Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Matilde Chabana

O chá

Servir-te-ei a mim

Dentro dos lençóis pecadores

Servir-te-ei o chá, a tosta, a fruta,

Só de calcinha

Não a tires, afasta-a com a poesia dos teus dedos,

Para tocares melhor essas húmidas palavras

The tea

I’ll serve myself to you

Within the sinful sheets

I’ll serve you the tea, the toast, the fruit,

In underwear only

Don’t take it off, pull it away with the rhyme of your fingers,

So that you can better touch these moist words

Poema de Matilde Chabana, in “O Perfume do Pecado”

Publicado pela Editora Kulera

Foto: Jornal Noticias
Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Álvaro Taruma

Quadras Desconcertantes

[…Entrar para dentro deste poema é assassinar a pele

Fica-se órfão de qualquer coisa; de tacto

Como os cegos espiando o sol nos murais da solidão

Perde-se o rigor das palavras por dizer

Entrar no coração deste livro é descalçar os sentidos

Caminhamos como se de um mecanismo a óleo

Até onde já não cresce a planta dos pés

Há por aí distâncias que nenhuma geografia alcança

Escancarar a porta deste desejo é fechar a cortina ao silêncio

Pela manhã limpar os vestígios de um amor mal acabado

Abre-se o filme com a mesma arma do crime

E fecha-se com as mãos atravessadas à garganta…]

Disturbing rhymes

[…to enter this poem is to slaughter the skin

One is orphaned of anything; of a touch

Like the blind spying the sun on the murals of solitude

You lose the strictness of the unspoken words

To enter the heart of this book is to take off your senses

We walk as if through an oil mechanism

To where the sole of our feet no longer grows

There are distances out there that no geography can reach

To open the door of this desire is to close the curtain to silence

In the morning to rinse the traces of an unfinished love

You open the film with the same murder weapon

And close it with your hands across your throat….]

Poema de Álvaro Taruma, in “Recolher Obrigatório do Coração”

Publicado pela Alcance Editores

Foto: OPais
Cantinho da Qawwi, Lançamentos!

Um verso de (one verse by) David Bene & Mélio Tinga (Objecto Oblíquo)

Hoje é verão ou inverno?

Não há boca que responda. A mão tem cinco dedos, isso basta para que saibas que o mundo nunca foi redondo, que há homens que bebem de seu sangue enquanto emagreces a escrever o poema da tua vida.

Is it summer or winter today?

No lips can answer it. The hand has five fingers, that’s enough for you to know that the earth has never been round, there are men who drink their own blood while you slim down writing the poem of your life.

Texto de David Bene & Mélio Tinga, in “Objecto Oblíquo”

Publicado pela OitentaNoventa, brevemente nas Livrarias

Histórias

O Capricho das Borboletas, por Daniel da Costa

Depois do ciclone, o relógio da natureza é assaltado pelos demónios da lentidão e do desânimo. O pescador tem mais tempo para ruminar em silêncio o azar que lhe bateu à porta. Desde o nascer-do-sol ao baile das estrelas, ele abandona-se a um canto do seu vasto quintal, debaixo da única árvore que a fúria dos ventos não arrancou pelas raízes.

Liva foi cuspido para a depressão, uma espécie de varanda do suicídio. Num abrir e fechar de olhos escapou-se-lhe por entre os dedos o sentido da vida, uma vida inteira dedicada à mulher e às artes da pesca. E sem filhos.

A fúria dos ventos não só lhe roubou a esposa. Tirou-lhe o telhado da casa e a esperança que florescia na machamba. A maior parte das cabeças de gado foi devorada pela corrente do rio, com troncos disformes à mistura, umas tantas galinhas cafreais e incontáveis utensílios domésticos.

Agora não consegue tirar o olhar das borboletas que interpretam uma coreografia de cores divinas no seu quintal cercado de plantas espinhosas. As borboletas dão piruetas à volta das flores que teimam em espreguiçar-se com esplendor, exactamente no lugar onde antes o pescador gostava de conversar com a esposa.

Dentro do corpo, da sua alma e do pensamento, tudo continua a doer por inteiro. Ele parece ausente, numa pose de quem fumou soruma, proveniente do planalto. Se calhar, porque o passado lhe acena somente com duas bandeiras: a fiel companhia de um cão rafeiro e uma canoa cujo casco reclama um conserto de pequena monta.

Liva esboça o primeiro plano para evitar o naufrágio nas borboletas da nostalgia, indo pelo atalho mais fácil. De garrafa em punho, passa a encharcar-se de álcool, de domingo a domingo.

Isto, com um agravante. Nos quintais onde o pombe impera, abundam amigos ruidosamente solidários, dispostos a pagar ao pescador uma dúzia de copos do que quer que seja.

Com improvisados sopros de flauta feita de bambú, as sessões são animadas. É quase sempre num estado andrajoso que o pescador acaba por acertar com o portão de casa, auxiliado pelos extraordinários dotes do seu cão rafeiro.

Mesmo assim, Liva tenta subir a fasquia. Da bebida para as saias, vai só um metro. É o bêbado no seu melhor. Mas aí esbarra com a falta de dinheiro para se fazer rodear de mulheres, independentemente da categoria.

Espicaçados pela crise, os prostíbulos também reviram em alta o preço da oferta. O único serviço acessível destina-se a garotos com um pé na puberdade. São as matinées.

As prostitutas içam a capulana para que, num lampejo, os garotos consigam espreitar as suas partes íntimas, preferencialmente sem roupa interior. A partir desse fugaz golpe de vista, os garotos dão asas à imaginação, viajando excitados para bem longe do prostíbulo e da vigilância dos pais.

A dona do sítio não vai dar ao pescador o tratamento concedido aos garotos, mesmo sabendo que as suas finanças não gozam de boa saúde e que, desde a passagem do maldito ciclone, a sua virilidade segue a rota da desgraça.

Mas Liva pertence a uma casta com pouco mais de sessenta anos. Apesar dos constrangimentos sociais e biológicos, merece o respeito da dona do prostíbulo. Por isso, ela propõe um arranjo generoso. Excepcionalmente, o pescador pode frequentar a sua casa, fora das horas de expediente.

Tem direito a uma sessão de matinée, vamos lá dizer, reforçada. A partir da janela da casa de banho, está autorizado a contemplar as suas curvas, durante os banhos. Embora ela não possua a frescura de uma donzela, a oferta não lhe parece má. Para um leão velho, pensa o pescador, é sempre melhor do que nada.

Há, entretanto, um preço para o arranjo. Nesta vida, há sempre um preço a pagar. A troco desta investida essencialmente platónica, Liva deve entregar à dona do prostíbulo uma parte do peixe que capturar durante a faina.  

Selado o insólito acordo, o cão rafeiro passa a ser visto com frequência na varanda da generosa senhora, em dias fixos e à mesma hora. O quadrúpede denuncia o paradeiro de Liva que, nesta altura, já se tornou demasiado dependente dos remendos platónicos.

Os meses voam e, a pouco e pouco, ele consegue passar de simples cliente a amigo. É costume o tempo pregar partidas.

Podes vir almoçar comigo este domingo?

O pescador aceita o convite, agradecido. É a primeira vez que recebe um convite a sério, um convite de mulher, desde que o ciclone despenteou a sua vida, e o deixou na implacável dependência de álcool e das migalhas atiradas pela janela da casa-de-banho.

A muito custo, claro, conserva-se sóbrio. Na data marcada, Liva até sai de casa mais cedo do que o costume, a cantarolar uma letra popular, memorizada numa bebedeira qualquer. É um hino à felicidade.

Desce animadamente em direcção ao rio, atravessando um espesso nevoeiro que não o deixa ver um metro além do achatado nariz. O despertar dos pássaros encontra-o no meio do rio a verificar a eficácia das armadilhas.

Apanha dois peixes, enormes. Retira-lhes as vísceras e lava-os, de forma adequada. Escolhe o mais bonito para o almoço e destina o outro para a venda no cais. Liva arruma a canoa num lugar seguro e vai ao banho, necessariamente demorado.

É aí onde nota que o céu está repleto de borboletas. Intriga-o que, depois do banho, elas o sigam até à sua casa, recentemente reconstruída por voluntários de uma organização não-governamental.

Centenas de borboletas do rio juntam-se à dança entre as flores de casa. Boquiaberto, Liva contempla aquele invulgar espectáculo de cores em movimento.

Perto da hora agendada, mete-se por um caminho que bem conhece. Para não se atrasar, encurta a distância. Não vá o diabo tecê-las. A nuvem gigante de borboletas que o persegue deixa atónitos todos os adultos com os quais se cruza na rua. As crianças, maravilhadas. 

Sem que se aperceba, ao longo do trajecto, as suas rugas vão caindo, uma a uma. As mágoas e os cabelos brancos, também. Liva sente os passos a desenharem no chão pegadas mais firmes, a coluna a endireitar-se e o corpo a despir-se do vício e da fadiga.

Ainda cortejado pelas bailarinas de asas delicadas, o homem chega ao destino e bate à porta, suavemente.

Ao abri-la, a anfitriã fica pasmada. O quintal está deslumbrantemente colorido e o pescador untado pela frescura sedutora de um príncipe retirado de uma fábula.

O que é que se passa aqui, amigo? pergunta ela. 

Liva não consegue encontrar no dicionário palavras para lhe explicar aquele capricho da natureza. Limita-se a segurar o peixe numa mão, enquanto tenta, com a outra, acalmar o cão que, desde o rio, não pára de ladrar para as borboletas.

Nada voltou a ser como antes entre o pescador e a dona dos prazeres.

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

@Todos os direitos reservados

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Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Cantinho da Qawwi

Um conto de (a tale by) Mélio Tinga

“Era um miserável, um pobre apaixonado atrapalhado. Basmeu de Castro Luis nunca antes se vira controlado por um amor tão ardente. A moça pisava o chão com serenidade, a luz do sol transformava-a em flor agigantada no meio de tantas outras. Basmeu apaixonara-se ao vê-la passar repetidas vezes. Certa feita, viu-a passar de um vestido que lhe roçava os joelhos, viam-se as coxas lisas e claras com o ecoar leve do vento de final de tarde.”

“He was a miserable, poor fumbling lover. Basmeu de Castro Luis had never found himself dominated by such passionate love. The girl stepped coolly on the ground, the sunlight changing her into a giant flower among so many others. Basmeu had fallen in love with her when he saw her passing by, again and again. On one occasion, he saw her walk by in a dress that brushed her knees, her smooth, clear thighs visible with the light echo of the late afternoon wind.”

Passagem de “O Pobre e os seus amores”, conto de Mélio Tinga. Leia este e outros contos em “O Voo dos Fantasmas”,

                                                                Livro Publicado pela Ethale Publishing, 2018

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Melita Metsinha

Medo

Morrer de amor

Esse que não mata

Por quem matamos?

É fuga impedida

O voo sem horizonte.

Um sonho sem ti.

Fear

To die of love

That which does not kill

For whom do we kill?

Its a hindered flight

The flight with no horizon.

A dream without you.

Poema de Melita Matsinhe – In Ignição dos Sonhos

                                                                Livro publicado pela Fundação Fernando Leite Couto, 2017

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Pedro Pereira Lopes

3 (Coisas da vida) / 3 (things of life)

uma vida que desce ou folha que envelhece

um poema que flui ou rosto que sorri

um musical sem pernas ou golo celebrado

fotos velas campas ou vozes

árvores velhas com baloiços velozes

qualquer coisa que ateste

até de indevida forma

a essência sublime

das coisas da vida.

3 (things of life)

a life that descends or leaf that grows old

a poem that flows or a face that smiles

a musical lacking legs or a goal to be rejoiced

pictures candles graves or voices

old trees with swift swings

anything that attests

even in an unjustifiable way

the beautiful core

of the things of life

Poema de Pedro Pereira Lopes, in Mundo Blue

                                                                Livro Publicado pela Gala Gala Edições, 2020

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Álvaro Taruma

Há ainda sobre a luz

Palavras que não dizem

Feixes obscuros

Centelhas adormecidas

Mas luz,

Ao contrário,

O osso de que se veste o corpo

E sobe de entre os dedos

Ao encontro do papel claro

Onde a noite gravita

A noite grave

A noite grávida de silêncios e sombras

E mais nada

Luz em reflexo in-vertido

There is still over the light

Unspoken words

Unclear beams

Sleeping flickers

But light,

On the contrary,

The bone of which dresses the body

And rises from between the fingers

To meet the bright paper

Where the night gravitates

The grave night

The night gravid with silences and shadows

And nothing else

Reflection in light in-

Verted.

Poema de Álvaro Taruma – in Para uma Cartografia da Noite

                                                                Livro publicado pela Literatas, 2016

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Nick do Rosário

Fronteira do Silêncio

No teu rosto

teus dedos tristes

fronteira do silêncio

The Silence’s Edge

By your face

your sad fingers

The silence’s edge

Poema de Nick do Rosário – in Gaveta de Cinzas: Solilóquios

                                                                Livro publicado pela Gala Gala Edições, 2021