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A Vitrine da Vida

Por Roberto Júnior

Moro numa pequena localidade em Londres, chamada Woodstreet. É daquelas ruas discretas, quase tímidas, que se escondem no ritmo apressado da cidade. Mas, como todas as esquinas antigas de Londres, guarda as suas próprias histórias — aquelas que não vêm nos guias turísticos.

Numa dessas esquinas havia uma funerária muito antiga, com com o nome Ashworth & Co. gravado em letras sóbrias sobre a fachada escura. Fundada em 1888, resistiu a guerras, crises económicas, mudanças culturais. Sobreviveu a tudo, menos a um gesto de desespero.

A montra era singela, com espaço apenas para um único caixão. O mesmo caixão, todos os dias. E o dono — um senhor já idoso — também o mesmo, sempre lá, pontualmente às sete da manhã, sentado atrás do vidro, como se fizesse parte da montra. Presença constante, quase fantasmagórica, mas estranhamente reconfortante.

Até que um dia a loja fechou.

Soube-se depois que um homem, em aflição, precisou dos serviços da funerária, mas não tinha meios para pagar. Perdera alguém querido. E, ao não encontrar acolhimento, nem alternativa, cedeu à dor. Numa madrugada, destruiu a montra da loja. Desde então, o caixão desapareceu, a cadeira ficou vazia, e Ashworth & Co., um negócio com mais de 135 anos, nunca mais reabriu..

Valeu a pena?
Valeu a pena perder um legado centenário por causa de um impasse humano?
E, qual é o papel do Estado nestas situações? Como é possível alguém não ter acesso digno a um enterro? Onde está a rede de apoio? Onde termina a responsabilidade individual e começa a responsabilidade colectiva?

É curioso — e profundamente simbólico — que uma loja que vendia caixões tenha ido à falência por causa de um único morto desconhecido.
Um só morto bastou para sepultar toda a história daquele lugar. Trágico. Poético. Real.

E se o dono tivesse estendido a mão? E se aquele homem tivesse família? Apoio? Comunidade? Tantas possibilidades que talvez evitassem o fim.

 Foi então, pois, que me surgiram perguntas, as quais agora partilho:

Qual é o verdadeiro sentido da vida?
Qual é o sentido da família?
Qual é o valor da entreajuda entre seres humanos?
Por que não criamos um mundo melhor?

Vivemos cercados de distrações e silêncios. Mas, talvez tudo o que alguém precise seja de uma pergunta sincera: “Estás bem? Precisas de alguma coisa?”

Talvez essa seja a chave.
Talvez esta história — pequena, escondida numa esquina de Londres — valha mais do que parece.
Talvez lembre-nos que, no fim de contas, o que estamos mesmo aqui a fazer… é cuidar uns dos outros.

Sobre Roberto Júnior:

Roberto Júnior nasceu no Chokwé , em Moçambique, e cresceu numa pequena aldeia chamada Lionde. Foi numa das suas idas a Maputo, ainda em criança, que viu pela primeira vez edifícios altos, imponentes, tendo ficado fascinado. Aos 16 anos, mudou-se para Maputo e, pouco tempo depois, foi viver para Lisboa com o seu tio Bonifácio — um médico de grande coração e visão. Foi ele quem impulsionou a sua mudança para Londres, onde reside atualmente. Roberto estudou hotelaria e trabalhou mais de vinte anos em hotéis.

Com o tempo, e com a chegada da família, a necessidade de estabilidade levou-o a perseguir um segundo sonho de infância: trabalhar num banco.

Hoje, trabalha num banco há sete anos onde exerce a função de Workplace Experience Lead, liderando equipas.

Tem 43 anos e é pai de dois filhos que são o centro da sua vida.

Nos seus tempos livres, gosta de escrever, quando pode, e de cozinhar aos fins de semana. Escreve sobre as suas vivências, sobre o que vê, sobre o que sente e o sobre que aprende.

Uma opinião sobre “A Vitrine da Vida”

  1. Uma historia de milhoes! Só para dizer que a vida é um aprendizado constante com idas e vindas que Só Deus pode determinar o nosso destino com ajuda de boas escolhas.

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