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Quando um Vampiro pede Licença Não o Deixe Entrar: Uma Alegoria ao Género Blaxploitation e a Apropriação Cultural em Sinners, de Ryan Coogler

por Denilson Monjane

                                                                                                                                 Tirem-nos tudo,

                                                                                                               mas deixem-nos a música!

                                                                                  Noémia de Sousa in “Súplica”, Sangue Negro

“I remember you was conflicted

Misusing your influence

Sometimes I did the same

Abusing my power, full of resentment

Resentment that turned into a deep depression

Found myself screaming in the hotel room

I didn’t wanna self-destruct

The evils of Lucy was all around me

So I went running for answers

Until I came home

But that didn’t stop survivor’s guilt

Going back and forth trying to convince myself the stripes I earned…”

Kendrick Lamar in To Pimp A Butterfly

A cultura vem de longe. E, entre as suas tradições, costumes e artes, uma das suas principais componentes é o folclore que, através dele, contos, lendas e canções populares foram transmitidos através da tradição oral de geração em geração; não só como um meio de passar lições de moral ou valores e princípios com que viver, mas também para conservar e reivindicar a identidade. Num mundo forçosamente industrializado pelo capitalismo, em particular a indústria do entretenimento, há uma reivindicação por parte dos fazedores de arte, em especial a música, no envolvente a apropriação cultural. Nos EUA, há um termo: culture vultures, ou seja, abutres da cultura, referindo-se a àqueles que tomam a cultura dos outros para si, a capitalizam e centralizam os lucros, ampliando a sua credibilidade e supremacia sobre os demais naquela área.

Ryan Coogler, cineasta americano, através de “Sinners”, sua mais recente realização, faz essa alegoria à apropriação cultural na indústria musical usando a maior figura folclórica para expor o narcisismo dos que abocanham a cultura dos outros e agem como se fizessem parte dela: o vampiro, que vive entre os humanos como se também fosse. O abutre, o corvo, a hiena, são algumas das figuras que em fábulas representam o egoísmo, narcisismo e vontade de ter mais.

Coogler mescla blaxploitation, horror musical de uma forma que transcende o padrão do filme genérico. Em “Sinners”, somos convidados- à medida que nos encantamos e espantamos com os cortes, sequências e trilha sonora- a reflectir sobre o poder da cultura e a sua capacidade de mover massas. E, fica claro que a cultura, sobretudo a das massas, que é movida pela constante circulação de informação, pode atrair o bem mas, como o filme revela, também pode atrair o mal. A música, como nos mostra “Sinners”, não é apenas uma manifestação artística para mero entretenimento, mas também uma força energética que atrai o oculto. Em várias culturas do mundo a música é uma ferramenta espiritual que, se mal-usada, pode, supostamente, atrair espíritos malignos.

O blues, um estilo musical surgido no sul dos EUA em meados de 1860, século XIX, marca o início da formação cultural afro-americana, o qual se viu banido e censurado pela burguesia comunista, devido as composições tendenciosas que transmitiam a reivindicação pela liberdade que se colocava abaixo de toda a causa opressora que via o blues como uma forma de manifestar o seu grito de socorro. Em “Sinners”, o blues não foge à tradição. Preacherboy, personagem interpretado por Miles Cate, usa o blues como um refúgio da vida dura do homem negro e, na maior inocência, inconsciente das entidades que o seu talento atraía do oculto.

A composição da trilha sonora mais uma vez revela a infinitude do talento do compositor sueco Ludwig Göransson. A actuação dupla de Michael B. Jordan como os gémeos Smokestack eleva o talento e habilidade de representação do actor Miles Caton como Sammie/Preacherboy, um inocente filho de padre que ama o blues, a mal casada Pearline (Jayme Lawson), a desamada Mary (Hailee Steinfeld) e a misteriosa Annie (Wumni Mosaku), e um toque de nostalgia cómica dos actores veteranos Delroy Lindo como Delta Slim e Omar Benson Miller como Cornbread.

“Sinners”, para o mais superficial dos cinéfilos, pode ser apenas mais um filme blaxploitation, com uma pitada de música negra, irlandesa e vampiros como a cereja no topo. Mas, para quem vem acompanhando o cenário do entretenimento internacional, percebe logo que é uma indirecta apontada sem escrúpulo aos abutres da cultura negra que andam dispersos, se apropriando da única coisa que resta a um povo oprimido: a música.

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