Por Bathist Dmc
“Da Alma à Tela: os Caminhos que Pintam a Nossa Essência” é uma exposição de arte plástica, do artista Gilberto Muzilene, em exposição na galeria do Hotel Cardoso, em Maputo, a qual pode ser apreciada até final de Maio corrente.
A exposição contém, ao todo, dez obras aprimoradas com recurso ao acrílico sobre a tela, com dimensões variadas, porém quase uniformes.
Esta exposição é de carácter individual e conta com o apoio do Hotel Cardoso. O título da exposição é tímido, se considerarmos as obras que a compõem; não há uma instigação apelativa ao espectador, no entanto, as obras são mais persuasivas em furtar o imaginário deste para vários mundos.
As obras de Muzilene são essencialmente figuras humanas, com a presença dominante da mulher, aliando a exposição ao mês de Abril, assim homenageando a mulher moçambicana retratada em vários quadros.
O autor leva-nos a uma viagem lúdica através de cores, iniciando com o quadro “Rivalidades”, a qual apresenta o rosto de duas mulheres, cada uma com sua dose de beleza proporcional. O quadro apresenta os traços em disposição vertical, um jogo misterioso e elegante de cores. As figuras femininas cruzam os seus olhares misteriosos dando lugar à interpretação de algumas formas de rivalidade feminina como a beleza, sobre o aprumo no vestuário, ou mesmo sobre quem tem direito de ficar com determinado homem.
A seguir, o quadro “Peregrinos” apresenta-se muito mais enigmático e abstracto, com uma disposição complexa de cores, onde dependendo da imaginação do observador, um grupo de peregrinos figura de forma quase invisível no quadro, criando a sensação no observador de algo por descobrir, de uma missão por completar.
Por sua vez, a obra “Bailarina Gingona” é uma ode à beleza e essência da mulher preta, africana, moçambicana. Um quadro sintetizado pela estética da mulher, da cabeça aos pés; o cenário proposto pelo autor é meio lúdico, podendo ser uma aldeia, um bairro, uma praça onde no seu quotidiano, a mulher espalha a sua energia feminina, com uma cesta castanha na cabeça, provavelmente de pão ou frutas. A sua pele preta cintila imponente, o brilho do seu rosto, o contorno dos seus ombros e da sua cintura esbelta drenam toda atenção. A sua cuidadosa ornamentação exaltada pelo autor, através de detalhes como o brinco, o lenço, e o seu vestido essencialmente “azul amarelado”, exaltam uma mulher cheia de auto estima, que compreende que o seu valor está na simplicidade. O autor pode, aqui, estar a transmitir a necessidade de a mulher africana preservar a sua auto estima e sua beleza natural, sem desvanecer a vaidade feminina, mas cultivando a simplicidade e naturalidade da sua beleza.
“Cumplicidade” é um dos quadros mais marcantes da exposição do autor, por sinal o que faz a figura de cartaz. Apesar do título, o quadro também sugere “fraternidade” ou “solidariedade”.
Trata-se de uma obra visualmente sedutora. Na tela, um menino preto entre 8 a 10 anos segura nas suas costas uma rapariga mais nova, entre 3-5 anos de idade.
As linhas do quadro são ligeiramente curvas, descrevendo o formato da figura humana. O puzzle de cores foi sintetizado harmonicamente pelo azul na base do quadro, o vermelho e o roxo servindo como transição para os traços corporais dos petizes. O castanho, o vermelho e o amarelo grandemente usados no desenho corporal dos mesmos. O jogo de cores usado apaixona o observador, dando a sensação de algo maior do que o quadro apresenta. A sensação de marcha é eminente, devido aos braços do rapaz segurando as pernas da menor.
Um olhar macio e faminto de ternura escapa da tela pelos olhos da rapariga, em paralelo com o olhar quase inseguro do petiz. Nestes olhares reside toda a essência do quadro.
É dos olhares que nasce a sensação e a ideia de fraternidade. O garoto na tela pode representar um irmão mais velho, que cuida da irmã mais nova na ausência dos seus pais, tornando-se responsável por ela, acarinhando e carregando-a quando ela precisa, ou quando está exausta para continuar na caminhada quotidiana no regresso da machamba ou outra actividade.
Por outro prisma, a ideia de solidariedade também se assenta no quadro. O garoto em alusão pode representar um vizinho ou um estranho que encontrou uma rapariga perdida, chorando, e a devolve para casa dos seus pais.
O autor pode estar a transmitir a importância de educar os homens a protegerem as raparigas desde crianças e, ainda, ensinar que o amor entre dois irmãos é para sempre. Outrossim, a ideia de que na ausência dos pais, os irmãos mais velhos devem cuidar dos mais novos, especialmente das raparigas.
De um modo geral, as obras de Muzilene são sedutoras e dialogam com um quotidiano imaginário, feminino e real africano.
A exposição de Muzilene peca na fraqueza do seu conceito, mais empírico e menos introspectivo. O título da exposição não consegue dialogar profundamente com as obras expostas, não existe um elo forte entre o título da exposição e as obras, sobretudo sendo a maioria dos quadros feminina.
Por fim, a exposição teve falta de alguns elementos protocolares básicos: a enumeração e descrição das obras, o emprego de uma luz adequada para artes plásticas no início da exposição, a fraca fundamentação da exposição por parte do autor. Recomenda-se ao autor melhorias na organização e protocolo.
Sobre o Autor

Bathist Dmc, pseudónimo de António Baptista Magaia Júnior, poeta, rapper, actor e roteirista nascido a 21 de Outubro de 1986, na cidade de Maputo. É licenciado em Tecnologias e Sistemas de Informação, pela Universidade São Tomás de Moçambique.
Iniciado o processo de escrita em 2004, António Magaia é co-autor das antologias: Poemas +258 vol. 1: Antologia da poesia moçambicana, Antologia mundial Dias de Reclusão, Poemas em Tautoindriso da Aurora ao Manifesto e Antologia Pátria Amada, dedicada a não-violência em Cabo Delgado, fez parte da Antologia Internacional – For a Better World (Por um Mundo Melhor), em Los Angeles. Foi finalista da 1ª e 2ª edições do maior concurso de Batalha de Poesia “Moz Slam”, como poeta declamador. Em 2021, fez parte da Associação Progresso, como escritor, para integrar uma equipa num workshop de produção de livros infantis durante 3 meses. Em 2024 participou de uma oficina de crítica de arte, pela Fundação Fernando Leite Couto, durante 2 semanas, conduzindo-o como colunista no jornal “O País”, um dos principais em Moçambique.












