
Yuran Amiss é um jovem com veia artística. As artes são – parece – o que lhe fazem respirar. Engana-se quem pensa que se trata de contradizer Roland Barthes, o qual mata os autores na tentativa de compreender a obra, alegando que se pode analisar a mesma longe das biografias, gostos e não gostos. Longe disso. Contudo, é relevante trazer este assunto ao de cima porque, no fundo, é a proposta de Amiss na exposição intitulada “Portas de Entrada”, inaugurada a 18 de Fevereiro de 2025, no espaço Galeria.
Acabámos não revelando a proposta trazida pelo artista. Antes disso, é preciso referir que se trata de uma exposição individual de artes plásticas, pintura e design, com corte a laser. A proposta a qual refirimo-nos é a seguinte: o artista tenta trazer na exposição, não um trabalho conceptualpropriamente dito, como quem tenta criar uma narrativa partindo das próprias obras (uma obra dialogando com as outras obras dentro da exposição, para uma grande significação) mas, aqui, as obras sem criar essa aparente narrativa referem-se, plenamente, ao artista. Essas obras não são uma forma de autobiografia, mas uma exposição que nos traz as vertentes do fazer artístico do artista, da sua polivalência.
Ao de todo, a exposição não fala muito; não diz além daquilo que se mencionou acima. O que difere, por completo, da análise individual e isolada das obras como “De Nós para Nós’’, um design feito por corte a laser . Uma obra bela, com contornos difíceis, mas precisos e bem conseguidos, tanto quanto outros designs, além de trazer nomes sonantes da cultura, sociedade e arte moçambicanas em específico,africana no geral. Nomes como Azagaia, Pepetela, Mia Couto, Zena Bacar, Ricardo Rangel e muitas outras figuras. Além de simples menções, estes nomes significam a amplitude em que as diferentes formas de manifestação artísticas fazem-nos ser artistas.
Com relação à pintura, Amiss é um homem de traços também precisos, que o fazem mais um retratista, um – talvez – que mesmo partindo da sua própria imaginação, acaba desenhando caras fáceis de reconhecer; características puramente humanas, exemplificado pela obra “Soberbo”, um acrílico sobre a tela, que retrata não uma figura em si, mas a soberbada forma como coloca a figura ali de soslaio. E, a sua actitude é soberba.
Ao de lado, passa uma impressão a qual de longe, mesmo de perto, é difícil de perceber; na tentativa de fazer uma linha que une a exposição (a precisão tanto no gesto com o pincel, que delimita rostos e expressões com segurança), asssim como com o laser (ao cortar com rigor quase cirúrgico os metais,para fazer os seus designs de portas, de cadeiras, e objectos com a única utilidade de ser beleza). Aqui, precisamente aqui, reside, talvez, a força e o estilo artístico de Yuran Amiss. Com designs de portas, de cadeiras, pinturas, o autor tenta trazer daquilo que são as suas valências como artista plástico – e fê-lo com algum êxito– o que vem acompanhado da precisão com que faz as suas obras.
Enfim, a sobreposição das formas, das suas valências como fazedor de arte à unicidade temática ou estética, mesmo estilística (apesar de haver aqui a precisão como o ponto que permea toda a exposição), retira profundidade a própria exposição.
Domingos Mucambe












