Livros, Resenhas

Literatura| The Blessed Girl, de Ângela Makholwa, | Opinião

Autor: Ângela Makholwa

Editora: Pan Macmillan

Idioma: Inglês

Sinopse

Jovem, bonita e ambiciosa, Bontle Tau tem Joanesburgo na palma da mão. Os seus admiradores generosos disputam para pagar o seu Mercedes, o seu apartamento e as suas viagens, postadas no Instagram. É dever da Bontle parecer fabulosa – afinal, as pessoas não sacrificaram as suas vidas na luta pela liberdade, para as mulheres negras usarem as mesmas camisetes baratas que vestiam durante o apartheid.

Bontle percorreu um longo caminho, e não foi fácil. Seu psiquiatra continua a querer falar sobre um passado que ela colocou firmemente para trás. E aquilo que ela não pensa, não pode machucá-la, pode?

Opinião:

No minuto em que ouvimos a autora do livro, Ângela Makholwa, ler uma passagem do mesmo, tratamos logo de anotar o título. Por várias razões que não cabem aqui dizer, mas uma delas bastante óbvia: a trama propunha-se bastante apelativa e actual. E é.

A história narrada pela protagonista (ao que tudo indica, em formato de documentário) é uma espécie de sátira. Nas primeiras páginas, chegamos a ficar indignados com esta “Bontle”, mas reconhecemos, de imediato, que a realidade da jovem é bastante corrente, não só em Joanesburgo, como em Moçambique e em várias partes do mundo. Desde às “sugar babies”, às “marrandzas”. Seja em que contexto for, os leitores irão reconhecer esta mulher, que tudo faz, em troca da “boa vida”. E a autora, muito talentosa, concebeu uma história, que dependendo do ponto de vista do leitor, traz algumas lições de moral, ou simplesmente, reflectem o percurso da vida, de acordo com as escolhas que fazemos.

Ora bem, se já sabemos quem são as sugar babies e temos um certo “preconceito” com relação a elas, Ângela Makholwa nos leva, através desta ficção, a olhar com mais profundidade para as circunstâncias e o meio de onde surgem estas mulheres, que na verdade são como qualquer outra: traçam os seus objectivos e trabalham para isso (do seu jeito, mas trabalham), tem os seus valores, amam a família e tem um passado que pode influenciar quem elas são. Esta pelo menos é a Bontle.

Rica de coloquialismos, a escrita de Ângela é bastante simples e acessível, ao menos tempo de um humor, intensidade e sensibilidade imensos. Poucos autores são capazes disso.

Não foi possível encontrar o livro em formato físico, pelo que, acabamos por consumir a história em formato de áudio. Igualmente prazeroso. Também nos apaixonamos pela capa. Marota, cheia de cores e atraente.

Uma leitura definitivamente recomendável.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas.

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Sobre a autora:

Nascida em Joanesburgo, Makholwa formou-se em jornalismo pela Universidade de Rhodes. Ela foi a primeira escritora negra a escrever ficção criminal na África do Sul (Red Ink). Makholwa seguiu-o dois anos depois com um romance do género chick-lit (the 30th Candle -2009). Seu terceiro romance, Black Widow Society foi publicado em 2013, e o seu último romance, the Blessed Girl, foi lançado em 1 de outubro de 2017.

Livros, Resenhas

Literatura| Na terra dos sonhos, de Agnaldo Bata | Opinião

Autor: Agnaldo Bata

Editora: Alcance Editores

Idioma: Português

Sinopse

Na terra dos sonhos conta a história de Ângela, uma mulher que nasceu numa pequena localidade do distrito de Manjakaze. Ainda nova, Ângela apercebeu-se dos desafios que a sua condição social (Mulher e Órfã) lhe impunham e quando todos pensavam que “sonhar” era o maior insulto que ela podia proferir, contra a moral social que a cercava, Ângela mostra ser forte e com o apoio dos amigos que os espíritos lhe enviam (Gabriel, Sitoe e Edson) dá o máximo de si para vencer cada desafio, sempre movida pela justiça, determinação e a eterna vontade de ver os seus sonhos realizados, o incontornável anseio de chegar à terra dos sonhos.

Opinião:

Justamente quando achávamos que tópicos destes (histórias a volta do êxodo rural, por exemplo) já estavam esgotados, eis que surge um romance com potencial para acrescentar algo mais à discussão. Sobretudo se estivermos a falar de uma história que tem como palco e contexto, o cenário Moçambicano. Mais do que nunca, é importante reflectir sobre os desafios actuais, ter esperança, e sonhar com um futuro melhor. Foi esta a mensagem que nós, como leitores, captamos do livro de Bata.

Através da história de Ângela, e com uma pena visivelmente sensível, o autor mostra-nos a realidade que infelizmente ainda é vivida por grande parte das mulheres moçambicanas, sem acesso à educação, pela sua condição e estatuto de mulher. Ângela, é assim, a grande heroína que nos abraça e nos inspira nesta jornada.

A narrativa socorre-se de uma técnica interessante, um diálogo constante e cruzado, entre os vários narradores que apresentam os seus pontos de vista, desde o médico que cuidou da gravidez da mãe da Ângela, tendo deixado relatos escritos para a rapariga, Ângela, a protagonista e Gabriel, que acaba tornando-se muito próximo de Ângela.

Apreciamos também o facto de o autor ter trazido à discussão questões sociais, como os direitos dos trabalhadores domésticos, o assédio sexual, a desigualdade e o acesso à justiça, e mais ainda, de alguns protagonistas, no final, terem se mostrado extremamente humanos, nas suas virtudes e falhas. Mais fácil, assim, de nos relacionarmos. Ah, e por falar em final, para nós este é o ponto forte do livro. Apesar da certa previsibilidade relativamente ao destino dos protagonistas, o autor trouxe um desfecho inusitado, futurístico, que revela aquilo que é (e se não é, devia ser) o sonho de qualquer moçambicano.

Já a diagramação, é um senão. As folhas largas e a letra pequena tornam a leitura um pouco desconfortável. Nada, porém, que perturbe a experiência e o mergulho na escrita de Agnaldo Bata.

Kudos, por mais oportunidades para todas as “Ângelas”.

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| Madalena – o tradicional casamento sem amor| Opinião

Autor: Hosten Yassine Ali

Edição: 2013

Editora: Edições Esgotadas

Idioma: Português

Compre aqui: Edições Esgotadas

Este livro é uma joia na literatura moçambicana e tu uma pérola de autor: dizer mais é querer dizer o que escreveste, com dignidade, frontalidade, com moçambicanidade

Eduardo White in Madalena, o tradicional casamento sem amor

Opinião:

Que tal começarmos pelo título: Madalena, o tradicional casamento sem amor.

Ora, ora, nós do diário de uma qawwi, leitores teimosos que às vezes levam as coisas ao pé da letra, começamos a percorrer as páginas, à espera de… hum. Talvez uma história que abordasse um casamento forçado, numa sociedade tradicional? Ou então, um casamento de alguma forma “tradicional”?

Bom, a trajectória não é assim tão óbvia. Ao chegarmos à história de Lena (Madalena) e Filipe, deparamo-nos com a primeira de muitas surpresas (se calhar reviravoltas) que nos aguardavam nesta trama. Porquanto o relacionamento entre Madalena e Filipe (assumidos então como casal protagonista) não é desprovido de amor. Pelo contrário, os dois se amam bastante. O problema é outro: Filipe é obrigado a lobolar (ou seja, casar com) Madalena, depois de a mesma estar morta.

Narrando um pouco a trama (mil perdões, caros leitores, pelo pequeno spoiler): Madalena, muito nova, engravida de Filipe, e o seu rigoroso pai a expulsa de casa. Sem tecto, ela vai viver com o namorado Filipe, os dois tentam ser felizes, mas essa tentativa é interrompida quando Madalena morre durante o parto. O pai, que deixara de falar com a filha, retorna o contacto com o genro, e avisa-o que, para que reine a paz entre as famílias, Madalena não poderá ser enterrada, sem que antes Filipe respeite a tradição e oficialize a relação. Desta forma, melindrado pela própria tradição, e pelo sentimento forte que sente por Madalena, Filipe concorda em lobolar a rapariga, mesmo estando esta morta. Eis uma passagem do dilema narrado pelo protagonista:

Não sei realmente o que estou a pensar: na verdade, busco uma solução para que satisfaça ou não a família de Lena e lhes dê o casamento de uma filha morta. Custa-me acreditar que me vou casar com um cadáver, alguém que não fala, que não comerá o bolo de casamento, não beberá espumante, não fará discurso de noiva e, pior que tudo, não me aceitará como as mulheres aceitam os maridos

Avante, o livro não retrata apenas algumas tradições que vincam em algumas famílias moçambicanas. Pelas vozes de outras personagens que vão sendo inseridas na narrativa, ficamos a conhecer histórias e realidades, que fazem parte do cotidiano moçambicano, mas por vezes despercebidas ou até mesmo desconhecidas. É a história do próprio Filipe, forçado a casar em tais circunstâncias. Ou por exemplo, a história daquela titia que revelou grandes segredos da sua intimidade durante a cerimónia que antecede o casamento da sobrinha. É a história de um filho que após tornar-se “doutor”, vira as costas à mãe deixando-a na miséria, e tantas outras peripécias que tornam esta leitura uma experiência única.

O livro torna-se confuso em alguns momentos, em que o narrador, na 1ª pessoa, afasta-se de si, e passa a olhar-se como uma entidade não participante. Nada, entretanto, que atrapalhe o nosso mergulho na distinta escrita de Hosten Ali.

Encontramos também neste livro, uma das diagramações mais bonitas e aconchegantes que já vimos, com a silhueta de uma mulher africana (parecida à capa do livro), dividindo cada capítulo.

Posto isto, convidamos o leitor e embarcar nesta leitura e a descobrir o que trata, de facto, este “casamento tradicional.”

Sobre o autor: Hosten Yassine Ali é moçambicano, natural de Maputo. Abraçou a carreira de official da Marinha no ano de 2008, através da formação na Escola Naval Portuguesa. Publicou o romance Madalena e o livro de crónicas Kurhula, crónicas da cidade de Maputo, sob a chancela das Edições Esgotadas. É fundador dos projectos de acção social “Pequenos Gestos Moçambique” e “Universidade e Rua Moçambicana”. É mestre em ciências Militares Navais e especializado em Administração Naval.

A nossa pontuação: 4.5 em 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| London Cape Town Joburg, de Zukiswa Wanner| Opinião

Autora: Zukiswa Wanner

Edição: 2018

Editora: Paivapo

Idioma: Inglês

Sinopse

Em 1994, o mundo está prestes a mudar. A primeira eleição verdadeiramente democrática na história da África do Sul está prestes a unir a nação de Nelson Mandela nas urnas. E em todo o mundo, aqueles que não puderam voltar para casa, aqueles que não quiseram voltar para casa, esperam e assistem. Martin O’Malley não é um dos que espera e assiste. Ele está muito ocupado, a tentar descobrir se Germaine Spencer está grávida e, de repente, o mundo realmente muda para Martin. Com o seu mestrado da London School of Economics, África do Sul no pós-apartheid parece um lugar onde ele, o seu filho e a sua esposa poderão conquistar tudo. Mas poderão?

Opinião:

Zuko Spencer O’Malley está morto. Morto via suicídio. Na tenra idade dos 13.

O meu filho está morto.

Narra Germaine Spencer, mãe de Zuko. Desculpem se parece spoiler. Não é. É apenas como é introduzida a narrativa deste livro, ou seja, a tragédia que marcará o casal protagonista, Germaine Spencer e Martin O’Malley. Ao longo das páginas, regressamos então, cerca de quinze anos, antes da tragédia, para conhecer a história do casal e os eventos que culminaram na tragédia.

Não é tarefa fácil prender a atenção do leitor dentro do que pode considerar-se uma espécie de flashback, mas neste caso, estamos nas mãos incrivelmente capazes e talentosas da autora Zukiswa Wanner, que nos envolve numa trama arrebatadora. É o tipo de livro que vai arrancar gritos de espanto e de risada, a cada virar da página. A história de Germaine Spencer (uma mulher inglesa, inteligente, feminista e artista) e de Martin O’Malley (um homem sul africano, bem-sucedido, carismático e amoroso) é bastante verosímil. Quem nunca apaixonou-se vai querer fazê-lo, e quem já o fez, vai lembrar-se exactamente de como é, ao ler este livro.

Germaine e Martin tem o tipo de relação que certamente todos casais gostariam de ter, mas sendo um casal inter-racial, acabam por enfrentar os dramas e o choque de culturas, com os quais estamos certamente familiarizados. Nesta ambientação, a volta desta belíssima e inevitavelmente imperfeita relação, a autora vai abordando várias facetas das diferentes culturas e tradições, desnudando ao mesmo tempo, com olhos clínicos, a situação da África do Sul, e alguns problemas sistêmicos, num cenário após o apartheid.

Todas as personagens, desde as principais às secundárias (como Priya, Anil, Soraya, Suf, Giani, Liam, Martin Mtshali e as senhoras do Nomakanjani Club) são incríveis e memoráveis. A trama é tão bem amarrada, que damos por nós, a apegarmo-nos pelo adorável Zuko, ainda que saibamos de antemão, que uma tragédia o espera. Uma experiência e tanto!

A diagramação e paginação do livro são boas, assim como a arte da capa. Todavia, sentimos que o título só faz sentido depois que concluímos a leitura, o que pode, de certa forma, desviar a atenção do potencial leitor.

No geral, foi uma das melhores leituras dos últimos tempos e recomendamos vivamente.

Sobre a autora: Zukiswa Wanner é jornalista e romancista sul-africana, nascida na Zâmbia e agora baseada no Quênia. Desde 2006, depois que publicou o seu primeiro livro, os seus romances tem sido seleccionados para vários prêmios, incluindo o South African Literary Awards (SALA) e o Commonwealth Writers ‘Prize. Em 2015, ganhou o Prêmio Literário K Sello Duiker Memorial pelo livro London Cape Town Joburg. Em 2014, Wanner foi nomeada para a lista Africa39, a qual identificou 39 escritores da África Subsaariana com menos de 40 anos de idade, com potencial para redefinir as tendências da literatura africana. Em 2020, ela recebeu a Medalha Goethe, ao lado de Ian McEwan e Elvira Espejo Ayca, tornando-se na primeira mulher africana a ganhar o prêmio. Zukiswa é também curadora do festival literário online Afrolitsansfrontiers.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

Desabafo de uma qawwi

#35| De volta ao começo: o nosso último abraço

Por Will

É aniversário da minha mulher. Celebro-o como se fosse meu também. Afinal de contas, sinto-me renascido. Aprendi a conviver com os meus medos e esta noite deixei-os todos bem enterrados, no sótão da alma. Um pouco de felicidade não vai fazer-me esquecer as responsabilidades que me esperam. Trampa, destino, eu sei lá.

– O que é se passa, Will? Estás diferente… – confidencia Linan, enquanto dançávamos à média luz das velas espalhadas pela sala.

– Amo-te, Linan. Não posso imaginar a minha vida sem ti. E é só.

No dia seguinte, quando ela começou a passar mal, não me atrevi a mexer no carro. Liguei antes para um táxi. Tinha tudo planeado. Ou quase tudo.

– Respira, meu amor, respira…

Durante a trajectória, senti o meu rosto e o corpo, quentes. Haveria alguma esperança para nós? Se sim, ela parecia soltar-se pela janela, deixando-me num frio abandono. Tive medo. Mas não podia esconder-me. Era quase impossível disfarçar as lágrimas que subiam pelos olhos. Agarrei-me a ela. O futuro do qual Vallen tanto alertou-me, vinha a galope. Só havia uma forma de alterá-lo. Agora compreendi. Venceria a promessa, sim, mas para isso…

O farol do camião deu-nos um banho de luz, e joguei-me por cima da mulher que amo, amparando-a com o meu corpo. Merecíamos um último abraço.

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Literatura| Contos e crónicas para ler em casa Vol. II – Antologia | – Opinião

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Autores: Armindo Mathe, Baptista Américo, Énia Lipanga, Ganhanguane Masseve, Herminia Francisco, Izidro Dimande, Jaime Munguambe, Jessemusse Cacinda, Mauro Brito, Miguel Luís, Miller Matine, Nelson Lineu, Pretilério Matsinhe, Sadya Bulha, Sandra Tamele, Sara Jona, Tassiana Tomé e Teresa Taímo

Coordenação: Eduardo Quive & Mélio Tinga

Edição: Abril de 2020

Revista Literaturas

Baixe e leia o livro Aqui

Opinião

Esta antologia, que conta com a curadoria de Eduardo Quive & Mélio Tinga, é um projecto da Revista Literatas, idealizado para estimular aquela que é uma das principais aliadas nesta época de isolamento social: a leitura. O projecto decorre da publicação de um primeiro volume, bem recebido belos leitores, que em pouco tempo ultrapassou a faixa dos 1.000 downloads (encontre o primeiro volume Aqui).

Nós do diário de uma qawwi, tivemos a oportunidade de conferir os 18 contos e crónicas, de autores moçambicanos, neste segundo volume, todos eles singulares e provocativos, agregando no seu conjunto uma diversidade de temas e sentimentos. Passamos a explorar brevemente alguns deles, sem seguir necessariamente uma ordem cronológica:

Madala” (de Armindo Mate) é um texto leve, familiar, que irá relembrar as nossas vivências.

Ao longo da antologia encontramos ainda temas como a violência doméstica e relacionamentos abusivos, em “tu não vais sair de casa com essa roupa, minha mulher não pode vestir assim” (de Énia Lipanga); idas e vindas, perdas, e complexidades das relações afectivas em “o silêncio cintilante”, “a cábula” e “o que somos nós então”, de Hermínia Francisco, Isidro Dimande e Miller A. Matine, respectivamente.

Também encontramos reflexões sociais em contextos mais actuais, como por exemplo a crónica “um corpo crivado de balas” (de Jessemuce Cacinda) e “a revolução não será viralizada: assuntos domésticos e afectivos” (de Tassiana Tomé).

A sátira espelhada no rosto da nossa sociedade faz-se presente em alguns textos desta antologia como “o anão sobressalente” (uma brilhante proposta de Mauro brito), “há muitas lágrimas nos olhos de Sua Excelência” (de Miguel Luis) e o “bicho bicha” (de Nelson Lineu). Estes textos irão certamente trazer algum calor aos leitores, após as gargalhadas.

E que tal uma história de época, em “estilhaços, memórias de um combatente” (de Pretilério Matsinhe), uma descontraída reflexão sobre as consequências da nova tecnologia no quotidiano, em “Minuto 76” (de Sadya Bulha), ou ainda, uma incursão pela tradição oral, onde muitos irão identificar as suas próprias raízes, em “histórias com sabor a misericórdia: dar atenção aos antepassados” (de Sara Jona)?

A antologia traz ainda “fenestrada” (de Sandra Tamele), um conto de estilo bastante elegante na sua concepção, repleto de referências do mundo artístico; e “o meu “Surge et. ambula” em Chibuto” (de Teresa Taimo), um texto honesto, leve, que reflecte a realidade das redes sociais e que irá identificar muitos de nós. Este conto tornou-se um dos nossos favoritos, ao lado de outros acima mencionados.

A capa do livro e a diagramação são satisfatórias, embora visualmente a arte gráfica do primeiro volume pareça atrair mais a atenção do leitor. Nota-se pequenas gralhas na revisão de um ou outro texto, mas nada que atrapalhe a leitura prazerosa oferecida neste belíssimo projecto.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas

Lançamentos!, Resenhas

Lançamentos e Novidades # Sonolência e alguns rabiscos, de Énia Lipanga

Olá amigos, feliz ano novo, boas energias para 2020!

Aliás, por falar em 2020, ele já entrou para arrasar e estamos aqui hoje para partilhar algumas das estrondosas novidades!

Foi lançado no dia 4 de Janeiro o livro de estreia da activista e escritora Énia Lipanga. Com cerca de 10 poemas, o mesmo não é apenas um livro. É uma verdadeira obra de arte. Editado pela Editora Kuvaninga, a capa é feita em papelão e cada exemplar apresenta uma arte diferente. Ou seja, foi feito um livro único, para cada leitor. Voluntários e amigos da autora participaram na construção desta obra. O mais surpreendente, entretanto, é que este é o primeiro livro em Moçambique produzido em texto e em braille. Afinal, Énia é pelo amor e a inclusão.

Refira-se também que a tiragem inicial esgotou no dia do lançamento

Confira um dos poemas:

Revolta

Dorme meu mundo

Uma repetida agitação

Nada se cala

Pois há gritos enterrados em mim

Soneco nos becos do meu subconsciente

Mas tenho uma revolta presente

Que me desperta

Sacode minha lentidão

Em mim, sonolência nenhuma reside

Livros, Resenhas

Literatura| O regresso do descontente, de Teresa Taímo|Opinião

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Sinopse

“O regresso do descontente é uma obra de caris multicultural, que tem como pano de fundo a área militar, e retrata a vida de dois jovens de regiões, culturas e posições sociais diversas de Moçambique. Eles veem-se na contingência de partilhar hábitos, costumes e crenças de ambos, influenciando-se entre si e conciliando o seu modo de vida no ambiente em que se inserem. Nesta convivência, encontra-se, por um lado, Pedro Costa, filho de Ministro, jovem mimado e abastado, que nasceu e cresceu na cidade capital e nunca teve contacto directo com a cultura dos seus ancestrais. Por outro, Murimane Mavile, descendente de camponeses, de origem bastante humilde, cujo o passado se resumiu ao trabalho em prol dos seus ascendentes. Conhecedor da tradição do seu povo como ninguém, acumulou experiências que o tornam ancião em corpo jovem. Os dois jovens destacam-se como protagonistas desta estória que cruza classes sociais e revela claramente as consequências que podem adir da estabilidade financeira ou da sua carência nesta faixa etária. As tradições conjugadas, os tabus e mitos da vida militar que o tempo não conseguiu apagar, fazem entre as linhas sagradas deste romance que em muito nos irá identificar”

Opinião

Trata-se do livro de estreia de Teresa Taímo e saí pela chancela da Editora TPC. A narrativa que nos é aqui proposta, é conduzida de forma bastante segura e prende de imediato a atenção do leitor. A autora cria um universo onde explora de forma bastante vívida o ambiente da vida militar, os laços que se podem formar neste contexto. Em forma quase que de ironia, o livro nos remete à reflexão sobre como as nossas escolhas e respectivas consequências podem marcar irreversivelmente as nossas vidas. O realismo e a fantasia também cruzam-se nesta novela, da qual ilustramos a seguinte passagem:

Ao som dos tambores da comunidade e aos gritos dos soldados do quartel que comemoravam a chegada dos mancebos. Iniciava o ritual, segundo o qual, em fila indiana, os mancebos caminhavam sobre a ponte, enquanto os crocodilos circulavam atentos e ávidos para retirarem da ponte todos impuros. Nos dias da realização deste ritual, o dia virava noite, ventos fortes acompanhados por chuvas e relâmpagos inquietos à mistura com a batida de tambores, e canções dos curandeiros, faziam o terror dos mancebos, que enquanto caminhavam sobre a ponte colocada no rio, os crocodilos tiravam quantos quisessem a título de inaptidão.

Tanto quanto dramática, quanto bem humorada, o livro traz diálogos e personagens memoráveis. A determinada altura, a história de amizade de Pedro Costa e Mavile, foco principal, parece passar para um segundo plano. Isto acontece porque a cena inteira é roubada pelo diabólico “fantasma”, a verdadeira estrela, que une os pontos e os dois universos explorados na novela.

A escolha da capa é adequada, pese embora pudesse ter sido um pouco mais trabalhada a nível gráfico. A diagramação é igualmente satisfatória.

A Autora de “o regresso do descontente” é extremamente talentosa, e veio enriquecer as vozes da literatura moçambicana. Recomendamos a leitura.

Sobre a Autora:

Teresa José Taímo nasceu no Distrito de Chibuto, na Província de Gaza aos 21 de Fevereiro de 1992. Durante a sua infância foi presidente do Parlamento infantil a nível da Província de Gaza e membro da comissão permanente no parlamento nacional. Pertenceu à vários grupos e movimentos artísticos culturais e sociais e é licenciada em Gestão e Estudos Culturais. Teresa é actualmente membro da FADM, sócia fundadora da “Iniciativa Teresa Taímo e amigos”, activista social e pesquisadora cultural. Esta é oficialmente a sua primeira viagem literária.

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas

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Lançamentos e Novidades # Editora Trinta Zero Nove

Olá amigos planetários,

Foram lançadas ontem, 30 de Setembro (dia internacional da tradução), pela Editora Trinta Zero Nove, três obras traduzidas de diversas línguas para português: Eu não tenho medo, romance de Niccoló Ammaniti (Itália); No oco do mundo, colecção de contos traduzidos no Concurso de Tradução Literária 2015 – 2018; e A perseverança, poesia de Raymond Antrobus (Reino Unido).

A Editora Trinta Zero Nove é a primeira Editora vocacionada para publicação de tradução literária em Moçambique e foi vencedora do 2º Prémio da Incubadora CREATEC (Indústria Criativa e Negócios Digitais) em 2019.

Apelando a leitura global e inclusiva, as obras são acompanhadas por audio books em CD. Mas os livros não são apenas abrangentes. Eles presentam-se num acabamento refinado e elegante, a um preço acessível.

A cerimónia aconteceu na sede do BCI, em Maputo, com diversos momentos culturais (incluindo uma peça teatral do grupo Inversos), tendo inclusive sido feita a entrega dos prémios aos vencedores da 5ª edição do concurso de tradução literária.

Confira aqui no site da editora as obras lançadas:

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