Desabafo de uma qawwi, Resenhas

O Jantar

Cátia soltou um grito ao ver um homem sentado no sofá da sua sala, espreguiçando-se com o comando da televisão pousado na mão.

— Calma, Cátia! — pediu Harmistrong, com a voz trêmula.

Vallen sorriu, um sorriso sarcástico.

— Não vai apresentar a sua amiguinha, Bartoq?

O silêncio que se seguiu tornou o ar mais pesado. Por fim, Vallen continuou:

— Ah, desculpe. Agora é Harmistrong, não é?

O Doutor engoliu em seco a provocação. Cátia, entretanto, olhou de um para o outro, completamente perdida.

— O que está a acontecer, doutor? Você conhece este homem? Eu vou chamar a polícia.

— Não faça isso — pediu Vallen, erguendo-se do sofá. — Já fiz o jantar. Primeiro vamos comer. Não dizem por aqui que saco vazio não fica em pé? Venham.

Cátia ficou imóvel por um instante. Ainda tentando encontrar alguma explicação plausível.

— Mas, o que é que está a acontecer?! — inquiriu ao Doutor.

— Calma, querida — disse Vallen afastando as cadeiras. —Vamos explicar tudo. Sente-se.

Sentaram-se à mesa. 

— Cátia, terá de perdoar-me. No reino de Stefanotis nós não cozinhamos.

— Onde é isso? — perguntou ela.

— Noutro planeta. Numa órbita distante daqui.

Cátia gargalhou, pela primeira vez passou pela sua cabeça que tudo não passava de uma brincadeira elaborada pelo Doutor.

— Então você é um extraterrestre?

— Sim. Eu e o Bartoq. Ou melhor… e o Doutor Harmistrong.

O Doutor abaixou ainda mais a cabeça, carregando seu fardo invisível.

— Eu exijo ser julgado pelo Conselho Supremo — disse ele, de súbito. — Só o Conselho pode decidir a pena máxima.

— Mas o que é que está a acontecer? — insistiu Cátia.

— Não estrague o nosso jantar, Bartoq — advertiu Vallen, sem perder o sorriso.

— Você não tem o direito de extirpar um qawwi quando bem entender.

Vallen ignorou o comentário e voltou-se para Cátia com delicadeza:

— Perdoe o Doutor. Coma.

Cátia lançou um olhar inquieto a Harmistrong, como se pedisse autorização. Vallen, por outro lado, fixou um olhar frio, suficientemente ameaçador ao Doutor que, imediatamente,pegou nos talheres.

Durante o jantar, Vallen falou sem parar, contando histórias tão absurdas que, invariavelmente, arrancavam gargalhadas de Cátia. Harmistrong permanecia alheio, como se cada palavra fosse uma tortura.

— Mas afinal, o que você quer, Vallen? — tornou a perguntar Harmistrong. 

— Eu? — disse ele, levantando-se com entusiasmo. — A sobremesa! Vão adorar.

Serviu-lhes mousse, suco de pêra e panquecas. Cátia provou e ficou maravilhada. 

— Está delicioso! E você disse que lá em… Stefa… Sti…?

— Stefanotis — corrigiu.

— Isso! Disse que não cozinhavam.

— Bem… confesso que usei um pouco de magia.

Cátia voltou a rir. Só Harmistrong parecia totalmente alheio ao momento.

Quando terminaram, o Doutor não conseguiu conter-se:

— O que você quer?

— Mas que indelicadeza, doutor! — disse Cátia, chocada com o tom dele perante o Vallen que se mostrou sempre tão amável. 

— Já estou habituado, Cátia — disse Vallen, pousando calmamente os talheres.

Harmistrong inclinou-se para a frente, desesperado:

— Diga de uma vez. Já fizemos o que você queria. O que você quer?

Os olhos de Vallen mudaram de cor, brilhando num tom impossível e, com uma voz aguda e cortante, disse com firmeza: 

— Quero a localização exacta dos qlubs.

No mesmo instante, os olhos de Harmistrong também brilharam. Cátia caiu da cadeira, inanimada.

— Isso era missão de Linan — disse Harmistrong — Não tem nada a ver connosco.

— Onde ela está?! — rugiu Vallen.

Harmistrong fechou os olhos, respirou fundo… e respondeu:

 

— Maputo, Moçambique.

Vallen

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