciente. Assim é, que na psicologia desenvolveu-se a corrente da musicoterapia.

A resenha de hoje traz temas musicais, que podem servir de terapia no processo do rompimento, caso o seu coração esteja a atravessar uma fase mais cinzenta. Vamos a isso?

Fase 1 – Em buscas de respostas

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A fase mais melancólica e dramática. Não importa se você é homem ou mulher, se foi obrigado(a) a terminar, ou se foi você o largado(a). Nessa altura, é normal buscar-se respostas.  Questionar o porquê do fim. Afinal, a repentina ausência daquela pessoa, dói. Aproveite para escutar as músicas nesta secção. Sinta-se à vontade para gemer na almofada, pois não há vergonha nenhuma nisso. Faz parte do processo.

Where did we go wrong – Toni Braxton e Babyface

Onde é que falhamos? Será que é tudo culpa minha?”

Ilegal – Shakira

Desde que foste embora, ando a roer as unhas. E a fazer-me as mesmas perguntas, de novo e de novo

Fase 2 – Negação

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Imagem: Shutterstock / Antonio Guillem

Claro, tem aqueles momentos em que simplesmente nos recusamos a aceitar que acabou. E agimos como verdadeiros tolos. É normal. E há quem está pior que nós. Escute:

Impossível acreditar que perdi você – Toni Platão

Não, eu não consigo acreditar no que aconteceu. É um sonho meu, nada se acabou. É impossível, não consigo viver sem você. Volte, venha ver, tudo em mim mudou

Fase 3 – Negociação

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E então, caímos na asneira de implorar e tentar negociar. Dizemos que vamos melhorar os nossos defeitos, que vamos abandonar certos hábitos (ao estilo super dramático de Leonardo). Não faça nada disso. O amor não se mendiga. Ninguém muda nem dá nada, se não quiser fazê-lo por iniciativa própria. Portanto, Se for negociar, inspire-se na música abaixo, só e somente se achar que de facto vale a pena lutar por esse amor.

If you leave me now – Chicago

Se me deixares agora, levarás grande parte de mim. Por favor, não vás. Quero que fiques. Um amor como o nosso é difícil de encontrar

Fase 4 – Recaída

A certa altura, um dos dois vai ficar tentado a voltar atrás. Nem que seja apenas para relembrar os velhos tempos. Nesse momento, entra-se numa espécie de limbo. Afinal de contas, a relação terminou, mas vocês continuam a ver-se. Lembre-se apenas de uma coisa: você não nasceu para ser joguete. Grandes são as chances de as coisas continuarem onde estão, ou seja, no término. Para o seu próprio bem, evite as recaídas. Vá mas é sair com amigos, curta aquele futebol, aquele cineminha e quando sentir-se prestes a cair em tentação, dance ao som destas canções:

Dance you off – Benjamim Ingrosso

Quero apenas dançar até esquecer-te. Quero sentir este momento com qualquer outra pessoa, menos tu. E vou conseguir

Call me when you’re sober – Evanescence

Não chores para mim, se me amasses, estarias aqui comigo. Se me queres, vem encontrar-me. Decide-te

Fase 5 – Ira

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O fim de um relacionamento, principalmente se repentino e “injusto”, pode deixar-nos irados. Por tudo o que sofremos, temos todo o direito de nos sentirmos zangados. Liberte a fúria, e grite ao som destas músicas:

Love yourself – Justin Bibier

Tenho estado tão concentrado no trabalho que nem me apercebi do que estava a acontecer. A verdade é que durmo melhor sozinho

Irreplaceable – Beyoncé

Não vou derramar uma lágrima por ti. Nem perder uma sequer noite. Porque na verdade o que impora é que substituir-te é muito fácil

Never ever – Taylor Swift

Nós nunca, nunca, jamais, voltaremos a estar juntos

Enquanto eu brindo cê chora – Bruno e Marrone

Enquanto eu brindo ‘cê chora. Porquê não levanta da mesa tem táxi lá fora? Você se achava perfeita, insubstituível. Te ver desse jeito chorando era tão previsível

Fase 6 – Aceitação

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Source: Image Source/Dan Bannister / Getty

Depois do momento da ira, começamos a aceitar a realidade. Acabou. É normal sentir saudades. Ainda assim, somos capazes de compreender que a dor aos poucos passará. Há que ter paciência e ser gentis connosco mesmos.

 Better in time – Leona Lewis

Com o tempo, vai melhorar

Sleeping with a broke heart – Alicia Keys

Esta noite vou encontrar uma forma de seguir sem ti

Fase 7 – caminho da esperança e rumo ao futuro

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Imagem: Pinterest – in Breath Travel

E então, chega a fase em que você volta a sentir-se forte, de bem com a vida, cheio(a) de esperança. Celebre a vitória do coração sarado ao som destas músicas:

Survivor – Destiny Child

“Sou uma sobrevivente, não vou desistir, continuarei a sobreviver”

I’m still standing – Elton John

“Continuo em pé. Bem melhor que antes”

I’m still breating – Toni Braxton

“Achaste que o meu mundo ia acabar, no momento em que saíste por aquela porta? Não, não eu. Ainda estou a respirar”

A canção campeã…

Afinal de contas, o mais importante, antes de tudo e de qualquer coisa, é sabermos ser felizes, perfeitamente sós. Procede?

Perfeclty lonely – John Mayer

Nada por fazer. Ninguém senão eu próprio. E é tudo o que eu preciso. Estou perfeitamente só. E é desse jeito que quero estar

Outras dicas:

Quando estiver triste por causa de um rompimento, tente fazer coisas que o animem. Não remoa o assunto. Foque-se em si, viaje bastante, esteja com amigos(as), divirta-se, e sobretudo, ame-se muito. Não se agarre ao passado, nem se deixe levar pelo pensamento de que você fez algo de errado. Se terminou, talvez, simplesmente, não fosse para ser.