Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura| An American Marriage (Um Casamento Americano), de Tayari Jones | Opinião

Autor: Tayari Jones

Editora: Algoquin Books

Idioma: Inglês

Sinopse

Os recém-casados ​​Celestial e Roy, são o protótipo do sonho americano. Ele é um jovem executivo e ela uma artista na fase inicial de uma carreira empolgante. Mas à medida que se estabelecem na rotina da vida a dois, eles são dilacerados por circunstâncias que nenhum dos dois poderia ter imaginado.

Roy é preso e condenado a 12 anos, por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu. Apesar de ser uma mulher forte e independente, Celestial se vê desolada e desamparada, consolando-se com André, seu amigo de infância e padrinho de casamento. O tempo de Roy na prisão vai passando, e Celestial é incapaz de manter o amor que sempre foi o seu centro. Porém, ao final de 5 de anos, a pena de Roy é subitamente revertida e ele volta para Atlanta, pronto para retomar a sua vida ao lado de Celestial.

Opinião:

A história intercala a narração dos protagonistas, nomeadamente Celestial, Roy e André, uma técnica que empresta uma dinâmica bastante interessante à narrativa, e que acaba por ser efectiva. Foi uma boa decisão da autora mostrar os diferentes pontos de vista dos personagens, pois sem a persepctiva de Celestial, o leitor estaria mais propenso a criar certa animosidade ou até mesmo a ter uma recepção negativa para com esta personagem.

An American Marriage, apresenta-nos uma trama honesta e impactante, escrita de forma belíssima, não apenas sobre a realidade do sistema social e político da região em que se desenrola, mas também dos valores matrimoniais, expostos à condição essencialmente humana. Com o marido na prisão, Celestial, que não esperava ver-se tão cedo sozinha, acaba por envolver-se com André, seu amigo de infância. Mas Roy, inocente, ao ser libertado, deseja regressar à vida de casado com Celestial, formando-se aqui um triangulo amoroso complicado e doloroso. Somos levados assim, a reflectir, sobre até que ponto conseguimos cumprir as promessas consideradas sagradas e até mesmo inquebráveis.

Um história, em última análise, melancólica, sobre como uma injustiça social pode abalar a vida pessoal, e sobre como dinâmicas inesperadas podem sobrepor-se aos votos matrimoniais.

A capa do livro é extremamente elegante e dialoga com o tema do romance.

Um leitura recomendável.

A nossa pontuação: 4.5 de 5 estrelas.

Sobre a autora:

Tayari Jones é autora de quatro romances, mais recentemente “An American Marriage”, que foi eleito para a Selecção do Clube de Livros da Oprah 2018, e ganhou o Prêmio Feminino de Ficção de 2019. Jones é graduada pelo Colégio de Spelman, pela Universidade de Lowa e pela Universidade do Estado de Arizona.

Literature| An American Marriage, by Tayari Jones | Opinion

Author: Tayari Jones

Publisher: Algoquin Books

Language: English

Synopsis

The newlyweds Celestial and Roy are the embedment of both the American dream and the New South. He is a young executive, and she is an artist in the brick of an exciting career. But as they settle into the routine of their life together, they are ripped apart by circumstances neither of them could have imagined.

Roy is arrested and sentenced to 12 years for a crime Celestial knows he didn’t commit. Despite being a strong and independent woman, Celestial finds herself bereft and unmoored, taking Comfort in Andre, her childhood friend and best man at their wedding. As Roy’s time in prison passes, she is unable to maintain the love that has always been her center. However, after 5 years, Roy’s conviction is suddenly overturned and he returns to Atlanta, ready to resume his life with Celestial.

Opinion:

The story combines the narration of the protagonists, namely Celestial, Roy and André, a technique that lends a very interesting dynamic to the narrative, and which ends up being very effective. It was a good decision of the author, to show the different points of view, without Celestial’s perspective, the reader could find himself leaning to a certain animosity or even negative reception by towards this character.

An American Marriage presents us with an honest and impressive plot, beautifully written, not only about the reality of the social and political system of the region in which it takes place, but also about matrimonial values, exposed to the essentially human condition. With her husband in prison, Celestial, who did not expect to find herself alone so soon, ends up getting involved with André, her childhood friend. But Roy, innocent, on being freed, wants to return to his life with Celestial, forming here a complicated and painful love triangle. We are thus led to reflect on the extent to which we are able to fulfill the promises considered sacred and even unbreakable.

Ultimately, a melancholy story of how social injustice can undermine personal life, and how unexpected dynamics can overwhelm marriage vows.

The book cover is extremely elegant and dialogues well with the theme of the novel.

A recommendable read.

Our score: 4.5 out of 5 stars.

About the author:

Tayari Jones is the author of four novels, most recently “An American Marriage,” which was a 2018 Oprah’s Book Club Selection, and won the 2019 Women’s Prize for Fiction. Jones is a graduate of Spelman College, the University of Lowa and Arizona State University.

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Literatura | O Estranho, de Ad Chaves – Opinião

Autor: Ad Chaves

Editora: Tribo das Letras / Amazon

Idioma: Português

Sinopse

“Dez anos são suficientes para que a verdade venha à tona? Neste suspense, os personagens terão as suas vidas presas numa vertiginosa trama onde a traição, o amor e o ódio se fundem numa tentativa desesperada para manter, sob camadas de mentiras, a verdade. Júlia, após descobrir que perdera anos num casamento por interesse, com um renomado advogado, vê a sua vida colocada de cabeça para baixo quando, numa noite chuvosa, o encontro com um estranho, num hotel de beira de estrada, a leva para um inesperado caminho. Impelida pela imprevista atraccão pelo misterioso desconhecido, ela vê-se arrastada para um trilho onde a vingança é o norte, e a vítima e o culpado se alternam, fazendo-a questionar-se, sobre quem, de faco, é o Estranho na sua vida.

Opinião

Já há muito tínhamos curiosidade de conhecer a obra de Ad Chaves, autor da editora Brasileira Selo Jovem, e por essa razão, a leitura de “o Estranho”, livro de estreia deste autor, foi das mais ávidas este ano. A Selo Jovem tem trazido trabalhos muito promissores de vários autores e Ad Chaves não é a excepção. Entretanto, a obra aqui em alusão, foi piblicada pela Tribo de Letras e encotra-se de igual forma disponível na Amazon.

Com uma escrita de fácil acesso e muito concisa, Ad Chaves nos conduz por uma narrativa bastante fluida, de suspense, à volta de uma trama sobre vingança, amor e injustiças.

Narrado na terceira pessoa, cada capítulo inicia com uma citação da protagonista Júlia, cujo contexto é explicado no final do livro.

Julia, a semelhança de algumas mulheres do quotidiano, casou-se com André, pelas razões erradas, e com o passar do tempo, as consequências desse acto, resultam num casamento infeliz, com contornos inesperados.

Relativamente à construção de algumas personagens, embora no geral estejam a maioria, bem construídas, não conseguimos ter grande empatia para com a Julia, talvez pela certa superficialidade na sua personagem, o que poderia, porventura, ter sido colmatado com um pouco mais de desenvolvimento psicológico à volta da mesma. Em compensação, somos apresentados com alguns personagens, como Clara, Jorge e o próprio “Estranho”, que tem um background mais interessante de descortinar.

O autor impressiona também pela óptima capacidade de criar tensão e fazer com que o leitor prenda-se à leitura, desde o início ao fim, devorando as páginas num ápice. Um ponto fraco, entretanto, é que, o narrador, enquanto omnisciente, revela-nos alguns aspectos da trama de forma bastante depressa e directa, frustrando em alguns momentos as expectativas do leitor. Apecto, que todavia, acaba por ser compensado pela boa técnica em apresentar-nos sem demoras reviravoltas de impacto.

Em resumo, para um livro de estreia, é um óptimo livro, com uma trama de grande sensibilidade, muito suspense para quem gosta deste género, e que facilmente poderia ser adaptada para um roteiro de cinema.

Sobre o autor

“Ademilson Chaves é mineiro e como todo mineiro gosta de contar histórias. Muito cedo descobriu que gostava de livros tornando-se um leitor voraz. Formou-se na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Nas horas vagas descobriu um grande prazer, criar e escrever histórias capazes de prender o leitor ávido por uma boa trama.”

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Livros, Outras maravilhas humanas, Resenhas

Editoras moçambicanas que aceitam analisar livros de novos autores

Literatura

7 de Junho de 2021

Tem um original pronto e não sabe a quem o mostrar, para que o mesmo seja publicado? Esta é uma dúvida que, na verdade, em algum momento, passa por todo escritor, principalmente na fase inicial da carreira. Se você já terminou o seu manuscrito, fez – ou pediu alguém que fizesse – uma revisão (é sempre aconselhável ter o livro revisto antes de submeter à uma editora), e sente confiança para dar o passo seguinte, mas não sabe como fazê-lo, continue a ler esta nota.

Apesar da crise económica, dos desafios relativamente à venda e à distribuição do livro em Moçambique, o mercado editorial segue em evolução. Em abono da verdade, é um mercado que tem crescido globalmente, tamanha é a importância do livro.

Pelo mundo afora, existem as editoras grandes, também chamadas “editoras tradicionais”, que normalmente publicam best sellers internacionais e autores nacionais consagrados. Este tipo de editora financia o custo da produção inteira do livro e até efectua um adiantamento de direitos autorais aos escritores. Algumas destas editoras, estão abertas à recepção de originais não solicitados, mas raramente publicam autores desconhecidos. Para quem está a começar, é uma realidade um pouco desencorajadora, mas esta dinâmica é compreensível, pela própria actividade e risco da editora, que sobrevive da venda de livros.

Entretanto, existem também as editoras médias e pequenas, que quando não arcam com as despesas de toda a produção, publicam os livros em parceria – com recurso ao patrocínio de instituições, ou em parceria com o próprio autor. Nos tempos de hoje, vale ainda lembrar que, com o advento das novas tecnologias, a publicação do livro em formato digital e áudio, facilita a distribuição do livro, tanto para as editoras como para os autores que optam pela auto-publicação (uma matéria para avaliarmos em outra oportunidade).

Note ainda, que tem sido tendência das editoras, tanto as nacionais como internacionais, fazerem chamadas para publicação, quer para a submissão de originais à própria editora, de tempos em tempos, submissão a concursos literários, quer através de contribuição de textos em antologias ou revistas. As chances de autores novos e estabelecidos, poderem mostrar o seu trabalho, é bastante maior nestas circunstâncias, portanto, fique atento!

Em Moçambique, a maioria das editoras já tem os seus catálogos definidos e a sua própria linha editorial. Mas isso não significa que as portas estejam fechadas!

Confira abaixo as editoras que estão disponíveis a analisar manuscritos não solicitados e a ler o que você escreveu. Lembre-se, todavia, que a análise do seu manuscrito é normalmente feita sem compromisso por parte da editora. O prazo de resposta, os termos e condições, caso o manuscrito seja aceite para publicação, entre outros factores, vai variar de caso para caso, e de acordo com os critérios de cada editora, os quais nós desconhecemos.

  1. Fundação Fernando Leite Couto

Esta editora aceita receber originais não solicitados, a qualquer momento. Os originais devem ser enviados para o email ler@fflc.org.mz.

  • Cavalo do Mar

A Cavalo do Mar também aceita receber originais para análise, os quais devem ser enviados a atenção do editor. Neste momento (Junho de 2021), entretanto, a Cavalo do Mar não está a analisar originais. Fique atento para oportunidades que possam surgir brevemente.

  • TPC Editora

A Editora TPC está aberta a avaliar originais, a todo o momento. Os autores podem submeter os seus originais para o email fernando.ssamson@gmail.com. Note ainda, que a TPC Editora, para além de aceitar originais de ficção, os quais ocupam 40% do catálogo editorial, incentiva a produção de ensaios académicos, que ocupam 60% do seu catálogo.

  • Editora Trinta Zero Nove

A Editora Trinta Zero Nove é uma pequena editora independente vocacionada para a publicação de literatura traduzida. Neste momento não aceita originais nem manuscritos não solicitados. Entretanto, esteja atento às páginas da editora nas redes sociais e o website onde anunciarão oportunamente oportunidades de publicação (https://www.editoratrintazeronove.org/faq).

  • Gala Gala Edições

Esta editora está aberta a avaliar originais. Os autores podem submeter os seus manuscritos para galagalalivros@gmail.com. Note que, em caso de aceitação, a editora normalmente publica os livros em parceria com o autor.

  • Editora Kulera

A Editora Kulera, neste momento, publica apenas em parceria com o autor, ou seja o autor terá de custear a produção do livro. Entretanto, a editora mostra-se disponível a dar uma opinião, sem compromisso, para que o autor saiba se está no caminho certo. Nesses casos, e por causa da demanda, a editora solicitará algum tempo, antes de efectuar a análise e dar o seu parecer. Para o efeito, o texto deve ser submetido no email editorakulera@gmail.com.

Boa sorte!

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Literatura| The Blessed Girl, de Ângela Makholwa, | Opinião

Autor: Ângela Makholwa

Editora: Pan Macmillan

Idioma: Inglês

Sinopse

Jovem, bonita e ambiciosa, Bontle Tau tem Joanesburgo na palma da mão. Os seus admiradores generosos disputam para pagar o seu Mercedes, o seu apartamento e as suas viagens, postadas no Instagram. É dever da Bontle parecer fabulosa – afinal, as pessoas não sacrificaram as suas vidas na luta pela liberdade, para as mulheres negras usarem as mesmas camisetes baratas que vestiam durante o apartheid.

Bontle percorreu um longo caminho, e não foi fácil. Seu psiquiatra continua a querer falar sobre um passado que ela colocou firmemente para trás. E aquilo que ela não pensa, não pode machucá-la, pode?

Opinião:

No minuto em que ouvimos a autora do livro, Ângela Makholwa, ler uma passagem do mesmo, tratamos logo de anotar o título. Por várias razões que não cabem aqui dizer, mas uma delas bastante óbvia: a trama propunha-se bastante apelativa e actual. E é.

A história narrada pela protagonista (ao que tudo indica, em formato de documentário) é uma espécie de sátira. Nas primeiras páginas, chegamos a ficar indignados com esta “Bontle”, mas reconhecemos, de imediato, que a realidade da jovem é bastante corrente, não só em Joanesburgo, como em Moçambique e em várias partes do mundo. Desde às “sugar babies”, às “marrandzas”. Seja em que contexto for, os leitores irão reconhecer esta mulher, que tudo faz, em troca da “boa vida”. E a autora, muito talentosa, concebeu uma história, que dependendo do ponto de vista do leitor, traz algumas lições de moral, ou simplesmente, reflectem o percurso da vida, de acordo com as escolhas que fazemos.

Ora bem, se já sabemos quem são as sugar babies e temos um certo “preconceito” com relação a elas, Ângela Makholwa nos leva, através desta ficção, a olhar com mais profundidade para as circunstâncias e o meio de onde surgem estas mulheres, que na verdade são como qualquer outra: traçam os seus objectivos e trabalham para isso (do seu jeito, mas trabalham), tem os seus valores, amam a família e tem um passado que pode influenciar quem elas são. Esta pelo menos é a Bontle.

Rica de coloquialismos, a escrita de Ângela é bastante simples e acessível, ao menos tempo de um humor, intensidade e sensibilidade imensos. Poucos autores são capazes disso.

Não foi possível encontrar o livro em formato físico, pelo que, acabamos por consumir a história em formato de áudio. Igualmente prazeroso. Também nos apaixonamos pela capa. Marota, cheia de cores e atraente.

Uma leitura definitivamente recomendável.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas.

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Sobre a autora:

Nascida em Joanesburgo, Makholwa formou-se em jornalismo pela Universidade de Rhodes. Ela foi a primeira escritora negra a escrever ficção criminal na África do Sul (Red Ink). Makholwa seguiu-o dois anos depois com um romance do género chick-lit (the 30th Candle -2009). Seu terceiro romance, Black Widow Society foi publicado em 2013, e o seu último romance, the Blessed Girl, foi lançado em 1 de outubro de 2017.

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Literatura| Na terra dos sonhos, de Agnaldo Bata | Opinião

Autor: Agnaldo Bata

Editora: Alcance Editores

Idioma: Português

Sinopse

Na terra dos sonhos conta a história de Ângela, uma mulher que nasceu numa pequena localidade do distrito de Manjakaze. Ainda nova, Ângela apercebeu-se dos desafios que a sua condição social (Mulher e Órfã) lhe impunham e quando todos pensavam que “sonhar” era o maior insulto que ela podia proferir, contra a moral social que a cercava, Ângela mostra ser forte e com o apoio dos amigos que os espíritos lhe enviam (Gabriel, Sitoe e Edson) dá o máximo de si para vencer cada desafio, sempre movida pela justiça, determinação e a eterna vontade de ver os seus sonhos realizados, o incontornável anseio de chegar à terra dos sonhos.

Opinião:

Justamente quando achávamos que tópicos destes (histórias a volta do êxodo rural, por exemplo) já estavam esgotados, eis que surge um romance com potencial para acrescentar algo mais à discussão. Sobretudo se estivermos a falar de uma história que tem como palco e contexto, o cenário Moçambicano. Mais do que nunca, é importante reflectir sobre os desafios actuais, ter esperança, e sonhar com um futuro melhor. Foi esta a mensagem que nós, como leitores, captamos do livro de Bata.

Através da história de Ângela, e com uma pena visivelmente sensível, o autor mostra-nos a realidade que infelizmente ainda é vivida por grande parte das mulheres moçambicanas, sem acesso à educação, pela sua condição e estatuto de mulher. Ângela, é assim, a grande heroína que nos abraça e nos inspira nesta jornada.

A narrativa socorre-se de uma técnica interessante, um diálogo constante e cruzado, entre os vários narradores que apresentam os seus pontos de vista, desde o médico que cuidou da gravidez da mãe da Ângela, tendo deixado relatos escritos para a rapariga, Ângela, a protagonista e Gabriel, que acaba tornando-se muito próximo de Ângela.

Apreciamos também o facto de o autor ter trazido à discussão questões sociais, como os direitos dos trabalhadores domésticos, o assédio sexual, a desigualdade e o acesso à justiça, e mais ainda, de alguns protagonistas, no final, terem se mostrado extremamente humanos, nas suas virtudes e falhas. Mais fácil, assim, de nos relacionarmos. Ah, e por falar em final, para nós este é o ponto forte do livro. Apesar da certa previsibilidade relativamente ao destino dos protagonistas, o autor trouxe um desfecho inusitado, futurístico, que revela aquilo que é (e se não é, devia ser) o sonho de qualquer moçambicano.

Já a diagramação, é um senão. As folhas largas e a letra pequena tornam a leitura um pouco desconfortável. Nada, porém, que perturbe a experiência e o mergulho na escrita de Agnaldo Bata.

Kudos, por mais oportunidades para todas as “Ângelas”.

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| Madalena – o tradicional casamento sem amor| Opinião

Autor: Hosten Yassine Ali

Edição: 2013

Editora: Edições Esgotadas

Idioma: Português

Compre aqui: Edições Esgotadas

Este livro é uma joia na literatura moçambicana e tu uma pérola de autor: dizer mais é querer dizer o que escreveste, com dignidade, frontalidade, com moçambicanidade

Eduardo White in Madalena, o tradicional casamento sem amor

Opinião:

Que tal começarmos pelo título: Madalena, o tradicional casamento sem amor.

Ora, ora, nós do diário de uma qawwi, leitores teimosos que às vezes levam as coisas ao pé da letra, começamos a percorrer as páginas, à espera de… hum. Talvez uma história que abordasse um casamento forçado, numa sociedade tradicional? Ou então, um casamento de alguma forma “tradicional”?

Bom, a trajectória não é assim tão óbvia. Ao chegarmos à história de Lena (Madalena) e Filipe, deparamo-nos com a primeira de muitas surpresas (se calhar reviravoltas) que nos aguardavam nesta trama. Porquanto o relacionamento entre Madalena e Filipe (assumidos então como casal protagonista) não é desprovido de amor. Pelo contrário, os dois se amam bastante. O problema é outro: Filipe é obrigado a lobolar (ou seja, casar com) Madalena, depois de a mesma estar morta.

Narrando um pouco a trama (mil perdões, caros leitores, pelo pequeno spoiler): Madalena, muito nova, engravida de Filipe, e o seu rigoroso pai a expulsa de casa. Sem tecto, ela vai viver com o namorado Filipe, os dois tentam ser felizes, mas essa tentativa é interrompida quando Madalena morre durante o parto. O pai, que deixara de falar com a filha, retorna o contacto com o genro, e avisa-o que, para que reine a paz entre as famílias, Madalena não poderá ser enterrada, sem que antes Filipe respeite a tradição e oficialize a relação. Desta forma, melindrado pela própria tradição, e pelo sentimento forte que sente por Madalena, Filipe concorda em lobolar a rapariga, mesmo estando esta morta. Eis uma passagem do dilema narrado pelo protagonista:

Não sei realmente o que estou a pensar: na verdade, busco uma solução para que satisfaça ou não a família de Lena e lhes dê o casamento de uma filha morta. Custa-me acreditar que me vou casar com um cadáver, alguém que não fala, que não comerá o bolo de casamento, não beberá espumante, não fará discurso de noiva e, pior que tudo, não me aceitará como as mulheres aceitam os maridos

Avante, o livro não retrata apenas algumas tradições que vincam em algumas famílias moçambicanas. Pelas vozes de outras personagens que vão sendo inseridas na narrativa, ficamos a conhecer histórias e realidades, que fazem parte do cotidiano moçambicano, mas por vezes despercebidas ou até mesmo desconhecidas. É a história do próprio Filipe, forçado a casar em tais circunstâncias. Ou por exemplo, a história daquela titia que revelou grandes segredos da sua intimidade durante a cerimónia que antecede o casamento da sobrinha. É a história de um filho que após tornar-se “doutor”, vira as costas à mãe deixando-a na miséria, e tantas outras peripécias que tornam esta leitura uma experiência única.

O livro torna-se confuso em alguns momentos, em que o narrador, na 1ª pessoa, afasta-se de si, e passa a olhar-se como uma entidade não participante. Nada, entretanto, que atrapalhe o nosso mergulho na distinta escrita de Hosten Ali.

Encontramos também neste livro, uma das diagramações mais bonitas e aconchegantes que já vimos, com a silhueta de uma mulher africana (parecida à capa do livro), dividindo cada capítulo.

Posto isto, convidamos o leitor e embarcar nesta leitura e a descobrir o que trata, de facto, este “casamento tradicional.”

Sobre o autor: Hosten Yassine Ali é moçambicano, natural de Maputo. Abraçou a carreira de official da Marinha no ano de 2008, através da formação na Escola Naval Portuguesa. Publicou o romance Madalena e o livro de crónicas Kurhula, crónicas da cidade de Maputo, sob a chancela das Edições Esgotadas. É fundador dos projectos de acção social “Pequenos Gestos Moçambique” e “Universidade e Rua Moçambicana”. É mestre em ciências Militares Navais e especializado em Administração Naval.

A nossa pontuação: 4.5 em 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| London Cape Town Joburg, de Zukiswa Wanner| Opinião

Autora: Zukiswa Wanner

Edição: 2018

Editora: Paivapo

Idioma: Inglês

Sinopse

Em 1994, o mundo está prestes a mudar. A primeira eleição verdadeiramente democrática na história da África do Sul está prestes a unir a nação de Nelson Mandela nas urnas. E em todo o mundo, aqueles que não puderam voltar para casa, aqueles que não quiseram voltar para casa, esperam e assistem. Martin O’Malley não é um dos que espera e assiste. Ele está muito ocupado, a tentar descobrir se Germaine Spencer está grávida e, de repente, o mundo realmente muda para Martin. Com o seu mestrado da London School of Economics, África do Sul no pós-apartheid parece um lugar onde ele, o seu filho e a sua esposa poderão conquistar tudo. Mas poderão?

Opinião:

Zuko Spencer O’Malley está morto. Morto via suicídio. Na tenra idade dos 13.

O meu filho está morto.

Narra Germaine Spencer, mãe de Zuko. Desculpem se parece spoiler. Não é. É apenas como é introduzida a narrativa deste livro, ou seja, a tragédia que marcará o casal protagonista, Germaine Spencer e Martin O’Malley. Ao longo das páginas, regressamos então, cerca de quinze anos, antes da tragédia, para conhecer a história do casal e os eventos que culminaram na tragédia.

Não é tarefa fácil prender a atenção do leitor dentro do que pode considerar-se uma espécie de flashback, mas neste caso, estamos nas mãos incrivelmente capazes e talentosas da autora Zukiswa Wanner, que nos envolve numa trama arrebatadora. É o tipo de livro que vai arrancar gritos de espanto e de risada, a cada virar da página. A história de Germaine Spencer (uma mulher inglesa, inteligente, feminista e artista) e de Martin O’Malley (um homem sul africano, bem-sucedido, carismático e amoroso) é bastante verosímil. Quem nunca apaixonou-se vai querer fazê-lo, e quem já o fez, vai lembrar-se exactamente de como é, ao ler este livro.

Germaine e Martin tem o tipo de relação que certamente todos casais gostariam de ter, mas sendo um casal inter-racial, acabam por enfrentar os dramas e o choque de culturas, com os quais estamos certamente familiarizados. Nesta ambientação, a volta desta belíssima e inevitavelmente imperfeita relação, a autora vai abordando várias facetas das diferentes culturas e tradições, desnudando ao mesmo tempo, com olhos clínicos, a situação da África do Sul, e alguns problemas sistêmicos, num cenário após o apartheid.

Todas as personagens, desde as principais às secundárias (como Priya, Anil, Soraya, Suf, Giani, Liam, Martin Mtshali e as senhoras do Nomakanjani Club) são incríveis e memoráveis. A trama é tão bem amarrada, que damos por nós, a apegarmo-nos pelo adorável Zuko, ainda que saibamos de antemão, que uma tragédia o espera. Uma experiência e tanto!

A diagramação e paginação do livro são boas, assim como a arte da capa. Todavia, sentimos que o título só faz sentido depois que concluímos a leitura, o que pode, de certa forma, desviar a atenção do potencial leitor.

No geral, foi uma das melhores leituras dos últimos tempos e recomendamos vivamente.

Sobre a autora: Zukiswa Wanner é jornalista e romancista sul-africana, nascida na Zâmbia e agora baseada no Quênia. Desde 2006, depois que publicou o seu primeiro livro, os seus romances tem sido seleccionados para vários prêmios, incluindo o South African Literary Awards (SALA) e o Commonwealth Writers ‘Prize. Em 2015, ganhou o Prêmio Literário K Sello Duiker Memorial pelo livro London Cape Town Joburg. Em 2014, Wanner foi nomeada para a lista Africa39, a qual identificou 39 escritores da África Subsaariana com menos de 40 anos de idade, com potencial para redefinir as tendências da literatura africana. Em 2020, ela recebeu a Medalha Goethe, ao lado de Ian McEwan e Elvira Espejo Ayca, tornando-se na primeira mulher africana a ganhar o prêmio. Zukiswa é também curadora do festival literário online Afrolitsansfrontiers.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Livros | Moçambique – On the Road to Enlightenment, de Sharelene Sema Raston| Opinião

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Livro: On the Road to Enlightenment

Autor: Sharlene Raston

Opinião

Sharlene Raston é terapeuta cognitivo-comportamental, hipno terapeuta, psicometrista e coach. Neste livro, ela faz reflecções apoiadas na experiência de uma jornada de autodescoberta para um mosteiro no Nepal.

Sharlene trabalhava no mundo corporativo, com as típicas demandas associadas a este meio, quando percebeu que algo dentro de si não parecia correcto. Começou a ter sonhos sobre um lugar, e algum tempo depois, pela internet, descobriu que o local das suas visões era nos Himalaias. Investigou e decidiu embarcar para um retiro, num mosteiro no Nepal. O resultado dessa jornada, aliados aos pensamentos do filósofo Alan Watts, compõem On the Road to Enlightenment, dividido em várias secções, que abordam os pontos de vista da autora, sobre a natureza do ser humano.

Para quem está familiarizado com as doutrinas espiritualistas e budistas, as visões apresentadas por Sharlene (algumas por vezes debativeis), podem não constituir muita novidade, todavia, há abordagens que poderão ajudar ao leitor a ver o mundo de forma diferente, ou a mudar certos hábitos, dependendo do momento, e da própria intuição do leitor, que é na verdade o que a autora afirma pretender com o livro (sendo, portanto, uma leitura bastante flexível).

A diagramação e capa condizem com o conteúdo e são apelativos. O livro está no idioma inglês, o que pode limitar (ou não), a audiência.

A nossa pontuação: 3.5 de 5 estrelas

Lançamentos!, Livros, Opiniões

Literatura| Contos e crónicas para ler em casa Vol. II – Antologia | – Opinião

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Autores: Armindo Mathe, Baptista Américo, Énia Lipanga, Ganhanguane Masseve, Herminia Francisco, Izidro Dimande, Jaime Munguambe, Jessemusse Cacinda, Mauro Brito, Miguel Luís, Miller Matine, Nelson Lineu, Pretilério Matsinhe, Sadya Bulha, Sandra Tamele, Sara Jona, Tassiana Tomé e Teresa Taímo

Coordenação: Eduardo Quive & Mélio Tinga

Edição: Abril de 2020

Revista Literaturas

Baixe e leia o livro Aqui

Opinião

Esta antologia, que conta com a curadoria de Eduardo Quive & Mélio Tinga, é um projecto da Revista Literatas, idealizado para estimular aquela que é uma das principais aliadas nesta época de isolamento social: a leitura. O projecto decorre da publicação de um primeiro volume, bem recebido belos leitores, que em pouco tempo ultrapassou a faixa dos 1.000 downloads (encontre o primeiro volume Aqui).

Nós do diário de uma qawwi, tivemos a oportunidade de conferir os 18 contos e crónicas, de autores moçambicanos, neste segundo volume, todos eles singulares e provocativos, agregando no seu conjunto uma diversidade de temas e sentimentos. Passamos a explorar brevemente alguns deles, sem seguir necessariamente uma ordem cronológica:

Madala” (de Armindo Mate) é um texto leve, familiar, que irá relembrar as nossas vivências.

Ao longo da antologia encontramos ainda temas como a violência doméstica e relacionamentos abusivos, em “tu não vais sair de casa com essa roupa, minha mulher não pode vestir assim” (de Énia Lipanga); idas e vindas, perdas, e complexidades das relações afectivas em “o silêncio cintilante”, “a cábula” e “o que somos nós então”, de Hermínia Francisco, Isidro Dimande e Miller A. Matine, respectivamente.

Também encontramos reflexões sociais em contextos mais actuais, como por exemplo a crónica “um corpo crivado de balas” (de Jessemuce Cacinda) e “a revolução não será viralizada: assuntos domésticos e afectivos” (de Tassiana Tomé).

A sátira espelhada no rosto da nossa sociedade faz-se presente em alguns textos desta antologia como “o anão sobressalente” (uma brilhante proposta de Mauro brito), “há muitas lágrimas nos olhos de Sua Excelência” (de Miguel Luis) e o “bicho bicha” (de Nelson Lineu). Estes textos irão certamente trazer algum calor aos leitores, após as gargalhadas.

E que tal uma história de época, em “estilhaços, memórias de um combatente” (de Pretilério Matsinhe), uma descontraída reflexão sobre as consequências da nova tecnologia no quotidiano, em “Minuto 76” (de Sadya Bulha), ou ainda, uma incursão pela tradição oral, onde muitos irão identificar as suas próprias raízes, em “histórias com sabor a misericórdia: dar atenção aos antepassados” (de Sara Jona)?

A antologia traz ainda “fenestrada” (de Sandra Tamele), um conto de estilo bastante elegante na sua concepção, repleto de referências do mundo artístico; e “o meu “Surge et. ambula” em Chibuto” (de Teresa Taimo), um texto honesto, leve, que reflecte a realidade das redes sociais e que irá identificar muitos de nós. Este conto tornou-se um dos nossos favoritos, ao lado de outros acima mencionados.

A capa do livro e a diagramação são satisfatórias, embora visualmente a arte gráfica do primeiro volume pareça atrair mais a atenção do leitor. Nota-se pequenas gralhas na revisão de um ou outro texto, mas nada que atrapalhe a leitura prazerosa oferecida neste belíssimo projecto.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas

Livros, Resenhas

Literatura| O regresso do descontente, de Teresa Taímo|Opinião

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Sinopse

“O regresso do descontente é uma obra de caris multicultural, que tem como pano de fundo a área militar, e retrata a vida de dois jovens de regiões, culturas e posições sociais diversas de Moçambique. Eles veem-se na contingência de partilhar hábitos, costumes e crenças de ambos, influenciando-se entre si e conciliando o seu modo de vida no ambiente em que se inserem. Nesta convivência, encontra-se, por um lado, Pedro Costa, filho de Ministro, jovem mimado e abastado, que nasceu e cresceu na cidade capital e nunca teve contacto directo com a cultura dos seus ancestrais. Por outro, Murimane Mavile, descendente de camponeses, de origem bastante humilde, cujo o passado se resumiu ao trabalho em prol dos seus ascendentes. Conhecedor da tradição do seu povo como ninguém, acumulou experiências que o tornam ancião em corpo jovem. Os dois jovens destacam-se como protagonistas desta estória que cruza classes sociais e revela claramente as consequências que podem adir da estabilidade financeira ou da sua carência nesta faixa etária. As tradições conjugadas, os tabus e mitos da vida militar que o tempo não conseguiu apagar, fazem entre as linhas sagradas deste romance que em muito nos irá identificar”

Opinião

Trata-se do livro de estreia de Teresa Taímo e saí pela chancela da Editora TPC. A narrativa que nos é aqui proposta, é conduzida de forma bastante segura e prende de imediato a atenção do leitor. A autora cria um universo onde explora de forma bastante vívida o ambiente da vida militar, os laços que se podem formar neste contexto. Em forma quase que de ironia, o livro nos remete à reflexão sobre como as nossas escolhas e respectivas consequências podem marcar irreversivelmente as nossas vidas. O realismo e a fantasia também cruzam-se nesta novela, da qual ilustramos a seguinte passagem:

Ao som dos tambores da comunidade e aos gritos dos soldados do quartel que comemoravam a chegada dos mancebos. Iniciava o ritual, segundo o qual, em fila indiana, os mancebos caminhavam sobre a ponte, enquanto os crocodilos circulavam atentos e ávidos para retirarem da ponte todos impuros. Nos dias da realização deste ritual, o dia virava noite, ventos fortes acompanhados por chuvas e relâmpagos inquietos à mistura com a batida de tambores, e canções dos curandeiros, faziam o terror dos mancebos, que enquanto caminhavam sobre a ponte colocada no rio, os crocodilos tiravam quantos quisessem a título de inaptidão.

Tanto quanto dramática, quanto bem humorada, o livro traz diálogos e personagens memoráveis. A determinada altura, a história de amizade de Pedro Costa e Mavile, foco principal, parece passar para um segundo plano. Isto acontece porque a cena inteira é roubada pelo diabólico “fantasma”, a verdadeira estrela, que une os pontos e os dois universos explorados na novela.

A escolha da capa é adequada, pese embora pudesse ter sido um pouco mais trabalhada a nível gráfico. A diagramação é igualmente satisfatória.

A Autora de “o regresso do descontente” é extremamente talentosa, e veio enriquecer as vozes da literatura moçambicana. Recomendamos a leitura.

Sobre a Autora:

Teresa José Taímo nasceu no Distrito de Chibuto, na Província de Gaza aos 21 de Fevereiro de 1992. Durante a sua infância foi presidente do Parlamento infantil a nível da Província de Gaza e membro da comissão permanente no parlamento nacional. Pertenceu à vários grupos e movimentos artísticos culturais e sociais e é licenciada em Gestão e Estudos Culturais. Teresa é actualmente membro da FADM, sócia fundadora da “Iniciativa Teresa Taímo e amigos”, activista social e pesquisadora cultural. Esta é oficialmente a sua primeira viagem literária.

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas