
Numa técnica mista, Sandra Pizura cria uma solução, através da pintura, que serve como lenitivo para as dores, cóleras e sofrimentos que acossam a mulher como figura, algo inventado e recriado pelo discurso que, segundo Foucault, envolve a palavra e a prática. Uma solução que vai além das misturas químicas, mas atravessa a psique e conforta o corpo físico, prometendo ser algo duradouro e eficaz.
“Amor entre elas” é a solução, uma poção mágica, que pode dissolver qualquer tipo de estereótipo, grades ou correntes mostradas por Bena Felipe no quadro “Sonhar Liberdade”, na mesma exposição, e tudo aquilo que traz dor para as mulheres. Num 40×50 cm, a artista mostra o remédio principal para muitas das mazelas que estripam as mulheres, que é a união. E, mais do que união – o amor no seio delas- cuidando umas das outras. É isso que se observa no quadro em alusão, onde duas mulheres, com seus alicerces (suas capulanas), oferecem a simpatia como uma forma de cuidado mútuo e amor entre elas. Uma delas, prostrada, parece assegurar que a sofrida -a mulher no meio- tenha um lencinho branco que não só serve para limpar as lágrimas, mas tem um valor simbólico por conta da sua coloração; esta poderá ser uma forma de oferecer alguma paz à sua alma. É como se a outra a oferecesse paz. Qual coisa mais ténue que um beijo na testa? A segunda mulher de capulana azul trata de dar à sofrida os beijos que simbolizam a delicadeza e o cuidado que ela tem, ou que elas têm ou deveriam ter umas com as outras, e também uma forma de lembrar a ela que é especial.
A destreza do pincel da autora nota-se quando pinta as duas mulheres com cores vivas: branco, rosa e verde. As capulanas tricotadas e coladas, também, têm cores vivas. Uma das capulanas cuja coloração lembra o vermelho e uma tonalidade de rosa, e da outra mulher é azul. Essas mulheres talvez tragam luz, esperança, cuidado e boa temperança para alguém que está submerso no abismo do seu sofrimento e, para sinalizar esse abismo, a autora pintou-a de preto, toda ela, com algumas pinceladas leves de branco. Preto e branco ou preto? Preto! O branco parece mera formalidade artística em que o contraste, muitas das vezes, é necessário até mesmo para evidenciar o que queremos evidenciar.
Para enriquecer ainda mais o enredo, esboça-nos um cão, que está ali para evidenciar a amizade, o cuidado, o amor porque, como se bem sabe, o cão é considerado o melhor amigo do Homem que, mesmo em situações adversas e de penúria (toda a penúria que possa existir) ele sempre se mantém fiel e nunca abandona o Homem.
Para a cura mútua, esse amor entre as mulheres, sugerida ou demonstrada por Sandra Pizura na sua obra do ano em vigor, torna-se algo essencial para curar a elas mesmas, aos homens e a toda sociedade. Que sociedade se ergue com mulheres doentes? Como esclareceu Isidro Fortunato, afro centrista angolano, “Mulheres felizes educam com paixão, e criam com sabedoria as sementes que construirão o futuro” (2015). Por isso, essa obra talvez seja o coração de toda a exposição: “Arte como cura colectiva”. Com o seu realismo, ela pintou amor como cura colectiva.
Por Domingos Inácio Mucambe
