Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | Aladdin – o tapete mágico para uma saudosa viagem | Opinião

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Imagem: Pipocasclub

Título: Aladdin

Direcção: Guy Ritchie

Elenco Principal: Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Nasim Pedrad

Género: Fantasia; Romance; Live-action; Musical

Ano: 2019

Sinopse

Um jovem humilde descobre uma lâmpada mágica, com um gênio que pode conceder-lhe 3 desejos. Agora, o rapaz quer conquistar a jovem por quem apaixonou-se, desconhecendo o facto de que a mesma é a princesa do reino. Com a ajuda do gênio, ele tenta passar-se pelo Príncipe Ali, para conquistar o amor de Jasmine e a confiança do sultão.

 Opinião

Deste lado somos da geração que até hoje guarda na memória cada diálogo e canção deste que é um dos clássicos mais bonitos da Disney. Não é assim de surpreender, que estivéssemos muito curiosos com relação a esta live-action, quando não para conferir as impressões inicias, para matar as saudades desta animação. E é isto que o filme proporciona: uma agradável viagem pelo tempo, no tapete mágico das lendas árabes. Todavia, embora tente manter-se fiel ao clássico, com as devidas (e necessárias) adaptações, o filme acaba por perder parte do glamour e do brilho da animação original. O que terá acontecido com os elefantes, os camelos, os mamíferos raros e toda a pompa que acompanha a grande entrada do príncipe Ali? E o ambiente idílico, com direito a passagem por magníficas garças e pelas pirâmides de Gizé, na canção “a whole new word”? Pode ter sido deficiência dos efeitos CGI ou meramente, alguma falta de esmero nesses detalhes?

Aladdin (2019)                                   Aladdin (1992)

Aladdin (2019)                                          Aladdin (1992)

Olhando para os personagens, ficamos, honestamente, deveras desiludidos com a escolha para Jasmine. Nada contra Naomi Scott, que provou ser uma excelente actriz, à altura desta nova personagem, ávida por direitos iguais e empoderamento. Excepto, entretanto, que em nada ela parece a Jasmine da animação. Marwan Kenzari, tão pouco esteve à altura do carismático Jafar. Na verdade, Kenzari está extremamente fraco, demasiado sério, e nada vilanesco. Mas também, convenhamos, seria difícil conseguir trazer na plenitude a elegância do clássico vilão. Fora estes senões, há aspectos dignos de apreciação.

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Imagem: portalapmais

A interpretação de Will Smith é das mais originais e rende à película diversas cenas engraçadas e inesperadas, fazendo justiça à personagem da animação, vivida em voz pelo saudoso Robin Williams.

Por outro lado, apesar de não ter a mesma energia do Aladdin original, Mena Massoud transmite sensibilidade e charmes únicos, fazendo deste ladrão generoso um personagem muito querido. Mena revela-se assim, uma escolha bastante apropriada. É fácil temo-lo como o Aladdin da vida real.

As canções do filme estão soberbas, com destaque para novos hits, incluindo “Speechless”, que tem uma belíssima interpretação de Naomi Scott. Em resumo, é um bom filme, que apesar de ficar algo aquém da animação, vai entreter e encantar os amantes de Aladdin.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Resenhas

7 passos para superar o fim do relacionamento através da música

O fim ou a perda de qualquer relacionamento humano (amizade, namoro, rompimento familiar) é doloroso. Especialmente quando a pessoa com quem rompemos é importante para nós. Por isso os psicólogos equiparam à uma perda física. É dito, inclusive, que os 5 estágios da perda (negação, negociação, ira, depressão e aceitação) também aplicam-se a um rompimento.

Há quem atravessa esses estágios de uma vez. Há quem o faça aos poucos. Há quem não segue a sequência, e há os mais fortes, que dispensam algumas ou todas essas etapas.

Onde entra a música aqui?

Bom, canções não servem somente para entreter. Elas têm um impacto mais profundo no nosso consciente. Assim é, que na psicologia desenvolveu-se a corrente da musicoterapia.

A resenha de hoje traz temas musicais, que podem servir de terapia no processo do rompimento, caso o seu coração esteja a atravessar uma fase mais cinzenta. Vamos a isso?

Fase 1 – Em buscas de respostas

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A fase mais melancólica e dramática. Não importa se você é homem ou mulher, se foi obrigado(a) a terminar, ou se foi você o largado(a). Nessa altura, é normal buscar-se respostas.  Questionar o porquê do fim. Afinal, a repentina ausência daquela pessoa, dói. Aproveite para escutar as músicas nesta secção. Sinta-se à vontade para gemer na almofada, pois não há vergonha nenhuma nisso. Faz parte do processo.

Where did we go wrong – Toni Braxton e Babyface

Onde é que falhamos? Será que é tudo culpa minha?”

Ilegal – Shakira

Desde que foste embora, ando a roer as unhas. E a fazer-me as mesmas perguntas, de novo e de novo

Fase 2 – Negação

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Imagem: Shutterstock / Antonio Guillem

Claro, tem aqueles momentos em que simplesmente nos recusamos a aceitar que acabou. E agimos como verdadeiros tolos. É normal. E há quem está pior que nós. Escute:

Impossível acreditar que perdi você – Toni Platão

Não, eu não consigo acreditar no que aconteceu. É um sonho meu, nada se acabou. É impossível, não consigo viver sem você. Volte, venha ver, tudo em mim mudou

Fase 3 – Negociação

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E então, caímos na asneira de implorar e tentar negociar. Dizemos que vamos melhorar os nossos defeitos, que vamos abandonar certos hábitos (ao estilo super dramático de Leonardo). Não faça nada disso. O amor não se mendiga. Ninguém muda nem dá nada, se não quiser fazê-lo por iniciativa própria. Portanto, Se for negociar, inspire-se na música abaixo, só e somente se achar que de facto vale a pena lutar por esse amor.

If you leave me now – Chicago

Se me deixares agora, levarás grande parte de mim. Por favor, não vás. Quero que fiques. Um amor como o nosso é difícil de encontrar

Fase 4 – Recaída

A certa altura, um dos dois vai ficar tentado a voltar atrás. Nem que seja apenas para relembrar os velhos tempos. Nesse momento, entra-se numa espécie de limbo. Afinal de contas, a relação terminou, mas vocês continuam a ver-se. Lembre-se apenas de uma coisa: você não nasceu para ser joguete. Grandes são as chances de as coisas continuarem onde estão, ou seja, no término. Para o seu próprio bem, evite as recaídas. Vá mas é sair com amigos, curta aquele futebol, aquele cineminha e quando sentir-se prestes a cair em tentação, dance ao som destas canções:

Dance you off – Benjamim Ingrosso

Quero apenas dançar até esquecer-te. Quero sentir este momento com qualquer outra pessoa, menos tu. E vou conseguir

Call me when you’re sober – Evanescence

Não chores para mim, se me amasses, estarias aqui comigo. Se me queres, vem encontrar-me. Decide-te

Fase 5 – Ira

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O fim de um relacionamento, principalmente se repentino e “injusto”, pode deixar-nos irados. Por tudo o que sofremos, temos todo o direito de nos sentirmos zangados. Liberte a fúria, e grite ao som destas músicas:

Love yourself – Justin Bibier

Tenho estado tão concentrado no trabalho que nem me apercebi do que estava a acontecer. A verdade é que durmo melhor sozinho

Irreplaceable – Beyoncé

Não vou derramar uma lágrima por ti. Nem perder uma sequer noite. Porque na verdade o que impora é que substituir-te é muito fácil

Never ever – Taylor Swift

Nós nunca, nunca, jamais, voltaremos a estar juntos

Enquanto eu brindo cê chora – Bruno e Marrone

Enquanto eu brindo ‘cê chora. Porquê não levanta da mesa tem táxi lá fora? Você se achava perfeita, insubstituível. Te ver desse jeito chorando era tão previsível

Fase 6 – Aceitação

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Source: Image Source/Dan Bannister / Getty

Depois do momento da ira, começamos a aceitar a realidade. Acabou. É normal sentir saudades. Ainda assim, somos capazes de compreender que a dor aos poucos passará. Há que ter paciência e ser gentis connosco mesmos.

 Better in time – Leona Lewis

Com o tempo, vai melhorar

Sleeping with a broke heart – Alicia Keys

Esta noite vou encontrar uma forma de seguir sem ti

Fase 7 – caminho da esperança e rumo ao futuro

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Imagem: Pinterest – in Breath Travel

E então, chega a fase em que você volta a sentir-se forte, de bem com a vida, cheio(a) de esperança. Celebre a vitória do coração sarado ao som destas músicas:

Survivor – Destiny Child

“Sou uma sobrevivente, não vou desistir, continuarei a sobreviver”

I’m still standing – Elton John

“Continuo em pé. Bem melhor que antes”

I’m still breating – Toni Braxton

“Achaste que o meu mundo ia acabar, no momento em que saíste por aquela porta? Não, não eu. Ainda estou a respirar”

A canção campeã…

Afinal de contas, o mais importante, antes de tudo e de qualquer coisa, é sabermos ser felizes, perfeitamente sós. Procede?

Perfeclty lonely – John Mayer

Nada por fazer. Ninguém senão eu próprio. E é tudo o que eu preciso. Estou perfeitamente só. E é desse jeito que quero estar

Outras dicas:

Quando estiver triste por causa de um rompimento, tente fazer coisas que o animem. Não remoa o assunto. Foque-se em si, viaje bastante, esteja com amigos(as), divirta-se, e sobretudo, ame-se muito. Não se agarre ao passado, nem se deixe levar pelo pensamento de que você fez algo de errado. Se terminou, talvez, simplesmente, não fosse para ser.

Resenhas

Literatura | O homem que comeu o hospital, de Edmilson Mavie

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Autor: Edmilson Mavie

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Onde comprar: Fundação Fernando Leite Couto

Opinião

Confesso que demorei um pouco para ler este livro. Há obras que em certos momentos não se coadunam com o nosso estado espírito (ou vice-versa), e foi o que aconteceu com esta, a primeira vez que abri e explorei os primeiros dois contos.

Recentemente retornei à leitura. Desta feita, ela ocorreu num piscar de olhos. O escritor, tão naturalmente explorador do universo moçambicano onde se inspira para criar as suas histórias, transparece um contacto íntimo com a realidade à sua volta. Talvez, quem sabe, pela sua profissão. Ou por simplesmente ser um bom contador de histórias.

O vazio causado pela morte, a sede pelo poder, a ausência de uma mão mais provedora do sistema, as relações interpessoais, e por fim, o lado mais místico, e às vezes sinistro do próprio ser humano, são os elementos que compõem e ligam os cerca de 14 contos presentes nesta colectânea.

Contos como “o prognóstico”, “vencidos pela natureza” e “a fatalidade”, contam infortúnios comuns e visíveis na nossa sociedade, mas também desvelam-se como metáforas sobre questões mais complexas. O que seria um sistema médico incapaz de produzir um diagnóstico, ou então um mal-entendido onde um polícia acaba matando uma criança, senão uma conjuntura deficiente, onde todos nós acabamos por ser responsáveis pela tragédia?

Eis uma passagem do conto “a fatalidade”:

“o menino em mínimo movimento, rosto pálido e cianótico, estendeu o braço e abriu a mão com as moedas cintilando. E arrastando a voz em derradeiro momento lançou o mormente olhar à mãe e disse: – desculpa, mamã… é a polícia que só tem balas de matar”.

Relativamente a escrita de Edmilson, achamo-la elegante, acessível e poética. O autor conduz a sua narrativa de forma inteligente, pois consegue trazer um desfecho de certa forma inesperado a cada um dos seus contos. Vale ressaltar, entretanto, que logo no início percebe-se o tom das histórias a que se propõem contar. Outro aspecto interessante do livro, é a abertura de cada conto, que inicia com uma citação ou provérbio, para ambientar o texto.

A partir da segunda metade do livro, a escrita de Edimilson torna-se mais densa. Mais comovente, se nos permitirem. O conto que afigura-se mais colorido é o que dá título a obra. Aliás, o título nos parece ser exactamente o que sugere: uma provocação. Uma alusão aos nossos devaneios internos. E quem não os tem?

A capa e o título são sem dúvida impressionantes. Impossível não despertar a curiosidade para o que guarda o restante. A diagramação do livro é boa. A revisão, contudo, poderia ter sido um pouco mais atenta. Nada, entretanto, que retire o mérito da obra.

É uma leitura definitivamente recomendável.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas

(Por VF da tripulação)

Livros, Resenhas

Literatura| Razões para viver, de Matt Haig – um livro sobre depressão, para toda a gente ler

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Editora: Porto Editora

Opinião:

Editora: Porto Editora

Opinião:

Razões para viver é um livro autobiográfico do autor Matt Haig, que servindo-se da construção narrativa, relata de forma bastante aberta, a experiência que viveu durante o período em que sofreu de depressão, e como ultrapassou as barreiras impostas pela doença. Haig explica como, aos 24 anos, surgiram os primeiros indícios de neurose, e a dificuldade que teve, na altura, de compreender o que se passava com ele, já que nem sequer havia a internet para apontar alguma luz.

Ao contar a sua experiência, Matt pretende mostrar não apenas como sente-se a pessoa com depressão, mas também como reagem os outros a sua volta. Hoje em dia existe informação abundante sobre a depressão e os seus impactos, mas ainda assim, persiste a crença de que a doença é fictícia, criada para justificar actos estranhos. Através deste livro, com uma linguagem clara e desmedida, o autor desmistifica essa crença, reflecte sobre o que há melhor em estar-se vivo, usando uma certa dose de humor para apontar as coisas que não se devem dizer a alguém com depressão.

Eis uma passagem:

Coisas que se dizem aos depressivos e que não se dizem noutras situações de perigo de morte:

“vá lá, eu sei que tens tuberculose, mas podia ser pior. Pelo menos ninguém morreu”

“como é que achas que ficaste com cancro no estômago?”

“Ah, meningite. Ora, o poder da mente vence tudo”

“Pois, pois, a tua perna está a arder, mas falar disso a toda hora não vai propriamente ajuda, pois não?

A diagramação do livro é maravilhosa e as cerca de 250 páginas lêem-se de um só trago. Todos nós passamos por momentos mais ou menos difíceis (pese embora a depressão clínica possa desencadear-se do nada). Talvez por essa razão este livro seja tão facilmente relacionável.

Sobre o autor: Matt Haig é autor de cinco romances, incluindo vários bestsellers. Venceu o “book of the series” do TV Book Club (Channel 4) e foi incluído na lista para o Spacesavers National Book Award. The Humans foi seleccionado para o 2014 World Book Night.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

(Por PF, da tripulação)

 

Desabafo de uma qawwi, Resenhas

#26|Quero o divórcio (essa faca de dois gumes)

Fonte imagem: istock

Apareceu à minha porta sem avisar. Trazia um ramalhete de flores. Mas a visão não me agradou. Evocou-me antes, a memória do beijo. E de repente desejei que tanto ele como Fatinha tivessem os seus corações violentamente quebrados. Queria que Will estivesse tão miserável quanto parecia. Que se arrependesse por ter destruído a nossa união. Confesso que odiava-me sentir-me daquele jeito. Mas sentia. Era o que eu era, a minha nova entidade. E essa nova entidade, raivosa como um bicho ferido, fez-me fechar-lhe a porta na cara. Na verdade, só tinha aceite dar-lhe o meu endereço porque queria continuar perto de Érica.

– Não vou embora sem falar contigo, Linan! – os golpes na porta permaneciam altos.

Respirei fundo. Tentei abafar os meus gemidos, a angústia agressiva, os ciúmes insuportáveis. Se por um lado não me lembrava de ter experimentado tais sentimentos enquanto qawwi, na condição de humana parecia que neles naufragava.

– Sê breve – pedi num fio de voz, deixando-o entrar. Ao inalar o aroma das flores, espirrei.

– Meu Deus – admirou-se Will ao notar a reacção – São as tuas favoritas!

Para mim também era novidade. A humana em mim era alérgica a antúrios. Peguei no ramalhete e atirei no balde de lixo, sem um pingo de remorsso. Will apenas seguiu-me silencioso.

– Eu amo-te, Linan.

Operou-se uma confusão instantânea na minha mente. Voltei-me bruscamente.

– Não foi um beijo aquilo que vi entre ti e a Fatinha?

O rosto dele voltou-se para baixo.

– Sim, mas…

– Fizeste amor com ela?

O gargalo de Will inchou enquanto claramente engolia uma resposta azeda.

– Não é como estás a pensar, Linan.

-Ah não? Como podes alegar amar-me e ao mesmo tempo fazer amor com ela? Elucida-me, por favor – empurrei a mão dele. O toque não ia aclarar as ideias. Precisava de algo mais forte que isso.

– Em primeiro lugar, tu não estavas aqui!

Fiquei perplexa. Morrendo de overdose daquela ideia estapafúrdia.

– Ah! Então quando nos ausentamos, ausenta-se também o amor?

Will ficou lívido. Parecia tão incrédulo e surpreso quanto eu.

– Nunca deixei de amar-te. Tu é que me abandonaste! Trouxeste a nossa filha de volta, e de seguida sumiste. Eu vi! Deste as mãos a Vallen, de livre vontade, e evaporaste. Sem um único adeus. Dois anos. E eu sem saber se estavas morta, ou se de repente tinhas saído deste planeta. O teu telemóvel, entretanto, chamava. A secretária electrónica às vezes era de França. Outras, de Cabo Verde. Tailândia. Bora Bora. E a última vez, de Sydney. E tu nunca. Nunca deste um sinal, nunca respondeste às minhas mensagens!

– Porra Will, foi por vocês! Para proteger-te, para proteger a Érica! Eu não podia entrar em contacto pois estava a fingir ter deixado tudo para trás. Era a única forma que tinha para poder voltar para vocês.

– Para mim não foi fingimento. Despedaçaste-me por inteiro, Linan. Fatinha só chegou tão perto, porque também estava arrasada e tentava convencer-me de que ia tudo ficar bem. Ela ajudou-me a cuidar de Érica, mas não era…

– Era a minha melhor amiga. E tu a puseste no meu lugar. Foi isso.

Will calou-se. Sacudiu os ombros.

– Lamento imensamente que estejas a ver assim. Eu não estou com ela. Nunca faria isso. Queria apenas que entendesses que nos últimos meses… a minha cabeça estava em todos os lugares. Não fazes ideia!

– Tu também não! – Naquele instante os nossos corpos estavam muito próximos, mas os corações, distantes como o sol e o mar. Por isso gritavamos para que nos ouvissemos – não fazes ideia do quanto perdi para poder voltar para ti!

– Desculpa – os olhos de Will escureceram – Ao contrário de ti, sou humano. O meu corpo está sujeito a essa condição, e às vezes comete atrocidades. Mas o meu coração é e sempre foi teu.

Desejei ardentemente que nem eu, nem ele, fossemos humanos. Que soubéssemos ser unidos de corpo, alma e coração. A dissociação havia nos estilhaçado. E no reflexo dos escombros, brilhavam as nossas falhas. O coração, sem o corpo, é uma cegueira. E o corpo sem coração, é uma mutilação. Não havia metáfora possível para suavizar a realidade.

– Por favor – Will engolia as lágrimas – por favor – repetia consecutivamente – perdoa-me e deixa-me explicar.

– Escuta Will, não condeno-te por teres colocado a minha melhor amiga no meu lugar, ou por teres sido um idiota ao duvidar que eu iria cumprir a minha promessa. Tão pouco por teres esquecido que eu amava-te infinitamente. E sim, aceito as tuas desculpas.

Ele tremia quando perguntou muito baixo:

– Aceitas, mas não vais voltar para mim, é isso?

Reflecti durante alguns segundos. Ele estava correcto.

– Exacto, não vou voltar. Voltar para ti agora significaria desrespeitar os meus sentimentos. Ir contra mim mesma. Estou cansada disso e sinceramente, preciso ser mais benevolente comigo mesma.

– Algo em ti, mudou, meu amor.

– É o que acontece, Will. O universo muda constantemente.

Não tinha vontade de confessar que agora era humana. Que sacrificara os meus poderes, a minha essência, por ele. Uma força amarga e poderosa dentro de mim impedia-me disso.

– E pretendes abandonar-nos de novo? Vais teletransportar-te e sumir pelo mundo? E a nossa filha?

Suspirei. Até há pouco não me imaginava a fazer aquilo sem ele. A ser humana. Mas agora compreendia. Era uma jornada exclusivamente minha. Enfrentar os medos, a solidão, é o que faz de nós, nós. Precisava de um tempo sozinha, para entender-me comigo própria.

– Ouve-me com atenção, Will. jamais abandonarei a Érica, não tens de preocupar com isso. Mas o que quero agora é estar só.

– Percebo – Ele tentou aproximar-me, mas ao ver-me retesar, retrocedeu – ainda tenho fé no nosso casamento. Vou dar-te espaço, até que estejas pronta para perdoar-me.

– Acerca disso – rodei o anel no dedo – eu quero aquela coisa.

Ele franziu as sombras.

– Não sei se compreendo.

– Quero aquela coisa Will – retirei o anel, ao mesmo tempo que tentava desesperadamente recordar-me do termo certo – o divórcio. Eu quero o divórcio.

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Cinema|Avengers – Endgame (o inexplicável e inevitável) |Opinião

Título: Avengers: Endgame

Direcção:Joe Russo, Anthony Russo

Elenco Principal: todos os avengers

Género: Acção, aventura, fantasia, fantasia científica

Ano: 2019

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Imagem: BGR

Sinopse:

Nos eventos de Avengers – Infinity War, Thanos conseguiu deixar o universo em ruínas. Agora, os Vingadores remanescentes, irão juntar-se e aliar forças para desfazer as acções de Thanos e restaurar a ordem no universo, de uma vez por todas.

Opinião:

(SEM SPOILERS)

Estreou ontem Quinta-Feira (25.04.2019).

Os directores da película apelaram aos fãs que evitassem spoilers. Embora tenhamos muitos comentários e questionamentos, estes ficarão por ser feitos, em respeito aos que ainda não viram o filme. Portanto, a nossa opinião será breve e sem spoilers.

A projecção do filme no cinema rendeu inúmeras palmas da audiência. Muito mais do que às vezes acontece num show ao vivo. Tal por si só, compensou a experiência. Afinal, é um encerrar, gigante e épico, de mais de 6 anos de história dos avengers, numa jornada verdadeiramente única. A trama começa leve, mas desenrola como tempestade, revelando gradualmente plot twists (alguns há muito aguardados) e um elenco cheio de surpresas. A trilha sonora está lá. Talvez seja boa, mas acaba sendo engolida pelas cenas que roubam completamente a atenção do telespectador.

É bem possível, entretanto, que o filme deixe os seguidores divididos. Será que este inevitável desfecho, faz justiça à saga inteira e ao desenvolvimento dos personagens que foram cuidadosamente construídos ao longo dos anos? Se por um lado era necessário, e tal desfecho foi executado de forma arrebatante, não achamos coerência nenhuma nas teorias mal justificadas que foram apresentadas como suporte para o grande “endgame”. E mesmo assim… foi inevitável: aplaudimos a película durante a noite inteira.

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Imagem: Marvelstudio; Digitalspy

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Confira o trailer:

(por VF – da tripulação)

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Cinema | Nakufeva (Lizha James e Bang) | Opinião

“Nakufeva”, uma curta metragem produzida em Moçambique, conta a história de Jacob (Bang) e Lizha (Lizha James), um casal humilde e trabalhador, que vive numa zona periférica de Maputo. Lizha é a fiel e boa esposa, de português errado, cobiçada por outro homem, mais rico que o esposo Jacob. Este outro homem acaba ganhando em Jacob um inimigo. Paralelamente, o humilde casal, tira um prémio no totoloto e enriquece da noite para o dia. O dinheiro traz uma drástica mudança na vida do casal, inclusive na personalidade de ambos. Jacob deixa de ser um esposo presente, torna-se malcriado com a família, e torna-se amante da esposa do inimigo. Lizha, por outro lado, adquire outro tipo de indumentária, tornando-se elegante, mas continua com o português errado e mais ingénua do que nunca. Por forma a tentar salvar o seu lar, Lizha procura a ajuda de um pastor de igreja (este, tão duvidoso quanto o português da outra).

O filme tem uma premissa bastante básica, numa mistura de drama e sátira, sobre valores familiares, a prepotência do machismo, vingança e algumas crenças, facilmente espelháveis na sociedade actual. Propositadamente ou não, a película está mais para o género “musical”, do que qualquer outro, pese embora Lizha James seja a única intérprete das canções que compõem a trilha. O género, certamente, ficaria melhor servido se os personagens secundários coadjuvassem as canções e diálogos, como exige um bom musical. É verdade que as cancões e a cantora brilham bastante em cena, sendo um trunfo para o filme, embora acabem sobrepondo-se ao enredo. No que se refere à encenação da protagonista, o mérito é reduzido. A comunicação de Lizha simplesmente não funciona e a desliga por completo da personagem. Já Bang, parece bem mais natural e confortável no papel de Jacob. As cenas de luta exigiam claramente uma técnica mais aprimorada. As terríveis falhas tentaram ser trabalhadas pelo som. Vale o que vale.

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O filme peca também, por não ter continuidade e por ter um início confuso (não entendemos a “participação especial” do personagem interpretado por Gilberto Mendes, nem a sua função). Destaque vai para o actor que dá vida ao pastor, que emprestou uma certa dose de originalidade ao filme.

Refira-se ainda, que foi uma verdadeira saga conseguir assistir à película. Actualmente em exibição nos cinemas Lusomundo, a película foi encaixada entre as sessões de outros filmes. Ou seja, se um telespectador comprasse o bilhete para ver “shazam” por exemplo, teria primeiro, necessariamente, de assistir a curta metragem. Por razões óbvias, isto não funcionou. Como resultado, ao chegar ao cinema, não havia previsão exacta para a exibição desta curta metragem. Há que se ter em conta, que seja qual for a natureza ou propósito da obra, houve a promessa de divulgação da mesma ao público. Assim, o filme não tem de estar no meio da sessão de outro, tampouco deve ficar escondido / com a apresentação à merce do acaso. É preciso um horário próprio para a sua exibição, ainda que livre.

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A nossa pontuação: 2,9 de 5 estrelas.

Confira aqui o trailer: