
Depois de semanas de ausência, Harmistrong regressa à universidade. Estava exausto. Carregava o peso de algo que não se explica. Não tinha ânimo para dar aulas, tampouco para ficar em casa. A secretária notou-lhe o desleixo: a barba por aparar, o cabelo por pentear e, talvez, um banho que lhe tenha escapado. Ainda assim, manteve-se calada, temendo uma resposta malcriada do professor. Afinal, conhecia-lhe bem as manias.
Ele limitou-se a um frio cumprimento, sem se dignar a justificar as ausências nem o facto de não atender às ligações. Seguiu directamente para o seu gabinete e desabou na cadeira. Passou em revista os últimos acontecimentos. Estes, resumiam-se a carta da noite anterior. Mas, Vallen não se dignara a aparecer. Pareceu-lhe uma obscenidade o não ter aparecido, como se tivesse faltado a um compromisso previamente marcado.
Teria continuado em divagações se algo sobre a mesa não lhe tivesse chamado a atenção: uma carta.
Harmistrong quase surtou. Chamou pela secretária como quem, em tempos de aflição, chama por Deus.
— Quem trouxe essa carta?! — gritou.
— Carta? — perguntou ela, confusa.
Com o dedo trémulo, ele apontou para a mesa.
A secretária olhou, impávida.
— Não recebi nenhuma carta, doutor! Aliás, o seu gabinete permaneceu trancado durante a sua ausência — justificou.
Disse mais uma porção de coisas, como:
— O senhor proibiu que se abrisse o gabinete na sua ausência…
Porém, o doutor Harmistrong já não ouvia nada. Nos seus olhos, pendiam duas grossas lágrimas. A secretária começou a ficar preocupada. Quis saber o que se passava, mas conteve-se, temendo que os seus sentimentos não lhe permitissem escolher as palavras certas.
— Doutor…
— Abra! — disse ele, titubeante.
— Como?
— Eu disse abra, porra! —gritou, visivelmente alterado.
A situação começava a transitar de preocupante para assustadora. Ainda assim, obedeceu.
— Não tem remetente — disse, abrindo o envelope.
Com calma, e alguma estranheza a mistura, leu a única palavra que continha a carta:
— Bingo!
O doutor Harmistrong levou a mão ao bolso traseiro e retirou outra carta. As suas mãos tremiam notavelmente. A carta trazia a mesma mensagem:
— Bingo!
A pergunta saiu-lhe de forma automática:
— O que isso significa? Está a receber alguma ameaça, doutor?
Em resposta, o doutor apenas balançava a cabeça, qual menino desesperado.
— É o jornalista?! — insistiu ela.
— Jornalista? — tornou ele, limpando as lágrimas.
— Sim. O senhor não sabe das notícias? Um jornalista tirou-lhe fotos em Boston, no incidente da cadeia. Na foto, os seus olhos brilhavam de forma peculiar. Dizem que é inteligência artificial… mas… mas há testemunhas.
Fez-se uma pausa. O doutor Harmistrong divagava, devagar.
— Puta merda… — murmurou, antes de desatar em gargalhadas esquisitas.
— Doutor…!
— Eu estou lixado, Cátia! — disse-lhe, estendendo os braços para um abraço.
A secretária envolveu-se nele, o coração pulsando acelerado. A situação não era das melhores, mas ela amava o doutor em silêncio, com todas as forças. E, por isso, não podia deixar de saborear o momento.
— Tudo se resolve, doutor — disse, ainda enlaçada nos seus braços. — Tudo se resolve.
— Não no meu caso… não com o Vallen à espreita.
— Vallen? Quem é Vallen?
Em resposta, apenas um sorriso. E Cátia não insistiu. Estava claro que algo grave se passava.
Cátia conseguiu convencê-lo a ir para sua casa. Ofereceria-lhe um banho, comida e, quem sabe, consolo. Durante o trajecto, não trocaram palavras. Harmistrong permanecia quieto, perdido nos próprios pensamentos. Entretanto, havia recuperado a calma. Cátia, por sua vez, calava-se — tinha tanto para dizer, mas não era o momento. Afinal, ele sofria de algo que ela não compreendia.
Estacionou o carro e dirigiu-se à porta de casa. Harmistrong seguia-a, resignado.
Cátia abriu a porta e deu um grito: havia um homem sentado no sofá, com o comando da televisão na mão.
— Vallen!!!! — exclamou Harmistrong.
O homem ergueu o olhar e sorriu:
— Bingo!
Vallen
