Resenhas

Sussurro em Maputo

(parte 2)

Vallen tornara-se a sensação de Maputo. Não havia televisão, família ou beco onde o assunto não fosse sussurrado. Durante o dia, via-se nos rostos um cansaço difícil de esconder. Muitos já não dormiam.

— É o anticristo — diziam alguns.

Surgiram profetas. Prometiam soluções encomendadas dos céus,distribuíam águas, pulsos abençoados e objectos sagrados destinados a evitar “a voz”. Mas, nada disso detinha o Vallen.

As crianças continuavam obstinadas, perguntando pelos clubs, por Linan. Sempre da mesma maneira, no mesmo horário.

O governo viu-se obrigado a tomar medidas. Vedou as viagens interprovinciais. Temia-se que o fenómeno fosse transmissível e se espalhasse por outras geografias do país. Houve, também,contactos externos. De Harvard vinham notícias inquietantes: o desaparecimento do famoso astrofísico Dr. Harmistrong, também envolto ao nome Vallen. De Boston, relatos de uma explosão misteriosa numa prisão. E, pouco a pouco, as peças começaram a se encaixar. Maputo estava nas principais televisões e revistas do mundo; cientistas, curiosos e agentes secretos desfilavam pelas suas ruas, tentando estudar o fenómeno. 

Teorias da conspiração eram tecidas. Cada versão mais inquietante que a outra.

E, então, numa certa noite — sem aviso, sem transição, sem clímax — o fenómeno parou.

Na manhã seguinte, a novidade espalhou-se como um rumor feliz, mas ainda cauteloso. As pessoas falavam baixo, como quem teme despertar algo adormecido. Uma semana depois, as famílias respiravam de alívio, voltaram a jantar em paz, convencidas de que “a voz” pertencia ao passado.

Vallen, porém, já conseguira o que queria: uma pista de Linan.

٭

Enquanto a cidade celebrava o silêncio, uma casa continuava a receber, misteriosamente, aquela voz.

Vallen continuava falando com Flávia; ainda se apossava do menino Chelton.

Flávia já aprendera a reconhecer o instante, preferencialmente à hora do jantar.

— Flávia!!_ dizia o miúdo, com os olhos fixos na mãe. 

Já não havia susto. Nem lágrimas. Nem desespero. Apenas cansaço. 

Ela permanecia sentada, com a colher na mão. Como se aquela voz estranha fosse mais um convidado à mesa. Afinal, não se pode lutar com aquilo que não podemos vencer. 

— Já sei quem és — disse Flávia, sem interromper a sua refeição. 

Houve uma pausa. 

— Não. — Corrigiu Vallen —  Sabes apenas o meu nome. 

Flávia jogou a colher no prato e levou as mãos à cabeça. 

— Mas o que queres de mim?

O silêncio adensou-se.

— Linan.

Flávia respirou fundo.

— Não conheço… aliás, ninguém conhece.

A resposta veio sem elevação, sem ameaça. 

— Conheces.

— Todas as crianças perguntaram por ela — disse Flávia. — A cidade inteira procurou. Ninguém sabe quem é.

— Sabem.

— Então, por que não aparece?

Outra pausa.

— Porque vocês não sabem olhar.

Flávia encarou aqueles olhos e soltou um riso curto:

— E tu sabes?

— Sei.

Outra pausa.

— Ela esteve aqui — disse Vallen.

— Aqui onde?

Flávia sentiu um arrepio lento, a respiração dela tornou-se irregular. Olhou para a sua casa como se procurasse pistas para entender tal afirmação. 

— Você foi tocada, Flávia!

— Tocada?

— Linan passou por ti.

Flávia engoliu em seco.

— Isso é impossível.

— Para vocês, humanos, muitas coisas são impossíveis. Mas, tufoste a Linan por muito tempo. 

Por Vallen

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