Por Celso Celestino Cossa

Contada meia hora depois de a conversa com o alienígena ter-se iniciado, veio-lhe à mente o dia em que discriminara, entre as estrelas da Ursa Maior, um rasto luminoso que percorreu num piscar de olhos o firmamento até se extinguir para lá do hemisfério celestial sul. Talvez fosse um desses cometas periódicos, da mesma forma que um esteroide não podia ser descartado, ou quem sabe um telescópio confirmaria tratar-se de uma estrela cadente. Pensara-o em virtude de assim o entender: naves espaciais são engenhocas do imaginário da ficção científica. E ainda que não o fossem, continuou, por motivos que se atinham ao modesto avanço tecnológico, seu cepticismo colocava África nos últimos lugares em que extraterrestres iniciariam a colonização da Terra.
No lugar do jardineiro recentemente contratado, com o qual cumpria o costume de todas as noites, que consistia em discorrer sobre o que de mais notável espreitava a maldição da riqueza antes de recolherem, o dono da propriedade em que se encontrava o jardim para a imponente construção de três andares atrás deles e o jardineiro para a cubata do outro lado da rua, no lugar de um homem alto, robusto, cabelos alvos, acompanhava-o, sentado num dos bancos do jardim, um alienígena de mais de dois metros, braços longos, um par de dedos compridos nas mãos, na cabeça oblíqua três olhos enormes, dois orifícios e um corte vertical no lugar do nariz e da boca, e no dilatado peito um coração que emitia uma luz que acendia e apagava a cada contracção, permitindo que se lhe vissem o perfil do esqueleto, das veias, das artérias e dos capilares, bem como de todos os órgãos internos.
— Filhos?
— Por enquanto só temos o Guerreiro.
— Deve ser aquele.
— É ele mesmo. A minha esposa foi quem o adoptou. Não parece uma obra de arte?
— Parece. Como faz para se locomover?
— Arranjamos-lhe um mecanismo de duas rodas, que encaixamos no seu dorso, permitindo-lhe quase todas as traquinices movimentando as patas dianteiras. A minha esposa acha que, de quando em vez, é bom que o deixemos à mercê das suas limitações.
— Instinto de mãe.
— Pois é. Suponho que não foi para vir falar da minha família que me procurou.
— Se entendermos família no seu sentido mais amplo, muito além do conceito que se restrinja a si, a sua esposa e ao vosso cão, posso dizer que sim, a razão da minha visita é precisamente a sua família.
De que família estava o alienígena a falar? Seria a de africanos? Se fosse o caso, pensara-o o proprietário do edifício de três andares, não se teria o ocidente aliado à espécie a que pertencia o alienígena para tornar ainda mais estreito o fosso entre o colonialismo e o neocolonialismo? Não seria? Repensou no que pensara e pensá-lo fê-lo repensar. Mais do que o medo que lhe estremecia o corpo ao encontrar os olhos do alienígena compenetrados nos seus, crescia-lhe o medo de que o que pensava não se tratasse de uma teoria de conspiração e ter o alienígena no lugar do jardineiro naquela noite sem retalhos de nuvens no céu dissesse respeito à implementação de um plano maior que o universo.
— Posso servir-lhe alguma coisa?
— Se a minha presença correspondesse à necessidade de me alimentar, pode ter a certeza de que esta conversa não teria chegado ao momento em que a presa se convida para o predador. Contudo, agradeço-lhe a boa vontade. Prometo que farei chegar aos meus semelhantes e às outras espécies da minha galáxia que os africanos são um povo muito hospitaleiro.
— A minha família também agradece, prometendo o mesmo tratamento aos demais.
— Uma pergunta.
— O que quiser.
— Espera por alguém?
— Porquê?
— Mal consegue tirar os olhos do relógio.
— Pois é. É o José. Ele já devia estar aqui. Estranho. O nosso jardineiro nunca se atrasa.
— Em alguns encontros, quem se atrasa somos nós que não devíamos ter esperado.
Os olhos saltaram-lhe das órbitas. De chapéu de feltro à cabeça, calças de pano cinzentas e um casaco cinzento a combinarem com uma camisa branca que tinha a gola cingida por uma gravata também cinzenta, num piscar de olhos, o jardineiro José estava no lugar do alienígena, sentado exactamente no mesmo lugar, na mesma posição, o delineamento do rosto e os traços fisionómicos a condizerem-lhe o perfil. Como areia escapa por entre os espaços da rede de um crivo, o alienígena havia evaporado para dentro do seu próprio corpo. Ninguém acreditaria se lhe fosse dito que ali estava um Ser de origem exterior ao nosso planeta.
— Entre várias outras características, a minha espécie é metamorfa.
— E o José?
— O José não existe. Fabricámo-lo. Depois de interceptarmos o teu anúncio na internet, através de pesquisas no sentido de se apurar os perfis corpóreos e psicológicos do jardineiro que interessaria à sua esposa, usamos da nossa tecnologia para inventá-lo. Como já prevíamos, ele foi pela sua esposa admitido sem qualquer espécie de sobressalto.
— O que querem com a minha família?
— Como várias outras distribuídas pelo continente, ela não passa de uma amostra.
— Para que fim?
— A minha espécie acredita que a colonização do planeta Terra, pelas suas raízes históricas, pelo seu valor cultural e, sobretudo, pelas suas riquezas naturais, deve começar em África. Daí a necessidade de o pesquisarmos antes da invasão efectiva.
— E o Guerreiro?
— A resposta está no dia em que ele perdeu as patas traseiras.
— Lembro-me que chovia muito. Estava com a Sofia. Eu mal conseguia ver o asfalto. O velocímetro do carro estava dentro do permitido. Qualquer necessidade de uma manobra de emergência, eu daria conta. Quando, de repente, um cão, ou seja, o Guerreiro atravessou a rua. Tentei esquivá-lo. Já era tarde. O carro passou-lhe por cima. Perdi o controlo. Capotámos. Um ano depois, acordei de um coma profundo. Foi um acidente. Não me diga que vocês é que provocaram?
— Fomos nós. O Guerreiro também é um dos nossos.
— E a Sofia?
— Nunca estranhou o facto de ela ter saído do acidente sem um arranhão sequer?
— Por que o deveria?
— Porque você foi o único sobrevivente.
A bomba fora lançada. Geralmente, os responsáveis por feitos semelhantes não esperam para ver os estragos. Com o alienígena transformado no jardineiro José foi diferente: ele é que se encontrava no epicentro da explosão, ele é que viu, entre a nuvem de fumaça, chamas e destroços em forma de cogumelo, o seu corpo evaporar-se-lhe como se nunca tivesse existido, ele é que sucumbiria aos efeitos da sua decisão anos mais tarde, embora saber que a sua esposa estava morta fosse para o único sobrevivente do acidente menos doloroso que ter engravidado um alienígena.
— Não a devia ter engravidado!
— Então aquela coisa é sua…?
— Infelizmente.
— O que é isso na sua mão?
— É uma arma.
Uma discussão inflamada acerca de quem dos dois deveria morrer instalou-se. Esgrimidos os argumentos que foram esgrimidos, o alienígena a defender que ele é que deveria morrer, em razão de o outro alienígena lhe ter trocado pelo terráqueo e disso ter resultado uma gravidez, o único sobrevivente do acidente, por sua vez, a defender que somente um tiro na cabeça abonaria o tão almejado reencontro com a sua amada, chegaram a um entendimento: enveredar pela roleta-russa seria a decisão mais justa para ambos. E, transcorridos os minutos que tiveram que transcorrer, um disparo foi efectuado.
Respondia pelo nome de Marcos, o homem que desmoronou como um castelo de areia. Era forte, alto e bonito. Por onde passasse, com muita facilidade tomavam-no por um jovem asteroide do Show Business nacional, embora lhe faltassem semanas para que desse a sua quinquagésima volta em torno do Sol. Acreditava-se ser uma peça fundamental da secreta ou da espionagem. Um vínculo com qualquer instituição pública que fosse nunca havia chegado ao conhecimento de quem quer que seja. Se não estivesse na varanda da sua casa a deleitar-se com o cromatismo das flores ou a conversar com o jardineiro José no jardim da sua casa, gostava de ficar num bar a alguns quarteirões da sua casa, sentado na penumbra de um canto discreto, a beber uísque e a escutar Elcides Carlos ao fundo, como se sorver aquele sabor granulado, amadeirado e de carvalho com notas de caramelo, baunilha, frutas e especiarias equivalesse a ter uma Gibson 175 à mercê das mãos virtuosas do talentoso guitarrista.Acreditava que o lugar onde estamos não deve ser mais bonito que o lugar para onde olhamos. Por isso o bar era sempre o mesmo, sem muitas variações no lugar em que se sentava, como se a sua esposa ali ainda trabalhasse, e ele continuasse a admirar-lhe os detalhes atrás do guiché, os gestos delicadíssimos, as angelicais feições do rosto, a voz aveludada, a sua eterna Sofia.
— O que foi que você fez?
— Nada. Ele era destro. Veja o ferimento na cabeça. Havíamos chegado ao consenso de que um único projéctil seria colocado numa das câmaras do revólver, girar-se-lhe-ia o tambor e, por fim, cada um, na vez que lhe coubesse, descobriria se a bala estava na câmara engatilhada ou não. Ao contrário disso, ele esperou a minha vez passar, afastou-se ligeiramente e, com o cano do revólver encostado na têmpora, puxou o gatilho repetidas vezes.
O jardim entristeceu, como nunca uma flor foi vista triste. As flores, pelo odor que exalavam e pelas cores que não mais alardeavam, desproviram-se do seu poder de atracção. Abelhas, borboletas e outros bichos não mais pousariam nelas para espalhar o pólen e garantir o esgarçar de outras flores. Marcos estava morto.
Deitado sobre o seu corpo, o alienígena transformado em Sofia fechou os olhos do Marcos como se abrisse um portal de onde uma profusão de dor e sofrimento devastar-lhe-iam a alma. Como os olhos que o alienígena transformado em Sofia usou da sua mão para fechá-los penosamente, Marcos, o morto, contemplava as estrelas, o que não se podia dizer o mesmo das estrelas ou mesmo dos seres que, sem que o saibamos, nos observam.
— Foi por amor.
— Como pode alguém declarar o seu amor a outrem tirando a própria vida?
— Morrer pode ser a melhor forma de se ser eterno no coração de quem nos rejeita.
— Mas eu nunca o rejeitei!
— Nem podias. Não eras a esposa dele. Ou queres que eu também me transforme no Marcos?
— Nem ouses! Transforma-te em quem tu quiseres. Menos no pai do meu filho.
— Estás grávida?
— Estou.
— O Marcos sabia disso?
— Achas que se ele soubesse iria tirar a própria vida?
— Quantos meses?
— Isso importa?
— Mas é claro que importa. A tua missão não incluía…
— O quê? Deitar-me com o Marcos? É o que queres dizer? Prefiro acreditar que não. Quando aceitaste esta missão, estavas ciente dos riscos a correr.
— Mas nunca me passou pela cabeça que tu engravidarias de um terráqueo.
— Devias ter pensado nisso antes.
Sofia, ou melhor, o alienígena que se transformara em Sofia, continuava sobre o corpo do proprietário do edifício de três andares. Marcos, o proprietário do edifício de três andares que encontrara a morte premindo por si mesmo o gatilho da arma que o matou, tinha um ferimento do tamanho da ponta de um cigarro do lado direito da cabeça, e do lado esquerdo, uma melancia cortada pela metade. Sangrava pelos olhos, pelas narinas e pelos ouvidos. Na mão direita ainda segurava o revólver, o dedo ainda no gatilho. O alienígena que se transformara em Sofia pôs-se de pé e caminhou em direcção ao banco. O outro alienígena, que já não estava transformado no jardineiro José, mas sim que estava no seu estado natural de alienígena, aproximou-se do banco e sentou-se ao lado do alienígena que se transformara em Sofia.
— Irás mesmo ter esse filho?
— Não tem como ser o contrário.
— Não temes o que te pode resultar?
— Não. O que resulta de um grande amor nunca é uma aberração.
— E se o criarmos juntos?
— Seria tão injusto quanto o Marcos foi contigo na roleta-russa.
— O que então queres que eu faça?
— Nada. Pois a verdade é que eu não sou, nunca fui e jamais serei um alienígena.
Sofia, que realmente era Sofia e não um alienígena que se transformara nela mesma, disse ao alienígena com que compartilhava o banco do jardim que sempre soube da presença de extraterrestres em sua casa. Após o acidente que os alienígenas provocaram ao carro em que ela e o marido vinham, enquanto o alienígena que se havia transformado no Guerreiro e o que se havia transformado no jardineiro José escondiam a nave antes de lhe activarem o mecanismo da invisibilidade, ao se aproximar do carro que havia capotado diversas vezes e dentro do qual ela se debatia para abrir o cinto de segurança, com recurso a uma chave de fenda tirada do porta-luvas, Sofia atacou e matou o alienígena que já fazia dela a gémea que nunca imaginara que seria. No lugar do marido, que tinha a metade do corpo atravessado no pára-brisa frontal do carro em que vinham, deixou o alienígena que se havia transformado na gémea que ela não o era, nunca o fora e jamais o viria a ser, a torrar com as chamas da explosão que inevitavelmente se seguiu.
— Dava para um roteiro de cinema.
— Pois é. O real por vezes espanta o imaginado.
— Onde é que imaginas que se tenha metido o Guerreiro?
— Provavelmente esteja a caminho do lugar onde esconderam a vossa nave, para fugir do nosso planeta e contar aos da vossa espécie que extraterrestres também podem falhar com os africanos.
No mesmo instante, três pontos verdes e equidistantes da mira a laser de uma arma formaram o triângulo por onde parte da abóbada craniana do alienígena foi arrancada, e Sofia viu o alienígena cair-lhe morto depois de este ter escolhido encontrar a morte transformado no jardineiro que usava um chapéu de feltro. Pouco depois, Sofia discriminou entre as estrelas do Cruzeiro do Sul um rasto luminoso que percorreu, num piscar de olhos, o firmamento, até se extinguir para lá do hemisfério celestial norte. Talvez fosse um desses cometas periódicos, da mesma forma que um esteroide não podia ser descartado, ou quem sabe um telescópio confirmaria tratar-se de uma estrela cadente.
Publicado na Antologia Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa (volume 2) – Junho de 2024
