Lançamentos!, Outras maravilhas humanas

CHAMADA PARA A ANTOLOGIA DE CONTOS “LENDAS URBANAS E CONTOS DE MORRER DE MEDO”

Quem não se lembra da história [ou estória] dos “Tatá papá tatá mamã”, da “xipoko xa ma mecha” (fantasma de mechas), do fantasma que apanhava boleia, das serpentes voadoras de Goba, dos Anapaches, dos mitos dos maridos/esposas da noite, do estrangeiro que seduzia mulheres novas e avarentas, para depois infectá-las de doenças medonhas, ou ainda da “Maria bheri ubhozi” (“Maria de uma mamã”)? O imaginário social vive de lendas urbanas e mitos rurais, que, de tempos em tempos, surgem e desaparecem, desempenhando, como advogam alguns especialistas, um papel importante nas sociedades.

Moçambique e as suas diversas regiões não ficam de fora. Quando o assunto é debatido, várias histórias são contadas, muitas delas pequenas, breves, de carácter fantástico ou sensacionalista, divulgada de forma oral. Serão elas verdadeiras, baseadas em factos reais? Ou constituem, somente, parte do folclore (tradicional e moderno)?

A Gala-Gala Edições pretende lançar uma antologia baseada nas lendas urbanas (e mitos rurais) de Moçambique, fazendo uma homenagem ao imaginário popular e/ou folclore moderno do país. A chamada é extensiva, também, para escritos de terror (sobrenatural ou não, psicológico, suspense e outros subgéneros) que tenham Moçambique como cenário. Serão escolhidos 13 contos, em referência ao número 13, obviamente amaldiçoado, segundo a crença popular.

Os textos deverão ser enviados entre os dias 25 de Julho e 25 de Setembro. Cada autor poderá enviar apenas um conto, com um limite de 15 páginas (veja o regulamento). O livro contará com a curadoria dos escritores Lucílio Manjate e Pedro Pereira Lopes.

Esta iniciativa conta com o apoio da Casa do Professor, da plataforma Mbenga – artes e reflexões, do Diário de uma Qawwi, do sarau Palavras são Palavras e do Clube de Leitura de Quelimane.

Para mais detalhes veja o cartaz da chamada e o regulamento.

Regulamento


1 Participação


1.1 A chamada destina-se a escritores moçambicanos. Os participantes devem ser maiores de 18 anos e residentes em Moçambique. Podem participar escritores com e sem obra publicada.

1.2 A inscrição é gratuita e nenhum valor será cobrado aos inscritos em nenhuma fase do projecto.

 
2 Orientações


2.1 Só publicados contos inéditos. Aos autores seleccionados será exigido um termo de responsabilidade e autoria.

2.2 Os textos deverão ser encaminhados para o e-mail galagalalivros@gmail.com, com a seguinte epígrafe no assunto: LENDAS URBANAS E CONTOS DE TERROR. No mesmo documento, a seguir ao texto, deverá ser apresentada uma breve nota biográfica, de até 8 linhas.

2.2.1 Os textos deverão ser enviados em formato Word (não aceitaremos PDF), espaçamento 1,5 entre linhas; fonte Times New Roman (12); O conto precisa ter o título e o nome do autor  (nome que irá aparecer no livro) no início do documento; O conto deve ter um máximo de 15 laudas.

2.2.2 Para os diálogos, deverá ser utilizado o símbolo de travessão.

2.2.3 Inscrições e textos que não obedecerem o formato serão automaticamente desclassificados.

2.3 Cada autor poderá inscrever só 01 (um) conto.
2.4 Não serão aceitos contos que incitem, glorifiquem, defendam ou demonstrem de forma positiva: estupros, uso de drogas, racismo, LGBTfobia e preconceitos no geral.

3 Publicação


3.1 A antologia terá até 13 (treze) contos participantes. Dentre os quais, aqueles escritos pelos autores seleccionados através desta chamada, podendo haver a participação de autores convidados pela Gala-Gala Edições.

3.2. A selecção final dos textos inscritos será da responsabilidade dos escritores e contistas Lucílio Manjate e Pedro Pereira Lopes.

4 Direitos autorais

4.1 Todos os autores receberão dois exemplares do livro impresso podendo, também, adquiri-lo com desconto de 30%.

5 Disposições finais

5.1 Nos limitamos a não justificar o motivo da não selecção do conto.

5.1.1 O(a) participante se responsabiliza por responder isoladamente em caso de plágio e afins.

Livros

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO – ANTOLOGIA POÉTICA “BLASFÊMEAS – SANGUE E VERBO”

Noémia de Sousa, a “Mãe dos poetas moçambicanos”, no seu icónico poema “Súplica”, grita: “Tirem-nos tudo/ mas deixem-nos a música!” E se a Noémia tivesse dito POESIA? É evidente que música também é poesia. Voz densa e afiada, que representa a resistência da mulher moçambicana [e negra e africana], Noémia inspirou e continua a inspirar poetas de várias gerações. Moçambique, “Pátria de poetas”, ainda fez nascer e ouvir as vozes de Glória de Sant’anna, Clotilde Silva, Sónia Sultuane, Lica Sebastião, Emmy Xis, Rinkel e, mais recentemente, Hirondina Joshua e Énia Lipanga, entre pouquíssimas outras.

Esta chamada, iniciativa da Gala-Gala Edições, visa dar a conhecer o trabalho de novas vozes da poesia escrita por mulheres em Moçambique, para quem, a poesia e a música fizeram sempre parte do seu quotidiano, mas não antes tiveram a oportunidade de publicar em livro. Por isso “BlasFêmeas”, pois queremos que este seja um acto de heresia, de emponderamento, de liberdade, de pôr as novas poetisas [ou mesmo poetas] a declamarem sobre os seus amores, as suas liberdades, lutas e direitos.

O subtítulo, “Sangue e verbo”, é igualmente inspirado em Nóemia [“Sangue negro”], que faleceu aos 76 anos, em 2002, e presta-lhe homenagem. A antologia publicará 2 poemas de 38 novas autoras, em edição imprensa, entre Dezembro de 2022 e Março de 2023. Para tal, cada autora deverá enviar 2 poemas de, no máximo, 4 páginas. A selecção final das contempladas será escrutinada pelas poetisas Sónia Sultuane e Emmy Xis, que assinam a curadoria.

Os textos deverão ser enviados para o e-mail galagalalivros@gmail.com, com a epígrafe no assunto: ANTOLOGIA BLASFÊMEAS. No mesmo documento, a seguir os poemas, deverá ser apresentada uma breve nota biográfica, de até 8 linhas.

A chamada é somente válida para autoras que ainda não publicaram livros. Podem ainda participar poetisas anteriormente antologiadas. As autoras seleccionadas serão comunicadas por correio electrónico e receberão duas cópias do livro.

Os materiais poderão ser enviados entre os dias 20 de Julho e 20 de Setembro, dia de nascimento de Noémia de Sousa. Não serão consideradas inscrições fora deste prazo.

Esta iniciativa conta com o apoio da Casa do Professor, da plataforma Mbenga – artes e reflexões, do Diário de uma Qawwi, do sarau Palavras são Palavras e do Clube de Leitura de Quelimane.

Para mais detalhes veja o cartaz da chamada.

Histórias

O Capricho das Borboletas, por Daniel da Costa

Depois do ciclone, o relógio da natureza é assaltado pelos demónios da lentidão e do desânimo. O pescador tem mais tempo para ruminar em silêncio o azar que lhe bateu à porta. Desde o nascer-do-sol ao baile das estrelas, ele abandona-se a um canto do seu vasto quintal, debaixo da única árvore que a fúria dos ventos não arrancou pelas raízes.

Liva foi cuspido para a depressão, uma espécie de varanda do suicídio. Num abrir e fechar de olhos escapou-se-lhe por entre os dedos o sentido da vida, uma vida inteira dedicada à mulher e às artes da pesca. E sem filhos.

A fúria dos ventos não só lhe roubou a esposa. Tirou-lhe o telhado da casa e a esperança que florescia na machamba. A maior parte das cabeças de gado foi devorada pela corrente do rio, com troncos disformes à mistura, umas tantas galinhas cafreais e incontáveis utensílios domésticos.

Agora não consegue tirar o olhar das borboletas que interpretam uma coreografia de cores divinas no seu quintal cercado de plantas espinhosas. As borboletas dão piruetas à volta das flores que teimam em espreguiçar-se com esplendor, exactamente no lugar onde antes o pescador gostava de conversar com a esposa.

Dentro do corpo, da sua alma e do pensamento, tudo continua a doer por inteiro. Ele parece ausente, numa pose de quem fumou soruma, proveniente do planalto. Se calhar, porque o passado lhe acena somente com duas bandeiras: a fiel companhia de um cão rafeiro e uma canoa cujo casco reclama um conserto de pequena monta.

Liva esboça o primeiro plano para evitar o naufrágio nas borboletas da nostalgia, indo pelo atalho mais fácil. De garrafa em punho, passa a encharcar-se de álcool, de domingo a domingo.

Isto, com um agravante. Nos quintais onde o pombe impera, abundam amigos ruidosamente solidários, dispostos a pagar ao pescador uma dúzia de copos do que quer que seja.

Com improvisados sopros de flauta feita de bambú, as sessões são animadas. É quase sempre num estado andrajoso que o pescador acaba por acertar com o portão de casa, auxiliado pelos extraordinários dotes do seu cão rafeiro.

Mesmo assim, Liva tenta subir a fasquia. Da bebida para as saias, vai só um metro. É o bêbado no seu melhor. Mas aí esbarra com a falta de dinheiro para se fazer rodear de mulheres, independentemente da categoria.

Espicaçados pela crise, os prostíbulos também reviram em alta o preço da oferta. O único serviço acessível destina-se a garotos com um pé na puberdade. São as matinées.

As prostitutas içam a capulana para que, num lampejo, os garotos consigam espreitar as suas partes íntimas, preferencialmente sem roupa interior. A partir desse fugaz golpe de vista, os garotos dão asas à imaginação, viajando excitados para bem longe do prostíbulo e da vigilância dos pais.

A dona do sítio não vai dar ao pescador o tratamento concedido aos garotos, mesmo sabendo que as suas finanças não gozam de boa saúde e que, desde a passagem do maldito ciclone, a sua virilidade segue a rota da desgraça.

Mas Liva pertence a uma casta com pouco mais de sessenta anos. Apesar dos constrangimentos sociais e biológicos, merece o respeito da dona do prostíbulo. Por isso, ela propõe um arranjo generoso. Excepcionalmente, o pescador pode frequentar a sua casa, fora das horas de expediente.

Tem direito a uma sessão de matinée, vamos lá dizer, reforçada. A partir da janela da casa de banho, está autorizado a contemplar as suas curvas, durante os banhos. Embora ela não possua a frescura de uma donzela, a oferta não lhe parece má. Para um leão velho, pensa o pescador, é sempre melhor do que nada.

Há, entretanto, um preço para o arranjo. Nesta vida, há sempre um preço a pagar. A troco desta investida essencialmente platónica, Liva deve entregar à dona do prostíbulo uma parte do peixe que capturar durante a faina.  

Selado o insólito acordo, o cão rafeiro passa a ser visto com frequência na varanda da generosa senhora, em dias fixos e à mesma hora. O quadrúpede denuncia o paradeiro de Liva que, nesta altura, já se tornou demasiado dependente dos remendos platónicos.

Os meses voam e, a pouco e pouco, ele consegue passar de simples cliente a amigo. É costume o tempo pregar partidas.

Podes vir almoçar comigo este domingo?

O pescador aceita o convite, agradecido. É a primeira vez que recebe um convite a sério, um convite de mulher, desde que o ciclone despenteou a sua vida, e o deixou na implacável dependência de álcool e das migalhas atiradas pela janela da casa-de-banho.

A muito custo, claro, conserva-se sóbrio. Na data marcada, Liva até sai de casa mais cedo do que o costume, a cantarolar uma letra popular, memorizada numa bebedeira qualquer. É um hino à felicidade.

Desce animadamente em direcção ao rio, atravessando um espesso nevoeiro que não o deixa ver um metro além do achatado nariz. O despertar dos pássaros encontra-o no meio do rio a verificar a eficácia das armadilhas.

Apanha dois peixes, enormes. Retira-lhes as vísceras e lava-os, de forma adequada. Escolhe o mais bonito para o almoço e destina o outro para a venda no cais. Liva arruma a canoa num lugar seguro e vai ao banho, necessariamente demorado.

É aí onde nota que o céu está repleto de borboletas. Intriga-o que, depois do banho, elas o sigam até à sua casa, recentemente reconstruída por voluntários de uma organização não-governamental.

Centenas de borboletas do rio juntam-se à dança entre as flores de casa. Boquiaberto, Liva contempla aquele invulgar espectáculo de cores em movimento.

Perto da hora agendada, mete-se por um caminho que bem conhece. Para não se atrasar, encurta a distância. Não vá o diabo tecê-las. A nuvem gigante de borboletas que o persegue deixa atónitos todos os adultos com os quais se cruza na rua. As crianças, maravilhadas. 

Sem que se aperceba, ao longo do trajecto, as suas rugas vão caindo, uma a uma. As mágoas e os cabelos brancos, também. Liva sente os passos a desenharem no chão pegadas mais firmes, a coluna a endireitar-se e o corpo a despir-se do vício e da fadiga.

Ainda cortejado pelas bailarinas de asas delicadas, o homem chega ao destino e bate à porta, suavemente.

Ao abri-la, a anfitriã fica pasmada. O quintal está deslumbrantemente colorido e o pescador untado pela frescura sedutora de um príncipe retirado de uma fábula.

O que é que se passa aqui, amigo? pergunta ela. 

Liva não consegue encontrar no dicionário palavras para lhe explicar aquele capricho da natureza. Limita-se a segurar o peixe numa mão, enquanto tenta, com a outra, acalmar o cão que, desde o rio, não pára de ladrar para as borboletas.

Nada voltou a ser como antes entre o pescador e a dona dos prazeres.

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

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Lançamentos!

Editora 3009 busca contos inéditos de jovens mulheres estreantes

És mulher moçambicana e gostarias de ver o teu trabalho publicado pela conceituada editora 3009?

Com vista à celebração do dia 07 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, a Editora Trinta Zero Nove e respectivos parceiros pretendem publicar uma colectânea de contos no feminino. Se és mulher, moçambicana e tens um conto ou uma colectânea inédita que gostarias de ver publicada, faz como a Neusia. Deverás submeter um conto com um mínimo de 1500 (mil e quinhentas) e um máximo de 3000 (três mil palavras) acompanhado da tua biografia, declaração de que o conto é inédito e da tua autoria e dados de contacto para editor@editoratrintazeronove.org até às 23:59 de 03/02/22.

Lançamentos!, Livros, Resenhas

Lançamentos: 12 sugestões para este Natal (em prosa e poesia)

Com o natal ao virar da esquina, vale a pena recordar que o livro é sempre um dos melhores presentes. Os livros estimulam a nossa imaginação e às vezes transformam as nossas vidas. Ao oferecermos um livro, acabamos também, por de certa forma, subscrever uma escolha para o leitor, uma escolha que de outra forma pode ser difícil, perante tantos livros e propostas disponíveis no mercado.

E por falar em tantos livros, em Moçambique os últimos meses foram repletos de novidades e lançamentos!

Preparámos a lista abaixo, contendo alguns livros novos, como sugestão para este Natal. Confira:

Prosa

  1. As Raízes do Rei, de Susana Machamale

Foi lançado no dia 9 de Dezembro de 2021, em Maputo, “As Raízes do Rei”, livro de estreia de Suzana Machamale. Este é o primeiro volume de uma tetralogia chamada “Príncipes Sangrentos”.

Durante o lançamento, a autora relatou o processo de publicação do livro, tendo dito que no início não acreditava ser possível a publicação em Moçambique deste seu primeiro trabalho, inclusive pela temática que aborda. Com mais de 290 páginas, o livro sai pela chancela da Kulera Editores.

Eis uma breve passagem da sinopse: “Dois reinos, quatro cabeças, mas apenas duas coroas. O carismático Ânjor e a ambiciosa Hanjy Karavejo são filhos da rainha de Taravin. mas, por serem gémeos, só pelo voto do povo pode-se definir qual dos dois será o primeiro na linha de sucessão ao trono. A angelical Yasy e a perversa Yagui Dantaze são filhas do reu Nunny.

Segundo o apresentador da obra, o professor Daúde Amade, “o livro retrata uma história de membros da mesma família que disputam a sucessão ao trono, chegando, até, a odiar-se. Entre os irmãos que disputam o trono e os reinos que se opõem pelo poder, forjam-se falsos sorrisos, traições, mortes e muito sangue mancha a história de uma família que, caso fosse possível, daria tudo pela permanência de um passado sossegado e sem conflitos”.

2. Gole de Lâminas, de Alberto Dalela

Fonte de imagem: Vymaps

Foi lançado no dia 24 de Novembro de 2021, “Gole de Lâminas”, livro de estreia de Albert Dalela, chancelado pela Ethale Publishers. Segundo a nota do blog Mbenga, esta é uma proposta que consiste em apresentar o sub-mundo da cidade de Maputo, ou seja, reflectir em torno da complexidade de conceitos e ideias da questão de ser e estar nas zonas suburbanas e na cidade.

3. O Abismo aos Pés, de Elton Pila e Eduardo Quive (organizadores)

Fonte de imagem: Amazon

Este livro, chancelado pela Editora Literatas, foi publicado em finais de 2020, tendo sido em Novembro de 2021 apresentado no Instituto de Camões, em Maputo, numa conversa com os organizadores, Elton Pila e Eduardo Quive. Contendo 232 páginas em entrevistas efectuadas a 25 escritores lusófonos, “O Abismo aos Pés” reflecte sobre a iminência do fim do mundo e oferece uma das leituras mais instigantes e inquietantes de todos os tempos.

4. No Verso da Cicatriz, de Bento Baloi

Fonte de imagem: Almedina

Um dos livros mais interessantes publicados este ano é sem dúvida “No Verso da Cicatriz”, romance que narra a história de Bernardo (e sua Helena). A trama é ambientada nos primeiros anos após a independência de Moçambique, iniciando com o protagonista Bernardo sendo afastado da amada, pelo Governo, que o leva de Maguaza (sua zona de origem) a Carico, sob a falsa acusação de ser uma Testemunha de Jeová.

Conforme se lê numa matéria da RFI, para além do conflito armado, Bento Baloi também aborda a operação durante a qual, nos anos 80, milhares de pessoas se viram forçadas a ir trabalhar em meio rural, longe das suas zonas de origem.”

O livro foi lançado em Agosto de 2021, simultaneamente em Moçambique e em Portugal, pela Editora Índico e pela Alêtheia Editores, respectivamente.

5. Histórias do outro mundo, de Carlos dos Santos

Fonte da imagem: Alcance

Nós do Diário de Uma Qawwi, amantes da ficção especulativa, não poderíamos, obviamente, deixar de mencionar o novo livro de Carlos dos Santos. Editado pela Alcance Editores e com cerca de 112 páginas, o livro reúne oito contos nos géneros ficção científica e fantástico, acompanhados de belíssimas ilustrações. Imperdível!

6. Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão

Por último, no género da prosa, fazemos menção, com muita alegria, à “Sina de Aruanda”, romance lançado no dia 8 de Dezembro de 2021, terceiro obra da administradora do Diário de Uma Qawwi. Num dos momentos mais marcantes da cerimónia, o apresentador do livro, o professor Albino Macuácua, mencionou que Sina de Aruanda “é um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico, ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, do “verdadeiro” amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.”

O livro sai pela chancela da Fundação Fernando Leite Couto em Maputo, e será publicado em 2022 pela Editora Malé, do Brasil.

Poesia

7. O Lugar das Ilhas

“O Lugar das Ilhas” é o novo livro da poeta Sónia Sultuane.

Sobre a obra, o apresentador do livro, o professor de literatura Nataniel Ngomane, explicou que as ilhas retratadas no novo livro de Sónia Sultuane não são necessariamente geográficas (Ilha de Moçambique, Cuba e as ilhas da Grécia), são ilhas que existem na forma de pensar humana”. In OPais

8. O Escutador de Silêncios, de Ricardo Santos

Também foi lançado recentemente um livro de poesia, de Ricardo Santos.

Os textos em “O Escutador de Silêncios” foram escritos na sua quase totalidade entre 2016 e 2019. Sobre esta obra, diz-nos o escritor Leo Cote, que “o prosaismo que esta poesia reflecte e sugere, resulta da vontade de contar histórias, muito ao jeito da tradição oral, e de construir um discurso que seja a ficção do hodierno e do simples, atingindo o natural e o espontâneo. Não é por acaso que o poema “Ânfora” faz alusão a isso.” In Mbenga.

9. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos, de Énia Lipanga

Este livro foi lançado no dia 12 de Novembro de 2021 e é a segunda obra de poemas de Énia Lipanga.

Segundo a Editora que chancela a obra, a Gala Gala Edições, “as vozes deste livro são femininas, ora inteiras, ora nada, ora em pedaços, para cantar os seus gozos e alegrias, e também as suas feridas e cicatrizes. “Talvez, por isso, chovam gotas íntimas em seus versos que escorrem fios e fiapos de prazer e, quiçá, de amor, travestidos de incertezas, poeiras, nuvens, sombras e desejos que incitam dores, emoções, saudades, menos regressos e mais recomeços”, escreve a professora Ana Rita Santiago.” In Gala Gala Edições

10. Calvário e a Cruz, de Jeconias Mocumbe

Recentemente lançado, em edição do autor, o livro de Jeconias Mocumbe (pseudónimo de Edilson Sostino Mocumbe) é uma antologia de poemas. Segundo Elísio Miambo, o apresentador do livro, a obra “apresenta-se como um exercício de exploração dos limites da metáfora, havendo, nesse processo, momentos em que ela própria (a metáfora) são lhe apresentados os seus vícios enquanto forma de codificação discursiva. De facto: se por um lado existem livros que tomam o leitor como imbecil a ponto de fornecerem informação desnecessária e que se resvala pela prolixidez, por outro, livros há que ou sobrevalorizam o leitor ou o seu autor não liga a mínima para uma possibilidade de haver alguma interatividade entre o leitor e a obra, correndo assim o risco de se tornarem incompreensíveis.”

Prosa em Infanto Juvenil

11. A Estranha Metamorfose de Thandi

Lançado no dia 24 de Novembro de 2021, o novo livro de Mauro Brito apresenta o conto “A estranha metamorfose de Thandi”, e é ilustrado pelo artista plástico Samuel Djive.

José dos Remédios, no OPais, descreve-o como “uma história de amor entre mãe e filha, Mbali e Thandi, personagens agrestes que constantemente enunciam lições universais, atinentes às circunstâncias domésticas e até mesmo comunitárias.”

A estranha metamorfose de Thandi levar-nos-á pelos meandros do interdito, do destino e da libertação, numa linguagem onde a narrativa e a poesia, o real e o imaginário, o presente e o passado se cruzam num espaço sem fronteiras distintas.

12. As Aventuras de Manuelito, de João Baptista Caetano Gomes

Esta foi uma das obras vencedoras do concurso Literário “Nó de Gaveta”, promovido pela Associação cultural Nkariganarte, em parceria com a Kuvaninga cartão d’arte. João Baptista venceu pela zona centro de Moçambique, ao lado de Cleyde Pamela (com o texto “O Sonho de Chinguana”) e Laliana Mahumane (com o texto “O outro lado das flores”), das zonas Norte e Sul, respectivamente. O autor participou da antologia Memórias do Idai, uma colecção de crónicas literárias que resultou de um concurso promovido pela Editora Fundza. Participa em antologias nacionais e internacionais. Em 2021, seu texto “Os vendedores de sol e lua” foi um dos 12 selecionados para a Oficina de Ficção Narrativa organizado pela Fundação Fernando Leite Couto. Tem escrito prefácios de livros e tem apresentado obras literárias de alguns escritores emergentes da Literatura Moçambicana.

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Outras maravilhas humanas

Oitentanoventa: entrevista com Luís Carlos Patraquim

Foi ao ar no dia 8 de Dezembro de 2021, a terceira sessão OITENTANOVENTA.

Nesta sessão, Hirondina Joshua e Léo Cote conversaram com Luís Carlos Patraquim.

Luís Carlos Patraquim, jornalista e poeta de créditos firmados, nasceu em Maputo em 1953. Foi co-fundador da Agência de Informação de Moçambique (AIM) e do Instituto Nacional de Cinema (INC) onde exerceu desde 1977 a 1986 a função de roteirista, argumentista, e redactor do jornal cinematográfico “Kuxa Kanema”. Fundou e coordenou a “Gazeta de Arte e Letras” da revista Tempo, em 1984. Da sua vasta obra, assinalam-se , por exemplo, os seguintes projectos: Monção (1980), A Inadiável Viagem (1985), Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora (1992), Lidemburgo Blues (1997), O Osso Côncavo e outros poemas (2005) e O deus restante (2017), este último vencedor do Prémio Oceanos (2018). Foi ainda distinguido com o Prémio Nacional de Poesia, Moçambique, em 1995. Patraquim vive em Portugal desde 1986.

Sobre os entrevistadores:

Hirondina Joshua é poeta moçambicana. Faz parte da nova geração de autores moçambicanos, com poemas traduzidos em Italiano. É redactora da revista InComunidade (Portugal) e curadora do projecto literário no Mbenga Artes & Reflexões. Publicou OS ÂNGULOS DA CASA (2016), COMO UM LEVITA À SOMBRA DOS ALTARES (2021) e A ESTRANHEZA FORA DA PÁGINA (Co-autoria com Ana Mafalda Leite, 2021). Foi distinguida com a Menção Honrosa do Premio Mondiale di Poesia Nósside (Itália, 2014). Hirondina Joshua é formada em Direito pela Universidade Eduardo Mondlane.

Léo Sidónio de Jesus Cote nasceu em Maputo. Frequentou o curso de Linguística e Literatura na Universidade Eduardo Mondlane. Foi professor do ensino primário e secundário. Atualmente exerce a profissão de revisor linguístico. Publicou EVA (2021), obra distinguida com a menção honrosa do Prémio INCM/Eugénio Lisboa 2020, EROTICUS: ONZE POEMAS E UMA QUADRA SOB MEDIDA (2020), CARTO POEMAS DE SOL A SAL (2012) e POESIA TOTAL (2013), esta última resultado do prémio literário 10 de novembro do Concelho Municipal da Cidade de Maputo, o qual venceu em 2012.

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Resenhas

Oitentanoventa: entrevista com Suleiman Cassamo

Foi ao ar ontem, dia 3 de Dezembro de 2021, a segunda sessão OITENTANOVENTA.

A OitentaNoventa é uma iniciativa focada na conexão intergeracional, que coloca as novas vozes literárias (escritores, poetas e críticos de arte) diante dos seus autores preferidos, para conversar sobre a escrita, os livros e a vida.

Nesta sessão, Mélio Tinga e Fernando Absalão conversaram com Suleiman Cassamo.

Suleiman Cassamo nasceu em 2 de Novembro de 1962 no distrito de Marracuene, província de Maputo.Em 1994 O REGRESSO DO MORTO foi apontado pela UNESCO como “obra representativa no património literário universal”. No mesmo ano, com o conto “O Caminho de Pháti”, foi vencedor do Prémio Guimarães Rosa, da RFI, União Latina e Casa das Américas em Paris num concurso aberto a contistas de língua portuguesa; com a A CARTA DA MBONGA, foi vencedor em 2015 do Grande Prémio Sonangol de Literatura, para autores dos países africanos de língua portuguesa e em 2017, do Prémio BCI de Literatura. Nesse mesmo ano, recebeu do Ministério da Cultura do governo de Moçambique o Diploma de Honra em reconhecimento ao seu contributo na promoção e desenvolvimento da Literatura Moçambicana.

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Lançamentos!

Divulgação de Resultados – Selecção para Antologia

Antologia Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa

Por ocasião do terceiro ano de existência do Diário de uma Qawwi, que se assinala este ano, foi aberto um edital para a recepção de textos a constar na antologia em epígrafe. O Diário de uma Qawwi pretende apoiar o desenvolvimento de novos tipos de produção literária africana, com particular enfâse à ficção especulativa.

Durante o período de submissões, foram recebidos e analisados 26 textos. Após uma cuidadosa e aturada leitura, a equipa do Diário de Uma Qawwi, determinou que 15 dos textos submetidos, reúnem os requisitos solicitados no edital publicado em Julho do corrente ano. Deste modo, foram aprovados os seguintes textos:

  1. O Caçador de Elefantes, de Adelino Albano Luís;
  2. O Portal de Chinhamapere, de Lex Mucache;
  3. No encalço de um espírito esperto, de Félix Casimiro Benhane;
  4. Náufrago de Sonhos, de Jeconias Mocumbe;
  5. Os Guardiões da Terra, de Andreia Edna da Silva;
  6. Clube de Vinganças, de João Baptista Caetano Gomes;
  7. O Receptáculo, de Marvin Muhoro;
  8. Túmulo Errado, de Ortega Teixeira;
  9. Mistérios da Terra, de Sónia Chagas;
  10. A Alima, a Mafurreira e Eu, de Ildo Isac Temótio;
  11. O Perdão de Nwalumambo, de Agnaldo Bata;
  12. A Paróquia do Padre João Pedro, de Teresa Taimo;
  13. A Mulher Hiena, de Luís Eusébio;
  14. O Arrendado imóvel com xipoco, de Mateus Tomáz Licusse; e
  15. As Chamas da Melancolia, de Dalencio Benjamim.

Todos os autores seleccionados neste edital são de Moçambique.

Por fim, o Diário de Uma Qawwi agradece o grupo de autores, que muito gentilmente aceitou o convite para contribuir e apoiar a materialização deste projecto. São estes, os seguintes escritores:

  1. Ávaro Taruma (Moçambique);
  2. Bento Baloi (Moçambique);
  3. Daniel da Costa (Moçambique);
  4. José Luis Mendonça (Angola);
  5. Jorge Ferrão (Moçambique);
  6. Leo Cote (Moçambique);
  7. Marcelo Panguana (Moçambique);
  8. Mélio Tinga (Moçambique);
  9. Mia Couto (Moçambique);
  10. Nick Wood (África do Sul);
  11. Oghenechovwe Donald Ekpeki (Nigéria);
  12. Shadreck Chitoki (Malawi);
  13. Suleiman Cassamo (Moçambique);
  14. Vera Duarte (Cabo Verde); e
  15. Zukiswa Wanner (África do Sul).

O lançamento da antologia esta previsto para o primeiro semestre de 2022.

Maputo,

Os Coordenadores da Antologia

Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura| An American Marriage (Um Casamento Americano), de Tayari Jones | Opinião

Autor: Tayari Jones

Editora: Algoquin Books

Idioma: Inglês

Sinopse

Os recém-casados ​​Celestial e Roy, são o protótipo do sonho americano. Ele é um jovem executivo e ela uma artista na fase inicial de uma carreira empolgante. Mas à medida que se estabelecem na rotina da vida a dois, eles são dilacerados por circunstâncias que nenhum dos dois poderia ter imaginado.

Roy é preso e condenado a 12 anos, por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu. Apesar de ser uma mulher forte e independente, Celestial se vê desolada e desamparada, consolando-se com André, seu amigo de infância e padrinho de casamento. O tempo de Roy na prisão vai passando, e Celestial é incapaz de manter o amor que sempre foi o seu centro. Porém, ao final de 5 de anos, a pena de Roy é subitamente revertida e ele volta para Atlanta, pronto para retomar a sua vida ao lado de Celestial.

Opinião:

A história intercala a narração dos protagonistas, nomeadamente Celestial, Roy e André, uma técnica que empresta uma dinâmica bastante interessante à narrativa, e que acaba por ser efectiva. Foi uma boa decisão da autora mostrar os diferentes pontos de vista dos personagens, pois sem a persepctiva de Celestial, o leitor estaria mais propenso a criar certa animosidade ou até mesmo a ter uma recepção negativa para com esta personagem.

An American Marriage, apresenta-nos uma trama honesta e impactante, escrita de forma belíssima, não apenas sobre a realidade do sistema social e político da região em que se desenrola, mas também dos valores matrimoniais, expostos à condição essencialmente humana. Com o marido na prisão, Celestial, que não esperava ver-se tão cedo sozinha, acaba por envolver-se com André, seu amigo de infância. Mas Roy, inocente, ao ser libertado, deseja regressar à vida de casado com Celestial, formando-se aqui um triangulo amoroso complicado e doloroso. Somos levados assim, a reflectir, sobre até que ponto conseguimos cumprir as promessas consideradas sagradas e até mesmo inquebráveis.

Um história, em última análise, melancólica, sobre como uma injustiça social pode abalar a vida pessoal, e sobre como dinâmicas inesperadas podem sobrepor-se aos votos matrimoniais.

A capa do livro é extremamente elegante e dialoga com o tema do romance.

Um leitura recomendável.

A nossa pontuação: 4.5 de 5 estrelas.

Sobre a autora:

Tayari Jones é autora de quatro romances, mais recentemente “An American Marriage”, que foi eleito para a Selecção do Clube de Livros da Oprah 2018, e ganhou o Prêmio Feminino de Ficção de 2019. Jones é graduada pelo Colégio de Spelman, pela Universidade de Lowa e pela Universidade do Estado de Arizona.

Literature| An American Marriage, by Tayari Jones | Opinion

Author: Tayari Jones

Publisher: Algoquin Books

Language: English

Synopsis

The newlyweds Celestial and Roy are the embedment of both the American dream and the New South. He is a young executive, and she is an artist in the brick of an exciting career. But as they settle into the routine of their life together, they are ripped apart by circumstances neither of them could have imagined.

Roy is arrested and sentenced to 12 years for a crime Celestial knows he didn’t commit. Despite being a strong and independent woman, Celestial finds herself bereft and unmoored, taking Comfort in Andre, her childhood friend and best man at their wedding. As Roy’s time in prison passes, she is unable to maintain the love that has always been her center. However, after 5 years, Roy’s conviction is suddenly overturned and he returns to Atlanta, ready to resume his life with Celestial.

Opinion:

The story combines the narration of the protagonists, namely Celestial, Roy and André, a technique that lends a very interesting dynamic to the narrative, and which ends up being very effective. It was a good decision of the author, to show the different points of view, without Celestial’s perspective, the reader could find himself leaning to a certain animosity or even negative reception by towards this character.

An American Marriage presents us with an honest and impressive plot, beautifully written, not only about the reality of the social and political system of the region in which it takes place, but also about matrimonial values, exposed to the essentially human condition. With her husband in prison, Celestial, who did not expect to find herself alone so soon, ends up getting involved with André, her childhood friend. But Roy, innocent, on being freed, wants to return to his life with Celestial, forming here a complicated and painful love triangle. We are thus led to reflect on the extent to which we are able to fulfill the promises considered sacred and even unbreakable.

Ultimately, a melancholy story of how social injustice can undermine personal life, and how unexpected dynamics can overwhelm marriage vows.

The book cover is extremely elegant and dialogues well with the theme of the novel.

A recommendable read.

Our score: 4.5 out of 5 stars.

About the author:

Tayari Jones is the author of four novels, most recently “An American Marriage,” which was a 2018 Oprah’s Book Club Selection, and won the 2019 Women’s Prize for Fiction. Jones is a graduate of Spelman College, the University of Lowa and Arizona State University.