Resenhas

“O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza”, que Revela Usando Armas Desactivadas

Por Domingos Mucambe

No Centro Cultural Franco Moçambicano caiu a noite, longa e lenta, enquanto minuto a segundo tecia-se o momento em que se daria a inauguração. A maior parte das coisas acontecem de noite, e não seria diferente para os adivinhos. Aliás, acredita-se que as noites servem mesmo para isso. Enquanto entrava a noite adentro, muito mais dentro nós ficávamos cada vez mais ansiosos por uma exposição que levou tempo a mais para dar iniciada. Mas, isso é só um caso a se esquecer, no final do dia, principalmente quando a exposição foi, finalmente, inaugurada. Entre adivinhações e suspiros, algo foi-nos revelado.

Dentro do Centro Cultural há lá mostras que fazem parte da exposição, como o “Trono dos Reis” e outras esculturas. Aqui começa o ponto. Mabunda traz esculturas interessantes as quais, de longe, são apenas ferro e soldadura. Um trabalho que desafia muito os olhos dos visitantes. Mas de perto nota-se que não é apenas ferro como tal, mas engenhos de armas desactivadas como matéria-prima que originou várias formas como o trono dos reis, que representa, acima de tudo, o lugar ou a instituição em que o poder se concentra. De certo modo, há aqui uma contradição com o que Foucault pensa sobre o poder. Certamente com essas esculturas, com essa exposição, o poder não é disperso, mas concentrado num único trono. É esse tipo de mensagem que está por detrás da exposição no geral, e em algumas obras em particular.

E, no interior da exposição sente-se a violência, mesmo que suspensa, a sua iminência, ou algo perto. Olhando de trás para frente a exposição tem uma coerência espectacular. Todas as obras ali expostas dialogam umas com as outras como se fossem os búzios do adivinho que nos revelam os “fabricantes da pobreza”. Como também há esse partido de significados em que há, por ali espalhado, os destroçados pelo poder e os que são os detentores do mesmo poder. É uma via de mão dupla.

A exposição “O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza” traz algumas respostas de perguntas suspensas, ou que nunca foram feitas. Há aqui as armas como os fabricantes de toda a pobreza que assola o mundo. Mas, aqui a pobreza não é só ao nível económico. Vai a fundo: trata-se de pobreza ao nível espiritual, moral e, acima de tudo, sobre a condição humana que é decadente. Em changana, a palavra pobre não tem uma única tradução, tem usiwana e Usweti. A primeira pode ser entendida como pobreza a nível económico, mas o segundo vai também para o desamparo; é muito mais amplo que o primeiro. A pobreza exposta tem detalhes da segunda tradução pelo seu aspecto, e também pelo que a guerra sempre traz; não é só morte ou fome, mas tudo que faz as pessoas serem verdadeiramente pobres e desgraçadas pela vida.

Portanto, nessa exposição há todo esse aparato que sempre nos traz calafrios na pele de dentro. Há helicópteros que nos sobrevoam e tronos, tudo feito com armas desactivadas. Uma coisa espectacular, que também reforça o legado do próprio Mabunda. Essa exposição é uma continuação de um caminho só por ele traçado que, usando a soldadura, traz a violência, as relações de poder e a pobreza, num sentido lato.

Histórias, Reviravoltas do Universo

A Casa Onde Já Não Mando

Amin já foi um homem feliz. Contabilista, metódico, respeitado. Casou-se como mandava a tradição muçulmana, com uma mulher da mesma fé, também contabilista, com quem partilhava valores, contas e amanhãs. Ambos trabalhavam, tinham estabilidade, eram organizados. Um casal que prometia.

Com o tempo, compraram a primeira casa. Ampla, com espaço suficiente para os filhos que já idealizavam. Os pais e sogros estavam orgulhosos. Eram o espelho do sucesso dentro da comunidade. Casaram oficialmente, com muitas bênçãos.

O primeiro filho foi uma menina. Esperta, curiosa, com queda natural para os números como o pai e a mãe. Era motivo de orgulho. Uma criança brilhante. Tudo parecia caminhar como planeado.

Depois nasceu Izam. A continuação do apelido. A alegria foi ainda maior. Agora sim, tinham um casal. Uma menina e um menino. A casa enchia-se de vida, fotografias, de devaneios para o futuro.

Izam, ao início, era um bebé calmo, observador. Porém, com o tempo começaram a notar que algo estava fora do normal. Não olhava nos olhos. Reagia pouco ao nome. Repetia movimentos. Chorava sem explicação.

Aos três anos veio o diagnóstico: uma síndrome rara do espectro do autismo.

A notícia abalou o chão do casal. Procuraram os melhores médicos, terapeutas, apoios. Tinham recursos e esperança. Mas os progressos não apareciam. Pelo contrário, Izam parecia afastar-se mais a cada dia.

Alguém tinha de ficar em casa. A esposa ganhava melhor. Amin era mais calmo com o filho e tinha mais paciência. Ficou com ela a responsabilidade. Deixou a contabilidade e passou a cuidar de Izam a tempo inteiro. Trocou a rotina profissional pelo lar, pela medicação, pelas terapias.

Ao início, acreditava que seria por pouco tempo. Mas os minutos e os dias foram passando, e a nova rotina tornou-se prisão.

As tarefas acumulavam-se. A mulher passou a vê-lo não como o homem de antes, mas como o responsável por manter tudo em ordem. Esperava-se que, além de cuidar de Izam, a casa estivesse sempre impecável: comida feita, roupa lavada, limpeza feita, horários cumpridos. E, mesmo que tudo estivesse feito, havia sempre algo por criticar.

As conversas desapareceram. Os gestos carinhosos sumiram e deram lugar a discussões sem fim. Passaram a dormir em quartos separados. Amin já não era marido, nem contabilista. Era apenas o homem que ficou.

Izam cresceu. Hoje, com 18 anos, continua dependente. Tem crises e fugas constantes. Amin sai à procura dele, já sem pânico, como quem cumpre mais um dever, mais uma rotina. O traz para casa. Sempre em silêncio.

Num desses dias sem cor, a mulher aparece no quarto dele, senta-se. Não falam muito; talvez seja cansaço. Talvez memória do que já foram. Dormem juntos. Nessa noite, ela engravida do terceiro filho.

Amin nem se ilude. Mais uma criança, mais noites sem dormir. Mais fraldas, mais tarefas. E, mais uma vez, tudo cai sobre ele. Leva o mais novo ao infantário, cuida de Izam, cozinha, limpa, corre atrás do filho mais velho quando desaparece. No infantário, já todos conhecem a sua história, que ele não esconde de ninguém. Basta olhar-lhe para a cara, não é preciso perguntar.

Amin já pensou em sair, em recomeçar, em vender a casa. Mas, isso não é opção. Hoje, com 50 anos, três filhos, um com dependência total, não há para aonde ir. E, sem rendimento fixo, a liberdade é só uma palavra; está preso. Não por escolha, mas por falta dela.

Amin vive numa casa que ajudou a pagar, mas onde já não manda. Já foi contabilista. Já foi marido. Agora é o homem que cuida, o que embala calado.

Todos no colégio dizem: “É um bom pai.”

Mas ninguém diz: “É um homem feliz.”

É o homem que ficou. O que segurou tudo quando tudo caiu. O que desapareceu para que os outros pudessem continuar.

Por Roberto Junior (The Cysne)

Histórias, Outras maravilhas humanas

As Terras Esquecidas Onde Também Nascem Sonhos

Por Roberto Júnior

“A grandeza não tem código postal.
E os sonhos não pedem licença para nascer.”

A aldeia de Lionde não é um lugar turístico.
Não porque esteja escondida nos mapas, mas porque não há ali nada de turístico para se ver.
Fica longe de tudo, longe do hospital, longe da capital, longe das promessas.

O que há em Lionde?
Há pó.
Há silêncio.
Há machambas secas e postes que não acendem à noite.
Raras vezes chove… e quando chove, a chuva estraga tudo.
Às vezes transforma-se em cheias, e as pessoas têm de abandonar as suas casas, muitas das vezes, perdem tudo.
Outras vezes, a chuva falta. E a seca extrema destrói tudo o que o povo semeou — arroz, tomate, esperança. Mas há água potável. A melhor água natural que já bebi na vida.
Vem limpa, fresca, viva, nasce do próprio coração da terra.

Às vezes, bastava o barulho das motorizadas e dos carros com matrícula sul-africana para fazer os meninos delirar. Eram como relâmpagos metálicos a cruzar as estradas esburacadas de Lionde. O rugido dos motores ecoava como promessa de um mundo maior. As crianças corriam para ver — olhos brilhantes, pés descalços, corações a sonhar alto.

Mas há também o que ninguém vê:
Gente forte. Crianças com olhos grandes. Jovens com sede de futuro.

Em Lionde, muitos meninos deixam a escola cedo.
Não por falta de vontade — mas por falta de pão.

Trocam o caderno pela enxada, trocam a mochila pela escola da vida — trocam a escola pelo esforço físico no campo, pela luta diária sob o sol — onde vão cortar cana, colher milho, pescar ou trabalhar em nome da sobrevivência.

Outros partem para a África do Sul, ainda adolescentes, com a roupa do corpo e a esperança no bolso.
Vão de forma clandestina.
Sem passaporte. Sem garantias de regresso.
Atravessam fronteiras por caminhos de mato, arriscando a vida por um pouco de futuro.
Trabalham nas minas, nas obras, nas lojas.
Mandam dinheiro quando podem.
Voltam quando dá.
Sonham quando sobra.

E quem fica… espera. E às vezes desespera.

A escola primária de Lionde ainda existe.
É simples, de paredes cansadas e chão gasto.

Quando chove, a água invade tudo.
A escola fica rodeada por poças e lama.
As crianças arregaçam as calças.
Entram com a água pelos joelhos — mas entram.

Faltar não é opção.
Não desistem.
A vontade de aprender é maior do que a enchente.

Apesar da fome, das roupas rasgadas, dos professores que chamaram algumas crianças de burrinhos, alguns meninos e meninas de Lionde foram até ao fim.

Um tornou-se engenheiro em Maputo.
Uma menina que andava descalça hoje é médica em Xai-Xai.
Outro foi estudar fora e voltou com ideia, não com vergonha da sua terra, mas com orgulho de ter vindo de onde poucos acreditam sair.
E um dos Diretores-Geral da Saúde foi formado ali mesmo, na Escola Primária de Lionde.

Alguns destes mesmos jovens, hoje adultos, voltaram para reabilitar a escola primária de Lionde. Com esforço, ajuda e memória, conseguiram dar nova cara às salas onde um dia aprendemos a escrever o nosso nome sentados no chão, porque as carteiras só chegaram nos anos 90. Ali, entre o pó e o silêncio, nasceram letras tortas e sonhos direitos.

O posto de saúde continua a funcionar uma vez por semana apenas.
O hospital mais próximo fica a 10 quilómetros, no distrito, e muitos não têm como chegar até lá.
As ambulâncias praticamente não existem.
E os chapas não esperam por quem não tem com que pagar.

Mas nem isso demove o povo de Lionde de continuar a acreditar.

Reflexão Final

Lionde não tem hospital.
Lionde não tem estradas sem buracos.
Lionde não tem refeitório na escola, nem biblioteca, nem rede de apoio real.

Mas Lionde tem talento.
Tem alma.
Tem futuro, se o deixarem florescer.

Este texto é um aviso.
É um retrato.
É um grito educado.

Ao governo.
À sociedade.
A todos os que se esqueceram de que os grandes homens e mulheres, também nascem em aldeias pequenas.

Não importa onde nasceste.
Não importa se em casa havia só salada no prato ou só silêncio à mesa.
O que importa é saber onde queres chegar, e nunca parar de caminhar.

Lionde é apenas um exemplo entre tantas aldeias esquecidas de Moçambique.
E também nelas, todos os dias, nascem crianças com coragem e futuro.

Que este texto sirva de abre-olhos para a sociedade. E de luz para as crianças que hoje vivem no interior, sem esperança.
Saibam: a esperança é a última a morrer.
E ela existe.
O sítio onde nasceste não define quem tu és.

Porque Lionde também é Moçambique.
E nos seus campos esquecidos, nascem sementes de esperança todos os dias.

Cada estrangeiro que pisa as terras de Lionde traz consigo uma pequena esperança. Cada investidor que ali aparece — o que é raro — nós vemos como um sinónimo de esperança. Ou talvez sejamos nós a querer ser vistos assim: como sementes de um futuro possível.

Hoje, algumas dessas crianças já têm acesso à internet, muitas vezes através de um telemóvel partilhado, velho ou emprestado.
Se um dia cruzarem este texto com os olhos curiosos da juventude,
que nele encontrem mais do que palavras, que encontrem esperança.

Obrigado por leres com carinho,
Roberto Júnior

Resenhas

O “Amor Entre Elas”, como um Lenitivo para a Mulher

Numa técnica mista, Sandra Pizura cria uma solução, através da pintura, que serve como lenitivo para as dores, cóleras e sofrimentos que acossam a mulher como figura, algo inventado e recriado pelo discurso que, segundo Foucault, envolve a palavra e a prática. Uma solução que vai além das misturas químicas, mas atravessa a psique e conforta o corpo físico, prometendo ser algo duradouro e eficaz.

“Amor entre elas” é a solução, uma poção mágica, que pode dissolver qualquer tipo de estereótipo, grades ou correntes mostradas por Bena Felipe no quadro “Sonhar Liberdade”, na mesma exposição, e tudo aquilo que traz dor para as mulheres. Num 40×50 cm, a artista mostra o remédio principal para muitas das mazelas que estripam as mulheres, que é a união. E, mais do que união – o amor no seio delas- cuidando umas das outras. É isso que se observa no quadro em alusão, onde duas mulheres, com seus alicerces (suas capulanas), oferecem a simpatia como uma forma de cuidado mútuo e amor entre elas. Uma delas, prostrada, parece assegurar que a sofrida -a mulher no meio- tenha um lencinho branco que não só serve para limpar as lágrimas, mas tem um valor simbólico por conta da sua coloração; esta poderá ser uma forma de oferecer alguma paz à sua alma. É como se a outra a oferecesse paz. Qual coisa mais ténue que um beijo na testa? A segunda mulher de capulana azul trata de dar à sofrida os beijos que simbolizam a delicadeza e o cuidado que ela tem, ou que elas têm ou deveriam ter umas com as outras, e também uma forma de lembrar a ela que é especial.

A destreza do pincel da autora nota-se quando pinta as duas mulheres com cores vivas: branco, rosa e verde. As capulanas tricotadas e coladas, também, têm cores vivas. Uma das capulanas cuja coloração lembra o vermelho e uma tonalidade de rosa, e da outra mulher é azul. Essas mulheres talvez tragam luz, esperança, cuidado e boa temperança para alguém que está submerso no abismo do seu sofrimento e, para sinalizar esse abismo, a autora pintou-a de preto, toda ela, com algumas pinceladas leves de branco. Preto e branco ou preto? Preto! O branco parece mera formalidade artística em que o contraste, muitas das vezes, é necessário até mesmo para evidenciar o que queremos evidenciar.

Para enriquecer ainda mais o enredo, esboça-nos um cão, que está ali para evidenciar a amizade, o cuidado, o amor porque, como se bem sabe, o cão é considerado o melhor amigo do Homem que, mesmo em situações adversas e de penúria (toda a penúria que possa existir) ele sempre se mantém fiel e nunca abandona o Homem.

Para a cura mútua, esse amor entre as mulheres, sugerida ou demonstrada por Sandra Pizura na sua obra do ano em vigor, torna-se algo essencial para curar a elas mesmas, aos homens e a toda sociedade. Que sociedade se ergue com mulheres doentes? Como esclareceu Isidro Fortunato, afro centrista angolano, “Mulheres felizes educam com paixão, e criam com sabedoria as sementes que construirão o futuro” (2015). Por isso, essa obra talvez seja o coração de toda a exposição: “Arte como cura colectiva”. Com o seu realismo, ela pintou amor como cura colectiva.  

Por Domingos Inácio Mucambe

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | Um Herói que Não Existe, de Zaiby Manasse – Opinião

Sinopse

“Womelo é um país mergulhado no caos. Uma onda de raptos assola a elite sob os olhos impávidos de uma autoridade que parece não saber por onde começar a combater esse mal. Todos os dias ouve-se que em algum ponto de Womelo alguém foi raptado e nos jornais a canção da polícia parece um disco arranhado, repetindo o mesmo ponto: “estamos a trabalhar no assunto”. Nesse caos, surge como que uma providência divina um herói que parece adivinhar onde e quando irão acontecer os raptos. Esse herói, munido de um senso de justiça vindo de um mundo cinematográfico, extermina de forma brutal, macabra e grotesca todos os raptores e sai de cena como se nunca tivesse estado lá.

A polícia que devia ser apoiada por esse ser que divide opiniões na comunidade, inicia uma caça desenfreada para encontrar o herói anónimo. Ta centro vê-se preenchido por Catamo, um psicólogo clínico que ousou publicar algumas linhas sobre o herói nas suas redes sociais, tornando-o o principal suspeito.”

Opinião

Faz muito tempo que andava ansiosa para ler Zaiby Manasse, que assina nas redes sociais como Aladino O Diferente. Com três romances e dois livros de poesia publicados, Zaiby Manasse é conhecido não apenas pelos livros que escreve, mas também pela partilha das suas opiniões sobre os livros que lê. Para quem segue as opiniões deste autor, a curiosidade em conhecer o seu trabalho é naturalmente premente, pelo que, não fugi à excepção, e sem saber exactamente o que esperar, pude finalmente embarcar em “O Herói Que Não Existe”.

Que viagem!

A narrativa policial apresentada nesta obra segue Catamo, um jovem que luta para encontrar emprego na sua cidade, na área da saúde. A vida de Catamo sofre uma reviravolta quando ele testemunha uma tentativa de rapto de uma criança, rapto este que é travado por uma figura misteriosa. Não vou detalhar o resto da história, até porque a sinopse é suficientemente esclarecedora, mas digamos que as reviravoltas e o suspense desenvolvidos no enredo conseguem manter o leitor agarrado às páginas até o fim, e talvez poucos consigam prever o que de facto está em causa no enredo.

Um dos aspectos que achei mais marcantes no livro é a ambientação. Zaiby Manasse decidiu criar uma cidade e país fictícios, trazendo várias alegorias e anagramas, mas qualquer pessoa familiarizada com contextos debruçados na corrupção, o crime organizado e as desigualdades, facilmente reconhecerá os comentários sociais descritos na obra.

Confesso que a ideia do autor lembrou-me a abordagem de algumas obras cinematográficas, incluindo o filme “Identidade (2003)”, um dos meus filmes favoritos, baseado num dos romances mais importantes de Agatha Christie, “E não sobrou ninguém”. Enquanto a grande mestre do romance policial entrega uma resposta intricada quanto à “identidade do assassino”, vamos assim dizer, Zaiby segue um caminho diferente, com uma reposta de execução mais fácil, mas mesmo assim, capaz de fazer o leitor questionar constantemente aquilo que está a ler e surprender-se. Trata-se certamente de um narrador bastante competente para a tarefa a que se propôs. Recomendo vivamente a leitura!

Sobre o autor

“Zaiby Husay Gulamo Manasse (1989) também conhecido por Aladino o Diferente, é natural de Maputo. Escreve poesia e prosa. É licenciado em medicina geral pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio e trabalha como médico. Publicou dois livros de poesia, nomeadamente: “O mel do meu passado presente”, e “Devaneios ensanguentados pela globalização”; e dois romances “A caneta do balcão 1” e “o entroncamento”.

Resenha de Virgília Ferrão

Outras maravilhas humanas

MANIFESTAÇÃO CRIATIVA POR ARTISTAS DE MOÇAMBIQUE: MOVIMENTO “LUTO POR MOZ”

A 14 de Novembro de 2024, sábado, a manhã registava-se silenciosa, o que não carecteriza a maioria dos fins de semana de Maputo. Talvez fosse o medo, talvez o cansaço por tantos desafios que os cidadãos têm enfrentado. A Avenida 10 de Novembro replicava o mesmo remanso, com algumas barricadas e movimento da polícia, porém, por volta das 8:30, na zona do restaurante Water Front, já alguns artistas e outras pessoas da sociedade civil começavam a reunir-se para a concentração do movimento “Luto por Moçambique”. Uma concentração apartidária em prol da liberdade de expressão, democracia, direitos humanos, despartidarização estatal e transparência governamental. Afinal de contas, em tempos de crise e angústia, a arte ajuda a paralisar a dor e a recordar-nos que ela também serve para fortalecer e dar esperança. Daí, a música, a dança, o street art e a poesia que configuraram esta manifestação criativa e pacífica.

Fonte: Facebook de Enia Lipanga (fotos de autoria de @luisa__nhantumbo)

Numa altura de tanta turbulência, em que feridas profundas têm sido abertas, registando-se a perda de várias vidas, inclusive, mais recentemente, do blogueiro moçambicano Mano Shotas -que filmou a própria morte- nada resta fazer senão esperar que seja ressuscitada com alguma urgência, a tolerância e empatia no nosso país. Desta forma, a arte pode e deve continuar a apelar por um amanhã e um país construídos não sobre a intolerância e o medo, mas sobre a justiça e a paz.

Fonte: Facebook de Enia Lipanga (fotos de autoria de @luisa__nhantumbo)

O movimento impulsionado por Stuart Sukuma, contou também com um manifesto assinado por vários outros artistas. No panfleto circulado, constam as assinaturas de artistas como Sónia Sultuane, Kloro, Regina, Stewart Sukuma, Idio Chichava, Yuck Miranda, Sérgio Zimba, K9, Sufaida Moyane, Maria Helena Pinto, Rosa Mário, Énia Lipanga, Mingas, Kátia Vanessa, Maimuna Adam, Samuel Djive e Rico Biosse. O panfleto traz, ainda, textos/extractos de trabalhos dos escritores Elton Pila, Mélio Tinga, Natacha Socre, Euardo Quive, Leonel Matusse, Álvaro Taruma, Nelson Lineu e Lorna Zita, com ilustrações de Luís Santos, Psiconautah, Ventura Mulalene e Sérgio Zimba, cada um deixando o seu registo, na esperança de um futuro melhor para o país que ainda se quer para todos.

Outras maravilhas humanas, Resenhas

Recensão Crítica à Exposição A Pente Fino, de Filipe Branquinho

Fonte da imagem: Diário económico

Filipe M. de Carvalho Branquinho é formado em Arquitectura pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo (Moçambique), e pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná (Brasil). Actualmente, trabalha como fotógrafo em Maputo. Após estudar Arquitectura, desenvolveu dupla função: fotógrafo e artista visual.

Recentemente, Branquinho disponibilizou retratos e esculturas da sua última obra no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 20 de Agosto. Este trabalho surge em oposição ao anterior In Gold We Trust (trocadilho de “In God We Trust”, lema nacional dos Estados Unidos, adoptado em 1956), publicado por Branquinho, em 2019, com a intenção de revelar e denunciar que o dólar propaga costumes de uma sociedade “alheia” aos valores afectivos. Na exposição A Pente Fino[1], Branquinho traz elementos de representação e valorização da cultura moçambicana, bem como elementos que recordam um passado remoto (algumas imagens remetem para situações ocorridas no tempo colonial) em que os senhores colonos, todos engravatados, surgem acompanhados de prostitutas negras, com as suas carapinhas e penteados afros. Ainda neste âmbito, o autor traz uma imagem da bandeira de Moçambique esvoaçando estendida, para simbolizar o progresso, além de trazer a imagem de um homem, exibindo as mãos com correntes quebradas, sugerindo liberdade do homem negro para retornar aos seus valores e à sua identidade. Entre vários outros elementos de valorização cultural, Branquinho traz imagens de homens e mulheres fazendo danças típicas de África e também imagens de muitos penteados afros, feitos por mulheres negras. Os penteados agradam à vista, valorizam e exaltam a mulher negra; entretanto, não são penteados que as mulheres negras (moçambicanas) fazem para as realidades do seu quotidiano, não são penteados que as mulheres negras fazem para se apresentarem nos seus locais de trabalho ou outros lugares que estas frequentam, à excepção de “XIKWENETA” (designação do Ronga), que é o único penteado que Branquinho traz e que faz parte do dia-a-dia das mulheres negras. Os outros penteados são feitos de vez em quando, para festas de gala, desfiles de moda e perfis de fotógrafos e modelos, e já não representam o que o dólar não pode comprar, mas, pelo contrário, “o que se compra com o dólar”. Para ilustrar “o que o dólar não pode comprar”, Branquinho podia ter trazido para a exposição penteados do tipo “peter tosh”, “mirabas” simples viradas para atrás, as “xindlandlalatanas” e ainda as “dreads”, pois estes são penteados que realmente fazem parte do dia-a-dia das mulheres, assim como dos homens negros, sobretudo as “dreads” para estes últimos.

Por: Yuny Ndava

SOBRE A AUTORA

Yuny Wilson Ndava, 21 anos, é estudante do curso de Licenciatura em Ensino de Português, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Participou no 33.º curso de Literatura de Língua Portuguesa, subordinado ao tema “Ler Camões, Hoje”, oferecido pelo Centro Cultural Português-Camões. Interessa-se por Literatura, Linguística e Didáctica do Português. Fora da academia, actua como modelo fotográfica e é entusiasta musical.


[1] Disponível em https://www.ccfmoz.com/events/exposicao-a-pente-fino-de-filipe branquinho/.com. Acesso: 1/10/2024.

Lançamentos!, Resenhas

Énia Lipanga carrega a sua poesia e coração pelo Brasil com “Compostas de Ti”

A poeta e activista moçambicana Énia Lipanga é uma força da natureza. A sua arte e luta não são apenas para admirar – mas também para sentir, celebrar e partilhar com o mundo, num carrocel de emoções de tirar o fôlego. Assim, durante este mês de Setembro, esta diva da poesia levou a sua magia para o Brasil, numa digressão intitulada “Composta de Ti(s)”, uma experiência única e que ficará na memória, a qual artista partilha nas suas próprias palavras:

“Realizamos com todo o sucesso do mundo a minha primeira digressão artística internacional.

Não consigo encontrar palavras que caibam para expressar a minha emoção pela concretização deste sonho.

Fizemos o sarau Palavras São Palavras no lindo quilombo urbano Aparelha Luzia, em São Paulo, e de surpresa recebemos Preta Rara.

Realizamos uma oficina de escrita criativa com escritoras negras.

Estivemos a palestrar na Universidade de São Paulo.

O Rio de Janeiro ofereceu-me uma jornada de tirar o fôlego.

Realizamos três saraus com a presença de poetas de vários movimentos de declamação de poesia e teatro.

Estivemos no Bar do Papa, que lugar mágico e preenchemos a rua. Estivemos também na majestosa Sala Carlos Couto, no Teatro Municipal de Niterói (outra cidade linda).

Ganhei uma irmã gêmea por aqui. Chama-se Doralyce, é rapper, poeta, ativista e revoltada como eu. Ela recebeu-me e abrimos espaço para que o público viesse testemunhar a nossa miscigenação.

Falamos sobre a nossa moçambicanidade numa palestra na Universidade Federal Fluminense.

Ganhei uma avó do outro lado do Atlântico. Fui acolhida por uma das escritoras mais respeitadas do mundo e não poderia estar mais grata por este feito. Conceição Evaristo foi, com certeza, um sonho; ouvi as suas histórias e caminhei de mãos dadas com ela pelas ruas da favela.

E, para encerrar com chave de ouro, vim encontrar mulheres loucas aqui em Florianópolis.

Duas conversas com poesia e o sarau E quando me tornei corpo, organizado pela Secretaria de Cultura, Artes e Esportes da Universidade Federal de Santa Catarina, e estou, neste momento, ainda sob efeito destes momentos.

Sou grata aos meus amigos em Moçambique por acreditarem em mim. Aos grandes produtores culturais brasileiros: Laís, Basquiat, André, Colmeia, Oluwa, Gdarkestampas.
Às irmãs de trincheira: Tatiana Pequeno, Eliane Debus, Catita, Vera

Obrigada por terem sido o caminho: Carla, Andrea, Margot, Evellyn, Ivone, Laura, Eliza, Letícia (poetas que não mencionei aqui, o abraço ficou, e estou organizando uma publicação de todo o mundo).

Perdi-me bastante por aqui, fiquei confusa pelo lado contrário do trânsito, pela falta de dinheiro vivo para pagamentos, e só não tropecei graças ao guia turístico mais lindo de Fortaleza e do mundo Gabriel Carrião.”

Opiniões, Resenhas

A Transcendência nas aguarelas de Aldino Languana, na procura de “Esmolas”

Por Domingos Inácio Mucambe

A grandeza dos anseios do ser humano levou, ao longo da história, a sua criação de forma mais poderosa, de forma a adquirir força para tudo, saber o indecifrável sobre os enigmas da vida, estar em qualquer lado e, acima de tudo, a benevolência que é raridade entre a humanidade. Languana, de forma magistral, estampa nas nossas caras a obsessão com o ‘além nós’ na obra “Esmola”, aguarela sobre papel com as dimensões 55 x 68 cm, ano 2024. Esta obra faz parte da exposição “Jardins de sonhos”, inaugurada no dia 03 de Julho de 2024, na Fundação Fernando Leite Couto, e que esteve em exibição até 03 de Agosto do corrente ano.

Languana (n. 1972) pintou-nos as vistas com as suas aguarelas mágicas que revelam muito mais do que o formalismo artístico. Uma exposição recheada de cores que reverberam nas almas dos espectadores, e são obrigados a uma jornada entre “Jardins e Sonhos”. Depois de consumidas as obras, despertamos de um profundo sonambulismo e questionamo-nos: onde estávamos?

Pela qualidade das obras, a textura aliada à leveza e translucidez, convém-nos especular que o artista tem Winsor & Newton como marcadores predilectos (o que só pode ser confirmado pelo próprio artista). A paleta de cores inclui skin tones, que personificam certas figuras. Temos, ainda, a ocean blue; o azul é a marca- parece- do artista. Contudo, usado nas medidas certas, sem o esbanjar. O berry red transparent e a neutral grey trazem profundidade adicionada. 

A neutral grey está entrelaçada nas tonalidades cinzas e algumas aguareladas pretas, que podem significar desde ser negro até profunda melancolia, desespero e avidez de alguma “esmola”. Temos, ainda, um tom amarelo dourado ou golden yellow, que nos oferece possibilidades de degustação e interpretação distintas rasgando, numa primeira vista, o quadro em dois: talvez o material e a transcendência. Vêem-se dois planos separados por uma linha visível e ténue, porém forte o suficiente para deixar a marca de dualidade dimensional, sem que haja um ponto singular onde há interceptação. Isso é visível num quadro em que nem as mãos do pedinte transpõem o véu laranja, nem o pássaro, nem a face humana e nem os três grãos invadem o mesmo véu amarelo.

A mesma cor também parece uma incessante labareda: aquele laranja dourado arde nos nossos corações, provoca chama dentro das nossas almas. A terra, assim, revela-se incandescente. Ou por outra, a vida na terra está em brasa provocando um sofrimento perpétuo como se fosse o próprio lago do fogo.

O ser humano no mundo material está numa posição de consternação. A ausência de pés retratada na imagem simboliza o desmoronamento dum mundo, a falta de chão e o rastejar nesses espaços divididos com figuras que possuem formas estranhas, ou mesmo demónios. Além de cortados os pés, borra-se a face, oculta-se a identidade.

Ou será o caso de não ser um indivíduo e sim um colectivo, uma povo ou toda humanidade.

A figura humana representada na pintura apresenta mãos estendidas para o céu, pedindo esmolas aos seres sobrenaturais. A aguarelada traça um humano em súplicas, pedidos, talvez prantos, que conseguimos ouvir bem no fundo dos nossos corações, mesmo no silêncio das cores de Languana.

Do ponto de vista metafísico, caem as respostas em migalhas de pássaro. Estas caem do bico, e denotam a efemeridade em procurar alento em seres superiores para acabar com o sofrimento do mundo. Isso espelha a incessante luta em pedir a tranquilidade. Mas, na realidade, enganamos a nós mesmos porque a vida segue as suas correntezas que trazem sofrimento e dor, com pouca felicidade e bem-estar. Esse pouco é bem representado por três migalhas ou grãos de bonança.

A pomba geralmente representa paz e tranquilidade- talvez sejam grãos de paz e tranquilidade. O pássaro parece ser uma extensão da face humana, ou pelo menos conecta-se a ela. A face é a divindade na qual o humano vê-se como “medida de todas as coisas” (Nieztsche, 1886), significando que cria ele deuses à sua imagem e semelhança. Que Deus é esse? A pomba oferece identidade ao mesmo Deus da paz e tranquilidade.

“Esmola” presenteia-nos com essa dura realidade, tratando-se de dois mundos: o de sombras e assombrados, e o de paz e harmonia, revelada pela serenidade da face do divino; uma contradição presente. Entre apertos de chamas da vida, roga-se às entidades superiores por felicidade, mas ela sempre chega em migalhas, grãos que não chegam a saciar as dores do mundo.

O ciclo da vida continua assim: um eterno sofrimento possibilitado pela procura de um bem maior fora do próprio humano, uma felicidade transcendental que nos cai em migalhas- pequenas esmolas, na ilusão de um futuro totalmente tranquilo. 

SOBRE O AUTOR

Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.

Outras maravilhas humanas

PEDRO PEREIRA LOPES: UM ARTESÃO DAS PALAVRAS NA PROSA CONTEMPORÂNEA

Maiane Pires Tigre[1]

1. Maiane Tigre – Para além de uma produção literária destinada ao público infanto-juvenil, você também é estudado por possuir publicações dirigidas para o público adulto. Dono de uma escrita versátil, abrangendo a poesia, o conto, e, por fim, incluindo-se o romance, consideramo-lo um escritor multifacetado, primeiro porque é capaz de investir na hibridez dos gêneros, além disso, possui uma rica capacidade de inovar ao aderir às mais atuais tendências da prosa contemporânea. Comente tais inovações na linguagem, verificadas, por exemplo, nas obras Mundo Grave (2018) e A invenção do cemitério (2019), afinal predomina o completo abandono das regras gramaticais, no tocante ao registro de nomes próprios com letras minúsculas, no início dos títulos, dos parágrafos, e após o uso do ponto de continuação. Haveria, pois, uma estratégia estilística adotada à la Oswald de Andrade, resultante de um diálogo intertextual, na tentativa de reafirmar o seu ultramodernismo?

Pedro Pereira Lopes As primeiras versões de “mundo grave” e “a invenção do cemitério” obedeciam ao convencionalismo tradicional, isto é, à gramática da língua portuguesa como a estudei, como a assimilei. Acontece que durante a minha estadia em Pequim, onde estudava, eu redescobri parte da minha africanidade, o meu lugar num mundo fora de Moçambique, fora da África, onde eu era “o outro”. Esta tentativa de aproximação com a África fora de mim me fez partir em busca de uma ancestralidade que, por inocência, eu acreditava que a detinha, como algo que se pode possuir. É a coisa de Saramago de sair da ilha para conhecer a ilha.

Eu gosto de crer que, em termos de técnicas empregues na série (que chamei de “trilogia absurda das minúsculas” – envolve, ainda, o livro de poesia “mundo blue”), a base foi este “disruptivo” e grosseiro “regresso às origens”, à origem da literatura africana, à oratura. Então, o processo de narração funcionaria em um esquema instintivo, quase um fluxo de consciência, onde o narrador chega a duvidar de si e comete erros durante o processo de contação (acontece em “mundo grave”), ao mesmo tempo em que a linguagem se transforma em um instrumento abstracto e subjectivo dentro do livro, no papel, sem obedecer às normas da gramática. Assim, a mancha gráfica, os elementos da pontuação e a maiusculização, por exemplo, obedeceriam a uma espécie de democracia ou liberdade natural da narratividade, em que se estabelece a oratura. À volta da fogueira, não temos como distinguir um Pedro capitalizado de um “pedro” em caixa baixa. Do mesmo modo que não a história pode ter múltiplos narradores, ser interrompida, ser comentada ou não usar o formato tradicional de contação.

            De qualquer das formas, eu não inventei a roda, fui o primeiro em Moçambique a escrever três livros em caixa baixa, claro. Mas tens o Suleiman Cassamo, por exemplo, que domestica a língua portuguesa em “O regresso do morto”. Há o Saramago, o Valter Hugo Mãe e o Rui Nogar, cujo único livro em vida, “Silêncio escancarado”, é feito de minúsculas. E em nada isso anula a sua poesia única.

2. Maiane Tigre – Por que você decidiu seguir a proposta de ruptura no gênero, ao adotar o romance policial como forma estética sobressalente no tecido narrativo da obra mundo grave (2018), e o gênero microcontos em O livro do homem líquido? (2021). Quais são as suas fontes/influências, nacionais e estrangeiras?

Pedro Pereira Lopes Eu nunca me considerei prosador ou poeta. Questiono até essa coisa de “escritor”. Eu vivo em uma relação com as palavras, com a língua, com o exercício literário. Hoje, considerando a moda dos conceitos, eu diria que vivo numa “relação tóxica” com a coisa de escrever. Eu gosto de escrever. É uma relação sadomasoquista, de prazer e dor, o deleite de escrever e a dor pela busca do texto perfeito. Assim, fruto de tal inquietude, de tal desafio em busca desse preenchimento que resulta do prazer e da dor, eu nunca me contentaria em escrever somente um género literário. Eu costumo dizer que não sou bom em nada como não se pode ser bom em tudo. A ser escritor, no lugar dos extremos baseados em géneros, eu prefiro ser um “escritor experimentalista”, uma espécie em trânsito constante, em direcção ao inalcançável. No fim, gosto da surpresa, da possibilidade do impossível, da descoberta e da tentativa.

“mundo grave” começou como uma novela e fui perdendo o controle. Desenvolveu-se como um fungo. Eu queria criar um personagem como o “Jaime Bunda” do angolano Pepetela ou qualquer outro que eu tinha conhecido com Ruth Rendell, Conan Doyle ou uma história como as Sidney Sheldon. O resultado foi algo que eu chamo de uma mescla de policial com o insólito maravilhoso, meio noir, meio horror. E isso era algo nunca antes escrito em Moçambique. Eu sempre admirei o conto e já tinha publicado alguns. O conto é uma espécie de haicai do romance. E isso faz do microconto uma espécie de haicai do conto. E eu tenho uma paixão pelo haicai. Então, um dia eu pensei em escrever contos-haicais, que seriam pequenos contos escritos em três parágrafos, mesmo a imitar o haicai, que tem três versos. Foi quando descobri o microconto ou a micro-narrativa. Achei, dentro desse encanto, “O livro dos abraços”, do uruguaio Eduardo Galeano, e fiquei fascinado. Depois de mostrar um rascunho dos microcontos ao escritor António Cabrita, ele recomendou-me a leitura de “Histórias de Cronópios e de Famas”, de Julio Cortázar, que está disposto como um conjunto de pequenas narrativas. Assim nasceu “O livro do homem líquido”. Eu acho que, no final, imitei sem copiar. 

3. Maiane Tigre – A obra mundo grave (2018) é uma forte evidência de quanto você sonda, entre as fendas da miséria social, as intercorrências de um grave mundo, subitamente revelado no homicídio, pela corrução do caráter, na fraqueza do espírito de pessoas más. No enredo, o insólito, a violência e o trágico se cruzam nas encruzilhadas da urbe, que se retroalimentam da falência das instituições. Nesse ínterim, demonstra-se, com notável vivacidade, as periclitantes faces da cidade flagradas pelos olhos atentos do narrador, os quais transformam um simples acontecimento em um crime macabro, repleto de suspense e envolto em brumas de mistério. Quais são os verdadeiros papéis da cidade, do insólito e do grotesco nessa narrativa?

Pedro Pereira Lopes Sou fruto tanto do ambiente rural como da cidade. A minha vida adulta, em particular, é uma vida de cidades, de trânsitos. Diferente do campo, a cidade parece um organismo mecânico, um formigueiro de homens e edifícios e movimentos. Não estou a querer dizer que há mais vida na cidade, mas nela a vida é um produto processado, os comportamentos e as ideias são fruto de um sistema utilitário que se parecem com os supermercados. A cidade, a sua fluidez, a sua frieza e a padronização, está mais próxima da metáfora da composição “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd, ou da modernidade líquida, de Bauman. Mas todos nós gostamos das cidades, mesmo os que nela não habitam. Então, a cidade acaba por fazer parte das nossas vidas, como parceiras, como amantes. Deve ser por isso que costumamos fazer músicas e hinos para as nossas cidades. No meu livro, a cidade em si, a cidade de Maputo, é a personagem principal, uma personificação de Sodoma e Gomorra. O Valete, músico português, diz que “a cidade é o cemitério dos vivos”. E eu concordo.

O insólito e o grotesco compõem o maravilhoso moçambicano. Por exemplo, existem relatos de determinados falecidos que foram avistados a vender pão nas ruas de cidades que não eram as de sua proveniência; ter que fazer uma cerimónia aos espíritos dos antepassados na inauguração de uma estrada ou ponte, para que não aconteçam [muitos] acidentes; a perseguição e decapitação de indivíduos albinos para o seu uso em rituais de enriquecimento, entre outras situações. E fica a questão, qual é a diferença entre o real e o imaginário? Em contexto moçambicano, não é fácil ter conclusões. A noção de realidade ou de ficção acaba por ser uma conclusão relativa. A Paulina “explora” isso em alguns dos seus livros. Em o “mundo grave”, não fica claro o que é real ou fantástico. O leitor [moçambicano], na base do que acredita, decide como interpretar o que lê, ou seja, não existe nada de positivo no romance.

4. Maiane Tigre – A coletânea de contos a invenção do cemitério (2019) demonstra a sua ampla predileção por temas voltados ao hiper-realismo social, calibrando, em sua contística, a confluência do trágico, referente a situações vividas, com a poesia extraída do cotidiano. Portanto, a arquitetura dos contos é construída mesclando a linguagem ornamentada da prosa poética ao gume cortante da palavra, expressando a tensão prevalecente no âmbito das hierarquias de poder. Além disso, outra tendência na prosa contemporânea é a flagrante permanência de problemas sociais que atingem as camadas populares, e certos atores ainda reféns da violência urbana ou da distribuição desigual de poder na contemporaneidade. Nesse ínterim, poderíamos afirmar que o elenco de personagens que participam deste jogo ficcional constitui a representação do povo moçambicano que se equilibra entre o hiper-realismo e o sonho?

Pedro Pereira Lopes O Professor Etelvino Guila, da Universidade Eduardo Mondlane, diz que sim, que representa. Mas eu não sei se concordo ou discordo, não discuto com académicos. A minha proveniência é humilde. “Humilde” é uma palavra eufemística que significa pobre. Ela é usada em contextos em que o ex-pobre parece ter pejo de usar a palavra pobre ou pobreza. Eu não nego. A minha família era pobre. Onde cresci, onde me adentrou a escrita, existia apenas pobreza. Então, tudo o que conheço melhor é gente pobre, é a penúria, é a fome, gente pouco ou não escolarizada, a crença no divino, que ocasionaria uma vida melhor; a luta constante, a descriminação económica e a ausência de oportunidades. São essas as minhas representações. Uma outra professora escreveu que os meus personagens eram os que viviam “à margem da sociedade”, os marginalizados. Não existe isso de viver “à margem da sociedade”, a sociedade é uma e única, mas estratificada, dual, desigual. Eu jamais escreveria sob o ponto de vista de um personagem rico ou branco, por exemplo, porque escrevo o que é real, o que conheço. Se o que conheço é o que vivi, o que vivo – o sonho, a esperança –, então escreverei sobre isso, não importa o contexto, pode até ser em ficção científica. Esta é a minha forma de protesto.

5. Maiane Tigre – Como você percebe a importância  de O livro do homem líquido, finalista do prêmio Oceanos 2022, para o conjunto de sua obra,  e extensivamente, para consolidar o quadro da literatura moçambicana contemporânea? De que modo ela pôde projetá-lo no cenário literário internacional e, por tabela, também permitir à literatura de Moçambique reconhecimento além-mar?

Pedro Pereira Lopes Fui também o editor de “O livro do homem líquido”, pela Gala-Gala Edições, editora que fundei em 2020. Era apenas um livro de cansaço, de descanso, fruto do meu “experimentalismo”, que eu queria editar. Não achei que fosse a chegar tão longe, que fosse a ser, de alguma forma, importante. Não tenho a mania de gostar ou desgostar dos meus livros, talvez por serem sempre diferentes um do outro. Este “O livro do homem líquido” fez o seu próprio percurso. Talvez vá representar alguma coisa, mas nos últimos tempos, não costumo criar ilusões, gosto de ver o curso das coisas. O meu maior medo é perder a habilidade de escrever. Já tive ambições de ser conhecido internacionalmente, mas hoje só quero escrever, escrever para os moçambicanos, que é o meu público primário, e para quem aprecia o que já escrevi.

Por conta do Oceanos, escreveu-me uma agência de escritores de Londres, interessados no livro, pode ser que dê em alguma coisa. Mas antes da nomeação eu já tinha sido contactado, também, por tradutores para o inglês e francês. Passam-se anos, não devem ter gostado. Tenho, ainda, livros editados em Portugal e Brasil. Já sou internacional, para a minha mãe. Se o livro, finalista que foi, fizer o seu percurso, estarei satisfeito. Por enquanto, está somente disponível em Moçambique.

6. Maiane Tigre – Quem é o poeta Pedro Pereira Lopes? Como foi a experiência de ter publicado o livro “fatia fresca de lua nova (2023)” em parceria com um dos mitos da poesia moçambicana, o poeta Armando Artur? Por que a escolha do gênero de poesia japonesa, haicai, para escrever retratos da vida e da natureza de Moçambique?

Pedro Pereira Lopes Não existirá um poeta Pedro Pereira Lopes. Não compro a ideia. Existe um escritor que escreve poesia. Foi através da poesia que entrei na literatura, os primeiros textos que escrevi. Naquele tempo, sim, queria ser poeta. Mas depois vi que existiam muitos poetas em Moçambique. E se fosse para ser “poeta”, que fosse para fazer alguma diferença. Então decidi fazer poesia para crianças, pois não tínhamos poetas para crianças. Conheci a Cecília Meirelles por via disso. O Quintana. E existia um livro muito bonito do Rogério Manjate, “A casa em flor”. Fiz dois livros de poesia infanto-juvenil. Eu sei escrever poesia e fiz alguma poesia bonita e mágica para os pequenos.

O poeta Armando Artur é um amigo que fiz no último ano. Estamos muito próximos e veja que o convívio entre escritores, em Moçambique, ficou uma coisa horrível. Somos ambos da Zambézia, e não se trata de regionalismo, mas os escritores, sendo seres isolados, preferem não jantar com o inimigo. Um dia, à mesa do bar – ando sempre a bolar ideias – perguntei ao Armando, tendo como referência alguns dos textos de seus livros, se tinha consciência do haicai. E ele me disse que sim. Perguntei-lhe se os tinha em número suficiente para compormos um livro às meias. E gosto bastante desta coisa de dois autores de gerações diferentes estarem a colaborar em algo.

Eu achei o haicai por acidente, pela mão do Paulo Leminski, e percebi que existia, na sua composição e espontaneidade, um exercício necessário para a minha madureza como artista. O Armando acha o mesmo, que algo de supremo reside na simplicidade do haicai. É um livro de pequenos poemas, mas imenso na sua intenção.


[1] Doutoranda em Letras: Linguagens e Representações (UESC). Bolsista FAPESP. Membro do Grupo de Pesquisa GpAFRO: Literatura, História e Encruzilhadas epistemológicas. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2240-325X. E-mail: maiane.tigre@hotmail.com. Esta entrevista é o resultado parcial da minha tese de doutoramento orientada pela profa Dra. Inara de Oliveira Rodrigues (UESC) e co-orientada pela profa Dra Sara Jona Laisse (Universidade Católica de Moçambique – extensão de Maputo).

Autor Pedro Pereira Lopes