
Dentre as artes que possam existir, e dentre as que são mais populares, a cinematográfica tem a fama de ser a que menos deixa interrogações quando terminada. E, isso não é algo que se deva denotar inferioridade, pois há fusão de muitos elementos que deixa claro do que se trata; entre as falas, os personagens, o tempo e espaço, o ambiente etc. Todos os elementos funcionam como pontos em que se costura uma intersecção para a ver o tema em questão. Porém, Ivo Mabjaia, director cinematográfico, em “O Preto” leva um sentido contrário, prepara a curta-metragem como se de uma peça teatral se tratasse. Nessa curta-metragem, “O Preto” de doze minutos, Ivo Mabjaia provoca mais dúvidas do que afirmações. No final, o terreno no qual se pisa é movediço, e ninguém está realmente firme. Na curta-metragem aparecem pessoas dormindo no chão, num corredor estreito, e no canto do corredor há três pessoas sentadas, olhando os estatelados. Esta é a primeira divisão. Há os que dormem e os que controlam os que dormem. Os que dormem estão trajados casualmente, e os três sentados estão trajados formalmente. Entre estes, os que controlam os que dormem, levanta um e vai roubar pertences dos que dormem. Dentre os últimos, acorda um personagem e grita a muyivi ‘ladrão’, mas é-lhe dado um par de sapatos e cala-se. O caricato dá-se nesse momento: alguém grita, mas ninguém desperta e depois, corrompido, cala-se e volta a dormir. No fim é que todos os três trajados à formal levantam-se e roubam pertences, mas no final, quando os que dormiam acordam e começa a matança. A curta-metragem termina com pessoas sem pertences e peladas.
Mesmo depois da sinopse as dúvidas mantêm-se. De que a obra nos fala? Uma questão difícil. O título “O Preto” não é um ponto firme em que se pode parar para observar tudo calmamente. Talvez seja o comportamento do “preto” como povo, roubar e corromper, mas a corrupção é algo humano. Podemos usar, mesmo indevidamente, o que Rousseau disse sobre o homem ser bom naturalmente, mas o mundo é que o corrompe. Então, se é a corrupção o que é referido como “o preto”, há aqui algo por se endireitar no título, pois não concorre no conceitual a ideia de que o prego e refere a questões raciais.
Qual é a temática, no geral? O corredor estreito pode representar o caminho, talvez o processo. Pessoas estateladas representam mesmo pessoas que estão dormentes e, possivelmente, não têm noção da sua própria condição e de onde se encontram. As três pessoas sentadas podem representar o muro que impede a progressão normal e natural das pessoas no processo. Na verdade representam a estrutura no poder, e isso é reforçado pela forma em que estão trajados. Em algum momento do filme alguém dos três que representam o poder levanta, espalha o spray no ar, fazendo com que os dormentes acordassem e batessem as palmas. O spray é espalhado novamente e as pessoas voltam a dormir. Aqui há uma forte metáfora daquilo que controla as massas, talvez as “mentiras da verdade” constatadas por Azagaia, as quais os fazem pensar que sabem, mas não sabem. Traz-se a ilusão de que estão despertos, mas o mesmo spray que lhes desperta é o mesmo que lhes torna a dormir. O que pode fazer as pessoas pensarem que estão acordadas, mas em contrapartida, lhes tornar a dormir, colocá-las inconscientes? A média.
“O Preto”, de Ivo Mabjaia é sobre o sistema que entulha todos num único caminho, num único labirinto, que não lhes dá saída porque há obstáculos, pedras grandes, intransponíveis. Numa das paredes há um cartaz referente a álcool em gel, que nos remete à pandemia de COVID 19, o que pode ser interpretado como o estado do sistema — nesse caso, um sistema doente -que rouba das pessoas tudo o que tem de mais precioso e ficam nus, sem dignidade nenhuma. Isso é o que o filme de Ivo Mabjaia retrata no fundo: um sistema decadente, no qual nem os que despertam de vez em quando conseguem fazer algo. O primeiro tem vertigens, o segundo grita a muyivi, mas é corrompido e consente a exploração dos seus, e já quando todos tentam despertar e levantarem-se são mortos.
Ademais, Ivo Mabjaia segue pelo sentido contrário, mas este faz uma curta-metragem sem discurso; a única vez em que um personagem fala é quando grita a muyivi e, depois disso, não há mais nada. Silêncio. Como se o sistema fosse algo que opera num modo sorrateiro, sem movimentações bruscas e, por isso, não sentimos que andamos todos dentro desse sistema. Esse silenciamento das falas é um dado curioso porque, se por lado é um elemento fundamental de uma narrativa, por outro lado esse silenciamento cria suspenses e interrogações. Contudo, faz com que os personagens não sejam bem desenvolvidos. O discurso também ajuda nessa caracterização dos personagens. E isso traz um outro ponto: uma curta-metragem sem protagonista. Arrisco a dizer que o protagonista do filme é mesmo o sistema. As tensões, o suspense, o drama, a acção (esta que é quase inexistente) ficou ao encargo, na maior parte das vezes, da trilha sonora, que muda o ritmo da curta-metragem, ora um som como se fosse batimento cardíaco, ora um som mais brando, ora mais acelerado.
“O Preto”, de Ivo Mabjaia é uma curta-metragem difícil de sorver pela sua densidade e impenetrabilidade, mas traz uma reflexão profunda sobre o estado do sistema, as relações de poder, e a condição das massas que são controladas como se fossem “corpos dóceis” constatados por Foucault e são tirados tudo até a dignidade pelo lado que detém o poder no sistema. Essa reflexão também é reforçada pela fotografia. O preto e branco que aqui, diferente de “Nhinguitimo”, não remete ao passado, mas tem a função de proporcionar a falta de vida, de movimento, e propiciar a reflexão sobre o sistema.
Por Domingos Mucambe










Título: Resgate
