Desabafo de uma qawwi

#37 | De volta ao começo (última parte)

– Teste, um, dois – repito.

Primo o botão, a pontinha de luz vermelha do gravador cede.

– Tão rudimentar… achas que vai funcionar, Linan?

– Confio que sim, deste-lhe um jeito, tem de funcionar.

Volto a clicar o botão e ouço a minha voz repercutir pelo aparelho. Avanço com a gravação, deixando registada a mensagem:

Olá. O meu nome é Linan. Se este aparelho e o meu diário foram parar às suas mãos, significa que de alguma forma, perdi-me do meu caminho. Por favor, ajude-me a reencontrar-me. Tudo o que você vai ler é real. Foi o meu dia a dia, durante a passagem por esta terra. Poderia ter sido uma visita breve, não fosse a mutação, os vícios do corpo e da alma de humana, alongar a jornada.

Deixem-me esclarecer: sou do reino de Stefanotis, que orbita numa dimensão distante desta. Tenho a pele trigueira, cabelo negro como o carvão vivo, que favorece os meus olhos azuis florescentes. Pareço bastante com você, ou seja, tenho o aspecto de um humano. Se estivermos no mesmo mundo, e caso esbarre comigo, ajude-me. Quem sabe você veja as coisas com mais clareza do que eu fui capaz. E caso me encontre, acorde-me, faça-me recordar. Disso depende, muito provavelmente, a esperança de toda a humanidade. Obrigada.

Vallen olha para mim, e num gesto inesperado, dá-me a mão. Afinal, só temo-nos um ao outro. E os inimigos também se abraçam.

– Será que vai ser doloroso?

– Espero que não.

Esfregamos a lua verde de tamarino nos nossos pulsos. Pensamos no começo. Soltamo-nos da terra.

Mas a terra, no seu vazio, torna-se mais negra que o luto do meu peito. Isto não é o meu planeta. Mas também não é a terra.

– Acorda Linan!

Sim, estou acordada. Mas não sei o que vejo ao meu redor, estas telas, estas velozes estrelas.

– Passaste da conta – continua a mesma voz, assustadoramente familiar.

Estico-me para ver quem é, e… esperem… sou eu? Um reflexo de mim mesma?

– Sim, eu sou tu. Deixa-me reorientar-te para que te reencontres lá atrás…

– Um minuto – a minha mão trava-se no acelerado teclado flutuante no ar – avancei? Avancei quanto tempo?

– Pelo menos um ano, Linan.

A minha mente guina com a força de um meteorito, à medida que o resultado matemático desliza da minha boca, arrancando-me da suspensão. Aterro em frente à uma das telas.

– Um ano? Significa… 30 anos do planeta terra?

– Precisamente.

– A esta altura, estarei atrasada?

– A esta altura já quase nada sobra.

Engulo em seco.

– Posso?

– O quê?

– Ver o que resta?

Ela observa furtivamente as telas.

– Compreendes, Linan, que tens de reorientar-te dentro desta janela, se não corres perigo de vida?

– Compreendo, mas preciso saber…

Deixo os meus dedos manejarem freneticamente o ecrã de uma das telas. Meus olhos inundam-se de lágrimas, da força impetuosa que brota do meu peito ao ver o planeta terra. A satisfação é tanta que o sorriso transfigura-se num desproporcional esgar.

– Eles venceram!

Os humanos. Estão felizes. Não há nuvens escuras pelos ares. Os mares são azuis como o céu. Eles se abraçam, sem discriminação. Todos eles. Descobriram que o amor não é só uma palavra, ou um sentimento. Descobriram que há uma razão para ele existir. Finalmente, os qlubs estão equilibrados! A qawwi com a minha cara, aproxima-se de mim, com as mãos escondias por detrás das costas, sugerindo que algo está a escapar-me.

-Lembras-te quando Vallen disse, Linan? Que existem duas variáveis? Pois, ele estava certo. Esta variável foi salva por antecipação. 30 anos atrás. Na dor, expostos diante das suas próprias fracturas, os seres humanos se transformaram para melhor.

– Então porque é que disseste que não sobrou nada?

A tristeza que emana dela, estranhamente, é minha.

– Olha com atenção.

Murmura deslizando o dedo na tela, para que eu veja o que até então me passava. Não são precisos mais de cinco minutos para que uma onda de terror atinja-me em cheio.

– O que é isto?

– Planeta Terra.

– Mas… parecem frívolos ikras?

– Esta é a dimensão de que Vallen falava.

– Como assim?

– Numa outra versão de si próprios, os humanos não aprenderam nada. Trinta anos atrás, perderam a oportunidade. Seus conceitos bélicos, egocêntricos e separatistas foram exacerbados. E isto abriu as portas para o que Jael queria, o pior cenário… que é…

– Não digas mais – murmuro. É como se acabasse de receber uma bofetada.

De que lado a minha família ficou? Do lado dos humanos que haviam aprendido, ou do lado dos que tão somente piorou?

– Reorienta-me, por favor, de volta ao começo.

– Estás preparada. Linan? Para começar do zero? Toda esta conversa, tudo o que viveste…

– Estou pronta.

– Ok. Então… até um dia.

Desabafo de uma qawwi

#36 | De volta ao começo: duas dimensões

Sempre soube que haveria um preço alto, e uma consequência, pela escolha que fiz. A cobrança chegou. Os meus bolsos, porém, quedam-se vazios. Não sou capaz de pagar.

Para esta terra, Will está morto. Onde ficam os discursos, sobre a morte não ser definitiva, sobre a possibilidade de ele estar a ir, neste exacto momento, ao meu planeta? Arrastam-se aos confins da minha dor. Aceitar que Will está a fazer a transição, implicaria dar por terminado o nosso amor. Como posso fazê-lo, se ainda o amo? Como aceitar que os humanos vivem tão pouco, quando eu quero continuar a estar com ele?

– Tens de te concentrar, Linan, não sejas egoísta! Ele está a atravessar…

Viro-me com brusquidão, como se tivessem disparado gases lacrimogéneos com o efeito oposto, deixando-me agitada. Aquela voz e figura que surgem no escuro, que dissipa a multidão, ignora e sempre ignorará o que eu sou, o que eu me tornei.

– Não sabes do que falas, Vallen! E se ele estiver a ser levado por rapadores…? – as frases saem-me pela metade, entrecortadas à lamina do meu frio e magoado coração.

– Achas que o teu queridinho é o tipo de humano que não será encontrado por um vigilante, Linan? – ele segura-me firme pelos punhos, e de seguida estica a mão, para mostrar-me um saco com conteúdo familiar, muito brilhante. O meu peito comprime, a testa pinga, e sinto a venda cair dos meus olhos.

– Usaste as partículas de tamarino com Will!

Os lapsos de memórias. A variação do seu humor. Agora compreendo. Will sabia o que ia acontecer. Protegera-me. Como ousara abandonar-me, sozinha, no seu planeta?

– Retribui esse sacrifíci,o Linan – a voz de Vallen parece distante – salva este povo, regressa comigo.

– Regressar? De que falas?

– A única forma de salvá-lo, é cumprires a tua missão. E tu falhaste. Ambos falhamos. Caímos na dimensão errada. Esta não é a terra de Selénio. Existem duas dimensões, e esta dimensão Linan…

Duas dimensões? Inúmeras hipóteses brotam na minha cabeça, mas este fracasso gigante, esta perda estrondosa, formam um quadro horripilante, uma competição de desastres com as quais não consigo lidar.

– Rei Selénio nunca falou de…

– Lembra-te bem de quem és, Linan!

“Trago uma humana dentro de mim, Vallen, que passou a amar estas pessoas, não suporto ter que perdê-las, não posso!” teria dito, não estivessem as palavras entaladas.

– E é por isso que vais comigo – prossegue Vallen. – Regressa comigo até o princípio.

Finalmente reajo:

– O que queres dizer com princípio?

– Antes da queda.

– Antes da… queda? – repito. O meu sangue congela. Fazer uma viagem tão longa no espaço temporal tem sérios impactos. Tão sérios que não me sinto capaz de arcá-los.

– Não me peças isso.

Anular tudo? Arriscar-me a esquecer-me por completo? Perder-me no oblívio? Como posso esquecer-me que um dia tornei-me humana? Que gerava um ser dentro de mim, o qual já era amado? Como posso renegar o amor por eles, pelos meus amigos, por esta terra? Se não podia estar com Will, queria pelo menos contentar-me com as memórias. Estes humanos são sagrados moradores do meu coração, como posso, simplesmente, apagá-los? Não existe um só momento que valha a pena ser anulado, nenhum.

– Não há outra forma, Linan. Tens de voltar e focar-te na tua missão, sem distracções. Quem sabe, assim, se fores bem sucedida, os voltes a ver.

– Mas se anular tudo…

– É melhor assim. Foste tocada pelo seu amor e eles pelo teu. Ainda que se esqueçam. É uma marca que vai ficar, e essa é a tua única hipótese. Vamos Linan. Tens de recomeçar e encontrar um homem chamado Jorge Montani, no Brasil, antes que seja tarde.

– De que lado estás, afinal?

– Vais saber, quando tudo terminar.

Respiro fundo, enxugo os olhos molhados.

– Ok. Mas antes de partirmos, ajuda-me a encontrar um… como eles chamam? Um gravador! Ajuda-me, Vallen, preciso de um gravador!

tumblr_n5wuweomi71qbm990o3_r1_500

GIF: TVD

Desabafo de uma qawwi

#35| De volta ao começo: o nosso último abraço

Por Will

É aniversário da minha mulher. Celebro-o como se fosse meu também. Afinal de contas, sinto-me renascido. Aprendi a conviver com os meus medos e esta noite deixei-os todos bem enterrados, no sótão da alma. Um pouco de felicidade não vai fazer-me esquecer as responsabilidades que me esperam. Trampa, destino, eu sei lá.

– O que é se passa, Will? Estás diferente… – confidencia Linan, enquanto dançávamos à média luz das velas espalhadas pela sala.

– Amo-te, Linan. Não posso imaginar a minha vida sem ti. E é só.

No dia seguinte, quando ela começou a passar mal, não me atrevi a mexer no carro. Liguei antes para um táxi. Tinha tudo planeado. Ou quase tudo.

– Respira, meu amor, respira…

Durante a trajectória, senti o meu rosto e o corpo, quentes. Haveria alguma esperança para nós? Se sim, ela parecia soltar-se pela janela, deixando-me num frio abandono. Tive medo. Mas não podia esconder-me. Era quase impossível disfarçar as lágrimas que subiam pelos olhos. Agarrei-me a ela. O futuro do qual Vallen tanto alertou-me, vinha a galope. Só havia uma forma de alterá-lo. Agora compreendi. Venceria a promessa, sim, mas para isso…

O farol do camião deu-nos um banho de luz, e joguei-me por cima da mulher que amo, amparando-a com o meu corpo. Merecíamos um último abraço.

Resenhas

#34 | De volta ao começo: partículas de tamarino

Por Will

Faço esforço para levantar o rosto, apenas por um instante, para que o ar possa penetrar, já que tenho os pulmões carregados de chumbo. A claridade da lua, num céu tão veludo como o desta noite, pouco me diz. Trago comigo este chumbo que galga devagar para cima, como areia movediça. Trava-me pelos joelhos e derruba-me por terra.

– Por favor, alguém ajude! Ambulância!

A mulher da minha vida, com um bebé de apenas três meses no ventre, continua estirada.

– Desculpa irmão, ela foi-se – ouço alguém dizer.

O peso agora sobe até os meus olhos e explode em átomos que cristalizam-se em violentas lágrimas. Levanto um pé, não consigo andar.

– Não – deve ser um pesadelo, penso comigo trémulo – ela não pode estar morta…

Procuro outra resposta, em outro lugar, mas a verdade é que não há resposta diferente.

Engulo o choro. Sufoco o grito. Sinto o meu rosto paralisado.

Não tenho a certeza de o ter visto chegar. Também não sei explicar como foi que, de repente, a pequena multidão se dissipou, deixando-me a sós, com ele.

– Lamento, Will – a sua voz carrega a seriedade da noite e sem nem aperceber-me, coloco-me em posição de combate.

– O que você fez?

– O que eu fiz, não, o que eu vou fazer!

A rigidez do meu corpo aumenta, mas ele ergue a mão, como quem demanda ordem.

– Linan ainda é importante para a missão, Will. Se realmente a amas, vais ajudar-me a trazê-la de volta. Preciso dela viva!

Vallen. O único qawwi que conheço, além de Linan. Um qawwi que desprezo, e que entretanto, quero abraçar. Graças a ele perdi Linan uma vez. Foi ele quem a transformou, num acto de mera vingança, em humana. Mas quem de nós dois estará mais perto de realizar o milagre?

A necessidade desafia-me por inteiro, rasga-me o peito em dois e obriga-me a implorar:

– Faz o que for preciso, o que quiseres. Ela tem que voltar a viver.

Vallen sacode o seu casaco, encurta a distância. Algo doirado relampeja na sua mão.

– Estende-me o braço, Will.

Obedeço sem pestanejar.

O qawwi passa um pó pela minha pela, que acende como ouro, por alguns segundos, antes de voltar à normalidade.

– São partículas de lua verde de tamarino – explica sucinto – Isto vai levar-te de volta ao passado, algum momento antes do acidente. Tens de manter Linan viva, é só isso que te peço. Se falhares, regressarás até mim, até este momento.

Movo a minha mão, mas Vallen trava-me com um gesto ameaçador.

– Não terás muito tempo. Agora vai. Pensa em algum momento antes do acidente… esfrega o braço e…

Caio.

Pelo menos é a sensação que tenho. E continuo a cair.

Dou por mim em casa. No jardim. Lembro-me deste dia. Andava exausto, rabugento. Se tivesse sabido que teríamos um acidente, não teria perdido tempo a ser um idiota. Procuro-a por toda a casa, mas ela não está. Ligo-lhe, mas não atende. Recordo-me de que foi à consulta. Depois de tanto pensar, só me ocorre uma coisa: deixar um recado por escrito. Antes que o tempo acabe. Sento-me no sofá, pego numa caneta e começo a escrever.

De novo caio. E continuo a cair.

Lá está o sujeito. A cidade deserta. A minha vida sem cor.

– O que houve?

– Se estás aqui, significa que falhaste. Linan continua morta. Não temos muitas chances, rapaz. Vá… volte!

De novo estou em queda escura.

Agora ouço uma música. O tinido de taças. Estou ao pé da porta, sentindo um paladar de chocolate. Bolo que Érica e eu fizemos, para o aniversário da mãe. O que é isto, na minha mão? Julgo que acabo de recolher o gel desifenctante do carro, depois de saber dos perigos que causa estar exposto ao sol.

A dúvida atravessa o meu peito. E se isto for uma armadilha? Um desengano? E se estiverem a pregar uma partida com o meu cérebro? De qualquer forma, não podia permitir o acidente. Que entrássemos no maldito carro, e…

Vasculho um auxílio na cozinha, marcho rapidamente para a garagem e começo a furar um pneu, até que ouço a voz da minha filha.

– Pai! O que estás a fazer?

Tenho a boca e garganta secas.

– Chama a mãe, filha, chama a mãe… – urjo seguindo-a pela cozinha. Preciso contar à Linan, ela saberá o que fazer.

E de novo me abraça a escuridão.

– Não, não pode ser! – balbucio ao dar de caras com os olhos frívolos de Vallen

– Escuta bem, rapaz: talvez haja apenas uma chance. Uma! Use melhor o tempo. Desta vez vou dar-te a flor de dijon, para que tenhas mais tempo e preserves a memória até ao fim. Vai haver modificações no teu corpo, mas é por uma boa causa. É importante que te recordes.

– Vou recordar-me, Vallen.

– Vá, salva a Linan.

Levanto-me da cama, com o coração descompassado. A conversa com Vallen baila na minha cabeça, tenho o peito molhado, os dentes apertados.

Como um raio de luz, as mãos suaves dela percorrem-me para acalmar-me.

– Tiveste um pesadelo?

Quero dizer-lhe. Mas travo-me. Temo que o meu pensamento, por si só, possa levar-me de volta a Vallen. Tudo o que quero é ficar com ela. E não sei como impedir o futuro.

– Abraça-me, Linan – tento buscar conforto no seu corpo, sem pretensão de afastar-me. Agarro-me com tanta força, que venço. Permaneço ao lado dela. Sinto as partículas do tempo abandonarem-me, esgotando-se, autorizando-me a continuar. E permaneço.

Desabafo de uma qawwi

#32|O equilíbrio quebradiço da vida

Sinto um gosto horrível na boca. Perdura no meu paladar desde ontem, o dia em que que soube estar a gerar-se dentro de mim uma vida nova. O sabor amargo ampliou esta manhã. Saía eu da casa de uma aluna, quando vi um menino. Devia ter treze, catorze anos, no máximo. Atirado nas escadas escuras do prédio, isolado, tentava esconder as lágrimas. Os seus olhinhos estreitos mexiam-se acanhados ao ritmo do medo. À medida que os seus ombros agitavam-se sobre o seu corpo em soluços, penetrava este azedume na minha boca. Qualquer um podia ouvir os gritos horripilantes da flat do rés do chão. Os pais do menino agrediam-se verbalmente. E qual força maior para agredir um coração, senão aquela? O menino não tinha uma casa. Tinha um inferno. Como podem, dois seres humanos, trazer uma criança ao mundo para a torturarem daquela forma?

Aquilo tudo forçou-me a voltar a questionar o significado de ser mãe, de ser pai. Talvez pela minha origem distante, pela minha inegável condição de aliegena, eu jamais compreenda, e por consequência, nunca me sentirei preparada para acolher esta semente que brotou em mim. Não neste mundo em particular. E quando nascer, o que vai ser ele? ou ela? Um humano? Um qawwi? Uma criatura híbrida e perdida? A ideia causa-me uma incontrolável pontada no peito. Seja qual for a sua natureza, esta criança já é um pedaço de mim, pedaço que deverei entregar às garras deste planeta tão maltrado, tão dominado de sombras e tão necessitado de ajuda. É justo para a criança? Ou para o próprio planeta? Provavelmente não exista uma resposta clara e julgo que seja pouco óbvio para os próprios humanos. É errado duvidar? Afinal de contas, ser pai acarreta decisões que não se devem impor. Significa abdicar de quaisquer modos egoístas e dedicar toda a energia ao filho, pelo resto dos dias. Significa ficar falido, se preciso for, pela educação dos ditos cujos. Em última análise, significa dar a vida, se for isso que custa. Sou absolutamente livre de o querer… ou não.

Pese embora tenha feito a decisão, o conflito dentro de mim não cessa.

A médica disse-me que devo ter cuidado. Chamou o meu estado de “gravidez de risco”. Pelo que entendi, pode estar em perigo a vida do bebé, ou a minha. Quando é que eu poderia imaginar um fenómeno assim? O corpo degradando-se e sofrendo de tal forma, que enfrenta o risco do apagão? Ode às mulheres humanas, por saberem viver neste equiílibrio quebradiço da vida.

O risco de eu vir a desaparecer deste corpo e desta terra após o nascimento do meu filho, não me assusta. Sei melhor do que ninguém, que a morte é uma das formas de eu voltar ao meu planeta. E o fim do ser humano, é regressar às origens. Aliás, este é um dos pontos cruciais da minha missão.

Porém, de olhos bem vendados, de mente humana que ainda não se abriu para conhecer a sua verdadeira origem, Will não é capaz de compreender quando digo que vai tudo correr bem. Que a morte não é definitiva. Para Will, a ideia do futuro incerto encheu o nosso redor de sombras, de problemas. A dúvida adoeceu-lhe a alma. E quando o espírito adoece assim, vai-se a sanidade da mente. Wil começou a perder o juízo. Pelo menos foi isso que à princípio, pareceu.

Desabafo de uma qawwi

#31|Milagre a dois

No planeta dos seres humanos há várias teorias sobre os pesadelos. Esta espécie de delírio que penetra o nosso subconsciente durante o sono, arrancando-nos graves suspiros de medo. Há quem diga que os pesadelos evoluíram para tornar os humanos mais alerta sobre possíveis ameaças. Outros, que este tipo de alucinação não passa de uma reacção a algum estímulo exterior. É um fenómeno, que, enfim, extravasa todas estas tentativas de entendimento. Mas o que descobri, recentemente, parece incontestável: de alguma forma, os pesadelos preparam-nos para o futuro.

Naquela noite, Will levantou-se com o coração descompassado, o peito molhado e os dentes apertados de tanto pânico. As estrelas pareciam derreter nos seus olhos aflitos. Amparei-o, tentando acamá-lo.

– Will? Tiveste um pesadelo?

– Acho que sim, não lembro… abraça-me, Linan – pediu depressa, buscando conforto no meu corpo, querendo-me com o desejo de um alcoólatra que procura o seu alento numa garrafa.

Sim, tivera um pesadelo. Mas qual era o alerta que o seu instinto tentava activar?

Beijei-o até o alvorecer. Normalmente o beijo conseguia sarar onde mais doía. E disso era feita a nossa rotina diária, após aquele tempo todo separados. Quando um estivesse em apuros e não pudesse chegar lá, o outro carregava. Nem que fosse nas costas mancas e nuas. Compreensão, e sobretudo, cumplicidade. Era o que precisávamos. E éramos felizes, mesmo quando surgissem pedras. Só que um dia tropeçamos. Afinal, o que era certeza, também sabia ser angústia, construindo por fim o início da queda.

– Deve ser uma comida que não caiu bem, ou estás doente outra vez – constatou Will preocupado, ao ver-me vomitar já pela segunda vez naquela semana. Não quis ao ir médico. O meu gigante apetite andava ampliado, por isso julguei que fosse apenas uma indigestão. Mas as náuseas repetiram-se. Quando veio o torpor, a sensação do estômago queimado e por fim o sangue escuro vertendo de dentro de mim, aceitei ir ao hospital.

Alguns exames terráqueos depois, tive o diagnóstico. Nunca, em hipótese alguma, havíamos previsto a notícia:

– A senhorita está grávida. E vai precisar de alguns cuidados… – avançou a doutora, sem pudores.

É assim meus amigos, sabem que muitas vezes perdi-me, durante esta aprendizagem, de ser humana. Nunca como naquele instante. Deixei de ouvir a médica. Apertei a mão de Will, como se o gesto fosse tapar o abismo que se abria entre nós, deixando espreitar segredos e temores que se empilhavam à superfície, ameaçando rebentar as amarras que uniam a nossa confiança.

– Tem a certeza, doutora? – a voz de Will estava por um fio.

– Sem sombra de dúvidas. Já conta com dois meses.

A elucidação da médica arrepiou-me. Não havia preparo para aquilo. Eu não queria ser mãe, nem pensar. Não num mundo que tenho por certo estar à beira do fim.

Por outro lado, percebi que a alma de Will havia ficado engasgada. Como se, de repente, um cavalo se atrelasse às suas costas. Não sabia se era um milagre ou uma maldição. Se se permitia vibrar ou se procurava perdão para o assassino dentro de si, sequioso de cortar-me em duas. De dividir-me em qawwi e em humana. Pois quem sabe assim, encontrasse alguma explicação plausível para o que acabava de ouvir.

– Linan – voltou a falar quando já estávamos em casa. Custava-lhe. Como se um frio severo, desses que seca o sangue, congelasse os seus lábios – Sabes que… eu não posso ter filhos, é impossível. Será que – outra sustenida pausa – será que – e mais outra – é por seres qawwi, é pelo teu corpo, os teus poderes… é isso?

A resposta que borbulhava na minha boca preocupava-me até aos fios do cabelo.

– O meu corpo tornou-se humano. Sou uma pessoal normal como tu, Will, não tenho poderes nenhuns. Nem sei o que pensar.

O pulsar da notícia, a ausência de uma resposta, ganhou força nos contornos do rosto de Will. A pergunta continuou gritando, em silêncio. Poderia ser o derradeiro milagre? Ou a dúvida ia começar a penetrar por caminhos que julgávamos outrora veemente fechados?

Desabafo de uma qawwi

#2# O Hotel

 

ornate_hotel_lobby_picture_3_167660.jpg

Estou sentada à beira da passagem. Observo. Tento compreender. Outrossim, não tenho para onde ir. Esta cidade é repleta de luzes artificiais. Painéis desnecessários. Reclames e sinais hediondos. Obsoletos por todos os cantos. Sistematizada e paralelamente desorganizada. Existem, por exemplo, casas ordenadas por categorias. Umas onde apenas se come. Outras, dedicadas exclusivamente à poluição sonora.

O edifício diante de mim, entretanto, enche-me de fascinação. Chama-se “Hotel”.

Segundo pude entender, a casa hotel oferece guarida a quem não tem onde dormir. Criaturas azaradas como eu, que se aventuraram pelo universo sem o mínimo de preparo.

Estou neste banco há pelo menos dois dias. Já começo a sentir frio. Nós qawwis geralmente não temos necessidade de dormir. Mas a viagem de Stefanotis até ao planeta terra, consumiu tanta energia, que neste momento não me vejo a fazer outra coisa se não repousar um bocado, num lugar quente e coberto. Isso ajudaria a preparar-me melhor para a minha missão.

Posto isto, o hotel é de facto uma invenção genial. Não faria muito sentido no meu planeta, onde dormimos somente por diversão, em lugares bem diferentes dos que aqui se configuram.

Tento entrar no hotel, mas acabo enxotada. Dizem que não recebem mendigos (ainda estou a tentar perceber o que isso significa). Que sem dinheiro, não posso ter lá guarida.

Dinheiro…

Volto para o banco. O meu estômago dói horrores. A ponto de deixar-me impossibilitada de utilizar os meus poderes de travessia. Naquela manhã havia comido algumas rosas e cravos, mas estou novamente com fome. Mais a mais, as comidas espalhadas pelas ruas, não só tem um aspecto intragável, como não estão disponíveis. Não são oferta da natureza. Se no meu planeta basta-me “accionar” para poder comer o que bem quiser, nesta terra tenho de “pagar”.

Está visto. Este planeta gira em torno do famoso dinheiro. Se ao menos eu soubesse como ele é, ou onde ir buscá-lo…

– Senhor! – levanto-me às pressas para abordar o homem que atravessa a rua.

Ele olha-me com desconfiança.

– Senhor… – murmuro com alguma cautela – procuro a fonte do dinheiro. Pode dizer-me qual é a mais próxima?

A desconfiança dele dá lugar a um sorriso incompreensível.

– E quem é que não procura, meu amor? Mas para começar, você podia sair das ruas e ir trabalhar, não é verdade? É linda e jovem demais para perder-se nestas coisas.

– Quais coisas?

O homem não me ouve. Embrenha-se na rua e prossegue a caminhada.

– Estás com graves problemas moça – murmura uma humana que acaba de aproximar-se. Conheço-a. Tem estado sentada numa tenda de metal e papelão, exibindo pelo chão objectos que eu nunca vi na vida. Desenrola a ponta do tecido na cintura que lhe cobre até os pés, e do tecido retira um pedaço de papel.

– Consegui vender umas bijus hoje. Toma. Compra pão e vai para casa. Não fiques na rua.

Recebo o papel, viro-o de cima para baixo. Repito o movimento.

– O que é isto?

– Dinheiro que sobra para apanhares chapa.

– Dinheiro é isto?? – Imaginei todas as possibilidades, menos aquela – Quanto deste papel é necessário para eu poder dormir ali? – aponto para o vasto edifício.

– Naquele hotel? Moça… com esses trapos? – ela abana a cabeça como se combalida – bem bem, terias de multiplicar essa nota por pelo menos mais cem.

– Multiplicar? – permaneço na dúvida – É só isso?

Massinguita, juro! Dinheiro não cai do céu, mãe, vai para casa!

Estas jovens pa! Tão bonitas e tão drogadas” – pensa a humana voltando à sua tenda. Como qawwi, tenho a habilidade de ler o pensamento dos humanos. Entretanto, o conselho da senhora parece fácil de executar. “Multiplicar”.

Aperto o dinheiro na mão, procuro um lugar isolado, e em pouco tempo reproduzo uns tantos papéis. Volto a observar o hotel. Decido que é melhor estar vestida como os humanos que estão a aventurar-se a lá entrar. Apresso-me a uma casa de vestuário. Há várias naquela rua.

– Quantos papéis você quer para deixar-me levar esta roupa? – pergunto atirando no balcão várias notas, apontando para a primeira peça que vi na vitrine. A humana do outro lado do balcão lança-me um olhar fixo e demorado.

– O conjunto custa sete mil.

Depois de me estrear no mundo da “compra”, troco de roupa e tento novamente entrar no hotel. Para o meu espanto, não sou escorraçada. Parece magia. Os humanos recebem-me com simpatia.

É assim, nestas circunstâncias, que descubro o significado do termo “pessoa”. Vem de persona. Ou seja, máscara. O humano veste várias personas e se molda às circunstâncias. O humano dissimula a sua real natureza. E o faz muito bem. Enquanto eu estava vestida de origami rasgado, sem dinheiro, recebia maus tratos e era indigna de entrar no hotel. Depois de ter colocado uma máscara, uma nova roupa, e ter mostrado uma realidade que não é minha, fui aceite. Louvor à ilusão. Para mim, é um grande absurdo!

No quarto do hotel, consigo finalmente repousar e organizar as ideias.

Dissimular. Disfarçar. Arranjar uma persona. É com isso que sonho durante o descanso.

Ao acordar, já tenha traçado um plano perfeito. Precisava tornar-me um deles. Misturar-me no meio dos humanos. Caso o contrário, colocaria em risco a minha missão. Todavia, arranjar um disfarce humano, ainda que temporário, tinha os seus prós e contras. A vantagem seria passar despercebida, protegendo a minha identidade. O problema, entretanto, é que não teria controle sobre esse processo. A troca de corpos é altamente contingente. Leva-nos a lugares desconhecidos. Sem mencionar o facto de que, enquanto eu estivesse num corpo alheio, o corpo original ficaria momentaneamente suspenso, noutra dimensão.

– Que seja – digo comigo mesma.

Respiro fundo. Pela minha missão, tudo vale a pena.

Fecho os olhos.

Estrelas cobrem-me como um manto de penas. Elas transportam-me para um corpo humano. Amanhã, estarei noutro destino, a experimentar a vida de um humano, algures no planeta terra. Que a sorte me acompanhasse.

Telenovelas

Novelão: vampiros, anjos, demónios e outros personagens fantásticos nas telenovelas

o-setimo-guardiao-leon-1-630x420

Sétimo Guardião – Léon (Reprodução/TV

Personagens fantásticos e seres sobrenaturais ambientam o mundo da literatura fantástica. Autores como J.R.R. Tolkien, George Martin e J.K Rowling são algumas referências de excelência na matéria, tanto que muitas das suas obras ganharam adaptações cinematográficas.

No mundo das telenovelas, tal também é notável, através do realismo mágico, que caracteriza, por exemplo, várias novelas de Aguinaldo da Silva. O sétimo guardião, novela deste autor, que acaba de terminar na TV Globo, parece ter envolvido todo um cenário mágico / fantástico, com seres sobrenaturais, como Leon, o gato que assume forma humana (ou vice-versa). Pelas repercussões nas redes sociais, o sétimo guardião talvez não tenha tido das melhor recepções pelo público. Entretanto, há tramas do passado da TV Globo que trouxeram personagens sobrenaturais memoráveis, entre anjos, vampiros, demónios, fantasmas e videntes à mistura.

Na resenha desta semana, reunimos dez personagens que valem a pena ser relembrados quando se trata de misticismo. Vamos conferir?

10. Sete Pecados (2007) – Custódia, o anjo atrapalhado

Beatriz-Custodia-Sete-Pecados

Foto: Leo Lemos, divulgação Globo

Soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria são os sete pecados capitais que definiam a trama de Walcyr Carrasco. Nesta novela, Custódia (Cláudia Jimenez) era o anjo da guarda de Beatriz (Priscila Fantin). Custódia tem uma harpa que tenta tocar nas horas vagas, mas é muito desafinada. Por ordem de Gabriel (Erik Marmo), tem a missão de salvar Beatriz, mas o anjo atrapalhado acaba somente por criar mais confusões.

9. Um anjo caiu do céu (2001) – Rafa, o anjo meninão

rafa.png

João Medeiros (Tarcísio Meira) e Rafael (Caio Blat) em Um Anjo Caiu do Céu (divulgação)

Um Anjo Caiu do Céu, novela de António Calmon, é uma comédia sentimental que conta a história de um famoso fotógrafo (Tarcísio Meira), que durante muito tempo dedicou-se exclusivamente às causas humanitárias. Durante uma exposição em Praga, ele sofre um atentado que deixa-o à beira da morte. A sua vida é salva pelo anjo Rafael (Caio Blat). Nas suas aparições iniciais, Rafael funciona basicamente no humor e, não fosse o ambiente sobrenatural, pareceria simplesmente um jovem muito simpático e normal. (in memórias da Globo).

8. A Indomada (1997) – Emanuel, o anjo sensível

0,,20449591-GDH,00

Nesta telenovela, os autores Aguinaldo da Silva e Ricardo Linhares misturaram o realismo fantástico, a cultura nordestina e os hábitos ingleses para fazer um retrato bem-humorado do Brasil (in memórias Globo). Na história, Emanuel (Selton Mello), filho de Teobaldo (José Mayer) é um rapaz diferente, cândido e inocente. Tem crises repentinas e premonições. A sua natureza é explicada na recta final da novela, quando ele transforma-se em anjo.

7. Fera Ferida (1993) – Camila, o anjo que dorme

fera ferida.jpg

Foto : http://4.bp.blogspot.com/-R

A vingança e a cobiça eram temas de Fera Ferida, trama de Aguinaldo da Silva e Ricardo Linhares. Na história, Camila é um anjo que dorme durante meses e, de repente, acorda a levitar, depois de sentir o cheiro da sua comida favorita.

6. Olho no Olho (1993) – Fred, o paranormal demoníaco

060917-olhonoolho-nicopuig-600x400

Foto: Tv história

Olho no olho, escrita por António Calmon, abordou a paranolmalidade, a corrupção, e a luta entre o bem e o mal. É dito que a trama “pesada”, na altura, afugentou um pouco os telespectadores. Não era para menos, já que Fred, jovem paranormal bastante perverso, era filho do demónio. Este é o tipo de novela que poderia ser vista com outros olhos numa reprise (já agora, porque é que ainda não houve uma reprise?)

5. O fim do mundo (1997) – Joãozinho Dagmar, o profeta do apocalipse

o-fim-do-mundo-paulo-betti

Foto: Globo Extra

A novela criada por Dias Gomes era bastante curta, mas trazia uma interessante provocação: o que faríamos se nos restasse somente um dia antes do fim do mundo? Joãozinho Dagmar, o protagonista, é um vidente e paranormal, que faz várias previsões acertadas. Ele demonstra os seus poderes exalando perfumes, entortando metais à distância, transformando água em cachaça e eliminando alguns problemas da vida das pessoas. É ele quem acaba por trazer as más notícias sobre os dias do fim.

4. Vamp (1991) – Natasha, a vampira estrela do rock

vamp-696x406

Vlad (Ney Latorraca) e Natasha (Claudia Ohana) em Vamp (Divulgação/TV Globo)

De António Calmon, vamp, um grande hit da época, trazia uma comédia sobre vampiros, ambientada por muito suspense e rock. A famosa estrela de rock Natasha (Cláudia Ohana) conquistou sucesso graças a um pacto sombrio feito com o vampiro Vladimir Polanski (Ney Latorraca) que a transformou em vampira. No decorrer da trama, Natasha tenta desfazer o pacto.

3. O beijo do vampiro (2002) – Zeca, o pequeno e amoroso vampiro

kayky-brito

Foto: Gianne Carvalho / Globo

De António Calmon, trata-se de uma novela que veio novamente explorar o mundo dos vampiros. A trama retracta a história de Zeca, um rapaz amoroso e amado pela família, que, entretanto, é filho de um vampiro com mais de 800 anos. Os problemas de Zeca começam quando ele descobre a sua real natureza.

2. Cara e Coroa – Geninho, o fantasma do quadro

Mais uma novela de António Calmon, Cara & Coroa retratou a história de duas mulheres fisicamente idênticas mas com personalidades distintas. Na história, Luis Fernando Camarão dava vida a Geninho, o menino do retrato num quadro, que regressa do passado e dos mortos para conversar e apoiar a pequena Belinha (Luiza Curvo).

1. A viagem (1994) – Alexandre, o fantasma vingativo

aviagem1

De Ivani Ribeiro e com um tema mais intenso e mais dramático do que as novelas anteriormente mencionadas, a viagem abordava a vida após a morte, de acordo com a doutrina espírita kardecista. Retratados desta forma, alguns espíritos davam muito que pensar. Tal era o caso de Alexandre, um espirito mau e vingativo que atormentava praticamente a todos da novela. Bastava a sua aparição de negro, e o seu olhar azul afiado, para gelar até os próprios telespectadores.

Concorda com a nossa lista? Qual outro personagem você colocaria aqui?

Desabafo de uma qawwi

#30|Seria a malária de uma cruz, o amor febril sob um céu azul?

A malária é uma doença infecciosa, transmitida por mosquitos e causada por protozoários transmitidos pela fêmea infectada por plasmódio. O período de incubação da malária varia de acordo com a espécie de plasmódio e qualquer humano pode contrai-la. Os sintomas mais comuns da malária são a febre, calafrios, fadiga, vómitos, náuseas e dores de cabeça. Em casos graves pode causar convulsões, coma ou morte. Entre as principais medidas de prevenção individual da malária estão o uso de mosquiteiros, roupas que protejam pernas e braços, telas em portas e janelas e uso de repelentes. É muito importante, assim que diagnosticado, tratar a doença.

Oxalá eu tivesse sabido toda esta informação há algumas semanas, antes da minha última viagem. Achava que o meu corpo não pudesse sofrer nada além de uma “dorzinha de cabeça”. Mas podia.

Passei a tarde inteira sem apetite. A moleza a roer os ossos é a sensação mais estranha que já tive em toda a minha vida. É oficial: pela primeira vez, estou doente.

– Tens que ir ao hospital – adverte Érica que está a passar uma temporada comigo – meu Deus – assustada, retira a mão da minha testa, como se tivesse levado um esticão – vou ligar para o pai.

– Filha, nem pensar.

A minha cabeça turva-se de pensamentos tumultuosos. Embora esteja perplexa com os acontecimentos no meu corpo, não quero incomodar Will. Mas o estômago desafia-me. E todas as minhas caras ilusões, de ser autossuficiente e aguentar-me só, como uma valsa despojada de orquestra, começam a dissipar-se debaixo dos calafrios que congelam-me a pele. Érica parece estar certa. Talvez seja melhor ir ao hospital. Penso em chamar um táxi, mas quem tomaria conta da menina? Em quem confiar? Incapaz de fazer mais equações, agarro-me ao que resta de lucidez e faço a tão temida chamada.

Estou?

– Will, podes vir à minha casa, por favor?

Capto uma espécie de impaciência na sua voz.

– Agora? – e depressa acrescenta – Passa-se algo com a Érica…?

– Nao, Will, sou eu. Acho que não estou muito bem.

Dou por mim no meio da neve de Russia. Mas depois lembro-me que já não sou do tipo que se teletransporta. Russia é o meu próprio corpo.

– Talvez precise de ir ao hospital. – digo com urgência.

Sinto uma respiração pesada e hesitante do outro lado da linha.

– Certo. Estarei aí em dez minutos. Quinze no máximo. Até já.

A verdade é que não me lembro de como ele chegou. Tenho a vaga ideia de ver Érica abrir uma porta, ter estado numa clínica, e finalmente, debruçada sobre um lavatório todo vomitado.

Abro os olhos no leito da cama. Toalhas húmidas e carteiras de medicamentos quedam-se pela cabeceira. Um sobretudo escuro espreita pelo braço da poltrona e uma voz familiar atravessa a porta fechada.

Lamento imenso. Posso ter outra chance? Sim, eu sei. Acabei perdendo o voo, mas deveu-se a uma emergência. A minha esposa está doente, tive que cancelar a viagem. Sim, sim… claro, engenheiro, é bastante razoável. Agradeço eu pela compreensão. Grato e até breve.

Alguns minutos depois, a porta afasta-se num chiar, revelando a figura de Will. Envergonho-me por sentir-me tão parvamente aliviada.

Ele senta-se à borda da cama, e ao ver o meu hermético trejeito, faz-me um carinho no rosto.

– Malária de uma cruz não é brincadeira, meu anjo. Mas já, já estás melhor.

– Ias viajar Will?

Ele sorri apologeticamente, continuando a carícia.

– Não te preocupes com isso, já remarquei, está tudo tratado.

– Oh Wilson…

Claro que preocupava-me. E desejo escapar desta minha ineficiência. Ressinto-me da ausência de tenacidade da carne humana, consome-me um estrepitoso embaraço.

– Lamento que tenha prejudicado os teus planos Will, não imaginei.

– Não lamentes – ele faz com que a sua mão deslize pelo meu cabelo, com o vagar e a harmonia da água de chuva, que corre simétrica entre os dedos – Tu e a Érica são muito importantes para mim. Vocês são o meu bem mais precioso. Sabes disso.

Querendo retardar a dor súbita, de imaginar-me a estar sem ele, olho-o nos olhos.

– Quanto tempo demora para isto curar, Will?

Ele inclina a cabeça e junta as mãos. O gesto dá-me a entender que tem uma questão mais premente aguardando a luz.

– Pelo que eu saiba, Linan, tu tens o dom da cura – de seguida abana a cabeça, incrédulo – nunca foste de ficar doente. Ou de teres um trabalho como o meu… quer dizer, mundano. De repente pareces tão…

– Humana?

Will aspira a assumpção com os olhos contritos de perplexidade.

– Foi uma escolha minha – asseguro. E agora que o digo alto, percebo que é verdade. Não foi responsabilidade dele, nem de Érica. A concretização do destino exigiu que atravessasse a singularidade das minhas escolhas e aceitasse as consequências. Exclusivamente minhas. É verdade que a transformação tinha sido dolorosa. Foi como abrir feridas por dentro, renunciar à própria sombra, correr para poder alcançar-me, mordida de revolta, de angústia. De tanto correr, vendaram-se os meus olhos. Julguei que ser humana era saber depender apenas de mim própria. E era. Porém, equivoquei-me ao pensar que tal implicava ignorar o amor que ainda sentia por Will. Reprimido na sua infinitude. Um soluço apertado. O tipo de amor que não se afoga nem num buraco negro.

– Lamento, Will.

Sob o lençol, seguro a sua mão. Ele aperta-a com força. O seu coração parece um balão a inflamar. Olho para baixo, para os nossos dedos entrelaçados. Os seus tremem. Acarico-os com o polegar, até que se acalmem.

– Devia ter ficado feliz por teres tentado seguir em frente quando parti, Will.

– Nunca segui, Linan.

– Não, não te atrevas. Não te condenes. Seguir e recriar laços é o que humanos fazem. Amo-te muito. Mesmo que estejamos separados. Não importa onde, nem como. Quero que sigas feliz. Sempre. E…

– E quem disse que eu me separei de ti? – a luz que eu achava ter desaparecido dos olhos de Will resplandece no momento em que a sua boca assalta a minha, num beijo quase violento de avidez, com um tipo de febre que suplanta o calor do meu corpo. Eram toneladas de desejo acumulado que ferviam no sangue. – Não me separei de ti – reafirma sem fôlego – e nunca o farei – continua selando o derradeiro facto nos meus lábios.

– Mas… – gaguejo afastando-me por um segundo – e os papéis…?

– Dei-te o espaço que pediste. O divórcio que querias. E odiei nós dois por isso. Mas depois acabei por compreender o que sempre tentaste dizer-me. O amor é livre. Não é um papel que vai ditar as suas condições. Devia ter respeitado isso. É um direito natural ser amado, não é?

Os meus pulmões ardem quando solto o ar para fazer um pedido, que não mais podia hesitar:

– Engenheiro Wilson, beije-me de novo.

Tomo a liberdade de moldar-me ao seu corpo, como o mel que adere às paredes de um forno quente.

– Pára, mulher – ele segura-me os pulsos tentando travar-me – estás doente.

Puxo-o de novo, tonta com os meus próprios movimentos. Onde estaria a cura senão no amor? Rendido, ele entrega-se, incapaz de abrandar, percorrendo o meu corpo com uma sede tão insaciável quanto a minha.

– Valha-me Deus, Linan! – aflito, recobra a razão que o força a impor uma pausa – há que termos juízo. Precisas de descansar.

Aceito a mistura de prazer, dor e fadiga como um sinal de que se calhar ele tem razão. Então, encosto a cabeça no seu colo e deixo-me ficar quieta, apreciando o céu azul e o luar que penetra pelas janelas. Pelas leis escritas, nenhum dos dois estava obrigado a ficar. Podiamos sair da vida um do outro a qualquer altura. Mas ambos queríamos ficar. E se calhar íriamos continuar a querer. Pelo menos naquela noite. Talvez também na manhã seguinte. Se possível, na semana posterior. E quem sabe, a vida inteira.

Desabafo de uma qawwi

#28| Pode o Estado obrigar-me a evacuar em caso de emergência?

2019-03-18t161549z_1849168171_rc1e47231400_rtrmadp_3_zimbabwe-cyclone-mozambique-1024x585.jpg

Imagem: causa operaria

Uma das minhas maiores dificuldades continua a ser o sono. Tornou-se necessidade biológica. Sabe muito bem que dependo dele. E mesmo assim, tem a mania de adiar-se. De deixar-me no abandono. Quando isso acontece, normalmente pego no livro da cabeceira, ou então ligo a TV, a qual esta noite acabei por optar.

As notícias reportam mais um desastre natural. Céus quebrados de cinza, cidades turvadas de vento, águas galopando com fúria pelas alturas e submundos, puxando tudo o que é vida para o breu da morte. Dói o meu coração. Como se atravessado pelas lâminas das arraias que lutam por alento.

O país onde estou, também já sofreu este tipo de desastres. O rescaldo dos mesmos deixou-me com alguns questionamentos, os quais esta noite voltam à tona: a ajuda que o chamado Governo deve prestar aos cidadãos. A eficácia das evacuações, quando de carácter obrigatório.

No meu planeta, isto nunca poderia ser questionado. Aquando da terrível queda da cortina de vidro, por exemplo, bastou os trombones dispararem com a comunicação do Conselho da Unidade, para os qawwis obedecerem a recomendação de ficarem em casa. Somos um só, e a voz do nosso rei, nunca contrariou a nossa própria vontade. Pelo menos até aquele tempo.

No planeta terra, entretanto, as coisas funcionam de forma diferente. Para conviver em sociedade, os homens abdicam um pouco da sua liberdade. É tudo institucionalizado e é preciso que os direitos e deveres estejam claramente definidos e proclamados. Aliás, é essencial, porque grande também pode ser a tirania. É neste sentido, que o direito ao domicílio e residência é um direito “fundamental”.

Em casos como este, de emergência ou de perigo de vida causado por calamidades naturais, julgo que deve olhar-se por um lado para o direito dos cidadãos a permanecerem no seu domicílio, e por outro lado, a responsabilidade do Estado de proteger estes mesmos cidadãos.

Em alguns países, existem leis que permitem explicitamente evacuações forçadas em caso de emergência. Acontece, entretanto, que a implementação desses esforços tende a ser complicada. Às vezes, as pessoas não respondem às medidas de evacuação. Pelas mais diversas razões. Algumas não recebem a informação. Outras, tem receio de abandonar as suas casas e os seus bens. Algumas talvez já tenham enfrentado situações semelhantes e julgam que conseguirão sobreviver a mais uma. O problema é que estas pessoas podem, mais tarde, precisar efectivamente de socorro, situação que poderia ter sido evitada.

Que direito deve prevalecer? Mesmo estando em perigo, posso optar por permanecer em casa? ou o Estado pode usar da força para tirar-me de lá? Olhando para Moçambique, por exemplo, quando afectado pelo ciclone Kenneth, o Governo e as agências de ajuda disseram que 30 mil pessoas foram levadas para locais seguros e que um total de quase 700 mil estariam em risco. Foram criados 20 centros de evacuação em Pemba, mas foram necessários aviões, pois muitas das áreas afectadas não eram acessíveis por terra. In Jornal o pais.

Reportou-se, ainda assim,  que algumas pessoas recusaram-se a abandonar as suas casas.

Alguns estudiosos humanos argumentam que usar da força para tirar alguém do seu domicílio, sem um processo legal, constituiria a violação de um direito fundamental. O documento chamado “constituição da República” em vigor em Moçambique, diz que o domicílio do cidadão é inviolável, salvo nos casos previstos na lei. A entrada no domicílio dos cidadãos contra a sua vontade, só pode ser ordenada pela autoridade judicial competente, nos casos e segundo as formas especialmente previstas na lei.

Ora, neste mesmo documento a que me refiro acima, fala-se dos estados de sítio e de emergência. Estes podem ser declarados, no todo ou em parte do território, nos casos de agressão efectiva ou eminente, de grave ameaça ou de perturbação da ordem constitucional, ou de calamidade pública. Nestas situações, pode ser suspenso ou limitado o exercício de algumas garantias e direitos constitucionais. O Governo pode, por exemplo, tomar algumas medidas restritivas como a obrigação e permanência do cidadão em local determinado.

Desta forma, parece aceitável que em caso de declaração de estado de emergência, o Governo tenha a prerrogativa de forçar a evacuação. Mas como tal depende de um processo fundamentado, o mais importante antes de qualquer medida forçada, é a antecipação e conjugação de esforços, a disseminação de informação e sensibilização dos cidadãos. Afinal de contas, estamos a falar do bem mais precioso que é a vida. É necessário todo o cuidado. E todas as medidas e prioridades devem ser para assegurar a preservação desta mesma vida.

… respiro. Desligo a TV. A noite quente arranca da lua um intenso gemido. Todos nós estamos sujeitos às forças da natureza. A qualquer momento, podemos enfrentar uma situação de contratempo. Ao pensar nisso, pego numa caneta, pois acaba de surgir-me uma outra questão. Será que agora, como humana, estou equipada para enfrentar uma situação de emergência? Será que, por exemplo, tenho tudo em casa para, em caso de necessidade, aguentar-me uma semana sem ir às ruas?