Histórias

Sussurro em Maputo

(parte 1)

Era uma noite de quinta-feira no subúrbio da Mafalala, cidade de Maputo, e caia uma chuva miúda. Dona Flávia e seu filho Chelton, jantavam em silêncio, sob a luz tímida de um candeeiro, quando este fez soar, pela primeira vez, a pergunta sobre os qlubs e se ela conhecia uma tal de Linan. A mãe estranhou. Fitou-o por um instante, como quem tenta decifrar uma frase dita noutra língua, mas ignorou. Continuou a comer. Crianças, afinal, fazem perguntas estranhas — às vezes sem nexo. E deu ordens para que o miúdo continuasse a comer, desviando-se daqueles olhos inquisidores que, subitamente, pareciam ter aumentado de tamanho.

Foi deitar o miúdo ainda com um aperto no peito, um desconforto sem causa aparente. Na manhã seguinte, o episódio já estaria esquecido, não fosse uma eventualidade. A vizinha comentou, um tanto nervosa, que a filha, Malissa, fizera exactamente a mesma pergunta.

— Deve ser amante do Moisés — disse, justificando, assim, a briga que desencadeou com o marido.

Entretanto, o detalhe que gelou o sangue de Flávia veio depois: fora à mesma hora; Com o mesmo tom de voz e com os mesmos olhos enormes.

A partir daí, a estranheza começou a ganhar corpo. Flávia passou a conjecturar, oscilando entre explicações banais e hipóteses antigas, herdadas do medo e da tradição; aquelas histórias em que o mundo visível é apenas uma franja sobre outra realidade mais funda. Mais tarde, soube-se que todas as crianças da zona haviam perguntado pelos qlubs e por uma senhora chamada Linan. Mesmas palavras; Mesmo tom; Mesmo horário. Como se alguém, algures, tivesse apertado um mesmo botão. Enfim, já não era apenas a dona Flávia que se inquietava.

Houve quem levasse os filhos a consultórios clínicos, onde os especialistas levantavam várias hipóteses: histeria coletiva, contágio psíquico, lapsos da mente infantil. Outros recorreram a curandeiros, pastores e rezas improvisadas feitas à noite. Ao cabo de três dias, o caso tomava as televisões nacionais, e toda cidade de Maputo se via diante de perguntas que ninguém sabia responder: afinal, o que são os qlubs? E quem é Linan?

Nas redes sociais surgiram Linanes de todo o lado fazendo lives explicativas, angariando vários seguidores. Algumas afirmavam reconhecer o nome em sonhos antigos. Outras diziam ter ouvido falar dos qlubs em lugares onde nunca estiveram. Houve, também, detenções, não por crime, mas para proteger certas mulheres — de nome Linan— da fúria popular. A cidade das acácias fervilhava, como se tivesse sido tocada por uma vibração misteriosa que, nas noites, atravessava os bairros, tomava as crianças e fazia-as repetir, num coro inquietante, as mesmas perguntas:

— Onde estão os qlubs? E onde está a Linan?

Na outra extremidade do globo, uma secretária do famoso astrofísico desaparecido, Doutor Ludwig Harmistrong relatava, perturbada, sobre um jantar envolvendo o astrofísico e um ser extraterrestre que se apresentara como Vallen. Também ele perguntara pelos qlubs e pela Linan.

O episódio teria sido arquivado como delírio, não fosse um jornalista ter ligado aquele relato aos acontecimentos recentes de Maputo. O padrão era demasiado preciso para ser coincidência. Alguns passaram a falar de um retorno. Outros diziam tratar-se de mais um capítulo do já esquecido caso do ET da Virgínia.

Enquanto isso, as crianças em Maputo continuavam a perguntar. Como se respondessem a um chamamento transcendental. A Dona Flávia notara, porém, que ao cabo de alguns dias, a tonalidade mostrava-se progressivamente mais violenta.

— Onde estão os qlubs? —  gritava o miúdo — E onde está Linan?

— Mas quem és tu? — disse Flávia, exausta — apresente-se e eu digo o que desejas.

— Ora… ora.. —  respondeu a voz, rindo —  eu sou o Vallen. 

Vallen, o Qawwi

Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | A Confissão da Leoa, de Mia Couto | Opinião

No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.

“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”

Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.

Classificação: 5 em 5 pontos

Por Virgília Ferrão

Histórias

Ice North: O Amor em Extinção no País Mais Jovem do Mundo

Em Ice North, a revolução não traz megafones nem bandeiras.

Chega como o frio: devagar, cortante e, por isso mesmo, imparável.

Não é uma revolução. É uma substituição.

Silêncio no lugar do afecto.

Ausência no lugar do desejo.

Cálculo no lugar da paixão.

Tudo acontece assim:

primeiro vem a independência financeira.

Depois, o corpo.

Por fim, a alma.

As mulheres de Ice North conquistam tudo.

Ocupam posições de liderança. Criam rotinas de luxo. Mantêm corpos esculpidos.

Sustentam a auto-estima entre estética e disciplina.

A beleza não é vaidade.

É competência.

Rostos bem cuidados. Formas firmes.

Um estilo lapidado com precisão cirúrgica.

A estética é tanto um activo como um escudo.

O país prospera.

A taxa de desemprego mantém-se em apenas 2%.

Tudo funciona suavemente.

Eficientemente. Belamente.

E os homens?

Não desaparecem — apenas deixam de ser indispensáveis.

E, quando algo deixa de ser essencial… começa a desaparecer.

Hoje, em Ice North, há um homem para cada vinte mulheres.

E, nem todos estão disponíveis ou interessados.

Alguns tornam-se celebridades acidentais.

Outros, troféus emocionais.

Muitos simplesmente… retiram-se.

Não fisicamente, mas simbolicamente.

Um homem é um luxo emocional.

Ter um companheiro significa estatuto.

Ter uma relação significa vitória.

Lauren, Shelley, Madeleine

Lauren, 42 anos, executiva de tecnologia, lidera uma empresa global.

Ao jantar, serve duas taças de vinho. Uma fica intocada, como um brinde ao que não veio.

“És incrível. Mas não tenho energia para encaixar a tua vida na minha.”

Ele diz.

Ela ouve o golpe como quem ouve gelo a partir — não pelo som, mas pelo silêncio depois.

Shelley, 28 anos, consultora financeira, ajusta o perfume, a voz, os temas — tudo calibrado para criar ponte.

Cada encontro é uma negociação emocional.

Sai com a sensação de ter fechado um contracto. E, como sempre, o este não inclui amor.

Madeleine, 46 anos, ex-advogada, recusa o jogo.

Vive com duas amigas.

Adopta uma criança.

Constrói um lar com afecto, mas sem moeda de troca.

“Não é que não queiramos homens.

Simplesmente deixámos de acreditar que eles nos completem.”

Para a cidade, são rostos que passam na multidão.

Entre si, são um refúgio.

A economia do afecto

A escassez cria um mercado.

Consultoras de imagem emocional.

Estilistas do desejo.

Estrategas da sedução.

“A atracção é ciência.”

Manter um homem por seis meses dá manchete.

Alguns trabalham como acompanhantes de luxo.

Outros desaparecem.

Poucos ainda procuram amor.

A maioria gere a própria raridade com habilidade.

“Agora somos nós que escolhemos”, dizem.

E escolhem.

Ou recusam.

As que permanecem imóveis

Nem todas competem com charme ou estatuto.

Algumas voltam-se para dentro.

Meditam ao amanhecer.

Equilibram emoções não para impressionar, mas para permanecer inteiras.

Leem. Escrevem.

Cultivam presença mais do que aparência.

Num mundo treinado para gritar, tornam-se mestres do silêncio.

Entre os poucos homens que ainda procuram ligação,

a inteligência e a serenidade são magnéticas.

Não é o rosto mais afiado que atrai, mas o olhar mais calmo.

Não é a resposta perfeita, mas a pergunta feita com profundidade.

“Ela não tentou conquistar-me”, diz um homem.

Os 10%

Noventa por cento dos homens declaram estar satisfeitos com a sua vida emocional.

E os outros dez?

Dividem-se entre cansaço, desinteresse, timidez… ou simplesmente abandonam o jogo.

Samuel, 40 anos, gestor de  propaganda de produtos médicos e de beleza.

“Elas querem intensidade.

Eu só quero paz.

E, às vezes, paz significa estar sozinho.”

Um Lugar Chamado Depois

O amor ainda existe em Ice North.

Mas chega tarde, devagar como um comboio que já não tem pressa.

Às vezes aparece num gesto distraído.

Noutras, numa frase que não foi pensada.

Quase nunca onde foi prometido.

Agora, amar exige um tipo de entrega que poucos lembram como se faz.

Não é resistência: é deixar cair o cálculo, a estratégia, a pose.

Talvez o problema nunca tenha sido a ausência de homens.

Talvez tenha sido a ausência daquilo que, antes de sermos marcas e métricas,

nos fazia humanos.

E se o maior acto de todos for amar… sem planear?

Em Ice North, poucos tentam.

Mas os que tentam,

mesmo que por um instante,

fazem o frio recuar.

Por Roberto Júnior

Versão inglesa publica no Medium em:

Ice North: Love in Extinction. “Ice North: the country where love and… | by The Cysne | Jul, 2025 | Medium

Lançamentos!, Livros

Chamada para publicação de autores portugueses e Moçambicanos

Chamada para publicação de autores portugueses

Antologia Espíritos Quânticos Volume 3: Ficção Especulativa Moçambique – Portugal

O Diário de Uma Qawwi é um blog literário moçambicano criado em 2018 e registado em 2021 como editora independente. Desde a sua criação, o blog tem se dedicado a apoiar o desenvolvimento de novas formas de produção literária, com especial ênfase na ficção especulativa. A antologia Espíritos Quânticos nasceu com o intuito de mostrar que o continente africano também é lugar de futuros imaginados, mundos fantásticos, tecnologias avançadas, sociedades utópicas e distópicas, com narrativas contadas a partir de uma linguagem e identidade cultural próprias. A antologia conta até o momento com dois volumes e perto de quarenta e cinco nomes da literatura africana, incluindo Carlos dos Santos, Déborah Cardoso Ribas, Lucílio Manjate, José Luís Mendonça, Nick Wood, Mélio Tinga, Mia Couto, Vera Duarte, Wole Talabi e Zukiswa Wanner.

Entretanto, desde a sua origem, também era ambição deste projecto, expandir-se para além do continente africano. Acreditamos que a língua portuguesa é um território fértil para este género e, finalmente temos a oportunidade de concretizar esta aspiração. Espíritos Quânticos Volume 3: Ficção Especulativa Moçambique – Portugal, pretende unir vozes de autores destes dois países, criando um diálogo intercontinental que enriqueça este género literário.

Neste contexto, o Diário de Uma Qawwi convida a qualquer escritor/a português/a e qualquer escritor/a moçambicano/a interessado/a, com ou sem obra publicada, a submeter um conto para este projecto, desde que escreva (ou seja traduzido) para a língua portuguesa. Nesta chamada serão seleccionados entre quatro (4) a seis (6) autores/as.

Termos e condições desta chamada:

  1. Os contos submetidos devem ser inéditos, em formato word, com o máximo de 10 (dez) páginas, em A4, Times New Roman 12, espaço 1.5.
  2. Os contos podem ser escritos em qualquer gênero ou subgénero literário, desde que contenham elementos da ficção especulativa, podendo incluir ou misturar, não se limitando, os géneros da fantasia, ficção científica, terror sobrenatural, história alternativa, afrofuturismo, utopias e distopias, cyberpunk, black-tech, entre outros.
  3. Os autores poderão submeter o seu texto a partir do dia 1 de Maio até o dia 30 de Julho de 2025, preenchendo o formulário e os dados indicados no link bit.ly/EspiritosQuanticosV3
  4. A análise das submissões será conduzida por uma equipa do Diário de uma Qawwi e os autores seleccionados serão contactados por email até o dia 15 de Agosto de 2025. O resultado da seleçcão será igualmente divulgado no blog do Diário de uma Qawwi.
  5. A antologia será publicada pelo Diário de uma Qawwi e comercializada em Moçambique e em Portugal.
  6. Cada autor seleccionado terá direito a um honorário simbólico correspondente a 12 euros e a um exemplar grátis da antologia. Os exemplares poderão ser levantados pelos autores nos locais em Moçambique e em Portugal, a serem indicados aquando do lançamento da antologia, previsto para o ano de 2026.
  7. Para quaisquer dúvidas, entre em contacto através do email diariodeumaqawwi@gmail.com.

Acesse ao formulário de candidaturas pelo QR code abaixo ou no link bit.ly/EspiritosQuanticosV3

Maputo, aos 21 de Abril de 2025,

Diário de Uma Qawwi

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | Um Herói que Não Existe, de Zaiby Manasse – Opinião

Sinopse

“Womelo é um país mergulhado no caos. Uma onda de raptos assola a elite sob os olhos impávidos de uma autoridade que parece não saber por onde começar a combater esse mal. Todos os dias ouve-se que em algum ponto de Womelo alguém foi raptado e nos jornais a canção da polícia parece um disco arranhado, repetindo o mesmo ponto: “estamos a trabalhar no assunto”. Nesse caos, surge como que uma providência divina um herói que parece adivinhar onde e quando irão acontecer os raptos. Esse herói, munido de um senso de justiça vindo de um mundo cinematográfico, extermina de forma brutal, macabra e grotesca todos os raptores e sai de cena como se nunca tivesse estado lá.

A polícia que devia ser apoiada por esse ser que divide opiniões na comunidade, inicia uma caça desenfreada para encontrar o herói anónimo. Ta centro vê-se preenchido por Catamo, um psicólogo clínico que ousou publicar algumas linhas sobre o herói nas suas redes sociais, tornando-o o principal suspeito.”

Opinião

Faz muito tempo que andava ansiosa para ler Zaiby Manasse, que assina nas redes sociais como Aladino O Diferente. Com três romances e dois livros de poesia publicados, Zaiby Manasse é conhecido não apenas pelos livros que escreve, mas também pela partilha das suas opiniões sobre os livros que lê. Para quem segue as opiniões deste autor, a curiosidade em conhecer o seu trabalho é naturalmente premente, pelo que, não fugi à excepção, e sem saber exactamente o que esperar, pude finalmente embarcar em “O Herói Que Não Existe”.

Que viagem!

A narrativa policial apresentada nesta obra segue Catamo, um jovem que luta para encontrar emprego na sua cidade, na área da saúde. A vida de Catamo sofre uma reviravolta quando ele testemunha uma tentativa de rapto de uma criança, rapto este que é travado por uma figura misteriosa. Não vou detalhar o resto da história, até porque a sinopse é suficientemente esclarecedora, mas digamos que as reviravoltas e o suspense desenvolvidos no enredo conseguem manter o leitor agarrado às páginas até o fim, e talvez poucos consigam prever o que de facto está em causa no enredo.

Um dos aspectos que achei mais marcantes no livro é a ambientação. Zaiby Manasse decidiu criar uma cidade e país fictícios, trazendo várias alegorias e anagramas, mas qualquer pessoa familiarizada com contextos debruçados na corrupção, o crime organizado e as desigualdades, facilmente reconhecerá os comentários sociais descritos na obra.

Confesso que a ideia do autor lembrou-me a abordagem de algumas obras cinematográficas, incluindo o filme “Identidade (2003)”, um dos meus filmes favoritos, baseado num dos romances mais importantes de Agatha Christie, “E não sobrou ninguém”. Enquanto a grande mestre do romance policial entrega uma resposta intricada quanto à “identidade do assassino”, vamos assim dizer, Zaiby segue um caminho diferente, com uma reposta de execução mais fácil, mas mesmo assim, capaz de fazer o leitor questionar constantemente aquilo que está a ler e surprender-se. Trata-se certamente de um narrador bastante competente para a tarefa a que se propôs. Recomendo vivamente a leitura!

Sobre o autor

“Zaiby Husay Gulamo Manasse (1989) também conhecido por Aladino o Diferente, é natural de Maputo. Escreve poesia e prosa. É licenciado em medicina geral pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio e trabalha como médico. Publicou dois livros de poesia, nomeadamente: “O mel do meu passado presente”, e “Devaneios ensanguentados pela globalização”; e dois romances “A caneta do balcão 1” e “o entroncamento”.

Resenha de Virgília Ferrão

Livros, Opiniões, Resenhas

O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini | Opinião

Autor anónimo

Primeira obra do escritor afegão Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas conta a história de dois meninos de etnias diferentes: um era Patswns e o outro Hazara. Esse último era filho do criado da casa, e amigo fiel do seu patrão.

Os dois foram criados como irmãos. Amir era frágil e gostava de ler, enquanto que Hassan, o Hazara, era um analfabeto e gostava de ouvir as histórias que seu amigo lia para ele. Foram, durante muito tempo, grandes amigos, até que num dia em que havia um torneio de pipas, Amir vence. Mas, para legitimar a sua victória tinha que ter a pipa vencida.

Hassan foi atrás, e ele era bom em caçar pipas. Porém, quando finalmente achou a pipa ele é cercado por um grupo de meninos que não gostavam dele e nem do Amir, o qual já lhes havia ameaçado antes. Esse grupo encurralou o Hassan e abusou-o sexualmente. Enquanto isso, o Amir assistia escondido num beco.

Esse acto macabro mudou drasticamente a relação que existia entre os dois.

Amir vivia com peso na consciência e já não conseguia olhar para o Hassan sem que o sentimento de culpa viesse à tona.

Então, ele afastou-se e fez de tudo para que o pai os mandasse embora, só para não ter que cruzar com ele pelos corredores. Depois, armou uma armadilha, meteu dinheiro e um relógio novo nas coisas de Hassan para que este fosse acusado de roubo. Até porque o pai de Amir estava disposto a perdoar. Mas, Hassan e seu pai preferiram abandonar a casa.

Depois de um tempo veio a guerra, Amir e seu pai acabam se refugiando nos Estados Unidos da América. Amir casou-se com Soraya, que depois de tantas tentativas não conseguiu engravidar. Ele passou a viver da escrita, pois tinha, até aquela época, tendo lançado 4 romances.

Amir recebeu um telefonema de um antigo amigo do seu já falecido pai, que se encontrava em Paquistão. Este contou-lhe que o Hassan e sua esposa tinham sido mortos pelos talibãs e que  tinham deixado uma criança, de nome Sohrab.

Amir teve que enfrentar a guerra dos talibãs para resgatar Sohrab e levá-lo consigo para os EUA.

Ele e Soraya adoptaram o menino, e esse acto todo serviu para que Amir se perdoasse e tirasse o peso que tinha nas costas de tudo o que acontecera em Cabul entre Hassan e ele.

Em linhas gerais, a obra é sensacional. Ela vem descortinar aspectos de descriminação étnica e de género.

À semelhança do que o autor nos apresenta na obra A cidade do Sol em relação ao tratamento que é dado a mulher em Cabul, nesta obra ele traz a figura de Soraya, que passou anos sendo apontada o dedo por um erro que cometeu no passado e, em contrapartida os homens podiam meter-se com mulheres sem que ninguém dissesse nada.

O pai de Amir envolveu-se com a esposa do seu empregado e dessa relação nasceu Hassan, filho este que o pai não teve coragem de assumir. Na figura da Mãe de Soraya, também o autor traz-nos a mulher submissa, sem vontade própria que só pode agir de acordo com as vontades de seu marido.

Mas, o mais impactante foi a descriminação feita aos Hazaras. É lamentável o facto de alguém ser condenado à morte só por ser de uma determinada etnia.

Contudo, é uma história cativante e com elementos que nos fazem saber um pouco mais sobre os hábitos do povo afegão.

Num país em guerra podem haver muitas crianças mas, poucas delas têm infância.

Desabafo de uma qawwi

Reza Por Moçambique, Will

Fonte de Imagem: Freepik

Há uma corrente fria rasando no átrio do prédio. Pensei que pudesse sair para apanhar um pouco de ar. Mas depois do segundo disparo, estava eu a correr. Nem vi o elevador aberto. Quando te convidam a correr pela vida, nada fica ao teu alcance, nem mesmo o que devia ser óbvio.

Chego ao 9º andar e da varanda olho para a cidade, do alto que me permite um vislumbre panorâmico. De um lado a estátua de Samora Machel, que se mantém muda. Envolta a tanto gás que se levanta, estão paralisados os seus músculos de ferro. De outro lado, uma fila de multidão. A polícia dispara contra a multidão. Contra cidadãos, contra sonhantes ambulantes. Para mostrar a outros cidadãos, que tão depressa os seus sonhos serão pesadelos. Mas não são todos cidadãos? Não somos todos? E todos somos sonhantes. E não importam os lados, ou as divisões, ninguem está imune.

Entra, Linan pede-me Will, de pé na porta. Ele é um tipo tranquilo, mas vejo um rastro de preocupação traçando o seu rosto.

Will, e os protestos?

Não é seguro.

Não é seguro. Nada é seguro, concluo.

Aqui em cima, neste 9º andar, o gás não chega até nós; dispersa-se como os pássaros perdidos no vento. E, no entanto, as pessoas lá em baixo o encaram de frente, com as crianças que faltam à escola porque não há escolas para ir. As mães marcham porque não têm comida para alimentar os filhos. E, entretanto, quanto mais marcham, mais as prateleiras ficam vazias. As cidades suspensas no tempo, a economia ruindo no pendulo, o vento indecidido. E nos esquecemos que magoar o próximo, é magoar a si próprio. Pedras arremessadas tornam-se pedras em ricochete.

Will sempre se posicionou contra a violência, acreditando em palavras e não em punhos cerrados. Ele também não era do tipo que se aprofundava na política. Para ele, a política e a religião carregam o risco de dividir as pessoas, mostrando as fragilidades das nossas relações, como as rachas que aparecem na loiça. As nossas conversas às vezes complicavam-se, pois eu, como alienígena que sou, ainda luto para entender a lógica humana por detrás de algumas coisas. Este vácuo, por exemplo. A acappella das panelas nas varandas, que gritam porque há silêncio. Tudo isto ultrapassa qualquer orientação política ou crenças pessoais que eu possa ter.

Isto não faz sentido!

Senta-te Linan. E respira pede-me Will, com a voz calma de sempre. Às vezes é tudo o que podemos fazer. Respirar. Orar.

Porquê? Por que é que não estamos a ouvirmo-nos? Por que é que não estamos a dialogar?

Talvez porque reconhecer a dor significa assumir a responsabilidade por ela – responde-me Will com os olhos distantes. Não te revoltes, Linan, nem tomes lados. É preciso apurar a verdade. E agir de acordo com ela.

Eu não tomo nenhum lado, Will. Eu sou pela união. Sou por Moçambique. Afinal, somos todos humanos. Somos todos um só país, certo?

Ele não me responde. Faço uma pausa, antes de murmurar:

Como é suposto eu agir?

Oh Linan. Will segura-me a mão. Melhor é continuares a missão que te trouxe a este planeta. Ser paz, ser luz, ser justiça. É isto que devemos todos fazer. Amar uns aos outros.

O coro de panelas persiste nas janelas. Já não se assiste Moçambique em Concerto na TV. Alguém, por favor, resgate os CD’s de Miriam Mabeka. Imagine um mundo onde reina a união, onde ninguém fica com fome ou é esquecido. Onde não há mortes. Estou a imaginar como John Lennon fez. Mas, por enquanto, é apenas um sonho. Na realidade, o edifício desmorona sobre mim e, com ele, os próprios alicerces da minha alma.

Então, de repente, acordo. Estou encharcada de suor, com o coração disparado. Foi apenas um pesadelo. Sento-me na cama, desorientada, olhando em volta. A minha casa está intacta, a rua tranquila sob o romper do sol. Mas Will… a cama vazia responde-me. Will não está aqui. Há muito que ele deixou este mundo. O seu espírito escolheu dar a vida por amor. Um sacrifício que nunca esquecerei. Sinto a sua falta. Mas tal como o seu amor falou mais alto, também fala alto o meu amor por este país. Fala mais alto a minha fé, que se enraíza teimosa como fechadura encravada.

E nestes momentos de dúvida, só uma coisa me mantém com os pés no chão: saber que, mesmo na escuridão, a luz da esperança cintila. Saber que Deus prevalece sobre todo o Universo, e que a Sua Vontade se cumprirá. É preciso ter calma. Se Will estivesse aqui agora, ele simplesmente me diria: “Espera, Linan. Mesmo quando a noite parece interminável, o amanhecer sempre chega. Não te esqueças de orar.”

Volto-me para o céu, e com as mãos juntas sussurro: “Will, onde quer que estejas, ora por nós. Ora por Moçambique. Ora para que encontremos coragem para amar, para sonhar, para abraçarmo-nos. Levantarmo-nos e todos juntos curarmos este país.”

Linan, a Qawwi

Livros, Opiniões, Resenhas

Vestígios do Silêncio, de Amosse Mucavele

Por Domingos Mucambe

Um livro é uma viagem; e um livro de poesia é uma viagem para um destino incerto. Ao ler Vestígios do Silêncio perpassam-nos muitas ideias- às vezes contrárias umas das outras- mas, a profundidade mostra-nos um abismo que, adentrando nele, acabamos perdendo-nos. Parafraseando Nietzsche: “não se olha tanto tempo no abismo sem se tornar, por consequência, num outro abismo.” É nessa aventura abismal que nos sentimos quando lemos os poemas curtos, outros com apenas uma única estrofe de Amosse Mucavele, em Vestígios do Silêncio, publicada pela primeira vez em 2022.

A obra, longe de ser um conjunto de poemas colocados arbitrariamente, assume uma posição de melancolia – não há réstias de esperança em cada palavra impressa a preto no papel branco. Saímos do desespero, passamos por saudades carregadas pelos ecos do silêncio, adentramos na profunda solidão que cai dos céus de forma sólida, quando lhes dá atributos de “granizos”, e chegamos também na vila “dos que amam a morte”. A cada fim de um verso julga o peito que há nessas linhas, um mundo ainda por se (re)descobrir, onde as palavras parecem efémeras.

As 52 páginas do livro dividem-se em quatro partes indistintas. Primeiramente, as composições têm nomes de lugares e infra-estruturas, mas essas têm aspectos de vivo, com alma e espírito. Tais lugares e infra-estruturas ora são abatidos pelo silêncio da saudade ora são combalidos pela “fria solidão”. Esse desviar do lamento do Eu lírico para objectos com sentimentos, memórias e sonhos, não nos impede de reflectir em nós mesmos as dores do “Fragmento de um suicídio”, onde nos remete a questão da “extinção” que será volátil ou mesmo da “ternura da corda que incendeia a ausência”.

As partes todas são acompanhadas por fotografias com um aspecto sombrio, e um sinal claro de “silêncios”. Adentrando nas fotografias, estendemos o significado de silêncio, que é a ausência de barulho (som), para ausência de almas e de vida. A ausência, o vazio, o abandono são imagens que nos ocorrem na cabeça. Essas imagens de ruínas, definham os nossos sentimentos e, apoiando-nos a esses sentimentos, experimentamos o silêncio e o vazio que nos preenchem os espaços que partilhamos com os outros.

 A primeira parte é “Variações Sobre o Mapa”. Além do “Fragmento de um Suicídio”, também visitámos a “Fábrica Braço de Prata”, que também se silencia no “corpo do abandono” e chora “’os retalhos da decadência”.

Depois segue-se “Das Ruínas vê-se o Mundo”. Com palavras e versos, faz-se um remember the time da Vila do Algarve I, II, III, mas também temos o Cinema Império, que se “desola à beira de um país”. Depois desse capítulo temos a “Elegia da Ruína” e, no fim, temos “Construções Ocultas”, que no lugar de serem erguidas vão-se ocultando no silêncio, ou nas cerimónias fúnebres do tempo, ou até na destruição de um edifício, ou de nós mesmos.

As metáforas usadas são complexas e eruditas, dificultando a compreensão do texto na sua integridade. Então, de que integridade se deve trajar um poema? Para quê se explicar um poema? Ela só é útil quando lhe dá um soco no estômago, e deixa cair a máscara como escreveu Hilda Hilst (in eu sem poesia). E isso nos parece, na verdade, cada verso que lemos, uma boa bofetada na boca do estômago.

A linguagem nos remete sempre a um sonho, um lugar onde o onírico encontra-se com a realidade. Mas, como casamento entre o consciente e o inconsciente de Freud, a realidade perde suas forças, e é engolida pelo sonho. A forma como junta as palavras criando versos loucos e doentes, mostra muito desse seu lado embriagado de ser.

Amosse Mucavele trouxe-nos um escrito com um outro sentido de poesia, aliás, muito mais poético. Diz sem dizer. Nesse pequeno livro tudo é embriagado. A primeira leitura é enganosa, a segunda aterra-nos sem segurança, e é na terceira onde enxergamos, com olhos já doentes, os vestígios de silêncio.

Livros, Opiniões, Resenhas

Três Maneiras de Exclusão nos Três “Diamantes Pretos no Meio de Cristais”

Por Domingos Inácio Mucambe

Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).

A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.

O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.

Juno em Kansas (1856)

No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.

Anna na Cidade do Cabo (1961)

Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.

Elvira em Maputo (2001)

Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.

Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.

A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?