Desabafo de uma qawwi

#31|Milagre a dois

No planeta dos seres humanos há várias teorias sobre os pesadelos. Esta espécie de delírio que penetra o nosso subconsciente durante o sono, arrancando-nos graves suspiros de medo. Há quem diga que os pesadelos evoluíram para tornar os humanos mais alerta sobre possíveis ameaças. Outros, que este tipo de alucinação não passa de uma reacção a algum estímulo exterior. É um fenómeno, que, enfim, extravasa todas estas tentativas de entendimento. Mas o que descobri, recentemente, parece incontestável: de alguma forma, os pesadelos preparam-nos para o futuro.

Naquela noite, Will levantou-se com o coração descompassado, o peito molhado e os dentes apertados de tanto pânico. As estrelas pareciam derreter nos seus olhos aflitos. Amparei-o, tentando acamá-lo.

– Will? Tiveste um pesadelo?

– Acho que sim, não lembro… abraça-me, Linan – pediu depressa, buscando conforto no meu corpo, querendo-me com o desejo de um alcoólatra que procura o seu alento numa garrafa.

Sim, tivera um pesadelo. Mas qual era o alerta que o seu instinto tentava activar?

Beijei-o até o alvorecer. Normalmente o beijo conseguia sarar onde mais doía. E disso era feita a nossa rotina diária, após aquele tempo todo separados. Quando um estivesse em apuros e não pudesse chegar lá, o outro carregava. Nem que fosse nas costas mancas e nuas. Compreensão, e sobretudo, cumplicidade. Era o que precisávamos. E éramos felizes, mesmo quando surgissem pedras. Só que um dia tropeçamos. Afinal, o que era certeza, também sabia ser angústia, construindo por fim o início da queda.

– Deve ser uma comida que não caiu bem, ou estás doente outra vez – constatou Will preocupado, ao ver-me vomitar já pela segunda vez naquela semana. Não quis ao ir médico. O meu gigante apetite andava ampliado, por isso julguei que fosse apenas uma indigestão. Mas as náuseas repetiram-se. Quando veio o torpor, a sensação do estômago queimado e por fim o sangue escuro vertendo de dentro de mim, aceitei ir ao hospital.

Alguns exames terráqueos depois, tive o diagnóstico. Nunca, em hipótese alguma, havíamos previsto a notícia:

– A senhorita está grávida. E vai precisar de alguns cuidados… – avançou a doutora, sem pudores.

É assim meus amigos, sabem que muitas vezes perdi-me, durante esta aprendizagem, de ser humana. Nunca como naquele instante. Deixei de ouvir a médica. Apertei a mão de Will, como se o gesto fosse tapar o abismo que se abria entre nós, deixando espreitar segredos e temores que se empilhavam à superfície, ameaçando rebentar as amarras que uniam a nossa confiança.

– Tem a certeza, doutora? – a voz de Will estava por um fio.

– Sem sombra de dúvidas. Já conta com dois meses.

A elucidação da médica arrepiou-me. Não havia preparo para aquilo. Eu não queria ser mãe, nem pensar. Não num mundo que tenho por certo estar à beira do fim.

Por outro lado, percebi que a alma de Will havia ficado engasgada. Como se, de repente, um cavalo se atrelasse às suas costas. Não sabia se era um milagre ou uma maldição. Se se permitia vibrar ou se procurava perdão para o assassino dentro de si, sequioso de cortar-me em duas. De dividir-me em qawwi e em humana. Pois quem sabe assim, encontrasse alguma explicação plausível para o que acabava de ouvir.

– Linan – voltou a falar quando já estávamos em casa. Custava-lhe. Como se um frio severo, desses que seca o sangue, congelasse os seus lábios – Sabes que… eu não posso ter filhos, é impossível. Será que – outra sustenida pausa – será que – e mais outra – é por seres qawwi, é pelo teu corpo, os teus poderes… é isso?

A resposta que borbulhava na minha boca preocupava-me até aos fios do cabelo.

– O meu corpo tornou-se humano. Sou uma pessoal normal como tu, Will, não tenho poderes nenhuns. Nem sei o que pensar.

O pulsar da notícia, a ausência de uma resposta, ganhou força nos contornos do rosto de Will. A pergunta continuou gritando, em silêncio. Poderia ser o derradeiro milagre? Ou a dúvida ia começar a penetrar por caminhos que julgávamos outrora veemente fechados?

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