
Há alguns dias, publicamos uma citação de Graciliano Ramos que diz: “a primeira coisa que uma obra de arte nos diz é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão.”
Se é verdade que a arte se inspira na vida e muitas vezes nos mobiliza para a acção, é igualmente verdade que muitos de nós encontramos consolo, expressão e liberdade na arte. Como uma pessoa profundamente movida pela sétima arte desde a tenra idade, as telenovelas brasileiras sempre foram uma fonte significativa de entretenimento e reflexão para mim.
Nesta breve resenha, gostaria de revisitar Pátria Minha, telenovela brasileira que foi ao ar pela primeira vez em 1995 na TV Globo há quase três décadas. Apesar do tempo, os temas desta novela parecem ressoar de forma marcante, não só no contexto brasileiro da época em que ela foi feita, mas também, e surpreendentemente (senão algo alarmante) no contexto contemporâneo de Moçambique. Ora vejamos:
A Narrativa de “Pátria Minha”
De entre as inúmeras tramas interligadas, destaco duas narrativas centrais que me parecem particularmente relevantes: primeiro, a história de Pedro (interpretado por José Mayer), um imigrante brasileiro que vive em Nova York há anos e decide voltar ao Brasil. Sua esposa, Ester (Patrícia Pillar), ex-professora de português, resiste à ideia de regressar. Ela articula a sua reluctância com palavras que são dolorosamente familiares até o dia de hoje e passo a citar:
“Eu não quero voltar. Me dá medo. A gente vai voltar para um país em que o professor não consegue dar aulas porque está com meses do salário atrasado, um salário de fome. Onde nem sequer tem giz”.
Eventualmente, Pedro convence a esposa, e eles voltam para o Brasil – apenas para descobrirem que a família está a residir numa favela. Isso os introduz às duras realidades que se observa no país, como a desigualdade, tema central da novela.
Paralelamente a está trama, está a história de Alice, uma jovem estudante rotulada de rebelde, que ousa confrontar Raul Pelegrini, um inescrupuloso empresário corrupto e poderoso. Alice lidera uma resistência contra Raul, depois que ele ordena o despejo da família de Pedro e de outros moradores de um terreno. O confronto intensifica-se, culminando num violento protesto onde tanto Ester, esposa de Pedro, como Gustavo, filho de Raul, saem gravemente feridos.
Eis um trecho desta passagem:
Vídeos: Pátria Minha | Pátria Minha | memoriaglobo
A tragédia atinge o ápice quando Ester é levada para um hospital público, onde espera durante horas para ser atendida, para no fim descobrirem que a instituição não tem o equipamento necessário para realizar os exames precisos. Sem cuidados atempados, Ester acaba por morrer. Gustavo, por outro lado, é imediatamente levado para uma clínica privada bem equipada, onde é tratado, mas também sucumbe aos ferimentos.
Esta justaposição gritante dos sistemas de saúde públicos e privados, sublinha a desigualdade sistémica que permanece demasiado familiar em muitas sociedades, particularmente a que se vê nos dias de hoje em Moçambique. O nosso país, tal como o Brasil fictício retratado em Pátria Minha, debate-se com disparidades sociais e económicas, que por vezes parecem intransponíveis. Os desafios enfrentados por Pedro, Ester e Alice podem ser facilmente revistos nas lutas dos moçambicanos – com professores cujos salários estão atrasados, alunos sem escolas, juízes em greve, famílias deslocadas e cidadãos a navegar num sistema de saúde sobrecarregado. A corrupção encarnada por Raul Pelegrini também parece estranhamente familiar. E tal como Alice, muitos moçambicanos estão a levantar-se para contestar estas realidades, com contornos alarmantes e grandes custos pessoais para todos os lados.
A meu ver, Pátria Minha, não é, entretanto, apenas uma história de desespero e de lutas. Na sua essência, é um lembrete de que, como cidadãos, somos todos administradores da nossa pátria. Enfatiza que, mesmo em meio às adversidades, permanece um dever duradouro nosso, de cuidar e elevar a nossa nação, buscando sempre o bem para ela.
Se na ficção é possível um final feliz, um arco de redenção e o triunfo da paz, como acontece em Pátria Minha, na realidade que sonhamos e queremos para nós, a mesma coisa deve acontecer. Histórias como estas nos instigam a imaginar um caminho bom, um final feliz, um Moçambique, por exemplo, onde o diálogo se realiza e a paz é restaurada. Um desfecho que nos leve aonde a saúde, a educação e a justiça sejam acessíveis para todos. Devemos todos nós olhar para além das nossas divisões e diferenças, e trabalhar juntos para um futuro comum.
A música Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, um dos temas principais da novela, traz uma grande reflexão sobre racismo, desigualdade e resiliência. Vale a pena conferir.
A nossa classificação: 4,5 entre 5 estrelas
Por Virgília Ferrão

Inspirador, leva-nos de facto a uma profunda reflexao…ha muito que perdi a paciencia para seguir novelas mas confesso que este texto me despertou curiosidade sobre essa novela…
Ohh muito obrigada pela visita MJ! Também não vemos novelas há muito tempo kkkkkk mas esta fez muito pensar no caos em que estamos mergulhados. Oxalá se resolva depressa. Muitos beijos e até já : )