Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | A Confissão da Leoa, de Mia Couto | Opinião

No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.

“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”

Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.

Classificação: 5 em 5 pontos

Por Virgília Ferrão

Lançamentos!, Livros

Chamada para publicação de autores portugueses e Moçambicanos

Chamada para publicação de autores portugueses

Antologia Espíritos Quânticos Volume 3: Ficção Especulativa Moçambique – Portugal

O Diário de Uma Qawwi é um blog literário moçambicano criado em 2018 e registado em 2021 como editora independente. Desde a sua criação, o blog tem se dedicado a apoiar o desenvolvimento de novas formas de produção literária, com especial ênfase na ficção especulativa. A antologia Espíritos Quânticos nasceu com o intuito de mostrar que o continente africano também é lugar de futuros imaginados, mundos fantásticos, tecnologias avançadas, sociedades utópicas e distópicas, com narrativas contadas a partir de uma linguagem e identidade cultural próprias. A antologia conta até o momento com dois volumes e perto de quarenta e cinco nomes da literatura africana, incluindo Carlos dos Santos, Déborah Cardoso Ribas, Lucílio Manjate, José Luís Mendonça, Nick Wood, Mélio Tinga, Mia Couto, Vera Duarte, Wole Talabi e Zukiswa Wanner.

Entretanto, desde a sua origem, também era ambição deste projecto, expandir-se para além do continente africano. Acreditamos que a língua portuguesa é um território fértil para este género e, finalmente temos a oportunidade de concretizar esta aspiração. Espíritos Quânticos Volume 3: Ficção Especulativa Moçambique – Portugal, pretende unir vozes de autores destes dois países, criando um diálogo intercontinental que enriqueça este género literário.

Neste contexto, o Diário de Uma Qawwi convida a qualquer escritor/a português/a e qualquer escritor/a moçambicano/a interessado/a, com ou sem obra publicada, a submeter um conto para este projecto, desde que escreva (ou seja traduzido) para a língua portuguesa. Nesta chamada serão seleccionados entre quatro (4) a seis (6) autores/as.

Termos e condições desta chamada:

  1. Os contos submetidos devem ser inéditos, em formato word, com o máximo de 10 (dez) páginas, em A4, Times New Roman 12, espaço 1.5.
  2. Os contos podem ser escritos em qualquer gênero ou subgénero literário, desde que contenham elementos da ficção especulativa, podendo incluir ou misturar, não se limitando, os géneros da fantasia, ficção científica, terror sobrenatural, história alternativa, afrofuturismo, utopias e distopias, cyberpunk, black-tech, entre outros.
  3. Os autores poderão submeter o seu texto a partir do dia 1 de Maio até o dia 30 de Julho de 2025, preenchendo o formulário e os dados indicados no link bit.ly/EspiritosQuanticosV3
  4. A análise das submissões será conduzida por uma equipa do Diário de uma Qawwi e os autores seleccionados serão contactados por email até o dia 15 de Agosto de 2025. O resultado da seleçcão será igualmente divulgado no blog do Diário de uma Qawwi.
  5. A antologia será publicada pelo Diário de uma Qawwi e comercializada em Moçambique e em Portugal.
  6. Cada autor seleccionado terá direito a um honorário simbólico correspondente a 12 euros e a um exemplar grátis da antologia. Os exemplares poderão ser levantados pelos autores nos locais em Moçambique e em Portugal, a serem indicados aquando do lançamento da antologia, previsto para o ano de 2026.
  7. Para quaisquer dúvidas, entre em contacto através do email diariodeumaqawwi@gmail.com.

Acesse ao formulário de candidaturas pelo QR code abaixo ou no link bit.ly/EspiritosQuanticosV3

Maputo, aos 21 de Abril de 2025,

Diário de Uma Qawwi

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Literatura | Um Herói que Não Existe, de Zaiby Manasse – Opinião

Sinopse

“Womelo é um país mergulhado no caos. Uma onda de raptos assola a elite sob os olhos impávidos de uma autoridade que parece não saber por onde começar a combater esse mal. Todos os dias ouve-se que em algum ponto de Womelo alguém foi raptado e nos jornais a canção da polícia parece um disco arranhado, repetindo o mesmo ponto: “estamos a trabalhar no assunto”. Nesse caos, surge como que uma providência divina um herói que parece adivinhar onde e quando irão acontecer os raptos. Esse herói, munido de um senso de justiça vindo de um mundo cinematográfico, extermina de forma brutal, macabra e grotesca todos os raptores e sai de cena como se nunca tivesse estado lá.

A polícia que devia ser apoiada por esse ser que divide opiniões na comunidade, inicia uma caça desenfreada para encontrar o herói anónimo. Ta centro vê-se preenchido por Catamo, um psicólogo clínico que ousou publicar algumas linhas sobre o herói nas suas redes sociais, tornando-o o principal suspeito.”

Opinião

Faz muito tempo que andava ansiosa para ler Zaiby Manasse, que assina nas redes sociais como Aladino O Diferente. Com três romances e dois livros de poesia publicados, Zaiby Manasse é conhecido não apenas pelos livros que escreve, mas também pela partilha das suas opiniões sobre os livros que lê. Para quem segue as opiniões deste autor, a curiosidade em conhecer o seu trabalho é naturalmente premente, pelo que, não fugi à excepção, e sem saber exactamente o que esperar, pude finalmente embarcar em “O Herói Que Não Existe”.

Que viagem!

A narrativa policial apresentada nesta obra segue Catamo, um jovem que luta para encontrar emprego na sua cidade, na área da saúde. A vida de Catamo sofre uma reviravolta quando ele testemunha uma tentativa de rapto de uma criança, rapto este que é travado por uma figura misteriosa. Não vou detalhar o resto da história, até porque a sinopse é suficientemente esclarecedora, mas digamos que as reviravoltas e o suspense desenvolvidos no enredo conseguem manter o leitor agarrado às páginas até o fim, e talvez poucos consigam prever o que de facto está em causa no enredo.

Um dos aspectos que achei mais marcantes no livro é a ambientação. Zaiby Manasse decidiu criar uma cidade e país fictícios, trazendo várias alegorias e anagramas, mas qualquer pessoa familiarizada com contextos debruçados na corrupção, o crime organizado e as desigualdades, facilmente reconhecerá os comentários sociais descritos na obra.

Confesso que a ideia do autor lembrou-me a abordagem de algumas obras cinematográficas, incluindo o filme “Identidade (2003)”, um dos meus filmes favoritos, baseado num dos romances mais importantes de Agatha Christie, “E não sobrou ninguém”. Enquanto a grande mestre do romance policial entrega uma resposta intricada quanto à “identidade do assassino”, vamos assim dizer, Zaiby segue um caminho diferente, com uma reposta de execução mais fácil, mas mesmo assim, capaz de fazer o leitor questionar constantemente aquilo que está a ler e surprender-se. Trata-se certamente de um narrador bastante competente para a tarefa a que se propôs. Recomendo vivamente a leitura!

Sobre o autor

“Zaiby Husay Gulamo Manasse (1989) também conhecido por Aladino o Diferente, é natural de Maputo. Escreve poesia e prosa. É licenciado em medicina geral pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio e trabalha como médico. Publicou dois livros de poesia, nomeadamente: “O mel do meu passado presente”, e “Devaneios ensanguentados pela globalização”; e dois romances “A caneta do balcão 1” e “o entroncamento”.

Resenha de Virgília Ferrão

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O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini | Opinião

Autor anónimo

Primeira obra do escritor afegão Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas conta a história de dois meninos de etnias diferentes: um era Patswns e o outro Hazara. Esse último era filho do criado da casa, e amigo fiel do seu patrão.

Os dois foram criados como irmãos. Amir era frágil e gostava de ler, enquanto que Hassan, o Hazara, era um analfabeto e gostava de ouvir as histórias que seu amigo lia para ele. Foram, durante muito tempo, grandes amigos, até que num dia em que havia um torneio de pipas, Amir vence. Mas, para legitimar a sua victória tinha que ter a pipa vencida.

Hassan foi atrás, e ele era bom em caçar pipas. Porém, quando finalmente achou a pipa ele é cercado por um grupo de meninos que não gostavam dele e nem do Amir, o qual já lhes havia ameaçado antes. Esse grupo encurralou o Hassan e abusou-o sexualmente. Enquanto isso, o Amir assistia escondido num beco.

Esse acto macabro mudou drasticamente a relação que existia entre os dois.

Amir vivia com peso na consciência e já não conseguia olhar para o Hassan sem que o sentimento de culpa viesse à tona.

Então, ele afastou-se e fez de tudo para que o pai os mandasse embora, só para não ter que cruzar com ele pelos corredores. Depois, armou uma armadilha, meteu dinheiro e um relógio novo nas coisas de Hassan para que este fosse acusado de roubo. Até porque o pai de Amir estava disposto a perdoar. Mas, Hassan e seu pai preferiram abandonar a casa.

Depois de um tempo veio a guerra, Amir e seu pai acabam se refugiando nos Estados Unidos da América. Amir casou-se com Soraya, que depois de tantas tentativas não conseguiu engravidar. Ele passou a viver da escrita, pois tinha, até aquela época, tendo lançado 4 romances.

Amir recebeu um telefonema de um antigo amigo do seu já falecido pai, que se encontrava em Paquistão. Este contou-lhe que o Hassan e sua esposa tinham sido mortos pelos talibãs e que  tinham deixado uma criança, de nome Sohrab.

Amir teve que enfrentar a guerra dos talibãs para resgatar Sohrab e levá-lo consigo para os EUA.

Ele e Soraya adoptaram o menino, e esse acto todo serviu para que Amir se perdoasse e tirasse o peso que tinha nas costas de tudo o que acontecera em Cabul entre Hassan e ele.

Em linhas gerais, a obra é sensacional. Ela vem descortinar aspectos de descriminação étnica e de género.

À semelhança do que o autor nos apresenta na obra A cidade do Sol em relação ao tratamento que é dado a mulher em Cabul, nesta obra ele traz a figura de Soraya, que passou anos sendo apontada o dedo por um erro que cometeu no passado e, em contrapartida os homens podiam meter-se com mulheres sem que ninguém dissesse nada.

O pai de Amir envolveu-se com a esposa do seu empregado e dessa relação nasceu Hassan, filho este que o pai não teve coragem de assumir. Na figura da Mãe de Soraya, também o autor traz-nos a mulher submissa, sem vontade própria que só pode agir de acordo com as vontades de seu marido.

Mas, o mais impactante foi a descriminação feita aos Hazaras. É lamentável o facto de alguém ser condenado à morte só por ser de uma determinada etnia.

Contudo, é uma história cativante e com elementos que nos fazem saber um pouco mais sobre os hábitos do povo afegão.

Num país em guerra podem haver muitas crianças mas, poucas delas têm infância.

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Vestígios do Silêncio, de Amosse Mucavele

Por Domingos Mucambe

Um livro é uma viagem; e um livro de poesia é uma viagem para um destino incerto. Ao ler Vestígios do Silêncio perpassam-nos muitas ideias- às vezes contrárias umas das outras- mas, a profundidade mostra-nos um abismo que, adentrando nele, acabamos perdendo-nos. Parafraseando Nietzsche: “não se olha tanto tempo no abismo sem se tornar, por consequência, num outro abismo.” É nessa aventura abismal que nos sentimos quando lemos os poemas curtos, outros com apenas uma única estrofe de Amosse Mucavele, em Vestígios do Silêncio, publicada pela primeira vez em 2022.

A obra, longe de ser um conjunto de poemas colocados arbitrariamente, assume uma posição de melancolia – não há réstias de esperança em cada palavra impressa a preto no papel branco. Saímos do desespero, passamos por saudades carregadas pelos ecos do silêncio, adentramos na profunda solidão que cai dos céus de forma sólida, quando lhes dá atributos de “granizos”, e chegamos também na vila “dos que amam a morte”. A cada fim de um verso julga o peito que há nessas linhas, um mundo ainda por se (re)descobrir, onde as palavras parecem efémeras.

As 52 páginas do livro dividem-se em quatro partes indistintas. Primeiramente, as composições têm nomes de lugares e infra-estruturas, mas essas têm aspectos de vivo, com alma e espírito. Tais lugares e infra-estruturas ora são abatidos pelo silêncio da saudade ora são combalidos pela “fria solidão”. Esse desviar do lamento do Eu lírico para objectos com sentimentos, memórias e sonhos, não nos impede de reflectir em nós mesmos as dores do “Fragmento de um suicídio”, onde nos remete a questão da “extinção” que será volátil ou mesmo da “ternura da corda que incendeia a ausência”.

As partes todas são acompanhadas por fotografias com um aspecto sombrio, e um sinal claro de “silêncios”. Adentrando nas fotografias, estendemos o significado de silêncio, que é a ausência de barulho (som), para ausência de almas e de vida. A ausência, o vazio, o abandono são imagens que nos ocorrem na cabeça. Essas imagens de ruínas, definham os nossos sentimentos e, apoiando-nos a esses sentimentos, experimentamos o silêncio e o vazio que nos preenchem os espaços que partilhamos com os outros.

 A primeira parte é “Variações Sobre o Mapa”. Além do “Fragmento de um Suicídio”, também visitámos a “Fábrica Braço de Prata”, que também se silencia no “corpo do abandono” e chora “’os retalhos da decadência”.

Depois segue-se “Das Ruínas vê-se o Mundo”. Com palavras e versos, faz-se um remember the time da Vila do Algarve I, II, III, mas também temos o Cinema Império, que se “desola à beira de um país”. Depois desse capítulo temos a “Elegia da Ruína” e, no fim, temos “Construções Ocultas”, que no lugar de serem erguidas vão-se ocultando no silêncio, ou nas cerimónias fúnebres do tempo, ou até na destruição de um edifício, ou de nós mesmos.

As metáforas usadas são complexas e eruditas, dificultando a compreensão do texto na sua integridade. Então, de que integridade se deve trajar um poema? Para quê se explicar um poema? Ela só é útil quando lhe dá um soco no estômago, e deixa cair a máscara como escreveu Hilda Hilst (in eu sem poesia). E isso nos parece, na verdade, cada verso que lemos, uma boa bofetada na boca do estômago.

A linguagem nos remete sempre a um sonho, um lugar onde o onírico encontra-se com a realidade. Mas, como casamento entre o consciente e o inconsciente de Freud, a realidade perde suas forças, e é engolida pelo sonho. A forma como junta as palavras criando versos loucos e doentes, mostra muito desse seu lado embriagado de ser.

Amosse Mucavele trouxe-nos um escrito com um outro sentido de poesia, aliás, muito mais poético. Diz sem dizer. Nesse pequeno livro tudo é embriagado. A primeira leitura é enganosa, a segunda aterra-nos sem segurança, e é na terceira onde enxergamos, com olhos já doentes, os vestígios de silêncio.

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Três Maneiras de Exclusão nos Três “Diamantes Pretos no Meio de Cristais”

Por Domingos Inácio Mucambe

Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).

A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.

O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.

Juno em Kansas (1856)

No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.

Anna na Cidade do Cabo (1961)

Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.

Elvira em Maputo (2001)

Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.

Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.

A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?

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Algumas notas ‘tectónicas’ sobre o livro de Lilly Maxwell

Por Elcídio Bila

Eu sou uma espécie de comandante deste navio que se chama ‘Sob Placas Tectónicas’ e vou empurrá-los ao alto-mar desta história que cruza dois jovens: Bruno Mondlane e Denise Cossa e de lá vamos viajar em torno das peripécias que se fragmentam por hilariantes 30 capítulos que perfazem 218 páginas e algumas reticências. Sim, um livro robusto, não só pela quantidade de folhas, obviamente.

Estamos perante um romance, isso não vejo porquê esconder, é a coisa mais fácil de perceber logo que estamos diante do livro. Não pelo título obviamente, mas pela extensão do livro e sua mancha gráfica e quem mergulhar nele, claro, absorve o quão intensas são as estórias.

A trama é única e bem definida pela autora: o amor entre Denise e Bruno. Bom, dizer o amor já é complexo e profundo, tendo as febres que perseguem este sentimento, mas posso ir mais longe, porque Lilly Maxwell fala deste amor na sua própria dose, com as suas peripécias, que não são poucas; com os seus dramas, com os seus conflitos e circunstâncias de cortar o fôlego.

Vamos a história, por pouco tempo, claro: o livro apresenta-nos um casal de jovens, na emergência de uma fase adulta, embora coloque a Denise com dois anos a mais que o Bruno, sendo ele com 28 anos. Conheceram-se num bar, na noite de uma sexta-feira e um beijo fugaz no estacionamento marcou o encontro, antes de se reverem no trabalho da Denise, acidentalmente, quando este, empreendedor, ia prestar serviços que acabara de ser adjudicado. E o encontro circunstancial do bar transformou-se num propósito para Bruno, que via Denise se esforçando para fugir das suas garras e, quando acreditou que usasse o seu principal trunfo, o facto de não poder conceber, pudesse abafar as intenções do rapaz, eis que foi traída, pois ele continuava mais interessado que nunca, mostrando-a um perfil incomum e, mais do que isso, um senso amável e respeitoso pelas insuficiências do outro.

Na verdade, este é o motor para a condução desta história, é o enredo que o narrador usa para conduzir a narrativa.

Para além disso, há pequenos galhos de estórias que fazem a história maior, onde se narram peripécias, por exemplo, entre a irmã de Denise, Neide, com Jonas, amigo e sócio de Bruno, um amor de infância que sobrevive a tempestades.

A bebé que Denise encontra largada na rua, e que perde a chance de adopta-lá, também faz outro fragmento da trama, divide opiniões e sentimentos, acelera uma AVC na mãe de Bruno, dá as maiores transformações ao enredo, colocando Bruno a viajar para Beira por sete meses, mas também amputa crises entre as duas famílias.

Como se vê, Lily sugere-nos um livro sobre o amor, mas também sobre a vida urbana e convida-nos a atravessar na nossa própria rotina, marcada por nuances diversas, onde a família joga um papel crucial para nos levantar, bem como para nos arruinar; onde a amizade pode ser fundamental para o nosso crescimento profissional, mas também para um universo de intrigas, onde os ciúmes e a inveja são sentimentos que sempre desfilam a classe. A Lilly não deixa, entretanto, de cutucar alguns fenómenos sociais como a corrupção, ao confrontar uma assistente social que propõe adopções ilegais. E nisto, a autora propõe, também, a discussão da esterilidade, um tabu na nossa sociedade até aos dias que correm e motivo de adultério senão de separações.

Na verdade, a Lilly não nos mostra uma face diferente do que os outros livros e filmes de amor nos sugerem, apenas nos coloca uma visão local, onde é possível discutir os nossos próprios assuntos, as nossas próprias pessoas e os nossos próprios tempos. É um livro deveras actual, que se concentra no agora, ao descrever a cidade de Maputo como ela é, um bónus turístico ao leitor, que reconhece a baixa da cidade, exactamente às imponências da Rua dos Desportistas, às garagens humildes do Alto-Maé e o bairro da Polana. Ou seja, é um livro da cidade, de pessoas da cidade, de problemas da cidade, mas não uma cidade qualquer, uma cidade africana, onde o facto de não poder ter filho não está na moda, onde a mulher que se relaciona com um homem mais novo é vista como cobra, onde um empreendedor ainda não tem trabalho decente se não poder uma grande obra.

Este livro não deixa de exaltar e promover a mulher, colocando a Denise e a Neide, embora com uma renhida rivalidade em quase toda a narrativa, em posições empoderadas, sendo elas donas de si e dos seus percursos, sem qualquer dependência masculina.

Diríamos, sem qualquer dúvida, que estamos perante um discurso feminista – pois, no final, ele se impõe às tempestades machistas. É um narrador que conhece a mulher, e a sua descrição minuciosa não nos engana. É um narrador que se coloca na terceira pessoa, omnisciente, por isso nos oferece uma visão ampla dos eventos e sentimentos, percepções e opiniões. Usa uma linguagem informal, mesmo a nos convidar para um palco do cotidiano, das nuances diárias, tal como sugere esta narrativa. É um narrador que vale pelo seu poder descritivo, de locais, situações, sentimentos e atitudes, mas, mesmo assim, abre espaço para que o leitor identifique momentos através dos diálogos, bem cruzados, assumo, e, por isso, intensos.

É uma escrita continuamente convidativa, penetrante e enigmática, com uma voz certeira sobre assuntos femininos. Não é uma escrita difícil de digerir, tem as palavras soltas e com os seus significados destapados, mas rica em adjectivações. É um romance que nos deixa descobrir, mas não nos oferece tudo. E quando finalmente nos revela os factos, surgem novos paradigmas.

Este jeito de Lilly Maxwell contar-nos a história é singular, pois ela finge nos saciar, para, depois, nos apunhalar com verdades jamais imaginárias. Quem diria que os escritórios onde Bruno iria propor um projecto trabalharia a Denise? Quem diria que quem iria tirar a Denise da esquadra seria o seu pai? E quase todo o livro é revestido desse “quem diria”. É uma história que gira sob placas tectónicas, como o título nos sugere, ou seja, grandes blocos rochosos semirrígidos que compõem a crosta terrestre. A Terra divide-se em quatorze principais placas tectónicas, as quais se movimentam sobre o manto de forma lenta e contínua, podendo aproximar-se ou se afastar umas das outras. Lilly abusa desta metáfora de forma formidável, ao colocar o rebuliço entre os protagonistas como sendo uma placa tectónica. Aliás, A movimentação das placas resulta na formação de montanhas, fossas oceânicas, actividades vulcânicas e terramotos. E não é mais do que isso que esta obra nos mostra. É deveras interessante, porque não, que uma funcionária bancária busque um conhecimento da geologia para arrumar a sua trama e bem conseguido, porque, afinal, as placas tectónicas implicam tensão e potencial para causar grandes mudanças, a mesma tensão em que Bruno e Denise sempre sofreram e as mudanças que dela advêm.

28.05.2024

Livros

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO – ANTOLOGIA POÉTICA “BLASFÊMEAS – SANGUE E VERBO”

Noémia de Sousa, a “Mãe dos poetas moçambicanos”, no seu icónico poema “Súplica”, grita: “Tirem-nos tudo/ mas deixem-nos a música!” E se a Noémia tivesse dito POESIA? É evidente que música também é poesia. Voz densa e afiada, que representa a resistência da mulher moçambicana [e negra e africana], Noémia inspirou e continua a inspirar poetas de várias gerações. Moçambique, “Pátria de poetas”, ainda fez nascer e ouvir as vozes de Glória de Sant’anna, Clotilde Silva, Sónia Sultuane, Lica Sebastião, Emmy Xis, Rinkel e, mais recentemente, Hirondina Joshua e Énia Lipanga, entre pouquíssimas outras.

Esta chamada, iniciativa da Gala-Gala Edições, visa dar a conhecer o trabalho de novas vozes da poesia escrita por mulheres em Moçambique, para quem, a poesia e a música fizeram sempre parte do seu quotidiano, mas não antes tiveram a oportunidade de publicar em livro. Por isso “BlasFêmeas”, pois queremos que este seja um acto de heresia, de emponderamento, de liberdade, de pôr as novas poetisas [ou mesmo poetas] a declamarem sobre os seus amores, as suas liberdades, lutas e direitos.

O subtítulo, “Sangue e verbo”, é igualmente inspirado em Nóemia [“Sangue negro”], que faleceu aos 76 anos, em 2002, e presta-lhe homenagem. A antologia publicará 2 poemas de 38 novas autoras, em edição imprensa, entre Dezembro de 2022 e Março de 2023. Para tal, cada autora deverá enviar 2 poemas de, no máximo, 4 páginas. A selecção final das contempladas será escrutinada pelas poetisas Sónia Sultuane e Emmy Xis, que assinam a curadoria.

Os textos deverão ser enviados para o e-mail galagalalivros@gmail.com, com a epígrafe no assunto: ANTOLOGIA BLASFÊMEAS. No mesmo documento, a seguir os poemas, deverá ser apresentada uma breve nota biográfica, de até 8 linhas.

A chamada é somente válida para autoras que ainda não publicaram livros. Podem ainda participar poetisas anteriormente antologiadas. As autoras seleccionadas serão comunicadas por correio electrónico e receberão duas cópias do livro.

Os materiais poderão ser enviados entre os dias 20 de Julho e 20 de Setembro, dia de nascimento de Noémia de Sousa. Não serão consideradas inscrições fora deste prazo.

Esta iniciativa conta com o apoio da Casa do Professor, da plataforma Mbenga – artes e reflexões, do Diário de uma Qawwi, do sarau Palavras são Palavras e do Clube de Leitura de Quelimane.

Para mais detalhes veja o cartaz da chamada.

Lançamentos!, Livros, Resenhas

Lançamentos: 12 sugestões para este Natal (em prosa e poesia)

Com o natal ao virar da esquina, vale a pena recordar que o livro é sempre um dos melhores presentes. Os livros estimulam a nossa imaginação e às vezes transformam as nossas vidas. Ao oferecermos um livro, acabamos também, por de certa forma, subscrever uma escolha para o leitor, uma escolha que de outra forma pode ser difícil, perante tantos livros e propostas disponíveis no mercado.

E por falar em tantos livros, em Moçambique os últimos meses foram repletos de novidades e lançamentos!

Preparámos a lista abaixo, contendo alguns livros novos, como sugestão para este Natal. Confira:

Prosa

  1. As Raízes do Rei, de Susana Machamale

Foi lançado no dia 9 de Dezembro de 2021, em Maputo, “As Raízes do Rei”, livro de estreia de Suzana Machamale. Este é o primeiro volume de uma tetralogia chamada “Príncipes Sangrentos”.

Durante o lançamento, a autora relatou o processo de publicação do livro, tendo dito que no início não acreditava ser possível a publicação em Moçambique deste seu primeiro trabalho, inclusive pela temática que aborda. Com mais de 290 páginas, o livro sai pela chancela da Kulera Editores.

Eis uma breve passagem da sinopse: “Dois reinos, quatro cabeças, mas apenas duas coroas. O carismático Ânjor e a ambiciosa Hanjy Karavejo são filhos da rainha de Taravin. mas, por serem gémeos, só pelo voto do povo pode-se definir qual dos dois será o primeiro na linha de sucessão ao trono. A angelical Yasy e a perversa Yagui Dantaze são filhas do reu Nunny.

Segundo o apresentador da obra, o professor Daúde Amade, “o livro retrata uma história de membros da mesma família que disputam a sucessão ao trono, chegando, até, a odiar-se. Entre os irmãos que disputam o trono e os reinos que se opõem pelo poder, forjam-se falsos sorrisos, traições, mortes e muito sangue mancha a história de uma família que, caso fosse possível, daria tudo pela permanência de um passado sossegado e sem conflitos”.

2. Gole de Lâminas, de Alberto Dalela

Fonte de imagem: Vymaps

Foi lançado no dia 24 de Novembro de 2021, “Gole de Lâminas”, livro de estreia de Albert Dalela, chancelado pela Ethale Publishers. Segundo a nota do blog Mbenga, esta é uma proposta que consiste em apresentar o sub-mundo da cidade de Maputo, ou seja, reflectir em torno da complexidade de conceitos e ideias da questão de ser e estar nas zonas suburbanas e na cidade.

3. O Abismo aos Pés, de Elton Pila e Eduardo Quive (organizadores)

Fonte de imagem: Amazon

Este livro, chancelado pela Editora Literatas, foi publicado em finais de 2020, tendo sido em Novembro de 2021 apresentado no Instituto de Camões, em Maputo, numa conversa com os organizadores, Elton Pila e Eduardo Quive. Contendo 232 páginas em entrevistas efectuadas a 25 escritores lusófonos, “O Abismo aos Pés” reflecte sobre a iminência do fim do mundo e oferece uma das leituras mais instigantes e inquietantes de todos os tempos.

4. No Verso da Cicatriz, de Bento Baloi

Fonte de imagem: Almedina

Um dos livros mais interessantes publicados este ano é sem dúvida “No Verso da Cicatriz”, romance que narra a história de Bernardo (e sua Helena). A trama é ambientada nos primeiros anos após a independência de Moçambique, iniciando com o protagonista Bernardo sendo afastado da amada, pelo Governo, que o leva de Maguaza (sua zona de origem) a Carico, sob a falsa acusação de ser uma Testemunha de Jeová.

Conforme se lê numa matéria da RFI, para além do conflito armado, Bento Baloi também aborda a operação durante a qual, nos anos 80, milhares de pessoas se viram forçadas a ir trabalhar em meio rural, longe das suas zonas de origem.”

O livro foi lançado em Agosto de 2021, simultaneamente em Moçambique e em Portugal, pela Editora Índico e pela Alêtheia Editores, respectivamente.

5. Histórias do outro mundo, de Carlos dos Santos

Fonte da imagem: Alcance

Nós do Diário de Uma Qawwi, amantes da ficção especulativa, não poderíamos, obviamente, deixar de mencionar o novo livro de Carlos dos Santos. Editado pela Alcance Editores e com cerca de 112 páginas, o livro reúne oito contos nos géneros ficção científica e fantástico, acompanhados de belíssimas ilustrações. Imperdível!

6. Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão

Por último, no género da prosa, fazemos menção, com muita alegria, à “Sina de Aruanda”, romance lançado no dia 8 de Dezembro de 2021, terceiro obra da administradora do Diário de Uma Qawwi. Num dos momentos mais marcantes da cerimónia, o apresentador do livro, o professor Albino Macuácua, mencionou que Sina de Aruanda “é um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico, ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, do “verdadeiro” amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.”

O livro sai pela chancela da Fundação Fernando Leite Couto em Maputo, e será publicado em 2022 pela Editora Malé, do Brasil.

Poesia

7. O Lugar das Ilhas

“O Lugar das Ilhas” é o novo livro da poeta Sónia Sultuane.

Sobre a obra, o apresentador do livro, o professor de literatura Nataniel Ngomane, explicou que as ilhas retratadas no novo livro de Sónia Sultuane não são necessariamente geográficas (Ilha de Moçambique, Cuba e as ilhas da Grécia), são ilhas que existem na forma de pensar humana”. In OPais

8. O Escutador de Silêncios, de Ricardo Santos

Também foi lançado recentemente um livro de poesia, de Ricardo Santos.

Os textos em “O Escutador de Silêncios” foram escritos na sua quase totalidade entre 2016 e 2019. Sobre esta obra, diz-nos o escritor Leo Cote, que “o prosaismo que esta poesia reflecte e sugere, resulta da vontade de contar histórias, muito ao jeito da tradição oral, e de construir um discurso que seja a ficção do hodierno e do simples, atingindo o natural e o espontâneo. Não é por acaso que o poema “Ânfora” faz alusão a isso.” In Mbenga.

9. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos, de Énia Lipanga

Este livro foi lançado no dia 12 de Novembro de 2021 e é a segunda obra de poemas de Énia Lipanga.

Segundo a Editora que chancela a obra, a Gala Gala Edições, “as vozes deste livro são femininas, ora inteiras, ora nada, ora em pedaços, para cantar os seus gozos e alegrias, e também as suas feridas e cicatrizes. “Talvez, por isso, chovam gotas íntimas em seus versos que escorrem fios e fiapos de prazer e, quiçá, de amor, travestidos de incertezas, poeiras, nuvens, sombras e desejos que incitam dores, emoções, saudades, menos regressos e mais recomeços”, escreve a professora Ana Rita Santiago.” In Gala Gala Edições

10. Calvário e a Cruz, de Jeconias Mocumbe

Recentemente lançado, em edição do autor, o livro de Jeconias Mocumbe (pseudónimo de Edilson Sostino Mocumbe) é uma antologia de poemas. Segundo Elísio Miambo, o apresentador do livro, a obra “apresenta-se como um exercício de exploração dos limites da metáfora, havendo, nesse processo, momentos em que ela própria (a metáfora) são lhe apresentados os seus vícios enquanto forma de codificação discursiva. De facto: se por um lado existem livros que tomam o leitor como imbecil a ponto de fornecerem informação desnecessária e que se resvala pela prolixidez, por outro, livros há que ou sobrevalorizam o leitor ou o seu autor não liga a mínima para uma possibilidade de haver alguma interatividade entre o leitor e a obra, correndo assim o risco de se tornarem incompreensíveis.”

Prosa em Infanto Juvenil

11. A Estranha Metamorfose de Thandi

Lançado no dia 24 de Novembro de 2021, o novo livro de Mauro Brito apresenta o conto “A estranha metamorfose de Thandi”, e é ilustrado pelo artista plástico Samuel Djive.

José dos Remédios, no OPais, descreve-o como “uma história de amor entre mãe e filha, Mbali e Thandi, personagens agrestes que constantemente enunciam lições universais, atinentes às circunstâncias domésticas e até mesmo comunitárias.”

A estranha metamorfose de Thandi levar-nos-á pelos meandros do interdito, do destino e da libertação, numa linguagem onde a narrativa e a poesia, o real e o imaginário, o presente e o passado se cruzam num espaço sem fronteiras distintas.

12. As Aventuras de Manuelito, de João Baptista Caetano Gomes

Esta foi uma das obras vencedoras do concurso Literário “Nó de Gaveta”, promovido pela Associação cultural Nkariganarte, em parceria com a Kuvaninga cartão d’arte. João Baptista venceu pela zona centro de Moçambique, ao lado de Cleyde Pamela (com o texto “O Sonho de Chinguana”) e Laliana Mahumane (com o texto “O outro lado das flores”), das zonas Norte e Sul, respectivamente. O autor participou da antologia Memórias do Idai, uma colecção de crónicas literárias que resultou de um concurso promovido pela Editora Fundza. Participa em antologias nacionais e internacionais. Em 2021, seu texto “Os vendedores de sol e lua” foi um dos 12 selecionados para a Oficina de Ficção Narrativa organizado pela Fundação Fernando Leite Couto. Tem escrito prefácios de livros e tem apresentado obras literárias de alguns escritores emergentes da Literatura Moçambicana.

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