Desabafo de uma qawwi

# 1| Meticais, fiosses, eleições e outras complexidades humanas

Soltei-me do véu tecnológico e caí directo numa estrada em farrapos. Os raios alaranjados doeram-me na vista. Afinal, o sol dali era tão redondo quanto o outro. Distraída, mal dei pela criatura que se abeirou.

– Moça, está tudo bem?

Era um humano. Pude adivinhar pela barba. Mas de resto, não havia grande disparidade entre as espécies. A criatura continuou a emitir sons da sua boca.

– O seu braço está a sangrar moça… precisa de um hospital?

Ouvia-o, obviamente, mas não o compreendia. Então, agarrei-lhe pelo ombro. Um toque era suficiente para absorver-lhe a língua. A vibração de um novo idioma nascendo no meu cérebro fez cócegas, e finalmente respondi:

– Ora viva, humano! Estou óptima, não se preocupe, pode ir.

Alisei o meu origami e pus-me a andar. No esforço de perceber onde é que eu havia aterrado, senti os olhos desbulharem numa cortina de caos. A geometria das ruas, sinceramente, era uma fraca paródia das avenidas do meu planeta. Mantendo a boa educação, tentei saudar os humanos, com um abraço fraternal. E qual não foi o meu espanto ao vê-los rejeitarem-me? Alguns quase tropeçavam, só para esquivarem-se de mim. O que será que estava eu a fazer de errado? Averiguei-me e… hum! Ao contrário deles todos, eu tinha os pés descalços. Era só isso? Por sorte, avistei um edifício alto, com a vitrina de baixo recheada de sapatos. “Aberto”, assinalava um letreiro. Maravilha, eles tinham também vestuário de emergência! Puxei a porta e entrei. Nos mobiliários a abarrotar de raridades terráqueas, acabei encontrando algo. Nada semelhante as cantilhas de Setafanotis, mas davam jeito. Estava a calça-los, quando senti outra presença humana.

– Posso ajudá-la? – ela tinha uma vozinha contaminada de desconfiança.

– Bom dia humana, não é preciso, só entrei para levar estes sapatos.

– Humana é a sua mãe. E essas adidas são 3.000 Meticais.

Franzi o sobrolho. A linguagem daquela criatura era peculiar. Em primeiro lugar, a minha mãe não era humana nenhuma. Segundo, o que significava “adidas” ou então “são 3.000 meticais”? Mas como tinha pressa, decidi sair do edifício sem desvendar o mistério. Não tardou para a humana vir atrás de mim, toda esbaforida.

– Polícia! Uma ladra, a muyive! Peguem essa moça!

Com ela e com os gritos, seguiu-se uma multidão. Totalmente confusa, mas antevendo apuros, ergui os braços em frente ao corpo e em pouco tempo teletransportei-me para outro lugar. Dei por mim no meio de uma esfera em jardim, repleta de estátuas de pedra. “OMM” lia-se no monumento erguido no centro. O meu estômago trovejou. Era a tal fome. E agora? Não fazia ideia de que pudesse ser tão desconfortável.

– Xiquelene! Compone! Xiquelene!

Virei a cabeça e vi mais um humano. Pendurado à porta de um veículo que abarrotava de outros humanos, convidava-me a segui-lo. Aceitei a oferta. Até porque era um convite muito concorrido. Lá dentro, os movimentos respiratórios tornaram-se um desafio, em compasso de três: inspirar-expirar-batalhar. Inspirar-expirar-batalhar. Finda a batalha, consegui encostar-me à janela. A humana ao meu lado segurava um recipiente, e o aroma de trigo banhando em óleo pulsante como uma cascata, desceu-me ao estômago, em total hipnose.

– São fiosses minha filha, 20 meticais. Quer?

O cérebro prometeu-me uma avaria. “Números”, “meticais”. De novo?

– Você tem cara de estar faminta, minha filha. Pode tirar um, dou de graça.

Olhei para ela, perplexa. Havia outra forma, se não “de graça”? Estiquei a mão para o tal fiosse e fiz a primeira refeição do dia no planeta terra. A humana deu-me mais um, “de graça”. Ah, tivesse eu compreendido o significado daquele gesto!

Sabem, há algo agradável nas viagens colectivas. Por um instante, fazem-nos sentir imersos numa vasta união em partículas, tal e qual é o universo. Ademais, é uma óptima forma de assimilarmos novas línguas. Em pouco tempo, consegui descobrir o nome da cidade onde estava: Maputo. Aproximava-se um tal “feriado” e também umas tais “eleições autárquicas”. Eis o que percebi acerca do tema: as eleições tratavam-se de um jogo para escolher-se novos líderes. Às vezes acabava sendo mais ou menos como premir o botão de replay. Outras vezes, apareciam candidatos a simular que cantavam músicas, velhos clássicos, quando na verdade faziam um mero playback, isto tudo sem falar dos que eram interditos de usar o microfone. A meu ver, era um jogo muito mal pensando. Pela lua de Stefanotis, que planeta esquisito era aquele?!

– Moça, aqui é a terminal! – avisou o dono do veículo.

– Terminal? O que isso significa?

– São 10. Trocados, faz favor.

– 10?

– Hawena moça, vais reclamar de 10 Meticais?

De novo tinha uma multidão enfurecida atrás de mim. E aos poucos comecei a mergulhar na filosofia. Bem-vinda ao planeta terra, Linan, disse a mim mesma. O lugar onde nada acontece sem “meticais”, uma das muitas variações de “dinheiro”. Que a sorte estivesse comigo.

29 de Setembro de 2018

@Linan – todos os direitos reservados

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2 opiniões sobre “# 1| Meticais, fiosses, eleições e outras complexidades humanas”

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