Livros, Resenhas

Literatura| Madalena – o tradicional casamento sem amor| Opinião

Autor: Hosten Yassine Ali

Edição: 2013

Editora: Edições Esgotadas

Idioma: Português

Compre aqui: Edições Esgotadas

Este livro é uma joia na literatura moçambicana e tu uma pérola de autor: dizer mais é querer dizer o que escreveste, com dignidade, frontalidade, com moçambicanidade

Eduardo White in Madalena, o tradicional casamento sem amor

Opinião:

Que tal começarmos pelo título: Madalena, o tradicional casamento sem amor.

Ora, ora, nós do diário de uma qawwi, leitores teimosos que às vezes levam as coisas ao pé da letra, começamos a percorrer as páginas, à espera de… hum. Talvez uma história que abordasse um casamento forçado, numa sociedade tradicional? Ou então, um casamento de alguma forma “tradicional”?

Bom, a trajectória não é assim tão óbvia. Ao chegarmos à história de Lena (Madalena) e Filipe, deparamo-nos com a primeira de muitas surpresas (se calhar reviravoltas) que nos aguardavam nesta trama. Porquanto o relacionamento entre Madalena e Filipe (assumidos então como casal protagonista) não é desprovido de amor. Pelo contrário, os dois se amam bastante. O problema é outro: Filipe é obrigado a lobolar (ou seja, casar com) Madalena, depois de a mesma estar morta.

Narrando um pouco a trama (mil perdões, caros leitores, pelo pequeno spoiler): Madalena, muito nova, engravida de Filipe, e o seu rigoroso pai a expulsa de casa. Sem tecto, ela vai viver com o namorado Filipe, os dois tentam ser felizes, mas essa tentativa é interrompida quando Madalena morre durante o parto. O pai, que deixara de falar com a filha, retorna o contacto com o genro, e avisa-o que, para que reine a paz entre as famílias, Madalena não poderá ser enterrada, sem que antes Filipe respeite a tradição e oficialize a relação. Desta forma, melindrado pela própria tradição, e pelo sentimento forte que sente por Madalena, Filipe concorda em lobolar a rapariga, mesmo estando esta morta. Eis uma passagem do dilema narrado pelo protagonista:

Não sei realmente o que estou a pensar: na verdade, busco uma solução para que satisfaça ou não a família de Lena e lhes dê o casamento de uma filha morta. Custa-me acreditar que me vou casar com um cadáver, alguém que não fala, que não comerá o bolo de casamento, não beberá espumante, não fará discurso de noiva e, pior que tudo, não me aceitará como as mulheres aceitam os maridos

Avante, o livro não retrata apenas algumas tradições que vincam em algumas famílias moçambicanas. Pelas vozes de outras personagens que vão sendo inseridas na narrativa, ficamos a conhecer histórias e realidades, que fazem parte do cotidiano moçambicano, mas por vezes despercebidas ou até mesmo desconhecidas. É a história do próprio Filipe, forçado a casar em tais circunstâncias. Ou por exemplo, a história daquela titia que revelou grandes segredos da sua intimidade durante a cerimónia que antecede o casamento da sobrinha. É a história de um filho que após tornar-se “doutor”, vira as costas à mãe deixando-a na miséria, e tantas outras peripécias que tornam esta leitura uma experiência única.

O livro torna-se confuso em alguns momentos, em que o narrador, na 1ª pessoa, afasta-se de si, e passa a olhar-se como uma entidade não participante. Nada, entretanto, que atrapalhe o nosso mergulho na distinta escrita de Hosten Ali.

Encontramos também neste livro, uma das diagramações mais bonitas e aconchegantes que já vimos, com a silhueta de uma mulher africana (parecida à capa do livro), dividindo cada capítulo.

Posto isto, convidamos o leitor e embarcar nesta leitura e a descobrir o que trata, de facto, este “casamento tradicional.”

Sobre o autor: Hosten Yassine Ali é moçambicano, natural de Maputo. Abraçou a carreira de official da Marinha no ano de 2008, através da formação na Escola Naval Portuguesa. Publicou o romance Madalena e o livro de crónicas Kurhula, crónicas da cidade de Maputo, sob a chancela das Edições Esgotadas. É fundador dos projectos de acção social “Pequenos Gestos Moçambique” e “Universidade e Rua Moçambicana”. É mestre em ciências Militares Navais e especializado em Administração Naval.

A nossa pontuação: 4.5 em 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| London Cape Town Joburg, de Zukiswa Wanner| Opinião

Autora: Zukiswa Wanner

Edição: 2018

Editora: Paivapo

Idioma: Inglês

Sinopse

Em 1994, o mundo está prestes a mudar. A primeira eleição verdadeiramente democrática na história da África do Sul está prestes a unir a nação de Nelson Mandela nas urnas. E em todo o mundo, aqueles que não puderam voltar para casa, aqueles que não quiseram voltar para casa, esperam e assistem. Martin O’Malley não é um dos que espera e assiste. Ele está muito ocupado, a tentar descobrir se Germaine Spencer está grávida e, de repente, o mundo realmente muda para Martin. Com o seu mestrado da London School of Economics, África do Sul no pós-apartheid parece um lugar onde ele, o seu filho e a sua esposa poderão conquistar tudo. Mas poderão?

Opinião:

Zuko Spencer O’Malley está morto. Morto via suicídio. Na tenra idade dos 13.

O meu filho está morto.

Narra Germaine Spencer, mãe de Zuko. Desculpem se parece spoiler. Não é. É apenas como é introduzida a narrativa deste livro, ou seja, a tragédia que marcará o casal protagonista, Germaine Spencer e Martin O’Malley. Ao longo das páginas, regressamos então, cerca de quinze anos, antes da tragédia, para conhecer a história do casal e os eventos que culminaram na tragédia.

Não é tarefa fácil prender a atenção do leitor dentro do que pode considerar-se uma espécie de flashback, mas neste caso, estamos nas mãos incrivelmente capazes e talentosas da autora Zukiswa Wanner, que nos envolve numa trama arrebatadora. É o tipo de livro que vai arrancar gritos de espanto e de risada, a cada virar da página. A história de Germaine Spencer (uma mulher inglesa, inteligente, feminista e artista) e de Martin O’Malley (um homem sul africano, bem-sucedido, carismático e amoroso) é bastante verosímil. Quem nunca apaixonou-se vai querer fazê-lo, e quem já o fez, vai lembrar-se exactamente de como é, ao ler este livro.

Germaine e Martin tem o tipo de relação que certamente todos casais gostariam de ter, mas sendo um casal inter-racial, acabam por enfrentar os dramas e o choque de culturas, com os quais estamos certamente familiarizados. Nesta ambientação, a volta desta belíssima e inevitavelmente imperfeita relação, a autora vai abordando várias facetas das diferentes culturas e tradições, desnudando ao mesmo tempo, com olhos clínicos, a situação da África do Sul, e alguns problemas sistêmicos, num cenário após o apartheid.

Todas as personagens, desde as principais às secundárias (como Priya, Anil, Soraya, Suf, Giani, Liam, Martin Mtshali e as senhoras do Nomakanjani Club) são incríveis e memoráveis. A trama é tão bem amarrada, que damos por nós, a apegarmo-nos pelo adorável Zuko, ainda que saibamos de antemão, que uma tragédia o espera. Uma experiência e tanto!

A diagramação e paginação do livro são boas, assim como a arte da capa. Todavia, sentimos que o título só faz sentido depois que concluímos a leitura, o que pode, de certa forma, desviar a atenção do potencial leitor.

No geral, foi uma das melhores leituras dos últimos tempos e recomendamos vivamente.

Sobre a autora: Zukiswa Wanner é jornalista e romancista sul-africana, nascida na Zâmbia e agora baseada no Quênia. Desde 2006, depois que publicou o seu primeiro livro, os seus romances tem sido seleccionados para vários prêmios, incluindo o South African Literary Awards (SALA) e o Commonwealth Writers ‘Prize. Em 2015, ganhou o Prêmio Literário K Sello Duiker Memorial pelo livro London Cape Town Joburg. Em 2014, Wanner foi nomeada para a lista Africa39, a qual identificou 39 escritores da África Subsaariana com menos de 40 anos de idade, com potencial para redefinir as tendências da literatura africana. Em 2020, ela recebeu a Medalha Goethe, ao lado de Ian McEwan e Elvira Espejo Ayca, tornando-se na primeira mulher africana a ganhar o prêmio. Zukiswa é também curadora do festival literário online Afrolitsansfrontiers.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

Resenhas

Cinema | The Good Place (“O Bom Lugar”) Série |– Opinião

Premissa

Eleanor Shellstrop desperta numa sala estranha, e para a sua surpresa, descobre que morreu. Em seguida, num encontro com o seu mentor Michael, é informada que, por ter sido uma boa pessoa, ela está no “bom lugar” (um versão de paraíso). Não tarda, porém, para Eleanor perceber que houve um erro, e ela foi lá parar por engano. Presa num mundo onde todos são bons, excepto ela, Eleanor encontra-se no dilema entre merecer ficar nesse lugar ou ir para o “mau lugar”.

Opinião

O que dizer sobre esta sitcom? Começamos a assisti-la sem grande compromisso ou expectativa, mas a jornada de Eleonor a tentar esconder que foi para o “bom lugar” por engano, é hilariante. Que enredo tão bem conseguido!

Sentimo-nos um bocado sobrecarregados pela tremenda reviravolta do final da 1ª temporada. Surpreendente, mas quase forçada. Chegamos a pensar em desistir, mas ainda bem que não! No todo, a série superou as expectativas. Michael Schur esmerou-se nesta produção, profundamente humana. Os protagonistas são todos carismáticos e os actores estiveram à altura.

Há muita discussão em torno da ética, com apresentação de pensamentos de vários filósofos, com principal enfoque para Immanuel Kant. São exploradas doutrinas desde o contratualismo social, o utilitarismo, o particularismo moral, e tantas outras teorias, que nos levam a reflectir sobre a moral e a vida no geral.

Já imaginaram se o universo de facto funciona assim? E se existir vida após a morte, e um bom lugar para onde ir, dependendo das nossas acções na terra? E se não existir esse bom lugar? Vale a pena sermos boas pessoas? A série mexe bastante connosco. No seu tom colorido, humor leve e estrondosamente brilhante, a trama traz uma mensagem bem mais profunda do que parece.

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Nós deste lado ficamos a pensar: como humanos, quem somos de verdade? Como as nossas acções afectam e afectarão, não só as pessoas à nossa volta, como o mudo? Mais importante ainda: somos capazes de melhorar e evoluir, todos os dias, certo? Ou não?

Ted Danson encarna um personagem adorável, a fotografia é óptima e o soundtrack também é espetacular. Cada episódio é curto (menos de vinte minutos) e as quatro temporadas são assistidas num ápice. É dessas séries breves, que ao chegarmos ao final, deixa-nos com uma sensação de abandon. Afinal, já nos apegamos aos personagens. Mas só assim, vale a pena, não é verdade?

Confira o trailer e não perca este série:

A nossa classificação: 5 de 5 estrelas

Livros, Resenhas

Livros | Moçambique – On the Road to Enlightenment, de Sharelene Sema Raston| Opinião

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Livro: On the Road to Enlightenment

Autor: Sharlene Raston

Opinião

Sharlene Raston é terapeuta cognitivo-comportamental, hipno terapeuta, psicometrista e coach. Neste livro, ela faz reflecções apoiadas na experiência de uma jornada de autodescoberta para um mosteiro no Nepal.

Sharlene trabalhava no mundo corporativo, com as típicas demandas associadas a este meio, quando percebeu que algo dentro de si não parecia correcto. Começou a ter sonhos sobre um lugar, e algum tempo depois, pela internet, descobriu que o local das suas visões era nos Himalaias. Investigou e decidiu embarcar para um retiro, num mosteiro no Nepal. O resultado dessa jornada, aliados aos pensamentos do filósofo Alan Watts, compõem On the Road to Enlightenment, dividido em várias secções, que abordam os pontos de vista da autora, sobre a natureza do ser humano.

Para quem está familiarizado com as doutrinas espiritualistas e budistas, as visões apresentadas por Sharlene (algumas por vezes debativeis), podem não constituir muita novidade, todavia, há abordagens que poderão ajudar ao leitor a ver o mundo de forma diferente, ou a mudar certos hábitos, dependendo do momento, e da própria intuição do leitor, que é na verdade o que a autora afirma pretender com o livro (sendo, portanto, uma leitura bastante flexível).

A diagramação e capa condizem com o conteúdo e são apelativos. O livro está no idioma inglês, o que pode limitar (ou não), a audiência.

A nossa pontuação: 3.5 de 5 estrelas

Resenhas

#34 | De volta ao começo: partículas de tamarino

Por Will

Faço esforço para levantar o rosto, apenas por um instante, para que o ar possa penetrar, já que tenho os pulmões carregados de chumbo. A claridade da lua, num céu tão veludo como o desta noite, pouco me diz. Trago comigo este chumbo que galga devagar para cima, como areia movediça. Trava-me pelos joelhos e derruba-me por terra.

– Por favor, alguém ajude! Ambulância!

A mulher da minha vida, com um bebé de apenas três meses no ventre, continua estirada.

– Desculpa irmão, ela foi-se – ouço alguém dizer.

O peso agora sobe até os meus olhos e explode em átomos que cristalizam-se em violentas lágrimas. Levanto um pé, não consigo andar.

– Não – deve ser um pesadelo, penso comigo trémulo – ela não pode estar morta…

Procuro outra resposta, em outro lugar, mas a verdade é que não há resposta diferente.

Engulo o choro. Sufoco o grito. Sinto o meu rosto paralisado.

Não tenho a certeza de o ter visto chegar. Também não sei explicar como foi que, de repente, a pequena multidão se dissipou, deixando-me a sós, com ele.

– Lamento, Will – a sua voz carrega a seriedade da noite e sem nem aperceber-me, coloco-me em posição de combate.

– O que você fez?

– O que eu fiz, não, o que eu vou fazer!

A rigidez do meu corpo aumenta, mas ele ergue a mão, como quem demanda ordem.

– Linan ainda é importante para a missão, Will. Se realmente a amas, vais ajudar-me a trazê-la de volta. Preciso dela viva!

Vallen. O único qawwi que conheço, além de Linan. Um qawwi que desprezo, e que entretanto, quero abraçar. Graças a ele perdi Linan uma vez. Foi ele quem a transformou, num acto de mera vingança, em humana. Mas quem de nós dois estará mais perto de realizar o milagre?

A necessidade desafia-me por inteiro, rasga-me o peito em dois e obriga-me a implorar:

– Faz o que for preciso, o que quiseres. Ela tem que voltar a viver.

Vallen sacode o seu casaco, encurta a distância. Algo doirado relampeja na sua mão.

– Estende-me o braço, Will.

Obedeço sem pestanejar.

O qawwi passa um pó pela minha pela, que acende como ouro, por alguns segundos, antes de voltar à normalidade.

– São partículas de lua verde de tamarino – explica sucinto – Isto vai levar-te de volta ao passado, algum momento antes do acidente. Tens de manter Linan viva, é só isso que te peço. Se falhares, regressarás até mim, até este momento.

Movo a minha mão, mas Vallen trava-me com um gesto ameaçador.

– Não terás muito tempo. Agora vai. Pensa em algum momento antes do acidente… esfrega o braço e…

Caio.

Pelo menos é a sensação que tenho. E continuo a cair.

Dou por mim em casa. No jardim. Lembro-me deste dia. Andava exausto, rabugento. Se tivesse sabido que teríamos um acidente, não teria perdido tempo a ser um idiota. Procuro-a por toda a casa, mas ela não está. Ligo-lhe, mas não atende. Recordo-me de que foi à consulta. Depois de tanto pensar, só me ocorre uma coisa: deixar um recado por escrito. Antes que o tempo acabe. Sento-me no sofá, pego numa caneta e começo a escrever.

De novo caio. E continuo a cair.

Lá está o sujeito. A cidade deserta. A minha vida sem cor.

– O que houve?

– Se estás aqui, significa que falhaste. Linan continua morta. Não temos muitas chances, rapaz. Vá… volte!

De novo estou em queda escura.

Agora ouço uma música. O tinido de taças. Estou ao pé da porta, sentindo um paladar de chocolate. Bolo que Érica e eu fizemos, para o aniversário da mãe. O que é isto, na minha mão? Julgo que acabo de recolher o gel desifenctante do carro, depois de saber dos perigos que causa estar exposto ao sol.

A dúvida atravessa o meu peito. E se isto for uma armadilha? Um desengano? E se estiverem a pregar uma partida com o meu cérebro? De qualquer forma, não podia permitir o acidente. Que entrássemos no maldito carro, e…

Vasculho um auxílio na cozinha, marcho rapidamente para a garagem e começo a furar um pneu, até que ouço a voz da minha filha.

– Pai! O que estás a fazer?

Tenho a boca e garganta secas.

– Chama a mãe, filha, chama a mãe… – urjo seguindo-a pela cozinha. Preciso contar à Linan, ela saberá o que fazer.

E de novo me abraça a escuridão.

– Não, não pode ser! – balbucio ao dar de caras com os olhos frívolos de Vallen

– Escuta bem, rapaz: talvez haja apenas uma chance. Uma! Use melhor o tempo. Desta vez vou dar-te a flor de dijon, para que tenhas mais tempo e preserves a memória até ao fim. Vai haver modificações no teu corpo, mas é por uma boa causa. É importante que te recordes.

– Vou recordar-me, Vallen.

– Vá, salva a Linan.

Levanto-me da cama, com o coração descompassado. A conversa com Vallen baila na minha cabeça, tenho o peito molhado, os dentes apertados.

Como um raio de luz, as mãos suaves dela percorrem-me para acalmar-me.

– Tiveste um pesadelo?

Quero dizer-lhe. Mas travo-me. Temo que o meu pensamento, por si só, possa levar-me de volta a Vallen. Tudo o que quero é ficar com ela. E não sei como impedir o futuro.

– Abraça-me, Linan – tento buscar conforto no seu corpo, sem pretensão de afastar-me. Agarro-me com tanta força, que venço. Permaneço ao lado dela. Sinto as partículas do tempo abandonarem-me, esgotando-se, autorizando-me a continuar. E permaneço.

Opiniões, Resenhas

Cinema |Dangerous Lies (Mentiras Perigosas) – Filme|– Opinião

 

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Imagem: Netflix

Título: Dangerous Lies (PT Mentiras Perigosas)

Direcção: Michael Scott

Elenco: Camila Mendes, Jessie T.Usher, Jamie Chung, Cam Gagandet, Sasha Alexander, Elliot Gould

 

Género: drama

Ano: 2020

Premissa

Uma jovem provedora de cuidados de saúde, herda de forma inesperada todos os bens e a casa do seu paciente, todavia, segredos sombrios giram em torno desta nova riqueza, enredando a jovem numa teia de enganos e de perigos.

Opinião

 O título é como ele se apresenta: generalista e até um bocado cómico, para quem leva o cinema a sério. Um filme de qualidade, e de preferência cativante, é sempre bem vindo. Mas Mentiras Perigosas talvez tenha apenas a segunda faceta. Às vezes isso é suficiente, um entretenimento bobo, acompanhado de uma chavenazinha de chá, especialmente nestas alturas em que queremos apenas desanuviar.

O enredo traz a história de um jovem casal, de boa índole, que vive apertos financeiros, pois Adam (Jessie T Usher), está desempregado. Já a protagonista Katie (Camila Mendes), esposa de Adam, trabalha como provedora de cuidados do velho Leonard (Elliot Gould), um homem bondoso, sem família, solitário e com a saúde frágil. O velho Leonard acaba morrendo durante o sono e nessa sequência, Katie, que apenas trabalhava para ele há 4 meses, herda os seus bens. Aos olhos de todos, as circunstâncias são bastante suspeitas e o casal vê-se a contar à polícia um monte de “(desnecessárias) mentiras perigosas”!

Apesar de a trama ser tola (e as personagens rasas), achamos a fotografia satisfatória, assim como a trajectória dos eventos, que permitem o filme prender a atenção do telespectador com sucesso. Não há grandes surpresas, mas o suspense e a tensão conseguem ser mantidos durante grande período do filme. É duro ver protagonistas, supostamente inteligentes, tomarem as decisões mais estúpidas da face planeta. Totalmente intragável, é verdade. E o final, infelizmente, é demasiado óbvio e desleixado, deixando pontas soltas. Estes aspectos, não invalidam, porém, a experiência, que vale a pena pela moral já conhecida, o qual revela-se um bom elemento agregador. A trilha sonora é ajustada à pelicula.

Recomendável para quem estar entretido, sem algo muito complexo, nem tão brilhante.

A nossa classificação: 3 de 5 estrelas

Confira o trailer:

 

 

Resenhas

#34| De volta ao começo: o dia em que a minha terra parou de girar

Devia ter notado, mas não notei. Como quem anda parcialmente vendado, cercado de velas que permitem o vislumbre de pedaços, mas sem claridade o suficiente para ver no todo.

O primeiro sinal de que havia algo muito errado com Will, aconteceu no dia que fui à consulta. No regresso, encontrei-o adormecido no sofá. Tirei a máscara do rosto, tomei um banho, mas ele continuou lá, serenamente adormecido. Havia um papel quase amarfanhado na sua mão. Apertava-o como quem segura um tesouro. Com cuidado, retirei-o para ler:

Linan, quando a dor vier, teremos que arranjar outra forma. Não podemos guiar, há uma razão para…”

– Estavas a escrever-me uma carta, Will? Um poema…?

Reerguendo-se do sofá, inchaço flagrante nos olhos, dobras bem no alto da testa, respondeu com desdém:

– Poema? – e atirou um olhar perdido para o papel – não lembro.

– Não lembras? Parece que tentavas dar-me um recado…

– Droga, Linan, se disse que não me lembro é porque não lembro, devo ter adormecido, nem sei o que é isto!

Perante o meu silêncio, desbobinou a frase que já se havia tornado habitual nos últimos dias:

– Desculpa. Ando muito tenso vida, desculpa.

Os sinais foram acumulando, de forma evidente, mas mesmo assim, a verdade continuou a escapar-me das mãos. No dia do meu aniversário, por exemplo. Enquanto deliciava-me de uma fatia de bolo, Érica surgiu na sala, pálida como se estivesse doente, e puxou-me depressa pelo braço.

– Mãe… o pai está a chamar-te. Ele está muito esquisito…

Céus, que desordem. Havia ferramentas espalhadas por todo o lado da cozinha, pegadas de lama pelo chão. Ao pé da bancada, Will segurando uma grande faca, as mãos e rosto cobertos de fuligem.

– Will? O que é que se passa?

Ele pestanejou.

– Will?

Então, deixou a faca cair. Voltou a cabeça para baixo, admirado com o cenário, com o seu próprio aspecto.

– Will?

Seus olhos brilharam de pavor.

– Oh não… Linan… – tive impressão de ia chorar – preciso estar só.

– Will, vá lá…

Queria que ele se abrisse, mas acabou por fechar-se no quarto, durante um bom par de horas. Apavorado, acreditava que por causa dos repentinos ataques de pânico, dos lapsos de memória, era um perigo para nós. Quantas vezes a noite desceu, e a cabeça deste humano voou solitária para terras amargas, rondando as suas angústias, deixando-me no escuro. Vivia atordoado, em busca de certezas de que a sua mão aguentaria mais uns segundos sã, para tocar o amanhã. Não é possível dividir a vida dessa forma, vivendo com um pé no presente e outro futuro. Viver assim, é quase como ter metade do coração no ritmo, e outra metade parada. Porquê, Will?

Todavia, foi só no dia seguinte, que entendi os porquês. Após a ignição que se desencadeou dentro do meu ventre. Como não percebi antes, o que estava por vir?

– Respira, meu amor, respira – pedia-me ele, carregando-me ao colo. – Ajuda a mãe minha filha, ajeita a cabeça dela…

– Mãe…

Apelei com um gesto vago de cabeça e ela logo compreendeu.

– Ok, eu sei, vou ficar em casa, mas a orar por ti, eu amo-te… mãe!

– Estou bem, meu amor, estou bem…

Segurei-lhe a mão por um instante, antes de Will fechar a porta e acelerar o carro.

Por mais que ele tivesse se esforçado para levar-me ao hospital e manter-me salva, não foi possível manobrar nas rodas da viatura a tinta indelével que ditaria o infalível destino. O céu incendiou-se e desabou por cima de mim, como a cortina do palco que desce no último acto de um actor. Um camião sem freio decidiu atravessar e esmagar o lado esquerdo da viatura, exactamente onde eu estava, marcando assim, o minuto em que a terra debaixo dos meus pés, parou de girar.

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Imagem: Pinterest

Outras maravilhas humanas, Resenhas

|Maravilhas humana| Txopela de Stewart Sukuma

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Imagem: SapoNoticias

No imaginário infantil, no trópico de Capricórnio, txopelar nunca foi, tão só, uma aventureira e arriscada viagem de alguns segundos ou minutos. Muito pelo contrário, é a realização de sonhos que exorcizam vontades recalcadas. Noutros tempos, as crianças se penduravam nos taipais dos Land Rover, dos Bedfords e Ifas, até nas bicicletas se boleiam aproveitando a distração do pedalante, para provarem ao mundo a sua agilidade e destreza.

A modernidade transformou os veículos, mas nunca o sentido da aventura. Hoje, txopelamos em chapas de outras latitudes. Carroçarias empilhadas e a determinação de uma vontade que perdeu a ingenuidade. As emoções e os prazeres, não se algemaram no tempo e, testemunham a sua longevidade. A verdade foi sempre a filha do tempo e a sabedoria a filha da experiência. Txopelar combina o espelho da alma para dar sentido as vivências e experiências de Stewart Sukuma.

A janela da alma habita no intelecto e, lá se encontram os sentidos. Todos ou alguns. Mas, só o cérebro percebe o que é transmitido pelos sentidos. As imagens, ainda assim, viajam no sentido inverso. Muito antes de qualquer transmissão, revelam a plenitude da natureza e a graciosidade de uma mulher miscigenada. Estas as imagens que combinam à memória, à sensualidade e a luta de um povo, de várias gerações, o clamor pela vida e pela luz, a força de todos estes tempos e outros que ainda estão para chegar.

Assim, como uma canção harmoniosamente bem tocada proporciona um prazer efêmero, uma imagem expressiva, abre as portas para um mundo de sonhos. A ideia pareceu simples. O tempo amadureceu e o txopela se reconfigurou. Ganhou sua identidade e transportou milhões de seguidores. Txopela deu boleia a lusofonia e entrou pelas nossas casas desregradamente. Ninguém desgostou. Pelas telas se transformou numa colmeia de abelhas que se deliciaram de um mel que soube a pouco. Agora regressa à conta-gotas.

Ainda juvenis aprendemos que as imagens são irmãs dos sons agradáveis. Esta aula deve ter interessado sobremaneira ao Stewart Sukuma. Ainda tacteava o seu mundo, o seu espaço. A adolescência empurrou para o sentido da audição. Privilegiou o que mais mexe com os corpos e menos com a mente.

Sukuma foi o promotor do txopela. Internacionalizou uma das expressões mais acarinhadas do país. Txopelando a tecnologia e a beleza genuína da paisagem e suas histórias, articulou como ninguém, o que de melhor este país teria para oferecer.

A música e as imagens, em movimentos ou fixas, são feitas para dar vida e harmonia ao tempo. O bom músico tem dois propósitos. Fazer da vida dos que escutam um tempo mais agradável e, pintar no nosso imaginário o txopela das emoções. O verdadeiro sentido da harmonia reside nesta combinação e seleção do que de melhor o nosso país pode oferecer.

Txopela palmilhou o país de lés-a-lês. Porém, perdeu-se de amores na Ilha dos poetas. Aqui neste espaço-tempo território onde as pétalas tem sabor a maresia, os espíritos desgrudam-se de árvores centenárias, escritores vendem suas almas e, os temperos, enfeitiçam visitantes desavisados. Muhipiti, também, vive txopelada nas ondas de uma onda que aquece o Índico.

Somos todos insulares e nos refugiamos no continente, procurando uma clave de sol que ficou tatuada na memória das paredes das imagens espalhadas pelos nossos corações. Vivemos txopelados pela modernidade de cores e luzes, de um vento que soprara para todo o sempre. Estas imagens são uma cumplicidade de sentimentos, de panorama da qualidade do mais moderno écrans televisivo, misturando em única imagem, o passado, presente e o futuro de forma exuberante.( X)

Jorge Ferrão

Resenhas

Cinema |A Fall from Grace – Assistir ou saltar? | Opinião

Imagem via Netflix

Título: A Fall from Grace (PT: O limite da traição)

Direcção: Tyler Perry

Elenco Principal: Crystal Fox, Phylicia Rashad, Bresha Webb, Cicely Tyson, Tyler Pery

Género: Drama

Ano: 2020

Sinopse:

“Grace fica desiludida após descobrir um caso extraconjugal do marido. Posteriormente, ela reencontra a felicidade num novo amor. Mas, segredos vêm à tona e o seu lado vulnerável torna-se violento”.

Opinião:

Tyler Perry continua a apostar em dramas do quotidiano que apesar de parecerem comuns, não deixam de espelhar algumas realidades do mundo torto em que vivemos, nas quais vale a pena pensar de vez em quando.

Quem viu “Acrimony”, produção anterior de Perry, vai facilmente identificar tais traços logo no início da película que conta a história de Grace, uma mulher que encontra-se detida, aguardando julgamento pelo (alegado) homicídio do esposo. O desenvolvimento da trama é lento, e quem nos dera entender a razão de alguns efeitos visuais serem tão arcaicos. Mas questões técnicas à parte, a construção dos protagonistas também deixa a desejar. Mais rasos não poderiam ser. É difícil criar empatia com Jasmine (Bresha Webb), pois ao contrário das tramas em que nos habituamos a ver os advogados socorrerem-se da inteligência para salvarem(-se de) casos aparentemente impossíveis, é impossivel engolir o nível de incompetência que Jasmine nos atira goela abaixo.

Por outro lado, o plot envolvendo o conto do vigário no qual caí a protagonista Grace é mais provável do se imagina (assustador na verdade), apresentado de forma suficientemente convincente para nos prender ao ecrã e fazer reflectir. Desta forma, apesar das suas falhas, A Fall from Grace acaba por sair-se bem nas reviravoltas, e consegue apelar a audiência pelo tema familiar e pertinente.

Recomendável para quem busca um filme de suspense, sem grandes complexidades.

A nossa pontuação: 3,0 em 5 estrelas.

Confira o trailer:

Imagens via Netflix.

(por VF – da tripulação)