
De dia, a rua da igreja branca de Lionde parecia comum. O sino tocava preguiçoso, apenas aos domingos, velhas rezavam em silêncio, e crianças corriam pela praça. Mas, ao cair da tarde, um silêncio pesado tomava conta do lugar. Os moradores recolhiam-se antes das sete, obedecendo a uma crença antiga: era a hora em que os mortos deixavam o cemitério atrás da igreja para caminhar até ao amanhecer.
Ao lado da igreja, erguia-se a casa dos enfermeiros, que durante décadas servira também como casa mortuária. Ali os corpos eram preparados e velados antes do enterro. Ninguém mais conseguia morar nela. Diziam que, à noite, o vento soprava apenas para aquelas árvores em volta, e que os assobios vinham das paredes impregnadas de luto.
Foi numa casa vizinha a essa que Amélia, o marido — professor destacado de uma província distante — e o filho, Papaito, decidiram morar. A construção parecia tranquila, mas a sombra da igreja e o peso da casa mortuária ao lado criavam uma presença constante, como se a rua respirasse lembranças que não queriam ser esquecidas.
Na primeira noite, Amélia acordou com um som estranho: um assobio breve, irregular, vindo do quarto dos fundos. Achou que fosse o vento, mas percebeu que as notas se repetiam, quase como uma música esquecida.
Na manhã seguinte, Papaito comentou com naturalidade:
“O homem do quarto assobia muito mal.”
Amélia gelou.
“Que homem, Papaito?”
“O que fica sentado na cadeira, a olhar para as árvores.”
O quarto dos fundos dava justamente para o lado da casa mortuária.
Na noite seguinte, o som voltou, mais nítido. O marido levantou-se para investigar e percebeu que o vento parava de soprar em toda a rua, excepto nas árvores em volta da antiga casa dos enfermeiros, que rangiam como se sussurrassem entre si. Do quarto de Papaito, os assobios ecoavam em resposta.
Com o passar dos dias, aquilo tornou-se rotina. Sempre depois das sete. Sempre do lado da casa mortuária. E os assobios mudavam conforme o humor da família. Em noites tensas, eram agudos e irritados. Em noites de silêncio, tornavam-se melancólicos.
Papaito passou a responder. Às vezes, no meio da madrugada, Amélia encontrava-o sentado à beira da cama, assobiando de volta para a escuridão.
“Ele não gosta quando falamos alto”, disse o menino uma noite.
“Quem não gosta, Papaito?”, perguntou Amélia, tentando controlar a voz.
“O homem das pedras tortas. Ele chama-me quando demoro.”
Amélia soube imediatamente do que se tratava. No cemitério, atrás da igreja, havia um conjunto de túmulos antigos, tortos, que os moradores chamavam assim: as pedras tortas.
Desesperada, decidiu procurar um curandeiro local. Encontrou-o numa casa pequena, cheia de ervas secas penduradas no tecto e velas derretidas em frascos de vidro. Explicou-lhe tudo o que vinha acontecendo. O homem escutou em silêncio, com os olhos semicerrados, e por fim murmurou que os mortos estavam inquietos e que precisavam de ser apaziguados. Pediu-lhe um valor avultado e entregou-lhe um embrulho de pano com sal grosso, carvão, aguardente e um galo preto depenado.
Ordenou que Amélia fosse ao cemitério, à meia-noite, acender as velas diante das pedras tortas, derramar a aguardente sobre as campas e queimar o sal e o carvão como oferenda, invocando não só os mortos da terra, mas também os defuntos da própria família.
No entanto, quando Amélia chegou ao cemitério, o que viu gelou-lhe o sangue: todas as campas antigas pareciam revoltas, com fendas abertas, como se algo tivesse empurrado de dentro para fora. O musgo desprendia-se em placas, as velas que acendera apagavam-se sozinhas e o galo depenado foi arrastado pelo vento até cair sobre uma sepultura aberta. O silêncio era tão pesado que parecia conter um rugido contido. Era como se os mortos estivessem zangados com a tentativa de os apaziguar.
Naquela noite, os assobios não apenas regressaram: tornaram-se mais altos, agressivos, prolongados, como se cada túmulo tivesse começado a assobiar por si. As árvores ao redor da mortuária rangeram como vozes de centenas de velórios simultâneos.
O marido de Amélia resistia à ideia de abandonar a casa, pois a sua posição de professor destacado em Lionde era uma honra e um dever difícil de recusar. Mas, à medida que Papaito parecia cada vez mais enlaçado pelas assombrações e que nem o curandeiro conseguira resolver, restou apenas uma escolha.
Na madrugada seguinte, após mais um assobio que atravessou a casa como uma lâmina, a família juntou os pertences à pressa e partiu.
E até hoje, quem ousa atravessar a rua da igreja branca de Lionde depois das sete garante ouvir o vento bater apenas nas árvores da antiga casa mortuária e, entre rajadas, um assobio irregular, vindo ora do cemitério, ora da casa vizinha, onde ninguém mais ousou morar.
The Cysne

Perfeito para uma noite de 31 de Outubro!