Desabafo de uma qawwi

#16| A arte de sentir-se heróico

Talvez fosse por causa do efeito de “Love Never Dies”, que não nos apercebemos do estranho movimento. A rua estava deserta e nós, ainda embriagados pelo final do espectáculo. A arte é, e para sempre será, uma das melhores invenções dos humanos.

Assim, quando demos pela presença, já os três homens encontravam-se bem perto. Bloquearam o caminho, e o que estava na dianteira, pôs-se a rondar-nos como um cão que fareja ossos. De seguida puxou um pouco a camisola. A pistola na calças ficou visível.

– Joias e carteiras, rápido!

– Telefones, a porra dos telefones! – acrescentou o outro.

Instintivamente, Will meteu o braço à minha volta e puxou-me para trás.

– Deixem-nos em paz.

Melindrando pela ousadia, o homem sacou a pistola e reforçou a ordem:

– Dinheiro seus surdos, já!

Will afincou e senti que pretendia lutar. Travei-o. Ou ele esquecia-se de que eu era uma qawwi, cheia de poderes que nenhum outro humano tinha, ou ele simplesmente estava dominado por um impulso irracional. E isso era muito perigoso. Os humanos não deviam reagir em circunstâncias daquelas. Era preciso simplesmente obedecere o assaltante para sobreviver. Só que a tênue fronteira entre o terror e prazer, o ter que conviver com o medo como quem abraça um amigo, deu aso a uma revolução. A exacerbada violência nas ruas fez com que noções básicas de defesa pessoal tornassem-se tão necessárias como o acto de respirar. Era por isso que as artes marciais andavam em voga. E dependendo das cidades, as pessoas já começavam a carregar no bolso ferramentas de protecção, como canivetes, sprays de pimenta, teasers de choque, entre outros, desde que a sua posse fosse permitida pelas leis locais.

No meu planeta, eu fazia parte da segurança real, ou seja, era uma qawwi altamente treinada. Mas mesmo assim, achei boa ideia frequentar a academia de judo, com Will e com Érica. Aliás, o judo ajuda as crianças a aumentarem as suas capacidades físicas e psíquicas, e contribuem com valores importantes, como companheirismo e respeito pelos demais.

Pensar que a minha família não tinha os mesmos poderes que eu e que estava à mercê da sua própria fragilidade, deixava-me fora de controle. E não é bonito ver uma qawwi descontrolada.

– Senhores, deixem-nos ir para casa.

Eles agitaram-se, cheios de pressa.

– Vão morrer porra, passem o dinheiro!

Dei por mim a cerrar os dentes e punhos.

– Senhores, eu não vou repetir-me…

Então, calaram-se. E súbito:

– É uma bruxa! – após o grito, e para o meu espanto, fugiram como quem foge de uma queda de granizo. Menos o que estava armado. Guardou a pistola, e continuou a olhar-me. Mas desta vez, nutria um súbito ardor excitado no rosto.

– Os teus olhos moça…

Foi nesse instante que percebi o que tinha causado a fuga dos outros. Sacudi a cabeça para fazer o efeito desaparecer. É que quando fico alterada, as minhas reacções manifestam-se nos olhos que cobrem-se de um manto azul.

– És um deles, és uma qawwi! – constatou o outro na mesma incontrolável avidez – Estás com Vallen!

O sentimento anterior foi substituído por um medo de proporções alarmantes.

– Como… como o senhor sabe sobre os qawwis?

Não respondeu. Apenas sorriu e imprimiu velocidade quando correu em busca dos outros. Parecia feliz com a descoberta. Demasiado feliz.

Apreensiva, segurei a mão de Will.

– Depressa… temos de ir.

**

Em menos de uma semana, estávamos a fazer as malas. Cedo ou tarde Vallen ia aterrar naquela cidade. Se é que já não o tinha feito. Eu até poderia enfrentá-lo. Mas já não estava sozinha. Tinha de pensar na minha família. Mudar de cidade era a única forma de mantê-los a eles e a minha missão em segurança. Embora o confronto parecesse-me algo cada vez mais inadiável. Por essa mesma razão, optei por revelar um pouco mais do meu mundo a Will, ensinando-o a usar as flechas quentes. As armas dos qawwis. A resposta necessária, para o que há de pior no meu planeta.

Fui até ao jardim ver como ele estava a sair-se e nesse momento, uma flecha acertou um pequeno tabuleiro fixado há alguns metros. Assim que atingiu o alvo, a flecha desprendeu uma tira de fumo.

– Will… bravo!

Ele efectivamente já dominava as flechas quentes.

– Sinto-me heróico Linan, como um personagem dos jogos da fome

– Isto não é fome nem jogo Will! Mas sim… é uma arte saber usá-las! E se vamos casar, é justo que saibas lutar como um qawwi, para proteger a nossa família.

Will baixou o braço, boquiaberto.

– Vamos?

Devolvi um olhar que não logrou ser tranquilo.

– Ou mudaste de ideias?

O rosto dele ganhou um espectro de tons radiosos, como se tivessem acendido em lenta sucessão as luzes decorativas de uma festa. Com um só braço, atraiu-me para perto de si e murmurou ao pé dos meus lábios.

– Fazes de mim o homem mais feliz do mundo, Linan. E podes ter a certeza que – ergueu o arco – ninguém vai meter-se com a nossa família – e deixou outra flecha escapar.

Desabafo de uma qawwi

#14|Como um defensor do ambiente propôs-me em casamento

ambientalista

A sesta depois do almoço apenas serviu para trazer-me pesadelos. Vi um bando de ikras liderados pelo qawwi Vallen, invadindo a terra e destruindo os qlubs. Ainda bem que foi só um sonho. Enquanto conseguir manter-me escondida aqui na Nova Zelândia, Vallen não poderá interferir com a minha missão. Para afastar o pesadelo, decido tomar um banho. Estico o braço na direcção da toalha pendurada na cadeira e, num segundo, ela salta para a minha mão.

Já mais fresca, percorro a casa. O silencio é atípico. Érica não está a correr, nem a ver desenhos animados. O que andará ela a fazer?

– Coloquei-a de castigo, portou-se mal outra vez – explica-me Will, que está na varanda a pintar um móvel. Parece-me uma peça nova.

O sol desce na linha de horizonte, sobre a baía oriental. Os últimos raios acendem a cidade, deixando-a num esplendoroso doirado. Vistos do lado da costa, os edifícios parecem estar tão somente a acordar. É como se o próprio planeta terra dançasse uma valsa, em homenagem àquele humano que mudou as minhas convicções.

– Chega perto, Linan – pede-me Will – Vê se gostas disto.

Observo o móvel. É feito de papelão e pintado de esferas azuis, a minha cor favorita.

– O que é isto?

– Precisavas de uma cómoda nova e decidi fazer uma para ti. É de material reciclável. Agrada-te?

Humm. Este Will tem muita classe. Não me refiro a forma sedutora como ele dobra as mangas da camisa. Falo das suas ideias. De como ele as comunica, do entusiasmo no seu olhar. Tudo nele atrai-me. Incluindo as suas manias e os seus defeitos. Will é teimoso, é atrapalhado, mas é também equilibrado. Se há humanos que ainda podem salvar os qlubs, ele é um deles. O seu amor por animais, por exemplo. É enternecedor. Assim como é a sua paixão pelo mar. Will preocupa-se com o ambiente. Em casa, decretou que quem deixar as luzes acesas sem necessidade, pagará uma multa. Incluindo a pequena Erica. Ele ensina a filha a não desperdiçar água. Recorda-nos sempre de desligar as tomadas e os aparelhos quando não estão a ser usados. Anda de bicicleta, não apenas por fazer bem e ser económico, mas por ajudar a reduzir a poluição. E é ele quem está a incentivar-me a abandonar certos hábitos alimentares. Quem diria! Eu, uma qawwi, a cair nas armadilhas dos apetites mundanos. Lastimável. Facto é, que a comida que se consome neste planeta e a forma como ela é produzida determina a saúde tanto dos humanos como desta terra. Se os humanos não começarem a comer mais fruta e vegetais do que carne e açúcar, será impossível alimentar uma população que vai crescer até 10 biliões no ano de 2050 (se até lá os qlubs ainda existirem).

Olho de novo para a cómoda ecológica  de papelão.

– Oh Will, não existem dois como tu!!

– É só uma prenda simbólica para comemorar o dia de hoje, meu amor.

– O dia de hoje? – o  coração salta-me uma batida – é meu aniversário?

Eu só comecei a celebrar os anos por causa de Will. Em Stefanotis estas coisas são diferentes e eu nem sequer sabia o dia em que tinha nascido. Todavia, há outras datas em que os humanos trocam presentes. Perante o olhar decepcionado de Will, sinto o estômago contrair. Oh. Será que esqueci de alguma coisa? Será que…

– Faz dois anos hoje desde que nos conhecemos, Linan.

Se a vergonha é um arco íris, o meu rosto adquiriu todas as suas cores. Como pude esquecer-me? Foi há dois anos que o vi pela primeira vez, acreditando que ele fosse um sem abrigo. Neste planeta vivemos rodeados de pessoas, de amigos, de festas. Mas Will ensinou-me que é bom ter alguém com quem contar, quando as festas terminam. Com ele aprendi a sentar no banco de um jardim, ao lado de alguém, apenas para respirar, sem ser preciso falar, apreciando somente o silêncio do amor.

E mais tarde descobrimos a verdade. Ambos. Ele não era um sem abrigo. E eu, não era uma humana. Para Will, a verdade foi mais esmagadora, mas o amor acabou por convence-lo  a aceitar-me. E embora ele jure querer-me por perto, percorre-me sempre um grande receio: eu não estou a conseguir ser humana o suficiente para o corresponder.

– Perdão, Will – apetece-me chorar – não me lembrei e não preparei nada especial para oferecer-te, mas… vou improvisar. Que tal um super delicioso jantar, com mariscos, como tu gostas!

O seu sorriso malicioso preocupa-me.

– Eu sei muito bem como podes compensar. Mas vá, experimenta aí as gavetas da cómoda, vê se te agradam e se funcionam bem.

Abro-as de par em par.

– Funcionam, claro, até porque…

Ao deparar-me com uma caixinha veluda na terceira gaveta, fico muda. Contenho-me. Segundo a seguir, escancaro-a.

A primeira vez que Will colocou um anel à minha frente, causou-me pânico. O sentimento continua. Mas agora é acompanhado por uma espécie de agradável surpresa. Fascinação, para bem dizer.

– Will! Continuas com esta ideia? Mesmo que…

– Sempre. Tu e a Érica são a minha família. Vamos oficializar isso de acordo com as leis da minha terra e do meu coração, por favor. Dá-me esse presente.

– Will…

– Eu sei. Linan, eu sei.

Ele sabe. Sabe que eu sou uma qawwi, e que tenho o poder de controlar a mente humanas. Tem noção de que a qualquer momento posso teletransportar-me para outro lugar. Que ao contrário dele, vou demorar séculos a envelhecer. Que tenho uma missão. Que corro perigo. E que ele também, ao meu lado, corre perigo.

– Eu sei – repete – Somos diferentes e enfrentaremos dificuldades. Haverá alturas em que lutaremos contra forças maiores. Mas o derradeiro fim da vida é o amor Linan, e eu não vou abrir do nosso. Enquanto respirar, vou estar ao teu lado.

Então, avança para um beijo terno, mas a minha indecisão impede-me de corresponder. Mesmo que a minha missão seja um sucesso, como fico eu, se daqui a 100 anos tiver de perder este humano? Sou uma qawwi, mas saberei algum dia voltar a estar no universo sem ele?

Will insiste no beijo. Então, a mensagem penetra. Quer dizer, ela não penetra. Ela já lá estava. Os beijos apenas ajudam a mostrar os sentimentos adormecidos, cuja a intensidade as vezes esquecemos. A ânsia e a confiança que nos apertam nesse instante parecem maiores do que o próprio universo.

– Casa comigo – repete ofegante, depois que separa os seus lábios dos meus, o anel encontrando um lugar confortável no meu dedo.

O gesto é como um golpe para a cratera romper e impulsionar uma força nos meus olhos. Sinto o meu rosto molhado. Não há outra opção para salvar-me daquela gigantesca onda, senão responder:

– Sim, Will. Mil vezes, sim.

Desabafo de uma qawwi

#10|Eterna magia de natal: Fica comigo

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Fatinha terminava a decoração da árvore quando a campainha tocou. Eu, ao som de “jingle bell rock”, retirava um bolo quentinho do forno.
Ela entrou na cozinha e sacudindo o resto de pó brilhante das mãos, anunciou com um sorriso malicioso:

– O teu mendigo, ou melhor, o teu lindo e apaixonado “mendi-gato” está aí.

Antes de ir ter com a visita, arremessei um pano de loiça contra Fatinha. Estava farta de dizer-lhe que Will era somente um amigo.
Ele aguardava num canto escuro da sala, onde incidiam as luzes da árvore. O aspecto bastante vítreo dos seus olhos, preocupou-me.

– Will? O que disseram os médicos?

Seguiu-se um longo suspiro.

– Está confirmado. Já não aparece nada nas biopsias nem nos exames. Sumiram! Entendes, Linan? Estou curado!
– Desculpa?
– É como ouviste, curado!

Vibramos de alegria.
Mas não contei a verdade.
Não podia.

A nossa amizade florescera muito nos últimos meses e ao saber sobre a terrível doença, tive de usar o Dijon que trouxe sem autorização, para curá-lo. Claro que Will não se lembrava, pois eu o compelira a esquecer-se disso.

– Deve ser um milagre, Linan. O mesmo que te trouxe para mim.
Suavemente ele envolveu-me num abraço. A lentidão do gesto causou-me um familiar calor. Era o mesmo fogo que invadia-me a espinha pelo estômago adentro, toda a vez que ele tocava-me. Entrou pela janela um resto de vento a tentar apaziguar-me, mas o fogo era voraz.
Consegui soltar-me, a tempo de evitar que o meu peito estoirasse. Relutante, ele acabou também por afastar-se. Afinal de contas, era essa a condição para a amizade prevalecer. Evitar aquele tipo de contacto, pois fazia-me sentir tão instável como quem abre portas às escuras.
Concentramo-nos então nos planos de Will: o seu desejo de voltar a tentar adoptar a menina Erica. Ainda que estivesse só.

Pensei que nada fosse estragar o sabor adocicado dos dias de sol que se seguiram. Mas uma voz proclamada numa medonha sequência patológica, fez-se ouvir no meu quarto, denunciando o contrário:

Pobre Linan. Tão longe de nós e tão parecida com eles!

Nunca senti-me tão arrepiada como naquele instante. Os olhos azuis índigo marcavam a mudança: um qawwi inimigo aterrara na terra!
Saltei da cadeira, em posição de defesa:

– Vallen! Porque é que estás aqui?
– Vim fazer aquilo que tu falhaste. Acabar com os qlubs.

Soltou-se de mim uma gargalhada, pese embora a garganta estivesse seca. Vallen olhou-me boquiaberto:

– Porque é que te ris, criatura?
– Meu caro, o riso é uma válvula de escape para os humanos. Escuta, a minha missão é salvar os qlubs, não o contrário!
E o que tens feito até agora? Usar dijons sem autorização para curar humanos que não merecem viver? Fui obrigado a vir pessoalmente e eliminar o tal Will. Mas não te preocupes. Ele morreu sem o desgosto de saber que és uma asquerosa extraterrestre infiltrada no mundo dele. Até porque…

Impelida a teletransportar-me para outro lugar, deixei de o ouvir.

Senti um líquido salgado descer dos olhos quando lancei duras investidas na porta. Will morto? O pensamento, por si só, paralisava-me os músculos. Até que a porta abriu-se:

– Linan?

Foi como mergulhar numa piscina em dia de 50 graus.

– Linan… estás pálida. O que é se passa?

A resposta era demasiado intensa. Fechei os olhos e quis esconder-me.

– Estás a assustar-me miúda, diz alguma coisa.

Falar não era capaz. Então, atirei-me nos seus braços e beijei-o. Era uma espécie de insurreição, de quem recusa-se e entrega-se ao prazer ao mesmo tempo. Um atentado contra todas as muralhas que construíra e que agora ruíam sozinhas ao nosso redor.

Encontrei forças para desatar os lábios e libertar a verdade:

– Eu amo-te – ao senti-lo ofegar perto de mim, não tive mais dúvidas – eu amo-te, eu amo-te… – insisti aflita, enquanto Will carregava-me com a mesma urgência nos seus braços. Tal como um buraco negro, o amor é um campo magnético de onde nenhuma matéria escapa. A solução é abandonar-se por completo a ele.

Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que Will fez foi oferecer-me icetea. Sabia que era a minha bebida preferida.

Súbito, ele levou os joelhos ao chão, abeirando-se ao pé de mim na cama.

– Estava só à espera que caísses em ti para que pudesse fazer isto. Eu amo-te como nunca amei ninguém antes, Linan.

As mãos trémulas seguravam uma minúscula caixa veluda e os seus olhos não eram mais do que duas pedras de gelo derretendo em fogo lento.

– O que é isso?

Ele abriu a caixinha. Continha um pequeno adorno brilhante.

– É o símbolo de tudo o que representas para mim. Fica comigo, para sempre?

Então era para isso que servia uma aliança? Para afiançar a eternidade ao lado do amor? Será que os humanos não percebiam que perante as suas limitações, mesmo com a infinidade do universo, tal propósito era irrealizável?

– Não posso – apressei-me a meter uma camisola no corpo – Isto foi um erro, não posso…
– Uou, uou, calma! Se achas que é apressado eu volto atrás. Mas não digas que somos um erro, por favor!
– Estás longe de compreender, Will!
– Escuta – ele segurou-me com força para que eu o olhasse nos olhos – Eu também decepcionei-me no passado, mas nestes últimos meses tu devolveste-me a capacidade de confiar. Quero-te como nunca quis ninguém Linan, e sei que sentes o mesmo! Porque é que hesitas tanto? Explica-me!

O coração travou-me na garganta. Ele julgava amar uma humana, que na realidade era uma ET. E por causa da incompetência dessa ET, ele corria agora perigo.

Ponderei depressa sobre o que fazer. Dizia a verdade? Arriscando-me a que ele passasse a abominar-me? Ou então compelia-o a apagar-me da sua memória? Não, isso eu não era capaz.

– Oh Will… – sem controlar as lágrimas, e mesmo sabendo as consequências que o meu acto traria, juntei os braços em frente ao corpo, e desapareci do quarto.

Desabafo de uma qawwi

#9|Eterna magia de natal: verdades secretas

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Linan, 

Um sorriso simpático, uma boa conversa de esquina, são coisas que abundam no nosso meio. Mas quando se trata de honestidade, a história é outra. A arte da sinceridade tornou-se cara nos dias de hoje.

Nesta carta, é tudo o que tenho para oferecer-te: honestidade.

Não sou um sem-abrigo, como deixei-te pensar que era. Sou apenas um homem impulsivo, que por breves instantes morreu por dentro e apartou-se das ilusões deste mundo. Um homem que só regressou a si, depois de ter-te conhecido.

Não sei exactamente o que impediu-me de dizer-te a verdade antes. Talvez a necessidade de sentir a fé que tinhas em mim enquanto pessoa. Sem bens materiais, sem grande utilidade. Apenas pessoa. Talvez porque precisava de voltar a acreditar na possibilidade da amizade, do amor, gratuitos.

Quando se perde tudo de uma vez como eu perdi, cai-se num vácuo sem fim. Eu tinha planos, tinha uma vida, uma companheira. Mas demorei a perceber que as traças da intolerância há muito haviam corroído aquela união. As diferenças, os insultos, eram só um pretexto. Lá no fundo, o que nos destruiu foi o facto de que eu não era capaz de realizar aquele desejo, dar um filho à minha companheira. E não existe nada pior para um homem do que viver confrontado por esta incapacidade. Todos os dias.

Julguei que a proposta que fiz fosse ser uma solução: adoptar a menina Érica. A papelada para formalizar o sonho estava quase tratada, mas o sonho dissolveu-se no dia em que Susana anunciou estar grávida de outro homem.

Levou tempo para reerguer-me do golpe.

No sábado em que conheci-te, Linan, tinha ido ao parque com os meus amigos fazer um “experimento social”. É o nosso passatempo favorito e temos milhares de seguidores. Disfarcei-me de sem abrigo, colocamos câmeras ocultas, e começamos a provocar as pessoas para filmarmos as suas reacções. Normalmente divertimo-nos bastante com estes experimentos. Mas naquele dia, tornei-me eu vítima da triste comédia. Fora exactamente naquela manhã, que recebera uns exames médicos confirmando a grave doença. A saúde, tão silenciosamente, também me havia abandonado. Ou seja, o buraco não tinha fim.

Os meus amigos foram-se embora, mas eu continuei ali, sentado, permitindo-me experimentar a miséria humana em toda a sua plenitude.

E então chegaste tu, Linan. Parecia que vinhas a navegar pelo sol, de propósito, apenas para recordar-me de como é bom sorrir. Vieste sem preconceitos, cheia de coragem. E avançaste para dentro de mim, sem pedir licença. Pelo tanto que gostaste de mim, Linan, não consigo medir o quanto eu gosto ti. És uma das poucas pessoas que faz-me não querer desistir. Perdoas-me e aceitas-me na tua vida, com todas estas falhas? Espero por ti na Avenida das Portas, logo na esquina. Vem ter comigo, pois quero estar perto de ti, nem que seja só mais uma vez. Se julgares que não o queres fazer, entenderei, sem problema. Mas espero, sinceramente, que aceites o convite.

 Will

Pelos portões do parque, mesmo acima dos baloiços que cortavam o ar fresco, via-se a tal Avenida das Portas. O peito trovejou-me arrítmico quando rasguei a carta em quatro pedaços e tomei a direcção oposta.

Não importava se ele deixava de ser ou não um sem-abrigo. O facto é que aquele humano vestira o coração nos dedos que escreveram as verdades mais secretas sobre o seu ser. Por muito que o quisesse ver, sentia-me ameaçada.

Como podia ser sua amiga, sem contar-lhe a minha própria verdade? Seria eu a qawwi que traria para a vida daquele frágil humano, a maior mentira do século? Ofereceria o oposto do que ele precisava?

Não, isso eu não ia fazer.

Subi o acentuado passeio e estava quase em casa, quando fui obrigada a reter o passo. Debaixo do reflexo de um satélite que clareava o céu nublado, aguardava-me uma figura masculina. Trazia rosas vermelhas sobre o capô de uma viatura.

A figura aproximou-se e tirou o capuz da cabeça.

– Pressenti que ias optar por não vir, Linan. Mas tinha de tentar.

Excepto a voz, tudo nele era estranho. A pele com aroma de iogurte de limão, o cabelo farto, os olhos amendoados. Engraçado… era a primeira vez que percebia alguma beleza, para não dizer bastante, nos traços de um rosto humano.

– Will?

– Sou eu.

Subitamente as palmas das minhas mãos humedeceram. Deu-me uma esquisita reacção no estômago. A princípio julguei que fosse a energia do satélite a interferir no meu corpo, mas depois percebi que não. Era o toque de Will. As suas mãos entrelaçadas às minhas, o ar morno dos seus lábios tão perto de mim, fizeram-me sentir dessincronizada. Os joelhos fraquejaram. Assustada, quis teletransportar-me para outro continente, mas como se tivesse percebido as minhas intenções, Will segurou-me e persistiu com delicadeza:

– Por favor. Não vás.

Desabafo de uma qawwi

#8|Eterna magia de natal: O banco

“Quais as probabilidades, e o que pode dar errado, numa súbita amizade entre uma extraterrestre e um sem abrigo?”

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O banco do parquinho continuava vazio. Não soube o que pensar. Teria Wilson encontrado um lugar melhor? A ser este o caso, devia ter ficado contente. Porém, o sorriso que escapou dos meus lábios era trémulo como as acácias ao vento. Conheci Will numa noite de frustração. É verdade que continuo a ter a capacidade de teletransportar-me, que posso compelir a vontade humana. Mas raramente uso essas habilidades. Tal significa que cada minuto que passa sem que eu cumpra a missão, enfraquece-me e afasta-me da natureza qawwi.

Na noite em que fiz essa constatação, bati com a porta de casa e fui à esplanada perto comprar uma hunter’s dry. Esvaziei-a ali mesmo, encostada ao balcão. Pedi mais duas garrafas, um hambúrguer, e decidi ir ao parque. Foi lá onde encontrei Will, um jovem envelhecido pela amargura. Estava sentado num banco, enrolado num cobertor sujo, e tinha os pés desnudos ressequidos pelo frio. Apesar do seu olhar distante e escondido pelo gorro buído, eu conseguia notar a melancolia com que ele observava os outros. Aspirei as essências que pairavam ao seu redor: abandono, sonhos quebrados e algumas sobras de esperança. Essências inevitavelmente humanas. Essências que eu não estava a conseguir salvar.

Sorvi o conteúdo da garrafa de uma vez.

– Já percebo porque é que os humanos gostam disto – murmurei a meio de um arroto.

Will virou-se para mim espantado. A voz rouca discorreu-lhe trépida:

– Gostam de quê?

– Álcool. É uma boa maneira de afastar os problemas.

Folhas secas voavam pelo parquinho, quando Will comentou:

– Nada nesta vida é definitivo, senhorita. Talvez, e tão somente, a morte e o amor. Olhe para mim. Um dia saio desta situação. Quando a música para, há que se fazer a própria melodia.

Os meus lábios abriram-se, e Will, tão naturalmente acanhado, sorriu. Devem ter se seguido uns tantos disparatares da minha boca, pois pouco depois Will baixava o cobertor para libertar o calor causado pelas gargalhadas.

– Toma – ofereci-lhe uma bebida e reparti o hambúrguer. Will tinha ar faminto. Todavia, manteve-se quieto, como que apavorado pelo gesto.

– A senhorita não se incomoda?

– Porque me incomodaria?

Ele baixou o rosto.

– Estou sujo, cheiro a urina, sou um sem abrigo, senhorita.

– Isso não faz de ti menos humano. Aliás, devo dizer que até agora és dos humanos mais genuínos que conheci.

Para falar a verdade, eu nem sequer entendia aquela situação. No meu planeta era impossível qawwis deixarem outros qawwis à mercê do incerto e do desamparo. Todos têm um lar em Stefanotis. Ser “sem abrigo” lá, significa ter o coração vazio. E esse não parecia o caso de Will. Ao perceber que já haviam passado muitas horas e dúzias de cidras, pus-me em pé.

– Tenho de ir.

A voz de Will galgou inibida pelas minhas costas. Tirou o gorro da cabeça e torceu-o nervosamente entre os dedos, antes de perguntar-me:

– A senhorita passará por aqui um outro dia?

A resposta saiu antes mesmo que eu pudesse processá-la:

– Amanhã eu volto para jantar contigo.

– Senhorita Linan – tornou ele a chamar-me – a senhorita tem um coração de ouro. Se as noites fossem tão bonitas como a de hoje, eu dispensaria as manhãs.

Voltei para segurar a sua mão entre as minhas e reafirmei:

– Mas sem o dia, a noite perde o valor. Eu volto, meu querido Will.

E de facto, passei a visitá-lo com frequência, a mesma hora, no banco do parque. Era fácil ser humana ao lado dele.

Sentei-me no banco vazio e telefonei à Fatinha, a minha housemate.

– Passam 4 dias e ele não está aqui. Desapareceu e acho que já não volta!

Ele quem, Linan?

– O meu amigo, o rapaz do parque.

O sem tecto? Ah porra Linan, tens que ir à um psiquiatra!

– Psiquiatria? Porquê?

Ainda perguntas? Tu realmente não vês o que aconteceu com esse coraçãozinho, pois não?

– Do que é que estás a falar?

Tsk, tskvem para casa que conversaremos!

Desliguei o telemóvel e pousei a mão na madeira do banco. Foi então que acolheu-me uma súbita vontade de chorar. Por acaso as lágrimas mudariam aquele vazio? E porque é que tinha de entristecer-me assim, se Wilson não passava de um humano?

– Linan?

Apercebi-me tarde da repentina presença. Era uma das meninas que trabalhava na esplanada perto do parque.

– Sim?

– Trago uma carta para si.

– Carta?

– Exacto. Do moço que costuma estar aqui consigo. O engenheiro Wilson – esclareceu, antes de dar meia volta, deixando-me com o misterioso envelope na mão. Engenheiro Wilson?

Desabafo de uma qawwi

#7|Sonda-M – sinais de um homem player

 

A simpática humana com quem divido a casa, finalmente convenceu-me a sair para conhecer a “noite”. A música soava alta, os balcões abarrotavam de bebidas, e um adocicado fumo serpenteava pelos corredores. O recinto mais parecia uma gruta de segredos. As luzes minimalistas lá dentro faziam os diversos trajes cintilarem.

Considero-me uma qawwi razoavelmente inteligente e tenho assimilado com rapidez os hábitos humanos. Mas aquele cenário deixou-me abestalhada:

– Oh Fatinha, porque é que estas moças vestem pijamas?

Referia-me ao grupo de jovens semi-nuas que abanavam freneticamente os corpos, bem no centro do recinto. A contradição melindrava-me por completo.

– Disseram-me que este tipo de vestuário serve somente para a intimidade do sono, não para o convívio público! Afinal era mentira?

Fatinha reprimiu uma gargalhada, pese embora eu não tivesse percebido a piada.

Sentamo-nos num canto, e enquanto Fatinha fazia gestos no ar, eu ajustava o Sonda-M na orelha. O pequeno dispositivo permitia-me captar sinais dos qlubs, objectos importantes para a minha missão.

De seguida devolvi a atenção ao ambiente. Como é que as moças conseguiam respirar, sem sufocar em tecidos tão apertados? Infinito mistério, pois os sorrisos indicavam prazer descomunal no possível sofrimento. A meu ver, as jovens pareciam safiras à superfície, encontradas sem garimpo. E os homens à volta, ostentando sequiosos olhares, avaliadores dos potenciais tesouros. Muito estranho…

– A maioria destes gajos são pais de família que deixaram as esposas em casa, garanto-te – sussurrou Fatinha ao meu ouvido, antes de ausentar-se para atender uma chamada. Estava eu ainda a tentar alcançar o significado daquilo, quando um homem aproximou-se. Para nós qawwis, a estética nos traços dos humanos é neutra, mas pelo que percebi, podia dizer-se que aquele era um humano “atraente”. Captava muitos olhares femininos, à medida que deixava um rastro de aroma de basil e de origami lavado. Os seus olhos escuros faiscaram quando encostou-se ao sofá.

– Sou o Marcos. – informou, pedindo-me a mão para depositar um beijo – posso oferecer-te uma bebida?

– Não faço muita questão, mas agradeço.

O telemóvel no bolso do casaco do tal Marcos não parava de apitar. Ele sacou o aparelho e tratou de responder à uma mensagem antes de voltar a cravar-me o denso olhar, como quem afunda na imensidão do universo.

– Desculpa a curiosidade. Não és desta cidade, pois não?

– De facto. Nem sequer sou deste planeta.

Chegou-me aos ouvidos a sua gargalhada macia como algodão.

– Sem dúvidas! Linda como és, só podes ter vindo do céu. Um verdadeiro anjo!

Arregalei o sobrolho, contrariada.

– Anjo não! Quando muito uma qawwi.

– Qawwi? O que significa isso?

– Porquê importa?

– Importa porque és divertida e sexy demais.

O telemóvel dele continuava a afincar-se em nervosos bips.

– Não seria melhor atender as chamadas?

– Não é ninguém importante.

Foi nesse instante que senti um doloroso estampido no ouvido. O Sonda-M estava com uma anomalia. Ao invés de detectar pistas dos qlubs, estava a captar sinais de mentiras. Marcos inclinou-se, de modo a encurtar a distância que nos afastava e sussurrar:

– Neste momento estou a fazer algo muito mais interessante.

– E o que seria tão mais interessante? – perguntei ajeitando o minúsculo aparelho no meu ouvido – lançar-me essas suas observações generalistas?

Ele soltou mais uma gargalhada.

– Também sei ser bem específico. Olha, está muito barulho aqui, conheço um lugar mais tranquilo, gostavas de vir?

– Para quê?

– Para conversarmos mais à vontade e nos conhecermos melhor, só isso.

O Sonda-M voltou a dar um estalido, acusando a nova mentira. Farta das dores no ouvido, levantei-me e rodei nos calcanhares.

Fatinha, que, entretanto, já havia regressado, puxou-me para um canto.

– Homens players não, Linan. Esses são os piores!

– Desculpa?

– Está escrito na testa daquele tipo que é um player! Não viste a aliança no dedo?

Não tinha visto. Nem sequer entendia o que era uma aliança ou qual era o seu fim. Mas percebia que o termo “player” referia-se a jogador.

– Ele não disse-me que era jogador. Joga quê?

Fatinha riu-se admirada.

– Quanta inocência, filha! Não conheces o jogo da caça e do caçador? Da encruzilhada amorosa? Linan! O Player joga com o teu tempo, com o teu coração e com a tua paciência. Sabes aquele homem que tem uma, mas quer todas? Que roda pela cidade como um cão vadio, e faz da simplicidade do amor um jogo psicológico? Esse é o player. Fica longe dele, Linan! Há homens mais sérios por aí.

De facto, por aquele prisma, o tal homem player era uma criatura mais perigosa que os ikras do meu planeta. Todavia o cuidado de Fatinha era desnecessário. Sei que ela tinha esperanças que eu me interessasse por alguém, mas uma extraterrestre em missão de serviço como eu, não se dá à esses luxos. Pelo contrário. Abandona o qawwi que ama e não volta a apaixonar-se. Muito menos por um humano, espécie que sente volúpia pela desonestidade. Seria mais fácil o sol e saturno colidirem, do que eu envolver-me com um humano.

– Não te preocupes Fatinha – murmurei passando a mão pelo seu ombro. – Ficarei longe da espécie.

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