Desabafo de uma qawwi

#29 | Metade do coração

Quando fazemos a transicção, todo o nosso redor se ilumina. É o que dizem os qawwis mais experientes. Vejo com clareza. Aquilo que não vi antes, atropelando os meus próprios instintos. Até o primeiro sinal escapara-me. Na tarde quente em que encontrara Will adormecido no sofá. Lembro perfeitamente do papel amarfanhado na sua mão, da calada inquietação que desconjunturou os meus ossos ao ler o que ele escrevera:

Linan, quando a dor vier, teremos que arranjar outra forma. Não podemos guiar…”

– Estavas a escrever-me uma carta, Will? Um poema…?

O inchaço nos olhos, as dobras no alto da testa disseram-me o quão distante estava de compreender a minha linguagem.

– Poema? – atirou um olhar perdido para o papel – não sei, não lembro.

– Parece que tentavas dizer-me algo…

– Droga, Linan, se disse que não me lembro é porque não lembro, devo ter adormecido, só isso! – no meio do silêncio amargo e pulverulento de hostilidade, surgiu no ar a frase que já havia se tornado habitual nos últimos dias:

– Desculpa. Ando tenso, desculpa.

Sim, ele andava irritado, agitado, desdizendo da sorte, praticando o verbo da desconfiança e da destemperança. Ser humana não arrancou de mim as vontades de qawwi. Não gosto de ficar “em repouso”. A minha alma precisa do vibrar do universo, para sentir-me viva. E Will detesta isso, pois vai contra as orientações do médico. Foi assim que os atritos começaram. Em colisão com estas aflições deflagradas no centro do coração, Will vivia obstinado em controlar-me e a confiscar o destino. Esta atitude levou-o a um profundo estado de “ansiedade”, que culminou com o verbalizar da dúvida sobre a paternidade da criança que vinha. Não fiz caso. Will era o que era. Apenas um humano, uma simples manifestação fenomenológica de existência, cheia de falhas.

Ao surgimento do segundo sinal da “surtez” de Will, devia ter desconfiado. Aconteceu no meu aniversário. Ele insistira que recebêssemos alguns amigos, embora eu tivesse preferido um dia mais sossegado. Acabávamos de fazer um brinde quando Érica puxou-me depressa pelo braço

– Mãe… o pai está a chamar-te. Ele está muito esquisito…

Segui Érica até à cozinha.

Havia desordem, ferramentas espalhadas por todo o lado, pegadas de lama pelo chão. Ao pé da bancada, Will segurava uma grande faca, as mãos cobertas de fuligem.

– Will? Onde é que estavas, o que é isso…?

Ele pestanejou.

– Will?

Então, a faca caiu. Ele voltou a cabeça para baixo, admirado com o cenário, com o seu aspecto.

– Will?

Seus olhos brilharam de medo.

– Preciso estar só.

– Will, vá lá, fala comigo…

Mas ele fechou-se no quarto durante um bom par de horas. Se eu fosse inteiramente humana, certamente também ficaria assustada com o facto de, de repente, não ter controle sobre os meus neurónios. Will estava apavorado, acreditando que os repentinos ataques de pânico, os lapsos de memória, podiam colocar-nos em perigo. Quantas vezes a noite caiu, e a cabeça Will voou para rondar solitária o seu mundo isolado, entretendo-se com a ideia do amanhã e dos medos que o cercavam? Não é possível dividir a vida dessa forma, viver com um pé no presente e outro futuro. Viver assim, é ter metade do coração no ritmo, e outra metade parada. Eu percebia, e lamentava que ele optasse por encerrar tanto peso dentro de si.

Quando finalmente o futuro bateu-nos à porta, entendi os porquês. Honestamente, era burrice que eu não tivesse percebido antes. Mas era tarde demais.

– Respira, meu amor, respira – pedia Will carregando-me ao colo. – Ajuda a mãe minha filha, ajeita a cabeça dela…

Colocaram-me no carro e apesar das lancinantes dores, sentia-me orgulhosa da bravura da minha filha, verdadeiramente mocinha, que firme permanecia ao meu lado.

– Mãe, estamos quase, fica tranquila, mãe, fica acordada…!

Segurei a mão da minha filha.

E por mais que Will tivesse se esforçado para levar-me ao hospital e manter-me salva, não foi possível manobrar nas rodas da viatura a tinta indelével que ditaria outra coisa.

O céu incendiou-se e desabou por cima de mim, como a cortina do palco que desce no último acto de um actor. Um camião sem freio esmagou o lado esquerdo da viatura, exactamente onde eu estava, arrancando-me, assim, a minha última respiração na terra.

Desabafo de uma qawwi

#32|O equilíbrio quebradiço da vida

Sinto um gosto horrível na boca. Perdura no meu paladar desde ontem, o dia em que que soube estar a gerar-se dentro de mim uma vida nova. O sabor amargo ampliou esta manhã. Saía eu da casa de uma aluna, quando vi um menino. Devia ter treze, catorze anos, no máximo. Atirado nas escadas escuras do prédio, isolado, tentava esconder as lágrimas. Os seus olhinhos estreitos mexiam-se acanhados ao ritmo do medo. À medida que os seus ombros agitavam-se sobre o seu corpo em soluços, penetrava este azedume na minha boca. Qualquer um podia ouvir os gritos horripilantes da flat do rés do chão. Os pais do menino agrediam-se verbalmente. E qual força maior para agredir um coração, senão aquela? O menino não tinha uma casa. Tinha um inferno. Como podem, dois seres humanos, trazer uma criança ao mundo para a torturarem daquela forma?

Aquilo tudo forçou-me a voltar a questionar o significado de ser mãe, de ser pai. Talvez pela minha origem distante, pela minha inegável condição de aliegena, eu jamais compreenda, e por consequência, nunca me sentirei preparada para acolher esta semente que brotou em mim. Não neste mundo em particular. E quando nascer, o que vai ser ele? ou ela? Um humano? Um qawwi? Uma criatura híbrida e perdida? A ideia causa-me uma incontrolável pontada no peito. Seja qual for a sua natureza, esta criança já é um pedaço de mim, pedaço que deverei entregar às garras deste planeta tão maltrado, tão dominado de sombras e tão necessitado de ajuda. É justo para a criança? Ou para o próprio planeta? Provavelmente não exista uma resposta clara e julgo que seja pouco óbvio para os próprios humanos. É errado duvidar? Afinal de contas, ser pai acarreta decisões que não se devem impor. Significa abdicar de quaisquer modos egoístas e dedicar toda a energia ao filho, pelo resto dos dias. Significa ficar falido, se preciso for, pela educação dos ditos cujos. Em última análise, significa dar a vida, se for isso que custa. Sou absolutamente livre de o querer… ou não.

Pese embora tenha feito a decisão, o conflito dentro de mim não cessa.

A médica disse-me que devo ter cuidado. Chamou o meu estado de “gravidez de risco”. Pelo que entendi, pode estar em perigo a vida do bebé, ou a minha. Quando é que eu poderia imaginar um fenómeno assim? O corpo degradando-se e sofrendo de tal forma, que enfrenta o risco do apagão? Ode às mulheres humanas, por saberem viver neste equiílibrio quebradiço da vida.

O risco de eu vir a desaparecer deste corpo e desta terra após o nascimento do meu filho, não me assusta. Sei melhor do que ninguém, que a morte é uma das formas de eu voltar ao meu planeta. E o fim do ser humano, é regressar às origens. Aliás, este é um dos pontos cruciais da minha missão.

Porém, de olhos bem vendados, de mente humana que ainda não se abriu para conhecer a sua verdadeira origem, Will não é capaz de compreender quando digo que vai tudo correr bem. Que a morte não é definitiva. Para Will, a ideia do futuro incerto encheu o nosso redor de sombras, de problemas. A dúvida adoeceu-lhe a alma. E quando o espírito adoece assim, vai-se a sanidade da mente. Wil começou a perder o juízo. Pelo menos foi isso que à princípio, pareceu.

Desabafo de uma qawwi

#31|Milagre a dois

No planeta dos seres humanos há várias teorias sobre os pesadelos. Esta espécie de delírio que penetra o nosso subconsciente durante o sono, arrancando-nos graves suspiros de medo. Há quem diga que os pesadelos evoluíram para tornar os humanos mais alerta sobre possíveis ameaças. Outros, que este tipo de alucinação não passa de uma reacção a algum estímulo exterior. É um fenómeno, que, enfim, extravasa todas estas tentativas de entendimento. Mas o que descobri, recentemente, parece incontestável: de alguma forma, os pesadelos preparam-nos para o futuro.

Naquela noite, Will levantou-se com o coração descompassado, o peito molhado e os dentes apertados de tanto pânico. As estrelas pareciam derreter nos seus olhos aflitos. Amparei-o, tentando acamá-lo.

– Will? Tiveste um pesadelo?

– Acho que sim, não lembro… abraça-me, Linan – pediu depressa, buscando conforto no meu corpo, querendo-me com o desejo de um alcoólatra que procura o seu alento numa garrafa.

Sim, tivera um pesadelo. Mas qual era o alerta que o seu instinto tentava activar?

Beijei-o até o alvorecer. Normalmente o beijo conseguia sarar onde mais doía. E disso era feita a nossa rotina diária, após aquele tempo todo separados. Quando um estivesse em apuros e não pudesse chegar lá, o outro carregava. Nem que fosse nas costas mancas e nuas. Compreensão, e sobretudo, cumplicidade. Era o que precisávamos. E éramos felizes, mesmo quando surgissem pedras. Só que um dia tropeçamos. Afinal, o que era certeza, também sabia ser angústia, construindo por fim o início da queda.

– Deve ser uma comida que não caiu bem, ou estás doente outra vez – constatou Will preocupado, ao ver-me vomitar já pela segunda vez naquela semana. Não quis ao ir médico. O meu gigante apetite andava ampliado, por isso julguei que fosse apenas uma indigestão. Mas as náuseas repetiram-se. Quando veio o torpor, a sensação do estômago queimado e por fim o sangue escuro vertendo de dentro de mim, aceitei ir ao hospital.

Alguns exames terráqueos depois, tive o diagnóstico. Nunca, em hipótese alguma, havíamos previsto a notícia:

– A senhorita está grávida. E vai precisar de alguns cuidados… – avançou a doutora, sem pudores.

É assim meus amigos, sabem que muitas vezes perdi-me, durante esta aprendizagem, de ser humana. Nunca como naquele instante. Deixei de ouvir a médica. Apertei a mão de Will, como se o gesto fosse tapar o abismo que se abria entre nós, deixando espreitar segredos e temores que se empilhavam à superfície, ameaçando rebentar as amarras que uniam a nossa confiança.

– Tem a certeza, doutora? – a voz de Will estava por um fio.

– Sem sombra de dúvidas. Já conta com dois meses.

A elucidação da médica arrepiou-me. Não havia preparo para aquilo. Eu não queria ser mãe, nem pensar. Não num mundo que tenho por certo estar à beira do fim.

Por outro lado, percebi que a alma de Will havia ficado engasgada. Como se, de repente, um cavalo se atrelasse às suas costas. Não sabia se era um milagre ou uma maldição. Se se permitia vibrar ou se procurava perdão para o assassino dentro de si, sequioso de cortar-me em duas. De dividir-me em qawwi e em humana. Pois quem sabe assim, encontrasse alguma explicação plausível para o que acabava de ouvir.

– Linan – voltou a falar quando já estávamos em casa. Custava-lhe. Como se um frio severo, desses que seca o sangue, congelasse os seus lábios – Sabes que… eu não posso ter filhos, é impossível. Será que – outra sustenida pausa – será que – e mais outra – é por seres qawwi, é pelo teu corpo, os teus poderes… é isso?

A resposta que borbulhava na minha boca preocupava-me até aos fios do cabelo.

– O meu corpo tornou-se humano. Sou uma pessoal normal como tu, Will, não tenho poderes nenhuns. Nem sei o que pensar.

O pulsar da notícia, a ausência de uma resposta, ganhou força nos contornos do rosto de Will. A pergunta continuou gritando, em silêncio. Poderia ser o derradeiro milagre? Ou a dúvida ia começar a penetrar por caminhos que julgávamos outrora veemente fechados?

Desabafo de uma qawwi

#2# O Hotel

 

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Estou sentada à beira da passagem. Observo. Tento compreender. Outrossim, não tenho para onde ir. Esta cidade é repleta de luzes artificiais. Painéis desnecessários. Reclames e sinais hediondos. Obsoletos por todos os cantos. Sistematizada e paralelamente desorganizada. Existem, por exemplo, casas ordenadas por categorias. Umas onde apenas se come. Outras, dedicadas exclusivamente à poluição sonora.

O edifício diante de mim, entretanto, enche-me de fascinação. Chama-se “Hotel”.

Segundo pude entender, a casa hotel oferece guarida a quem não tem onde dormir. Criaturas azaradas como eu, que se aventuraram pelo universo sem o mínimo de preparo.

Estou neste banco há pelo menos dois dias. Já começo a sentir frio. Nós qawwis geralmente não temos necessidade de dormir. Mas a viagem de Stefanotis até ao planeta terra, consumiu tanta energia, que neste momento não me vejo a fazer outra coisa se não repousar um bocado, num lugar quente e coberto. Isso ajudaria a preparar-me melhor para a minha missão.

Posto isto, o hotel é de facto uma invenção genial. Não faria muito sentido no meu planeta, onde dormimos somente por diversão, em lugares bem diferentes dos que aqui se configuram.

Tento entrar no hotel, mas acabo enxotada. Dizem que não recebem mendigos (ainda estou a tentar perceber o que isso significa). Que sem dinheiro, não posso ter lá guarida.

Dinheiro…

Volto para o banco. O meu estômago dói horrores. A ponto de deixar-me impossibilitada de utilizar os meus poderes de travessia. Naquela manhã havia comido algumas rosas e cravos, mas estou novamente com fome. Mais a mais, as comidas espalhadas pelas ruas, não só tem um aspecto intragável, como não estão disponíveis. Não são oferta da natureza. Se no meu planeta basta-me “accionar” para poder comer o que bem quiser, nesta terra tenho de “pagar”.

Está visto. Este planeta gira em torno do famoso dinheiro. Se ao menos eu soubesse como ele é, ou onde ir buscá-lo…

– Senhor! – levanto-me às pressas para abordar o homem que atravessa a rua.

Ele olha-me com desconfiança.

– Senhor… – murmuro com alguma cautela – procuro a fonte do dinheiro. Pode dizer-me qual é a mais próxima?

A desconfiança dele dá lugar a um sorriso incompreensível.

– E quem é que não procura, meu amor? Mas para começar, você podia sair das ruas e ir trabalhar, não é verdade? É linda e jovem demais para perder-se nestas coisas.

– Quais coisas?

O homem não me ouve. Embrenha-se na rua e prossegue a caminhada.

– Estás com graves problemas moça – murmura uma humana que acaba de aproximar-se. Conheço-a. Tem estado sentada numa tenda de metal e papelão, exibindo pelo chão objectos que eu nunca vi na vida. Desenrola a ponta do tecido na cintura que lhe cobre até os pés, e do tecido retira um pedaço de papel.

– Consegui vender umas bijus hoje. Toma. Compra pão e vai para casa. Não fiques na rua.

Recebo o papel, viro-o de cima para baixo. Repito o movimento.

– O que é isto?

– Dinheiro que sobra para apanhares chapa.

– Dinheiro é isto?? – Imaginei todas as possibilidades, menos aquela – Quanto deste papel é necessário para eu poder dormir ali? – aponto para o vasto edifício.

– Naquele hotel? Moça… com esses trapos? – ela abana a cabeça como se combalida – bem bem, terias de multiplicar essa nota por pelo menos mais cem.

– Multiplicar? – permaneço na dúvida – É só isso?

Massinguita, juro! Dinheiro não cai do céu, mãe, vai para casa!

Estas jovens pa! Tão bonitas e tão drogadas” – pensa a humana voltando à sua tenda. Como qawwi, tenho a habilidade de ler o pensamento dos humanos. Entretanto, o conselho da senhora parece fácil de executar. “Multiplicar”.

Aperto o dinheiro na mão, procuro um lugar isolado, e em pouco tempo reproduzo uns tantos papéis. Volto a observar o hotel. Decido que é melhor estar vestida como os humanos que estão a aventurar-se a lá entrar. Apresso-me a uma casa de vestuário. Há várias naquela rua.

– Quantos papéis você quer para deixar-me levar esta roupa? – pergunto atirando no balcão várias notas, apontando para a primeira peça que vi na vitrine. A humana do outro lado do balcão lança-me um olhar fixo e demorado.

– O conjunto custa sete mil.

Depois de me estrear no mundo da “compra”, troco de roupa e tento novamente entrar no hotel. Para o meu espanto, não sou escorraçada. Parece magia. Os humanos recebem-me com simpatia.

É assim, nestas circunstâncias, que descubro o significado do termo “pessoa”. Vem de persona. Ou seja, máscara. O humano veste várias personas e se molda às circunstâncias. O humano dissimula a sua real natureza. E o faz muito bem. Enquanto eu estava vestida de origami rasgado, sem dinheiro, recebia maus tratos e era indigna de entrar no hotel. Depois de ter colocado uma máscara, uma nova roupa, e ter mostrado uma realidade que não é minha, fui aceite. Louvor à ilusão. Para mim, é um grande absurdo!

No quarto do hotel, consigo finalmente repousar e organizar as ideias.

Dissimular. Disfarçar. Arranjar uma persona. É com isso que sonho durante o descanso.

Ao acordar, já tenha traçado um plano perfeito. Precisava tornar-me um deles. Misturar-me no meio dos humanos. Caso o contrário, colocaria em risco a minha missão. Todavia, arranjar um disfarce humano, ainda que temporário, tinha os seus prós e contras. A vantagem seria passar despercebida, protegendo a minha identidade. O problema, entretanto, é que não teria controle sobre esse processo. A troca de corpos é altamente contingente. Leva-nos a lugares desconhecidos. Sem mencionar o facto de que, enquanto eu estivesse num corpo alheio, o corpo original ficaria momentaneamente suspenso, noutra dimensão.

– Que seja – digo comigo mesma.

Respiro fundo. Pela minha missão, tudo vale a pena.

Fecho os olhos.

Estrelas cobrem-me como um manto de penas. Elas transportam-me para um corpo humano. Amanhã, estarei noutro destino, a experimentar a vida de um humano, algures no planeta terra. Que a sorte me acompanhasse.

Desabafo de uma qawwi

#30|Seria a malária de uma cruz, o amor febril sob um céu azul?

A malária é uma doença infecciosa, transmitida por mosquitos e causada por protozoários transmitidos pela fêmea infectada por plasmódio. O período de incubação da malária varia de acordo com a espécie de plasmódio e qualquer humano pode contrai-la. Os sintomas mais comuns da malária são a febre, calafrios, fadiga, vómitos, náuseas e dores de cabeça. Em casos graves pode causar convulsões, coma ou morte. Entre as principais medidas de prevenção individual da malária estão o uso de mosquiteiros, roupas que protejam pernas e braços, telas em portas e janelas e uso de repelentes. É muito importante, assim que diagnosticado, tratar a doença.

Oxalá eu tivesse sabido toda esta informação há algumas semanas, antes da minha última viagem. Achava que o meu corpo não pudesse sofrer nada além de uma “dorzinha de cabeça”. Mas podia.

Passei a tarde inteira sem apetite. A moleza a roer os ossos é a sensação mais estranha que já tive em toda a minha vida. É oficial: pela primeira vez, estou doente.

– Tens que ir ao hospital – adverte Érica que está a passar uma temporada comigo – meu Deus – assustada, retira a mão da minha testa, como se tivesse levado um esticão – vou ligar para o pai.

– Filha, nem pensar.

A minha cabeça turva-se de pensamentos tumultuosos. Embora esteja perplexa com os acontecimentos no meu corpo, não quero incomodar Will. Mas o estômago desafia-me. E todas as minhas caras ilusões, de ser autossuficiente e aguentar-me só, como uma valsa despojada de orquestra, começam a dissipar-se debaixo dos calafrios que congelam-me a pele. Érica parece estar certa. Talvez seja melhor ir ao hospital. Penso em chamar um táxi, mas quem tomaria conta da menina? Em quem confiar? Incapaz de fazer mais equações, agarro-me ao que resta de lucidez e faço a tão temida chamada.

Estou?

– Will, podes vir à minha casa, por favor?

Capto uma espécie de impaciência na sua voz.

– Agora? – e depressa acrescenta – Passa-se algo com a Érica…?

– Nao, Will, sou eu. Acho que não estou muito bem.

Dou por mim no meio da neve de Russia. Mas depois lembro-me que já não sou do tipo que se teletransporta. Russia é o meu próprio corpo.

– Talvez precise de ir ao hospital. – digo com urgência.

Sinto uma respiração pesada e hesitante do outro lado da linha.

– Certo. Estarei aí em dez minutos. Quinze no máximo. Até já.

A verdade é que não me lembro de como ele chegou. Tenho a vaga ideia de ver Érica abrir uma porta, ter estado numa clínica, e finalmente, debruçada sobre um lavatório todo vomitado.

Abro os olhos no leito da cama. Toalhas húmidas e carteiras de medicamentos quedam-se pela cabeceira. Um sobretudo escuro espreita pelo braço da poltrona e uma voz familiar atravessa a porta fechada.

Lamento imenso. Posso ter outra chance? Sim, eu sei. Acabei perdendo o voo, mas deveu-se a uma emergência. A minha esposa está doente, tive que cancelar a viagem. Sim, sim… claro, engenheiro, é bastante razoável. Agradeço eu pela compreensão. Grato e até breve.

Alguns minutos depois, a porta afasta-se num chiar, revelando a figura de Will. Envergonho-me por sentir-me tão parvamente aliviada.

Ele senta-se à borda da cama, e ao ver o meu hermético trejeito, faz-me um carinho no rosto.

– Malária de uma cruz não é brincadeira, meu anjo. Mas já, já estás melhor.

– Ias viajar Will?

Ele sorri apologeticamente, continuando a carícia.

– Não te preocupes com isso, já remarquei, está tudo tratado.

– Oh Wilson…

Claro que preocupava-me. E desejo escapar desta minha ineficiência. Ressinto-me da ausência de tenacidade da carne humana, consome-me um estrepitoso embaraço.

– Lamento que tenha prejudicado os teus planos Will, não imaginei.

– Não lamentes – ele faz com que a sua mão deslize pelo meu cabelo, com o vagar e a harmonia da água de chuva, que corre simétrica entre os dedos – Tu e a Érica são muito importantes para mim. Vocês são o meu bem mais precioso. Sabes disso.

Querendo retardar a dor súbita, de imaginar-me a estar sem ele, olho-o nos olhos.

– Quanto tempo demora para isto curar, Will?

Ele inclina a cabeça e junta as mãos. O gesto dá-me a entender que tem uma questão mais premente aguardando a luz.

– Pelo que eu saiba, Linan, tu tens o dom da cura – de seguida abana a cabeça, incrédulo – nunca foste de ficar doente. Ou de teres um trabalho como o meu… quer dizer, mundano. De repente pareces tão…

– Humana?

Will aspira a assumpção com os olhos contritos de perplexidade.

– Foi uma escolha minha – asseguro. E agora que o digo alto, percebo que é verdade. Não foi responsabilidade dele, nem de Érica. A concretização do destino exigiu que atravessasse a singularidade das minhas escolhas e aceitasse as consequências. Exclusivamente minhas. É verdade que a transformação tinha sido dolorosa. Foi como abrir feridas por dentro, renunciar à própria sombra, correr para poder alcançar-me, mordida de revolta, de angústia. De tanto correr, vendaram-se os meus olhos. Julguei que ser humana era saber depender apenas de mim própria. E era. Porém, equivoquei-me ao pensar que tal implicava ignorar o amor que ainda sentia por Will. Reprimido na sua infinitude. Um soluço apertado. O tipo de amor que não se afoga nem num buraco negro.

– Lamento, Will.

Sob o lençol, seguro a sua mão. Ele aperta-a com força. O seu coração parece um balão a inflamar. Olho para baixo, para os nossos dedos entrelaçados. Os seus tremem. Acarico-os com o polegar, até que se acalmem.

– Devia ter ficado feliz por teres tentado seguir em frente quando parti, Will.

– Nunca segui, Linan.

– Não, não te atrevas. Não te condenes. Seguir e recriar laços é o que humanos fazem. Amo-te muito. Mesmo que estejamos separados. Não importa onde, nem como. Quero que sigas feliz. Sempre. E…

– E quem disse que eu me separei de ti? – a luz que eu achava ter desaparecido dos olhos de Will resplandece no momento em que a sua boca assalta a minha, num beijo quase violento de avidez, com um tipo de febre que suplanta o calor do meu corpo. Eram toneladas de desejo acumulado que ferviam no sangue. – Não me separei de ti – reafirma sem fôlego – e nunca o farei – continua selando o derradeiro facto nos meus lábios.

– Mas… – gaguejo afastando-me por um segundo – e os papéis…?

– Dei-te o espaço que pediste. O divórcio que querias. E odiei nós dois por isso. Mas depois acabei por compreender o que sempre tentaste dizer-me. O amor é livre. Não é um papel que vai ditar as suas condições. Devia ter respeitado isso. É um direito natural ser amado, não é?

Os meus pulmões ardem quando solto o ar para fazer um pedido, que não mais podia hesitar:

– Engenheiro Wilson, beije-me de novo.

Tomo a liberdade de moldar-me ao seu corpo, como o mel que adere às paredes de um forno quente.

– Pára, mulher – ele segura-me os pulsos tentando travar-me – estás doente.

Puxo-o de novo, tonta com os meus próprios movimentos. Onde estaria a cura senão no amor? Rendido, ele entrega-se, incapaz de abrandar, percorrendo o meu corpo com uma sede tão insaciável quanto a minha.

– Valha-me Deus, Linan! – aflito, recobra a razão que o força a impor uma pausa – há que termos juízo. Precisas de descansar.

Aceito a mistura de prazer, dor e fadiga como um sinal de que se calhar ele tem razão. Então, encosto a cabeça no seu colo e deixo-me ficar quieta, apreciando o céu azul e o luar que penetra pelas janelas. Pelas leis escritas, nenhum dos dois estava obrigado a ficar. Podiamos sair da vida um do outro a qualquer altura. Mas ambos queríamos ficar. E se calhar íriamos continuar a querer. Pelo menos naquela noite. Talvez também na manhã seguinte. Se possível, na semana posterior. E quem sabe, a vida inteira.

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#29 | artigos que não podem faltar em casa (e no coração) de um ser humano – casos de emergência

 

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Imagem: rutagourment

Sonolenta, deambulo pelas vastas esquinas do centro comercial. Porque é que estas tais “lojas” tem de ser tão grandes? Por outro lado, tivesse eu dormido na cama, teria evitado as dores nas costas. Todavia, adormeci no sofá da sala, a ver na tv as notícias sobre ciclones tropicais. Por conta disso, a primeira coisa que fiz ao acordar na manhã seguinte, antes de ir ao cartório, foi verificar os armários, e compilar uma lista de compras. Neste planeta, tudo é possível, especialmente nos últimos dias, em que as mudanças climáticas fazem valer a sua definição. Desastres naturais são imprevisíveis e inevitáveis. Em caso de emergência, um pouco de preparação e alerta, pode significar a linha ténue entre a vida e a morte.

Começo a recolher da prateleira os itens da minha lista. O primeiro é a água. Os humanos julgam que este bem está disponível a todo o tempo. Por causa da minha missão, posso garantir com toda a segurança, que não é o caso. Até porque pode ocorrer de ficarmos sem sistema de abastecimento, ou simplesmente impedidos de sair de casa. Regra de ouro: ter boas reservas de água potável. 4 litros por pessoa, por dia, deve ser suficiente.

Item número dois: medicamentos. Apesar de recorrer a eles só em última instância, é sempre bom ter um kit com pelo menos paracetamol. E no meu caso, já que agora qualquer ferimento precisa de cuidados (ja não cicratizo automaticamente), um kit de primeiros socorros também ajuda.

O terceiro item são velas. Corrente eléctrica pode falhar. Manter um conjunto de velas e um pacote de fósforos pode salvar do escuro durante esses períodos incertos.

Quarto item: comida não perecível. A cruz vermelha recomenda ter sempre comida para pelo menos duas semanas em caso de nos encontrarmos retidos em casa ou à espera de evacuação. Não é necessário que se acumule somente enlatados de feijão. Podemos ter comida não perecível que na verdade vamos gostar de comer, numa situação destas.

Por último, vou atrás de pilhas. Desde que estejamos bem preparados, telemóveis e computadores (essas ferramentas que tornaram-se um só com os humanos), podem continuar a funcionar, mesmo se a electricidade for abaixo. É sempre bom manter power banks carregados, baterias carregáveis e pilhas para os paraelhos que funcionam a essa base. Assim mantemos contacto com os mais próximos em caso de emergência.

– Linan?

As pilhas quase caem no chão. Não creio nos meus olhos.

– Fatinha…!

Recebo dois ardentes beijos no rosto. O calor deixa-me embaraçada. O que faço com esta vontade de abraçar Fatinha? À medida que o tempo sarou-me, senti a sua falta. Da sua amizade. Enquanto em conflito comigo mesma, não fui capaz de perceber que havia sido algo injusta com ela. Ensaio dentro de mim as desculpas. Mas limito-me a comentar:

– Há muito que não te via, Fatinha.

– Mudei de cidade. Linan, sinto-me tão culpada por tudo o que aconteceu…

– Fatinha…

– Deixa-me falar, por favor. Nunca tivemos oportunidade.

– E nem é preciso…

– Para mim é – interrompe com firmeza – Fiquei para morrer quando tu e Will terminaram. Estávamos arrasados pelo teu desaparecimento e talvez tenha sido esse desespero que acabou levando-nos a cometer aquele deslize. Porque foi só isso, um deslize. Algo passageiro, numa noite de bebedeira e de lágrimas. Depressa nos apercebemos que tinha sido um erro. Will é um homem especial, e não vai amar outra que não tu. E sinceramente, nunca perdoei-me por ter perdido a tua amizade.

As palavras entalam-se na língua. Dou por mim envolvida pela lembrança da visita ao cartório naquela manhã. Tinha sido com o propósito de assinar os papéis do divórcio. Não foi uma experiência agradável. A sala quente guardara uma gelada agonia. Uma tensão parecida a do ambiente que espera um caçador abater a presa. É um processo doloroso por natureza. Pouco humano. Will e eu assináramos a certidão, sem trocarmos muitas palavras. No fim, ele foi-se embora. Nem sequer lembro-me de ter visto o seu rosto. Parte de mim ficou derrubada ao saber que “oficialmente”, passáramos a ser nada um para o outro. Mas assim era. A reciclagem humana. O varrer e o despejo dos cacos.

– Não guardo ressentimentos Fatinha, e honestamente, peço desculpas se tratei-te mal. Na verdade o Will e e eu acabamos de assinar o divórcio.

– Oh não. Linan…

– Va la Fatinha – os meus lábios curvam-se num leve sorriso e então abraço-a. – não te sintas mal. Compreendo. Passa lá por casa um dia destes.

– Passo sim – concorda Fatinha

É incrível como tudo passa. Quem diria. Neste momento, nada do que tinha acontecido importava. Eram apenas marcas e recordações, como a foz que desaguou no mar.

Confiro os itens no cesto. Está completo. E dentro de mim, como a ponta de uma vela, acende-se uma estrela, clareando o sentimento renovado de tranquilidade e reconciliação. Coisas indispensáveis para o coração de um ser humano.

Resenhas

Literatura | O homem que comeu o hospital, de Edmilson Mavie

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Autor: Edmilson Mavie

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Onde comprar: Fundação Fernando Leite Couto

Opinião

Confesso que demorei um pouco para ler este livro. Há obras que em certos momentos não se coadunam com o nosso estado espírito (ou vice-versa), e foi o que aconteceu com esta, a primeira vez que abri e explorei os primeiros dois contos.

Recentemente retornei à leitura. Desta feita, ela ocorreu num piscar de olhos. O escritor, tão naturalmente explorador do universo moçambicano onde se inspira para criar as suas histórias, transparece um contacto íntimo com a realidade à sua volta. Talvez, quem sabe, pela sua profissão. Ou por simplesmente ser um bom contador de histórias.

O vazio causado pela morte, a sede pelo poder, a ausência de uma mão mais provedora do sistema, as relações interpessoais, e por fim, o lado mais místico, e às vezes sinistro do próprio ser humano, são os elementos que compõem e ligam os cerca de 14 contos presentes nesta colectânea.

Contos como “o prognóstico”, “vencidos pela natureza” e “a fatalidade”, contam infortúnios comuns e visíveis na nossa sociedade, mas também desvelam-se como metáforas sobre questões mais complexas. O que seria um sistema médico incapaz de produzir um diagnóstico, ou então um mal-entendido onde um polícia acaba matando uma criança, senão uma conjuntura deficiente, onde todos nós acabamos por ser responsáveis pela tragédia?

Eis uma passagem do conto “a fatalidade”:

“o menino em mínimo movimento, rosto pálido e cianótico, estendeu o braço e abriu a mão com as moedas cintilando. E arrastando a voz em derradeiro momento lançou o mormente olhar à mãe e disse: – desculpa, mamã… é a polícia que só tem balas de matar”.

Relativamente a escrita de Edmilson, achamo-la elegante, acessível e poética. O autor conduz a sua narrativa de forma inteligente, pois consegue trazer um desfecho de certa forma inesperado a cada um dos seus contos. Vale ressaltar, entretanto, que logo no início percebe-se o tom das histórias a que se propõem contar. Outro aspecto interessante do livro, é a abertura de cada conto, que inicia com uma citação ou provérbio, para ambientar o texto.

A partir da segunda metade do livro, a escrita de Edimilson torna-se mais densa. Mais comovente, se nos permitirem. O conto que afigura-se mais colorido é o que dá título a obra. Aliás, o título nos parece ser exactamente o que sugere: uma provocação. Uma alusão aos nossos devaneios internos. E quem não os tem?

A capa e o título são sem dúvida impressionantes. Impossível não despertar a curiosidade para o que guarda o restante. A diagramação do livro é boa. A revisão, contudo, poderia ter sido um pouco mais atenta. Nada, entretanto, que retire o mérito da obra.

É uma leitura definitivamente recomendável.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas

(Por VF da tripulação)