Outras maravilhas humanas

Evento|“Eita Casei”, de Whindersson Nunes em Moçambique| Opinião

Aconteceu no dia 6 de Abril, no centro cultural da UEM, na cidade de Maputo. A promessa era de iniciar às 19:00 horas, mas o palco só iluminou-se por volta das 20:20. Pode ser, talvez, porque o artista estivesse ainda a preparar-se, ou então, por causa da organização e logística para albergar a audiência, já que a fila de pessoas que foram ver o show do humorista e youtuber brasileiro Whindersson Nunes, parecia interminável.

O atraso, entretanto, acabou sendo compensado pelo carisma e simplicidade de Whindersson que foi logo conquistando e arrancando calorosas gargalhadas do público.

Whindersson Nunes trouxe à Maputo o seu novo show “Eita, Casei”, inspirado no seu casamento com a cantora Luísa Sonza, que aconteceu em Fevereiro do corrente ano. O stand –up comedy faz parte de uma turné internacional que culminou em Moçambique.

Whindersson interagiu com o público com facilidade, trazendo um cesto de piadas agradáveis e despretensiosas, que revelaram um quotidiano particularmente seu, que entretanto, não deixa de reflectir vários aspectos da sociedade, sobretudo no que se refere a diferenças sociais e à vida normal de um recém casado. O show de Whindersson é repleto de referências a outras celebridades brasileiras, tais como o apresentador Luciano Hulk e o jogador Neymar.

Alguns artistas não conseguem distinguir a barreira entre a pura brejeirice e o sublime humor, mas esse não parece ser o caso de Whindersson, pese embora, quem o conheça melhor, diga que ele esteve muito comedido e avaliou de antemão o público, refreando-se no quesito palavrões.

Os efeitos sonoros e a iluminação foram simples, mas bem executados. A organização, entretanto, deixou algo a desejar.

Em suma, ficamos com a impressão de que o público moçambicano vibrou e aprovou o show de Whindersson.

O comediante nasceu em Piauí e foi recentemente eleito pelo Google como a personalidade mais influente do Brasil. Whindersson é um dos youtubers mais conhecidos do mundo e já alcançou a marca de 35 milhões de inscritos no seu canal do YouTube, almejando agora a placa de rubi, para a qual precisa de 50 milhões. Se alcançar, ele será o segundo youtuber com a placa de rubi, a seguir ao sueco Pewdiepie.

Canal de Whindersson

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Lançamentos!

Novidades # Lançamentos # 2018

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Caros Leitores,

Vem aí uma boa novidade da Editora Cavalo do Mar. Trata-se do livro “Matéria para um Grito” do autor Álvaro Fausto Taruma. O lançamento desta obra vai acontecer no dia 12 de Dezembro do corrente ano, às 18:00, na cidade de Maputo.

Segundo as notícias publicadas no site do Instituto O Camões – Centro Cultural Português em Maputo, que acolherá a cerimónia do lançamento, a sessão prevê uma conversa com o autor, moderada pelos escritores António Cabrita e Lucílio Manjate e também a participação de Giselle Genna na leitura de textos, e Muzila na música.

“Álvaro Fausto Taruma está associado à geração impulsionada pelos movimentos literários Kuphaluxa e pela Revista Literatas, e que desponta no mercado editorial a partir de 2014. Com uma escrita marcadamente intimista, publicou “Para Uma Cartografia da Noite”, em 2016, que foi considerado segundo a Revista Caliban o melhor primeiro livro de poesia de um autor moçambicano. Neste mesmo ano foi ainda finalista (menção honrosa) do prémio 10 de Novembro, com o livro inédito “A Migração das Árvores”. É formado em Sociologia e Antropologia pela Universidade Pedagógica em Maputo, atualmente exercendo docência ao mesmo tempo que se ocupa como Criativo de Publicidade, entre outras atividades de empreendedorismo social.”

Fonte:

http://camoes-ccpmocambique.co.mz/eventos/lancamento-do-livro-materia-um-grito/?fbclid=IwAR2emyKzxoc6dxycXnX4kRGaWkLrl1pj6hnTszWCMY8oWJS7PYmrlSxn1gE

Dicas, Opiniões, Yummy Food

Food |Mimini de Peixe – Restaurante Sal & Grafia – Uma Deliciosa Gastronomia Moçambicana| Review

YUMMY FOOD

Na correria típica dos humanos, quando chega a hora das refeições, domina a pressa e procuramos um local de fácil acesso, observando sempre a relação qualidade/preço. Tanto para quem vem de visita e está num ritmo mais calmo, como para os residentes atarefados, Maputo oferece várias opções. Um dos primeiros lugares visitados pela nossa tripulação nesta cidade, foi o restaurante Sal & Grafia, na Fundação Fernando Leite Couto. Mal entramos, já damos um maravilhoso mergulho num bar de cocktails e de livros, e depois, adentramos numa colorida e fresca esplanada. Se estiver mau tempo, podemos optar pelo interior que é aconchegante, e de brinde ver alguma arte em exposição. A experiência é agradável. O Sr. Francisco, de sorriso incansável, assegurou que o serviço (prato do dia) fosse entregue em pouquíssimos minutos. Aliás, todo o pessoal do restaurante é impecável. Mas a verdadeira estrela do dia, foi e é sem dúvida o mimini de peixe.

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Menu das quartas-feiras, este prato é económico e vale a visita. A base de peixe, mandioca, molho de coco e especiarias, a suavidade do mesmo mantém-se intensa na memória. Alguém terá dito tratar-se de uma variação de um prato típico do Norte do país. O menu destaca-se também pelas interessantes propostas de doces tradicionais. O “memória da cozinha”, que envolve sorvete de malambe, linfete, fiosses e matoritori é uma boa aposta para quem gosta de sabores fortes. Confessamos que o doce não nos impressionou tanto, pois os fiosses tinham um caldo ligeiramente pesado (da próxima iremos pelo “delícia moçambicana”). Mas de resto, revelou-se uma boa aposta. Então já sabem, se estiverem pelas bandas, numa quarta feira e em busca de um local para almoçar, experimentem esta delícia gastronómica. Não se irão arrepender.

Sal & Grafia

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas

[Onde: Avenida Kim Il Sung, 951

Info: http://www.fflc.org.mz/por/Sal-Grafia]

Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Desabafo de uma qawwi

# 1| Meticais, fiosses, eleições e outras complexidades humanas

Soltei-me do véu tecnológico e caí directo numa estrada em farrapos. Os raios alaranjados doeram-me na vista. Afinal, o sol dali era tão redondo quanto o outro. Distraída, mal dei pela criatura que se abeirou.

– Moça, está tudo bem?

Era um humano. Pude adivinhar pela barba. Mas de resto, não havia grande disparidade entre as espécies. A criatura continuou a emitir sons da sua boca.

– O seu braço está a sangrar moça… precisa de um hospital?

Ouvia-o, obviamente, mas não o compreendia. Então, agarrei-lhe pelo ombro. Um toque era suficiente para absorver-lhe a língua. A vibração de um novo idioma nascendo no meu cérebro fez cócegas, e finalmente respondi:

– Ora viva, humano! Estou óptima, não se preocupe, pode ir.

Alisei o meu origami e pus-me a andar. No esforço de perceber onde é que eu havia aterrado, senti os olhos desbulharem numa cortina de caos. A geometria das ruas, sinceramente, era uma fraca paródia das avenidas do meu planeta. Mantendo a boa educação, tentei saudar os humanos, com um abraço fraternal. E qual não foi o meu espanto ao vê-los rejeitarem-me? Alguns quase tropeçavam, só para esquivarem-se de mim. O que será que estava eu a fazer de errado? Averiguei-me e… hum! Ao contrário deles todos, eu tinha os pés descalços. Era só isso? Por sorte, avistei um edifício alto, com a vitrina de baixo recheada de sapatos. “Aberto”, assinalava um letreiro. Maravilha, eles tinham também vestuário de emergência! Puxei a porta e entrei. Nos mobiliários a abarrotar de raridades terráqueas, acabei encontrando algo. Nada semelhante as cantilhas de Setafanotis, mas davam jeito. Estava a calça-los, quando senti outra presença humana.

– Posso ajudá-la? – ela tinha uma vozinha contaminada de desconfiança.

– Bom dia humana, não é preciso, só entrei para levar estes sapatos.

– Humana é a sua mãe. E essas adidas são 3.000 Meticais.

Franzi o sobrolho. A linguagem daquela criatura era peculiar. Em primeiro lugar, a minha mãe não era humana nenhuma. Segundo, o que significava “adidas” ou então “são 3.000 meticais”? Mas como tinha pressa, decidi sair do edifício sem desvendar o mistério. Não tardou para a humana vir atrás de mim, toda esbaforida.

– Polícia! Uma ladra, a muyive! Peguem essa moça!

Com ela e com os gritos, seguiu-se uma multidão. Totalmente confusa, mas antevendo apuros, ergui os braços em frente ao corpo e em pouco tempo teletransportei-me para outro lugar. Dei por mim no meio de uma esfera em jardim, repleta de estátuas de pedra. “OMM” lia-se no monumento erguido no centro. O meu estômago trovejou. Era a tal fome. E agora? Não fazia ideia de que pudesse ser tão desconfortável.

– Xiquelene! Compone! Xiquelene!

Virei a cabeça e vi mais um humano. Pendurado à porta de um veículo que abarrotava de outros humanos, convidava-me a segui-lo. Aceitei a oferta. Até porque era um convite muito concorrido. Lá dentro, os movimentos respiratórios tornaram-se um desafio, em compasso de três: inspirar-expirar-batalhar. Inspirar-expirar-batalhar. Finda a batalha, consegui encostar-me à janela. A humana ao meu lado segurava um recipiente, e o aroma de trigo banhando em óleo pulsante como uma cascata, desceu-me ao estômago, em total hipnose.

– São fiosses minha filha, 20 meticais. Quer?

O cérebro prometeu-me uma avaria. “Números”, “meticais”. De novo?

– Você tem cara de estar faminta, minha filha. Pode tirar um, dou de graça.

Olhei para ela, perplexa. Havia outra forma, se não “de graça”? Estiquei a mão para o tal fiosse e fiz a primeira refeição do dia no planeta terra. A humana deu-me mais um, “de graça”. Ah, tivesse eu compreendido o significado daquele gesto!

Sabem, há algo agradável nas viagens colectivas. Por um instante, fazem-nos sentir imersos numa vasta união em partículas, tal e qual é o universo. Ademais, é uma óptima forma de assimilarmos novas línguas. Em pouco tempo, consegui descobrir o nome da cidade onde estava: Maputo. Aproximava-se um tal “feriado” e também umas tais “eleições autárquicas”. Eis o que percebi acerca do tema: as eleições tratavam-se de um jogo para escolher-se novos líderes. Às vezes acabava sendo mais ou menos como premir o botão de replay. Outras vezes, apareciam candidatos a simular que cantavam músicas, velhos clássicos, quando na verdade faziam um mero playback, isto tudo sem falar dos que eram interditos de usar o microfone. A meu ver, era um jogo muito mal pensando. Pela lua de Stefanotis, que planeta esquisito era aquele?!

– Moça, aqui é a terminal! – avisou o dono do veículo.

– Terminal? O que isso significa?

– São 10. Trocados, faz favor.

– 10?

– Hawena moça, vais reclamar de 10 Meticais?

De novo tinha uma multidão enfurecida atrás de mim. E aos poucos comecei a mergulhar na filosofia. Bem-vinda ao planeta terra, Linan, disse a mim mesma. O lugar onde nada acontece sem “meticais”, uma das muitas variações de “dinheiro”. Que a sorte estivesse comigo.

29 de Setembro de 2018

@Linan – todos os direitos reservados

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Livros, Opiniões

Literatura|”O barrigudo e outros contos” – Hélder Muteia”|- Opinião

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Título: O barrigudo e outros contos

Autor: Hélder Muteia

Editora: Alcance, edição de Maio de 2018

Opinião:

 A primeira vez que entrei em contacto com a escrita de Hélder Muteia foi no livro “Nhambarro, contos e crónicas”. Passam-se muitos anos e não lembro com precisão do seu teor (há não ser, talvez, o tom humorístico de alguns dos textos). Todavia, retive uma boa impressão. Foi por isso que busquei esta nova obra com grande expectativa.

O livro reúne cerca de trinta títulos. Ao contrário do que aconteceu com Nhambarro, esta obra remeteu-me à um sentimento mais melancólico do que qualquer outra coisa, pois o autor retrata de forma quase que exacerbada a dor e o sofrimento, com desfechos trágicos, um após o outro. Tirando esse senão, é uma leitura leve e rápida. A escrita do autor é agradavelmente acessível. Passo inclusive a citar Susana, uma moça simpática que estava no cabeleiro e que pediu-me para espreitar o livro. Leu um dos textos e comovida comentou: “é muito sentimental. Fala do nosso dia-dia”. Se não é função de um texto comunicar de forma emotiva com o leitor, então qual é?

Além de mostrar fragmentos do quotidiano e da realidade do país, alguns dos textos levam-nos a reflectir sobre circunstâncias problemáticas do nosso meio e a postura que adoptamos perante tais circunstâncias. Exemplos disso nos textos “se os homens fossem bons” (que aborda o fenómeno do linchamento), “a menina das pedras” (a história de uma criança que, como tantas outras, tem que trabalhar para poder estudar e sustentar a casa), “midinho” (a história de uma criança de rua), e “o homem feio” (retrato de intolerância / falsos padrões da sociedade).

Como leitora, também pude sentir diferentes nuances ao longo da obra. Os textos reservados para o fim são mais sólidos, com “Cármen” e “Balada para Susana” ricos em detalhes e imagens, a dialogarem connosco de forma bastante mais profunda, em comparação aos outros. De forma geral, apreciei a obra. A capa tem boa textura, arte minimalista que cumpre o seu objecivo. Diagramação satisfatória.

Sobre o autor: Hélder Muteia é membro fundador da AEMO, membro fundador do movimento literário Charrua e ocupou vários cargos no governo de 1994 a 2004. Desempenha actualmente funções de coordenador da FAO (ONU) para a África Central. Tem vários títulos publicados e obras traduzidas em inglês, francês, espanhol, italiano, russo e sueco.

A nossa pontuação: 3,8 em 5 estrelas.

(Por VF – da tripulação)

Outras maravilhas humanas

LET’S DO IT MOÇAMBIQUE – UMA NOVA CONSCIÊNCIA

“O Let´s do It é um movimento cívico, pacifico e não político, baseado na cooperação entre povos, comunidades, organizações e indivíduos de todo o planeta, através do exercício de cidadania activa. Com origem na Estónia, em 2008, e cerca de 50 mil voluntários, espera-se que 150 países participem no Dia Mundial da Limpeza. Na África Austral dezenas de países, incluindo Moçambique, estão a organizar mobilizações massivas contra os focos de lixo.” – In Jornal Notícias – Março de 2018.

O evento mencionado no texto acima aconteceu no sábado passado, dia 15 de Setembro de 2018. Tinha feito planos para acordar cedo, mas como humana cheia de pecados que sou, falhei por completo e quando saí de casa o sol já se ria de mim, demasiado malvado para perdoar o atraso. À medida que avançava pela estrada, via-os surgirem como pipocas por todos os lados: estudantes, amigos, pais, filhos, membros de organizações e entusiastas, todos envergando t-shirts “world clean up day”. Estavam unidos, pela mesma causa. À mim, tinham sugerido aderir à frente Miramar, mas como estava perdida, arrisquei-me a infiltrar-me no primeiro grupo que encontrei: a frente Polana – da União Europeia. Exaustos, mas animados, deram-me as boas vindas. Afinal, o que queriam de verdade era ajuda para o que realmente importava: limpar e tornar a cidade mais respirável, viesse de onde viesse o voluntário. Luvas e sacos pelas mãos, a minha irmã e eu descemos pela área da praia onde ainda estava a cartar-se lixo. Já muito tinha sido tirado, mas restavam coisas fora do lugar, como beatas de cigarro, tampinhas de garrafas e plásticos.

“E como vai ser amanhã? É triste pensar que virão outras pessoas sujar tudo de novo” – comentou a minha irmã, depois de aceitar apoio de um jovem para carregar um saco de lixo cujo peso astronómico mal cabia nos seus bracinhos.

Sim, uma legítima preocupação. Iniciativas deste tipo normalmente têm um cunho mais simbólico e não pretendem ser pílulas milagrosas. Mas podemos pensar nelas como uma terapia, ou melhor, como aquele anjinho que nos cai nos ombros para soprar na consciência. E foi esse véu que o evento descortinou, com toda uma arrebatadora circunstância: a chegada de uma épica consciencialização. As crianças que fizeram parte à escala mundial, têm agora tatuada na consciência a ideia de que tal como a casa, as ruas, as cidades e o planeta, só valem a pena quando limpos. E quanto a nós adultos, apesar de não vivermos em cavernas, nunca é demais termos um motivo para repensar e mudar de atitude, toda a vez que nos virmos tentados a derrubar um lixo fora do lugar. E para facilitar, claro, são sempre precisas boas infra-estruturas para acompanhar esses esforços. Por estas razões, o diário de uma qawwi dá aqui os parabéns a todas as pessoas e organizações que fizeram o evento acontecer.

Foto tirada ao grupo da frente Miramar. “por um planeta mais limpo” era o que gritavam no momento do registo.

(Por VF – da tripulação)