Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Cinema | O Preto, de Ivo Mabjaia | Opinião

Dentre as artes que possam existir, e dentre as que são mais populares, a cinematográfica tem a fama de ser a que menos deixa interrogações quando terminada. E, isso não é algo que se deva denotar inferioridade, pois há fusão de muitos elementos que deixa claro do que se trata; entre as falas, os personagens, o tempo e espaço, o ambiente etc. Todos os elementos funcionam como pontos em que se costura uma intersecção para a ver o tema em questão. Porém, Ivo Mabjaia, director cinematográfico, em “O Preto” leva um sentido contrário, prepara a curta-metragem como se de uma peça teatral se tratasse. Nessa curta-metragem, “O Preto” de doze minutos, Ivo Mabjaia provoca mais dúvidas do que afirmações. No final, o terreno no qual se pisa é movediço, e ninguém está realmente firme. Na curta-metragem aparecem pessoas dormindo no chão, num corredor estreito, e no canto do corredor há três pessoas sentadas, olhando os estatelados. Esta é a primeira divisão. Há os que dormem e os que controlam os que dormem. Os que dormem estão trajados casualmente, e os três sentados estão trajados formalmente. Entre estes, os que controlam os que dormem, levanta um e vai roubar pertences dos que dormem. Dentre os últimos, acorda um personagem e grita a muyivi ‘ladrão’, mas é-lhe dado um par de sapatos e cala-se. O caricato dá-se nesse momento: alguém grita, mas ninguém desperta e depois, corrompido, cala-se e volta a dormir. No fim é que todos os três trajados à formal levantam-se e roubam pertences, mas no final, quando os que dormiam acordam e começa a matança. A curta-metragem termina com pessoas sem pertences e peladas.

Mesmo depois da sinopse as dúvidas mantêm-se. De que a obra nos fala? Uma questão difícil. O título “O Preto” não é um ponto firme em que se pode parar para observar tudo calmamente. Talvez seja o comportamento do “preto” como povo, roubar e corromper, mas a corrupção é algo humano. Podemos usar, mesmo indevidamente, o que Rousseau disse sobre o homem ser bom naturalmente, mas o mundo é que o corrompe. Então, se é a corrupção o que é referido como “o preto”, há aqui algo por se endireitar no título, pois não concorre no conceitual a ideia de que o prego e refere a questões raciais.

Qual é a temática, no geral? O corredor estreito pode representar o caminho, talvez o processo. Pessoas estateladas representam mesmo pessoas que estão dormentes e, possivelmente, não têm noção da sua própria condição e de onde se encontram. As três pessoas sentadas podem representar o muro que impede a progressão normal e natural das pessoas no processo. Na verdade representam a estrutura no poder, e isso é reforçado pela forma em que estão trajados. Em algum momento do filme alguém dos três que representam o poder levanta, espalha o spray no ar, fazendo com que os dormentes acordassem e batessem as palmas. O spray é espalhado novamente e as pessoas voltam a dormir. Aqui há uma forte metáfora daquilo que controla as massas, talvez as “mentiras da verdade” constatadas por Azagaia, as quais os fazem pensar que sabem, mas não sabem. Traz-se a ilusão de que estão despertos, mas o mesmo spray que lhes desperta é o mesmo que lhes torna a dormir. O que pode fazer as pessoas pensarem que estão acordadas, mas em contrapartida, lhes tornar a dormir, colocá-las inconscientes? A média.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é sobre o sistema que entulha todos num único caminho, num único labirinto, que não lhes dá saída porque há obstáculos, pedras grandes, intransponíveis. Numa das paredes há um cartaz referente a álcool em gel, que nos remete à pandemia de COVID 19, o que pode ser interpretado como o estado do sistema — nesse caso, um sistema doente -que rouba das pessoas tudo o que tem de mais precioso e ficam nus, sem dignidade nenhuma. Isso é o que o filme de Ivo Mabjaia retrata no fundo: um sistema decadente, no qual nem os que despertam de vez em quando conseguem fazer algo. O primeiro tem vertigens, o segundo grita a muyivi, mas é corrompido e consente a exploração dos seus, e já quando todos tentam despertar e levantarem-se são mortos.

Ademais, Ivo Mabjaia segue pelo sentido contrário, mas este faz uma curta-metragem sem discurso; a única vez em que um personagem fala é quando grita a muyivi e, depois disso, não há mais nada. Silêncio. Como se o sistema fosse algo que opera num modo sorrateiro, sem movimentações bruscas e, por isso, não sentimos que andamos todos dentro desse sistema. Esse silenciamento das falas é um dado curioso porque, se por lado é um elemento fundamental de uma narrativa, por outro lado esse silenciamento cria suspenses e interrogações. Contudo, faz com que os personagens não sejam bem desenvolvidos. O discurso também ajuda nessa caracterização dos personagens. E isso traz um outro ponto: uma curta-metragem sem protagonista. Arrisco a dizer que o protagonista do filme é mesmo o sistema. As tensões, o suspense, o drama, a acção (esta que é quase inexistente) ficou ao encargo, na maior parte das vezes, da trilha sonora, que muda o ritmo da curta-metragem, ora um som como se fosse batimento cardíaco, ora um som mais brando, ora mais acelerado.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é uma curta-metragem difícil de sorver pela sua densidade e impenetrabilidade, mas traz uma reflexão profunda sobre o estado do sistema, as relações de poder, e a condição das massas que são controladas como se fossem “corpos dóceis” constatados por Foucault e são tirados tudo até a dignidade pelo lado que detém o poder no sistema. Essa reflexão também é reforçada pela fotografia. O preto e branco que aqui, diferente de “Nhinguitimo”, não remete ao passado, mas tem a função de proporcionar a falta de vida, de movimento, e propiciar a reflexão sobre o sistema.

Por Domingos Mucambe

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| A Substância | Opinião

Título: A Substância

Direcção: Coralie Fargaet

Género: terror corporal (body horror)

Elenco: Demi Moore; Margaret Qualley; Dennis Quaid

Ano: 2024

“A beleza é um enigma que não pode ser totalmente desvendado.”

Umberto Eco

Coralie Fargeat, cineasta francesa, depois da sua realização de estreia, “Vingança” (2017), retorna com “A Substância” (2024), sua segunda realização que, mantendo a mesma postura feminista, desafia as indústrias e os seus consumidores. A ideia de um corpo perfeito e mais jovem a cada medida que a idade avança, tem sido desde a era dos sex symbols de Hollywood, uma tendência com que as indústrias cinematográficas e cosméticas propõem os seus padrões de beleza. O filme “A Substância” retrata de forma surrealista a busca insaciável pela perfeição no universo das celebridades. A obra é marcada por uma abordagem visceral e perturbadora das tendências humanas, mergulhando no desespero da protagonista Elizabeth Sparkle, que vê sua carreira de ginasta de televisão a terminar por conta da idade e, em última instância, busca rejuvenescer a qualquer custo. A fragilidade da identidade, o desejo de permanecer relevante no olhar público, levam Elizabeth a fazer escolhas desesperadas e, por fim, trágicas.

A trama faz intervenções extremas na medida que constrói um retrato distorcido da obsessão pela perfeição física e pela manutenção da beleza, criticando a superficialidade da fama e a pressão que as celebridades enfrentam para se manterem “relevantes” às audiências. A proposta é clara: Fargeat utiliza o body horror para expor a efemeridade da beleza da mulher, sua fragilidade e a inquietante transformação do corpo em algo cada vez menos atraente.

Elizabeth Sparkle (interpretada por Demi Moore), inicialmente famosa e admirada, simboliza as protagonistas de muitas histórias de Hollywood que, com o passar do tempo, tornaram-se invisíveis e solitárias aos olhos do público. A decadência da fama e a tentativa de ressurgir com uma aparência renovada, ainda que artificial, tornam-se os motores da trama. Aqui, o desejo de Elizabeth pela reconquista de sua beleza é um reflexo da sociedade que valoriza a imagem e o eterno culto à juventude. Fargeat apresenta o processo de transformação de Elizabeth em “Sue” (interpretada por Margaret Qualley), como uma série de escolhas perigosas, das quais ela não pode mais escapar. As intervenções que ela faz em seu corpo não são apenas físicas, mas também psicológicas, já que ela passa a se ver como um produto que precisa ser constantemente aprimorado.

Ao longo da trama, o corpo de Elizabeth, agora transformada em “Sue”, torna-se num território de constante metamorfose, onde o body horror é explorado de maneira crua e gráfica. As cenas que retratam as transformações corporais não são apenas viscerais, mas também metafóricas, explorando o impacto psicológico que a obsessão pela aparência pode ter sobre a identidade de um ser humano. O corpo de Elizabeth fragmenta-se, desintegra-se e, em muitos momentos, degenera-se de maneira grotesca. Através dessa perspectiva, Fargeat apropria-se de um dos principais elementos do género body horror: o corpo que se transforma de maneira incontrolável, sugerindo o desespero e a perda de controle.

O filme não poupa o espectador de imagens desconfortáveis, mas faz isso com um propósito claro: mostrar que o corpo, quando manipulado de maneira excessiva e irresponsável, pode-se tornar um campo de guerra contra si mesmo. A transformação física de Elizabeth em “Sue” intensifica-se à medida que ela se aproxima de seu ponto de não retorno, criando um paralelo com a perda de controle sobre sua própria identidade e a pressão constante de ser perfeita. Cada intervenção que ela faz em seu corpo é uma tentativa de se manter visível e jovem, mas também é uma metáfora para o quanto ela perde da sua humanidade nesse processo. A desumanização é clara; especialmente quando se observa que “Sue” se torna numa fachada de si mesma, uma construção superficial e fragmentada.

A Substância vai além do género de terror físico para se tornar numa reflexão crítica sobre a sociedade contemporânea, onde a juventude e a aparência são frequentemente colocadas como as únicas qualidades que definem o valor de uma pessoa. O filme coloca em questão até onde uma pessoa está disposta a ir para manter-se no topo, e como isso pode ser prejudicial para a saúde física, mental e emocional.

Coralie Fargeat, que também é responsável pelo roteiro, é hábil ao combinar as convenções do body horror com uma crítica social bem articulada. O filme é visualmente impactante, com uma direcção que faz uso de uma estética limpa, mas que vai se tornando cada vez mais desconfortável à medida que a história avança. O uso da luz e da câmera contribui para uma atmosfera de crescente claustrofobia, onde o corpo de Elizabeth não é mais apenas uma prisão física, mas também mental. O ritmo do filme é imersivo, e a trama é conduzida de forma a deixar o espectador com uma sensação de desconforto e reflexão, sem perder a tensão que o género exige.

Resenha de Denilson Monjane

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Cinema| Pedro Páramo | Opinião

Por Zaiby Manasse

Fonte imagem: heavenofhorror

Título: Pedro Páramo

Direcção: Rodrigo Prieto

Género: drama; realismo mágico

Ano: 2024

Plataforma: Netflix

Opinião

Tenho tentando explorar mais o mercado cinematográfico fora dos Estados Unidos que de uns tempos para cá nos brinda com a mesmisse como se não existissem mais ideias. Foi nessa senda que me deparei com esta produção mexicana dirigida por Rodrigo Prieto, adaptando de forma directa o livro homônimo escrito por Juan Rulfo e lançado originalmente em 1955 com o mesmo título do filme, Pedro Páramo.

A trama se passa na cidade de Comala, no estado de Colima. A época não é explicitada precisamente, mas há indicações de ser contemporânea à Revolução Mexicana e à Guerra Cristera (informação tirada no Google). A história é narrada em uma mistura de primeira e terceira pessoas, com alternância dos personagens na voz da primeira pessoa o que faz o filme ficar um pouco confuso, mas a medida que avança vai explicando alguns acontecimentos já vistos. O filme vai e volta, dentro do passado vai ao futuro desse passado e também, muitas vezes, volta para o passado desse passado para explicar algum personagem ou um determinado acto do filme do tempo em questão. O carácter de Pedro Páramo, figura central do filme, é deslindado pouco a pouco por meio desses discursos múltiplos, fragmentados, desordenados e muitas vezes contraditórios. É estranho que essa contradição vai prendendo (a mim prendeu, como se estivesse a ser sugado por uma espiral). O filme começa com Juan Preciado, que após a morte da mãe, volta à cidade de Comala para procurar o pai, Pedro Páramo. Logo que chega, fica a saber que este já havia morrido há anos. Em Comala entra em contacto com diversos moradores, todos, de alguma forma, ligados ao falecido pai. Aos poucos, pequenas contradições e absurdos vão-se sucedeendo: ouvem-se fantasmas, borram-se os limites entre o real e o sobrenatural, sono e vigília, passado e presente, até que se entende que todos, inclusive os diversos narradores, que se alternam, estão mortos. Apesar de não estarem conscientes do seu próprio estado, os habitantes do lugar percebem que os demais estão mortos.

Ao ver o filme pensei no livro de Gabriel Garcia Marques, 100 anos de solidão que dás cinco vezes que li, não terminei devido a complexidade do mesmo que é para mim, causada pela densidade do livro. Penso eu, que se tivesse lido o livro Pedro Páramo teria tido a mesma dificuldade. Se um filme tende a diluir as coisas e este estava denso, não quero imaginar o livro. Sempre achei que o livro de Gabriel Garcia Marques daria um óptimo filme ou série. Recomendo o filme para aqueles que não têm preguiça de pensar e que gostam do género Realismo Mágico.

Zaiby Manasse

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Conheça os Heelers ou A Televisão Animada como Meio de Educação Familiar – O exemplo de Bluey

I would like to make a film to tell children it’s good to be alive.

                                                                                                                              Hayao Miyazaki

Um dos aspectos mais marcantes das infâncias que foram, que são e que virão a ser de qualquer ser humano são, sem dúvidas, os desenhos animados. Aquelas cores, os movimentos desafiadores da física, os sons engraçados, as piadas que nos faziam e ainda fazem-nos contorcer à gargalhadas despertando nostalgia, são das memórias mais agradáveis que qualquer ser humano pode ter. Ainda, fazem-nos dizer que a vida vale a pena. Porém, nem todos os desenhos animados que marcaram a nossa infância tinham um carácter educativo e dignos de serem assistidos na presença dos pais; alguns contêm até piadas compreensíveis a partir de certa idade. Mas, nos últimos anos, as produções de séries animadas têm almejado alcançar um vasto público composto por espectadores de várias faixas etárias que podem desfrutar em família de uma série animada mais envolvente.

A série animada Bluey, criada na Austrália pelo animador, realizador e roteirista Joe Brumm, rapidamente se destacou como uma das produções infantis mais aclamadas da actualidade. Lançada em 2018, transmitida pela ABC Kids, na Austrália,  CBeebies (o BBC da pequenada), no Reino Unido e Disney Júnior Porto, em Portugal, a série é centrada na personagem homónima Bluey, uma cachorrinha da raça Blue Heeler, que vive com sua família em Brisbane, na Austrália. A narrativa é simples, minimalista mas cheia de nuances, abordando temas como a importância da imaginação, a dinâmica familiar e o crescimento emocional a cada episódio.

Um dos pontos mais fortes de Bluey é sua habilidade em capturar as complexidades das interacções familiares e sociais. Cada episódio, com uma duração de 7 minutos, aborda situações quotidianas que reflectem a vida real das crianças e suas famílias. Desde brincadeiras no parque até conversas sobre sentimentos, a série apresenta lições valiosas sobre empatia, resolução de conflitos e a importância de brincar. A trama é sempre envolvente, equilibrando humor e aprendizado de maneira leve e acessível aos espectadores.

A série também se destaca por sua representação diversificada. Bluey e sua família são representações fiéis da sociedade global contemporânea, mostrando uma variedade de famílias e culturas. A presença de personagens secundários com diferentes características sociais e étnicas contribui para uma narrativa inclusiva, permitindo que muitas crianças se vejam reflectidas na tela. Essa diversidade não é apenas visual; os roteiros também exploram diferentes dinâmicas familiares, promovendo uma visão mais ampla das experiências infantis.

A animação de Bluey é um outro aspecto considerável. Com um estilo visual vibrante e colorido, a série utiliza uma paleta que capta a essência da infância. Os cenários são detalhados, proporcionando um ambiente rico que estimula a imaginação. A direcção artística, sob alçada da Ludo Studio, combina simplicidade e expressividade, fazendo com que as emoções dos personagens sejam facilmente compreendidas pelo público infantil e adulto. Essa estética visual, aliada a uma trilha sonora encantadora, contribui para a imersão dos espectadores da série.

Um dos maiores triunfos da série animada é sua capacidade de tocar em temas universais que ressoam tanto em crianças quanto em adultos. A série não hesita em abordar emoções complexas como a frustração, a tristeza e a alegria em contextos que os pequenos conseguem entender. Episódios como “Sleepytime”, onde a Bingo- irmã mais nova da Bluey- enfrenta a dificuldade de dormir e, auxiliada pela Mãe, a série traz ao de cima a ansiedade e a necessidade do apoio da família. Essa abordagem permite que pais e filhos assistam juntos, gerando conversas significativas e momentos de conexão.

A recepção de Bluey é um testemunho de seu impacto na cultura contemporânea. A série foi amplamente elogiada por críticos e educadores, recebendo diversos prémios, incluindo cinco AACTA Awards consecutivos de 2019 a 2023 e o International Emmy Kids Award em 2019. Seu sucesso não se limita apenas ao público infantil, pois muitos pais destacam a relevância das mensagens transmitidas, além de sua capacidade de ensinar valores essenciais e educativos enquanto entretêm.Bluey é mais do que uma simples série animada para crianças. É uma obra que combina humor, empatia e aprendizado de maneira excepcional, conseguindo atingir tanto o público jovem quanto os adultos que a acompanham. Sua abordagem sensível e inclusiva aliada à qualidade da animação e aos temas universais que aborda, fazem dela uma referência no género. Bluey não apenas entretém como também educa, tornando-se uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento emocional, intelectual e social das crianças. É uma série que merece ser vista e discutida não apenas por seu valor como entretenimento, mas também por suas contribuições para a formação de cidadãos mais empáticos e conscientes de si e do seu meio. Estes elementos tornam a sérienuma das maiores obras-primas da animação infantil no século XXI.

Por Denilson Monjane

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Apologia de um remorso, em “Oppenheimer”, de Christopher Nolan

 

“Agora me tornei a Morte, a destruidora de Mundos”

Bagavadeguitá

“Cometi um grande erro na minha vida quando assinei uma carta ao presidente Roosevelt, recomendando que as bombas atómicas fossem feitas.” Albert Einstein

“Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu ao Homem. Por isto, foi acorrentado a uma pedra e torturado para a eternidade.”É com este excerto, de um dos mais conhecidos mitos gregos que começa o maior evento cinematográfico de 2023: “Oppenheimer”, realizado pelo cineasta anglo-americano Christopher Nolan, adaptado do livro American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, de Kai Bird e Martin J. Sherwin.

Trata-se de um filme que, embora necessário para o debate em torno do cenário global actual perante a indústria bélica, empreendida no fabrico de armas nucleares é, fundamentalmente, como o título sugere, uma submersão na psique do seu protagonista Julius Robert Oppenheimer, então físico teórico americano, vivamente interpretado pelo actor irlandês Cillian Murphy. Através dele, seguimos a trajectória de Oppenheimer, partindo de um jovem conturbado e estudante de química em Cambridge a um empenhado físico doutorado em Gottingen, determinado a realizar as suas ambições científicas. Numa narrativa paralela entre passado e presente, somos submetidos a experimentar, na primeira pessoa, a degradação psicológica de um homem convencido de saber o que fazia enquanto dirigia o seu remoto laboratório em Los Alamos, EUA.

A bomba atómica torna-se num coadjuvante ao longo do filme e, em algum momento, para-se de prestar atenção na bomba em si, e foca-se no próprio Oppenheimer. Uma observação curiosa, nos primórdios da civilização humana até a idade média, antes da descoberta da pólvora pelos chineses, que viria a revolucionar o fabrico de fogos de artifício; ou de Alfred Nobel inventar o dinamite, as guerras eram então universalmente combatidas corpo-a-corpo, com recurso ao que formalmente chamam de armas brancas: espadas, flechas, lanças, machados, etc. E, em meio as atrocidades sangrentas cometidas pelo Homem ao próprio Homem, ainda não havia surgido a ciência humana que estudaria os efeitos mentais da guerra. Ou seja, e digo isto de forma quase cómica, os vikings, por exemplo, assim como os romanos, ou uma outra civilização que se achava no direito de se sobrepor a outra, invadiam territórios, matavam homens, estupravam mulheres e tomavam estas e suas crianças como suas escravas ou as matavam. Mas, não se pode provar que o Homem destes tempos, após cometer tais atrocidades, voltava psicologicamente transtornado. Pelo contrário: celebrava! Fazia-se um banquete e tocavam-se instrumentos, vangloriando a proeza dos homens que voltaram sujos de sangue e victoriosos.

Oppenheimer provavelmente nunca esteve em território japonês quando em vida. Mas, após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi tomado por um remorso que, depois de um discurso vazio sobre o sucesso das explosões, ao ser convidado a casa branca para celebrar com o então presidente Franklin Roosevelt, interpretado por Gary Oldman de forma sublime, não hesitou em proferir as palavras que confirmaram o início da sua degradação mental: “Sr. Presidente, sinto que tenho sangue nas minhas mãos…” ao que o presidente respondeu, friamente: “Tu achas que Hiroshima ou Nagasaki se importam de saber quem fez a bomba? Eu é que deixei cair a bomba, não tu!” Prometeu, na mitologia grega, deu o fogo ao Homem, impulsionando o seu desenvolvimento mas, será que ele, acorrentado a uma pedra com a águia de Zeus a lhe comer o fígado eternamente, estará arrependido? Será que está alegre com o que a humanidade fez com o fogo?

Em uma de suas conversas, Albert Einstein levanta a seguinte pergunta: “O homem inventou a bomba atómica. Mas, me diz que rato no mundo construiria a própria ratoeira?” Bem, com o fogo o Homem também acendeu o cigarro e J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, após dar à humanidade o maior empreendimento do fogo que o mundo já viu, foi morto por uma porção deste fogo na ponta de um cigarro, com um cancro na garganta.

A actuação do elenco de elite deste projecto ambicioso de Nolan prende a quem assiste durante 180 minutos que passam em contáveis piscares de olhos. Para além do personagem homónimo e director do laboratório de Los Alamos, notam-se papéis marcantes da esposa comunista e obcecada Katherine Oppenheimer, interpretada por Emily Blunt, a femme fatale Jean Tatlock, psiquiatra e também comunista interpretada por Florence Pugh, o general e engenheiro do exército Leslie Groves, interpretado por Matt Damon, que dirigiu o Manhattan Project e Lewis Strauss, membro de topo da Comissão de Energia Atómica dos EUA. A direcção cinematográfica do colaborador frequente de Nolan, o holandês-sueco Hoyte van Hoytema, é de despertar um encanto visual e ambicioso, sem mencionar a excitante trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que nos possui a medida que compreendemos a aplicabilidade da física e o seu lado obscuro. Oppenheimer não é apenas um filme: é um evento histórico no cinema dos últimos dez anos, desde a virada para o século XXI e revelante para o debate sobre o cenário político e científico global.

Denilson Monjane

SOBRE O AUTOR

Denilson Monjane, natural de Maputo, é licenciado em Tradução de Inglês-Português pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. É tradutor e intérprete, fascinado pelas artes e escrita sobre as mesmas.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| You’ve got this (Ahi te encargo)| Opinião (Review)

Título: You got this (Ahi te encargo)

Direcção: Salvador Espinosa

Género: drama; comédia; família

Elenco: Maurício Ochmann; Esmeralda Pimentel

Ano: 2020

Imagem Fonte: Hagertjourn

Sinopse

Alex, um criativo publicitário quer ser pai a todo o custo, mas a sua mulher é uma advogada no topo da carreira, e ser mãe não faz parte dos seus planos. Um convidado inesperado irá desafiar o amor do casal.

Opinião

“You got this”, ou título original em espanhol, “Ahi te encargo”, é uma comédia mexicana, de 2020, sobre um casal feliz, que entretanto, tem sonhos e filosofias diferentes. É curioso que, muitas comédias recentes da América Latina (como por exemplo o filme “One Small Problem”), têm trazido este debate, com a tendência em inverter os papeis, onde a mulher, no auge da carreira, ou simplesmente por escolha natural, não deseja ter filhos. Por alguma razão, a Netflix está a apostar nestes roteiros, obviamente com uma audiência específica. Se calhar, em jeito de comédia, para mostrar uma realidade presente e mais verdadeira do que se pensa?

Alejandro e Cecília, protagonistas da trama, encarnam um casal regular, com algumas características dos típicos personagens deste tipo de comédias, mas também, com uma postura mais séria, que debatem as suas diferenças. Cecília sempre deixou claro que não deseja ter filhos, facto que, a dada altura, entra em choque com o desejo de Alejandro, que quer ardentemente ser pai. O filme tem alguns bons momentos, mas não é tão memorável, nem eficiente no quesito a que se propõe. Entretanto, houve o cuidado de trazer essa discussão complicada, sem retratar um outro género de forma negativa, pelas suas escolhas. Vale, também, pela representação do empoderamento da mulher, da queda do machismo e pela mensagem sobre os valores que valem num relacionamento (o diálogo e compromisso).

Filme de Domingo, que vale a pena ver se você estiver interessado no tema, mas não necessariamente uma forte comédia.

A nossa pontuação:

3 de 5 estrelas

Confira o trailer no link mais abaixo:

ENGLSIH VERSION

Plot:

Alex, na advertsing creative wants to be a father at all costs, but his wife is a lawyer on the top of her career, and being a mother is not part of her plans. An unexpected guest will challenge the couple’s love.

Opinion

“You got this,” or its original Spanish title, “Ahi te encargo,” is a 2020 Mexican comedy about a happy couple who, in the meantime, have different dreams and philosophies. Interestingly, many recent Latin American comedies (such as the film “One Small Problem”), have brought this debate, with the tendency to reverse the roles, where the woman, in the top her career, or simply by natural choice, does not wish to have children. For some reason, Netflix is betting on these scripts, obviously with a specific target. Maybe, in a way, to show a reality that is present and truer than we think?

Alejandro and Cecilia, the plot’s protagonists, embody a regular couple, with some features of typical characters of this type of comedies, but also, with a more serious stance, who debate their differences. Cecilia has always made it clear that she does not wish to have children, a fact that at a certain point clashes with Alejandro’s desire, who ardently wants to be a father. The film has some good moments, but it is not that memorable, nor is it efficient in what it sets out to do. However, care was taken to bring up this complicated discussion without portraying one or another gender in a negative light, for their choices. It is also worth it for the representation of women’s empowerment, the fall of chauvinism, and for the message about the values that count in a relationship (dialogue and commitment).

Sunday movie, worth seeing if you are interested in the topic, but not necessarily a strong comedy.

Our score:

3 out of 5 stars

Check the trailer here:

https://m.imdb.com/video/vi4088054041?playlistId=tt13118012&ref_=tt_ov_vi

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Cinema | Living with yourself – Série |– Opinião

Living-with-Yourself

Foto: noticiasetecnologia

Premisa

Living with Yourself conta a história de um homem, que após um estranho tratamento num “SPA”, que garante uma vida melhor, acaba por acordar e descobrir que foi substituído por um clone.

Opinião

No que se refere ao quesito humor, ninguém melhor que Paul Rudd e suas imperdíveis expressões, para arrancar algumas gargalhadas. Nesta produção da Netflix, Paul Rudd encarna um papel duplo, com grande habilidade e mestria. Mas, ao contrário do que se possa pensar, não se trata apenas de uma comédia. Living with yourself consegue retratar de forma comovente, um drama bastante provável na vida de qualquer um de nós.

Já alguém desejou experimentar uma mudança drástica, seguir um caminho diferente, ser outra pessoa? Bem, Miles é um homem insatisfeito e farto da rotina que leva. Nesse contexto, é atraído para um “SPA” que promete transformá-lo numa melhor versão de si mesmo, dando-lhe a promessa de uma vida mais feliz. O que Miles desconhece, entretanto, é que o SPA cria clones, matando os originais. Para o bem da série, Miles original sobrevive.

A princípio, o clone acaba sendo útil para Miles original, pois fica com a rotina mais chata (como por exemplo ir ao serviço) enquanto Miles original deixa-se estar em casa, entretido nas coisas que já não tinha tempo para fazer (como por exemplo, escrever o seu romance). Parece promissor, mas as consequências de haver uma única vida, para duas pessoas, são bastante previsíveis e depressa começam a pesar no Miles original (mais uma vez, ilações sobre consequências inesperadas da tecnologia, como em “Black Mirror” são aqui salientadas).

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Imagem: Hollywoodreporter

Esta série tem o mesmo conceito apresentado na película brasileira “um homem só”, estrelando Vladimir Brichta, todavia, diferente do tom mais escuro do filme, Living with yourself consegue abordar a crise existencial e de um casamento a afundar, sem entretanto tornar-se pesada. A actuação, tanto de Paul Rudd (por sinal brilhante), como de Aisling Bea, é bastante plausível, e o final da primeira temporada deixa as portas abertas para um interessante seguimento. São oito episódios assistiveis numa sentada, com uma narrativa dinâmica que mantém o constante interesse pela perspectiva múltipla dos personagens, e os saltos cronológicos entre o passado e o futuro.

Uma série que vale a pena conferir.

A nossa classificação: 3.5 de 5 estrelas

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema| The I-land – o grande desastre da Netflix |Opinião

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Fonte Imagem: Nit

Ano: 2019

Premisa

“The I-Land” conta a saga de dez pessoas que acordam numa ilha deserta e perigosa, sem memória de quem são ou de como lá chegaram. Cedo, elas percebem que terão de enfrentar alguns desafios físicos e psicológicos para sobreviverem.

Opinião

Logo nos primeiro minutos da série, é impossível não fazer uma analogia directa com a célebre “Lost”, pese embora nós da tripulação nem sequer tenhamos assistido a esta. Apenas conhecemos o seu conceito. A construção gráfica e a escolha da sonoplastia lembra, de igual forma “3%”, outra produção da Netflix, com o senão de “The I-Land” estar muito abaixo desta . O conceito puxa também um bocado por “black mirror” (mas desprovida do talento desta).

Sem mais delongas, “The I-Land” é pouco original e simplesmente desastrosa. Ela gira entre o enfadonho e o ilógico. Algumas sequências são tão absurdas que acabam arrancando algumas gargalhadas, embora não haja graça nenhuma. Quando um personagem que acorda sem memórias, numa ilha deserta, decide ignorar estas circunstâncias assustadoras e prefere ficar relaxado a apanhar banhos de sol na praia, revelam-se claros indícios de haver um sério problema na caracterização dos personagens. E o que dizer do personagem que vai para o mar, mesmo tendo visto um colega ser morto por um tubarão nesse mesmo mar?

Não é assim de surpreender, que os personagens ao longo da trama não evoluam, não parem de revelar sistematicamente as suas inconsistências, e até mesmo desinteresse em estarem aptos a dinâmica que a narrativa exige. Perante escolhas que podem determinar a vida ou a morte, os personagens fazem decisões simplesmente arbitrárias, sem qualquer raciocínio. As relações e a dinâmica entre os personagens é extremamente artificial, sem nada de orgânico.

É como se aos criadores da série, faltasse total atenção aos detalhes da narrativa, deixando passar estas terríveis falhas.

Ao longo da trama acompanhamos com alguma profundidade a história da protagonista Chase (Natalie Martinez), KC (Kate Bosworth) e Cooper (Ronald Peete), mas os restantes sete, não parecem suficientemente importantes para serem desenvolvidos. Há única coisa que sabemos acerca de todos eles, é que carregam alguma culpa, razão pela qual, encontram-se na ilha. Talvez resida aqui, algum mérito da série, a discussão filosófica que pretende trazer, sobre o que é moralmente condenável, e se o comportamento criminal do homem é inerente à sua natureza, ou às circunstâncias e o ambiente em que se encontra. Debate pertinente, mas cuja relevância acaba por perder-se pela pobre execução, e a narrativa tão mal escrita.

Apesar de ser uma série limitada, com apenas (felizmente) 7 episódios, não se recomenda.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 1.5 de 5 estrelas

 

 

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema | Resgate – um covite à reflexão social |Opinião

 

resgate posterTítulo: Resgate

Direcção: Mickey Fonseca, Pipas Forjaz

Elenco: Gil Esmael, Arlete Bombe, Rachide Abdul, Laquino Fonseca e Tomás Bié

Género: acção; drama

Ano: 2019

Sinopse

 

“Resgate centra-se na história de Bruno, que quer mudar de vida depois de ter passado quatro anos na prisão e conhecer finalmente a filha bebé que partilha com Mia. Tenta encontrar, primeiro sem sucesso, um trabalho como mecânico, a profissão em que se especializou. A tia, irmã da sua recém-falecida mãe, arranja-lhe um emprego numa garagem. Mas este novo plano de vida cai por terra quando, sem aviso, o banco ameaça despejá-lo da casa da mãe se não pagar o empréstimo, por ele desconhecido, que ela contraiu antes de morrer. E é aí que vai ter de voltar ao mundo do crime” In O Público

Opinião

Resgate é um filme independente moçambicano, produzido pela Mahla Filmes. Estreou no dia 18 de Julho em Moçambique e foi este mês (Agosto) exibido nos cinemas de Portugal. Pese embora a estreia tenha sido há pouco, a produção do mesmo iniciou já há alguns anos. Ainda lembramo-nos perfeitamente da campanha de crowdfunding lançada há 3 anos, para apoiar o filme. A mesma despertou a atenção e o interesse dos moçambicanos, perante a ânsia que há por mais produções cinematográficas no país. Por esta e outras razões, nós da tripulação do diário de uma qawwi ficamos muito contentes quando o filme finalmente estreou.

Diferentemente de algumas propostas recentemente apresentadas, Resgate não pretende brincar ou testar a paciência do público alvo. Numa mistura de acção e drama, a película é efectivamente bem conseguida, tanto nos aspectos visuais, como no apelo que faz à reflexão social. Há uma extensa carga dramática durante todo o longa, onde problemas acentuadamente conhecidos na socieade moçambicana, como o desemprego, o aceso à habitação, e a discriminação são explorados.

O filme é de certa forma polémico perturbante. Aborda o mundo do crime e da violência, usando como pano de fundo a triste realidade dos raptos que em determinada altura assolaram o país. A arte gráfica da capa é de louvar. Os diálogos e a narrativa são bons, embora em alguns momentos subestimem o telespectador, criando e desvelando informação que no fim, acaba por tornar-se inútil na construção da trama. Há um trabalho requintado nas cenas de luta, no som, e na trilha sonora. Alguns aspectos técnicos poderiam ser refinados, como os efeitos de “fade out”, os quais poderiam perfeitamente ser dispensados. A interpretação dos actores é soberba. O actor que dá corpo ao protagonista Bruno, usa a linguagem corporal de forma eficiente, capaz de transmitir, muitas vezes calado e só pelo olhar, o espectro de emoções conflituosas que carrega o seu personagem.

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Gil Esmael em Resgate (Bruno) – imagem: Blog Mbenga

Em conclusão, trata-se de um filme nacional moçambicano bem escrito e dirigido, o qual deveria incentivar o investimento no cinema, servindo como exemplo para outros projectos. Confira o trailer:

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema | 3 por cento – temporada 3 – Opinião

Opinião

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Imagem via Netflix

Quem acompanhou as temporadas anteriores de 3% por cento, irá facilmente compreender os motivos de muitos considerarem esta série como a versão brasileira de hunger games. De facto, num universo tão distópico quanto o da referida produção americana, 3º por cento apresentou-se forte e estabeleceu um alto padrão de qualidade, capaz de satisfazer tanto o público alvo, como o menos comum

A 3ª temporada mantém os temas do início. Apesar da ligeira desaceleração e da ausência de algumas personagens chaves, há desenvolvimento de novas narrativas, com uma dinâmica fresca, colmatando estas ausências. Nesta nova fase, Michelle (Bianca Comparato), criou a concha, um sistema alternativo ao do Mar Alto e ao do Continente. O sistema tinha tudo para dar certo, até começar a descarrilar, por causa da natureza humana.

A discussão sobre valores morais, a miséria e a divisão de mundos continua premente. Porém, nesta temporada, onde os personagens são assaz voláteis, somos capazes de ver, de forma interessante, até que ponto a fome é capaz de transformar as personalidades, aflorando o nosso lado mais negro. Se isto é um ponto positivo, deve admitir-se também que houve algum exagero, pois alguns personagens acabam passando a impressão de ter excessiva ambiguidade. Rafael (Rodolfo Valente) e Marco (Rafael Lozano) cresceram bastante nesta fase. Já Joana (Vaneza Oliveira), continua consistente ao que já nos habituou.

Apesar do acréscimo no orçamento para este ano, julgamos que a nível estético os cenários poderiam estar melhor. Já a música seguiu original.

Esta temporada, por certo, mostra um amadurecimento da produção e abre espaço para a continuação da exploração destes temas que tendem a mostrar-se cada vez mais relevantes no mundo actual.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas