Outras maravilhas humanas

Chamada para Publicação de Antologia em Ficção Especulativa

Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa

Capa promocional: Arte de Collin Anderson; Design da BROKEN – Agência Criativa

Por ocasião do terceiro ano de existência do Diário de uma Qawwi, que se assinala este ano, abrimos este edital para a recepção de textos que poderão constar na antologia em epígrafe.

O Diário de uma Qawwi pretende apoiar o desenvolvimento de novos tipos de produção literária africana, com particular enfâse à ficção especulativa. Embora o género “fantástico” tenha uma longa tradição na narrativa oral e escrita africana, até algum tempo atrás o nosso continente era pouco associado a outros tipos de literatura, incluindo a que aqui trazemos em alusão. Havia certa percepção de que os extraterrestres, os países futurísticos, as sociedades utópicas e afins, pertenciam ao mundo ocidental. A verdade é que, a riqueza e a diversidade das nossas tradições, aliadas ao espelho da humanidade e do universo como um todo, nos trazem leituras únicas sobre a vida e sobre o ser humano. África é o berço da humanidade. O futuro, a magia, também começam aqui.

Notamos assim, que as narrativas que configuram a ficção especulativa, têm estado a ganhar cada vez maior relevância em África actualmente.

Por esta razão, pretendemos com a ajuda de todos os escritores africanos que aceitem apoiar esta iniciativa, proporcionar ao leitor a exploração das múltiplas histórias do continente, através de novos satélites, quer seja do imaginário relativo a África futurística, quer seja por viagens em discos voadores, peneiras mágicas, realidades alternativas, sociedades utópicas, sociedades distópicas, universos múltiplos, na companhia de magos, cientistas, feiticeiros, ancestrais, fantasmas, xipocos, ou outras entidades, em textos inspirados nas nossas culturas, cruzando com novos códigos e imaginários, assim como com novos processos narrativos. Pretendemos, em suma, arrebatar os leitores, com histórias explosivas, mostrando aquilo que pode ser produzido por autores africanos, através da língua portuguesa.

“Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa” vai assim juntar histórias (contos/crónicas/outros) de diversos autores africanos, com ou sem livros publicados, em formato de antologia a ser publicada pelo Diário de uma Qawwi, que será comercializado em Moçambique e em Portugal (formato físico), e pelo Amazon (formato digital), assim como mensalmente no blog em referência e, por fim, em Audiolivro. Para o efeito, preve-se que haja uma remuneração simbólica para os autores a entrarem na antologia.

Envie o seu texto até o dia 10 de Setembro do corrente ano. Os textos devem ser enviados para o email diariodeumaqawwi@gmail.com. Para mais detalhes sobre esta publicação, consulte o regulamento abaixo.

Regulamento da Antologia

Espíritos Quânticos: Uma jornada por histórias de África em ficção especulativa

  1. Quem pode submeter?

Qualquer escritor(a) africano(a), com ou sem obras publicadas, maiores de 18 anos ou emancipados, desde que sejam escritos (ou traduzidos) em língua portuguesa e que obedeçam a temática da antologia.

2. O que se busca para esta antologia?

2.1 Textos em prosa, com conteúdo de ficção especulativa.

2.2 Textos de qualquer gênero ou subgenero literário, desde que contenham elementos de ficção especulativa. Assim sendo, O escritor é livre de criar e misturar um (1) ou tantos quantos géneros/temas lhe aprouver, desde que mantenha o critério aqui solicitado. Por exemplo, se for a escrever um conto ou uma crónica do quotidiano, uma história de suspense, uma trama romântica, de terror, ou qualquer outro, certifique-se de que ela não contenha aspectos meramente mundanos e sim um elemento especulativo. Os géneros e sub-géneros de ficção especulativa podem incluir, não se limitando a:

  • Fantasia;
  • Ficção científica;
  • Terror sobrenatural;
  • Sobrenatural;
  • História alternativa;
  • Afrofuturismo;
  • Utopias e distopias;
  • Cyberpunk;
  • Black-tech; e
  • Outros

3. Quais os critérios de avaliação?

3.1 Serão aceites pela equipa do Diário de uma Qawwi, todos os textos submetidos, desde que cumpram, no mínimo, os seguintes requisitos:

a) Submissão dentro da janela do tempo especificada;

b) Cumprimento dos critérios de formatação e limite de páginas;

c) Cumprimento da temática solicitada; e

d) Qualidade literária;

3.2 Temos uma quota reservada para este livro (capacidade para incluir entre 12 a 15 textos). Caso se verifique que as submissões, que reúnem os requisitos acima descritos, excedem a quota reservada para a antologia, esta chamada tomará o carácter de concurso, e os textos serão levados a uma comissão de análise, composta por três (3) personalidades de reconhecido valor e idoneidade ligadas à literatura, para passarem a fazer a selecção do conjunto de textos, em parceria com a equipa do Diário de Uma Qawwi.

4. Que formato os textos devem adoptar?

Os textos devem ser submetidos em formato word, com o máximo de 2.000 (duas mil) palavras e 6 (seis) páginas, em A4, Times New Roman 12, espaço 1.5.

5. Aceita-se submissões múltiplas?

Sim. Pois, cada autor pode enviar um (1) ou mais textos, desde que no seu conjunto, os textos não excedam 2.000 (duas mil) palavras e 6 páginas, conforme descrito no artigo acima.

6. Aceita-se submissões/publicações simultâneas?

6.1 Não. Os textos submetidos à antologia devem ser inéditos, e não podem ser (ou ter sido) submetidos ou publicados por outras editoras. Caso seja seleccionado, o autor concede desde já o direito de exclusividade de publicação pelo Diário de uma Qawwi, pelo período de um ano, a contar da data da publicação da antologia.

6.2 A regra acima não se aplica às excepções que por ventura venham a ser consentidas pelo Diário de Uma Qawwi, para textos fora do âmbito deste edital, que possam ser incluídos na antologia.

7. Há espaço para submissões ou traduções em co-autoria?

7.1 Aceitamos textos submetidos em co-autoria, desde que um dos participantes seja um autor ou autora africana (o).

7.2 Em caso de submissões em co-autoria, a simbólica remuneração pela participação e quaisquer direitos autorais previstos para 1 (um) autor, serão repartidos por igual entre os co-autores.

7.3 A regra do artigo 7.2 aplica-se às submissões do tradutor ou tradutora do texto de um autor ou autora africano(a) em língua portuguesa, em parceria com o referido autor ou autora.

7.4. Não serão permitidas submissões de textos traduzidos para a língua portuguesa, sem o consentimento e participação do autor ou autora do referido texto.

8. Qual a tiragem dos exemplares e o PVP?

Pretende-se efectuar uma tiragem inicial de quinhentos (500) exemplares. O PVP será determinado em data a anunciar.

9. E em relação aos direitos autorais?

9.1. No que se refere ao livro físico e o audiolivro não está previsto o pagamento de direitos autorais.

9.2 Para o livro digital a ser comercializado no Amazon, o Diário de uma Qawwi reserva-se o direito de oferecer, ou não, a cada autor seleccionado, o pagamento dos direitos autorais aquando do contrato/declaração a ser assinado após a divulgação dos resultados deste edital.

10. O que mais oferece esta antologia aos autores?

10.1 Com a devida observância à regra da cláusula 7, todos os autores participantes receberão uma simbólica contribuição pela participação. O cálculo desta obedecerá os seguintes critérios:

a) O autor receberá o valor de 0.60 MT (sessenta cêntimos em Meticais) por cada palavra do seu texto, até ao máximo de 2.000 (duas mil) palavras.

b) Excepcionalmente, e na eventualidade de se verificar um volume de textos correspondente à metade ou abaixo da metade da quota reservada para o livro, o autor receberá o valor de 1,00 MT (um metical), por cada palavra do seu texto, até ao máximo de 2.000 (duas mil) palavras.

c) O pagamento será efectuado logo após o anúncio dos resultados, assim que a formalização da publicação tiver sido feita, usando-se conta bancária/mpesa/conta móvel (Moçambique) ou paypall (fora de Moçambique). Do valor em causa, serão deduzidos quaisquer comissões de transferência.

10.2 Cada autor receberá ainda, um (1) exemplar grátis da antologia.

10.3 Os exemplares grátis referidos no ponto 10.2, deverão ser levantados nos locais em Moçambique, a serem indicados aquando do lançamento da antologia, previsto para o primeiro semestre de 2022. O Diário de uma Qawwi poderá organizar o envio dos referidos exemplares para fora de Maputo ou de Moçambique, caso o autor assim o solicite, mediante o pagamento da respectiva tarifa de correio.

10.4 Caso o autor pretenda adquirir exemplares adicionais, poderá fazê-lo ao PVP.

11. Como e quando fazer a submissão?

11.1 Todos os textos deverão ser enviados a partir do dia 20 (vinte) de Julho até ao dia 10 (dez) de Setembro de 2021, para o email diariodeumaqawwi@gmail.com.

11.2 Cada texto deverá conter um cabeçalho com o título, nome ou pseudónimo do autor, e o número total de palavras (wordcount).

11.3 O autor deverá ainda enviar um documento separado contendo o nome completo, a nacionalidade, morada, email, contacto telefónico, uma breve sinopse (2 a 3 linhas no máximo) do texto submetido e uma biografia resumida do autor (até 120 palavras).

12. Qual é o prazo de análise e de divulgação dos resultados?

12.1 Os originais submetidos serão analisados a partir da data do encerramento das submissões.

12.2 Ao submeter o seu texto, o autor receberá um email acusando a recepção. Este email servirá de comprovativo da submissão. Após a análise de todas as submissões, que será conduzida pela equipa ou pela comissão do Diário de uma Qawwi, iremos divulgar os textos seleccionados, no blog do Diário de uma Qawwi, até ao dia 30 de Outubro de 2021 (inscreva-se no blog ou siga-nos nas redes sociais para manter-se actualizado).

13. Como e onde será publicada a obra?

A antologia terá o seguinte formato de publicação e distribuição:

– Livro Físico – a ser distribuído e comercializado em Moçambique e em Portugal;

– Livro Digital – a ser publicado no Amazon;

– Publicação mensal de cada texto, no blog Diário de uma Qawwi; e

– Audiolivro.

14. Disposição diversa?

14.1 O Diário de uma Qawwi reserva-se o direito de:

a) Estender o prazo de submissões ou o prazo de divulgação dos resultados, caso assim se justifique, por um período nunca superior a 30 dias.

b) Desqualificar os textos submetidos, caso não reúnam os critérios de avaliação estabelecidos.

c) Proceder à revisão linguística dos textos para efeitos de publicação.

d) Não se responsabilizar por cópias, plágios ou violação de direitos autorais cometidos pelos autores seleccionados.

e) Publicar uma nova tiragem caso esgote a primeira edição.

14.2 Todos os textos submetidos fora do prazo e todos os textos não seleccionados, serão automaticamente descartados do acervo.

14.3 Ao submeter o texto, o autor aceita automaticamente os termos e condições deste regulamento, bem como a proceder a assinatura de um eventual contrato de edição com o Diário de uma Qawwi, para a publicação da antologia.

14.4 Caso tenha quaisquer dúvidas com relação às regras deste regulamento, entre em contacto através do email diariodeumaqawwi@gmail.com.

Maputo, aos 15 de Julho de 2021,

Os organizadores da Antologia

Visite-nos e siga-nos em:

https://diariodeqawwi.com/

https://www.facebook.com/qawwi.reviews

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Melita Metsinha

Medo

Morrer de amor

Esse que não mata

Por quem matamos?

É fuga impedida

O voo sem horizonte.

Um sonho sem ti.

Fear

To die of love

That which does not kill

For whom do we kill?

Its a hindered flight

The flight with no horizon.

A dream without you.

Poema de Melita Matsinhe – In Ignição dos Sonhos

                                                                Livro publicado pela Fundação Fernando Leite Couto, 2017

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| You’ve got this (Ahi te encargo)| Opinião (Review)

Título: You got this (Ahi te encargo)

Direcção: Salvador Espinosa

Género: drama; comédia; família

Elenco: Maurício Ochmann; Esmeralda Pimentel

Ano: 2020

Imagem Fonte: Hagertjourn

Sinopse

Alex, um criativo publicitário quer ser pai a todo o custo, mas a sua mulher é uma advogada no topo da carreira, e ser mãe não faz parte dos seus planos. Um convidado inesperado irá desafiar o amor do casal.

Opinião

“You got this”, ou título original em espanhol, “Ahi te encargo”, é uma comédia mexicana, de 2020, sobre um casal feliz, que entretanto, tem sonhos e filosofias diferentes. É curioso que, muitas comédias recentes da América Latina (como por exemplo o filme “One Small Problem”), têm trazido este debate, com a tendência em inverter os papeis, onde a mulher, no auge da carreira, ou simplesmente por escolha natural, não deseja ter filhos. Por alguma razão, a Netflix está a apostar nestes roteiros, obviamente com uma audiência específica. Se calhar, em jeito de comédia, para mostrar uma realidade presente e mais verdadeira do que se pensa?

Alejandro e Cecília, protagonistas da trama, encarnam um casal regular, com algumas características dos típicos personagens deste tipo de comédias, mas também, com uma postura mais séria, que debatem as suas diferenças. Cecília sempre deixou claro que não deseja ter filhos, facto que, a dada altura, entra em choque com o desejo de Alejandro, que quer ardentemente ser pai. O filme tem alguns bons momentos, mas não é tão memorável, nem eficiente no quesito a que se propõe. Entretanto, houve o cuidado de trazer essa discussão complicada, sem retratar um outro género de forma negativa, pelas suas escolhas. Vale, também, pela representação do empoderamento da mulher, da queda do machismo e pela mensagem sobre os valores que valem num relacionamento (o diálogo e compromisso).

Filme de Domingo, que vale a pena ver se você estiver interessado no tema, mas não necessariamente uma forte comédia.

A nossa pontuação:

3 de 5 estrelas

Confira o trailer no link mais abaixo:

ENGLSIH VERSION

Plot:

Alex, na advertsing creative wants to be a father at all costs, but his wife is a lawyer on the top of her career, and being a mother is not part of her plans. An unexpected guest will challenge the couple’s love.

Opinion

“You got this,” or its original Spanish title, “Ahi te encargo,” is a 2020 Mexican comedy about a happy couple who, in the meantime, have different dreams and philosophies. Interestingly, many recent Latin American comedies (such as the film “One Small Problem”), have brought this debate, with the tendency to reverse the roles, where the woman, in the top her career, or simply by natural choice, does not wish to have children. For some reason, Netflix is betting on these scripts, obviously with a specific target. Maybe, in a way, to show a reality that is present and truer than we think?

Alejandro and Cecilia, the plot’s protagonists, embody a regular couple, with some features of typical characters of this type of comedies, but also, with a more serious stance, who debate their differences. Cecilia has always made it clear that she does not wish to have children, a fact that at a certain point clashes with Alejandro’s desire, who ardently wants to be a father. The film has some good moments, but it is not that memorable, nor is it efficient in what it sets out to do. However, care was taken to bring up this complicated discussion without portraying one or another gender in a negative light, for their choices. It is also worth it for the representation of women’s empowerment, the fall of chauvinism, and for the message about the values that count in a relationship (dialogue and commitment).

Sunday movie, worth seeing if you are interested in the topic, but not necessarily a strong comedy.

Our score:

3 out of 5 stars

Check the trailer here:

https://m.imdb.com/video/vi4088054041?playlistId=tt13118012&ref_=tt_ov_vi

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | O Estranho, de Ad Chaves – Opinião

Autor: Ad Chaves

Editora: Tribo das Letras / Amazon

Idioma: Português

Sinopse

“Dez anos são suficientes para que a verdade venha à tona? Neste suspense, os personagens terão as suas vidas presas numa vertiginosa trama onde a traição, o amor e o ódio se fundem numa tentativa desesperada para manter, sob camadas de mentiras, a verdade. Júlia, após descobrir que perdera anos num casamento por interesse, com um renomado advogado, vê a sua vida colocada de cabeça para baixo quando, numa noite chuvosa, o encontro com um estranho, num hotel de beira de estrada, a leva para um inesperado caminho. Impelida pela imprevista atraccão pelo misterioso desconhecido, ela vê-se arrastada para um trilho onde a vingança é o norte, e a vítima e o culpado se alternam, fazendo-a questionar-se, sobre quem, de faco, é o Estranho na sua vida.

Opinião

Já há muito tínhamos curiosidade de conhecer a obra de Ad Chaves, autor da editora Brasileira Selo Jovem, e por essa razão, a leitura de “o Estranho”, livro de estreia deste autor, foi das mais ávidas este ano. A Selo Jovem tem trazido trabalhos muito promissores de vários autores e Ad Chaves não é a excepção. Entretanto, a obra aqui em alusão, foi piblicada pela Tribo de Letras e encotra-se de igual forma disponível na Amazon.

Com uma escrita de fácil acesso e muito concisa, Ad Chaves nos conduz por uma narrativa bastante fluida, de suspense, à volta de uma trama sobre vingança, amor e injustiças.

Narrado na terceira pessoa, cada capítulo inicia com uma citação da protagonista Júlia, cujo contexto é explicado no final do livro.

Julia, a semelhança de algumas mulheres do quotidiano, casou-se com André, pelas razões erradas, e com o passar do tempo, as consequências desse acto, resultam num casamento infeliz, com contornos inesperados.

Relativamente à construção de algumas personagens, embora no geral estejam a maioria, bem construídas, não conseguimos ter grande empatia para com a Julia, talvez pela certa superficialidade na sua personagem, o que poderia, porventura, ter sido colmatado com um pouco mais de desenvolvimento psicológico à volta da mesma. Em compensação, somos apresentados com alguns personagens, como Clara, Jorge e o próprio “Estranho”, que tem um background mais interessante de descortinar.

O autor impressiona também pela óptima capacidade de criar tensão e fazer com que o leitor prenda-se à leitura, desde o início ao fim, devorando as páginas num ápice. Um ponto fraco, entretanto, é que, o narrador, enquanto omnisciente, revela-nos alguns aspectos da trama de forma bastante depressa e directa, frustrando em alguns momentos as expectativas do leitor. Apecto, que todavia, acaba por ser compensado pela boa técnica em apresentar-nos sem demoras reviravoltas de impacto.

Em resumo, para um livro de estreia, é um óptimo livro, com uma trama de grande sensibilidade, muito suspense para quem gosta deste género, e que facilmente poderia ser adaptada para um roteiro de cinema.

Sobre o autor

“Ademilson Chaves é mineiro e como todo mineiro gosta de contar histórias. Muito cedo descobriu que gostava de livros tornando-se um leitor voraz. Formou-se na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Nas horas vagas descobriu um grande prazer, criar e escrever histórias capazes de prender o leitor ávido por uma boa trama.”

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Outras maravilhas humanas

Maravilhas humanas | Birth of a New Age, canção de Jeangu Macrooy

Fonte Imagem: Wiwibloggs

Na categoria de maravilhas humanas, trazemos hoje nesta pequena resenha, a cancão “birth of a new age” do cantor Jeangu Macrooy, tema que concorreu recentemente no concurso de música Eurovisão 2021, representando a Holanda. O cantor surinamese Jeangu Macrooy, residente na Holanda, cantou esta música em inglês e na sua língua materna. Veja abaixo, uma parte da letra:

Your rhythm is rebellion / o teu ritmo é rebelião

They spat on your crown and they poisoned your ground / Eles cuspiram na tua coroa e envenenaram o teu solo

They burned your heroes at the stake / Eles queimaram os teus heróis na fogueira

But your voice will echo all their names / Mas a tua voz ecoará todos os seus nomes

They buried your gods, they imprisoned your thoughts / Eles enterraram os teus deuses, eles aprisionaram os teus pensamentos

They tried to drain you of your faith / Eles tentaram drenar a tua fé

But you are the rage that melts the chains / Mas tu és a raiva que derrete as correntes

This ain’t the end, no / Este não é o fim, não

It’s the birth of a new age / É o nascimento de uma nova era

Yu no man broko, broko mi (mi na afu sensi)

Ora, a frase “Yu no man broko mi, mi na afu sensi“ é baseada num antigo dizer surinamese que significa “sou apenas meio cêntimo, mas ninguém pode quebrar-me”. O meio cêntimo era na altura a moeda mais pequena. E este dizer significa: “podes pensar que sou pequeno e inferior, mas não posso ser destruído”.

Este belíssimo tema parece trazer diversos significados. Por um lado é dito que reflecte questões políticas e sociais, em resposta ao movimento “Black Lives Matter”, mas a nosso ver, reflecte também sobre o que aconteceu a muitos povos negros e africanos, e em última análise, de forma geral, inspira o empoderamento do ser humano.

Confira a canção no link abaixo:

Human wonderworks | Birth of a New Age, song by Jeangu Macrooy

In the category of human wonderworks, today we bring in this short review, the song “birth of a new age” by the musician Jeangu Macrooy, a theme that recently competed in the Eurovision music contest, representing the Netherlands. The Surinamese singer Jeangu Macrooy, who lives in the Netherlands, sings this song in English and in his mother language. Below, is an excerpt of the lyrics:

Your rhythm is rebellion

They spat on your crown and they poisoned your ground

They burned your heroes at the stake 

But your voice will echo all their names

They buried your gods, they imprisoned your thoughts

They tried to drain you of your faith

But you are the rage that melts the chains

This ain’t the end, no

It’s the birth of a new age

Yu no man broko, broko mi (mi na afu sensi)

Well, the phrase “Yu no man broko mi, mi na afu sensi” is based on an old Surinamese saying which means “I am only half a cent, but no one can break me”. The half cent was the smallest coin at the time. And this saying means: “you may think that I am small and inferior, but I cannot be destroyed”.

This beautiful song seems to bring several meanings. On one hand, it has been said that same addresses political and social issues, in response to the “Black Lives Matter” movement, but in our view, it also reflects on what happened to many black and African peoples, and, ultimately, in general, it inspires human’s empowerment.

Check out the song on the below link:

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Nick do Rosário

Fronteira do Silêncio

No teu rosto

teus dedos tristes

fronteira do silêncio

The Silence’s Edge

By your face

your sad fingers

The silence’s edge

Poema de Nick do Rosário – in Gaveta de Cinzas: Solilóquios

                                                                Livro publicado pela Gala Gala Edições, 2021

Desabafo de uma qawwi

#37 | De volta ao começo (última parte)

– Teste, um, dois – repito.

Primo o botão, a pontinha de luz vermelha do gravador cede.

– Tão rudimentar… achas que vai funcionar, Linan?

– Confio que sim, deste-lhe um jeito, tem de funcionar.

Volto a clicar o botão e ouço a minha voz repercutir pelo aparelho. Avanço com a gravação, deixando registada a mensagem:

Olá. O meu nome é Linan. Se este aparelho e o meu diário foram parar às suas mãos, significa que de alguma forma, perdi-me do meu caminho. Por favor, ajude-me a reencontrar-me. Tudo o que você vai ler é real. Foi o meu dia a dia, durante a passagem por esta terra. Poderia ter sido uma visita breve, não fosse a mutação, os vícios do corpo e da alma de humana, alongarem a jornada.

Deixe-me esclarecer: sou do reino de Stefanotis, que orbita numa dimensão distante desta. Tenho a pele trigueira, cabelo negro como o carvão vivo, que favorece os meus olhos azuis florescentes. Pareço bastante com você, ou seja, tenho o aspecto de um humano. Se estivermos no mesmo mundo, e caso esbarre comigo, ajude-me. Quem sabe você veja as coisas com mais clareza do que eu fui capaz. E caso me encontre, acorde-me, faça-me recordar. Disso depende, muito provavelmente, a esperança de toda a humanidade. Obrigada.

Vallen olha para mim, e num gesto inesperado, dá-me a mão. Afinal, só temo-nos um ao outro. E os inimigos também se abraçam.

– Será que vai ser doloroso?

– Espero que não.

Esfregamos as particulas de tamarino nos nossos pulsos. Pensamos no começo. Soltamo-nos da terra.

Mas a terra, no seu vazio, torna-se mais negra que o luto do meu peito. Isto não é o meu planeta. Mas também não é a terra.

– Acorda Linan!

Estou acordada. Mas não sei o que vejo ao redor, estas telas, estas velozes estrelas.

– Passaste da conta – continua a mesma voz, assustadoramente familiar.

Estico-me. E deparo-me comigo mesma. Sou ambas.

– Sim, eu sou tu. Deixa-me reorientar-te para que te reencontres Linan… tens de regressar.

– Um minuto – a minha mão trava-se no acelerado teclado flutuante  – avancei? Avancei quanto tempo?

– Pelo menos um ano, Linan.

A minha mente guina com a mesma força de um meteorito, à medida que o resultado matemático desliza da minha boca, arrancando-me da suspensão. Aterro em frente à uma das telas.

– Um ano? Significa… oh! 30 anos do planeta terra?

– Precisamente.

– A esta altura, estarei atrasada?

– A esta altura já quase nada sobra.

Engulo em seco.

– Posso?

– O quê?

– Ver o que resta?

Ela observa furtivamente as telas.

– Compreendes, Linan, que tens de reorientar-te dentro desta janela, se não corres perigo de vida?

– Compreendo, mas preciso saber.

Deixo os meus dedos manejarem freneticamente o ecrã de uma das telas. Os meus olhos inundam-se de lágrimas, da força impetuosa que brota do meu peito ao ver a terra. A satisfação é tanta que o sorriso transfigura-se num desproporcional esgar.

– Eles venceram!

Os humanos. Estão felizes. Não há nuvens escuras pelos ares. Os mares são azuis como o céu. Eles se abraçam, sem discriminação. Todos eles. Descobriram que o amor não é só uma palavra, ou um sentimento. Descobriram que há uma razão para ele existir. Finalmente, os qlubs estão equilibrados! A minha outra eu aproxima-se, com as mãos escondias por detrás das costas, sugerindo que algo está a escapar-me.

-Lembras-te quando Vallen disse, Linan? Que existem duas variáveis? Pois, ele estava certo. Esta variável foi salva por antecipação. 30 anos atrás. Na dor, expostos diante das suas próprias fracturas, os seres humanos transformaram-se para melhor.

– Então porque é que disseste que não sobrou nada?

A tristeza que emana dela, estranhamente, é minha.

– Olha com atenção.

Ela desliza o dedo na tela, para que eu veja o que até então me estava a passar. Não são precisos mais de cinco minutos para que uma onda de terror atinja-me em cheio.

– O que é isto?

– Planeta Terra.

– Mas… parecem frívolos ikras?

– Esta é a dimensão de que Vallen falava.

– Como assim?

– Numa outra versão de si próprios, os humanos não aprenderam nada. Trinta anos atrás, perderam a oportunidade. Seus conceitos bélicos, egocêntricos e separatistas foram exacerbados. E isto abriu as portas para o que Kosi queria, o pior cenário… que é…

– Não digas mais – murmuro. É como se acabasse de receber uma bofetada.

De que lado a minha família ficou? Do lado dos humanos que havia aprendido, ou do lado dos que tão somente havia piorado?

– Reorienta-me, por favor, de volta ao começo!

– Estás preparada? Para começar do zero? Toda esta conversa, tudo o que viveste…

– Estou pronta.

– Ok. Então… até um dia.

Desabafo de uma qawwi

#36 | De volta ao começo: duas dimensões

Sempre soube que haveria um preço alto, e uma consequência, pela escolha que fiz. A cobrança chegou. Os meus bolsos, porém, quedam-se vazios. Não sou capaz de pagar.

Para esta terra, Will está morto. Onde ficam os discursos, sobre a morte não ser definitiva, sobre a possibilidade de ele estar a ir, neste exacto momento, ao meu planeta? Arrastam-se aos confins da minha dor. Aceitar que Will está a fazer a transição, implicaria dar por terminado o nosso amor. Como posso fazê-lo, se ainda o amo? Como aceitar que os humanos vivem tão pouco, quando eu quero continuar a estar com ele?

– Tens de te concentrar, Linan, não sejas egoísta! Ele está a atravessar…

Viro-me com brusquidão, como se tivessem disparado gases lacrimogéneos com o efeito oposto, deixando-me agitada. Aquela voz e figura que surgem no escuro, que dissipa a multidão, ignora e sempre ignorará o que eu sou, o que eu me tornei.

– Não sabes do que falas, Vallen! E se ele estiver a ser levado por rapadores…? – as frases saem-me pela metade, entrecortadas à lamina do meu frio e magoado coração.

– Achas que o teu queridinho é o tipo de humano que não será encontrado por um vigilante, Linan? – ele segura-me firme pelos punhos, e de seguida estica a mão, para mostrar-me um saco com conteúdo familiar, muito brilhante. O meu peito comprime, a testa pinga, e sinto a venda cair dos meus olhos.

– Usaste as partículas de tamarino com Will!

Os lapsos de memórias. A variação do seu humor. Agora compreendo. Will sabia o que ia acontecer. Protegera-me. Como ousara abandonar-me, sozinha, no seu planeta?

– Retribui esse sacrifíci,o Linan – a voz de Vallen parece distante – salva este povo, regressa comigo.

– Regressar? De que falas?

– A única forma de salvá-lo, é cumprires a tua missão. E tu falhaste. Ambos falhamos. Caímos na dimensão errada. Esta não é a terra de Selénio. Existem duas dimensões, e esta dimensão Linan…

Duas dimensões? Inúmeras hipóteses brotam na minha cabeça, mas este fracasso gigante, esta perda estrondosa, formam um quadro horripilante, uma competição de desastres com as quais não consigo lidar.

– Rei Selénio nunca falou de…

– Lembra-te bem de quem és, Linan!

“Trago uma humana dentro de mim, Vallen, que passou a amar estas pessoas, não suporto ter que perdê-las, não posso!” teria dito, não estivessem as palavras entaladas.

– E é por isso que vais comigo – prossegue Vallen. – Regressa comigo até o princípio.

Finalmente reajo:

– O que queres dizer com princípio?

– Antes da queda.

– Antes da… queda? – repito. O meu sangue congela. Fazer uma viagem tão longa no espaço temporal tem sérios impactos. Tão sérios que não me sinto capaz de arcá-los.

– Não me peças isso.

Anular tudo? Arriscar-me a esquecer-me por completo? Perder-me no oblívio? Como posso esquecer-me que um dia tornei-me humana? Que gerava um ser dentro de mim, o qual já era amado? Como posso renegar o amor por eles, pelos meus amigos, por esta terra? Se não podia estar com Will, queria pelo menos contentar-me com as memórias. Estes humanos são sagrados moradores do meu coração, como posso, simplesmente, apagá-los? Não existe um só momento que valha a pena ser anulado, nenhum.

– Não há outra forma, Linan. Tens de voltar e focar-te na tua missão, sem distracções. Quem sabe, assim, se fores bem sucedida, os voltes a ver.

– Mas se anular tudo…

– É melhor assim. Foste tocada pelo seu amor e eles pelo teu. Ainda que se esqueçam. É uma marca que vai ficar, e essa é a tua única hipótese. Vamos Linan. Tens de recomeçar e encontrar um homem chamado Jorge Montani, no Brasil, antes que seja tarde.

– De que lado estás, afinal?

– Vais saber, quando tudo terminar.

Respiro fundo, enxugo os olhos molhados.

– Ok. Mas antes de partirmos, ajuda-me a encontrar um… como eles chamam? Um gravador! Ajuda-me, Vallen, preciso de um gravador!

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GIF: TVD

Desabafo de uma qawwi

#35| De volta ao começo: o nosso último abraço

Por Will

É aniversário da minha mulher. Celebro-o como se fosse meu também. Afinal de contas, sinto-me renascido. Aprendi a conviver com os meus medos e esta noite deixei-os todos bem enterrados, no sótão da alma. Um pouco de felicidade não vai fazer-me esquecer as responsabilidades que me esperam. Trampa, destino, eu sei lá.

– O que é se passa, Will? Estás diferente… – confidencia Linan, enquanto dançávamos à média luz das velas espalhadas pela sala.

– Amo-te, Linan. Não posso imaginar a minha vida sem ti. E é só.

No dia seguinte, quando ela começou a passar mal, não me atrevi a mexer no carro. Liguei antes para um táxi. Tinha tudo planeado. Ou quase tudo.

– Respira, meu amor, respira…

Durante a trajectória, senti o meu rosto e o corpo, quentes. Haveria alguma esperança para nós? Se sim, ela parecia soltar-se pela janela, deixando-me num frio abandono. Tive medo. Mas não podia esconder-me. Era quase impossível disfarçar as lágrimas que subiam pelos olhos. Agarrei-me a ela. O futuro do qual Vallen tanto alertou-me, vinha a galope. Só havia uma forma de alterá-lo. Agora compreendi. Venceria a promessa, sim, mas para isso…

O farol do camião deu-nos um banho de luz, e joguei-me por cima da mulher que amo, amparando-a com o meu corpo. Merecíamos um último abraço.

Resenhas

#34 | De volta ao começo: partículas de tamarino

Por Will

Faço esforço para levantar o rosto, apenas por um instante, para que o ar possa penetrar, já que tenho os pulmões carregados de chumbo. A claridade da lua, num céu tão veludo como o desta noite, pouco me diz. Trago comigo este chumbo que galga devagar para cima, como areia movediça. Trava-me pelos joelhos e derruba-me por terra.

– Por favor, alguém ajude! Ambulância!

A mulher da minha vida, com um bebé de apenas três meses no ventre, continua estirada.

– Desculpa irmão, ela foi-se – ouço alguém dizer.

O peso agora sobe até os meus olhos e explode em átomos que cristalizam-se em violentas lágrimas. Levanto um pé, não consigo andar.

– Não – deve ser um pesadelo, penso comigo trémulo – ela não pode estar morta…

Procuro outra resposta, em outro lugar, mas a verdade é que não há resposta diferente.

Engulo o choro. Sufoco o grito. Sinto o meu rosto paralisado.

Não tenho a certeza de o ter visto chegar. Também não sei explicar como foi que, de repente, a pequena multidão se dissipou, deixando-me a sós, com ele.

– Lamento, Will – a sua voz carrega a seriedade da noite e sem nem aperceber-me, coloco-me em posição de combate.

– O que você fez?

– O que eu fiz, não, o que eu vou fazer!

A rigidez do meu corpo aumenta, mas ele ergue a mão, como quem demanda ordem.

– Linan ainda é importante para a missão, Will. Se realmente a amas, vais ajudar-me a trazê-la de volta. Preciso dela viva!

Vallen. O único qawwi que conheço, além de Linan. Um qawwi que desprezo, e que entretanto, quero abraçar. Graças a ele perdi Linan uma vez. Foi ele quem a transformou, num acto de mera vingança, em humana. Mas quem de nós dois estará mais perto de realizar o milagre?

A necessidade desafia-me por inteiro, rasga-me o peito em dois e obriga-me a implorar:

– Faz o que for preciso, o que quiseres. Ela tem que voltar a viver.

Vallen sacode o seu casaco, encurta a distância. Algo doirado relampeja na sua mão.

– Estende-me o braço, Will.

Obedeço sem pestanejar.

O qawwi passa um pó pela minha pela, que acende como ouro, por alguns segundos, antes de voltar à normalidade.

– São partículas de lua verde de tamarino – explica sucinto – Isto vai levar-te de volta ao passado, algum momento antes do acidente. Tens de manter Linan viva, é só isso que te peço. Se falhares, regressarás até mim, até este momento.

Movo a minha mão, mas Vallen trava-me com um gesto ameaçador.

– Não terás muito tempo. Agora vai. Pensa em algum momento antes do acidente… esfrega o braço e…

Caio.

Pelo menos é a sensação que tenho. E continuo a cair.

Dou por mim em casa. No jardim. Lembro-me deste dia. Andava exausto, rabugento. Se tivesse sabido que teríamos um acidente, não teria perdido tempo a ser um idiota. Procuro-a por toda a casa, mas ela não está. Ligo-lhe, mas não atende. Recordo-me de que foi à consulta. Depois de tanto pensar, só me ocorre uma coisa: deixar um recado por escrito. Antes que o tempo acabe. Sento-me no sofá, pego numa caneta e começo a escrever.

De novo caio. E continuo a cair.

Lá está o sujeito. A cidade deserta. A minha vida sem cor.

– O que houve?

– Se estás aqui, significa que falhaste. Linan continua morta. Não temos muitas chances, rapaz. Vá… volte!

De novo estou em queda escura.

Agora ouço uma música. O tinido de taças. Estou ao pé da porta, sentindo um paladar de chocolate. Bolo que Érica e eu fizemos, para o aniversário da mãe. O que é isto, na minha mão? Julgo que acabo de recolher o gel desifenctante do carro, depois de saber dos perigos que causa estar exposto ao sol.

A dúvida atravessa o meu peito. E se isto for uma armadilha? Um desengano? E se estiverem a pregar uma partida com o meu cérebro? De qualquer forma, não podia permitir o acidente. Que entrássemos no maldito carro, e…

Vasculho um auxílio na cozinha, marcho rapidamente para a garagem e começo a furar um pneu, até que ouço a voz da minha filha.

– Pai! O que estás a fazer?

Tenho a boca e garganta secas.

– Chama a mãe, filha, chama a mãe… – urjo seguindo-a pela cozinha. Preciso contar à Linan, ela saberá o que fazer.

E de novo me abraça a escuridão.

– Não, não pode ser! – balbucio ao dar de caras com os olhos frívolos de Vallen

– Escuta bem, rapaz: talvez haja apenas uma chance. Uma! Use melhor o tempo. Desta vez vou dar-te a flor de dijon, para que tenhas mais tempo e preserves a memória até ao fim. Vai haver modificações no teu corpo, mas é por uma boa causa. É importante que te recordes.

– Vou recordar-me, Vallen.

– Vá, salva a Linan.

Levanto-me da cama, com o coração descompassado. A conversa com Vallen baila na minha cabeça, tenho o peito molhado, os dentes apertados.

Como um raio de luz, as mãos suaves dela percorrem-me para acalmar-me.

– Tiveste um pesadelo?

Quero dizer-lhe. Mas travo-me. Temo que o meu pensamento, por si só, possa levar-me de volta a Vallen. Tudo o que quero é ficar com ela. E não sei como impedir o futuro.

– Abraça-me, Linan – tento buscar conforto no seu corpo, sem pretensão de afastar-me. Agarro-me com tanta força, que venço. Permaneço ao lado dela. Sinto as partículas do tempo abandonarem-me, esgotando-se, autorizando-me a continuar. E permaneço.