Opiniões

Resenha do Livro Espíritos Quânticos – Uma jornada por histórias de África em Ficção Especulativa

O livro, Espíritos Quânticos – Uma jornada por entre histórias de África em Ficção Especulativa, é organizado pela romancista moçambicana Virgília Ferrão. Esse projeto editorial cumpre, com proeza e diversidade, alguns dos objetivos do blog Diário de Uma Qawwi: promover histórias de ficção especulativa em língua portuguesa, por autores africanos, e incentivar a publicação de novos e novas autores e autoras.

Virgília Ferrão é natural de Maputo, Moçambique. É graduada em Direito, pelo Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM). Atualmente, trabalha para a TotalEnergies EP Mozambique Area 1, como consultora jurídica. É administradora do blog Diário de uma Qawwi. Em 2005, publicou a sua primeira obra literária O Romeu é Xingondo e a Julieta Machangane, através da Imprensa Universitária da Universidade Eduardo Mondlane. A sua segunda obra, O Inspector de Xindzimila, foi publicada em 2016, pela editora brasileira Selo Jovem. Recebeu o “Prêmio Literário 10 de Novembro”, em 2019, concedido pelo Conselho Municipal de Maputo, tendo sido a primeira mulher a vencer este prêmio. Em breve, lançará o romance Os Nossos Feitiços, pelo Selo Katuka Edições, do Brasil.

Os 32 textos, que compõem Espíritos Quânticos, foram selecionados, neste ano, através de um edital de chamada pública, bem como de um convite dirigido a alguns autores. Participam dessa antologia: Adelino Luís, Agnaldo Bata, Álvaro Taruma, Andreia da Silva, Bento Baloi, Came, Dalêncio Benjamin, Daniel da Costa, Jeconias Mocumbe, João Baptista Caetano Gomes, Jorge Ferrão, José Luís Mendonça, Lex Mucache, Léo Cote, Luís Eusébio, Marcelo Panguana, Marvin Muhoro, Mateus Licusse, Mélio Tinga, Mia Couto, Nick Wood, Oghenechovwe Donald Ekpeki, Ortega Teixeira, Ossulo Wripa, Shadreck Chikoti, Sonia Jona, Suleiman Cassamo, Teresa Taímo, Vera Duarte, Virgília Ferrão e Zukiswa Wanner. Esses e essas contistas forjam invenções de histórias de Áfricas pelo viés da ficção especulativa.

Múltiplas vozes narram, dentre outras temáticas, sobre o sobrenatural, a feitiçaria, legados e patrimônio culturais africanos, o invisível, a ocidentalização de práticas culturais, consideradas tradicionais africanas, o mundo encantado, o mistério, a possessão, o curandeirismo, a premonição, os espíritos de ancestrais, mitos e ritos africanos, como é inerente às narrativas denominadas pelo ocidente como especulativas. Assim, os contos transitam entre a ficção científica, as ficções utópicas e distópicas, até o afrofuturismo.

O inusitado e o quase inexplicável desfilam como chaves discursivas e elementos fundantes e argumentativos das narrativas. A fantasia e a imaginação, neste interim, entrecruzam-se, por vezes, com o estranhamento aparente e as vivências do “desconhecido” dos (das) narradores (as), quiçá, dos (das) autores (as) de Espíritos Quânticos, pondo em relevância uma possível diluição das fronteiras entre o ficcional e o real. Em seus contos, o natural e o sobrenatural, os mundos visível e invisível aparecem, pois, sem dicotomias e entrecruzados.

A ficção especulativa, comumente, evidencia olhares criativos e indagativos sobre passados históricos, eventos do tempo presente e ou “viagens” e narrativas futuristas, tensionando mundos, nem sempre visíveis, mas todos sempre inventados, e “experiências” que se distanciam, normalmente, das convenções sociais e de diversas “ditas realidades”. Nas narrativas da coletânea Espíritos Quânticos, entretanto, diferentemente da via ocidental, os tempos se interseccionam e os mundos visíveis e invisíveis coexistem, como é inerente à existência humana na África. Os contos, desse modo, se apresentam como possibilidades de se nutrir e, ao mesmo tempo, (re)criar, (re)significar, ficcionalmente, o vivido e o desejado e (re)desenhar perspectivas envoltas às várias temporalidades e espacialidades africanas. Não tão somente o passado ou o futuro compõem e interessam às narrativas; ao contrário, o presente, passado e futuro se amalgamam e decorrem, com circularidade, em imaginários, mitologias, cosmogonias, territórios e práticas culturais africanas, diminuindo (ou até desconsiderando), por exemplo, as vertentes do horror e do fantástico, normalmente, imputados pelo ocidente às literaturas fantástica e científica.

A leitura de Espíritos Quânticos, neste tocante, permite transitar entre histórias que aconteceram (ou não) na África e, mais ainda, poderiam acontecer, esmiuçando os limites entre o possível e o impossível, ou seja, realidades distópicas podem ser experimentadas e ou narradas. Outrossim, os textos da coletânea apresentam narrativas instigantes sobre as vicissitudes que permeiam a existência, mas também sobre fenômenos, eventos e dinamicidades culturais que povoam e surpreendem o cotidiano em territórios africanos.

Espíritos Quânticos é uma relevante travessia ficcional para desvendar mundos, figuras, tempos, lugares e histórias da África. Indico a sua leitura porque, provavelmente, propiciará o conhecimento de eventos históricos e do presente e traços culturais africanos. Além disso, ler as suas narrativas, certamente, oportunizará reflexões sobre singularidades de seus signos linguísticos, culturais e sagrados e, indubitavelmente, favorecerá o importante exercício de (re) intepretação de seus sentidos e significados.

Salvador-BA, Brasil, 24 de novembro de 2021.

Ana Rita Santiago

Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

e da Universidade do Estado da Bahia.

Coordenadora Editorial do Selo Katuka Edições.

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