Resenhas

‎”Portas de Entrada” para o Fazer Artístico com Precisão, de Yuran Amiss

Yuran Amiss é um jovem com veia artística. As artes são – parece – o que lhe fazem respirar. Engana-se quem pensa que se trata de contradizer Roland Barthes, o qual mata os autores na tentativa de compreender a obra, alegando que se pode analisar a mesma longe das biografias, gostos e não gostos. Longe disso. Contudo, é relevante trazer este assunto ao de cima porque, no fundo, é a proposta de Amiss na exposição intitulada “Portas de Entrada”, inaugurada a 18 de Fevereiro de 2025, no espaço Galeria.

‎Acabámos não revelando a proposta trazida pelo artista. Antes disso, é preciso referir que se trata de uma exposição individual de artes plásticas, pintura e design, com corte a laser. A proposta a qual refirimo-nos é a seguinte: o artista tenta trazer na exposição, não um trabalho conceptualpropriamente dito, como quem tenta criar uma narrativa partindo das próprias obras (uma obra dialogando com as outras obras dentro da exposição, para uma grande significação) mas, aqui, as obras sem criar essa aparente narrativa referem-se, plenamente, ao artista. Essas obras não são uma forma de autobiografia, mas uma exposição que nos traz as vertentes do fazer artístico do artista, da sua polivalência.

‎Ao de todo, a exposição não fala muito; não diz além daquilo que se mencionou acima. O que difere, por completo, da análise individual e isolada das obras como “De Nós para Nós’’, um design feito por corte a laser . Uma obra bela, com contornos difíceis, mas precisos e bem conseguidos, tanto quanto outros designs, além de trazer nomes sonantes da cultura, sociedade e arte moçambicanas em específico,africana no geral. Nomes como Azagaia, Pepetela, Mia Couto, Zena Bacar, Ricardo Rangel e muitas outras figuras. Além de simples menções, estes nomes significam a amplitude em que as diferentes formas de manifestação artísticas fazem-nos ser artistas.

Com relação à pintura, Amiss é um homem de traços também precisos, que o fazem mais um retratista, um – talvez – que mesmo partindo da sua própria imaginação, acaba desenhando caras fáceis de reconhecer; características puramente humanas, exemplificado pela obra “Soberbo”, um acrílico sobre a tela,  que retrata não uma figura em si, mas a soberbada forma como coloca a figura ali de soslaio. E, a sua actitude é soberba. 

‎Ao de lado, passa uma impressão a qual de longe, mesmo de perto, é difícil de perceber; na tentativa de fazer uma linha que une a exposição (a precisão tanto no gesto com o pincel, que delimita rostos e expressões com segurança), asssim como com o laser (ao cortar com rigor quase cirúrgico os metais,para fazer os seus designs de portas, de cadeiras, e objectos com a única utilidade de ser beleza). Aqui, precisamente aqui, reside, talvez, a força e o estilo artístico de Yuran Amiss. Com designs de portas, de cadeiras, pinturas, o autor tenta trazer daquilo que são as suas valências como artista plástico – e fê-lo com algum êxito– o que vem acompanhado da precisão com que faz as suas obras. 

Enfim, a sobreposição das formas, das suas valências como fazedor de arte à unicidade temática ou estética, mesmo estilística (apesar de haver aqui a precisão como o ponto que permea toda a exposição), retira profundidade a própria exposição. 

Domingos Mucambe

Resenhas

Sussurro em Maputo

(parte 2)

Vallen tornara-se a sensação de Maputo. Não havia televisão, família ou beco onde o assunto não fosse sussurrado. Durante o dia, via-se nos rostos um cansaço difícil de esconder. Muitos já não dormiam.

— É o anticristo — diziam alguns.

Surgiram profetas. Prometiam soluções encomendadas dos céus,distribuíam águas, pulsos abençoados e objectos sagrados destinados a evitar “a voz”. Mas, nada disso detinha o Vallen.

As crianças continuavam obstinadas, perguntando pelos clubs, por Linan. Sempre da mesma maneira, no mesmo horário.

O governo viu-se obrigado a tomar medidas. Vedou as viagens interprovinciais. Temia-se que o fenómeno fosse transmissível e se espalhasse por outras geografias do país. Houve, também,contactos externos. De Harvard vinham notícias inquietantes: o desaparecimento do famoso astrofísico Dr. Harmistrong, também envolto ao nome Vallen. De Boston, relatos de uma explosão misteriosa numa prisão. E, pouco a pouco, as peças começaram a se encaixar. Maputo estava nas principais televisões e revistas do mundo; cientistas, curiosos e agentes secretos desfilavam pelas suas ruas, tentando estudar o fenómeno. 

Teorias da conspiração eram tecidas. Cada versão mais inquietante que a outra.

E, então, numa certa noite — sem aviso, sem transição, sem clímax — o fenómeno parou.

Na manhã seguinte, a novidade espalhou-se como um rumor feliz, mas ainda cauteloso. As pessoas falavam baixo, como quem teme despertar algo adormecido. Uma semana depois, as famílias respiravam de alívio, voltaram a jantar em paz, convencidas de que “a voz” pertencia ao passado.

Vallen, porém, já conseguira o que queria: uma pista de Linan.

٭

Enquanto a cidade celebrava o silêncio, uma casa continuava a receber, misteriosamente, aquela voz.

Vallen continuava falando com Flávia; ainda se apossava do menino Chelton.

Flávia já aprendera a reconhecer o instante, preferencialmente à hora do jantar.

— Flávia!!_ dizia o miúdo, com os olhos fixos na mãe. 

Já não havia susto. Nem lágrimas. Nem desespero. Apenas cansaço. 

Ela permanecia sentada, com a colher na mão. Como se aquela voz estranha fosse mais um convidado à mesa. Afinal, não se pode lutar com aquilo que não podemos vencer. 

— Já sei quem és — disse Flávia, sem interromper a sua refeição. 

Houve uma pausa. 

— Não. — Corrigiu Vallen —  Sabes apenas o meu nome. 

Flávia jogou a colher no prato e levou as mãos à cabeça. 

— Mas o que queres de mim?

O silêncio adensou-se.

— Linan.

Flávia respirou fundo.

— Não conheço… aliás, ninguém conhece.

A resposta veio sem elevação, sem ameaça. 

— Conheces.

— Todas as crianças perguntaram por ela — disse Flávia. — A cidade inteira procurou. Ninguém sabe quem é.

— Sabem.

— Então, por que não aparece?

Outra pausa.

— Porque vocês não sabem olhar.

Flávia encarou aqueles olhos e soltou um riso curto:

— E tu sabes?

— Sei.

Outra pausa.

— Ela esteve aqui — disse Vallen.

— Aqui onde?

Flávia sentiu um arrepio lento, a respiração dela tornou-se irregular. Olhou para a sua casa como se procurasse pistas para entender tal afirmação. 

— Você foi tocada, Flávia!

— Tocada?

— Linan passou por ti.

Flávia engoliu em seco.

— Isso é impossível.

— Para vocês, humanos, muitas coisas são impossíveis. Mas, tufoste a Linan por muito tempo. 

Por Vallen

Desabafo de uma qawwi, Resenhas

O Jantar

Cátia soltou um grito ao ver um homem sentado no sofá da sua sala, espreguiçando-se com o comando da televisão pousado na mão.

— Calma, Cátia! — pediu Harmistrong, com a voz trêmula.

Vallen sorriu, um sorriso sarcástico.

— Não vai apresentar a sua amiguinha, Bartoq?

O silêncio que se seguiu tornou o ar mais pesado. Por fim, Vallen continuou:

— Ah, desculpe. Agora é Harmistrong, não é?

O Doutor engoliu em seco a provocação. Cátia, entretanto, olhou de um para o outro, completamente perdida.

— O que está a acontecer, doutor? Você conhece este homem? Eu vou chamar a polícia.

— Não faça isso — pediu Vallen, erguendo-se do sofá. — Já fiz o jantar. Primeiro vamos comer. Não dizem por aqui que saco vazio não fica em pé? Venham.

Cátia ficou imóvel por um instante. Ainda tentando encontrar alguma explicação plausível.

— Mas, o que é que está a acontecer?! — inquiriu ao Doutor.

— Calma, querida — disse Vallen afastando as cadeiras. —Vamos explicar tudo. Sente-se.

Sentaram-se à mesa. 

— Cátia, terá de perdoar-me. No reino de Stefanotis nós não cozinhamos.

— Onde é isso? — perguntou ela.

— Noutro planeta. Numa órbita distante daqui.

Cátia gargalhou, pela primeira vez passou pela sua cabeça que tudo não passava de uma brincadeira elaborada pelo Doutor.

— Então você é um extraterrestre?

— Sim. Eu e o Bartoq. Ou melhor… e o Doutor Harmistrong.

O Doutor abaixou ainda mais a cabeça, carregando seu fardo invisível.

— Eu exijo ser julgado pelo Conselho Supremo — disse ele, de súbito. — Só o Conselho pode decidir a pena máxima.

— Mas o que é que está a acontecer? — insistiu Cátia.

— Não estrague o nosso jantar, Bartoq — advertiu Vallen, sem perder o sorriso.

— Você não tem o direito de extirpar um qawwi quando bem entender.

Vallen ignorou o comentário e voltou-se para Cátia com delicadeza:

— Perdoe o Doutor. Coma.

Cátia lançou um olhar inquieto a Harmistrong, como se pedisse autorização. Vallen, por outro lado, fixou um olhar frio, suficientemente ameaçador ao Doutor que, imediatamente,pegou nos talheres.

Durante o jantar, Vallen falou sem parar, contando histórias tão absurdas que, invariavelmente, arrancavam gargalhadas de Cátia. Harmistrong permanecia alheio, como se cada palavra fosse uma tortura.

— Mas afinal, o que você quer, Vallen? — tornou a perguntar Harmistrong. 

— Eu? — disse ele, levantando-se com entusiasmo. — A sobremesa! Vão adorar.

Serviu-lhes mousse, suco de pêra e panquecas. Cátia provou e ficou maravilhada. 

— Está delicioso! E você disse que lá em… Stefa… Sti…?

— Stefanotis — corrigiu.

— Isso! Disse que não cozinhavam.

— Bem… confesso que usei um pouco de magia.

Cátia voltou a rir. Só Harmistrong parecia totalmente alheio ao momento.

Quando terminaram, o Doutor não conseguiu conter-se:

— O que você quer?

— Mas que indelicadeza, doutor! — disse Cátia, chocada com o tom dele perante o Vallen que se mostrou sempre tão amável. 

— Já estou habituado, Cátia — disse Vallen, pousando calmamente os talheres.

Harmistrong inclinou-se para a frente, desesperado:

— Diga de uma vez. Já fizemos o que você queria. O que você quer?

Os olhos de Vallen mudaram de cor, brilhando num tom impossível e, com uma voz aguda e cortante, disse com firmeza: 

— Quero a localização exacta dos qlubs.

No mesmo instante, os olhos de Harmistrong também brilharam. Cátia caiu da cadeira, inanimada.

— Isso era missão de Linan — disse Harmistrong — Não tem nada a ver connosco.

— Onde ela está?! — rugiu Vallen.

Harmistrong fechou os olhos, respirou fundo… e respondeu:

 

— Maputo, Moçambique.

Vallen

Resenhas

O Encontro

Depois de semanas de ausência, Harmistrong regressa à universidade. Estava exausto. Carregava o peso de algo que não se explica. Não tinha ânimo para dar aulas, tampouco para ficar em casa. A secretária notou-lhe o desleixo: a barba por aparar, o cabelo por pentear e, talvez, um banho que lhe tenha escapado. Ainda assim, manteve-se calada, temendo uma resposta malcriada do professor. Afinal, conhecia-lhe bem as manias.

Ele limitou-se a um frio cumprimento, sem se dignar a justificar as ausências nem o facto de não atender às ligações. Seguiu directamente para o seu gabinete e desabou na cadeira. Passou em revista os últimos acontecimentos. Estes, resumiam-se a carta da noite anterior. Mas, Vallen não se dignara a aparecer. Pareceu-lhe uma obscenidade o não ter aparecido, como se tivesse faltado a um compromisso previamente marcado.

Teria continuado em divagações se algo sobre a mesa não lhe tivesse chamado a atenção: uma carta.

Harmistrong quase surtou. Chamou pela secretária como quem, em tempos de aflição, chama por Deus.

— Quem trouxe essa carta?! — gritou.

— Carta? — perguntou ela, confusa.

Com o dedo trémulo, ele apontou para a mesa.

A secretária olhou, impávida.

— Não recebi nenhuma carta, doutor! Aliás, o seu gabinete permaneceu trancado durante a sua ausência — justificou.

Disse mais uma porção de coisas, como:

— O senhor proibiu que se abrisse o gabinete na sua ausência…

Porém, o doutor Harmistrong já não ouvia nada. Nos seus olhos, pendiam duas grossas lágrimas. A secretária começou a ficar preocupada. Quis saber o que se passava, mas conteve-se, temendo que os seus sentimentos não lhe permitissem escolher as palavras certas.

— Doutor…

— Abra! — disse ele, titubeante.

— Como?

— Eu disse abra, porra! —gritou, visivelmente alterado.

A situação começava a transitar de preocupante para assustadora. Ainda assim, obedeceu.

— Não tem remetente — disse, abrindo o envelope.

Com calma, e alguma estranheza a mistura, leu a única palavra que continha a carta:

— Bingo!

O doutor Harmistrong levou a mão ao bolso traseiro e retirou outra carta. As suas mãos tremiam notavelmente. A carta trazia a mesma mensagem:

— Bingo!

A pergunta saiu-lhe de forma automática:

— O que isso significa? Está a receber alguma ameaça, doutor?

Em resposta, o doutor apenas balançava a cabeça, qual menino desesperado.

— É o jornalista?! — insistiu ela.

— Jornalista? — tornou ele, limpando as lágrimas.

— Sim. O senhor não sabe das notícias? Um jornalista tirou-lhe fotos em Boston, no incidente da cadeia. Na foto, os seus olhos brilhavam de forma peculiar. Dizem que é inteligência artificial… mas… mas há testemunhas.

Fez-se uma pausa. O doutor Harmistrong divagava, devagar.

— Puta merda… — murmurou, antes de desatar em gargalhadas esquisitas.

— Doutor…!

— Eu estou lixado, Cátia! — disse-lhe, estendendo os braços para um abraço.

A secretária envolveu-se nele, o coração pulsando acelerado. A situação não era das melhores, mas ela amava o doutor em silêncio, com todas as forças. E, por isso, não podia deixar de saborear o momento.

— Tudo se resolve, doutor — disse, ainda enlaçada nos seus braços. — Tudo se resolve.

— Não no meu caso… não com o Vallen à espreita.

— Vallen? Quem é Vallen?

Em resposta, apenas um sorriso. E Cátia não insistiu. Estava claro que algo grave se passava. 

Cátia conseguiu convencê-lo a ir para sua casa. Ofereceria-lhe um banho, comida e, quem sabe, consolo. Durante o trajecto, não trocaram palavras. Harmistrong permanecia quieto, perdido nos próprios pensamentos. Entretanto, havia recuperado a calma. Cátia, por sua vez, calava-se — tinha tanto para dizer, mas não era o momento. Afinal, ele sofria de algo que ela não compreendia.

Estacionou o carro e dirigiu-se à porta de casa. Harmistrong seguia-a, resignado.

Cátia abriu a porta e deu um grito: havia um homem sentado no sofá, com o comando da televisão na mão.

— Vallen!!!! — exclamou Harmistrong.

O homem ergueu o olhar e sorriu:

— Bingo!

Vallen

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | A Confissão da Leoa, de Mia Couto | Opinião

No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.

“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”

Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.

Classificação: 5 em 5 pontos

Por Virgília Ferrão

Resenhas

“O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza”, que Revela Usando Armas Desactivadas

Por Domingos Mucambe

No Centro Cultural Franco Moçambicano caiu a noite, longa e lenta, enquanto minuto a segundo tecia-se o momento em que se daria a inauguração. A maior parte das coisas acontecem de noite, e não seria diferente para os adivinhos. Aliás, acredita-se que as noites servem mesmo para isso. Enquanto entrava a noite adentro, muito mais dentro nós ficávamos cada vez mais ansiosos por uma exposição que levou tempo a mais para dar iniciada. Mas, isso é só um caso a se esquecer, no final do dia, principalmente quando a exposição foi, finalmente, inaugurada. Entre adivinhações e suspiros, algo foi-nos revelado.

Dentro do Centro Cultural há lá mostras que fazem parte da exposição, como o “Trono dos Reis” e outras esculturas. Aqui começa o ponto. Mabunda traz esculturas interessantes as quais, de longe, são apenas ferro e soldadura. Um trabalho que desafia muito os olhos dos visitantes. Mas de perto nota-se que não é apenas ferro como tal, mas engenhos de armas desactivadas como matéria-prima que originou várias formas como o trono dos reis, que representa, acima de tudo, o lugar ou a instituição em que o poder se concentra. De certo modo, há aqui uma contradição com o que Foucault pensa sobre o poder. Certamente com essas esculturas, com essa exposição, o poder não é disperso, mas concentrado num único trono. É esse tipo de mensagem que está por detrás da exposição no geral, e em algumas obras em particular.

E, no interior da exposição sente-se a violência, mesmo que suspensa, a sua iminência, ou algo perto. Olhando de trás para frente a exposição tem uma coerência espectacular. Todas as obras ali expostas dialogam umas com as outras como se fossem os búzios do adivinho que nos revelam os “fabricantes da pobreza”. Como também há esse partido de significados em que há, por ali espalhado, os destroçados pelo poder e os que são os detentores do mesmo poder. É uma via de mão dupla.

A exposição “O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza” traz algumas respostas de perguntas suspensas, ou que nunca foram feitas. Há aqui as armas como os fabricantes de toda a pobreza que assola o mundo. Mas, aqui a pobreza não é só ao nível económico. Vai a fundo: trata-se de pobreza ao nível espiritual, moral e, acima de tudo, sobre a condição humana que é decadente. Em changana, a palavra pobre não tem uma única tradução, tem usiwana e Usweti. A primeira pode ser entendida como pobreza a nível económico, mas o segundo vai também para o desamparo; é muito mais amplo que o primeiro. A pobreza exposta tem detalhes da segunda tradução pelo seu aspecto, e também pelo que a guerra sempre traz; não é só morte ou fome, mas tudo que faz as pessoas serem verdadeiramente pobres e desgraçadas pela vida.

Portanto, nessa exposição há todo esse aparato que sempre nos traz calafrios na pele de dentro. Há helicópteros que nos sobrevoam e tronos, tudo feito com armas desactivadas. Uma coisa espectacular, que também reforça o legado do próprio Mabunda. Essa exposição é uma continuação de um caminho só por ele traçado que, usando a soldadura, traz a violência, as relações de poder e a pobreza, num sentido lato.

Resenhas

Cinema | Sinners | Opinião

Quando um Vampiro pede Licença Não o Deixe Entrar: Uma Alegoria ao Género Blaxploitation e a Apropriação Cultural em Sinners, de Ryan Coogler

por Denilson Monjane

                                                                                                                                 Tirem-nos tudo,

                                                                                                               mas deixem-nos a música!

                                                                                  Noémia de Sousa in “Súplica”, Sangue Negro

“I remember you was conflicted

Misusing your influence

Sometimes I did the same

Abusing my power, full of resentment

Resentment that turned into a deep depression

Found myself screaming in the hotel room

I didn’t wanna self-destruct

The evils of Lucy was all around me

So I went running for answers

Until I came home

But that didn’t stop survivor’s guilt

Going back and forth trying to convince myself the stripes I earned…”

Kendrick Lamar in To Pimp A Butterfly

A cultura vem de longe. E, entre as suas tradições, costumes e artes, uma das suas principais componentes é o folclore que, através dele, contos, lendas e canções populares foram transmitidos através da tradição oral de geração em geração; não só como um meio de passar lições de moral ou valores e princípios com que viver, mas também para conservar e reivindicar a identidade. Num mundo forçosamente industrializado pelo capitalismo, em particular a indústria do entretenimento, há uma reivindicação por parte dos fazedores de arte, em especial a música, no envolvente a apropriação cultural. Nos EUA, há um termo: culture vultures, ou seja, abutres da cultura, referindo-se a àqueles que tomam a cultura dos outros para si, a capitalizam e centralizam os lucros, ampliando a sua credibilidade e supremacia sobre os demais naquela área.

Ryan Coogler, cineasta americano, através de “Sinners”, sua mais recente realização, faz essa alegoria à apropriação cultural na indústria musical usando a maior figura folclórica para expor o narcisismo dos que abocanham a cultura dos outros e agem como se fizessem parte dela: o vampiro, que vive entre os humanos como se também fosse. O abutre, o corvo, a hiena, são algumas das figuras que em fábulas representam o egoísmo, narcisismo e vontade de ter mais.

Coogler mescla blaxploitation, horror musical de uma forma que transcende o padrão do filme genérico. Em “Sinners”, somos convidados- à medida que nos encantamos e espantamos com os cortes, sequências e trilha sonora- a reflectir sobre o poder da cultura e a sua capacidade de mover massas. E, fica claro que a cultura, sobretudo a das massas, que é movida pela constante circulação de informação, pode atrair o bem mas, como o filme revela, também pode atrair o mal. A música, como nos mostra “Sinners”, não é apenas uma manifestação artística para mero entretenimento, mas também uma força energética que atrai o oculto. Em várias culturas do mundo a música é uma ferramenta espiritual que, se mal-usada, pode, supostamente, atrair espíritos malignos.

O blues, um estilo musical surgido no sul dos EUA em meados de 1860, século XIX, marca o início da formação cultural afro-americana, o qual se viu banido e censurado pela burguesia comunista, devido as composições tendenciosas que transmitiam a reivindicação pela liberdade que se colocava abaixo de toda a causa opressora que via o blues como uma forma de manifestar o seu grito de socorro. Em “Sinners”, o blues não foge à tradição. Preacherboy, personagem interpretado por Miles Cate, usa o blues como um refúgio da vida dura do homem negro e, na maior inocência, inconsciente das entidades que o seu talento atraía do oculto.

A composição da trilha sonora mais uma vez revela a infinitude do talento do compositor sueco Ludwig Göransson. A actuação dupla de Michael B. Jordan como os gémeos Smokestack eleva o talento e habilidade de representação do actor Miles Caton como Sammie/Preacherboy, um inocente filho de padre que ama o blues, a mal casada Pearline (Jayme Lawson), a desamada Mary (Hailee Steinfeld) e a misteriosa Annie (Wumni Mosaku), e um toque de nostalgia cómica dos actores veteranos Delroy Lindo como Delta Slim e Omar Benson Miller como Cornbread.

“Sinners”, para o mais superficial dos cinéfilos, pode ser apenas mais um filme blaxploitation, com uma pitada de música negra, irlandesa e vampiros como a cereja no topo. Mas, para quem vem acompanhando o cenário do entretenimento internacional, percebe logo que é uma indirecta apontada sem escrúpulo aos abutres da cultura negra que andam dispersos, se apropriando da única coisa que resta a um povo oprimido: a música.

Resenhas

O “Amor Entre Elas”, como um Lenitivo para a Mulher

Numa técnica mista, Sandra Pizura cria uma solução, através da pintura, que serve como lenitivo para as dores, cóleras e sofrimentos que acossam a mulher como figura, algo inventado e recriado pelo discurso que, segundo Foucault, envolve a palavra e a prática. Uma solução que vai além das misturas químicas, mas atravessa a psique e conforta o corpo físico, prometendo ser algo duradouro e eficaz.

“Amor entre elas” é a solução, uma poção mágica, que pode dissolver qualquer tipo de estereótipo, grades ou correntes mostradas por Bena Felipe no quadro “Sonhar Liberdade”, na mesma exposição, e tudo aquilo que traz dor para as mulheres. Num 40×50 cm, a artista mostra o remédio principal para muitas das mazelas que estripam as mulheres, que é a união. E, mais do que união – o amor no seio delas- cuidando umas das outras. É isso que se observa no quadro em alusão, onde duas mulheres, com seus alicerces (suas capulanas), oferecem a simpatia como uma forma de cuidado mútuo e amor entre elas. Uma delas, prostrada, parece assegurar que a sofrida -a mulher no meio- tenha um lencinho branco que não só serve para limpar as lágrimas, mas tem um valor simbólico por conta da sua coloração; esta poderá ser uma forma de oferecer alguma paz à sua alma. É como se a outra a oferecesse paz. Qual coisa mais ténue que um beijo na testa? A segunda mulher de capulana azul trata de dar à sofrida os beijos que simbolizam a delicadeza e o cuidado que ela tem, ou que elas têm ou deveriam ter umas com as outras, e também uma forma de lembrar a ela que é especial.

A destreza do pincel da autora nota-se quando pinta as duas mulheres com cores vivas: branco, rosa e verde. As capulanas tricotadas e coladas, também, têm cores vivas. Uma das capulanas cuja coloração lembra o vermelho e uma tonalidade de rosa, e da outra mulher é azul. Essas mulheres talvez tragam luz, esperança, cuidado e boa temperança para alguém que está submerso no abismo do seu sofrimento e, para sinalizar esse abismo, a autora pintou-a de preto, toda ela, com algumas pinceladas leves de branco. Preto e branco ou preto? Preto! O branco parece mera formalidade artística em que o contraste, muitas das vezes, é necessário até mesmo para evidenciar o que queremos evidenciar.

Para enriquecer ainda mais o enredo, esboça-nos um cão, que está ali para evidenciar a amizade, o cuidado, o amor porque, como se bem sabe, o cão é considerado o melhor amigo do Homem que, mesmo em situações adversas e de penúria (toda a penúria que possa existir) ele sempre se mantém fiel e nunca abandona o Homem.

Para a cura mútua, esse amor entre as mulheres, sugerida ou demonstrada por Sandra Pizura na sua obra do ano em vigor, torna-se algo essencial para curar a elas mesmas, aos homens e a toda sociedade. Que sociedade se ergue com mulheres doentes? Como esclareceu Isidro Fortunato, afro centrista angolano, “Mulheres felizes educam com paixão, e criam com sabedoria as sementes que construirão o futuro” (2015). Por isso, essa obra talvez seja o coração de toda a exposição: “Arte como cura colectiva”. Com o seu realismo, ela pintou amor como cura colectiva.  

Por Domingos Inácio Mucambe

Opiniões, Resenhas

RELAÇÕES LÍQUIDAS EM “RIVAIS”, DE TWENTY FINGERS

Olhando para o ano transacto na arena musical, e procurando aquilo que poderia ter sido a criação musical que teve mais aceitação pelo público, lembramo-nos da composição pop que exibe o título sugestivo e provocativo “Rivais”, do cantor Twenty Fingers. A aceitação do público pode ter dois viesses. Numa sociedade com gostos primitivos no que toca a apreciação e a degustação das artes, a qual está propensa e tende a compartilhar para ridicularizar, é uma tarefa para os próprios artistas pensarem a sua condição de sucesso e fama, pois pode ser uma aceitação pela negativa. A aceitação de Twenty Fingers como artista é o reflexo da sua qualidade artística, apesar de ser um artista pop fazendo arte pop e que, como muitos artistasdesse ramo, cria para agradar o público. Nesse tipo de sociedade dos streamings a qualidade da obra é, às vezes, confundida com o número de likes, streamings e compartilhas (shares) que a mesma arte terá em relação a própria arte. Se Dionísio Bahule questionou sobre a redefinição da arte quando disse que havia certos movimentos artísticos os quais transformam qualquer coisa humana em arte só porque está exposta num determinado lugar, ou seja, tudo o que é exposto numa galeria X, apesar de ser apenas uma colher, é arte só porque foi exposto ali – então também posso afirmar que na era digital e tecnológica tudo pode ter selo de qualidade artística se obtiver mais gostos, streamings, e compartilhas.

“Rivais” é uma composição musical que retrata uma mulher que convida as amantes do seu marido para um dedo de conversa pacífico e aconselhador; exemplo da passagem em que o eu lírico enuncia “Só te vou dizer que ele não te vai cuidar bem” (Rivais, Twenty Fingers, Mp4). E anterior a essa questão em particular da rivalidade aceite, surge a constatação da arte musical moçambicana. Por muito tempo os artistas limitaram-se em escrever sobre amor, relacionamento, casamento, traição e tudo o que advém desse âmbito. É muito amor que se canta e se escreve para uma sociedade que, pelos vistos, desistiu do amor e do romance. Ligando esse ponto e a temática da composição trazida por Twenty fingers surge a constatação sociológica de Zygmunt Bauman sobre modernidade líquida, amor líquido e relacionamentos líquidos. No livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Ed., 2004, trad.), Bauman refere que a modernidade troca a ideia de relacionamento por rede, pois enquanto um significa durabilidade o outro é flexível. “Ele [a conectividade/desconectividade trazida pelo conceito de rede] promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (Ibidem). Em poucas palavras, a concepção rede traz a ideia de que pode ser conectado e desconectado, ligado e desligado, basta que o desejo comece e/ou acabe.

Provavelmente é essa a base teórica com a qual se pode analisar a sociologia dessa música. A questão, aqui, não é a moralidade conceitual da composição, onde iremos analisar sobre o bem e o mal da proposta para a sociedade, mas um veículo para ver o comportamento da mesma. Nesse caso, partindo da música “Rivais” e aliando a constatação de Bauman, a nossa sociedade vive em tempos líquidos, onde relacionamentos não duram como antes. E isso tem levantado debates. Nesses tempos, há incerteza sobre relacionamentos e medo, mas, mesmo assim, as pessoas não resistem e não desistem ao todo de entrar num, o que desemboca nesse meio-termo: um relacionamento líquido com slogans populares como “o que ninguém sabe ninguém estraga”, “solteira sim, mas sozinha nunca”, e mais. Nesses relacionamentos, é tão fácil entrar e sair num tanto quanto é fácil conectar e desconectar-se de uma rede qualquer (imagine wi-fi sem senha).

Contudo, Bauman apenas explica a flexibilidade dos relacionamentos e o quão são superficiais, onde ninguém mais entra num relacionamento por completo; “é só carne e não coração”, mas não toca nessa questão central da música “Rivais”. O autor afirma que as pessoas entram numa rede, perdem o tesão e saem da mesma correndo para uma outra, e a permanência em uma mas, ao mesmo tempo, procurando outras para o mesmo objectivo- penso eu…

Essa, por sua vez, é uma questão respondida por Luís Batalha nos seus estudos antropológicos sobre o matrimónio na era moderna. Para este, “nas sociedades tradicionais monogâmicas sempre existiu uma poligamia informal não institucionalizada por detrás de uma fachada social monogâmica” (pag. 125). Se nas sociedades onde a monogamia é muito mais cultural, tradicional e institucionalmente antiga, o que falar das sociedades africanas actuais, confusas ao nível cultural e tradicional quanto a tudo e, em especial, ao casamento? Em Moçambique, por exemplo, a institucionalização da monogamia não é antiga e culturalmente somos polígamos. Na união dessas duas realidades antagónicas só pode haver essa disparidade e caos, onde se renega a poligamia, mas pratica-se de maneira informal. E, é nesse prisma epistemológico e cultural em que toda a música se insere: num contexto onde a poligamia não é aceita a céu aberto, mas bem no fundo de todos aceita-se. A aceitação dessa poligamia verifica-se quando o eu lírico, uma das mulheres do homem com várias mulheres ocultas, convida as suas rivais para um bate-papo sem confusão, mas com aconselhamentos. Das nove mulheres, nenhuma parece estar apta a abrir mão do homem, todas aceitam essa realidade.

A poligamia parece ser um facto. Além dessa forma informal de poligamia, que é a forma que mais perto está da poligamia formal, há a poligamia em série (Batalha, 2004:134), onde pessoas se casam sucessivamente durante a vida toda. Casam com um, separam-se, tem um outro relacionamento, voltam a se casar e assim anda. Ou pode acontecer que namoram esse, noutro tempo namoram aquele, e depois disso namoram um terceiro. Nesse caso, rodam namorados/parceiros durante a vida toda estando naquilo que apelido de poligamia rotativa, esse que muitos moçambicanos estão inseridos nele. Esse é o espelho que a música nos traz. Uma sociedade líquida, principalmente nas cidades, em que, por um lado, a incerteza e insegurança nos relacionamentos resulta em negação de relacionamentos profundos e duradouros e, por outro lado, revela-nos uma sociedade que nega a poligamia a céu aberto, mas aceita-a na informalidade.

por Domingos Mucambe

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | Um Herói que Não Existe, de Zaiby Manasse – Opinião

Sinopse

“Womelo é um país mergulhado no caos. Uma onda de raptos assola a elite sob os olhos impávidos de uma autoridade que parece não saber por onde começar a combater esse mal. Todos os dias ouve-se que em algum ponto de Womelo alguém foi raptado e nos jornais a canção da polícia parece um disco arranhado, repetindo o mesmo ponto: “estamos a trabalhar no assunto”. Nesse caos, surge como que uma providência divina um herói que parece adivinhar onde e quando irão acontecer os raptos. Esse herói, munido de um senso de justiça vindo de um mundo cinematográfico, extermina de forma brutal, macabra e grotesca todos os raptores e sai de cena como se nunca tivesse estado lá.

A polícia que devia ser apoiada por esse ser que divide opiniões na comunidade, inicia uma caça desenfreada para encontrar o herói anónimo. Ta centro vê-se preenchido por Catamo, um psicólogo clínico que ousou publicar algumas linhas sobre o herói nas suas redes sociais, tornando-o o principal suspeito.”

Opinião

Faz muito tempo que andava ansiosa para ler Zaiby Manasse, que assina nas redes sociais como Aladino O Diferente. Com três romances e dois livros de poesia publicados, Zaiby Manasse é conhecido não apenas pelos livros que escreve, mas também pela partilha das suas opiniões sobre os livros que lê. Para quem segue as opiniões deste autor, a curiosidade em conhecer o seu trabalho é naturalmente premente, pelo que, não fugi à excepção, e sem saber exactamente o que esperar, pude finalmente embarcar em “O Herói Que Não Existe”.

Que viagem!

A narrativa policial apresentada nesta obra segue Catamo, um jovem que luta para encontrar emprego na sua cidade, na área da saúde. A vida de Catamo sofre uma reviravolta quando ele testemunha uma tentativa de rapto de uma criança, rapto este que é travado por uma figura misteriosa. Não vou detalhar o resto da história, até porque a sinopse é suficientemente esclarecedora, mas digamos que as reviravoltas e o suspense desenvolvidos no enredo conseguem manter o leitor agarrado às páginas até o fim, e talvez poucos consigam prever o que de facto está em causa no enredo.

Um dos aspectos que achei mais marcantes no livro é a ambientação. Zaiby Manasse decidiu criar uma cidade e país fictícios, trazendo várias alegorias e anagramas, mas qualquer pessoa familiarizada com contextos debruçados na corrupção, o crime organizado e as desigualdades, facilmente reconhecerá os comentários sociais descritos na obra.

Confesso que a ideia do autor lembrou-me a abordagem de algumas obras cinematográficas, incluindo o filme “Identidade (2003)”, um dos meus filmes favoritos, baseado num dos romances mais importantes de Agatha Christie, “E não sobrou ninguém”. Enquanto a grande mestre do romance policial entrega uma resposta intricada quanto à “identidade do assassino”, vamos assim dizer, Zaiby segue um caminho diferente, com uma reposta de execução mais fácil, mas mesmo assim, capaz de fazer o leitor questionar constantemente aquilo que está a ler e surprender-se. Trata-se certamente de um narrador bastante competente para a tarefa a que se propôs. Recomendo vivamente a leitura!

Sobre o autor

“Zaiby Husay Gulamo Manasse (1989) também conhecido por Aladino o Diferente, é natural de Maputo. Escreve poesia e prosa. É licenciado em medicina geral pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio e trabalha como médico. Publicou dois livros de poesia, nomeadamente: “O mel do meu passado presente”, e “Devaneios ensanguentados pela globalização”; e dois romances “A caneta do balcão 1” e “o entroncamento”.

Resenha de Virgília Ferrão