Histórias, Reviravoltas do Universo

José Mãos Limpas, por Vera Duarte

Acto Primeiro

Giovana Martins tinha-se tornado, nos últimos tempos, na mais famosa cientista africana. Ela tinha feito o curso de Física Nuclear em Portugal no Instituto Superior Técnico de Lisboa e depois fora fazer um doutoramento nos Estados Unidos da América, em Silicon Valley, na Califórnia.
Desde pequena que ela amava as máquinas e tinha por elas uma infinita curiosidade. Muitas das bonecas e outras prendas que lhe ofereciam acabavam invariavelmente desmontadas e montadas por ela vezes sem conta. Contrariamente a muitas das suas colegas da escola primária e do liceu, que se sentiam à vontade nas disciplinas de línguas, história, filosofia e política, ela era boa em matemática, física e ciências naturais.
Os pais, que seguiam com muita atenção os cinco filhos, cedo viram que ela tinha algo de diferente em relação aos outros. Enquanto estes preferiam a algazarra das brincadeiras com os primos e amigos para ocupar os tempos livres, Giovana sempre preferira as brincadeiras mais “sentadas” como eles diziam, ou seja, os jogos de computadores, a desmontagem dos brinquedos seguido de sua montagem e os robôs, quaisquer que eles fossem. Assim, a robótica passou a ocupar um lugar cada vez mais importante e central na vida de Giovana. Após o curso e a pós-graduação nos Estados Unidos, e apesar dos convites que recebeu para lá ficar a trabalhar, regressou a Cabo Verde, já acompanhada de Francisco Almeida, com quem se tinha casado logo no segundo ano de formação em Silicon Valley. Ele também estava a fazer uma pós-graduação em Inovação Digital e era filho de um imigrante cabo-verdiano que há muitos anos se fixara em Boston e aí constituíra família com uma americana.
Os dois tinham-se sentido atraídos um pelo outro praticamente desde o momento em que foram apresentados, ainda no primeiro ano. Foram-se encontrando cada vez com mais frequência e rapidamente à empatia inicial sucedeu o amor. Entenderam que se deviam casar logo e assim se apoiarem mutuamente.
Francisco acompanhou Giovana para Cabo Verde e durante alguns anos deram aulas no Liceu da Praia. Entretanto tiveram dois filhos.
Ao fim de alguns anos ficou claro que, apesar de quererem viver no seu país de origem, não havia condições para desenvolverem o trabalho de investigação que pretendiam. Com o currículo que ambos tinham não foi difícil serem colocados num grande centro de investigação na África do Sul.
Entre o trabalho profissional e a criação dos filhos, Giovana não podia deixar de notar o desregulamento que estava a acontecer em muitos países africanos, entre os quais a própria África do Sul pós Nelson Mandela e, sobretudo, em Angola e Moçambique, países irmãos do seu país natal. Ela via com grande consternação a miséria em que viviam as populações desses países e a riqueza ostensiva e vexatória dos governantes e de um grupo reduzido de cidadãos próximos ao poder. Ela e o marido falavam muito sobre isso com os filhos que, cada vez mais crescidos, também viam com desagrado as inúmeras situações de mal estar das populações africanas, o que muito os interpelava.
Um dia, no momento em que a família estava a passar férias em Cabo Verde, no período entre o Natal e o Fim do Ano, Giovana chamou o marido e os filhos, ambos já a fazerem curso superior, e disse-lhes que naquele dia, enquanto estava a fazer o seu footing matinal, tinha tido uma epifania que gostaria de compartilhar com eles.
Todos ficaram curiosos e perguntaram o que seria.
Ela então explicou que gostaria de construir um robô que permitisse verificar a genuinidade das boas intenções de qualquer candidato que pretendesse concorrer ou que fosse indicado a um cargo público de direcção, para ver se estava a fazer de consciência limpa, a fim de trabalhar em prol do bem comum e não para procurar enriquecer indevidamente, mediante a apropriação descarada dos bens públicos.
O governo da África do Sul, a quem Giovana apresentou o projecto em primeira mão, não quis financiá-lo. Moçambique também se recusou alegando falta de recursos. Já o governo de Angola, presidido por um economista, que estava activamente a tentar mudar o status quo de corrupção em que o país independente se tinha afundado, aceitou o projecto de braços abertos.
Giovana e o marido mudaram-se de armas e bagagens para Angola e ao longo de dois anos trabalharam afincadamente na construção do robô a que chamaram “José Mãos Limpas” como o tinham baptizado desde que a ideia nascera.

Cheios de esperança, Giovana, Francisco e a equipa de investigadores com quem eles tinham trabalhado ao longo dos dois anos, foram entregar o resultado do seu trabalho ao Presidente.
“José Mãos Limpas” era um robô em forma de cadeira, com a aparência de um homenzinho sentado, que tinha na mão direita um capacete e na mão esquerda uma espécie de folha de papel, tudo ligado entre si por uma sofisticadíssima rede de conexões.
O capacete era aplicado sobre a cabeça do candidato quando este já se encontrava sentado e a folha de papel sobre o seu coração.
Ao fim de quatro horas de trabalho de auscultação o robô estaria em condições de elaborar um relatório onde daria indicações sobre o carácter do candidato, os valores, os objectivos, as ambições e, sobretudo, se tencionava trabalhar em prol de todos ou apenas para o seu bolso. A folha de papel sobre o coração permitia ver se ele estava apetrechado de bons sentimentos ou se apenas de cobiça, ódio, rancor ou outro sentimento negativo. O relatório resultaria das respostas dadas pelo candidato a uma série de cem perguntas, conduzidas pelo robô. 
Uma jovem activista de Direitos Humanos, Diana Carolina, que seguia com interesse os trabalhos da equipa de Giovana, foi a primeira pessoa a ser auscultada pois estava interessada em candidatar-se a deputada nas próximas eleições.
A prova decorreu sem incidentes e ao fim de quatro horas veio o resultado: aprovada com distinção! 
A partir desse momento, todos os candidatos a qualquer cargo público em Angola passariam a ser submetidos a esse teste. A Assembleia Nacional do país, preparou e aprovou uma legislação referente ao uso do “José Mãos Limpas” e os primeiros resultados começaram a aparecer pouco tempo depois de a legislação ter entrado em vigor.
Outros países foram a pouco e pouco aderindo ao projecto “José Mãos Limpas”, que passou também a ser conhecido como “Joseph Clean Hands”.

Acto Segundo

 Vinte anos depois, Susana acordou do coma em que um condutor embriagado a tinha atirado, quando atravessava calmamente a rua de Praia de Bote em Mindelo.
Vinha dizendo baixinho que o mundo seria bem melhor se não houvesse essas coisas de fascismo, imperialismo, colonialismo, racismo, chauvinismo, machismo e sobretudo…
Nesse momento, um enorme buraco negro abriu-se no seu espírito e caiu num poço sem fundo.

candidato que pretendesse concorrer ou que fosse indicado a um cargo público de direcção, para ver se estava a fazer de consciência limpa, a fim de trabalhar em prol do bem comum e não para procurar enriquecer indevidamente, mediante a apropriação descarada dos bens públicos.
O governo da África do Sul, a quem Giovana apresentou o projecto em primeira mão, não quis financiá-lo. Moçambique também se recusou alegando falta de recursos. Já o governo de Angola, presidido por um economista, que estava activamente a tentar mudar o status quo de corrupção em que o país independente se tinha afundado, aceitou o projecto de braços abertos.
Giovana e o marido mudaram-se de armas e bagagens para Angola e ao longo de dois anos trabalharam afincadamente na construção do robô a que chamaram “José Mãos Limpas” como o tinham baptizado desde que a ideia nascera.

Cheios de esperança, Giovana, Francisco e a equipa de investigadores com quem eles tinham trabalhado ao longo dos dois anos, foram entregar o resultado do seu trabalho ao Presidente.
“José Mãos Limpas” era um robô em forma de cadeira, com a aparência de um homenzinho sentado, que tinha na mão direita um capacete e na mão esquerda uma espécie de folha de papel, tudo ligado entre si por uma sofisticadíssima rede de conexões.
O capacete era aplicado sobre a cabeça do candidato quando este já se encontrava sentado e a folha de papel sobre o seu coração.
Ao fim de quatro horas de trabalho de auscultação o robô estaria em condições de elaborar um relatório onde daria indicações sobre o carácter do candidato, os valores, os objectivos, as ambições e, sobretudo, se tencionava trabalhar em prol de todos ou apenas para o seu bolso. A folha de papel sobre o coração permitia ver se ele estava apetrechado de bons sentimentos ou se apenas de cobiça, ódio, rancor ou outro sentimento negativo. O relatório resultaria das respostas dadas pelo candidato a uma série de cem perguntas, conduzidas pelo robô. 
Uma jovem activista de Direitos Humanos, Diana Carolina, que seguia com interesse os trabalhos da equipa de Giovana, foi a primeira pessoa a ser auscultada pois estava interessada em candidatar-se a deputada nas próximas eleições.
A prova decorreu sem incidentes e ao fim de quatro horas veio o resultado: aprovada com distinção! 
A partir desse momento, todos os candidatos a qualquer cargo público em Angola passariam a ser submetidos a esse teste. A Assembleia Nacional do país, preparou e aprovou uma legislação referente ao uso do “José Mãos Limpas” e os primeiros resultados começaram a aparecer pouco tempo depois de a legislação ter entrado em vigor.
Outros países foram a pouco e pouco aderindo ao projecto “José Mãos Limpas”, que passou também a ser conhecido como “Joseph Clean Hands”.

Acto Segundo

 Vinte anos depois, Susana acordou do coma em que um condutor embriagado a tinha atirado, quando atravessava calmamente a rua de Praia de Bote em Mindelo.
Vinha dizendo baixinho que o mundo seria bem melhor se não houvesse essas coisas de fascismo, imperialismo, colonialismo, racismo, chauvinismo, machismo e sobretudo…
Nesse momento, um enorme buraco negro abriu-se no seu espírito e caiu num poço sem fundo.

– … e sobretudo se não houvesse tanta corrupção… – concluiu Susana com uma voz fraquinha, quase inaudível, espantando a enfermeira que estava sentada ao seu lado desde que o hospital se tinha apercebido que os sinais vitais pareciam tender a melhorar.

– É um milagre, está a acontecer um autêntico milagre – comentou baixinho para si própria a enfermeira enquanto se dirigia a Susana – Calma, calma o médico já vem aí.
O médico não tardou a chegar. Ao fim de todos aqueles anos de coma aquela mulher voltara a vida.


Susana era uma jovem jornalista muito activa, que vinha fazendo uma série de reportagens, denunciando a corrupção que grassava em Angola e como o povo angolano, dono de um país tão rico, na sua maioria vivia na pobreza e na miséria. Chegou-se a desconfiar que o acidente tivesse sido encomendado. Mas nunca se provou nada… 


Levou algum tempo até que Susana se recobrasse das mazelas que o coma prolongado lhe tinha provocado. Aliás, ela nunca iria recobrar-se completamente. Mas o curioso é que animicamente ela continuava a mesma. E apesar dos seus combalidos quase cinquenta anos, ela ansiava voltar a trabalhar e queria ir a Angola. Havia um zum zum no ar que a estava a intrigar…  


Três meses após ter saído do coma Susana desembarcou no aeroporto de Luanda. Logo ali começou o seu espanto. As pessoas tinham um ar mais arrumado, mais contente, de maior bem-estar. Mesmo os homens que carregavam as bagagens. A miséria, que era a primeira coisa que saltava à vista quando se chegava a Luanda, não irrompia como cogumelos. O que se passava? Onde estavam os grandes outdoors do Presidente? Onde estavam as palavras de ordem do Presidente? Onde as moedas cunhadas com o busto do Presidente? Onde as notas com a face do Presidente? E até no táxi não viu as bandeirolas com o rosto do Presidente omnipresente. Como estava muito cansada foi logo para o hotel.


Aí a mesma surpresa. Em nenhuma parede estava dependurado o retrato ligeiramente sorridente do Presidente. Adormeceu com uma estranha sensação de alívio.
No dia seguinte, a caminho da cadeia de Viana, o espanto foi total. Nem mendicidade, nem deficientes, nem meninos magros de barrigas inchadas. Ela lembrou-se que o que mais a tinha chocado, quando estivera em Luanda a preparar as reportagens cerca de vinte anos atrás, tinha sido exactamente a quantidade de mendigos, de deficientes físicos, de crianças rotas e subnutridas e velhos abandonados a sua sorte. Tinha mesmo entrevistado alguns no caminho que levava à prisão de Viana. Não cabia em si a ansiedade que sentia.
Atónita, perguntou a um transeunte como se tinha chegado a tal estádio de harmonização da sociedade angolana e este respondeu algo espantado:

– Então, não sabe que desde que inventaram a máquina da verdade que todos os candidatos ou indicados a qualquer cargo público são obrigatoriamente a ela submetidos e todos os que forem reconhecidos como vendilhões do templo, corruptos, racistas, fundamentalistas, ditadores, são automaticamente excluídos? Assim, qualquer órgão de governação e qualquer lugar de direcção pública em todo o país só podem ser ocupados por homens e mulheres íntegros, compassivos e competentes, que pensam e trabalham em prol do bem comum e não para o seu enriquecimento pessoal ou dos seus familiares e amigos. É, por isso, que desde então Angola vem mudando radicalmente.

– E como funciona essa máquina da verdade? – Perguntou Susana, ainda atónita.

– É relativamente simples. Quando alguém se candidata ou é indicado para algum cargo de governação ou direcção em organismo público, antes de se submeter à eleição ou aceitar a indicação, é sujeito a um exame na máquina da verdade, onde se infere o seu carácter e a verdadeira nobreza de suas intenções. Se der positivo, sinal verde, segue adiante. Se der negativo, sinal vermelho, fica inibido durante pelo menos dez anos de se candidatar a outro cargo público. Angola e todos os países que têm aderido a este sistema estão a expurgar a horda de criminosos de colarinho branco que há anos conspurcavam a gestão pública. A máquina da verdade chama-se “José Mãos Limpas” ou JML como também é conhecida.

Epílogo
 
Fascinada e embevecida, Susana pôde finalmente aquietar o seu coração e abençoou os anos cinquenta do século vinte e um, que era claramente uma época de prosperidade, sobretudo, para uma parcela da humanidade que tanto necessitara.
Procurou então a cientista Giovana Martins e começou a fazer uma série de reportagens sobre ela e o robô “José Mãos Limpas”. Foi aí que ficou a saber que agora a presidente do país, Diana Carolina fora a primeira candidata a ser submetida a JML.
Dois anos depois Giovana Martins e o marido foram galardoados com o Prémio Nobel da Paz pela enorme contribuição que estavam a dar à consecução da democracia e do desenvolvimento em África e no mundo com a invenção do “Joseph Clean Hands”. 

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

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Divulgação de Resultados – Selecção para Antologia

Antologia Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa

Por ocasião do terceiro ano de existência do Diário de uma Qawwi, que se assinala este ano, foi aberto um edital para a recepção de textos a constar na antologia em epígrafe. O Diário de uma Qawwi pretende apoiar o desenvolvimento de novos tipos de produção literária africana, com particular enfâse à ficção especulativa.

Durante o período de submissões, foram recebidos e analisados 26 textos. Após uma cuidadosa e aturada leitura, a equipa do Diário de Uma Qawwi, determinou que 15 dos textos submetidos, reúnem os requisitos solicitados no edital publicado em Julho do corrente ano. Deste modo, foram aprovados os seguintes textos:

  1. O Caçador de Elefantes, de Adelino Albano Luís;
  2. O Portal de Chinhamapere, de Lex Mucache;
  3. No encalço de um espírito esperto, de Félix Casimiro Benhane;
  4. Náufrago de Sonhos, de Jeconias Mocumbe;
  5. Os Guardiões da Terra, de Andreia Edna da Silva;
  6. Clube de Vinganças, de João Baptista Caetano Gomes;
  7. O Receptáculo, de Marvin Muhoro;
  8. Túmulo Errado, de Ortega Teixeira;
  9. Mistérios da Terra, de Sónia Chagas;
  10. A Alima, a Mafurreira e Eu, de Ildo Isac Temótio;
  11. O Perdão de Nwalumambo, de Agnaldo Bata;
  12. A Paróquia do Padre João Pedro, de Teresa Taimo;
  13. A Mulher Hiena, de Luís Eusébio;
  14. O Arrendado imóvel com xipoco, de Mateus Tomáz Licusse; e
  15. As Chamas da Melancolia, de Dalencio Benjamim.

Todos os autores seleccionados neste edital são de Moçambique.

Por fim, o Diário de Uma Qawwi agradece o grupo de autores, que muito gentilmente aceitou o convite para contribuir e apoiar a materialização deste projecto. São estes, os seguintes escritores:

  1. Ávaro Taruma (Moçambique);
  2. Bento Baloi (Moçambique);
  3. Daniel da Costa (Moçambique);
  4. José Luis Mendonça (Angola);
  5. Jorge Ferrão (Moçambique);
  6. Leo Cote (Moçambique);
  7. Marcelo Panguana (Moçambique);
  8. Mélio Tinga (Moçambique);
  9. Mia Couto (Moçambique);
  10. Nick Wood (África do Sul);
  11. Oghenechovwe Donald Ekpeki (Nigéria);
  12. Shadreck Chitoki (Malawi);
  13. Suleiman Cassamo (Moçambique);
  14. Vera Duarte (Cabo Verde); e
  15. Zukiswa Wanner (África do Sul).

O lançamento da antologia esta previsto para o primeiro semestre de 2022.

Maputo,

Os Coordenadores da Antologia