Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura| An American Marriage (Um Casamento Americano), de Tayari Jones | Opinião

Autor: Tayari Jones

Editora: Algoquin Books

Idioma: Inglês

Sinopse

Os recém-casados ​​Celestial e Roy, são o protótipo do sonho americano. Ele é um jovem executivo e ela uma artista na fase inicial de uma carreira empolgante. Mas à medida que se estabelecem na rotina da vida a dois, eles são dilacerados por circunstâncias que nenhum dos dois poderia ter imaginado.

Roy é preso e condenado a 12 anos, por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu. Apesar de ser uma mulher forte e independente, Celestial se vê desolada e desamparada, consolando-se com André, seu amigo de infância e padrinho de casamento. O tempo de Roy na prisão vai passando, e Celestial é incapaz de manter o amor que sempre foi o seu centro. Porém, ao final de 5 de anos, a pena de Roy é subitamente revertida e ele volta para Atlanta, pronto para retomar a sua vida ao lado de Celestial.

Opinião:

A história intercala a narração dos protagonistas, nomeadamente Celestial, Roy e André, uma técnica que empresta uma dinâmica bastante interessante à narrativa, e que acaba por ser efectiva. Foi uma boa decisão da autora mostrar os diferentes pontos de vista dos personagens, pois sem a persepctiva de Celestial, o leitor estaria mais propenso a criar certa animosidade ou até mesmo a ter uma recepção negativa para com esta personagem.

An American Marriage, apresenta-nos uma trama honesta e impactante, escrita de forma belíssima, não apenas sobre a realidade do sistema social e político da região em que se desenrola, mas também dos valores matrimoniais, expostos à condição essencialmente humana. Com o marido na prisão, Celestial, que não esperava ver-se tão cedo sozinha, acaba por envolver-se com André, seu amigo de infância. Mas Roy, inocente, ao ser libertado, deseja regressar à vida de casado com Celestial, formando-se aqui um triangulo amoroso complicado e doloroso. Somos levados assim, a reflectir, sobre até que ponto conseguimos cumprir as promessas consideradas sagradas e até mesmo inquebráveis.

Um história, em última análise, melancólica, sobre como uma injustiça social pode abalar a vida pessoal, e sobre como dinâmicas inesperadas podem sobrepor-se aos votos matrimoniais.

A capa do livro é extremamente elegante e dialoga com o tema do romance.

Um leitura recomendável.

A nossa pontuação: 4.5 de 5 estrelas.

Sobre a autora:

Tayari Jones é autora de quatro romances, mais recentemente “An American Marriage”, que foi eleito para a Selecção do Clube de Livros da Oprah 2018, e ganhou o Prêmio Feminino de Ficção de 2019. Jones é graduada pelo Colégio de Spelman, pela Universidade de Lowa e pela Universidade do Estado de Arizona.

Literature| An American Marriage, by Tayari Jones | Opinion

Author: Tayari Jones

Publisher: Algoquin Books

Language: English

Synopsis

The newlyweds Celestial and Roy are the embedment of both the American dream and the New South. He is a young executive, and she is an artist in the brick of an exciting career. But as they settle into the routine of their life together, they are ripped apart by circumstances neither of them could have imagined.

Roy is arrested and sentenced to 12 years for a crime Celestial knows he didn’t commit. Despite being a strong and independent woman, Celestial finds herself bereft and unmoored, taking Comfort in Andre, her childhood friend and best man at their wedding. As Roy’s time in prison passes, she is unable to maintain the love that has always been her center. However, after 5 years, Roy’s conviction is suddenly overturned and he returns to Atlanta, ready to resume his life with Celestial.

Opinion:

The story combines the narration of the protagonists, namely Celestial, Roy and André, a technique that lends a very interesting dynamic to the narrative, and which ends up being very effective. It was a good decision of the author, to show the different points of view, without Celestial’s perspective, the reader could find himself leaning to a certain animosity or even negative reception by towards this character.

An American Marriage presents us with an honest and impressive plot, beautifully written, not only about the reality of the social and political system of the region in which it takes place, but also about matrimonial values, exposed to the essentially human condition. With her husband in prison, Celestial, who did not expect to find herself alone so soon, ends up getting involved with André, her childhood friend. But Roy, innocent, on being freed, wants to return to his life with Celestial, forming here a complicated and painful love triangle. We are thus led to reflect on the extent to which we are able to fulfill the promises considered sacred and even unbreakable.

Ultimately, a melancholy story of how social injustice can undermine personal life, and how unexpected dynamics can overwhelm marriage vows.

The book cover is extremely elegant and dialogues well with the theme of the novel.

A recommendable read.

Our score: 4.5 out of 5 stars.

About the author:

Tayari Jones is the author of four novels, most recently “An American Marriage,” which was a 2018 Oprah’s Book Club Selection, and won the 2019 Women’s Prize for Fiction. Jones is a graduate of Spelman College, the University of Lowa and Arizona State University.

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Melita Metsinha

Medo

Morrer de amor

Esse que não mata

Por quem matamos?

É fuga impedida

O voo sem horizonte.

Um sonho sem ti.

Fear

To die of love

That which does not kill

For whom do we kill?

Its a hindered flight

The flight with no horizon.

A dream without you.

Poema de Melita Matsinhe – In Ignição dos Sonhos

                                                                Livro publicado pela Fundação Fernando Leite Couto, 2017

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | O Estranho, de Ad Chaves – Opinião

Autor: Ad Chaves

Editora: Tribo das Letras / Amazon

Idioma: Português

Sinopse

“Dez anos são suficientes para que a verdade venha à tona? Neste suspense, os personagens terão as suas vidas presas numa vertiginosa trama onde a traição, o amor e o ódio se fundem numa tentativa desesperada para manter, sob camadas de mentiras, a verdade. Júlia, após descobrir que perdera anos num casamento por interesse, com um renomado advogado, vê a sua vida colocada de cabeça para baixo quando, numa noite chuvosa, o encontro com um estranho, num hotel de beira de estrada, a leva para um inesperado caminho. Impelida pela imprevista atraccão pelo misterioso desconhecido, ela vê-se arrastada para um trilho onde a vingança é o norte, e a vítima e o culpado se alternam, fazendo-a questionar-se, sobre quem, de faco, é o Estranho na sua vida.

Opinião

Já há muito tínhamos curiosidade de conhecer a obra de Ad Chaves, autor da editora Brasileira Selo Jovem, e por essa razão, a leitura de “o Estranho”, livro de estreia deste autor, foi das mais ávidas este ano. A Selo Jovem tem trazido trabalhos muito promissores de vários autores e Ad Chaves não é a excepção. Entretanto, a obra aqui em alusão, foi piblicada pela Tribo de Letras e encotra-se de igual forma disponível na Amazon.

Com uma escrita de fácil acesso e muito concisa, Ad Chaves nos conduz por uma narrativa bastante fluida, de suspense, à volta de uma trama sobre vingança, amor e injustiças.

Narrado na terceira pessoa, cada capítulo inicia com uma citação da protagonista Júlia, cujo contexto é explicado no final do livro.

Julia, a semelhança de algumas mulheres do quotidiano, casou-se com André, pelas razões erradas, e com o passar do tempo, as consequências desse acto, resultam num casamento infeliz, com contornos inesperados.

Relativamente à construção de algumas personagens, embora no geral estejam a maioria, bem construídas, não conseguimos ter grande empatia para com a Julia, talvez pela certa superficialidade na sua personagem, o que poderia, porventura, ter sido colmatado com um pouco mais de desenvolvimento psicológico à volta da mesma. Em compensação, somos apresentados com alguns personagens, como Clara, Jorge e o próprio “Estranho”, que tem um background mais interessante de descortinar.

O autor impressiona também pela óptima capacidade de criar tensão e fazer com que o leitor prenda-se à leitura, desde o início ao fim, devorando as páginas num ápice. Um ponto fraco, entretanto, é que, o narrador, enquanto omnisciente, revela-nos alguns aspectos da trama de forma bastante depressa e directa, frustrando em alguns momentos as expectativas do leitor. Apecto, que todavia, acaba por ser compensado pela boa técnica em apresentar-nos sem demoras reviravoltas de impacto.

Em resumo, para um livro de estreia, é um óptimo livro, com uma trama de grande sensibilidade, muito suspense para quem gosta deste género, e que facilmente poderia ser adaptada para um roteiro de cinema.

Sobre o autor

“Ademilson Chaves é mineiro e como todo mineiro gosta de contar histórias. Muito cedo descobriu que gostava de livros tornando-se um leitor voraz. Formou-se na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Nas horas vagas descobriu um grande prazer, criar e escrever histórias capazes de prender o leitor ávido por uma boa trama.”

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Álvaro Taruma

Há ainda sobre a luz

Palavras que não dizem

Feixes obscuros

Centelhas adormecidas

Mas luz,

Ao contrário,

O osso de que se veste o corpo

E sobe de entre os dedos

Ao encontro do papel claro

Onde a noite gravita

A noite grave

A noite grávida de silêncios e sombras

E mais nada

Luz em reflexo in-vertido

There is still over the light

Unspoken words

Unclear beams

Sleeping flickers

But light,

On the contrary,

The bone of which dresses the body

And rises from between the fingers

To meet the bright paper

Where the night gravitates

The grave night

The night gravid with silences and shadows

And nothing else

Reflection in light in-

Verted.

Poema de Álvaro Taruma – in Para uma Cartografia da Noite

                                                                Livro publicado pela Literatas, 2016

Livros, Resenhas

Literatura| The Blessed Girl, de Ângela Makholwa, | Opinião

Autor: Ângela Makholwa

Editora: Pan Macmillan

Idioma: Inglês

Sinopse

Jovem, bonita e ambiciosa, Bontle Tau tem Joanesburgo na palma da mão. Os seus admiradores generosos disputam para pagar o seu Mercedes, o seu apartamento e as suas viagens, postadas no Instagram. É dever da Bontle parecer fabulosa – afinal, as pessoas não sacrificaram as suas vidas na luta pela liberdade, para as mulheres negras usarem as mesmas camisetes baratas que vestiam durante o apartheid.

Bontle percorreu um longo caminho, e não foi fácil. Seu psiquiatra continua a querer falar sobre um passado que ela colocou firmemente para trás. E aquilo que ela não pensa, não pode machucá-la, pode?

Opinião:

No minuto em que ouvimos a autora do livro, Ângela Makholwa, ler uma passagem do mesmo, tratamos logo de anotar o título. Por várias razões que não cabem aqui dizer, mas uma delas bastante óbvia: a trama propunha-se bastante apelativa e actual. E é.

A história narrada pela protagonista (ao que tudo indica, em formato de documentário) é uma espécie de sátira. Nas primeiras páginas, chegamos a ficar indignados com esta “Bontle”, mas reconhecemos, de imediato, que a realidade da jovem é bastante corrente, não só em Joanesburgo, como em Moçambique e em várias partes do mundo. Desde às “sugar babies”, às “marrandzas”. Seja em que contexto for, os leitores irão reconhecer esta mulher, que tudo faz, em troca da “boa vida”. E a autora, muito talentosa, concebeu uma história, que dependendo do ponto de vista do leitor, traz algumas lições de moral, ou simplesmente, reflectem o percurso da vida, de acordo com as escolhas que fazemos.

Ora bem, se já sabemos quem são as sugar babies e temos um certo “preconceito” com relação a elas, Ângela Makholwa nos leva, através desta ficção, a olhar com mais profundidade para as circunstâncias e o meio de onde surgem estas mulheres, que na verdade são como qualquer outra: traçam os seus objectivos e trabalham para isso (do seu jeito, mas trabalham), tem os seus valores, amam a família e tem um passado que pode influenciar quem elas são. Esta pelo menos é a Bontle.

Rica de coloquialismos, a escrita de Ângela é bastante simples e acessível, ao menos tempo de um humor, intensidade e sensibilidade imensos. Poucos autores são capazes disso.

Não foi possível encontrar o livro em formato físico, pelo que, acabamos por consumir a história em formato de áudio. Igualmente prazeroso. Também nos apaixonamos pela capa. Marota, cheia de cores e atraente.

Uma leitura definitivamente recomendável.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas.

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Sobre a autora:

Nascida em Joanesburgo, Makholwa formou-se em jornalismo pela Universidade de Rhodes. Ela foi a primeira escritora negra a escrever ficção criminal na África do Sul (Red Ink). Makholwa seguiu-o dois anos depois com um romance do género chick-lit (the 30th Candle -2009). Seu terceiro romance, Black Widow Society foi publicado em 2013, e o seu último romance, the Blessed Girl, foi lançado em 1 de outubro de 2017.

Livros, Resenhas

Literatura| Na terra dos sonhos, de Agnaldo Bata | Opinião

Autor: Agnaldo Bata

Editora: Alcance Editores

Idioma: Português

Sinopse

Na terra dos sonhos conta a história de Ângela, uma mulher que nasceu numa pequena localidade do distrito de Manjakaze. Ainda nova, Ângela apercebeu-se dos desafios que a sua condição social (Mulher e Órfã) lhe impunham e quando todos pensavam que “sonhar” era o maior insulto que ela podia proferir, contra a moral social que a cercava, Ângela mostra ser forte e com o apoio dos amigos que os espíritos lhe enviam (Gabriel, Sitoe e Edson) dá o máximo de si para vencer cada desafio, sempre movida pela justiça, determinação e a eterna vontade de ver os seus sonhos realizados, o incontornável anseio de chegar à terra dos sonhos.

Opinião:

Justamente quando achávamos que tópicos destes (histórias a volta do êxodo rural, por exemplo) já estavam esgotados, eis que surge um romance com potencial para acrescentar algo mais à discussão. Sobretudo se estivermos a falar de uma história que tem como palco e contexto, o cenário Moçambicano. Mais do que nunca, é importante reflectir sobre os desafios actuais, ter esperança, e sonhar com um futuro melhor. Foi esta a mensagem que nós, como leitores, captamos do livro de Bata.

Através da história de Ângela, e com uma pena visivelmente sensível, o autor mostra-nos a realidade que infelizmente ainda é vivida por grande parte das mulheres moçambicanas, sem acesso à educação, pela sua condição e estatuto de mulher. Ângela, é assim, a grande heroína que nos abraça e nos inspira nesta jornada.

A narrativa socorre-se de uma técnica interessante, um diálogo constante e cruzado, entre os vários narradores que apresentam os seus pontos de vista, desde o médico que cuidou da gravidez da mãe da Ângela, tendo deixado relatos escritos para a rapariga, Ângela, a protagonista e Gabriel, que acaba tornando-se muito próximo de Ângela.

Apreciamos também o facto de o autor ter trazido à discussão questões sociais, como os direitos dos trabalhadores domésticos, o assédio sexual, a desigualdade e o acesso à justiça, e mais ainda, de alguns protagonistas, no final, terem se mostrado extremamente humanos, nas suas virtudes e falhas. Mais fácil, assim, de nos relacionarmos. Ah, e por falar em final, para nós este é o ponto forte do livro. Apesar da certa previsibilidade relativamente ao destino dos protagonistas, o autor trouxe um desfecho inusitado, futurístico, que revela aquilo que é (e se não é, devia ser) o sonho de qualquer moçambicano.

Já a diagramação, é um senão. As folhas largas e a letra pequena tornam a leitura um pouco desconfortável. Nada, porém, que perturbe a experiência e o mergulho na escrita de Agnaldo Bata.

Kudos, por mais oportunidades para todas as “Ângelas”.

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| Madalena – o tradicional casamento sem amor| Opinião

Autor: Hosten Yassine Ali

Edição: 2013

Editora: Edições Esgotadas

Idioma: Português

Compre aqui: Edições Esgotadas

Este livro é uma joia na literatura moçambicana e tu uma pérola de autor: dizer mais é querer dizer o que escreveste, com dignidade, frontalidade, com moçambicanidade

Eduardo White in Madalena, o tradicional casamento sem amor

Opinião:

Que tal começarmos pelo título: Madalena, o tradicional casamento sem amor.

Ora, ora, nós do diário de uma qawwi, leitores teimosos que às vezes levam as coisas ao pé da letra, começamos a percorrer as páginas, à espera de… hum. Talvez uma história que abordasse um casamento forçado, numa sociedade tradicional? Ou então, um casamento de alguma forma “tradicional”?

Bom, a trajectória não é assim tão óbvia. Ao chegarmos à história de Lena (Madalena) e Filipe, deparamo-nos com a primeira de muitas surpresas (se calhar reviravoltas) que nos aguardavam nesta trama. Porquanto o relacionamento entre Madalena e Filipe (assumidos então como casal protagonista) não é desprovido de amor. Pelo contrário, os dois se amam bastante. O problema é outro: Filipe é obrigado a lobolar (ou seja, casar com) Madalena, depois de a mesma estar morta.

Narrando um pouco a trama (mil perdões, caros leitores, pelo pequeno spoiler): Madalena, muito nova, engravida de Filipe, e o seu rigoroso pai a expulsa de casa. Sem tecto, ela vai viver com o namorado Filipe, os dois tentam ser felizes, mas essa tentativa é interrompida quando Madalena morre durante o parto. O pai, que deixara de falar com a filha, retorna o contacto com o genro, e avisa-o que, para que reine a paz entre as famílias, Madalena não poderá ser enterrada, sem que antes Filipe respeite a tradição e oficialize a relação. Desta forma, melindrado pela própria tradição, e pelo sentimento forte que sente por Madalena, Filipe concorda em lobolar a rapariga, mesmo estando esta morta. Eis uma passagem do dilema narrado pelo protagonista:

Não sei realmente o que estou a pensar: na verdade, busco uma solução para que satisfaça ou não a família de Lena e lhes dê o casamento de uma filha morta. Custa-me acreditar que me vou casar com um cadáver, alguém que não fala, que não comerá o bolo de casamento, não beberá espumante, não fará discurso de noiva e, pior que tudo, não me aceitará como as mulheres aceitam os maridos

Avante, o livro não retrata apenas algumas tradições que vincam em algumas famílias moçambicanas. Pelas vozes de outras personagens que vão sendo inseridas na narrativa, ficamos a conhecer histórias e realidades, que fazem parte do cotidiano moçambicano, mas por vezes despercebidas ou até mesmo desconhecidas. É a história do próprio Filipe, forçado a casar em tais circunstâncias. Ou por exemplo, a história daquela titia que revelou grandes segredos da sua intimidade durante a cerimónia que antecede o casamento da sobrinha. É a história de um filho que após tornar-se “doutor”, vira as costas à mãe deixando-a na miséria, e tantas outras peripécias que tornam esta leitura uma experiência única.

O livro torna-se confuso em alguns momentos, em que o narrador, na 1ª pessoa, afasta-se de si, e passa a olhar-se como uma entidade não participante. Nada, entretanto, que atrapalhe o nosso mergulho na distinta escrita de Hosten Ali.

Encontramos também neste livro, uma das diagramações mais bonitas e aconchegantes que já vimos, com a silhueta de uma mulher africana (parecida à capa do livro), dividindo cada capítulo.

Posto isto, convidamos o leitor e embarcar nesta leitura e a descobrir o que trata, de facto, este “casamento tradicional.”

Sobre o autor: Hosten Yassine Ali é moçambicano, natural de Maputo. Abraçou a carreira de official da Marinha no ano de 2008, através da formação na Escola Naval Portuguesa. Publicou o romance Madalena e o livro de crónicas Kurhula, crónicas da cidade de Maputo, sob a chancela das Edições Esgotadas. É fundador dos projectos de acção social “Pequenos Gestos Moçambique” e “Universidade e Rua Moçambicana”. É mestre em ciências Militares Navais e especializado em Administração Naval.

A nossa pontuação: 4.5 em 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| London Cape Town Joburg, de Zukiswa Wanner| Opinião

Autora: Zukiswa Wanner

Edição: 2018

Editora: Paivapo

Idioma: Inglês

Sinopse

Em 1994, o mundo está prestes a mudar. A primeira eleição verdadeiramente democrática na história da África do Sul está prestes a unir a nação de Nelson Mandela nas urnas. E em todo o mundo, aqueles que não puderam voltar para casa, aqueles que não quiseram voltar para casa, esperam e assistem. Martin O’Malley não é um dos que espera e assiste. Ele está muito ocupado, a tentar descobrir se Germaine Spencer está grávida e, de repente, o mundo realmente muda para Martin. Com o seu mestrado da London School of Economics, África do Sul no pós-apartheid parece um lugar onde ele, o seu filho e a sua esposa poderão conquistar tudo. Mas poderão?

Opinião:

Zuko Spencer O’Malley está morto. Morto via suicídio. Na tenra idade dos 13.

O meu filho está morto.

Narra Germaine Spencer, mãe de Zuko. Desculpem se parece spoiler. Não é. É apenas como é introduzida a narrativa deste livro, ou seja, a tragédia que marcará o casal protagonista, Germaine Spencer e Martin O’Malley. Ao longo das páginas, regressamos então, cerca de quinze anos, antes da tragédia, para conhecer a história do casal e os eventos que culminaram na tragédia.

Não é tarefa fácil prender a atenção do leitor dentro do que pode considerar-se uma espécie de flashback, mas neste caso, estamos nas mãos incrivelmente capazes e talentosas da autora Zukiswa Wanner, que nos envolve numa trama arrebatadora. É o tipo de livro que vai arrancar gritos de espanto e de risada, a cada virar da página. A história de Germaine Spencer (uma mulher inglesa, inteligente, feminista e artista) e de Martin O’Malley (um homem sul africano, bem-sucedido, carismático e amoroso) é bastante verosímil. Quem nunca apaixonou-se vai querer fazê-lo, e quem já o fez, vai lembrar-se exactamente de como é, ao ler este livro.

Germaine e Martin tem o tipo de relação que certamente todos casais gostariam de ter, mas sendo um casal inter-racial, acabam por enfrentar os dramas e o choque de culturas, com os quais estamos certamente familiarizados. Nesta ambientação, a volta desta belíssima e inevitavelmente imperfeita relação, a autora vai abordando várias facetas das diferentes culturas e tradições, desnudando ao mesmo tempo, com olhos clínicos, a situação da África do Sul, e alguns problemas sistêmicos, num cenário após o apartheid.

Todas as personagens, desde as principais às secundárias (como Priya, Anil, Soraya, Suf, Giani, Liam, Martin Mtshali e as senhoras do Nomakanjani Club) são incríveis e memoráveis. A trama é tão bem amarrada, que damos por nós, a apegarmo-nos pelo adorável Zuko, ainda que saibamos de antemão, que uma tragédia o espera. Uma experiência e tanto!

A diagramação e paginação do livro são boas, assim como a arte da capa. Todavia, sentimos que o título só faz sentido depois que concluímos a leitura, o que pode, de certa forma, desviar a atenção do potencial leitor.

No geral, foi uma das melhores leituras dos últimos tempos e recomendamos vivamente.

Sobre a autora: Zukiswa Wanner é jornalista e romancista sul-africana, nascida na Zâmbia e agora baseada no Quênia. Desde 2006, depois que publicou o seu primeiro livro, os seus romances tem sido seleccionados para vários prêmios, incluindo o South African Literary Awards (SALA) e o Commonwealth Writers ‘Prize. Em 2015, ganhou o Prêmio Literário K Sello Duiker Memorial pelo livro London Cape Town Joburg. Em 2014, Wanner foi nomeada para a lista Africa39, a qual identificou 39 escritores da África Subsaariana com menos de 40 anos de idade, com potencial para redefinir as tendências da literatura africana. Em 2020, ela recebeu a Medalha Goethe, ao lado de Ian McEwan e Elvira Espejo Ayca, tornando-se na primeira mulher africana a ganhar o prêmio. Zukiswa é também curadora do festival literário online Afrolitsansfrontiers.

A nossa pontuação: 5 em 5 estrelas.

Desabafo de uma qawwi

#35| De volta ao começo: o nosso último abraço

Por Will

É aniversário da minha mulher. Celebro-o como se fosse meu também. Afinal de contas, sinto-me renascido. Aprendi a conviver com os meus medos e esta noite deixei-os todos bem enterrados, no sótão da alma. Um pouco de felicidade não vai fazer-me esquecer as responsabilidades que me esperam. Trampa, destino, eu sei lá.

– O que é se passa, Will? Estás diferente… – confidencia Linan, enquanto dançávamos à média luz das velas espalhadas pela sala.

– Amo-te, Linan. Não posso imaginar a minha vida sem ti. E é só.

No dia seguinte, quando ela começou a passar mal, não me atrevi a mexer no carro. Liguei antes para um táxi. Tinha tudo planeado. Ou quase tudo.

– Respira, meu amor, respira…

Durante a trajectória, senti o meu rosto e o corpo, quentes. Haveria alguma esperança para nós? Se sim, ela parecia soltar-se pela janela, deixando-me num frio abandono. Tive medo. Mas não podia esconder-me. Era quase impossível disfarçar as lágrimas que subiam pelos olhos. Agarrei-me a ela. O futuro do qual Vallen tanto alertou-me, vinha a galope. Só havia uma forma de alterá-lo. Agora compreendi. Venceria a promessa, sim, mas para isso…

O farol do camião deu-nos um banho de luz, e joguei-me por cima da mulher que amo, amparando-a com o meu corpo. Merecíamos um último abraço.