Desabafo de uma qawwi

Reza Por Moçambique, Will

Fonte de Imagem: Freepik

Há uma corrente fria rasando no átrio do prédio. Pensei que pudesse sair para apanhar um pouco de ar. Mas depois do segundo disparo, estava eu a correr. Nem vi o elevador aberto. Quando te convidam a correr pela vida, nada fica ao teu alcance, nem mesmo o que devia ser óbvio.

Chego ao 9º andar e da varanda olho para a cidade, do alto que me permite um vislumbre panorâmico. De um lado a estátua de Samora Machel, que se mantém muda. Envolta a tanto gás que se levanta, estão paralisados os seus músculos de ferro. De outro lado, uma fila de multidão. A polícia dispara contra a multidão. Contra cidadãos, contra sonhantes ambulantes. Para mostrar a outros cidadãos, que tão depressa os seus sonhos serão pesadelos. Mas não são todos cidadãos? Não somos todos? E todos somos sonhantes. E não importam os lados, ou as divisões, ninguem está imune.

Entra, Linan pede-me Will, de pé na porta. Ele é um tipo tranquilo, mas vejo um rastro de preocupação traçando o seu rosto.

Will, e os protestos?

Não é seguro.

Não é seguro. Nada é seguro, concluo.

Aqui em cima, neste 9º andar, o gás não chega até nós; dispersa-se como os pássaros perdidos no vento. E, no entanto, as pessoas lá em baixo o encaram de frente, com as crianças que faltam à escola porque não há escolas para ir. As mães marcham porque não têm comida para alimentar os filhos. E, entretanto, quanto mais marcham, mais as prateleiras ficam vazias. As cidades suspensas no tempo, a economia ruindo no pendulo, o vento indecidido. E nos esquecemos que magoar o próximo, é magoar a si próprio. Pedras arremessadas tornam-se pedras em ricochete.

Will sempre se posicionou contra a violência, acreditando em palavras e não em punhos cerrados. Ele também não era do tipo que se aprofundava na política. Para ele, a política e a religião carregam o risco de dividir as pessoas, mostrando as fragilidades das nossas relações, como as rachas que aparecem na loiça. As nossas conversas às vezes complicavam-se, pois eu, como alienígena que sou, ainda luto para entender a lógica humana por detrás de algumas coisas. Este vácuo, por exemplo. A acappella das panelas nas varandas, que gritam porque há silêncio. Tudo isto ultrapassa qualquer orientação política ou crenças pessoais que eu possa ter.

Isto não faz sentido!

Senta-te Linan. E respira pede-me Will, com a voz calma de sempre. Às vezes é tudo o que podemos fazer. Respirar. Orar.

Porquê? Por que é que não estamos a ouvirmo-nos? Por que é que não estamos a dialogar?

Talvez porque reconhecer a dor significa assumir a responsabilidade por ela – responde-me Will com os olhos distantes. Não te revoltes, Linan, nem tomes lados. É preciso apurar a verdade. E agir de acordo com ela.

Eu não tomo nenhum lado, Will. Eu sou pela união. Sou por Moçambique. Afinal, somos todos humanos. Somos todos um só país, certo?

Ele não me responde. Faço uma pausa, antes de murmurar:

Como é suposto eu agir?

Oh Linan. Will segura-me a mão. Melhor é continuares a missão que te trouxe a este planeta. Ser paz, ser luz, ser justiça. É isto que devemos todos fazer. Amar uns aos outros.

O coro de panelas persiste nas janelas. Já não se assiste Moçambique em Concerto na TV. Alguém, por favor, resgate os CD’s de Miriam Mabeka. Imagine um mundo onde reina a união, onde ninguém fica com fome ou é esquecido. Onde não há mortes. Estou a imaginar como John Lennon fez. Mas, por enquanto, é apenas um sonho. Na realidade, o edifício desmorona sobre mim e, com ele, os próprios alicerces da minha alma.

Então, de repente, acordo. Estou encharcada de suor, com o coração disparado. Foi apenas um pesadelo. Sento-me na cama, desorientada, olhando em volta. A minha casa está intacta, a rua tranquila sob o romper do sol. Mas Will… a cama vazia responde-me. Will não está aqui. Há muito que ele deixou este mundo. O seu espírito escolheu dar a vida por amor. Um sacrifício que nunca esquecerei. Sinto a sua falta. Mas tal como o seu amor falou mais alto, também fala alto o meu amor por este país. Fala mais alto a minha fé, que se enraíza teimosa como fechadura encravada.

E nestes momentos de dúvida, só uma coisa me mantém com os pés no chão: saber que, mesmo na escuridão, a luz da esperança cintila. Saber que Deus prevalece sobre todo o Universo, e que a Sua Vontade se cumprirá. É preciso ter calma. Se Will estivesse aqui agora, ele simplesmente me diria: “Espera, Linan. Mesmo quando a noite parece interminável, o amanhecer sempre chega. Não te esqueças de orar.”

Volto-me para o céu, e com as mãos juntas sussurro: “Will, onde quer que estejas, ora por nós. Ora por Moçambique. Ora para que encontremos coragem para amar, para sonhar, para abraçarmo-nos. Levantarmo-nos e todos juntos curarmos este país.”

Linan, a Qawwi

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