Histórias, Reviravoltas do Universo

José Mãos Limpas, por Vera Duarte

Acto Primeiro

Giovana Martins tinha-se tornado, nos últimos tempos, na mais famosa cientista africana. Ela tinha feito o curso de Física Nuclear em Portugal no Instituto Superior Técnico de Lisboa e depois fora fazer um doutoramento nos Estados Unidos da América, em Silicon Valley, na Califórnia.
Desde pequena que ela amava as máquinas e tinha por elas uma infinita curiosidade. Muitas das bonecas e outras prendas que lhe ofereciam acabavam invariavelmente desmontadas e montadas por ela vezes sem conta. Contrariamente a muitas das suas colegas da escola primária e do liceu, que se sentiam à vontade nas disciplinas de línguas, história, filosofia e política, ela era boa em matemática, física e ciências naturais.
Os pais, que seguiam com muita atenção os cinco filhos, cedo viram que ela tinha algo de diferente em relação aos outros. Enquanto estes preferiam a algazarra das brincadeiras com os primos e amigos para ocupar os tempos livres, Giovana sempre preferira as brincadeiras mais “sentadas” como eles diziam, ou seja, os jogos de computadores, a desmontagem dos brinquedos seguido de sua montagem e os robôs, quaisquer que eles fossem. Assim, a robótica passou a ocupar um lugar cada vez mais importante e central na vida de Giovana. Após o curso e a pós-graduação nos Estados Unidos, e apesar dos convites que recebeu para lá ficar a trabalhar, regressou a Cabo Verde, já acompanhada de Francisco Almeida, com quem se tinha casado logo no segundo ano de formação em Silicon Valley. Ele também estava a fazer uma pós-graduação em Inovação Digital e era filho de um imigrante cabo-verdiano que há muitos anos se fixara em Boston e aí constituíra família com uma americana.
Os dois tinham-se sentido atraídos um pelo outro praticamente desde o momento em que foram apresentados, ainda no primeiro ano. Foram-se encontrando cada vez com mais frequência e rapidamente à empatia inicial sucedeu o amor. Entenderam que se deviam casar logo e assim se apoiarem mutuamente.
Francisco acompanhou Giovana para Cabo Verde e durante alguns anos deram aulas no Liceu da Praia. Entretanto tiveram dois filhos.
Ao fim de alguns anos ficou claro que, apesar de quererem viver no seu país de origem, não havia condições para desenvolverem o trabalho de investigação que pretendiam. Com o currículo que ambos tinham não foi difícil serem colocados num grande centro de investigação na África do Sul.
Entre o trabalho profissional e a criação dos filhos, Giovana não podia deixar de notar o desregulamento que estava a acontecer em muitos países africanos, entre os quais a própria África do Sul pós Nelson Mandela e, sobretudo, em Angola e Moçambique, países irmãos do seu país natal. Ela via com grande consternação a miséria em que viviam as populações desses países e a riqueza ostensiva e vexatória dos governantes e de um grupo reduzido de cidadãos próximos ao poder. Ela e o marido falavam muito sobre isso com os filhos que, cada vez mais crescidos, também viam com desagrado as inúmeras situações de mal estar das populações africanas, o que muito os interpelava.
Um dia, no momento em que a família estava a passar férias em Cabo Verde, no período entre o Natal e o Fim do Ano, Giovana chamou o marido e os filhos, ambos já a fazerem curso superior, e disse-lhes que naquele dia, enquanto estava a fazer o seu footing matinal, tinha tido uma epifania que gostaria de compartilhar com eles.
Todos ficaram curiosos e perguntaram o que seria.
Ela então explicou que gostaria de construir um robô que permitisse verificar a genuinidade das boas intenções de qualquer candidato que pretendesse concorrer ou que fosse indicado a um cargo público de direcção, para ver se estava a fazer de consciência limpa, a fim de trabalhar em prol do bem comum e não para procurar enriquecer indevidamente, mediante a apropriação descarada dos bens públicos.
O governo da África do Sul, a quem Giovana apresentou o projecto em primeira mão, não quis financiá-lo. Moçambique também se recusou alegando falta de recursos. Já o governo de Angola, presidido por um economista, que estava activamente a tentar mudar o status quo de corrupção em que o país independente se tinha afundado, aceitou o projecto de braços abertos.
Giovana e o marido mudaram-se de armas e bagagens para Angola e ao longo de dois anos trabalharam afincadamente na construção do robô a que chamaram “José Mãos Limpas” como o tinham baptizado desde que a ideia nascera.

Cheios de esperança, Giovana, Francisco e a equipa de investigadores com quem eles tinham trabalhado ao longo dos dois anos, foram entregar o resultado do seu trabalho ao Presidente.
“José Mãos Limpas” era um robô em forma de cadeira, com a aparência de um homenzinho sentado, que tinha na mão direita um capacete e na mão esquerda uma espécie de folha de papel, tudo ligado entre si por uma sofisticadíssima rede de conexões.
O capacete era aplicado sobre a cabeça do candidato quando este já se encontrava sentado e a folha de papel sobre o seu coração.
Ao fim de quatro horas de trabalho de auscultação o robô estaria em condições de elaborar um relatório onde daria indicações sobre o carácter do candidato, os valores, os objectivos, as ambições e, sobretudo, se tencionava trabalhar em prol de todos ou apenas para o seu bolso. A folha de papel sobre o coração permitia ver se ele estava apetrechado de bons sentimentos ou se apenas de cobiça, ódio, rancor ou outro sentimento negativo. O relatório resultaria das respostas dadas pelo candidato a uma série de cem perguntas, conduzidas pelo robô. 
Uma jovem activista de Direitos Humanos, Diana Carolina, que seguia com interesse os trabalhos da equipa de Giovana, foi a primeira pessoa a ser auscultada pois estava interessada em candidatar-se a deputada nas próximas eleições.
A prova decorreu sem incidentes e ao fim de quatro horas veio o resultado: aprovada com distinção! 
A partir desse momento, todos os candidatos a qualquer cargo público em Angola passariam a ser submetidos a esse teste. A Assembleia Nacional do país, preparou e aprovou uma legislação referente ao uso do “José Mãos Limpas” e os primeiros resultados começaram a aparecer pouco tempo depois de a legislação ter entrado em vigor.
Outros países foram a pouco e pouco aderindo ao projecto “José Mãos Limpas”, que passou também a ser conhecido como “Joseph Clean Hands”.

Acto Segundo

 Vinte anos depois, Susana acordou do coma em que um condutor embriagado a tinha atirado, quando atravessava calmamente a rua de Praia de Bote em Mindelo.
Vinha dizendo baixinho que o mundo seria bem melhor se não houvesse essas coisas de fascismo, imperialismo, colonialismo, racismo, chauvinismo, machismo e sobretudo…
Nesse momento, um enorme buraco negro abriu-se no seu espírito e caiu num poço sem fundo.

candidato que pretendesse concorrer ou que fosse indicado a um cargo público de direcção, para ver se estava a fazer de consciência limpa, a fim de trabalhar em prol do bem comum e não para procurar enriquecer indevidamente, mediante a apropriação descarada dos bens públicos.
O governo da África do Sul, a quem Giovana apresentou o projecto em primeira mão, não quis financiá-lo. Moçambique também se recusou alegando falta de recursos. Já o governo de Angola, presidido por um economista, que estava activamente a tentar mudar o status quo de corrupção em que o país independente se tinha afundado, aceitou o projecto de braços abertos.
Giovana e o marido mudaram-se de armas e bagagens para Angola e ao longo de dois anos trabalharam afincadamente na construção do robô a que chamaram “José Mãos Limpas” como o tinham baptizado desde que a ideia nascera.

Cheios de esperança, Giovana, Francisco e a equipa de investigadores com quem eles tinham trabalhado ao longo dos dois anos, foram entregar o resultado do seu trabalho ao Presidente.
“José Mãos Limpas” era um robô em forma de cadeira, com a aparência de um homenzinho sentado, que tinha na mão direita um capacete e na mão esquerda uma espécie de folha de papel, tudo ligado entre si por uma sofisticadíssima rede de conexões.
O capacete era aplicado sobre a cabeça do candidato quando este já se encontrava sentado e a folha de papel sobre o seu coração.
Ao fim de quatro horas de trabalho de auscultação o robô estaria em condições de elaborar um relatório onde daria indicações sobre o carácter do candidato, os valores, os objectivos, as ambições e, sobretudo, se tencionava trabalhar em prol de todos ou apenas para o seu bolso. A folha de papel sobre o coração permitia ver se ele estava apetrechado de bons sentimentos ou se apenas de cobiça, ódio, rancor ou outro sentimento negativo. O relatório resultaria das respostas dadas pelo candidato a uma série de cem perguntas, conduzidas pelo robô. 
Uma jovem activista de Direitos Humanos, Diana Carolina, que seguia com interesse os trabalhos da equipa de Giovana, foi a primeira pessoa a ser auscultada pois estava interessada em candidatar-se a deputada nas próximas eleições.
A prova decorreu sem incidentes e ao fim de quatro horas veio o resultado: aprovada com distinção! 
A partir desse momento, todos os candidatos a qualquer cargo público em Angola passariam a ser submetidos a esse teste. A Assembleia Nacional do país, preparou e aprovou uma legislação referente ao uso do “José Mãos Limpas” e os primeiros resultados começaram a aparecer pouco tempo depois de a legislação ter entrado em vigor.
Outros países foram a pouco e pouco aderindo ao projecto “José Mãos Limpas”, que passou também a ser conhecido como “Joseph Clean Hands”.

Acto Segundo

 Vinte anos depois, Susana acordou do coma em que um condutor embriagado a tinha atirado, quando atravessava calmamente a rua de Praia de Bote em Mindelo.
Vinha dizendo baixinho que o mundo seria bem melhor se não houvesse essas coisas de fascismo, imperialismo, colonialismo, racismo, chauvinismo, machismo e sobretudo…
Nesse momento, um enorme buraco negro abriu-se no seu espírito e caiu num poço sem fundo.

– … e sobretudo se não houvesse tanta corrupção… – concluiu Susana com uma voz fraquinha, quase inaudível, espantando a enfermeira que estava sentada ao seu lado desde que o hospital se tinha apercebido que os sinais vitais pareciam tender a melhorar.

– É um milagre, está a acontecer um autêntico milagre – comentou baixinho para si própria a enfermeira enquanto se dirigia a Susana – Calma, calma o médico já vem aí.
O médico não tardou a chegar. Ao fim de todos aqueles anos de coma aquela mulher voltara a vida.


Susana era uma jovem jornalista muito activa, que vinha fazendo uma série de reportagens, denunciando a corrupção que grassava em Angola e como o povo angolano, dono de um país tão rico, na sua maioria vivia na pobreza e na miséria. Chegou-se a desconfiar que o acidente tivesse sido encomendado. Mas nunca se provou nada… 


Levou algum tempo até que Susana se recobrasse das mazelas que o coma prolongado lhe tinha provocado. Aliás, ela nunca iria recobrar-se completamente. Mas o curioso é que animicamente ela continuava a mesma. E apesar dos seus combalidos quase cinquenta anos, ela ansiava voltar a trabalhar e queria ir a Angola. Havia um zum zum no ar que a estava a intrigar…  


Três meses após ter saído do coma Susana desembarcou no aeroporto de Luanda. Logo ali começou o seu espanto. As pessoas tinham um ar mais arrumado, mais contente, de maior bem-estar. Mesmo os homens que carregavam as bagagens. A miséria, que era a primeira coisa que saltava à vista quando se chegava a Luanda, não irrompia como cogumelos. O que se passava? Onde estavam os grandes outdoors do Presidente? Onde estavam as palavras de ordem do Presidente? Onde as moedas cunhadas com o busto do Presidente? Onde as notas com a face do Presidente? E até no táxi não viu as bandeirolas com o rosto do Presidente omnipresente. Como estava muito cansada foi logo para o hotel.


Aí a mesma surpresa. Em nenhuma parede estava dependurado o retrato ligeiramente sorridente do Presidente. Adormeceu com uma estranha sensação de alívio.
No dia seguinte, a caminho da cadeia de Viana, o espanto foi total. Nem mendicidade, nem deficientes, nem meninos magros de barrigas inchadas. Ela lembrou-se que o que mais a tinha chocado, quando estivera em Luanda a preparar as reportagens cerca de vinte anos atrás, tinha sido exactamente a quantidade de mendigos, de deficientes físicos, de crianças rotas e subnutridas e velhos abandonados a sua sorte. Tinha mesmo entrevistado alguns no caminho que levava à prisão de Viana. Não cabia em si a ansiedade que sentia.
Atónita, perguntou a um transeunte como se tinha chegado a tal estádio de harmonização da sociedade angolana e este respondeu algo espantado:

– Então, não sabe que desde que inventaram a máquina da verdade que todos os candidatos ou indicados a qualquer cargo público são obrigatoriamente a ela submetidos e todos os que forem reconhecidos como vendilhões do templo, corruptos, racistas, fundamentalistas, ditadores, são automaticamente excluídos? Assim, qualquer órgão de governação e qualquer lugar de direcção pública em todo o país só podem ser ocupados por homens e mulheres íntegros, compassivos e competentes, que pensam e trabalham em prol do bem comum e não para o seu enriquecimento pessoal ou dos seus familiares e amigos. É, por isso, que desde então Angola vem mudando radicalmente.

– E como funciona essa máquina da verdade? – Perguntou Susana, ainda atónita.

– É relativamente simples. Quando alguém se candidata ou é indicado para algum cargo de governação ou direcção em organismo público, antes de se submeter à eleição ou aceitar a indicação, é sujeito a um exame na máquina da verdade, onde se infere o seu carácter e a verdadeira nobreza de suas intenções. Se der positivo, sinal verde, segue adiante. Se der negativo, sinal vermelho, fica inibido durante pelo menos dez anos de se candidatar a outro cargo público. Angola e todos os países que têm aderido a este sistema estão a expurgar a horda de criminosos de colarinho branco que há anos conspurcavam a gestão pública. A máquina da verdade chama-se “José Mãos Limpas” ou JML como também é conhecida.

Epílogo
 
Fascinada e embevecida, Susana pôde finalmente aquietar o seu coração e abençoou os anos cinquenta do século vinte e um, que era claramente uma época de prosperidade, sobretudo, para uma parcela da humanidade que tanto necessitara.
Procurou então a cientista Giovana Martins e começou a fazer uma série de reportagens sobre ela e o robô “José Mãos Limpas”. Foi aí que ficou a saber que agora a presidente do país, Diana Carolina fora a primeira candidata a ser submetida a JML.
Dois anos depois Giovana Martins e o marido foram galardoados com o Prémio Nobel da Paz pela enorme contribuição que estavam a dar à consecução da democracia e do desenvolvimento em África e no mundo com a invenção do “Joseph Clean Hands”. 

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

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Histórias

O Capricho das Borboletas, por Daniel da Costa

Depois do ciclone, o relógio da natureza é assaltado pelos demónios da lentidão e do desânimo. O pescador tem mais tempo para ruminar em silêncio o azar que lhe bateu à porta. Desde o nascer-do-sol ao baile das estrelas, ele abandona-se a um canto do seu vasto quintal, debaixo da única árvore que a fúria dos ventos não arrancou pelas raízes.

Liva foi cuspido para a depressão, uma espécie de varanda do suicídio. Num abrir e fechar de olhos escapou-se-lhe por entre os dedos o sentido da vida, uma vida inteira dedicada à mulher e às artes da pesca. E sem filhos.

A fúria dos ventos não só lhe roubou a esposa. Tirou-lhe o telhado da casa e a esperança que florescia na machamba. A maior parte das cabeças de gado foi devorada pela corrente do rio, com troncos disformes à mistura, umas tantas galinhas cafreais e incontáveis utensílios domésticos.

Agora não consegue tirar o olhar das borboletas que interpretam uma coreografia de cores divinas no seu quintal cercado de plantas espinhosas. As borboletas dão piruetas à volta das flores que teimam em espreguiçar-se com esplendor, exactamente no lugar onde antes o pescador gostava de conversar com a esposa.

Dentro do corpo, da sua alma e do pensamento, tudo continua a doer por inteiro. Ele parece ausente, numa pose de quem fumou soruma, proveniente do planalto. Se calhar, porque o passado lhe acena somente com duas bandeiras: a fiel companhia de um cão rafeiro e uma canoa cujo casco reclama um conserto de pequena monta.

Liva esboça o primeiro plano para evitar o naufrágio nas borboletas da nostalgia, indo pelo atalho mais fácil. De garrafa em punho, passa a encharcar-se de álcool, de domingo a domingo.

Isto, com um agravante. Nos quintais onde o pombe impera, abundam amigos ruidosamente solidários, dispostos a pagar ao pescador uma dúzia de copos do que quer que seja.

Com improvisados sopros de flauta feita de bambú, as sessões são animadas. É quase sempre num estado andrajoso que o pescador acaba por acertar com o portão de casa, auxiliado pelos extraordinários dotes do seu cão rafeiro.

Mesmo assim, Liva tenta subir a fasquia. Da bebida para as saias, vai só um metro. É o bêbado no seu melhor. Mas aí esbarra com a falta de dinheiro para se fazer rodear de mulheres, independentemente da categoria.

Espicaçados pela crise, os prostíbulos também reviram em alta o preço da oferta. O único serviço acessível destina-se a garotos com um pé na puberdade. São as matinées.

As prostitutas içam a capulana para que, num lampejo, os garotos consigam espreitar as suas partes íntimas, preferencialmente sem roupa interior. A partir desse fugaz golpe de vista, os garotos dão asas à imaginação, viajando excitados para bem longe do prostíbulo e da vigilância dos pais.

A dona do sítio não vai dar ao pescador o tratamento concedido aos garotos, mesmo sabendo que as suas finanças não gozam de boa saúde e que, desde a passagem do maldito ciclone, a sua virilidade segue a rota da desgraça.

Mas Liva pertence a uma casta com pouco mais de sessenta anos. Apesar dos constrangimentos sociais e biológicos, merece o respeito da dona do prostíbulo. Por isso, ela propõe um arranjo generoso. Excepcionalmente, o pescador pode frequentar a sua casa, fora das horas de expediente.

Tem direito a uma sessão de matinée, vamos lá dizer, reforçada. A partir da janela da casa de banho, está autorizado a contemplar as suas curvas, durante os banhos. Embora ela não possua a frescura de uma donzela, a oferta não lhe parece má. Para um leão velho, pensa o pescador, é sempre melhor do que nada.

Há, entretanto, um preço para o arranjo. Nesta vida, há sempre um preço a pagar. A troco desta investida essencialmente platónica, Liva deve entregar à dona do prostíbulo uma parte do peixe que capturar durante a faina.  

Selado o insólito acordo, o cão rafeiro passa a ser visto com frequência na varanda da generosa senhora, em dias fixos e à mesma hora. O quadrúpede denuncia o paradeiro de Liva que, nesta altura, já se tornou demasiado dependente dos remendos platónicos.

Os meses voam e, a pouco e pouco, ele consegue passar de simples cliente a amigo. É costume o tempo pregar partidas.

Podes vir almoçar comigo este domingo?

O pescador aceita o convite, agradecido. É a primeira vez que recebe um convite a sério, um convite de mulher, desde que o ciclone despenteou a sua vida, e o deixou na implacável dependência de álcool e das migalhas atiradas pela janela da casa-de-banho.

A muito custo, claro, conserva-se sóbrio. Na data marcada, Liva até sai de casa mais cedo do que o costume, a cantarolar uma letra popular, memorizada numa bebedeira qualquer. É um hino à felicidade.

Desce animadamente em direcção ao rio, atravessando um espesso nevoeiro que não o deixa ver um metro além do achatado nariz. O despertar dos pássaros encontra-o no meio do rio a verificar a eficácia das armadilhas.

Apanha dois peixes, enormes. Retira-lhes as vísceras e lava-os, de forma adequada. Escolhe o mais bonito para o almoço e destina o outro para a venda no cais. Liva arruma a canoa num lugar seguro e vai ao banho, necessariamente demorado.

É aí onde nota que o céu está repleto de borboletas. Intriga-o que, depois do banho, elas o sigam até à sua casa, recentemente reconstruída por voluntários de uma organização não-governamental.

Centenas de borboletas do rio juntam-se à dança entre as flores de casa. Boquiaberto, Liva contempla aquele invulgar espectáculo de cores em movimento.

Perto da hora agendada, mete-se por um caminho que bem conhece. Para não se atrasar, encurta a distância. Não vá o diabo tecê-las. A nuvem gigante de borboletas que o persegue deixa atónitos todos os adultos com os quais se cruza na rua. As crianças, maravilhadas. 

Sem que se aperceba, ao longo do trajecto, as suas rugas vão caindo, uma a uma. As mágoas e os cabelos brancos, também. Liva sente os passos a desenharem no chão pegadas mais firmes, a coluna a endireitar-se e o corpo a despir-se do vício e da fadiga.

Ainda cortejado pelas bailarinas de asas delicadas, o homem chega ao destino e bate à porta, suavemente.

Ao abri-la, a anfitriã fica pasmada. O quintal está deslumbrantemente colorido e o pescador untado pela frescura sedutora de um príncipe retirado de uma fábula.

O que é que se passa aqui, amigo? pergunta ela. 

Liva não consegue encontrar no dicionário palavras para lhe explicar aquele capricho da natureza. Limita-se a segurar o peixe numa mão, enquanto tenta, com a outra, acalmar o cão que, desde o rio, não pára de ladrar para as borboletas.

Nada voltou a ser como antes entre o pescador e a dona dos prazeres.

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Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Cantinho da Qawwi

Um conto de (a tale by) Mélio Tinga

“Era um miserável, um pobre apaixonado atrapalhado. Basmeu de Castro Luis nunca antes se vira controlado por um amor tão ardente. A moça pisava o chão com serenidade, a luz do sol transformava-a em flor agigantada no meio de tantas outras. Basmeu apaixonara-se ao vê-la passar repetidas vezes. Certa feita, viu-a passar de um vestido que lhe roçava os joelhos, viam-se as coxas lisas e claras com o ecoar leve do vento de final de tarde.”

“He was a miserable, poor fumbling lover. Basmeu de Castro Luis had never found himself dominated by such passionate love. The girl stepped coolly on the ground, the sunlight changing her into a giant flower among so many others. Basmeu had fallen in love with her when he saw her passing by, again and again. On one occasion, he saw her walk by in a dress that brushed her knees, her smooth, clear thighs visible with the light echo of the late afternoon wind.”

Passagem de “O Pobre e os seus amores”, conto de Mélio Tinga. Leia este e outros contos em “O Voo dos Fantasmas”,

                                                                Livro Publicado pela Ethale Publishing, 2018

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Melita Metsinha

Medo

Morrer de amor

Esse que não mata

Por quem matamos?

É fuga impedida

O voo sem horizonte.

Um sonho sem ti.

Fear

To die of love

That which does not kill

For whom do we kill?

Its a hindered flight

The flight with no horizon.

A dream without you.

Poema de Melita Matsinhe – In Ignição dos Sonhos

                                                                Livro publicado pela Fundação Fernando Leite Couto, 2017

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Pedro Pereira Lopes

3 (Coisas da vida) / 3 (things of life)

uma vida que desce ou folha que envelhece

um poema que flui ou rosto que sorri

um musical sem pernas ou golo celebrado

fotos velas campas ou vozes

árvores velhas com baloiços velozes

qualquer coisa que ateste

até de indevida forma

a essência sublime

das coisas da vida.

3 (things of life)

a life that descends or leaf that grows old

a poem that flows or a face that smiles

a musical lacking legs or a goal to be rejoiced

pictures candles graves or voices

old trees with swift swings

anything that attests

even in an unjustifiable way

the beautiful core

of the things of life

Poema de Pedro Pereira Lopes, in Mundo Blue

                                                                Livro Publicado pela Gala Gala Edições, 2020

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Álvaro Taruma

Há ainda sobre a luz

Palavras que não dizem

Feixes obscuros

Centelhas adormecidas

Mas luz,

Ao contrário,

O osso de que se veste o corpo

E sobe de entre os dedos

Ao encontro do papel claro

Onde a noite gravita

A noite grave

A noite grávida de silêncios e sombras

E mais nada

Luz em reflexo in-vertido

There is still over the light

Unspoken words

Unclear beams

Sleeping flickers

But light,

On the contrary,

The bone of which dresses the body

And rises from between the fingers

To meet the bright paper

Where the night gravitates

The grave night

The night gravid with silences and shadows

And nothing else

Reflection in light in-

Verted.

Poema de Álvaro Taruma – in Para uma Cartografia da Noite

                                                                Livro publicado pela Literatas, 2016

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Nick do Rosário

Fronteira do Silêncio

No teu rosto

teus dedos tristes

fronteira do silêncio

The Silence’s Edge

By your face

your sad fingers

The silence’s edge

Poema de Nick do Rosário – in Gaveta de Cinzas: Solilóquios

                                                                Livro publicado pela Gala Gala Edições, 2021

Desabafo de uma qawwi

#37 | De volta ao começo (última parte)

– Teste, um, dois – repito.

Primo o botão, a pontinha de luz vermelha do gravador cede.

– Tão rudimentar… achas que vai funcionar, Linan?

– Confio que sim, deste-lhe um jeito, tem de funcionar.

Volto a clicar o botão e ouço a minha voz repercutir pelo aparelho. Avanço com a gravação, deixando registada a mensagem:

Olá. O meu nome é Linan. Se este aparelho e o meu diário foram parar às suas mãos, significa que de alguma forma, perdi-me do meu caminho. Por favor, ajude-me a reencontrar-me. Tudo o que você vai ler é real. Foi o meu dia a dia, durante a passagem por esta terra. Poderia ter sido uma visita breve, não fosse a mutação, os vícios do corpo e da alma de humana, alongarem a jornada.

Deixe-me esclarecer: sou do reino de Stefanotis, que orbita numa dimensão distante desta. Tenho a pele trigueira, cabelo negro como o carvão vivo, que favorece os meus olhos azuis florescentes. Pareço bastante com você, ou seja, tenho o aspecto de um humano. Se estivermos no mesmo mundo, e caso esbarre comigo, ajude-me. Quem sabe você veja as coisas com mais clareza do que eu fui capaz. E caso me encontre, acorde-me, faça-me recordar. Disso depende, muito provavelmente, a esperança de toda a humanidade. Obrigada.

Vallen olha para mim, e num gesto inesperado, dá-me a mão. Afinal, só temo-nos um ao outro. E os inimigos também se abraçam.

– Será que vai ser doloroso?

– Espero que não.

Esfregamos as particulas de tamarino nos nossos pulsos. Pensamos no começo. Soltamo-nos da terra.

Mas a terra, no seu vazio, torna-se mais negra que o luto do meu peito. Isto não é o meu planeta. Mas também não é a terra.

– Acorda Linan!

Estou acordada. Mas não sei o que vejo ao redor, estas telas, estas velozes estrelas.

– Passaste da conta – continua a mesma voz, assustadoramente familiar.

Estico-me. E deparo-me comigo mesma. Sou ambas.

– Sim, eu sou tu. Deixa-me reorientar-te para que te reencontres Linan… tens de regressar.

– Um minuto – a minha mão trava-se no acelerado teclado flutuante  – avancei? Avancei quanto tempo?

– Pelo menos um ano, Linan.

A minha mente guina com a mesma força de um meteorito, à medida que o resultado matemático desliza da minha boca, arrancando-me da suspensão. Aterro em frente à uma das telas.

– Um ano? Significa… oh! 30 anos do planeta terra?

– Precisamente.

– A esta altura, estarei atrasada?

– A esta altura já quase nada sobra.

Engulo em seco.

– Posso?

– O quê?

– Ver o que resta?

Ela observa furtivamente as telas.

– Compreendes, Linan, que tens de reorientar-te dentro desta janela, se não corres perigo de vida?

– Compreendo, mas preciso saber.

Deixo os meus dedos manejarem freneticamente o ecrã de uma das telas. Os meus olhos inundam-se de lágrimas, da força impetuosa que brota do meu peito ao ver a terra. A satisfação é tanta que o sorriso transfigura-se num desproporcional esgar.

– Eles venceram!

Os humanos. Estão felizes. Não há nuvens escuras pelos ares. Os mares são azuis como o céu. Eles se abraçam, sem discriminação. Todos eles. Descobriram que o amor não é só uma palavra, ou um sentimento. Descobriram que há uma razão para ele existir. Finalmente, os qlubs estão equilibrados! A minha outra eu aproxima-se, com as mãos escondias por detrás das costas, sugerindo que algo está a escapar-me.

-Lembras-te quando Vallen disse, Linan? Que existem duas variáveis? Pois, ele estava certo. Esta variável foi salva por antecipação. 30 anos atrás. Na dor, expostos diante das suas próprias fracturas, os seres humanos transformaram-se para melhor.

– Então porque é que disseste que não sobrou nada?

A tristeza que emana dela, estranhamente, é minha.

– Olha com atenção.

Ela desliza o dedo na tela, para que eu veja o que até então me estava a passar. Não são precisos mais de cinco minutos para que uma onda de terror atinja-me em cheio.

– O que é isto?

– Planeta Terra.

– Mas… parecem frívolos ikras?

– Esta é a dimensão de que Vallen falava.

– Como assim?

– Numa outra versão de si próprios, os humanos não aprenderam nada. Trinta anos atrás, perderam a oportunidade. Seus conceitos bélicos, egocêntricos e separatistas foram exacerbados. E isto abriu as portas para o que Kosi queria, o pior cenário… que é…

– Não digas mais – murmuro. É como se acabasse de receber uma bofetada.

De que lado a minha família ficou? Do lado dos humanos que havia aprendido, ou do lado dos que tão somente havia piorado?

– Reorienta-me, por favor, de volta ao começo!

– Estás preparada? Para começar do zero? Toda esta conversa, tudo o que viveste…

– Estou pronta.

– Ok. Então… até um dia.

Desabafo de uma qawwi

#36 | De volta ao começo: duas dimensões

Sempre soube que haveria um preço alto, e uma consequência, pela escolha que fiz. A cobrança chegou. Os meus bolsos, porém, quedam-se vazios. Não sou capaz de pagar.

Para esta terra, Will está morto. Onde ficam os discursos, sobre a morte não ser definitiva, sobre a possibilidade de ele estar a ir, neste exacto momento, ao meu planeta? Arrastam-se aos confins da minha dor. Aceitar que Will está a fazer a transição, implicaria dar por terminado o nosso amor. Como posso fazê-lo, se ainda o amo? Como aceitar que os humanos vivem tão pouco, quando eu quero continuar a estar com ele?

– Tens de te concentrar, Linan, não sejas egoísta! Ele está a atravessar…

Viro-me com brusquidão, como se tivessem disparado gases lacrimogéneos com o efeito oposto, deixando-me agitada. Aquela voz e figura que surgem no escuro, que dissipa a multidão, ignora e sempre ignorará o que eu sou, o que eu me tornei.

– Não sabes do que falas, Vallen! E se ele estiver a ser levado por rapadores…? – as frases saem-me pela metade, entrecortadas à lamina do meu frio e magoado coração.

– Achas que o teu queridinho é o tipo de humano que não será encontrado por um vigilante, Linan? – ele segura-me firme pelos punhos, e de seguida estica a mão, para mostrar-me um saco com conteúdo familiar, muito brilhante. O meu peito comprime, a testa pinga, e sinto a venda cair dos meus olhos.

– Usaste as partículas de tamarino com Will!

Os lapsos de memórias. A variação do seu humor. Agora compreendo. Will sabia o que ia acontecer. Protegera-me. Como ousara abandonar-me, sozinha, no seu planeta?

– Retribui esse sacrifíci,o Linan – a voz de Vallen parece distante – salva este povo, regressa comigo.

– Regressar? De que falas?

– A única forma de salvá-lo, é cumprires a tua missão. E tu falhaste. Ambos falhamos. Caímos na dimensão errada. Esta não é a terra de Selénio. Existem duas dimensões, e esta dimensão Linan…

Duas dimensões? Inúmeras hipóteses brotam na minha cabeça, mas este fracasso gigante, esta perda estrondosa, formam um quadro horripilante, uma competição de desastres com as quais não consigo lidar.

– Rei Selénio nunca falou de…

– Lembra-te bem de quem és, Linan!

“Trago uma humana dentro de mim, Vallen, que passou a amar estas pessoas, não suporto ter que perdê-las, não posso!” teria dito, não estivessem as palavras entaladas.

– E é por isso que vais comigo – prossegue Vallen. – Regressa comigo até o princípio.

Finalmente reajo:

– O que queres dizer com princípio?

– Antes da queda.

– Antes da… queda? – repito. O meu sangue congela. Fazer uma viagem tão longa no espaço temporal tem sérios impactos. Tão sérios que não me sinto capaz de arcá-los.

– Não me peças isso.

Anular tudo? Arriscar-me a esquecer-me por completo? Perder-me no oblívio? Como posso esquecer-me que um dia tornei-me humana? Que gerava um ser dentro de mim, o qual já era amado? Como posso renegar o amor por eles, pelos meus amigos, por esta terra? Se não podia estar com Will, queria pelo menos contentar-me com as memórias. Estes humanos são sagrados moradores do meu coração, como posso, simplesmente, apagá-los? Não existe um só momento que valha a pena ser anulado, nenhum.

– Não há outra forma, Linan. Tens de voltar e focar-te na tua missão, sem distracções. Quem sabe, assim, se fores bem sucedida, os voltes a ver.

– Mas se anular tudo…

– É melhor assim. Foste tocada pelo seu amor e eles pelo teu. Ainda que se esqueçam. É uma marca que vai ficar, e essa é a tua única hipótese. Vamos Linan. Tens de recomeçar e encontrar um homem chamado Jorge Montani, no Brasil, antes que seja tarde.

– De que lado estás, afinal?

– Vais saber, quando tudo terminar.

Respiro fundo, enxugo os olhos molhados.

– Ok. Mas antes de partirmos, ajuda-me a encontrar um… como eles chamam? Um gravador! Ajuda-me, Vallen, preciso de um gravador!

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