Desabafo de uma qawwi

#28| Pode o Estado obrigar-me a evacuar em caso de emergência?

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Imagem: causa operaria

Uma das minhas maiores dificuldades continua a ser o sono. Tornou-se necessidade biológica. Sabe muito bem que dependo dele. E mesmo assim, tem a mania de adiar-se. De deixar-me no abandono. Quando isso acontece, normalmente pego no livro da cabeceira, ou então ligo a TV, a qual esta noite acabei por optar.

As notícias reportam mais um desastre natural. Céus quebrados de cinza, cidades turvadas de vento, águas galopando com fúria pelas alturas e submundos, puxando tudo o que é vida para o breu da morte. Dói o meu coração. Como se atravessado pelas lâminas das arraias que lutam por alento.

O país onde estou, também já sofreu este tipo de desastres. O rescaldo dos mesmos deixou-me com alguns questionamentos, os quais esta noite voltam à tona: a ajuda que o chamado Governo deve prestar aos cidadãos. A eficácia das evacuações, quando de carácter obrigatório.

No meu planeta, isto nunca poderia ser questionado. Aquando da terrível queda da cortina de vidro, por exemplo, bastou os trombones dispararem com a comunicação do Conselho da Unidade, para os qawwis obedecerem a recomendação de ficarem em casa. Somos um só, e a voz do nosso rei, nunca contrariou a nossa própria vontade. Pelo menos até aquele tempo.

No planeta terra, entretanto, as coisas funcionam de forma diferente. Para conviver em sociedade, os homens abdicam um pouco da sua liberdade. É tudo institucionalizado e é preciso que os direitos e deveres estejam claramente definidos e proclamados. Aliás, é essencial, porque grande também pode ser a tirania. É neste sentido, que o direito ao domicílio e residência é um direito “fundamental”.

Em casos como este, de emergência ou de perigo de vida causado por calamidades naturais, julgo que deve olhar-se por um lado para o direito dos cidadãos a permanecerem no seu domicílio, e por outro lado, a responsabilidade do Estado de proteger estes mesmos cidadãos.

Em alguns países, existem leis que permitem explicitamente evacuações forçadas em caso de emergência. Acontece, entretanto, que a implementação desses esforços tende a ser complicada. Às vezes, as pessoas não respondem às medidas de evacuação. Pelas mais diversas razões. Algumas não recebem a informação. Outras, tem receio de abandonar as suas casas e os seus bens. Algumas talvez já tenham enfrentado situações semelhantes e julgam que conseguirão sobreviver a mais uma. O problema é que estas pessoas podem, mais tarde, precisar efectivamente de socorro, situação que poderia ter sido evitada.

Que direito deve prevalecer? Mesmo estando em perigo, posso optar por permanecer em casa? ou o Estado pode usar da força para tirar-me de lá? Olhando para Moçambique, por exemplo, quando afectado pelo ciclone Kenneth, o Governo e as agências de ajuda disseram que 30 mil pessoas foram levadas para locais seguros e que um total de quase 700 mil estariam em risco. Foram criados 20 centros de evacuação em Pemba, mas foram necessários aviões, pois muitas das áreas afectadas não eram acessíveis por terra. In Jornal o pais.

Reportou-se, ainda assim,  que algumas pessoas recusaram-se a abandonar as suas casas.

Alguns estudiosos humanos argumentam que usar da força para tirar alguém do seu domicílio, sem um processo legal, constituiria a violação de um direito fundamental. O documento chamado “constituição da República” em vigor em Moçambique, diz que o domicílio do cidadão é inviolável, salvo nos casos previstos na lei. A entrada no domicílio dos cidadãos contra a sua vontade, só pode ser ordenada pela autoridade judicial competente, nos casos e segundo as formas especialmente previstas na lei.

Ora, neste mesmo documento a que me refiro acima, fala-se dos estados de sítio e de emergência. Estes podem ser declarados, no todo ou em parte do território, nos casos de agressão efectiva ou eminente, de grave ameaça ou de perturbação da ordem constitucional, ou de calamidade pública. Nestas situações, pode ser suspenso ou limitado o exercício de algumas garantias e direitos constitucionais. O Governo pode, por exemplo, tomar algumas medidas restritivas como a obrigação e permanência do cidadão em local determinado.

Desta forma, parece aceitável que em caso de declaração de estado de emergência, o Governo tenha a prerrogativa de forçar a evacuação. Mas como tal depende de um processo fundamentado, o mais importante antes de qualquer medida forçada, é a antecipação e conjugação de esforços, a disseminação de informação e sensibilização dos cidadãos. Afinal de contas, estamos a falar do bem mais precioso que é a vida. É necessário todo o cuidado. E todas as medidas e prioridades devem ser para assegurar a preservação desta mesma vida.

… respiro. Desligo a TV. A noite quente arranca da lua um intenso gemido. Todos nós estamos sujeitos às forças da natureza. A qualquer momento, podemos enfrentar uma situação de contratempo. Ao pensar nisso, pego numa caneta, pois acaba de surgir-me uma outra questão. Será que agora, como humana, estou equipada para enfrentar uma situação de emergência? Será que, por exemplo, tenho tudo em casa para, em caso de necessidade, aguentar-me uma semana sem ir às ruas?

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#27| Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia da sua vida

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Imagem: The International Educator

Nos últimos meses, encarar a vida como humana parece-me uma tarefa mais aceitável. Às vezes ando pelas ruas, absorta nos meus pensamentos, ardendo na tal melancolia, esse manto que se agarra a quem caminha só. Outras vezes, caminho mais atenta. À procura de sinais escondidos da missão que falhei. Quem sabe haja algo no semáforo fechado, na mulher de mão estendida, ou no andaime suspenso.

Há momentos em que busco tão-somente um rosto amigo. Nessas alturas, sou capaz de ver Will. No rosto do vendedor de jornais da esquina, por exemplo. Ou no simpático vizinho que dispensa alguns segundos das suas manhãs para cantar-me os bons dias. À medida que o tempo passa, eu aprecio esta memória viva dentro de mim. Aceito-a.

Todavia, há outros aspectos da vida humana que são praticamente insuportáveis. Não poder teletransportar-me é angustiante. Não tolero andar de carro, por isso a bicicleta acaba sendo um meio termo. Custa-me habituar-me as estranhezas do corpo humano. Quantas vezes acordo a meio da noite, com impetuoso calor? Que dizer então quando acomete-me uma terrível dor de cabeça? Ah, a dor de cabeça. Essa espanstosa novidade.

Em momentos de ansiedade, deixo-me sentar ao luar, entre as árvores do quintal. É assim que resolvo os meus conflitos. A olhar para estrelas, sem pressa. Permitindo-me lembrar que além delas, há muito mais. Um dia, quem sabe, eu volte ao meu planeta. É essa esperança que me consola.

A dor de cabeça começa a ceder. O stress por causa do deadline desaparece. A situação, subitamente, parece-me ridícula. Eu, Linan, stressada por causa de trabalho? Solta-se de mim uma morna gargalhada.

Algo que causou-me admiração logo que cá cheguei, foi o tempo reduzido dos humanos. 70 entre 80 anos. Essa é a média geral de vida. E mesmo assim, esta espécie passa a maior parte do tempo a trabalhar. Eu até compreendo. O sistema não permite que seja diferente. E ter um trabalho, chega a ser uma grande dávida. O que eu não compreendo, entretanto, é como tantos humanos deixam que o trabalho os frustre, sugue a vitalidade. Onde está benefício nisto? Como é que milhares de pessoas conseguem estar ao serviço de empresas e de empregadores que não valorizavam o seu esforço, nem o seu tempo? Como é que conseguem trabalhar em algo que abominam? É aterrador. E sabem porquê? Porque hoje, como humana, não tenho outra opção senão trabalhar. No princípio, achei que não fosse capaz. Mas aos poucos, a solução desvelou-se. Lenta e infalível.

Eu falo muitas línguas. Mais de quinze. Assimilei-as como quem bebe água, quando ainda era qawwi. O que eu não sabia, é que isso podia converter-se em dinheiro. Foi uma boa surpresa descobrir que ensinar outros humanos, é um trabalho comum neste planeta!

Comecei por trabalhar com crianças. Estar com elas era quase como regressar a Stefanotis. E não demorou muito para depressa começarem a surgir vários pedidos distintos. Queriam que ensinasse adultos. Que trabalhasse com umas tais “instituições”. Passei a oscilar entre “intérprete”, tradutora” e “educadora”. É engraçado como no planeta terra podemos ser várias coisas ao mesmo tempo. Isso fascina-me. O novo trabalho obriga-me a viajar com frequência. Quer dizer, andar pelo mundo e conhecer pessoas, experimentando a terra com olhos de humana, não é de todo uma obrigação. Quando muito, um acto de diversão.

“Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia da sua vida”. Disse Confúcio, um pensador e filósofo. Colei esta frase na parede do meu escritório em casa. É a prova da sabedoria humana.

O mais importante não é o dinheiro que estou a ganhar. As utilidades para ele não são tantas. A forma como o trabalho está a transformar-me sim, é fabulosa. Diminui os vácuos dentro mim, transformando-os em luminosos jardins. Em suma, o trabalho faz-me sentir, pela primeira vez, curiosidade, e até uma pontinha de alegria em ser humana.

– Oh mãe, tenho mesmo de ir? – pergunta uma voz firme e meiga. Érica surge na varanda. Coloca a pomposa mochila às costas, lança-me um olhar desgostoso – raramente estou contigo… um fim de semana é muito pouco!

Levanto-me da grama e ajeito a gola do casaco da minha filha.

– Por mim ficavas aqui o ano todo meu amor, só que o teu pai vai chatear-se se eu não for deixar-te. E se no próximo feriado formos passear? Podíamos ir acampar na praia, como fizemos na páscoa, o que achas?

Érica agita-se com os olhos saltitantes de excitação.

– O pai também vai?

– Só nós duas, meu amor.

Indignada, e como forma de protesto, ela saca os headphones cor de rosa do bolso e os mete nos ouvidos.

– Tu e o papá são uns chatos…

Acompanho a minha filha até a casa do pai. De táxi, a rota demora cerca de 15 minutos.

No portão da vivenda, Will está com uma mulher. Ela despede-se dele de forma bastante afectuosa, antes de enfiar-se num vistoso mercedes.

O meu coração bate mais depressa. Faz tanto tempo que não vejo aquele homem. Deixou a barba crescer. Parece mais velho. Tal como eu, ele também tem um trabalho. Sempre teve, pese embora eu só agora compreenda esse fenómeno na sua plenitude.

– Entra, Linan.

Mal reconheço a sua voz. Há alguns meses eu disse que queria o divórcio. Longe de imaginar que com isso, abriria as portas para a chegada de um estranho. Como quando uma árvore caí. A raiz, quem sabe, reaaproveite-se. Mas ela, jamais será a mesma.

– Senhorita Érica, depressa a lavar as mãos para vir jantar, faça o favor…

– Sim paizinho, mas não te esqueças que não tenho mais seis anos, faça o favor você também! – reclama Érica correndo pelas escadas, as botas de couro ressoando pelo soalho.

– Anda cá uma reclamona… – comenta Will, debruçando-se sobre a mesa onde estão espalhadas várias folhas gigantescas, réguas e esquadrões. Will procura algo. Se calhar o lápis encaixado na sua orelha.

– Will…

– Sim? – ele ergue a cabeça. Nos seus olhos já não há o brilho que a qawwi em mim conheceu um dia. Neles, somente uma interrogação – ah… a papelada. O advogado prometeu que até para semana finalizamos tudo, não te preocupes, estamos quase.

– Não era isso – respondo constrangida. – O lápis… – faço um gesto indicando a orelha.

Will encontra o lápis. A gargalhada que deixa escapar, floresce como uma primavera, e deixa-me mais à vontade para concluir:

– És um pai exemplar Will. Estás a fazer um bom trabalho com a Érica, ela é uma menina incrível. É isso que queria dizer.

Ele parece confuso.

– Estamos os dois, certo?

Respiro, anuo e levanto a mão.

– Bom Will, até outro dia.

Ele parece um pouco apreensivo quando pergunta-me se quero ficar para jantar.

– Se não tiveres outro compromisso, já que – ele parece cada vez mais incerto – sei perfeitamente que tens estado ocupada mas… – acaba por travar – bom, o que estou a tentar dizer é que és bem-vinda a ficar. A jantar connosco.

Observo-o de novo. Sinto-me tão insegura. Que vontade de ficar. Mas sei que não posso. Tampouco sou capaz de entender se ele de facto o quer. Os seus olhos castanhos costumavam ser a janela da sua alma. Todavia, eles carregam agora a densidade da matéria. São os olhos da diplomacia.

– Gostaria de ficar, Will, mas acho que não posso, tenho um prazo para fechar esta noite.

– Imaginei. Mas fico feliz por saber que estás a gostar do teu trabalho. Da tua nova vida.

O meu peito quebra-se em duas partes. Metade fica naquela sala, batendo acelerado. A outra metade segue comigo, controlado. Sim, o gostar de viver às vezes não é mais senão do que saber ser-se humano por si próprio. Saber que o amor pode distanciar, mas que a vida seguirá.

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#26|Quero o divórcio (essa faca de dois gumes)

Fonte imagem: istock

Apareceu à minha porta sem avisar. Trazia um ramalhete de flores. Mas a visão não me agradou. Evocou-me antes, a memória do beijo. E de repente desejei que tanto ele como Fatinha tivessem os seus corações violentamente quebrados. Queria que Will estivesse tão miserável quanto parecia. Que se arrependesse por ter destruído a nossa união. Confesso que odiava-me sentir-me daquele jeito. Mas sentia. Era o que eu era, a minha nova entidade. E essa nova entidade, raivosa como um bicho ferido, fez-me fechar-lhe a porta na cara. Na verdade, só tinha aceite dar-lhe o meu endereço porque queria continuar perto de Érica.

– Não vou embora sem falar contigo, Linan! – os golpes na porta permaneciam altos.

Respirei fundo. Tentei abafar os meus gemidos, a angústia agressiva, os ciúmes insuportáveis. Se por um lado não me lembrava de ter experimentado tais sentimentos enquanto qawwi, na condição de humana parecia que neles naufragava.

– Sê breve – pedi num fio de voz, deixando-o entrar. Ao inalar o aroma das flores, espirrei.

– Meu Deus – admirou-se Will ao notar a reacção – São as tuas favoritas!

Para mim também era novidade. A humana em mim era alérgica a antúrios. Peguei no ramalhete e atirei no balde de lixo, sem um pingo de remorsso. Will apenas seguiu-me silencioso.

– Eu amo-te, Linan.

Operou-se uma confusão instantânea na minha mente. Voltei-me bruscamente.

– Não foi um beijo aquilo que vi entre ti e a Fatinha?

O rosto dele voltou-se para baixo.

– Sim, mas…

– Fizeste amor com ela?

O gargalo de Will inchou enquanto claramente engolia uma resposta azeda.

– Não é como estás a pensar, Linan.

-Ah não? Como podes alegar amar-me e ao mesmo tempo fazer amor com ela? Elucida-me, por favor – empurrei a mão dele. O toque não ia aclarar as ideias. Precisava de algo mais forte que isso.

– Em primeiro lugar, tu não estavas aqui!

Fiquei perplexa. Morrendo de overdose daquela ideia estapafúrdia.

– Ah! Então quando nos ausentamos, ausenta-se também o amor?

Will ficou lívido. Parecia tão incrédulo e surpreso quanto eu.

– Nunca deixei de amar-te. Tu é que me abandonaste! Trouxeste a nossa filha de volta, e de seguida sumiste. Eu vi! Deste as mãos a Vallen, de livre vontade, e evaporaste. Sem um único adeus. Dois anos. E eu sem saber se estavas morta, ou se de repente tinhas saído deste planeta. O teu telemóvel, entretanto, chamava. A secretária electrónica às vezes era de França. Outras, de Cabo Verde. Tailândia. Bora Bora. E a última vez, de Sydney. E tu nunca. Nunca deste um sinal, nunca respondeste às minhas mensagens!

– Porra Will, foi por vocês! Para proteger-te, para proteger a Érica! Eu não podia entrar em contacto pois estava a fingir ter deixado tudo para trás. Era a única forma que tinha para poder voltar para vocês.

– Para mim não foi fingimento. Despedaçaste-me por inteiro, Linan. Fatinha só chegou tão perto, porque também estava arrasada e tentava convencer-me de que ia tudo ficar bem. Ela ajudou-me a cuidar de Érica, mas não era…

– Era a minha melhor amiga. E tu a puseste no meu lugar. Foi isso.

Will calou-se. Sacudiu os ombros.

– Lamento imensamente que estejas a ver assim. Eu não estou com ela. Nunca faria isso. Queria apenas que entendesses que nos últimos meses… a minha cabeça estava em todos os lugares. Não fazes ideia!

– Tu também não! – Naquele instante os nossos corpos estavam muito próximos, mas os corações, distantes como o sol e o mar. Por isso gritavamos para que nos ouvissemos – não fazes ideia do quanto perdi para poder voltar para ti!

– Desculpa – os olhos de Will escureceram – Ao contrário de ti, sou humano. O meu corpo está sujeito a essa condição, e às vezes comete atrocidades. Mas o meu coração é e sempre foi teu.

Desejei ardentemente que nem eu, nem ele, fossemos humanos. Que soubéssemos ser unidos de corpo, alma e coração. A dissociação havia nos estilhaçado. E no reflexo dos escombros, brilhavam as nossas falhas. O coração, sem o corpo, é uma cegueira. E o corpo sem coração, é uma mutilação. Não havia metáfora possível para suavizar a realidade.

– Por favor – Will engolia as lágrimas – por favor – repetia consecutivamente – perdoa-me e deixa-me explicar.

– Escuta Will, não condeno-te por teres colocado a minha melhor amiga no meu lugar, ou por teres sido um idiota ao duvidar que eu iria cumprir a minha promessa. Tão pouco por teres esquecido que eu amava-te infinitamente. E sim, aceito as tuas desculpas.

Ele tremia quando perguntou muito baixo:

– Aceitas, mas não vais voltar para mim, é isso?

Reflecti durante alguns segundos. Ele estava correcto.

– Exacto, não vou voltar. Voltar para ti agora significaria desrespeitar os meus sentimentos. Ir contra mim mesma. Estou cansada disso e sinceramente, preciso ser mais benevolente comigo mesma.

– Algo em ti, mudou, meu amor.

– É o que acontece, Will. O universo muda constantemente.

Não tinha vontade de confessar que agora era humana. Que sacrificara os meus poderes, a minha essência, por ele. Uma força amarga e poderosa dentro de mim impedia-me disso.

– E pretendes abandonar-nos de novo? Vais teletransportar-te e sumir pelo mundo? E a nossa filha?

Suspirei. Até há pouco não me imaginava a fazer aquilo sem ele. A ser humana. Mas agora compreendia. Era uma jornada exclusivamente minha. Enfrentar os medos, a solidão, é o que faz de nós, nós. Precisava de um tempo sozinha, para entender-me comigo própria.

– Ouve-me com atenção, Will. jamais abandonarei a Érica, não tens de preocupar com isso. Mas o que quero agora é estar só.

– Percebo – Ele tentou aproximar-me, mas ao ver-me retesar, retrocedeu – ainda tenho fé no nosso casamento. Vou dar-te espaço, até que estejas pronta para perdoar-me.

– Acerca disso – rodei o anel no dedo – eu quero aquela coisa.

Ele franziu as sombras.

– Não sei se compreendo.

– Quero aquela coisa Will – retirei o anel, ao mesmo tempo que tentava desesperadamente recordar-me do termo certo – o divórcio. Eu quero o divórcio.

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#23|Destino versus livre arbítrio: será que as nossas escolhas e decisões são controladas pelo universo?

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Imagem: a mente maravilhosa

“Isso é coisa do destino”, dizem os humanos amiúde. Então pergunto agora aos meus amigos: será que eu podia ter evitado que a cerimónia do meu casamento terminasse com o rapto da minha filha? Ou isso estava fora do meu controle? Coloco outra questão: terá a França ganho o último campeonato mundial de futebol porque jogou bem, ou porque estava destinada a ganhar? E você desse lado? Tivesse feito as coisas de forma diferente, estaria noutra situação? Podia ter feito outras escolhas e por exemplo, estar noutro emprego, noutra casa? Em outras palavras: está nas suas mãos transformar-se na próxima estrela do futebol como Cristiano Ronaldo, ou isso depende do destino?

Vejamos, alguns humanos adoptam a filosofia de que eles, e somente eles, estão em controlo das suas vidas. Este tipo de pessoas está mais propensa a sofrer abalos, quando contrariadas pelas forças do universo. Outro grupo, contrariamente, toma uma posição passiva (mais conformista, assim digamos), e acredita que não adianta fazer esforços nem lutar, pois tudo na vida já está predestinado. Estes acabam por ficar parados na estrada da caminhada.

Ora bem, os conceitos de “livre arbítrio” e “determinismo” (este último é o tal destino, se assim preferirem) têm sido objecto de estudo há milhares de anos. Cientistas, filósofos e religiosos debateram acirradamente a questão. Jean Paul Satre, por exemplo, foi bastante claro: o homem está condenado a ser livre e tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável pelo que faz.

Mas, se de facto somos seres livres, onde cabe então a filosofia do “maktub” (palavra árabe que significa “já estava escrito”)?

Analisemos uma recente e interessante descoberta científica:

Um estudo mostrou que, talvez o livre arbítrio humano não nos pertença de todo. Neste teste, os pesquisadores deram ao participante dois botões, um na mão direita, outro na esquerda, enquanto o seu cérebro era scanado. O participante tinha de fazer uma decisão aleatória e pressionar um dos botões. Os resultados foram surpreendentes, pois o sistema foi capaz de determinar, correctamente, qual seria a escolha do individuo, 6 segundos antes que ele próprio estivesse consciente da decisão que ia fazer. In QuoraBrainmagazine.

O que significa isso? Significa que são os nossos neurónios (e não nós), os responsáveis pelas escolhas e decisões que fazemos? E nesse caso, o que faz os nossos neurónios dispararem numa e não noutra direcção? A força motriz que os concebeu? Seja como for, para mim, isso não diminui o livre arbítrio humano. Você, por exemplo, tem o poder de decidir, se continua a ler este texto, ou simplesmente se sai da página agora mesmo, não é verdade? Portanto, as nossas escolhas podem ser mudadas a todo o momento, e com isso, podemos mudar a nossa história. Seja lá qual for a força que impulsiona isso.

Entretanto, o ser humano, como qualquer outra criatura neste universo, é apenas uma manifestação fenomenológica de existência, numa série continua de criação cósmica que acontece neste planeta, tudo resultado de um universo em desenvolvimento. O que significa que você, amigo humano, é uma pequena entidade que ocupa a terra, nesse processo de evolução. In Physcology today.

Desta forma, é compreensível que a vida seja “predeterminada” por certos factores externos, como o ambiente, a nossa genética, o lugar onde nascemos, a forma como respondemos a esses factores, entre outros aspectos. Assim, o nosso livre arbítrio acaba sendo limitado pelas circunstâncias à nossa volta.

Voltando agora à pergunta que coloquei no princípio: está nas suas mãos transformar-se no próximo Cristiano Ronaldo, ou isso depende do destino? Oxalá tivesse uma resposta clara para esta questão, mas o certo é que, nesta equação, não cabe a exclusão de um ou de outro factor. A matemática só funciona quando juntamos os dois: o livre arbítrio e o destino. Ambos no mesmo saco. Ou seja: todas as escolhas e decisões que dependam exclusivamente do ser humano enquanto entidade única, formam uma estrada que conduzem a um certo resultado. Assim funciona o nosso livre arbítrio. Este resultado, entretanto, apesar de ser atribuído à responsabilidade do autor do livre arbítrio, pode não ser aquele que foi previsto, pois está condicionado por circunstâncias externas que não dependem apenas da pessoa como entidade única. É nesse resultado e nas circunstâncias, onde escondem-se as artimanhas do imprevisível “destino”, controlado por forças maiores que nós.

Assim, os humanos podem, e devem, tomar as rédeas do seu destino. Para o efeito, é preciso manter-se em constante movimento, fazendo sempre escolhas e decisões, até chegar ao resultado. Pode dar certo, pode não dar. E se não der certo, não era para ser.

 

Cinema (Filmes / Séries), Lançamentos!, Opiniões, Resenhas

Cinema | Nakufeva (Lizha James e Bang) | Opinião

“Nakufeva”, uma curta metragem produzida em Moçambique, conta a história de Jacob (Bang) e Lizha (Lizha James), um casal humilde e trabalhador, que vive numa zona periférica de Maputo. Lizha é a fiel e boa esposa, de português errado, cobiçada por outro homem, mais rico que o esposo Jacob. Este outro homem acaba ganhando em Jacob um inimigo. Paralelamente, o humilde casal, tira um prémio no totoloto e enriquece da noite para o dia. O dinheiro traz uma drástica mudança na vida do casal, inclusive na personalidade de ambos. Jacob deixa de ser um esposo presente, torna-se malcriado com a família, e torna-se amante da esposa do inimigo. Lizha, por outro lado, adquire outro tipo de indumentária, tornando-se elegante, mas continua com o português errado e mais ingénua do que nunca. Por forma a tentar salvar o seu lar, Lizha procura a ajuda de um pastor de igreja (este, tão duvidoso quanto o português da outra).

O filme tem uma premissa bastante básica, numa mistura de drama e sátira, sobre valores familiares, a prepotência do machismo, vingança e algumas crenças, facilmente espelháveis na sociedade actual. Propositadamente ou não, a película está mais para o género “musical”, do que qualquer outro, pese embora Lizha James seja a única intérprete das canções que compõem a trilha. O género, certamente, ficaria melhor servido se os personagens secundários coadjuvassem as canções e diálogos, como exige um bom musical. É verdade que as cancões e a cantora brilham bastante em cena, sendo um trunfo para o filme, embora acabem sobrepondo-se ao enredo. No que se refere à encenação da protagonista, o mérito é reduzido. A comunicação de Lizha simplesmente não funciona e a desliga por completo da personagem. Já Bang, parece bem mais natural e confortável no papel de Jacob. As cenas de luta exigiam claramente uma técnica mais aprimorada. As terríveis falhas tentaram ser trabalhadas pelo som. Vale o que vale.

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O filme peca também, por não ter continuidade e por ter um início confuso (não entendemos a “participação especial” do personagem interpretado por Gilberto Mendes, nem a sua função). Destaque vai para o actor que dá vida ao pastor, que emprestou uma certa dose de originalidade ao filme.

Refira-se ainda, que foi uma verdadeira saga conseguir assistir à película. Actualmente em exibição nos cinemas Lusomundo, a película foi encaixada entre as sessões de outros filmes. Ou seja, se um telespectador comprasse o bilhete para ver “shazam” por exemplo, teria primeiro, necessariamente, de assistir a curta metragem. Por razões óbvias, isto não funcionou. Como resultado, ao chegar ao cinema, não havia previsão exacta para a exibição desta curta metragem. Há que se ter em conta, que seja qual for a natureza ou propósito da obra, houve a promessa de divulgação da mesma ao público. Assim, o filme não tem de estar no meio da sessão de outro, tampouco deve ficar escondido / com a apresentação à merce do acaso. É preciso um horário próprio para a sua exibição, ainda que livre.

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A nossa pontuação: 2,9 de 5 estrelas.

Confira aqui o trailer:

Desabafo de uma qawwi

#17| Dúvidas de uma qawwi: qual regime escolher no casamento?

O que é que se espera de uma mulher, uma humana normal, na sociedade terráquea? Que cresça, estude, arranje um trabalho de sucesso, case, e por fim tenha filhos. Esta é a ordem das coisas. Mas eu, pobre de mim, sou uma criatura a parte. Nem mulher, nem humana. Não tenho um emprego convencional e vivo à toa pelo planeta terra em busca de uma missão cada vez mais dúbia. E como um carangeujo, os meus passos foram na retaguarda. “Solteira”, se assim quiserem chamar, ao aceitar ficar com Will, ganhei uma menina que agora é minha filha. E então, depois de ganhar uma filha, aceitei o tal casamento.

As pessoas que desconhecem a minha história acreditam que fiz as coisas de forma errada. Têm pena de mim, consideram-me a “desgraçada que aceitou criar a filha do outro, sem sequer casar”.

Será que elas têm noção do que estão a dizer? Sabem a minha trajectória (como vocês sabem)? Claro que não. O mundo de fora julga-nos, alheio às nossas razões, aos nossos caminhos, e à nossa história. O universo supera comandos sociais. E embora estes tenham a sua razão de ser, não podemos esquecer que o universo concebeu cada um de nós com fórmulas únicas. Não adianta quereremos seguir o mesmo caminho. Caranguejos e cavalos, todos têm a sua corrida. É apenas uma questão de tempo.

Pois bem. Eis-me aqui, num novo caminho. Antes de vir a este planeta, desconhecia por completo a noção de “casamento”. Fiquei com medo. Daí a inicial reluctância em aceitar. Mas Will é persistente. A esta altura ele já devia saber que um papel assinado não vai assegurar, mais do que o meu abraço, que o amarei por toda a minha vida. Facto é, entretanto, que para ele e para os humanos no geral, esta oficialização é importante. E eu respeito isso. Respeito, acima de tudo, o humano que o meu coração escolheu. E estou contente em poder planear com ele todos os detalhes da cerimónia. Este mês vai ser muito agitado! O tal “casamento”, nas suas várias formas pelo mundo, costuma ser um evento assinalado com muita pompa e circunstância. O nosso não será necessariamente assim. Will teve que ceder e contentar-se com uma cerimónia bastante restrita.

Iremos fazer o enlace numa praia (oh mar, a mais bela das coisas da terra!) num lugar que é especial para mim: Moçambique. Depois dos últimos eventos, decidimos buscar refúgio nesta terra, por uns tempos. Na cerimónia, seremos nós dois, a nossa filha Érica, os pais de Will e a minha amiga Fatinha. Talvez mais alguns amigos comuns. Não mais de doze pessoas.

Há, entretanto, alguns aspectos do casamento, em toda a sua natureza e propósito, que são de difícil compreensão para uma qawwi como eu: o registo civil. O que será que isto implica? Embora para mim seja, sinceramente, despropositado, entendo e reconheço que pela condição humana e o meio em que esta espécie vive, seja de vital importância. Andei a estudar a questão e descobri algumas informações que podem ser úteis, não só para mim, mas para quem também estiver a organizar o seu casamento. O regime de bens a adoptar. Vamos analisar juntos?

Convenção antenupcial

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O casal pode optar, ou não, por um documento chamado “convenção antenupcial”. Se os noivos optarem por fazer uma convenção antenupcial, poderão escolher o regime que querem que se aplique na gestão dos bens do casamento. Entre outras matérias, podem também definir neste documento, como como será, por exemplo, a guarda dos filhos em caso de divórcio.

Estranho, não é? Mas para vocês humanos, talvez faça todo o sentido.

Comunhão de bens adquiridos

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Na falta da tal convenção antenupcial, o casamento considera-se celebrado sob o regime de bens adquiridos. O que significa que todos os bens adquiridos pelo casal depois do casamento, são de ambos (excepto bens que recebam como doação ou herança, ou material de trabalho de cada um).

Regime da comunhão geral de bens

Se o casal adoptar este regime, significa que o património comum é constituído por todos os bens presentes e futuros do casal. Ou seja, todas as coisas serão nossas.

Regime da separação de bens

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Se o casal adoptar este regime, cada um deles conservará o domínio de todos os bens futuros e presentes, podendo dispor livremente desses bens. Ou seja, o que é meu, é meu, o que é dele, é dele.

Espero que para vocês humanos a informação seja útil e faça sentido. Quanto a mim, completamente sem ideias. Algum conselho?

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Cinema | Always a Witch – Siempre Bruja (Seriado 2019) – Opinião

siempre_bruja_0.jpgImagem via Netflix

Opinião

A magia e a bruxaria são temas aos quais a indústria cinematográfica não se cansa de recorrer. Deve ser por alguma razão. E ora vejamos, numa mistura entre magia e viagens no tempo, não parece sobrar espaço para uma receita falhada.

Assim, o trailer e a sinopse da nova série espanhola despertaram todos os nossos sentidos: uma bruxa de muitos séculos passados, viaja ao futuro nos dias de hoje, para salvar o amor da sua vida e ao mesmo tempo derrotar um perigoso inimigo.

A série desenlaça logo nos primeiros minutos, onde descobrimos que, afinal, Cármen Eguilaz (Angely Gaviria) é uma escrava acusada de bruxaria e de ter enfeitiçado o seu amo, com quem vive um romance proibido, sendo condenada à pena de morte e queimada na fogueira, como acontecia na época da inquisição. O seu amado, não suportando perdê-la, tenta salvá-la, mas acaba morto a tiro. Assim, enquanto arde na fogueira, Cármen consegue viajar ao futuro, para cumprir uma missão que lhe foi dada por um poderoso bruxo, com a promessa de no fim da missão, poder regressar ao momento em que o amado ainda está vivo e salvá-lo.

A opinião crítica latina sobre esta série é surpreendentemente confusa. Enquanto a audiência parece feliz em ver na TV uma poderosa protagonista Afro-Latina num seriado deste género, muitos torcem o nariz ao romance que impulsiona a trama, ou seja, a história de amor entre uma escrava e o seu senhorio. Nós, sinceramente, não vemos o porquê deste “plot” ferir tanto as sensibilidades e ser alvo de uma crítica feroz, quando está dentro de um contexto histórico que, no final das contas, não deixou de existir. O passado não se apaga, mas com ele podemos aprender a não repetir os erros.

Agora, se formos a falar de como comporta-se esta personagem que sai dos anos 1600 e chega ao futuro, aí sim, podemos ter bastante para questionar.

Eis o que achamos que foi executado de forma muito pobre nesta série: histórias que envolvem viagens no tempo, normalmente envolvem certo cepticismo da personagem que se vê num mundo diferente. Mas nesta série, a bruxa Cármen Eguilaz chega ao futuro e já vai marchando para a universidade, sem grandes dificuldades e sem ficar abismada com a modernidade a sua volta, nem com o tratamento igual entre pessoas (mais uma vez, ela vem da época da escravatura). Será que estava a evitar-se um cliché? Talvez, mas os lugares comuns, às vezes têm certa razão de ser, e aqui fizeram alguma falta.

Tirando este ponto que é uma espécie de falling flat para a expectativa dos telespectadores, a série é leve e mantém um bom ritmo, mostrando com sucesso o desenvolvimento de Cármen como figura feminina cheia de força, transformando-se num modelo a seguir. “Nós somos escravas, mas a senhora também é escrava. É escrava do seu marido, da sua religião e da sua sociedade. Se o preço para eu ser livre é casar-me, então não me caso”, é algo mais ou menos assim que lança Cármen Egulilaz, a dada altura, dotada pelo conhecimento dos seus direitos.

Destaque vai também para John-Kyi (Dylan Fuentes) que abrilhanta a série nos momentos em que esta precisa de um ar mais fresco.

A primeira temporada tem apenas 10 episódios, e para entretenimento geral, é uma série em que se pode apostar.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 3 de 5 estrelas