
Fonte: Facebook
Assa Matusse! Duas palavras, dois nomes, uma única mulher com uma voz capaz de fazer-nos levitar adormecidos, avivar-nos pelos poros no transpirar do coração. A genialidade que imprime em cada composição sua coloca-a numa posição acima de muitos fazedores de música em Moçambique, diria também, em África, e quiçá no mundo. Com a sua voz que se assemelha a um presente dos espíritos do Msaho, embala todos que a ouvem com temáticas do nosso dia-a-dia e os seus ritmos dançantes. Assa Matusse conseguiu reunir, como uma perfeita tecedora de conceitos, gritantes piolhos que nos incomodam as cabeças, nós os lúcidos, fazendo com que cocemos cada vez mais forte até sangrar. Trouxe questões como ‘machismo’, o ‘feminicidio’, as ‘desigualdades sociais entre homens e mulheres’, tudo isso em um dos mais recentes trabalhos musicais intitulado “Xo teka mitxumo swaku swa nsila”, tema que faz parte do álbum “Mutchangana”, lançado no ano 2023.
A “menina do bairro”, como é carinhosamente tratada a Assa Matusse, nasceu em 1994, no bairro de Mavalane, em Maputo. A sua infância, parece-nos, é bem retratada pela autora na música “menina do bairro”. Nessa música ela fala exactamente da sua infância sofrida nos becos. Filha de Matusse, sabe-se que é de pequeno que torce o pepino, teve o gosto pela música e dança através do seu pai muito cedo (como se houvesse ‘muito cedo’ para arte).
Poderíamos, a partir daqui, tentar entender e traçar a genialidade da própria Assa Matusse com as palavras de Fiódor Dostoiévski, que diz: “O sofrimento acompanha sempre uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes devem, parece-me, experimentar uma grande tristeza”. A infância da Assa Matusse é o ingrediente principal da artista que hoje temos. Por conta disso, a Assa Matusse tem muito por contar, dizer e chorar em suas músicas, como o tem feito falando de uma forma profunda, principalmente, da condição da mulher numa sociedade enraizada em ditames machistas.
Na sua obra, Assa Matusse vai pacientemente, com uma agulha tênue, desfazendo as linhas invisíveis que se interligam e criam aquilo que se chama cultura e tradição, na mesma medida em que desconstrói essa forma de ser e estar, também vai ajudando com o canto a tecer uma cultura melhor, inclusiva e acolhedora. O álbum é basicamente isso, um questionar e romper com a forma com que lidamos com certos assuntos, a exemplo da “Aprendeste aonde?”, em que retrata o amor entre pai e filha tido como tabu.
Na música em questão, ela nos faz ver e ouvir a humilhação em que as mulheres são submetidas, de forma coerciva e continuada, usando discursos e narrativas depreciativas quando “criticam, condenam, reclamam e complicam” as mulheres. E quando a compositora enfatiza “Djula Munwani, Lweyi a lulameké” (procura outra que é a correcta ou perfeita) traz-nos essa apreciação defeituosa do ser mulher, fazendo com que essa condição criada socialmente seja e se pareça até algo anterior ao berço, isto é, natural. No mesmo verso, ela denuncia, em bom português para todos bem ouvirem, “a sociedade doente (…) que inferioriza a mulher” em que todos vivemos e vemos, mas nos calamos ou replicamos os métodos que subjugam o feminino numa tendência sempre subjacente.
Essa tendência subjacente, em que a sociedade toma como um lugar natural da mulher, faz com que haja, consequentemente, “só opressão, limitação”, e mais degradante ainda, faz com que as mulheres “implorem [por] aceitação”. A mulher é violentada ou, pelo menos, reprimida de muitas coisas na sociedade que a faz “morrer lentamente” e, noutros casos, até em silêncio, engolindo muitos sapos até não aguentar mais, chorando entre cantos escuros do seu coração sem que ninguém a veja pois até as próprias mulheres chancelam essa degradação dizendo “ukati dza kazata” (casamento é difícil). Esses dizeres foram também bem retratados na música da Lizha James intitulada “Mama”, onde o Eu lírico é uma mulher que roga aos seus pais para que devolvam o lobolo (dote) pois ela já está cansada de tanto sofrer. Tendo em conta o casamento, quando o “casamento não vai bem, a culpada sempre sou eu (a mulher) só por ter nascido mulher”. Isso evidencia a precariedade em que se encontram muitas das mulheres nos casamentos em Moçambique, um lugar de constante guerra, batalha, e sacrifícios, até da própria alma.
Quando se pensa nessa realidade sufocante, imagina-se que seja o ápice, contudo a Assa Matusse respira fundo, permite-nos respirar e limpar o pouco de líquido cristalino e salgado que morre nas maças da cara. Toca na ferida quando diz que têm “salários diferentes, porém fazem trabalhos iguais (aos homens)”, trazendo, mais uma vez, a questão de desigualdade entre géneros, que se circunscreve essencialmente no tratamento discriminado das mulheres. Quer dizer, esse assunto de discriminação, além de ser pessoal, familiar, cultural passou a ser, também, por um dado momento histórico, sistemático.
Não se ficando por aí, reclama com a sua voz a problemática dos homicídios que acontecem vitimando as mulheres, que até tendem a diminuir (salvo o equívoco, talvez não acompanhe bem as notícias). Essas são vítimas simplesmente por causa da sua “beleza, nobreza e delicadeza” que são próprias das mulheres. A artista, por evidenciar a questão “beleza” fica a dúvida se acha que a beleza é imanente do ‘ser mulher’ ou retrata a forma como as mulheres são vistas na sociedade. Aqui fica uma nota importante, não se sabe ao certo do posicionamento do Eu lírico, se sublinha a “beleza” como algo importante nas mulheres ou se sublinha a forma como a sociedade é obcecada na beleza da mulher, relegando outros atributos ao segundo plano. Entretanto, é mister que se comece a criar narrativas em que as mulheres sejam vistas além físico, analisadas, descritas, e faladas por sua “inteligência” e “astúcia” que também são características a ter em conta, o que é de extrema importância na luta contra a sexualização do corpo da mulher.
Essa visão superficial da mulher, que a reduz a simples objecto sem dispositivo cognitivo instalado, propícia actos macabros, conforme diz o eu lírico da música “nos matam por prazer de satisfazer o desejo carnal”. A supermassificação da ideia de que a mulher é bonita, até pode ser uma forma de trazer auto-estima de uma mulher estilhaçada pela sociedade, entretanto sem colocar adjacentes e de forma continuada as ideias de que também “pensa”, “resolve conflitos” e “têm ideias inovadoras”, faz com que a mulher não seja vista além do superficial. Sempre associa-se a ideia da mulher com a “beleza”, nada mais que isso. Então questionamos, o que é beleza para a sociedade? Ter ancas, rabos, peitos, e com uma face que se adequa a um padrão já pré-estabelecido, o que nos faz crer que a beleza é também uma coisa dialética-discursiva. Se isso é o que é a beleza, então o homem só vai querer isso na mulher, então só irá mesmo querer a mulher para satisfazer os seus desejos carnais. É urgente a mudança de narrativa.
Bem no fundo, sentimos ares de alguém que desamarrou-se das correntes culturais, e grita “ignore us if it’s necessary, but stop taking our lives”: esse é o sentido de empoderamento que tenta trazer, duma mulher que se quer criar usando suas próprias narrativas.
Assa Matusse canta em inglês, francês, português e changana. Eu vou tendo alguma ideia de que a Assa Matusse quer levar o que é de Moçambique para o mundo, diferente dos que trazem do mundo para Moçambique. Isso lembra o verso de Azagaia na música alternativos (c/participação de Valete) que diz “nacionalizas o global, eu globalizo o nacional”. Também, demonstra algum laço com a sua cultura por meio da língua predominante nas suas composições apesar de residir actualmente em França. Esse Changana a conecta com as suas origens e propicia a valorização da sua cultura (só nesse aspecto). Usa o português, inglês e francês como forma de querer ser entendida por todo o mundo, agora que canta para o mundo. Também, é um sinal de respeito para com a cultura alheia, de pessoas que, espero, a acolheram bem.
Nessa música não foi diferente, usou Changana, inglês e português. Faz isso com tanta naturalidade que ilustra a sua genialidade poética. Junta cá palavras rongas, algarvias e anglófonas, recombinando num poema. Essa “Fraternidade das palavras”, dita pelo velho mulato, faz com que “as palavras, mesmo estranhas, se têm música verdadeira, só precisam de quem as toque ao mesmo ritmo para serem todas irmãs”. E, fazendo com as línguas conversem num ritmo de harmonia, sentimos que é possível o conviver com pessoas de línguas diferentes de forma harmoniosa e poética.
A guitarra não falha nas suas composições. Apesar de ser um instrumento indispensável no mundo da música, também pode fazer sentir a sua infância junto do seu pai no momento de êxtase, onde o racional e o irracional cruzam as mãos criando conexões neuronais fazendo com que se sonhe com alguma pousada dos deuses ou espíritos. A sua voz é bem colocada nas batidas. Além da língua Changana, o ritmo das suas músicas faz com que todos que a ouvem visitem em instantes o lugar chamado África, Moçambique, quiçá mavalane também.
“Xo teka mitxumo swaku swa nsila” é uma crítica cerrada, conduzida por uma voz de empoderamento, de quem conhece e viveu na pele as contrariedades em que a mulher vive na sociedade profundamente machista e patriarcal.
Domingos Inácio Mucambe
SOBRE O AUTOR

Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.
