
Flávia acordou sobressaltada. Eram cinco da manhã. Os sonhos ainda lhe pesavam no corpo. A conversa com “a voz”, na noite anterior, ainda estava impregnada na sua mente. Notara que ultimamente seus pensamentos só se resumiam a um nome: Vallen. A voz que não a deixava em paz — nem a ela, nem ao filho. E que sussurrava coisas impossíveis, de um mundo distante do nosso. Durante semanas, atormentara a cidade inteira. Agora, parecia ter escolhido apenas uma família: a sua.
E insistia, dizendo que Flávia sabia. Que escondia uma informação sobre alguém chamada Linan, apesar de ela jurar nunca ter ouvido esse nome.
— Nunca!
Ainda assim, a voz não recuava. Havia nela uma certeza perturbadora.
Flávia afastou os pensamentos. Levantou-se. O dever chamava. Era vendedeira de pão e badjia, na paragem barraca, no bairro da Mafalala, a poucos metros de sua casa. Precisava sair cedo — os clientes contavam com ela para um pequeno-almoço improvisado, apanhado entre a necessidade e a pressa do dia-a-dia.
Antes de qualquer coisa, foi ao quarto do filho. Chelton já estava acordado. De bruços, no chão, desenhava. Flávia ficou à porta, em silêncio. Havia algo naquela concentração que a impediu de interromper. O menino parecia entregue a uma tarefa maior do que ele próprio. Sequer deu conta da presença da mãe.
Ela afastou-se, e foi tratar do que precisava: o feijão nhemba, o alho, a cebola, sal, o óleo… tudo para a confecção das badjias. O pão compraria ao senhor Alberto, como sempre. Àquela hora, ele já teria separado a sua parte.
Quando terminou, voltou ao quarto. Chelton não se movera. Continuava ali. De bruços. Desenhando.
— O que estás a fazer, filho?
Nenhuma resposta.
O lápis avançava devagar, com uma precisão indescritível.
— Chelton…
Ela aproximou-se. E, então, viu: não eram rabiscos infantis; não eram casas, nem árvores, nem figuras desproporcionais.
Era um padrão.
Formas circulares, interligadas por linhas perfeitas… impossíveis. Havia ali uma ordem estranha. Uma harmonia que inquietava. Perfeita demais.— pensou a mãe.
— Onde aprendeste isso? — perguntou, pegando no desenho.
O menino deu de ombros. Era o rosto de uma jovem mulher.
— Quem é? — insistiu.
Chelton respondeu sem levantar a cabeça, como quem diz algo óbvio:
— É a Linan, mãe!
O nome gelou-lhe a alma.
— Chelton! — gritou, sem conter o desespero.
Pois ele nunca dissera aquele nome assim, sem estar tomado pela “voz noturna”.
Flávia levou o desenho mais perto dos olhos, escandalizando-se a cada instante.
Era como se as linhas não estivessem desenhadas, mas impressas. Como se não fosse um desenho, mas uma fotografia.
E o pior de tudo, ela reconhecia aquele rosto. Sim, reconhecia!
Era como se fosse… _ Como se fosse … eu mesma
