Outras maravilhas humanas

Caminhos de Muzilene– Os prós e contras

Por Bathist Dmc

“Da Alma à Tela: os Caminhos que Pintam a Nossa Essência” é uma exposição de arte plástica, do artista Gilberto Muzilene, em exposição na galeria do Hotel Cardoso, em Maputo, a qual pode ser apreciada até final de Maio corrente.

A exposição contém, ao todo, dez obras aprimoradas com recurso ao acrílico sobre a tela, com dimensões variadas, porém quase uniformes. 

Esta exposição é de carácter individual e conta com o apoio do Hotel Cardoso. O título da exposição é tímido, se considerarmos as obras que a compõem; não há uma instigação apelativa ao espectador, no entanto, as obras são mais persuasivas em furtar o imaginário deste para vários mundos.

As obras de Muzilene são essencialmente figuras humanas, com a presença dominante da mulher, aliando a exposição ao mês de Abril, assim homenageando a mulher moçambicana retratada em vários quadros.

 O autor leva-nos a uma viagem lúdica através de cores, iniciando com o quadro “Rivalidades”, a qual apresenta o rosto de duas mulheres, cada uma com sua dose de beleza proporcional. O quadro apresenta os traços em disposição vertical, um jogo misterioso e elegante de cores. As figuras femininas cruzam os seus olhares misteriosos dando lugar à interpretação de algumas formas de rivalidade feminina como a beleza, sobre o aprumo no vestuário, ou mesmo sobre quem tem direito de ficar com determinado homem.

A seguir, o quadro “Peregrinos” apresenta-se muito mais enigmático e abstracto, com uma disposição complexa de cores, onde dependendo da imaginação do observador, um grupo de peregrinos figura de forma quase invisível no quadro, criando a sensação no observador de algo por descobrir, de uma missão por completar.

Por sua vez, a obra “Bailarina Gingona” é uma ode à beleza e essência da mulher preta, africana, moçambicana. Um quadro sintetizado pela estética da mulher, da cabeça aos pés; o cenário proposto pelo autor é meio lúdico, podendo ser uma aldeia, um bairro, uma praça onde no seu quotidiano, a mulher espalha a sua energia feminina, com uma cesta castanha na cabeça, provavelmente de pão ou frutas. A sua pele preta cintila imponente, o brilho do seu rosto, o contorno dos seus ombros e da sua cintura esbelta drenam toda atenção. A sua cuidadosa ornamentação exaltada pelo autor, através de detalhes como o brinco, o lenço, e o seu vestido essencialmente “azul amarelado”, exaltam uma mulher cheia de auto estima, que compreende que o seu valor está na simplicidade. O autor pode, aqui, estar a transmitir a necessidade de a mulher africana preservar a sua auto estima e sua beleza natural, sem desvanecer a vaidade feminina, mas cultivando a simplicidade e naturalidade da sua beleza.

“Cumplicidade” é um dos quadros mais marcantes da exposição do autor, por sinal o que faz a figura de cartaz. Apesar do título, o quadro também sugere “fraternidade” ou “solidariedade”.

Trata-se de uma obra visualmente sedutora. Na tela, um menino preto entre 8 a 10 anos segura nas suas costas uma rapariga mais nova, entre 3-5 anos de idade. 

As linhas do quadro são ligeiramente curvas, descrevendo o formato da figura humana. O puzzle de cores foi sintetizado harmonicamente pelo azul na base do quadro, o vermelho e o roxo servindo como transição para os traços corporais dos petizes. O castanho, o vermelho e o amarelo grandemente usados no desenho corporal dos mesmos. O jogo de cores usado apaixona o observador, dando a sensação de algo maior do que o quadro apresenta. A sensação de marcha é eminente, devido aos braços do rapaz segurando as pernas da menor.

Um olhar macio e faminto de ternura escapa da tela pelos olhos da rapariga, em paralelo com o olhar quase inseguro do petiz. Nestes olhares reside toda a essência do quadro.

É dos olhares que nasce a sensação e a ideia de fraternidade. O garoto na tela pode representar um irmão mais velho, que cuida da irmã mais nova na ausência dos seus pais, tornando-se responsável por ela, acarinhando e carregando-a quando ela precisa, ou quando está exausta para continuar na caminhada quotidiana no regresso da machamba ou outra actividade.

Por outro prisma, a ideia de solidariedade também se assenta no quadro. O garoto em alusão pode representar um vizinho ou um estranho que encontrou uma rapariga perdida, chorando, e a devolve para casa dos seus pais.

O autor pode estar a transmitir a importância de educar os homens a protegerem as raparigas desde crianças e, ainda, ensinar que o amor entre dois irmãos é para sempre. Outrossim, a ideia de que na ausência dos pais, os irmãos mais velhos devem cuidar dos mais novos, especialmente das raparigas.

De um modo geral, as obras de Muzilene são sedutoras e dialogam com um quotidiano imaginário, feminino e real africano.

A exposição de Muzilene peca na fraqueza do seu conceito, mais empírico e menos introspectivo. O título da exposição não consegue dialogar profundamente com as obras expostas, não existe um elo forte entre o título da exposição e as obras, sobretudo sendo a maioria dos quadros feminina.

Por fim, a exposição teve falta de alguns elementos protocolares básicos: a enumeração e descrição das obras, o emprego de uma luz adequada para artes plásticas no início da exposição, a fraca fundamentação da exposição por parte do autor. Recomenda-se ao autor melhorias na organização e protocolo.   

Sobre o Autor

Bathist Dmc, pseudónimo de António Baptista Magaia Júnior, poeta, rapper, actor e roteirista nascido a 21 de Outubro de 1986, na cidade de Maputo. É licenciado em Tecnologias e Sistemas de Informação, pela Universidade São Tomás de Moçambique.

Iniciado o processo de escrita em 2004, António Magaia é co-autor das antologias: Poemas +258 vol. 1: Antologia da poesia moçambicana, Antologia mundial Dias de Reclusão, Poemas em Tautoindriso da Aurora ao Manifesto e Antologia Pátria Amada, dedicada a não-violência em Cabo Delgado, fez parte da Antologia Internacional – For a Better World (Por um Mundo Melhor), em Los Angeles. Foi finalista da 1ª e 2ª edições do maior concurso de Batalha de Poesia “Moz Slam”, como poeta declamador. Em 2021, fez parte da Associação Progresso, como escritor, para integrar uma equipa num workshop de produção de livros infantis durante 3 meses. Em 2024 participou de uma oficina de crítica de arte, pela Fundação Fernando Leite Couto, durante 2 semanas, conduzindo-o como colunista no jornal “O País”, um dos principais em Moçambique.

Histórias

Um Desenho Perfeito

Flávia acordou sobressaltada. Eram cinco da manhã. Os sonhos ainda lhe pesavam no corpo. A conversa com “a voz”, na noite anterior, ainda estava impregnada na sua mente. Notara que ultimamente seus pensamentos só se resumiam a um nome: Vallen. A voz que não a deixava em paz — nem a ela, nem ao filho. E que sussurrava coisas impossíveis, de um mundo distante do nosso. Durante semanas, atormentara a cidade inteira. Agora, parecia ter escolhido apenas uma família: a sua.

E insistia, dizendo que Flávia sabia. Que escondia uma informação sobre alguém chamada Linan, apesar de ela jurar nunca ter ouvido esse nome.

— Nunca!

Ainda assim, a voz não recuava. Havia nela uma certeza perturbadora.

Flávia afastou os pensamentos. Levantou-se. O dever chamava. Era vendedeira de pão e badjia, na paragem barraca, no bairro da Mafalala, a poucos metros de sua casa. Precisava sair cedo — os clientes contavam com ela para um pequeno-almoço improvisado, apanhado entre a necessidade e a pressa do dia-a-dia.

Antes de qualquer coisa, foi ao quarto do filho. Chelton já estava acordado. De bruços, no chão, desenhava. Flávia ficou à porta, em silêncio. Havia algo naquela concentração que a impediu de interromper. O menino parecia entregue a uma tarefa maior do que ele próprio. Sequer deu conta da presença da mãe.

Ela afastou-se, e foi tratar do que precisava: o feijão nhemba, o alho, a cebola, sal, o óleo… tudo para a confecção das badjias. O pão compraria ao senhor Alberto, como sempre. Àquela hora, ele já teria separado a sua parte.

Quando terminou, voltou ao quarto. Chelton não se movera. Continuava ali. De bruços. Desenhando.

— O que estás a fazer, filho?

Nenhuma resposta.

O lápis avançava devagar, com uma precisão indescritível.

— Chelton…

Ela aproximou-se. E, então, viu: não eram rabiscos infantis; não eram casas, nem árvores, nem figuras desproporcionais.

Era um padrão.

Formas circulares, interligadas por linhas perfeitas… impossíveis. Havia ali uma ordem estranha. Uma harmonia que inquietava. Perfeita demais.— pensou a mãe.

— Onde aprendeste isso? — perguntou, pegando no desenho.

O menino deu de ombros. Era o rosto de uma jovem mulher.

— Quem é? — insistiu.

Chelton respondeu sem levantar a cabeça, como quem diz algo óbvio:

— É a Linan, mãe!

O nome gelou-lhe a alma.

— Chelton! — gritou, sem conter o desespero.

Pois ele nunca dissera aquele nome assim, sem estar tomado pela “voz noturna”.

Flávia levou o desenho mais perto dos olhos, escandalizando-se a cada instante.

Era como se as linhas não estivessem desenhadas, mas impressas. Como se não fosse um desenho, mas uma fotografia.

E o pior de tudo, ela reconhecia aquele rosto. Sim, reconhecia!

Era como se fosse… _ Como se fosse … eu mesma

Resenhas

‎”Portas de Entrada” para o Fazer Artístico com Precisão, de Yuran Amiss

Yuran Amiss é um jovem com veia artística. As artes são – parece – o que lhe fazem respirar. Engana-se quem pensa que se trata de contradizer Roland Barthes, o qual mata os autores na tentativa de compreender a obra, alegando que se pode analisar a mesma longe das biografias, gostos e não gostos. Longe disso. Contudo, é relevante trazer este assunto ao de cima porque, no fundo, é a proposta de Amiss na exposição intitulada “Portas de Entrada”, inaugurada a 18 de Fevereiro de 2025, no espaço Galeria.

‎Acabámos não revelando a proposta trazida pelo artista. Antes disso, é preciso referir que se trata de uma exposição individual de artes plásticas, pintura e design, com corte a laser. A proposta a qual refirimo-nos é a seguinte: o artista tenta trazer na exposição, não um trabalho conceptualpropriamente dito, como quem tenta criar uma narrativa partindo das próprias obras (uma obra dialogando com as outras obras dentro da exposição, para uma grande significação) mas, aqui, as obras sem criar essa aparente narrativa referem-se, plenamente, ao artista. Essas obras não são uma forma de autobiografia, mas uma exposição que nos traz as vertentes do fazer artístico do artista, da sua polivalência.

‎Ao de todo, a exposição não fala muito; não diz além daquilo que se mencionou acima. O que difere, por completo, da análise individual e isolada das obras como “De Nós para Nós’’, um design feito por corte a laser . Uma obra bela, com contornos difíceis, mas precisos e bem conseguidos, tanto quanto outros designs, além de trazer nomes sonantes da cultura, sociedade e arte moçambicanas em específico,africana no geral. Nomes como Azagaia, Pepetela, Mia Couto, Zena Bacar, Ricardo Rangel e muitas outras figuras. Além de simples menções, estes nomes significam a amplitude em que as diferentes formas de manifestação artísticas fazem-nos ser artistas.

Com relação à pintura, Amiss é um homem de traços também precisos, que o fazem mais um retratista, um – talvez – que mesmo partindo da sua própria imaginação, acaba desenhando caras fáceis de reconhecer; características puramente humanas, exemplificado pela obra “Soberbo”, um acrílico sobre a tela,  que retrata não uma figura em si, mas a soberbada forma como coloca a figura ali de soslaio. E, a sua actitude é soberba. 

‎Ao de lado, passa uma impressão a qual de longe, mesmo de perto, é difícil de perceber; na tentativa de fazer uma linha que une a exposição (a precisão tanto no gesto com o pincel, que delimita rostos e expressões com segurança), asssim como com o laser (ao cortar com rigor quase cirúrgico os metais,para fazer os seus designs de portas, de cadeiras, e objectos com a única utilidade de ser beleza). Aqui, precisamente aqui, reside, talvez, a força e o estilo artístico de Yuran Amiss. Com designs de portas, de cadeiras, pinturas, o autor tenta trazer daquilo que são as suas valências como artista plástico – e fê-lo com algum êxito– o que vem acompanhado da precisão com que faz as suas obras. 

Enfim, a sobreposição das formas, das suas valências como fazedor de arte à unicidade temática ou estética, mesmo estilística (apesar de haver aqui a precisão como o ponto que permea toda a exposição), retira profundidade a própria exposição. 

Domingos Mucambe

Resenhas

Sussurro em Maputo

(parte 2)

Vallen tornara-se a sensação de Maputo. Não havia televisão, família ou beco onde o assunto não fosse sussurrado. Durante o dia, via-se nos rostos um cansaço difícil de esconder. Muitos já não dormiam.

— É o anticristo — diziam alguns.

Surgiram profetas. Prometiam soluções encomendadas dos céus,distribuíam águas, pulsos abençoados e objectos sagrados destinados a evitar “a voz”. Mas, nada disso detinha o Vallen.

As crianças continuavam obstinadas, perguntando pelos clubs, por Linan. Sempre da mesma maneira, no mesmo horário.

O governo viu-se obrigado a tomar medidas. Vedou as viagens interprovinciais. Temia-se que o fenómeno fosse transmissível e se espalhasse por outras geografias do país. Houve, também,contactos externos. De Harvard vinham notícias inquietantes: o desaparecimento do famoso astrofísico Dr. Harmistrong, também envolto ao nome Vallen. De Boston, relatos de uma explosão misteriosa numa prisão. E, pouco a pouco, as peças começaram a se encaixar. Maputo estava nas principais televisões e revistas do mundo; cientistas, curiosos e agentes secretos desfilavam pelas suas ruas, tentando estudar o fenómeno. 

Teorias da conspiração eram tecidas. Cada versão mais inquietante que a outra.

E, então, numa certa noite — sem aviso, sem transição, sem clímax — o fenómeno parou.

Na manhã seguinte, a novidade espalhou-se como um rumor feliz, mas ainda cauteloso. As pessoas falavam baixo, como quem teme despertar algo adormecido. Uma semana depois, as famílias respiravam de alívio, voltaram a jantar em paz, convencidas de que “a voz” pertencia ao passado.

Vallen, porém, já conseguira o que queria: uma pista de Linan.

٭

Enquanto a cidade celebrava o silêncio, uma casa continuava a receber, misteriosamente, aquela voz.

Vallen continuava falando com Flávia; ainda se apossava do menino Chelton.

Flávia já aprendera a reconhecer o instante, preferencialmente à hora do jantar.

— Flávia!!_ dizia o miúdo, com os olhos fixos na mãe. 

Já não havia susto. Nem lágrimas. Nem desespero. Apenas cansaço. 

Ela permanecia sentada, com a colher na mão. Como se aquela voz estranha fosse mais um convidado à mesa. Afinal, não se pode lutar com aquilo que não podemos vencer. 

— Já sei quem és — disse Flávia, sem interromper a sua refeição. 

Houve uma pausa. 

— Não. — Corrigiu Vallen —  Sabes apenas o meu nome. 

Flávia jogou a colher no prato e levou as mãos à cabeça. 

— Mas o que queres de mim?

O silêncio adensou-se.

— Linan.

Flávia respirou fundo.

— Não conheço… aliás, ninguém conhece.

A resposta veio sem elevação, sem ameaça. 

— Conheces.

— Todas as crianças perguntaram por ela — disse Flávia. — A cidade inteira procurou. Ninguém sabe quem é.

— Sabem.

— Então, por que não aparece?

Outra pausa.

— Porque vocês não sabem olhar.

Flávia encarou aqueles olhos e soltou um riso curto:

— E tu sabes?

— Sei.

Outra pausa.

— Ela esteve aqui — disse Vallen.

— Aqui onde?

Flávia sentiu um arrepio lento, a respiração dela tornou-se irregular. Olhou para a sua casa como se procurasse pistas para entender tal afirmação. 

— Você foi tocada, Flávia!

— Tocada?

— Linan passou por ti.

Flávia engoliu em seco.

— Isso é impossível.

— Para vocês, humanos, muitas coisas são impossíveis. Mas, tufoste a Linan por muito tempo. 

Por Vallen

Histórias

Sussurro em Maputo

(parte 1)

Era uma noite de quinta-feira no subúrbio da Mafalala, cidade de Maputo, e caia uma chuva miúda. Dona Flávia e seu filho Chelton, jantavam em silêncio, sob a luz tímida de um candeeiro, quando este fez soar, pela primeira vez, a pergunta sobre os qlubs e se ela conhecia uma tal de Linan. A mãe estranhou. Fitou-o por um instante, como quem tenta decifrar uma frase dita noutra língua, mas ignorou. Continuou a comer. Crianças, afinal, fazem perguntas estranhas — às vezes sem nexo. E deu ordens para que o miúdo continuasse a comer, desviando-se daqueles olhos inquisidores que, subitamente, pareciam ter aumentado de tamanho.

Foi deitar o miúdo ainda com um aperto no peito, um desconforto sem causa aparente. Na manhã seguinte, o episódio já estaria esquecido, não fosse uma eventualidade. A vizinha comentou, um tanto nervosa, que a filha, Malissa, fizera exactamente a mesma pergunta.

— Deve ser amante do Moisés — disse, justificando, assim, a briga que desencadeou com o marido.

Entretanto, o detalhe que gelou o sangue de Flávia veio depois: fora à mesma hora; Com o mesmo tom de voz e com os mesmos olhos enormes.

A partir daí, a estranheza começou a ganhar corpo. Flávia passou a conjecturar, oscilando entre explicações banais e hipóteses antigas, herdadas do medo e da tradição; aquelas histórias em que o mundo visível é apenas uma franja sobre outra realidade mais funda. Mais tarde, soube-se que todas as crianças da zona haviam perguntado pelos qlubs e por uma senhora chamada Linan. Mesmas palavras; Mesmo tom; Mesmo horário. Como se alguém, algures, tivesse apertado um mesmo botão. Enfim, já não era apenas a dona Flávia que se inquietava.

Houve quem levasse os filhos a consultórios clínicos, onde os especialistas levantavam várias hipóteses: histeria coletiva, contágio psíquico, lapsos da mente infantil. Outros recorreram a curandeiros, pastores e rezas improvisadas feitas à noite. Ao cabo de três dias, o caso tomava as televisões nacionais, e toda cidade de Maputo se via diante de perguntas que ninguém sabia responder: afinal, o que são os qlubs? E quem é Linan?

Nas redes sociais surgiram Linanes de todo o lado fazendo lives explicativas, angariando vários seguidores. Algumas afirmavam reconhecer o nome em sonhos antigos. Outras diziam ter ouvido falar dos qlubs em lugares onde nunca estiveram. Houve, também, detenções, não por crime, mas para proteger certas mulheres — de nome Linan— da fúria popular. A cidade das acácias fervilhava, como se tivesse sido tocada por uma vibração misteriosa que, nas noites, atravessava os bairros, tomava as crianças e fazia-as repetir, num coro inquietante, as mesmas perguntas:

— Onde estão os qlubs? E onde está a Linan?

Na outra extremidade do globo, uma secretária do famoso astrofísico desaparecido, Doutor Ludwig Harmistrong relatava, perturbada, sobre um jantar envolvendo o astrofísico e um ser extraterrestre que se apresentara como Vallen. Também ele perguntara pelos qlubs e pela Linan.

O episódio teria sido arquivado como delírio, não fosse um jornalista ter ligado aquele relato aos acontecimentos recentes de Maputo. O padrão era demasiado preciso para ser coincidência. Alguns passaram a falar de um retorno. Outros diziam tratar-se de mais um capítulo do já esquecido caso do ET da Virgínia.

Enquanto isso, as crianças em Maputo continuavam a perguntar. Como se respondessem a um chamamento transcendental. A Dona Flávia notara, porém, que ao cabo de alguns dias, a tonalidade mostrava-se progressivamente mais violenta.

— Onde estão os qlubs? —  gritava o miúdo — E onde está Linan?

— Mas quem és tu? — disse Flávia, exausta — apresente-se e eu digo o que desejas.

— Ora… ora.. —  respondeu a voz, rindo —  eu sou o Vallen. 

Vallen, o Qawwi

Desabafo de uma qawwi, Resenhas

O Jantar

Cátia soltou um grito ao ver um homem sentado no sofá da sua sala, espreguiçando-se com o comando da televisão pousado na mão.

— Calma, Cátia! — pediu Harmistrong, com a voz trêmula.

Vallen sorriu, um sorriso sarcástico.

— Não vai apresentar a sua amiguinha, Bartoq?

O silêncio que se seguiu tornou o ar mais pesado. Por fim, Vallen continuou:

— Ah, desculpe. Agora é Harmistrong, não é?

O Doutor engoliu em seco a provocação. Cátia, entretanto, olhou de um para o outro, completamente perdida.

— O que está a acontecer, doutor? Você conhece este homem? Eu vou chamar a polícia.

— Não faça isso — pediu Vallen, erguendo-se do sofá. — Já fiz o jantar. Primeiro vamos comer. Não dizem por aqui que saco vazio não fica em pé? Venham.

Cátia ficou imóvel por um instante. Ainda tentando encontrar alguma explicação plausível.

— Mas, o que é que está a acontecer?! — inquiriu ao Doutor.

— Calma, querida — disse Vallen afastando as cadeiras. —Vamos explicar tudo. Sente-se.

Sentaram-se à mesa. 

— Cátia, terá de perdoar-me. No reino de Stefanotis nós não cozinhamos.

— Onde é isso? — perguntou ela.

— Noutro planeta. Numa órbita distante daqui.

Cátia gargalhou, pela primeira vez passou pela sua cabeça que tudo não passava de uma brincadeira elaborada pelo Doutor.

— Então você é um extraterrestre?

— Sim. Eu e o Bartoq. Ou melhor… e o Doutor Harmistrong.

O Doutor abaixou ainda mais a cabeça, carregando seu fardo invisível.

— Eu exijo ser julgado pelo Conselho Supremo — disse ele, de súbito. — Só o Conselho pode decidir a pena máxima.

— Mas o que é que está a acontecer? — insistiu Cátia.

— Não estrague o nosso jantar, Bartoq — advertiu Vallen, sem perder o sorriso.

— Você não tem o direito de extirpar um qawwi quando bem entender.

Vallen ignorou o comentário e voltou-se para Cátia com delicadeza:

— Perdoe o Doutor. Coma.

Cátia lançou um olhar inquieto a Harmistrong, como se pedisse autorização. Vallen, por outro lado, fixou um olhar frio, suficientemente ameaçador ao Doutor que, imediatamente,pegou nos talheres.

Durante o jantar, Vallen falou sem parar, contando histórias tão absurdas que, invariavelmente, arrancavam gargalhadas de Cátia. Harmistrong permanecia alheio, como se cada palavra fosse uma tortura.

— Mas afinal, o que você quer, Vallen? — tornou a perguntar Harmistrong. 

— Eu? — disse ele, levantando-se com entusiasmo. — A sobremesa! Vão adorar.

Serviu-lhes mousse, suco de pêra e panquecas. Cátia provou e ficou maravilhada. 

— Está delicioso! E você disse que lá em… Stefa… Sti…?

— Stefanotis — corrigiu.

— Isso! Disse que não cozinhavam.

— Bem… confesso que usei um pouco de magia.

Cátia voltou a rir. Só Harmistrong parecia totalmente alheio ao momento.

Quando terminaram, o Doutor não conseguiu conter-se:

— O que você quer?

— Mas que indelicadeza, doutor! — disse Cátia, chocada com o tom dele perante o Vallen que se mostrou sempre tão amável. 

— Já estou habituado, Cátia — disse Vallen, pousando calmamente os talheres.

Harmistrong inclinou-se para a frente, desesperado:

— Diga de uma vez. Já fizemos o que você queria. O que você quer?

Os olhos de Vallen mudaram de cor, brilhando num tom impossível e, com uma voz aguda e cortante, disse com firmeza: 

— Quero a localização exacta dos qlubs.

No mesmo instante, os olhos de Harmistrong também brilharam. Cátia caiu da cadeira, inanimada.

— Isso era missão de Linan — disse Harmistrong — Não tem nada a ver connosco.

— Onde ela está?! — rugiu Vallen.

Harmistrong fechou os olhos, respirou fundo… e respondeu:

 

— Maputo, Moçambique.

Vallen

Histórias, Reviravoltas do Universo

A Casa Assombrada

De dia, a rua da igreja branca de Lionde parecia comum. O sino tocava preguiçoso, apenas aos domingos, velhas rezavam em silêncio, e crianças corriam pela praça. Mas, ao cair da tarde, um silêncio pesado tomava conta do lugar. Os moradores recolhiam-se antes das sete, obedecendo a uma crença antiga: era a hora em que os mortos deixavam o cemitério atrás da igreja para caminhar até ao amanhecer.

Ao lado da igreja, erguia-se a casa dos enfermeiros, que durante décadas servira também como casa mortuária. Ali os corpos eram preparados e velados antes do enterro. Ninguém mais conseguia morar nela. Diziam que, à noite, o vento soprava apenas para aquelas árvores em volta, e que os assobios vinham das paredes impregnadas de luto.

Foi numa casa vizinha a essa que Amélia, o marido — professor destacado de uma província distante — e o filho, Papaito, decidiram morar. A construção parecia tranquila, mas a sombra da igreja e o peso da casa mortuária ao lado criavam uma presença constante, como se a rua respirasse lembranças que não queriam ser esquecidas.

Na primeira noite, Amélia acordou com um som estranho: um assobio breve, irregular, vindo do quarto dos fundos. Achou que fosse o vento, mas percebeu que as notas se repetiam, quase como uma música esquecida.

Na manhã seguinte, Papaito comentou com naturalidade:
“O homem do quarto assobia muito mal.”

Amélia gelou.
“Que homem, Papaito?”
“O que fica sentado na cadeira, a olhar para as árvores.”

O quarto dos fundos dava justamente para o lado da casa mortuária.

Na noite seguinte, o som voltou, mais nítido. O marido levantou-se para investigar e percebeu que o vento parava de soprar em toda a rua, excepto nas árvores em volta da antiga casa dos enfermeiros, que rangiam como se sussurrassem entre si. Do quarto de Papaito, os assobios ecoavam em resposta.

Com o passar dos dias, aquilo tornou-se rotina. Sempre depois das sete. Sempre do lado da casa mortuária. E os assobios mudavam conforme o humor da família. Em noites tensas, eram agudos e irritados. Em noites de silêncio, tornavam-se melancólicos.

Papaito passou a responder. Às vezes, no meio da madrugada, Amélia encontrava-o sentado à beira da cama, assobiando de volta para a escuridão.

“Ele não gosta quando falamos alto”, disse o menino uma noite.
“Quem não gosta, Papaito?”, perguntou Amélia, tentando controlar a voz.
“O homem das pedras tortas. Ele chama-me quando demoro.”

Amélia soube imediatamente do que se tratava. No cemitério, atrás da igreja, havia um conjunto de túmulos antigos, tortos, que os moradores chamavam assim: as pedras tortas.

Desesperada, decidiu procurar um curandeiro local. Encontrou-o numa casa pequena, cheia de ervas secas penduradas no tecto e velas derretidas em frascos de vidro. Explicou-lhe tudo o que vinha acontecendo. O homem escutou em silêncio, com os olhos semicerrados, e por fim murmurou que os mortos estavam inquietos e que precisavam de ser apaziguados. Pediu-lhe um valor avultado e entregou-lhe um embrulho de pano com sal grosso, carvão, aguardente e um galo preto depenado.

Ordenou que Amélia fosse ao cemitério, à meia-noite, acender as velas diante das pedras tortas, derramar a aguardente sobre as campas e queimar o sal e o carvão como oferenda, invocando não só os mortos da terra, mas também os defuntos da própria família.

No entanto, quando Amélia chegou ao cemitério, o que viu gelou-lhe o sangue: todas as campas antigas pareciam revoltas, com fendas abertas, como se algo tivesse empurrado de dentro para fora. O musgo desprendia-se em placas, as velas que acendera apagavam-se sozinhas e o galo depenado foi arrastado pelo vento até cair sobre uma sepultura aberta. O silêncio era tão pesado que parecia conter um rugido contido. Era como se os mortos estivessem zangados com a tentativa de os apaziguar.

Naquela noite, os assobios não apenas regressaram: tornaram-se mais altos, agressivos, prolongados, como se cada túmulo tivesse começado a assobiar por si. As árvores ao redor da mortuária rangeram como vozes de centenas de velórios simultâneos.

O marido de Amélia resistia à ideia de abandonar a casa, pois a sua posição de professor destacado em Lionde era uma honra e um dever difícil de recusar. Mas, à medida que Papaito parecia cada vez mais enlaçado pelas assombrações e que nem o curandeiro conseguira resolver, restou apenas uma escolha.

Na madrugada seguinte, após mais um assobio que atravessou a casa como uma lâmina, a família juntou os pertences à pressa e partiu.

E até hoje, quem ousa atravessar a rua da igreja branca de Lionde depois das sete garante ouvir o vento bater apenas nas árvores da antiga casa mortuária e, entre rajadas, um assobio irregular, vindo ora do cemitério, ora da casa vizinha, onde ninguém mais ousou morar.

The Cysne

Resenhas

O Encontro

Depois de semanas de ausência, Harmistrong regressa à universidade. Estava exausto. Carregava o peso de algo que não se explica. Não tinha ânimo para dar aulas, tampouco para ficar em casa. A secretária notou-lhe o desleixo: a barba por aparar, o cabelo por pentear e, talvez, um banho que lhe tenha escapado. Ainda assim, manteve-se calada, temendo uma resposta malcriada do professor. Afinal, conhecia-lhe bem as manias.

Ele limitou-se a um frio cumprimento, sem se dignar a justificar as ausências nem o facto de não atender às ligações. Seguiu directamente para o seu gabinete e desabou na cadeira. Passou em revista os últimos acontecimentos. Estes, resumiam-se a carta da noite anterior. Mas, Vallen não se dignara a aparecer. Pareceu-lhe uma obscenidade o não ter aparecido, como se tivesse faltado a um compromisso previamente marcado.

Teria continuado em divagações se algo sobre a mesa não lhe tivesse chamado a atenção: uma carta.

Harmistrong quase surtou. Chamou pela secretária como quem, em tempos de aflição, chama por Deus.

— Quem trouxe essa carta?! — gritou.

— Carta? — perguntou ela, confusa.

Com o dedo trémulo, ele apontou para a mesa.

A secretária olhou, impávida.

— Não recebi nenhuma carta, doutor! Aliás, o seu gabinete permaneceu trancado durante a sua ausência — justificou.

Disse mais uma porção de coisas, como:

— O senhor proibiu que se abrisse o gabinete na sua ausência…

Porém, o doutor Harmistrong já não ouvia nada. Nos seus olhos, pendiam duas grossas lágrimas. A secretária começou a ficar preocupada. Quis saber o que se passava, mas conteve-se, temendo que os seus sentimentos não lhe permitissem escolher as palavras certas.

— Doutor…

— Abra! — disse ele, titubeante.

— Como?

— Eu disse abra, porra! —gritou, visivelmente alterado.

A situação começava a transitar de preocupante para assustadora. Ainda assim, obedeceu.

— Não tem remetente — disse, abrindo o envelope.

Com calma, e alguma estranheza a mistura, leu a única palavra que continha a carta:

— Bingo!

O doutor Harmistrong levou a mão ao bolso traseiro e retirou outra carta. As suas mãos tremiam notavelmente. A carta trazia a mesma mensagem:

— Bingo!

A pergunta saiu-lhe de forma automática:

— O que isso significa? Está a receber alguma ameaça, doutor?

Em resposta, o doutor apenas balançava a cabeça, qual menino desesperado.

— É o jornalista?! — insistiu ela.

— Jornalista? — tornou ele, limpando as lágrimas.

— Sim. O senhor não sabe das notícias? Um jornalista tirou-lhe fotos em Boston, no incidente da cadeia. Na foto, os seus olhos brilhavam de forma peculiar. Dizem que é inteligência artificial… mas… mas há testemunhas.

Fez-se uma pausa. O doutor Harmistrong divagava, devagar.

— Puta merda… — murmurou, antes de desatar em gargalhadas esquisitas.

— Doutor…!

— Eu estou lixado, Cátia! — disse-lhe, estendendo os braços para um abraço.

A secretária envolveu-se nele, o coração pulsando acelerado. A situação não era das melhores, mas ela amava o doutor em silêncio, com todas as forças. E, por isso, não podia deixar de saborear o momento.

— Tudo se resolve, doutor — disse, ainda enlaçada nos seus braços. — Tudo se resolve.

— Não no meu caso… não com o Vallen à espreita.

— Vallen? Quem é Vallen?

Em resposta, apenas um sorriso. E Cátia não insistiu. Estava claro que algo grave se passava. 

Cátia conseguiu convencê-lo a ir para sua casa. Ofereceria-lhe um banho, comida e, quem sabe, consolo. Durante o trajecto, não trocaram palavras. Harmistrong permanecia quieto, perdido nos próprios pensamentos. Entretanto, havia recuperado a calma. Cátia, por sua vez, calava-se — tinha tanto para dizer, mas não era o momento. Afinal, ele sofria de algo que ela não compreendia.

Estacionou o carro e dirigiu-se à porta de casa. Harmistrong seguia-a, resignado.

Cátia abriu a porta e deu um grito: havia um homem sentado no sofá, com o comando da televisão na mão.

— Vallen!!!! — exclamou Harmistrong.

O homem ergueu o olhar e sorriu:

— Bingo!

Vallen

Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | A Confissão da Leoa, de Mia Couto | Opinião

No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.

“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”

Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.

Classificação: 5 em 5 pontos

Por Virgília Ferrão