“Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”
Opinião:
Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.
Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.
Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.
Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).
Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.
No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.
“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”
Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.
Dentre as artes que possam existir, e dentre as que são mais populares, a cinematográfica tem a fama de ser a que menos deixa interrogações quando terminada. E, isso não é algo que se deva denotar inferioridade, pois há fusão de muitos elementos que deixa claro do que se trata; entre as falas, os personagens, o tempo e espaço, o ambiente etc. Todos os elementos funcionam como pontos em que se costura uma intersecção para a ver o tema em questão. Porém, Ivo Mabjaia, director cinematográfico, em “O Preto” leva um sentido contrário, prepara a curta-metragem como se de uma peça teatral se tratasse. Nessa curta-metragem, “O Preto” de doze minutos, Ivo Mabjaia provoca mais dúvidas do que afirmações. No final, o terreno no qual se pisa é movediço, e ninguém está realmente firme. Na curta-metragem aparecem pessoas dormindo no chão, num corredor estreito, e no canto do corredor há três pessoas sentadas, olhando os estatelados. Esta é a primeira divisão. Há os que dormem e os que controlam os que dormem. Os que dormem estão trajados casualmente, e os três sentados estão trajados formalmente. Entre estes, os que controlam os que dormem, levanta um e vai roubar pertences dos que dormem. Dentre os últimos, acorda um personagem e grita a muyivi ‘ladrão’, mas é-lhe dado um par de sapatos e cala-se. O caricato dá-se nesse momento: alguém grita, mas ninguém desperta e depois, corrompido, cala-se e volta a dormir. No fim é que todos os três trajados à formal levantam-se e roubam pertences, mas no final, quando os que dormiam acordam e começa a matança. A curta-metragem termina com pessoas sem pertences e peladas.
Mesmo depois da sinopse as dúvidas mantêm-se. De que a obra nos fala? Uma questão difícil. O título “O Preto” não é um ponto firme em que se pode parar para observar tudo calmamente. Talvez seja o comportamento do “preto” como povo, roubar e corromper, mas a corrupção é algo humano. Podemos usar, mesmo indevidamente, o que Rousseau disse sobre o homem ser bom naturalmente, mas o mundo é que o corrompe. Então, se é a corrupção o que é referido como “o preto”, há aqui algo por se endireitar no título, pois não concorre no conceitual a ideia de que o prego e refere a questões raciais.
Qual é a temática, no geral? O corredor estreito pode representar o caminho, talvez o processo. Pessoas estateladas representam mesmo pessoas que estão dormentes e, possivelmente, não têm noção da sua própria condição e de onde se encontram. As três pessoas sentadas podem representar o muro que impede a progressão normal e natural das pessoas no processo. Na verdade representam a estrutura no poder, e isso é reforçado pela forma em que estão trajados. Em algum momento do filme alguém dos três que representam o poder levanta, espalha o spray no ar, fazendo com que os dormentes acordassem e batessem as palmas. O spray é espalhado novamente e as pessoas voltam a dormir. Aqui há uma forte metáfora daquilo que controla as massas, talvez as “mentiras da verdade” constatadas por Azagaia, as quais os fazem pensar que sabem, mas não sabem. Traz-se a ilusão de que estão despertos, mas o mesmo spray que lhes desperta é o mesmo que lhes torna a dormir. O que pode fazer as pessoas pensarem que estão acordadas, mas em contrapartida, lhes tornar a dormir, colocá-las inconscientes? A média.
“O Preto”, de Ivo Mabjaia é sobre o sistema que entulha todos num único caminho, num único labirinto, que não lhes dá saída porque há obstáculos, pedras grandes, intransponíveis. Numa das paredes há um cartaz referente a álcool em gel, que nos remete à pandemia de COVID 19, o que pode ser interpretado como o estado do sistema — nesse caso, um sistema doente -que rouba das pessoas tudo o que tem de mais precioso e ficam nus, sem dignidade nenhuma. Isso é o que o filme de Ivo Mabjaia retrata no fundo: um sistema decadente, no qual nem os que despertam de vez em quando conseguem fazer algo. O primeiro tem vertigens, o segundo grita a muyivi, mas é corrompido e consente a exploração dos seus, e já quando todos tentam despertar e levantarem-se são mortos.
Ademais, Ivo Mabjaia segue pelo sentido contrário, mas este faz uma curta-metragem sem discurso; a única vez em que um personagem fala é quando grita a muyivi e, depois disso, não há mais nada. Silêncio. Como se o sistema fosse algo que opera num modo sorrateiro, sem movimentações bruscas e, por isso, não sentimos que andamos todos dentro desse sistema. Esse silenciamento das falas é um dado curioso porque, se por lado é um elemento fundamental de uma narrativa, por outro lado esse silenciamento cria suspenses e interrogações. Contudo, faz com que os personagens não sejam bem desenvolvidos. O discurso também ajuda nessa caracterização dos personagens. E isso traz um outro ponto: uma curta-metragem sem protagonista. Arrisco a dizer que o protagonista do filme é mesmo o sistema. As tensões, o suspense, o drama, a acção (esta que é quase inexistente) ficou ao encargo, na maior parte das vezes, da trilha sonora, que muda o ritmo da curta-metragem, ora um som como se fosse batimento cardíaco, ora um som mais brando, ora mais acelerado.
“O Preto”, de Ivo Mabjaia é uma curta-metragem difícil de sorver pela sua densidade e impenetrabilidade, mas traz uma reflexão profunda sobre o estado do sistema, as relações de poder, e a condição das massas que são controladas como se fossem “corpos dóceis” constatados por Foucault e são tirados tudo até a dignidade pelo lado que detém o poder no sistema. Essa reflexão também é reforçada pela fotografia. O preto e branco que aqui, diferente de “Nhinguitimo”, não remete ao passado, mas tem a função de proporcionar a falta de vida, de movimento, e propiciar a reflexão sobre o sistema.
Moro numa pequena localidade em Londres, chamada Woodstreet. É daquelas ruas discretas, quase tímidas, que se escondem no ritmo apressado da cidade. Mas, como todas as esquinas antigas de Londres, guarda as suas próprias histórias — aquelas que não vêm nos guias turísticos.
Numa dessas esquinas havia uma funerária muito antiga, com com o nome Ashworth & Co. gravado em letras sóbrias sobre a fachada escura. Fundada em 1888, resistiu a guerras, crises económicas, mudanças culturais. Sobreviveu a tudo, menos a um gesto de desespero.
A montra era singela, com espaço apenas para um único caixão. O mesmo caixão, todos os dias. E o dono — um senhor já idoso — também o mesmo, sempre lá, pontualmente às sete da manhã, sentado atrás do vidro, como se fizesse parte da montra. Presença constante, quase fantasmagórica, mas estranhamente reconfortante.
Até que um dia a loja fechou.
Soube-se depois que um homem, em aflição, precisou dos serviços da funerária, mas não tinha meios para pagar. Perdera alguém querido. E, ao não encontrar acolhimento, nem alternativa, cedeu à dor. Numa madrugada, destruiu a montra da loja. Desde então, o caixão desapareceu, a cadeira ficou vazia, e Ashworth & Co., um negócio com mais de 135 anos, nunca mais reabriu..
Valeu a pena? Valeu a pena perder um legado centenário por causa de um impasse humano? E, qual é o papel do Estado nestas situações? Como é possível alguém não ter acesso digno a um enterro? Onde está a rede de apoio? Onde termina a responsabilidade individual e começa a responsabilidade colectiva?
É curioso — e profundamente simbólico — que uma loja que vendia caixões tenha ido à falência por causa de um único morto desconhecido. Um só morto bastou para sepultar toda a história daquele lugar. Trágico. Poético. Real.
E se o dono tivesse estendido a mão? E se aquele homem tivesse família? Apoio? Comunidade? Tantas possibilidades que talvez evitassem o fim.
Foi então, pois, que me surgiram perguntas, as quais agora partilho:
Qual é o verdadeiro sentido da vida? Qual é o sentido da família? Qual é o valor da entreajuda entre seres humanos? Por que não criamos um mundo melhor?
Vivemos cercados de distrações e silêncios. Mas, talvez tudo o que alguém precise seja de uma pergunta sincera: “Estás bem? Precisas de alguma coisa?”
Talvez essa seja a chave. Talvez esta história — pequena, escondida numa esquina de Londres — valha mais do que parece. Talvez lembre-nos que, no fim de contas, o que estamos mesmo aqui a fazer… é cuidar uns dos outros.
Sobre Roberto Júnior:
Roberto Júnior nasceu no Chokwé , em Moçambique, e cresceu numa pequena aldeia chamada Lionde. Foi numa das suas idas a Maputo, ainda em criança, que viu pela primeira vez edifícios altos, imponentes, tendo ficado fascinado. Aos 16 anos, mudou-se para Maputo e, pouco tempo depois, foi viver para Lisboa com o seu tio Bonifácio — um médico de grande coração e visão. Foi ele quem impulsionou a sua mudança para Londres, onde reside atualmente. Roberto estudou hotelaria e trabalhou mais de vinte anos em hotéis.
Com o tempo, e com a chegada da família, a necessidade de estabilidade levou-o a perseguir um segundo sonho de infância: trabalhar num banco.
Hoje, trabalha num banco há sete anos onde exerce a função de Workplace Experience Lead, liderando equipas.
Tem 43 anos e é pai de dois filhos que são o centro da sua vida.
Nos seus tempos livres, gosta de escrever, quando pode, e de cozinhar aos fins de semana. Escreve sobre as suas vivências, sobre o que vê, sobre o que sente e o sobre que aprende.
Olhando para o ano transacto na arena musical, e procurando aquilo que poderia ter sido a criação musical que teve mais aceitação pelo público, lembramo-nos da composição pop que exibe o título sugestivo e provocativo “Rivais”, do cantor Twenty Fingers. A aceitação do público pode ter dois viesses. Numa sociedade com gostos primitivos no que toca a apreciação e a degustação das artes, a qual está propensa e tende a compartilhar para ridicularizar, é uma tarefa para os próprios artistas pensarem a sua condição de sucesso e fama, pois pode ser uma aceitação pela negativa. A aceitação de Twenty Fingers como artista é o reflexo da sua qualidade artística, apesar de ser um artista pop fazendo arte pop e que, como muitos artistasdesse ramo, cria para agradar o público. Nesse tipo de sociedade dos streamings a qualidade da obra é, às vezes, confundida com o número de likes, streamings e compartilhas (shares) que a mesma arte terá em relação a própria arte. Se Dionísio Bahule questionou sobre a redefinição da arte quando disse que havia certos movimentos artísticos os quais transformam qualquer coisa humana em arte só porque está exposta num determinado lugar, ou seja, tudo o que é exposto numa galeria X, apesar de ser apenas uma colher, é arte só porque foi exposto ali – então também posso afirmar que na era digital e tecnológica tudo pode ter selo de qualidade artística se obtiver mais gostos, streamings, e compartilhas.
“Rivais” é uma composição musical que retrata uma mulher que convida as amantes do seu marido para um dedo de conversa pacífico e aconselhador; exemplo da passagem em que o eu lírico enuncia “Só te vou dizer que ele não te vai cuidar bem” (Rivais, Twenty Fingers, Mp4). E anterior a essa questão em particular da rivalidade aceite, surge a constatação da arte musical moçambicana. Por muito tempo os artistas limitaram-se em escrever sobre amor, relacionamento, casamento, traição e tudo o que advém desse âmbito. É muito amor que se canta e se escreve para uma sociedade que, pelos vistos, desistiu do amor e do romance. Ligando esse ponto e a temática da composição trazida por Twenty fingers surge a constatação sociológica de Zygmunt Bauman sobre modernidade líquida, amor líquido e relacionamentos líquidos. No livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Ed., 2004, trad.), Bauman refere que a modernidade troca a ideia de relacionamento por rede, pois enquanto um significa durabilidade o outro é flexível. “Ele [a conectividade/desconectividade trazida pelo conceito de rede] promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (Ibidem). Em poucas palavras, a concepção rede traz a ideia de que pode ser conectado e desconectado, ligado e desligado, basta que o desejo comece e/ou acabe.
Provavelmente é essa a base teórica com a qual se pode analisar a sociologia dessa música. A questão, aqui, não é a moralidade conceitual da composição, onde iremos analisar sobre o bem e o mal da proposta para a sociedade, mas um veículo para ver o comportamento da mesma. Nesse caso, partindo da música “Rivais” e aliando a constatação de Bauman, a nossa sociedade vive em tempos líquidos, onde relacionamentos não duram como antes. E isso tem levantado debates. Nesses tempos, há incerteza sobre relacionamentos e medo, mas, mesmo assim, as pessoas não resistem e não desistem ao todo de entrar num, o que desemboca nesse meio-termo: um relacionamento líquido com slogans populares como “o que ninguém sabe ninguém estraga”, “solteira sim, mas sozinha nunca”, e mais. Nesses relacionamentos, é tão fácil entrar e sair num tanto quanto é fácil conectar e desconectar-se de uma rede qualquer (imagine wi-fi sem senha).
Contudo, Bauman apenas explica a flexibilidade dos relacionamentos e o quão são superficiais, onde ninguém mais entra num relacionamento por completo; “é só carne e não coração”, mas não toca nessa questão central da música “Rivais”. O autor afirma que as pessoas entram numa rede, perdem o tesão e saem da mesma correndo para uma outra, e a permanência em uma mas, ao mesmo tempo, procurando outras para o mesmo objectivo- penso eu…
Essa, por sua vez, é uma questão respondida por Luís Batalha nos seus estudos antropológicos sobre o matrimónio na era moderna. Para este, “nas sociedades tradicionais monogâmicas sempre existiu uma poligamia informal não institucionalizada por detrás de uma fachada social monogâmica” (pag. 125). Se nas sociedades onde a monogamia é muito mais cultural, tradicional e institucionalmente antiga, o que falar das sociedades africanas actuais, confusas ao nível cultural e tradicional quanto a tudo e, em especial, ao casamento? Em Moçambique, por exemplo, a institucionalização da monogamia não é antiga e culturalmente somos polígamos. Na união dessas duas realidades antagónicas só pode haver essa disparidade e caos, onde se renega a poligamia, mas pratica-se de maneira informal. E, é nesse prisma epistemológico e cultural em que toda a música se insere: num contexto onde a poligamia não é aceita a céu aberto, mas bem no fundo de todos aceita-se. A aceitação dessa poligamia verifica-se quando o eu lírico, uma das mulheres do homem com várias mulheres ocultas, convida as suas rivais para um bate-papo sem confusão, mas com aconselhamentos. Das nove mulheres, nenhuma parece estar apta a abrir mão do homem, todas aceitam essa realidade.
A poligamia parece ser um facto. Além dessa forma informal de poligamia, que é a forma que mais perto está da poligamia formal, há a poligamia em série (Batalha, 2004:134), onde pessoas se casam sucessivamente durante a vida toda. Casam com um, separam-se, tem um outro relacionamento, voltam a se casar e assim anda. Ou pode acontecer que namoram esse, noutro tempo namoram aquele, e depois disso namoram um terceiro. Nesse caso, rodam namorados/parceiros durante a vida toda estando naquilo que apelido de poligamia rotativa, esse que muitos moçambicanos estão inseridos nele. Esse é o espelho que a música nos traz. Uma sociedade líquida, principalmente nas cidades, em que, por um lado, a incerteza e insegurança nos relacionamentos resulta em negação de relacionamentos profundos e duradouros e, por outro lado, revela-nos uma sociedade que nega a poligamia a céu aberto, mas aceita-a na informalidade.
“Womelo é um país mergulhado no caos. Uma onda de raptos assola a elite sob os olhos impávidos de uma autoridade que parece não saber por onde começar a combater esse mal. Todos os dias ouve-se que em algum ponto de Womelo alguém foi raptado e nos jornais a canção da polícia parece um disco arranhado, repetindo o mesmo ponto: “estamos a trabalhar no assunto”. Nesse caos, surge como que uma providência divina um herói que parece adivinhar onde e quando irão acontecer os raptos. Esse herói, munido de um senso de justiça vindo de um mundo cinematográfico, extermina de forma brutal, macabra e grotesca todos os raptores e sai de cena como se nunca tivesse estado lá.
A polícia que devia ser apoiada por esse ser que divide opiniões na comunidade, inicia uma caça desenfreada para encontrar o herói anónimo. Ta centro vê-se preenchido por Catamo, um psicólogo clínico que ousou publicar algumas linhas sobre o herói nas suas redes sociais, tornando-o o principal suspeito.”
Opinião
Faz muito tempo que andava ansiosa para ler Zaiby Manasse, que assina nas redes sociais como Aladino O Diferente. Com três romances e dois livros de poesia publicados, Zaiby Manasse é conhecido não apenas pelos livros que escreve, mas também pela partilha das suas opiniões sobre os livros que lê. Para quem segue as opiniões deste autor, a curiosidade em conhecer o seu trabalho é naturalmente premente, pelo que, não fugi à excepção, e sem saber exactamente o que esperar, pude finalmente embarcar em “O Herói Que Não Existe”.
Que viagem!
A narrativa policial apresentada nesta obra segue Catamo, um jovem que luta para encontrar emprego na sua cidade, na área da saúde. A vida de Catamo sofre uma reviravolta quando ele testemunha uma tentativa de rapto de uma criança, rapto este que é travado por uma figura misteriosa. Não vou detalhar o resto da história, até porque a sinopse é suficientemente esclarecedora, mas digamos que as reviravoltas e o suspense desenvolvidos no enredo conseguem manter o leitor agarrado às páginas até o fim, e talvez poucos consigam prever o que de facto está em causa no enredo.
Um dos aspectos que achei mais marcantes no livro é a ambientação. Zaiby Manasse decidiu criar uma cidade e país fictícios, trazendo várias alegorias e anagramas, mas qualquer pessoa familiarizada com contextos debruçados na corrupção, o crime organizado e as desigualdades, facilmente reconhecerá os comentários sociais descritos na obra.
Confesso que a ideia do autor lembrou-me a abordagem de algumas obras cinematográficas, incluindo o filme “Identidade (2003)”, um dos meus filmes favoritos, baseado num dos romances mais importantes de Agatha Christie, “E não sobrou ninguém”. Enquanto a grande mestre do romance policial entrega uma resposta intricada quanto à “identidade do assassino”, vamos assim dizer, Zaiby segue um caminho diferente, com uma reposta de execução mais fácil, mas mesmo assim, capaz de fazer o leitor questionar constantemente aquilo que está a ler e surprender-se. Trata-se certamente de um narrador bastante competente para a tarefa a que se propôs. Recomendo vivamente a leitura!
Sobre o autor
“Zaiby Husay Gulamo Manasse (1989) também conhecido por Aladino o Diferente, é natural de Maputo. Escreve poesia e prosa. É licenciado em medicina geral pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio e trabalha como médico. Publicou dois livros de poesia, nomeadamente: “O mel do meu passado presente”, e “Devaneios ensanguentados pela globalização”; e dois romances “A caneta do balcão 1” e “o entroncamento”.
Elenco: Demi Moore; Margaret Qualley; Dennis Quaid
Ano: 2024
“A beleza é um enigma que não pode ser totalmente desvendado.”
Umberto Eco
Coralie Fargeat, cineasta francesa, depois da sua realização de estreia, “Vingança” (2017), retorna com “A Substância” (2024), sua segunda realização que, mantendo a mesma postura feminista, desafia as indústrias e os seus consumidores. A ideia de um corpo perfeito e mais jovem a cada medida que a idade avança, tem sido desde a era dos sex symbols de Hollywood, uma tendência com que as indústrias cinematográficas e cosméticas propõem os seus padrões de beleza. O filme “A Substância” retrata de forma surrealista a busca insaciável pela perfeição no universo das celebridades. A obra é marcada por uma abordagem visceral e perturbadora das tendências humanas, mergulhando no desespero da protagonista Elizabeth Sparkle, que vê sua carreira de ginasta de televisão a terminar por conta da idade e, em última instância, busca rejuvenescer a qualquer custo. A fragilidade da identidade, o desejo de permanecer relevante no olhar público, levam Elizabeth a fazer escolhas desesperadas e, por fim, trágicas.
A trama faz intervenções extremas na medida que constrói um retrato distorcido da obsessão pela perfeição física e pela manutenção da beleza, criticando a superficialidade da fama e a pressão que as celebridades enfrentam para se manterem “relevantes” às audiências. A proposta é clara: Fargeat utiliza o body horror para expor a efemeridade da beleza da mulher, sua fragilidade e a inquietante transformação do corpo em algo cada vez menos atraente.
Elizabeth Sparkle (interpretada por Demi Moore), inicialmente famosa e admirada, simboliza as protagonistas de muitas histórias de Hollywood que, com o passar do tempo, tornaram-se invisíveis e solitárias aos olhos do público. A decadência da fama e a tentativa de ressurgir com uma aparência renovada, ainda que artificial, tornam-se os motores da trama. Aqui, o desejo de Elizabeth pela reconquista de sua beleza é um reflexo da sociedade que valoriza a imagem e o eterno culto à juventude. Fargeat apresenta o processo de transformação de Elizabeth em “Sue” (interpretada por Margaret Qualley), como uma série de escolhas perigosas, das quais ela não pode mais escapar. As intervenções que ela faz em seu corpo não são apenas físicas, mas também psicológicas, já que ela passa a se ver como um produto que precisa ser constantemente aprimorado.
Ao longo da trama, o corpo de Elizabeth, agora transformada em “Sue”, torna-se num território de constante metamorfose, onde o body horror é explorado de maneira crua e gráfica. As cenas que retratam as transformações corporais não são apenas viscerais, mas também metafóricas, explorando o impacto psicológico que a obsessão pela aparência pode ter sobre a identidade de um ser humano. O corpo de Elizabeth fragmenta-se, desintegra-se e, em muitos momentos, degenera-se de maneira grotesca. Através dessa perspectiva, Fargeat apropria-se de um dos principais elementos do género body horror: o corpo que se transforma de maneira incontrolável, sugerindo o desespero e a perda de controle.
O filme não poupa o espectador de imagens desconfortáveis, mas faz isso com um propósito claro: mostrar que o corpo, quando manipulado de maneira excessiva e irresponsável, pode-se tornar um campo de guerra contra si mesmo. A transformação física de Elizabeth em “Sue” intensifica-se à medida que ela se aproxima de seu ponto de não retorno, criando um paralelo com a perda de controle sobre sua própria identidade e a pressão constante de ser perfeita. Cada intervenção que ela faz em seu corpo é uma tentativa de se manter visível e jovem, mas também é uma metáfora para o quanto ela perde da sua humanidade nesse processo. A desumanização é clara; especialmente quando se observa que “Sue” se torna numa fachada de si mesma, uma construção superficial e fragmentada.
A Substância vai além do género de terror físico para se tornar numa reflexão crítica sobre a sociedade contemporânea, onde a juventude e a aparência são frequentemente colocadas como as únicas qualidades que definem o valor de uma pessoa. O filme coloca em questão até onde uma pessoa está disposta a ir para manter-se no topo, e como isso pode ser prejudicial para a saúde física, mental e emocional.
Coralie Fargeat, que também é responsável pelo roteiro, é hábil ao combinar as convenções do body horror com uma crítica social bem articulada. O filme é visualmente impactante, com uma direcção que faz uso de uma estética limpa, mas que vai se tornando cada vez mais desconfortável à medida que a história avança. O uso da luz e da câmera contribui para uma atmosfera de crescente claustrofobia, onde o corpo de Elizabeth não é mais apenas uma prisão física, mas também mental. O ritmo do filme é imersivo, e a trama é conduzida de forma a deixar o espectador com uma sensação de desconforto e reflexão, sem perder a tensão que o género exige.
A lot of times, when people say hip-hop, they don’t know what they’re talking about. They just think of the rappers. When you talk about hip-hop, you’re talking about the whole culture and movement. You have to take the whole culture for what it is.
Afrika Bambaataa
Com o lançamento surpresa de “GNX”, Kendrick Lamar abala a comunidade Hip-Hop com uma abordagem mais clara e simples. É o seu projecto mais objectivo em comparação aos seus álbuns anteriores. Conhecido por suas explorações complexas de temas sociais e culturais, Kendrick presta, desta vez, tributo ao estilo hip-hop da Costa Oeste, homenageando suas raízes musicais e culturais. Ao invés de suas narrativas densas e intrincadas, Kendrick apresenta uma proposta de exaltação e celebração da cultura na periferia californiana, destacando as sonoridades clássicas e as rivalidades regionais de forma mais acessível e informativa.
Comecemos pelo título: “GNX” é um acrónimo de ”Grand National Experimental”, um modelo de carro da marca “Buick”, aderido ao fim de uma turnê, sendo este o mesmo modelo de carro que seu pai Kenneth viria a transportar o futuro rapper a saída do hospital após o seu nascimento.
Logo na faixa de abertura de “Wacced out Murals”, Kendrick estabelece o tom do álbum com uma batida minimalista sustentada por um fragmentado discurso melódico em espanhol, cantado pela mexicana Deyra Barrera, que se vai completando ao longo do projecto:Siento aquí tu presencia/ La noche de anoche/Y nos ponemos a llorar… ‘Sinto sua presença aqui/A noite passada/E nós começamos a chorar…’ Isto, lembrando a famosa declamação fragmentada do poema “Another Nigga”, que se ia completando ao longo do seu terceiro álbum “To Pimp a Butterfly” (2015). O som é pesado, sem pretensões de sofisticação excessiva, sem um contraste deliberado e muito menos complexamente narrativo como “To Pimp a Butterfly” ou “Good Kid, M.A.A.D. City”. A simplicidade das batidas e o uso de estilos vocálicos característicos do gangster rap da Califórnia fazem com que o ouvinte se sinta imediatamente transportado para as ruas de Los Angeles e seus bairros, onde a violência e a rivalidade de gangues coexistem com um senso de comunidade, pertencimento e estilo de vida.
Essa abordagem minimalista é consistentemente explorada ao longo do álbum. Faixas como “Squabble Up”, “Hey Now” e “Peekaboo”aprofundam a imersão na realidade das ruas com Kendrick, abordando questões como lealdade, a luta pelo respeito e as tensões entre as diferentes facções, mas honrando a cultura da Costa Oeste. As letras são directas, sem perder a força emocional, e as produções ressoam com uma autenticidade que reverbera o legado de figuras como Snoop Dogg e Tupac Shakur, mas com uma sensibilidade mais contemporânea.
Com “GNX”, Kendrick Lamar se reafirma como um defensor do legado musical que ajudou a definir o hip-hop nos anos 90, a era considera como Golden Age Hip-Hop ou Era de Ouro de hip-hop. A faixa “Reincarnated” é uma clara homenagem a essa tradição, utilizando uma batida pesada combinada com piano e um baixo marcante, reminiscente das produções de Johnny J, então produtor da canção controversa “Hit Em’ Up”, de Tupac Shakur. Em “Dodger Blue”e “Heart pt. 6”. As canções são uma verdadeira viagem pelas ruas de Los Angeles, com suas referências ao dia-a-dia da cidade e à cultura local, mas também um reflexo do espírito resiliente da Costa Oeste, onde a música se torna uma ferramenta para a sobrevivência e para a construção de identidade.
As faixas “Luther”e “Gloria’, outras das faixas de destaque, uma fusão perfeita entre a modernidade e a tradição do hip-hop da Costa Oeste. As batidas, com seus ritmos pulsantes, são ao mesmo tempo dançantes e introspectivas, e as letras celebram a resistência das comunidades ao som único da região. Kendrick usa a música como um veículo para contar histórias de superação, resistência e identidade, trazendo um senso de orgulho à cultura da Costa Oeste, mas sem ignorar suas complexidades e contradições.
Um dos aspectos mais notáveis de “GNX” é como Kendrick Lamar propõe a união entre gangues rivais, isso já ressoando desde “Good Kid M.A.A.D City”e “To Pimp a Butterfly”, que são os projectos que minimamente dialogam com “GNX”. Essa ideia se reflecte especialmente em “GNX”, a faixa homónima do álbum. O som é agressivo, com um ritmo pausado e versos que evocam um senso de luta colectiva. Em suma, Kendrick Lamar sugere que, em vez de continuar as disputas violentas, as gangues poderiam usar sua energia para construir algo maior, como uma rede de apoio mútuo e resistência contra as adversidades. O álbum transmite tanto um desejo de união na medida em que dá crédito a relevância dos dois lados, propondo uma reflexão mais ampla sobre como as ruas da Califórnia podem unir-se em torno da música, cultura e comunidade.
Com “GNX”, Kendrick Lamar reafirma o Gangster Rap da Costa Oeste. As faixas como exploram uma realidade e uma visão de união usando a música como ponto de convergência. Kendrick, com seu talento único, consegue equilibrar a celebração da cultura hip-hop da Califórnia com uma mensagem poderosa de resistência e solidariedade.
Ao escolher esse caminho, Kendrick não apenas homenageia o legado da Costa Oeste, mas também solidifica a sua relevância dentro dessa tradição, contribuindo para um novo capítulo na história do hip-hop. “GNX” é um álbum que não só reafirma a importância de Kendrick Lamar no cenário musical, mas também propõe um diálogo urgente sobre união, identidade e transformação social, utilizando a música como um veículo para a mudança.
Tenho tentando explorar mais o mercado cinematográfico fora dos Estados Unidos que de uns tempos para cá nos brinda com a mesmisse como se não existissem mais ideias. Foi nessa senda que me deparei com esta produção mexicana dirigida por Rodrigo Prieto, adaptando de forma directa o livro homônimo escrito por Juan Rulfo e lançado originalmente em 1955 com o mesmo título do filme, Pedro Páramo.
A trama se passa na cidade de Comala, no estado de Colima. A época não é explicitada precisamente, mas há indicações de ser contemporânea à Revolução Mexicana e à Guerra Cristera (informação tirada no Google). A história é narrada em uma mistura de primeira e terceira pessoas, com alternância dos personagens na voz da primeira pessoa o que faz o filme ficar um pouco confuso, mas a medida que avança vai explicando alguns acontecimentos já vistos. O filme vai e volta, dentro do passado vai ao futuro desse passado e também, muitas vezes, volta para o passado desse passado para explicar algum personagem ou um determinado acto do filme do tempo em questão. O carácter de Pedro Páramo, figura central do filme, é deslindado pouco a pouco por meio desses discursos múltiplos, fragmentados, desordenados e muitas vezes contraditórios. É estranho que essa contradição vai prendendo (a mim prendeu, como se estivesse a ser sugado por uma espiral). O filme começa com Juan Preciado, que após a morte da mãe, volta à cidade de Comala para procurar o pai, Pedro Páramo. Logo que chega, fica a saber que este já havia morrido há anos. Em Comala entra em contacto com diversos moradores, todos, de alguma forma, ligados ao falecido pai. Aos poucos, pequenas contradições e absurdos vão-se sucedeendo: ouvem-se fantasmas, borram-se os limites entre o real e o sobrenatural, sono e vigília, passado e presente, até que se entende que todos, inclusive os diversos narradores, que se alternam, estão mortos. Apesar de não estarem conscientes do seu próprio estado, os habitantes do lugar percebem que os demais estão mortos.
Ao ver o filme pensei no livro de Gabriel Garcia Marques, 100 anos de solidão que dás cinco vezes que li, não terminei devido a complexidade do mesmo que é para mim, causada pela densidade do livro. Penso eu, que se tivesse lido o livro Pedro Páramo teria tido a mesma dificuldade. Se um filme tende a diluir as coisas e este estava denso, não quero imaginar o livro. Sempre achei que o livro de Gabriel Garcia Marques daria um óptimo filme ou série. Recomendo o filme para aqueles que não têm preguiça de pensar e que gostam do género Realismo Mágico.
“All great music is in one way or another psychedelic.”
Genesis P-Orridge
O trio texano Khruangbin, formado por Laura Lee (baixo), Mark Speer (guitarra) e Donald “DJ” Johnson (bateria), tem-se destacado ao longo da última década por sua sonoridade única, que mescla influências de funk psicodélico, soul, música tailandesa, maliana, jazz e ritmos do Oriente Médio. A banda tem, de forma gradual, consolidado um estilo que mistura e reinventa fronteiras musicais, mantendo sempre um fluxo de experimentação. Com o lançamento de A La Sala (2024), Khruangbin se afasta, em parte, de seus lançamentos anteriores e adentra um novo território sonoro, que transita entre o groove e a introspecção, com uma estética que remete a fusão de uma ambiência visual nostálgica e de espaços abertos.
Em comparação com os trabalhos anteriores como “The Universe Smiles Upon You” (2015), “Con Todo El Mundo” (2018), “Mordechai”(2022) e “Ali”(2022), que se baseavam fortemente em influências psicodélicas e elementos de músicas do mundo, “A La Sala” apresenta uma sonoridade mais consistente e contemplativa. As composições no novo álbum tendem a ser mais introspectivas e sutis, sem perder o groove inconfundível que se tornou marca registada da banda. A transição para um som mais atmosférico e refinado não é uma ruptura, mas uma evolução natural do trabalho do grupo.
Uma das características mais evidentes neste álbum é a atmosfera espacial e etérea que predomina em várias faixas. A combinação da guitarra suave de Speer, com a linha de baixo pulsante de Laura Lee e a batida hipnótica de Donald Johnson cria paisagens sonoras que mais evocam uma sensação de deslocamento no espaço do que uma construção de uma narrativa linear. A música parece funcionar como uma espécie de espaço entre o real e o imaginário, com momentos de leveza e transcendência.
O álbum abre com a “Fifteen Fifty-Three”, que inicia com uma estrutura de groove suave e se dissolve em camadas sonoras vibrantes do baixo, bateria e guitarra, criando um clima que é, ao mesmo tempo, cativante e melancólico. A textura sonora da banda é mais refinada aqui, com o baixo pulsando de forma quase hipnótica, enquanto a guitarra de Speer desliza por linhas melódicas que lembram tanto o soul dos anos 70 quanto os sons experimentais da música global.
Em “May Ninth”, a fusão entre o psicodélico e o electrónico se torna ainda mais pronunciada, com a introdução de batidas minimalistas e um toque de jazz, enquanto a voz de Laura Lee, mesmo que presente de forma contida, adiciona uma certa sensualidade ao ambiente sonoro. Já em “Ada Jean”, o uso de percussões mais orgânicas e um trabalho de guitarra mais focado na repetição cria um loop quase hipnótico, que leva o ouvinte a um estado de imersão. A escolha de deixar a guitarra mais esparsa nas composições também permite que a instrumentação se sobressaia, o que dá uma sensação de espaço e liberdade.
“Farolim de Felgueiras”é outra peça-chave no álbum. Com uma pegada mais directa, a faixa é um jogo entre o groove e o minimalismo, algo que Khruangbin já havia explorado, mas aqui de forma mais subliminar. A faixa traz uma melodia etérea que poderia facilmente ser um tributo aos sons melancólicos latinos mas, ao mesmo tempo, é suficientemente original para não cair na simples repetição de estilos. A banda consegue equilibrar referências com inovação, criando algo familiar e ao mesmo tempo novo. “Pon Pón” mostra que o Khruangbin também é capaz de explorar sons mais bailados sem perder a característica de criar atmosferas envolventes. A faixa parece um interlúdio, sendo menos sobre o ritmo a ouvir e mais sobre a sensação que deixa no ouvinte a vontade de dançar. E depois volta-se ao ritmo relaxado e pausado com “Todavía Viva”, com a voz suave de Laura Lee melodicamente acompanhando as cordas da guitarra de Speer.
Uma das grandes virtudes do álbum “A La Sala” é justamente a sua habilidade de criar complexidade dentro da simplicidade. A banda continua a demonstrar um domínio impressionante do uso do espaço e da dinâmica musical. O modo como as texturas sonoras se intercalam ao longo do álbum oferece ao ouvinte uma experiência sensorial mais do que intelectual. Não é um álbum que exige grandes análises ou interpretações complexas, mas sim uma experiência que pode ser sentida e vivida. Em muitas faixas, há a sensação de que a música é mais um estado de espírito do que uma expressão convencional de composição.
Essa abordagem é evidente em faixas como “Luego y Nubes”, que utiliza uma percussão repetitiva e uma linha de baixo discreta para criar uma sensação de movimento lento e constante. A melodia da guitarra é sempre sutil, quase imperceptível, mas ao mesmo tempo essencial, contribuindo para a construção da atmosfera substancial do álbum. O minimalismo apresenta-se como uma escolha estética onde menos é mais, e a repetição torna-se uma ferramenta poderosa para criar um estado meditativo.
“A La Sala” não é apenas um passo à frente na carreira do Khruangbin; é uma reflexão sobre como a banda pode continuar a expandir suas influências enquanto mantém sua identidade intacta. Em vez de se basear em fusões óbvias e fórmulas repetitivas, o trio dedica-se a explorar novas formas de criar e compartilhar sua música. É um trabalho que ressoa com as qualidades imersivas que sempre foram a marca da banda, mas com uma ênfase maior no amadurecimento e na experimentação sonora. O álbum, por fim, confirma o lugar de Khruangbin no cenário musical contemporâneo, enquanto oferece aos fãs um convite para se perderem em suas paisagens sonoras.