Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Cantinho da Qawwi

Um conto de (a tale by) Mélio Tinga

“Era um miserável, um pobre apaixonado atrapalhado. Basmeu de Castro Luis nunca antes se vira controlado por um amor tão ardente. A moça pisava o chão com serenidade, a luz do sol transformava-a em flor agigantada no meio de tantas outras. Basmeu apaixonara-se ao vê-la passar repetidas vezes. Certa feita, viu-a passar de um vestido que lhe roçava os joelhos, viam-se as coxas lisas e claras com o ecoar leve do vento de final de tarde.”

“He was a miserable, poor fumbling lover. Basmeu de Castro Luis had never found himself dominated by such passionate love. The girl stepped coolly on the ground, the sunlight changing her into a giant flower among so many others. Basmeu had fallen in love with her when he saw her passing by, again and again. On one occasion, he saw her walk by in a dress that brushed her knees, her smooth, clear thighs visible with the light echo of the late afternoon wind.”

Passagem de “O Pobre e os seus amores”, conto de Mélio Tinga. Leia este e outros contos em “O Voo dos Fantasmas”,

                                                                Livro Publicado pela Ethale Publishing, 2018

Outras maravilhas humanas

Chamada para Publicação de Antologia em Ficção Especulativa

Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa

Capa promocional: Arte de Collin Anderson; Design da BROKEN – Agência Criativa

ÚLTIMA ACTUALIZAÇÃO, 21 DE SETEMBRO DE 2021: SUBMISSÕES ENCERRADAS

Por ocasião do terceiro ano de existência do Diário de uma Qawwi, que se assinala este ano, abrimos este edital para a recepção de textos que poderão constar na antologia em epígrafe.

O Diário de uma Qawwi pretende apoiar o desenvolvimento de novos tipos de produção literária africana, com particular enfâse à ficção especulativa. Embora o género “fantástico” tenha uma longa tradição na narrativa oral e escrita africana, até algum tempo atrás o nosso continente era pouco associado a outros tipos de literatura, incluindo a que aqui trazemos em alusão. Havia certa percepção de que os extraterrestres, os países futurísticos, as sociedades utópicas e afins, pertenciam ao mundo ocidental. A verdade é que, a riqueza e a diversidade das nossas tradições, aliadas ao espelho da humanidade e do universo como um todo, nos trazem leituras únicas sobre a vida e sobre o ser humano. África é o berço da humanidade. O futuro, a magia, também começam aqui.

Notamos assim, que as narrativas que configuram a ficção especulativa, têm estado a ganhar cada vez maior relevância em África actualmente.

Por esta razão, pretendemos com a ajuda de todos os escritores africanos que aceitem apoiar esta iniciativa, proporcionar ao leitor a exploração das múltiplas histórias do continente, através de novos satélites, quer seja do imaginário relativo a África futurística, quer seja por viagens em discos voadores, peneiras mágicas, realidades alternativas, sociedades utópicas, sociedades distópicas, universos múltiplos, na companhia de magos, cientistas, ancestrais, fantasmas ou outras entidades, em textos inspirados nas nossas culturas, cruzando com novos códigos e imaginários, assim como com novos processos narrativos. Pretendemos, em suma, arrebatar os leitores, com histórias explosivas, mostrando aquilo que pode ser produzido por autores africanos, através da língua portuguesa.

“Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa” vai assim juntar histórias (contos/crónicas/outros) de diversos autores africanos, com ou sem livros publicados, em formato de antologia a ser publicada pelo Diário de uma Qawwi, que será comercializado em Moçambique e em Portugal (formato físico), e pelo Amazon (formato digital), assim como mensalmente no blog em referência e, por fim, em Audiolivro. Para o efeito, preve-se que haja uma remuneração simbólica para os autores a entrarem na antologia.

Envie o seu texto até o dia 20 de Setembro do corrente ano. Os textos devem ser enviados para o email diariodeumaqawwi@gmail.com. Para mais detalhes sobre esta publicação, consulte o regulamento abaixo.

Regulamento da Antologia

Espíritos Quânticos: Uma jornada por histórias de África em ficção especulativa

  1. Quem pode submeter?

Qualquer escritor(a) africano(a), com ou sem obras publicadas, maiores de 18 anos ou emancipados, desde que sejam escritos (ou traduzidos) em língua portuguesa e que obedeçam a temática da antologia.

2. O que se busca para esta antologia?

2.1 Textos em prosa, com conteúdo de ficção especulativa.

2.2 Textos de qualquer gênero ou subgenero literário, desde que contenham elementos de ficção especulativa. Assim sendo, O escritor é livre de criar e misturar um (1) ou tantos quantos géneros/temas lhe aprouver, desde que mantenha o critério aqui solicitado. Por exemplo, se for a escrever um conto ou uma crónica do quotidiano, uma história de suspense, uma trama romântica, de terror, ou qualquer outro, certifique-se de que ela não contenha aspectos meramente mundanos e sim um elemento especulativo. Os géneros e sub-géneros de ficção especulativa podem incluir, não se limitando a:

  • Fantasia;
  • Ficção científica;
  • Terror sobrenatural;
  • Sobrenatural;
  • História alternativa;
  • Afrofuturismo;
  • Utopias e distopias;
  • Cyberpunk;
  • Black-tech; e
  • Outros

3. Quais os critérios de avaliação?

3.1 Serão aceites pela equipa do Diário de uma Qawwi, todos os textos submetidos, desde que cumpram, no mínimo, os seguintes requisitos:

a) Submissão dentro da janela do tempo especificada;

b) Cumprimento dos critérios de formatação e limite de páginas;

c) Cumprimento da temática solicitada; e

d) Qualidade literária;

3.2 Temos uma quota reservada para este livro (capacidade para incluir entre 12 a 15 textos). Caso se verifique que as submissões, que reúnem os requisitos acima descritos, excedem a quota reservada para a antologia, esta chamada tomará o carácter de concurso, e os textos serão levados a uma comissão de análise, composta por três (3) personalidades de reconhecido valor e idoneidade ligadas à literatura, para passarem a fazer a selecção do conjunto de textos, em parceria com a equipa do Diário de Uma Qawwi.

4. Que formato os textos devem adoptar?

Os textos devem ser submetidos em formato word, com o máximo de 2.000 (duas mil) palavras e 6 (seis) páginas, em A4, Times New Roman 12, espaço 1.5.

5. Aceita-se submissões múltiplas?

Sim. Pois, cada autor pode enviar um (1) ou mais textos, desde que no seu conjunto, os textos não excedam 2.000 (duas mil) palavras e 6 páginas, conforme descrito no artigo acima.

6. Aceita-se submissões/publicações simultâneas?

6.1 Não. Os textos submetidos à antologia devem ser inéditos, e não podem ser (ou ter sido) submetidos ou publicados por outras editoras. Caso seja seleccionado, o autor concede desde já o direito de exclusividade de publicação pelo Diário de uma Qawwi, pelo período de um ano, a contar da data da publicação da antologia.

6.2 A regra acima não se aplica às excepções que por ventura venham a ser consentidas pelo Diário de Uma Qawwi, para textos fora do âmbito deste edital, que possam ser incluídos na antologia.

7. Há espaço para submissões ou traduções em co-autoria?

7.1 Aceitamos textos submetidos em co-autoria, desde que um dos participantes seja um autor ou autora africana (o).

7.2 Em caso de submissões em co-autoria, a simbólica remuneração pela participação e quaisquer direitos autorais previstos para 1 (um) autor, serão repartidos por igual entre os co-autores.

7.3 A regra do artigo 7.2 aplica-se às submissões do tradutor ou tradutora do texto de um autor ou autora africano(a) em língua portuguesa, em parceria com o referido autor ou autora.

7.4. Não serão permitidas submissões de textos traduzidos para a língua portuguesa, sem o consentimento e participação do autor ou autora do referido texto.

8. Qual a tiragem dos exemplares e o PVP?

Pretende-se efectuar uma tiragem inicial de quinhentos (500) exemplares. O PVP será determinado em data a anunciar.

9. E em relação aos direitos autorais?

9.1. No que se refere ao livro físico e o audiolivro não está previsto o pagamento de direitos autorais.

9.2 Para o livro digital a ser comercializado no Amazon, o Diário de uma Qawwi reserva-se o direito de oferecer, ou não, a cada autor seleccionado, o pagamento dos direitos autorais aquando do contrato/declaração a ser assinado após a divulgação dos resultados deste edital.

10. O que mais oferece esta antologia aos autores?

10.1 Com a devida observância à regra da cláusula 7, todos os autores participantes receberão uma simbólica contribuição pela participação. O cálculo desta obedecerá os seguintes critérios:

a) O autor receberá o valor de 0.60 MT (sessenta cêntimos em Meticais) por cada palavra do seu texto, até ao máximo de 2.000 (duas mil) palavras.

b) Excepcionalmente, e na eventualidade de se verificar um volume de textos correspondente à metade ou abaixo da metade da quota reservada para o livro, o autor receberá o valor de 1,00 MT (um metical), por cada palavra do seu texto, até ao máximo de 2.000 (duas mil) palavras.

c) O pagamento será efectuado logo após o anúncio dos resultados, assim que a formalização da publicação tiver sido feita, usando-se conta bancária/mpesa/conta móvel (Moçambique) ou paypall (fora de Moçambique). Do valor em causa, serão deduzidos quaisquer comissões de transferência.

10.2 Cada autor receberá ainda, um (1) exemplar grátis da antologia.

10.3 Os exemplares grátis referidos no ponto 10.2, deverão ser levantados nos locais em Moçambique, a serem indicados aquando do lançamento da antologia, previsto para o primeiro semestre de 2022. O Diário de uma Qawwi poderá organizar o envio dos referidos exemplares para fora de Maputo ou de Moçambique, caso o autor assim o solicite, mediante o pagamento da respectiva tarifa de correio.

10.4 Caso o autor pretenda adquirir exemplares adicionais, poderá fazê-lo ao PVP.

11. Como e quando fazer a submissão?

11.1 Todos os textos deverão ser enviados a partir do dia 20 (vinte) de Julho até ao dia 20 (vinte) de Setembro de 2021, para o email diariodeumaqawwi@gmail.com.

11.2 Cada texto deverá conter um cabeçalho com o título, nome ou pseudónimo do autor, e o número total de palavras (wordcount).

11.3 O autor deverá ainda enviar um documento separado contendo o nome completo, a nacionalidade, morada, email, contacto telefónico, uma breve sinopse (2 a 3 linhas no máximo) do texto submetido e uma biografia resumida do autor (até 120 palavras).

12. Qual é o prazo de análise e de divulgação dos resultados?

12.1 Os originais submetidos serão analisados a partir da data do encerramento das submissões.

12.2 Ao submeter o seu texto, o autor receberá um email acusando a recepção. Este email servirá de comprovativo da submissão. Após a análise de todas as submissões, que será conduzida pela equipa ou pela comissão do Diário de uma Qawwi, iremos divulgar os textos seleccionados, no blog do Diário de uma Qawwi, até ao dia 30 de Outubro de 2021 (inscreva-se no blog ou siga-nos nas redes sociais para manter-se actualizado).

13. Como e onde será publicada a obra?

A antologia terá o seguinte formato de publicação e distribuição:

– Livro Físico – a ser distribuído e comercializado em Moçambique e em Portugal;

– Livro Digital – a ser publicado no Amazon;

– Publicação mensal de cada texto, no blog Diário de uma Qawwi; e

– Audiolivro.

14. Disposição diversa?

14.1 O Diário de uma Qawwi reserva-se o direito de:

a) Estender o prazo de submissões ou o prazo de divulgação dos resultados, caso assim se justifique, por um período nunca superior a 30 dias.

b) Desqualificar os textos submetidos, caso não reúnam os critérios de avaliação estabelecidos.

c) Proceder à revisão linguística dos textos para efeitos de publicação.

d) Não se responsabilizar por cópias, plágios ou violação de direitos autorais cometidos pelos autores seleccionados.

e) Publicar uma nova tiragem caso esgote a primeira edição.

14.2 Todos os textos submetidos fora do prazo e todos os textos não seleccionados, serão automaticamente descartados do acervo.

14.3 Ao submeter o texto, o autor aceita automaticamente os termos e condições deste regulamento, bem como a proceder a assinatura de um eventual contrato de edição com o Diário de uma Qawwi, para a publicação da antologia.

14.4 Caso tenha quaisquer dúvidas com relação às regras deste regulamento, entre em contacto através do email diariodeumaqawwi@gmail.com.

Maputo, aos 15 de Julho de 2021,

Os organizadores da Antologia

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Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura| An American Marriage (Um Casamento Americano), de Tayari Jones | Opinião

Autor: Tayari Jones

Editora: Algoquin Books

Idioma: Inglês

Sinopse

Os recém-casados ​​Celestial e Roy, são o protótipo do sonho americano. Ele é um jovem executivo e ela uma artista na fase inicial de uma carreira empolgante. Mas à medida que se estabelecem na rotina da vida a dois, eles são dilacerados por circunstâncias que nenhum dos dois poderia ter imaginado.

Roy é preso e condenado a 12 anos, por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu. Apesar de ser uma mulher forte e independente, Celestial se vê desolada e desamparada, consolando-se com André, seu amigo de infância e padrinho de casamento. O tempo de Roy na prisão vai passando, e Celestial é incapaz de manter o amor que sempre foi o seu centro. Porém, ao final de 5 de anos, a pena de Roy é subitamente revertida e ele volta para Atlanta, pronto para retomar a sua vida ao lado de Celestial.

Opinião:

A história intercala a narração dos protagonistas, nomeadamente Celestial, Roy e André, uma técnica que empresta uma dinâmica bastante interessante à narrativa, e que acaba por ser efectiva. Foi uma boa decisão da autora mostrar os diferentes pontos de vista dos personagens, pois sem a persepctiva de Celestial, o leitor estaria mais propenso a criar certa animosidade ou até mesmo a ter uma recepção negativa para com esta personagem.

An American Marriage, apresenta-nos uma trama honesta e impactante, escrita de forma belíssima, não apenas sobre a realidade do sistema social e político da região em que se desenrola, mas também dos valores matrimoniais, expostos à condição essencialmente humana. Com o marido na prisão, Celestial, que não esperava ver-se tão cedo sozinha, acaba por envolver-se com André, seu amigo de infância. Mas Roy, inocente, ao ser libertado, deseja regressar à vida de casado com Celestial, formando-se aqui um triangulo amoroso complicado e doloroso. Somos levados assim, a reflectir, sobre até que ponto conseguimos cumprir as promessas consideradas sagradas e até mesmo inquebráveis.

Um história, em última análise, melancólica, sobre como uma injustiça social pode abalar a vida pessoal, e sobre como dinâmicas inesperadas podem sobrepor-se aos votos matrimoniais.

A capa do livro é extremamente elegante e dialoga com o tema do romance.

Um leitura recomendável.

A nossa pontuação: 4.5 de 5 estrelas.

Sobre a autora:

Tayari Jones é autora de quatro romances, mais recentemente “An American Marriage”, que foi eleito para a Selecção do Clube de Livros da Oprah 2018, e ganhou o Prêmio Feminino de Ficção de 2019. Jones é graduada pelo Colégio de Spelman, pela Universidade de Lowa e pela Universidade do Estado de Arizona.

Literature| An American Marriage, by Tayari Jones | Opinion

Author: Tayari Jones

Publisher: Algoquin Books

Language: English

Synopsis

The newlyweds Celestial and Roy are the embedment of both the American dream and the New South. He is a young executive, and she is an artist in the brick of an exciting career. But as they settle into the routine of their life together, they are ripped apart by circumstances neither of them could have imagined.

Roy is arrested and sentenced to 12 years for a crime Celestial knows he didn’t commit. Despite being a strong and independent woman, Celestial finds herself bereft and unmoored, taking Comfort in Andre, her childhood friend and best man at their wedding. As Roy’s time in prison passes, she is unable to maintain the love that has always been her center. However, after 5 years, Roy’s conviction is suddenly overturned and he returns to Atlanta, ready to resume his life with Celestial.

Opinion:

The story combines the narration of the protagonists, namely Celestial, Roy and André, a technique that lends a very interesting dynamic to the narrative, and which ends up being very effective. It was a good decision of the author, to show the different points of view, without Celestial’s perspective, the reader could find himself leaning to a certain animosity or even negative reception by towards this character.

An American Marriage presents us with an honest and impressive plot, beautifully written, not only about the reality of the social and political system of the region in which it takes place, but also about matrimonial values, exposed to the essentially human condition. With her husband in prison, Celestial, who did not expect to find herself alone so soon, ends up getting involved with André, her childhood friend. But Roy, innocent, on being freed, wants to return to his life with Celestial, forming here a complicated and painful love triangle. We are thus led to reflect on the extent to which we are able to fulfill the promises considered sacred and even unbreakable.

Ultimately, a melancholy story of how social injustice can undermine personal life, and how unexpected dynamics can overwhelm marriage vows.

The book cover is extremely elegant and dialogues well with the theme of the novel.

A recommendable read.

Our score: 4.5 out of 5 stars.

About the author:

Tayari Jones is the author of four novels, most recently “An American Marriage,” which was a 2018 Oprah’s Book Club Selection, and won the 2019 Women’s Prize for Fiction. Jones is a graduate of Spelman College, the University of Lowa and Arizona State University.

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Melita Metsinha

Medo

Morrer de amor

Esse que não mata

Por quem matamos?

É fuga impedida

O voo sem horizonte.

Um sonho sem ti.

Fear

To die of love

That which does not kill

For whom do we kill?

Its a hindered flight

The flight with no horizon.

A dream without you.

Poema de Melita Matsinhe – In Ignição dos Sonhos

                                                                Livro publicado pela Fundação Fernando Leite Couto, 2017

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| You’ve got this (Ahi te encargo)| Opinião (Review)

Título: You got this (Ahi te encargo)

Direcção: Salvador Espinosa

Género: drama; comédia; família

Elenco: Maurício Ochmann; Esmeralda Pimentel

Ano: 2020

Imagem Fonte: Hagertjourn

Sinopse

Alex, um criativo publicitário quer ser pai a todo o custo, mas a sua mulher é uma advogada no topo da carreira, e ser mãe não faz parte dos seus planos. Um convidado inesperado irá desafiar o amor do casal.

Opinião

“You got this”, ou título original em espanhol, “Ahi te encargo”, é uma comédia mexicana, de 2020, sobre um casal feliz, que entretanto, tem sonhos e filosofias diferentes. É curioso que, muitas comédias recentes da América Latina (como por exemplo o filme “One Small Problem”), têm trazido este debate, com a tendência em inverter os papeis, onde a mulher, no auge da carreira, ou simplesmente por escolha natural, não deseja ter filhos. Por alguma razão, a Netflix está a apostar nestes roteiros, obviamente com uma audiência específica. Se calhar, em jeito de comédia, para mostrar uma realidade presente e mais verdadeira do que se pensa?

Alejandro e Cecília, protagonistas da trama, encarnam um casal regular, com algumas características dos típicos personagens deste tipo de comédias, mas também, com uma postura mais séria, que debatem as suas diferenças. Cecília sempre deixou claro que não deseja ter filhos, facto que, a dada altura, entra em choque com o desejo de Alejandro, que quer ardentemente ser pai. O filme tem alguns bons momentos, mas não é tão memorável, nem eficiente no quesito a que se propõe. Entretanto, houve o cuidado de trazer essa discussão complicada, sem retratar um outro género de forma negativa, pelas suas escolhas. Vale, também, pela representação do empoderamento da mulher, da queda do machismo e pela mensagem sobre os valores que valem num relacionamento (o diálogo e compromisso).

Filme de Domingo, que vale a pena ver se você estiver interessado no tema, mas não necessariamente uma forte comédia.

A nossa pontuação:

3 de 5 estrelas

Confira o trailer no link mais abaixo:

ENGLSIH VERSION

Plot:

Alex, na advertsing creative wants to be a father at all costs, but his wife is a lawyer on the top of her career, and being a mother is not part of her plans. An unexpected guest will challenge the couple’s love.

Opinion

“You got this,” or its original Spanish title, “Ahi te encargo,” is a 2020 Mexican comedy about a happy couple who, in the meantime, have different dreams and philosophies. Interestingly, many recent Latin American comedies (such as the film “One Small Problem”), have brought this debate, with the tendency to reverse the roles, where the woman, in the top her career, or simply by natural choice, does not wish to have children. For some reason, Netflix is betting on these scripts, obviously with a specific target. Maybe, in a way, to show a reality that is present and truer than we think?

Alejandro and Cecilia, the plot’s protagonists, embody a regular couple, with some features of typical characters of this type of comedies, but also, with a more serious stance, who debate their differences. Cecilia has always made it clear that she does not wish to have children, a fact that at a certain point clashes with Alejandro’s desire, who ardently wants to be a father. The film has some good moments, but it is not that memorable, nor is it efficient in what it sets out to do. However, care was taken to bring up this complicated discussion without portraying one or another gender in a negative light, for their choices. It is also worth it for the representation of women’s empowerment, the fall of chauvinism, and for the message about the values that count in a relationship (dialogue and commitment).

Sunday movie, worth seeing if you are interested in the topic, but not necessarily a strong comedy.

Our score:

3 out of 5 stars

Check the trailer here:

https://m.imdb.com/video/vi4088054041?playlistId=tt13118012&ref_=tt_ov_vi

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Pedro Pereira Lopes

3 (Coisas da vida) / 3 (things of life)

uma vida que desce ou folha que envelhece

um poema que flui ou rosto que sorri

um musical sem pernas ou golo celebrado

fotos velas campas ou vozes

árvores velhas com baloiços velozes

qualquer coisa que ateste

até de indevida forma

a essência sublime

das coisas da vida.

3 (things of life)

a life that descends or leaf that grows old

a poem that flows or a face that smiles

a musical lacking legs or a goal to be rejoiced

pictures candles graves or voices

old trees with swift swings

anything that attests

even in an unjustifiable way

the beautiful core

of the things of life

Poema de Pedro Pereira Lopes, in Mundo Blue

                                                                Livro Publicado pela Gala Gala Edições, 2020

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | O Estranho, de Ad Chaves – Opinião

Autor: Ad Chaves

Editora: Tribo das Letras / Amazon

Idioma: Português

Sinopse

“Dez anos são suficientes para que a verdade venha à tona? Neste suspense, os personagens terão as suas vidas presas numa vertiginosa trama onde a traição, o amor e o ódio se fundem numa tentativa desesperada para manter, sob camadas de mentiras, a verdade. Júlia, após descobrir que perdera anos num casamento por interesse, com um renomado advogado, vê a sua vida colocada de cabeça para baixo quando, numa noite chuvosa, o encontro com um estranho, num hotel de beira de estrada, a leva para um inesperado caminho. Impelida pela imprevista atraccão pelo misterioso desconhecido, ela vê-se arrastada para um trilho onde a vingança é o norte, e a vítima e o culpado se alternam, fazendo-a questionar-se, sobre quem, de faco, é o Estranho na sua vida.

Opinião

Já há muito tínhamos curiosidade de conhecer a obra de Ad Chaves, autor da editora Brasileira Selo Jovem, e por essa razão, a leitura de “o Estranho”, livro de estreia deste autor, foi das mais ávidas este ano. A Selo Jovem tem trazido trabalhos muito promissores de vários autores e Ad Chaves não é a excepção. Entretanto, a obra aqui em alusão, foi piblicada pela Tribo de Letras e encotra-se de igual forma disponível na Amazon.

Com uma escrita de fácil acesso e muito concisa, Ad Chaves nos conduz por uma narrativa bastante fluida, de suspense, à volta de uma trama sobre vingança, amor e injustiças.

Narrado na terceira pessoa, cada capítulo inicia com uma citação da protagonista Júlia, cujo contexto é explicado no final do livro.

Julia, a semelhança de algumas mulheres do quotidiano, casou-se com André, pelas razões erradas, e com o passar do tempo, as consequências desse acto, resultam num casamento infeliz, com contornos inesperados.

Relativamente à construção de algumas personagens, embora no geral estejam a maioria, bem construídas, não conseguimos ter grande empatia para com a Julia, talvez pela certa superficialidade na sua personagem, o que poderia, porventura, ter sido colmatado com um pouco mais de desenvolvimento psicológico à volta da mesma. Em compensação, somos apresentados com alguns personagens, como Clara, Jorge e o próprio “Estranho”, que tem um background mais interessante de descortinar.

O autor impressiona também pela óptima capacidade de criar tensão e fazer com que o leitor prenda-se à leitura, desde o início ao fim, devorando as páginas num ápice. Um ponto fraco, entretanto, é que, o narrador, enquanto omnisciente, revela-nos alguns aspectos da trama de forma bastante depressa e directa, frustrando em alguns momentos as expectativas do leitor. Apecto, que todavia, acaba por ser compensado pela boa técnica em apresentar-nos sem demoras reviravoltas de impacto.

Em resumo, para um livro de estreia, é um óptimo livro, com uma trama de grande sensibilidade, muito suspense para quem gosta deste género, e que facilmente poderia ser adaptada para um roteiro de cinema.

Sobre o autor

“Ademilson Chaves é mineiro e como todo mineiro gosta de contar histórias. Muito cedo descobriu que gostava de livros tornando-se um leitor voraz. Formou-se na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Nas horas vagas descobriu um grande prazer, criar e escrever histórias capazes de prender o leitor ávido por uma boa trama.”

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Álvaro Taruma

Há ainda sobre a luz

Palavras que não dizem

Feixes obscuros

Centelhas adormecidas

Mas luz,

Ao contrário,

O osso de que se veste o corpo

E sobe de entre os dedos

Ao encontro do papel claro

Onde a noite gravita

A noite grave

A noite grávida de silêncios e sombras

E mais nada

Luz em reflexo in-vertido

There is still over the light

Unspoken words

Unclear beams

Sleeping flickers

But light,

On the contrary,

The bone of which dresses the body

And rises from between the fingers

To meet the bright paper

Where the night gravitates

The grave night

The night gravid with silences and shadows

And nothing else

Reflection in light in-

Verted.

Poema de Álvaro Taruma – in Para uma Cartografia da Noite

                                                                Livro publicado pela Literatas, 2016

Lançamentos!, Outras maravilhas humanas

Chamada para a Antologia “CRÓNICAS DE YASUKE: O Primeiro Samurai Negro”

17 de Junho de 2021

Está aberto, desde 24 de maio de 2021 e segue até o dia 19 de julho de 2021, o edital para a Antologia “Crónicas De Yasuke: O Primeiro Samurai Negro”. A colectânea é uma iniciativa cultural da Editora KULERA e visa analisar e selecionar textos que farão parte de um livro de contos e crónicas inspirados em Yasuke, o primeiro e único samurai negro de origem moçambicana, a ser lançado em formato físico e digital (e-book) no início do primeiro semestre de 2022.

De acordo com Emílio Cossa, organizador da obra, a ser concretizado, o projecto irá “Dar a conhecer ao público a sua existência e categorizá-lo como um dos primeiros heróis moçambicanos. Irá, igualmente, promover a cultura do gênero literário Ficção Histórica, ou seja, história criada no passado, que incorpora características verdadeiras do período, incluindo personagens ou eventos ficcionais, um género literário com muito potencial mas um muito pouco explorado no corpus literário moçambicano”.

Yasuke era um guerreiro que alcançou o posto de samurai sob o domínio de Oda Nobunaga – um poderoso senhor feudal japonês do século 16 que ficou conhecido como o primeiro dos três unificadores do Japão. De acordo com a Histoire Ecclesiastique Des Isles Et Royaumes Du Japon, escrito por François Solier da Sociedade de Jesus em 1627, Yasuke era um muçulmano nascido em Moçambique.

A nível global, Yasuke já foi pretexto para livros, filmes, videojogos, revistas de banda desenhada e outras manifestações artísticas. Destas, amais recente e provavelmente a mais mediatizada, é a série de animação “Yasuke”, lancada pela Netflix em Maio de 2021. Nesta, o lendário guerreiro é retratado como um barqueiro responsável por proteger uma menina com poderes especiais.

Moçambique, ainda que de forma tímida, não ficou alheio a estas acções. Com efeito, Yasuke serviu como inspiração criativa no lançamento da 5ª Geração da Mitsubishi L200, sendo referenciado como “Samurai Africano”, tendo sido lançado em novembro de 2016 um modelo exclusivo com o nome L200 YASUKE em sua homenagem. Nas artes plásticas, Matine João, jovem conceituado artista moçambicano, pintou em aguarela sobre papel gravuras sobre a vida de Yasuke, tendo estas sido doadas ao acervo do Museu de História Natural de Maputo com o apoio do Grupo João Ferreira dos Santos num série de acções que promovem o resgate do Samurai Africano. Na música, em 6 de setembro de 2020, o rapper Jay Arghh, membro do colectivo New Joint, lançou o álbum musical intitulado “Yasuke EP”, composto por oito (8) faixas do género Hip Hop/RnB, visivelmente inspirado em Yasuke, cuja ilustração aprece na capa do trabalho discográfico.

No que à literatura diz respeito, segundo a imprensa moçambicana, Yasuke serviu de inspiração para um livro que estava a ser desenvolvido pelo escritor moçambicano Calane da Silva, falecido em 29 de janeiro de 2021, sem que a referida obra tenha sido lançada.

O regulamentopara a Antologia “CRÓNICAS DE YASUKE: O Primeiro Samurai Negro” encontra-se disponível na Internet e pode ser consultado nas redes sociais e do site da Editora Kulera, em www.editorakulera.com.