Desabafo de uma qawwi, Dia a dia de uma qawwi

#24 |O preço da liberdade

Uma lua plena dominava o céu escuro de Sydney, a cidade escolhida para a nossa última paragem. A janela do apartamento com vista para uma linha férrea, parecia o espelho do mundo. Comboios traziam chegadas e partidas, como quem traz ar para dentro e fora dos pulmões.

Sentada numa cabeceira tão pequena quanto a minha liberdade, lutava para terminar a tarefa. Era quase como tentar vencer o espaço. Restavam-me cinco minutos. A cabeça latejava, os braços tremiam. Agora tinha apenas dois minutos. Levei a mão ao rosto e limpei uma gota de suor. Sacudi a gola da camisola, decidida a controlar o meu destino. Mais um toque, um gemido de dor, e a pedra abriu-se. A luz que explodiu de dentro dela, irradiando todo o meu ser, não era outra coisa senão o meu coração em jubilo. Suspirei, aliviada. A partir daquele momento, caso a minha teoria estivesse certa, tudo o que eu tinha feito desde que chegara ao planeta terra, tudo o que havia tocado com a força dos meus poderes, permaneceria intacto. Acontecesse o que acontecesse. Isso significava que já podia voltar para casa. Após dois anos de ausência, a correr pelo mundo com Vallen, a fingir abraçar uma causa que não era minha, iria tornar a abraçar a minha família humana.

Nervosa e sem tempo, deambulei pelo apartamento. As janelas nuas entregavam-se solenemente aos reflexos do luar. Em desespero, procurei o oitavo qlub. Não podia deixar que Vallen ficasse na posse do objecto. É claro que ele consideraria o meu acto uma afronta, uma traição. Mas não existiam outras opções. Eu ia voltar para casa, e carregaria comigo as chances do inimigo destruir o planeta terra. Deparei-me, por fim, com o objecto. Vallen não se esforçara para o esconder.

Contei cada um dos meus medos, por forma a que pudesse medi-los. Primeiro os mais pequenos: medo de a minha teoria falhar. De não ser capaz de conviver com isso. Depois os maiores: medo de não recuperar a minha família. De ser apanhada por Vallen e perder os meus poderes. Porém, o medo de um mal, só leva à um mal ainda maior.

Meti o objecto no bolso.

– Aonde é que vais com o qlub, Linan?

Sabia que a voz às minhas costas pertencia ao meu maior medo. Vallen se tinha materializado dentro do quarto. Talvez estivesse a vigiar-me há muito tempo. Virei-me para ele buscando força em cada fibra do meu corpo. Disso dependia o meu futuro como qawwi. Arremessei-o para longe, mas Vallen regressou como tempestade. Todas as peças no quarto levitaram e vieram disparadas na minha posição. Desviei-me e atirei flechas quentes. A minha pontaria andava tão certeira quanto o meu desejo de voltar para casa. Vallen caiu no chão. Uma fecha despontava vitoriosa no seu ombro. Julgava eu ter vencido a batalha, mas tal pensamento desvaneceu-se quando dei por mim, parada no mesmo local, incapaz de teletransportar-me. A luz do luar relampejava pelo quarto inteiro.

– Eu sou um qawwi de palavra, Linan – Vallen lançava-me um olhar decepcionado, ao mesmo tempo que erguia-se, com uma mão pousada no ombro em cicatrização. Tinha os olhos vermelhos quando ergueu o braço na minha direcção – por ordens do Rei Réon que dá-me poderes e autoridade para isto.

– Não – murmurei lívida de pânico, sem conseguir mover-me.

– Vais sair daqui sim, Linan, mas não como qawwi.

E então percebi, quão alto era o preço da liberdade. Não era capaz de o pagar.

– Vallen, por favor, não.

Ele meteu a mão na minha cara. Senti os meus olhos acuarem-se, num misto de súplica e ira. Vallen transpirava. Sentia dor. Custava-lhe. Mas ainda assim não se deteve. Gritei, pois parecia que me cortavam à faca. A minha pele adquiria um tom acinzentado, sangue corria-me pelo nariz, e o meu rosto começou a esticar-se, como se quisesse abandonar o corpo. A minha essência de qawwi libertava-se, para sempre, do meu ser.

Vallen baixou a mão e eu tombei para o lado.

Ele agachou-se, vasculhou-me os bolsos e tirou o oitavo qlub.

– Aí tens. Tira bastante proveito dos dias que te restam na reles vida que escolheste como humana.

E desapareceu do quarto.

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Imagem: TVD – canal CW – Fonte Theodysseyonline

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#21| Leva contigo o meu coração

Apesar da grandeza do Rio de Janeiro, consegui localizá-lo. Mais rápido do que previ. Rondava pelo telhado do prédio, quando finalmente vi o meu inimigo. Aterrei no pulo de um gato e comecei a disparar várias flechas contra ele. Os qawwis só perecem se atingidos no peito ou na cabeça. Todavia, o ferimento que causei, embora fosse cicatrizar automaticamente, servira para o neutralizar. Lancei bolhas de energia e de seguida atirei-me sobre o seu pescoço.

– Devolve a humana, agora!

Vallen grunhiu.

– Ai sim? Se não o quê? – Apesar de sufocada, a voz abafada daquele qawwi vil continuava eivada de afronta. Isso irritou-me e fez-me cercá-lo com muito mais força.

– Se não eu mato-te e vou sozinha atrás dela. Vou encontrá-la, Vallen, demore o que demorar.

Podia ser pelo facto de ter passado as últimas noites em claro. Ou então, por apenas há alguns dias, eu ter casado e perdido a família. Numa única noite. Mas a verdade é que eu tinha sede daquele confronto. Sentia a morte no ventre. E não duvidava que um de nós fosse sucumbir. Estava na hora.

Vallen fez um novo grunhido. Uma gargalhada confinada.

– Tu não me vais matar, Linan.

– Qual seria a razão para não o fazer?

– É simples – as suas veias pulsavam como um vulcão em erupção – matas-me e estarás também a matar a tua querida humaninha. A minha vida está atada à dela, minha cara, portanto, tudo o que fizeres comigo, será sentido por ela.

Imediatamente tirei o braço. Sabia que o que ele dissera era possível, e portanto, havia todas as chances de ser verdade.

– Ai minha doce Linan…- Vallen ajeitou a camisa e cruzou os braços – Pelo Rei Réon tu já terias sido permanentemente banida de Stefanotis. Eu trago autorização dele para extirpar-te dos teus poderes. Só não o fiz porque ainda tenho esperança em ti. Estou ao teu lado, Linan.

– Faz-me rir. Se tivesses o poder de extirpar-me, já o terias feito…

– Acontece que preciso de ti com os teus plenos poderes. Da-me o oitavo qlub.

– Não sei nada sobre o oitavo qlub. Ainda estou a meio da minha missão.

Vallen adquiriu um brilho nos olhos.

– Eu sei. Mas acredito nas tuas habilidades, Linan. Ajuda-me a encontrar o oitavo qlub, e eu dou a minha palavra que não rei extirpar-te. Se não me obedeceres, executo a decisão do rei Réon agora mesmo.

O meu sangue gelou. Ser extirpado significa perder a essência. É um dos piores castigos no meu planeta. E só Reon, qawwi supremo, podia aplicar tal medida. Um qawwi extirpado deixa de ter os seus dons, fica imune às doenças e não demora a envelhecer. Em outras palavras, torna-se humano. Algo que eu, nem sequer, conseguia cogitar. Então quais eram as minhas opções? Pôr-me em primeiro lugar e salvar-me? Ajudar Vallen na destruição do planeta terra? Era isso que eu devia fazer?

– Prefiro morrer a juntar-me à ti, Vallen.

O brilho nos seus olhos desapareceu e ele avançou.

Na rapidez de um cometa, senti-me mergulhar num buraco negro. Ia deixar de ser uma qawwi.

Então, subitamente, Vallen retrocedeu. Parecia admirado:

– Preferes mesmo ser extirpada, do que obedecer o rei Réon? De facto deves amar bastante essa tal humanidade. O que é que eles fizeram por ti? – o vinco na testa dele desapareceu e o sorriso jocoso regressou – mas seja feita a tua vontade, Linan. Lembra-te apenas de uma coisa: os teus poderes e dons vão desaparecer para sempre e tudo o que fizeste antes será anulado. Eu faço-te a vontade…

– Espera!

Ergui o braço em defesa. Percebi nesse instante que não estava preparada para tamanha crueldade. Não queria deixar de ser uma qawwi. Essa revelação pesou ainda mais, ao lembrar-me de que eu tinha usado os meus poderes para curar Will de uma doença fatal. Se os meus poderes desaparecessem, era provável que tudo voltasse ao estado original. Will podia morrer. Coisa normal neste mundo que eu tanto queria abraçar. No entanto, não era capaz.

– Eu faço o que queres, Vallen. Vou contigo procurar o oitavo qlub – ele rompeu num urro de vitória, que tratei de interromper. – mas tem uma condição: temos de devolver a menina ao pai.

– Trato feito, minha amiga! Devolvemos a menina, e seguimos a nossa viagem.

Pouco depois, estávamos em frente de casa. Vallen permitiu que me despedisse de Will. Entretanto ao vê-lo de longe, pelo vidro da varanda, não tive coragem de entrar. Will esperava ardentemente pelo nosso regresso. Eu sentia-o. Mas se chegasse perto, não teria força para abondona-lo.

Ajoelhei-me em frente de Érica e arranjei-lhe a gola do vestidinho. Até os canários do jardim percebiam a minha tristeza.

– Quero que corras para casa, minha filha. Vai dar um abraço ao pai.

– Mãe… tu não vens?

Olhei mais uma vez para a varanda envidraçada. Will ainda não tinha dado pela nossa presença. Afaguei o cabelo de Érica.

– Venho mais tarde – era a primeira vez que mentia para a minha filha – Diz ao pai que a mãe ama muito vocês, e vai amar para sempre. Sê uma boa menina.

– Está na hora de partirmos Linan. – advertiu Vallen.

Abracei Érica com muita força.

– Corre, vai dar um abraço ao pai!

Ela correu. E com ela levou o meu coração.

Vallen estendeu-me a mão. Era como se a gravidade e os astros se tivessem feito ausentes. Precisava de recuperar o equilíbrio, e agarrei-me ao apoio mais próximo. A mão de Vallen. Foi nesse instante que Will abriu a porta para Érica e viu-me. Poucos segundos antes de Vallen e eu desparecermos pela noite preta.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | 5 séries difíceis de não fazer bing watching

Cinema | 5 séries difíceis de não fazer bing watching

Tudo em excesso faz mal, diz o ditado, mas quem é que não cai na tentação do bing watching (maratona de TV) quando trata-se de séries infalivelmente viciantes? Especialmente num feriado ou fim de semana mais sossegado? Não há pecado (tão grande) nisso. Se você é fã de séries com suspense e “plot twists” inimagináveis, do género que quase leva ao ataque cardíaco, então não pode perder estas séries. Vai ser um episódio atrás do outro, sem remorso.

Confira:

How to get away with murder (BR como defender um assassino)

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Desde 2014 / 43 minutos / Drama legal, mistério

Produtor executivo: Shonda Rhimes

Idioma: inglês

A série revolve a volta de Annalise Keating, uma célebre advogada de direito penal que também dá aulas. Annalise selecciona cinco dos seus melhores alunos para trabalharem com ela no seu escritório e cedo, sem querer, todos eles vêem-se envolvidos numa trama de assassinatos. Uma série com ganchos muito bem conseguidos e bastante imprevisível. De cortar a respiração. Confira o trailer:

 

3 Por cento (BR)

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Desde 2014 / 38-49 minutos / Drama / Thriller / Ficção cientifica

Autor: Pedro Aguilera

Idioma: Português

Ficção científica brasileira, esta série é retratada num mundo pós apocalíptico, onde o planeta terra está devastado. A população encontra-se dividida em dois mundos: os do Continente (do lado de cá), um lugar degradado e sem recursos, e os do Maralato (do lado de lá), praticamente um paraíso, com abundância de recursos. O sonho de todos os habitantes do lado de cá é ir ao lado de lá. Para tal, existe apenas uma chance: aos 20 de idade, participar do “Processo”, que é a selecção dos que vão passar ao lado de lá. E só serão seleccionados apenas 3% da população. Uma série provocante e inteligente, que apesar de lembrar distopias como hunger games e divergentes, consegue ir bem mais além. O trailer fala por si:

 

Sense 8

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2015-2018 / 46 – 151 minutos / Ficção científica, drama

Autores: The Wachowskis; J. Michael Straczynski

Idioma: inglês

Sense 8 apresenta um conceito distinto do habitual. A história revolve a volta de oito desconhecidos, cada um a morar num continente diferente. Estas pessoas, de repente, ao mesmo tempo, tem uma visão violenta de uma mulher a morrer. Depois desta visão, elas descobrem que estão mentalmente e emocionalmente ligadas uma à outra. É o dom dos chamados “sensates”, e é esse mesmo dom que eventualmente os coloca em perigo,  na mira de “whispers”, um perigoso caçador de “sensates”. Se você gosta de conceitos inovadores, conhecer culturas e de temas novos, vai adorar esta série. Confira o trailer:

 

 

Black Mirror

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Desde 2011 / 41-89 minutos / Ficção cientifica, sátira

Produtor executivo: Charlie Brooker

Idioma: inglês

Black mirror é uma série de ficção científica que gira a volta de temas obscuros sobre a sociedade moderna e as consequências imprevistas das novas tecnologias. Trata-se de uma antologia, com episódios autônomos. É uma série que vai levar os seus neurónios ao extremo. De tão intensa e perturbadora, apesar de viciante, o melhor é não fazer longas maratonas desta série, sob pena de ficar com o sono perturbado.

Trailer:

 

La casa de papel (EN Money Heist / PT A casa de papel)

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2017 / 43 minutos / Drama, Suspense, assalto

Autor: Alex Pina

Idioma: Espanhol

Por unanimidade, os tripulantes do diário da qawwi elegeram esta como uma das melhores séries exibidas pela Netflix e quiçá da televisão. Um homem misterioso (o “professor”), planeia durante grande parte da sua vida um assalto na casa de moeda de Espanha. Para executar o plano, recruta oito pessoas que não tem nada a perder. O objectivo do professor é ter a opinião pública a seu favor. E será que você telespectador, vai apoiar a façanha destes ladrões? Simplesmente brilhante.

Trailer:

Imagens via ABC e Netflix

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#9|Eterna magia de natal: verdades secretas

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Linan, 

Um sorriso simpático, uma boa conversa de esquina, são coisas que abundam no nosso meio. Mas quando se trata de honestidade, a história é outra. A arte da sinceridade tornou-se cara nos dias de hoje.

Nesta carta, é tudo o que tenho para oferecer-te: honestidade.

Não sou um sem-abrigo, como deixei-te pensar que era. Sou apenas um homem impulsivo, que por breves instantes morreu por dentro e apartou-se das ilusões deste mundo. Um homem que só regressou a si, depois de ter-te conhecido.

Não sei exactamente o que impediu-me de dizer-te a verdade antes. Talvez a necessidade de sentir a fé que tinhas em mim enquanto pessoa. Sem bens materiais, sem grande utilidade. Apenas pessoa. Talvez porque precisava de voltar a acreditar na possibilidade da amizade, do amor, gratuitos.

Quando se perde tudo de uma vez como eu perdi, cai-se num vácuo sem fim. Eu tinha planos, tinha uma vida, uma companheira. Mas demorei a perceber que as traças da intolerância há muito haviam corroído aquela união. As diferenças, os insultos, eram só um pretexto. Lá no fundo, o que nos destruiu foi o facto de que eu não era capaz de realizar aquele desejo, dar um filho à minha companheira. E não existe nada pior para um homem do que viver confrontado por esta incapacidade. Todos os dias.

Julguei que a proposta que fiz fosse ser uma solução: adoptar a menina Érica. A papelada para formalizar o sonho estava quase tratada, mas o sonho dissolveu-se no dia em que Susana anunciou estar grávida de outro homem.

Levou tempo para reerguer-me do golpe.

No sábado em que conheci-te, Linan, tinha ido ao parque com os meus amigos fazer um “experimento social”. É o nosso passatempo favorito e temos milhares de seguidores. Disfarcei-me de sem abrigo, colocamos câmeras ocultas, e começamos a provocar as pessoas para filmarmos as suas reacções. Normalmente divertimo-nos bastante com estes experimentos. Mas naquele dia, tornei-me eu vítima da triste comédia. Fora exactamente naquela manhã, que recebera uns exames médicos confirmando a grave doença. A saúde, tão silenciosamente, também me havia abandonado. Ou seja, o buraco não tinha fim.

Os meus amigos foram-se embora, mas eu continuei ali, sentado, permitindo-me experimentar a miséria humana em toda a sua plenitude.

E então chegaste tu, Linan. Parecia que vinhas a navegar pelo sol, de propósito, apenas para recordar-me de como é bom sorrir. Vieste sem preconceitos, cheia de coragem. E avançaste para dentro de mim, sem pedir licença. Pelo tanto que gostaste de mim, Linan, não consigo medir o quanto eu gosto ti. És uma das poucas pessoas que faz-me não querer desistir. Perdoas-me e aceitas-me na tua vida, com todas estas falhas? Espero por ti na Avenida das Portas, logo na esquina. Vem ter comigo, pois quero estar perto de ti, nem que seja só mais uma vez. Se julgares que não o queres fazer, entenderei, sem problema. Mas espero, sinceramente, que aceites o convite.

 Will

Pelos portões do parque, mesmo acima dos baloiços que cortavam o ar fresco, via-se a tal Avenida das Portas. O peito trovejou-me arrítmico quando rasguei a carta em quatro pedaços e tomei a direcção oposta.

Não importava se ele deixava de ser ou não um sem-abrigo. O facto é que aquele humano vestira o coração nos dedos que escreveram as verdades mais secretas sobre o seu ser. Por muito que o quisesse ver, sentia-me ameaçada.

Como podia ser sua amiga, sem contar-lhe a minha própria verdade? Seria eu a qawwi que traria para a vida daquele frágil humano, a maior mentira do século? Ofereceria o oposto do que ele precisava?

Não, isso eu não ia fazer.

Subi o acentuado passeio e estava quase em casa, quando fui obrigada a reter o passo. Debaixo do reflexo de um satélite que clareava o céu nublado, aguardava-me uma figura masculina. Trazia rosas vermelhas sobre o capô de uma viatura.

A figura aproximou-se e tirou o capuz da cabeça.

– Pressenti que ias optar por não vir, Linan. Mas tinha de tentar.

Excepto a voz, tudo nele era estranho. A pele com aroma de iogurte de limão, o cabelo farto, os olhos amendoados. Engraçado… era a primeira vez que percebia alguma beleza, para não dizer bastante, nos traços de um rosto humano.

– Will?

– Sou eu.

Subitamente as palmas das minhas mãos humedeceram. Deu-me uma esquisita reacção no estômago. A princípio julguei que fosse a energia do satélite a interferir no meu corpo, mas depois percebi que não. Era o toque de Will. As suas mãos entrelaçadas às minhas, o ar morno dos seus lábios tão perto de mim, fizeram-me sentir dessincronizada. Os joelhos fraquejaram. Assustada, quis teletransportar-me para outro continente, mas como se tivesse percebido as minhas intenções, Will segurou-me e persistiu com delicadeza:

– Por favor. Não vás.

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#8|Eterna magia de natal: O banco

“Quais as probabilidades, e o que pode dar errado, numa súbita amizade entre uma extraterrestre e um sem abrigo?”

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O banco do parquinho continuava vazio. Não soube o que pensar. Teria Wilson encontrado um lugar melhor? A ser este o caso, devia ter ficado contente. Porém, o sorriso que escapou dos meus lábios era trémulo como as acácias ao vento. Conheci Will numa noite de frustração. É verdade que continuo a ter a capacidade de teletransportar-me, que posso compelir a vontade humana. Mas raramente uso essas habilidades. Tal significa que cada minuto que passa sem que eu cumpra a missão, enfraquece-me e afasta-me da natureza qawwi.

Na noite em que fiz essa constatação, bati com a porta de casa e fui à esplanada perto comprar uma hunter’s dry. Esvaziei-a ali mesmo, encostada ao balcão. Pedi mais duas garrafas, um hambúrguer, e decidi ir ao parque. Foi lá onde encontrei Will, um jovem envelhecido pela amargura. Estava sentado num banco, enrolado num cobertor sujo, e tinha os pés desnudos ressequidos pelo frio. Apesar do seu olhar distante e escondido pelo gorro buído, eu conseguia notar a melancolia com que ele observava os outros. Aspirei as essências que pairavam ao seu redor: abandono, sonhos quebrados e algumas sobras de esperança. Essências inevitavelmente humanas. Essências que eu não estava a conseguir salvar.

Sorvi o conteúdo da garrafa de uma vez.

– Já percebo porque é que os humanos gostam disto – murmurei a meio de um arroto.

Will virou-se para mim espantado. A voz rouca discorreu-lhe trépida:

– Gostam de quê?

– Álcool. É uma boa maneira de afastar os problemas.

Folhas secas voavam pelo parquinho, quando Will comentou:

– Nada nesta vida é definitivo, senhorita. Talvez, e tão somente, a morte e o amor. Olhe para mim. Um dia saio desta situação. Quando a música para, há que se fazer a própria melodia.

Os meus lábios abriram-se, e Will, tão naturalmente acanhado, sorriu. Devem ter se seguido uns tantos disparatares da minha boca, pois pouco depois Will baixava o cobertor para libertar o calor causado pelas gargalhadas.

– Toma – ofereci-lhe uma bebida e reparti o hambúrguer. Will tinha ar faminto. Todavia, manteve-se quieto, como que apavorado pelo gesto.

– A senhorita não se incomoda?

– Porque me incomodaria?

Ele baixou o rosto.

– Estou sujo, cheiro a urina, sou um sem abrigo, senhorita.

– Isso não faz de ti menos humano. Aliás, devo dizer que até agora és dos humanos mais genuínos que conheci.

Para falar a verdade, eu nem sequer entendia aquela situação. No meu planeta era impossível qawwis deixarem outros qawwis à mercê do incerto e do desamparo. Todos têm um lar em Stefanotis. Ser “sem abrigo” lá, significa ter o coração vazio. E esse não parecia o caso de Will. Ao perceber que já haviam passado muitas horas e dúzias de cidras, pus-me em pé.

– Tenho de ir.

A voz de Will galgou inibida pelas minhas costas. Tirou o gorro da cabeça e torceu-o nervosamente entre os dedos, antes de perguntar-me:

– A senhorita passará por aqui um outro dia?

A resposta saiu antes mesmo que eu pudesse processá-la:

– Amanhã eu volto para jantar contigo.

– Senhorita Linan – tornou ele a chamar-me – a senhorita tem um coração de ouro. Se as noites fossem tão bonitas como a de hoje, eu dispensaria as manhãs.

Voltei para segurar a sua mão entre as minhas e reafirmei:

– Mas sem o dia, a noite perde o valor. Eu volto, meu querido Will.

E de facto, passei a visitá-lo com frequência, a mesma hora, no banco do parque. Era fácil ser humana ao lado dele.

Sentei-me no banco vazio e telefonei à Fatinha, a minha housemate.

– Passam 4 dias e ele não está aqui. Desapareceu e acho que já não volta!

Ele quem, Linan?

– O meu amigo, o rapaz do parque.

O sem tecto? Ah porra Linan, tens que ir à um psiquiatra!

– Psiquiatria? Porquê?

Ainda perguntas? Tu realmente não vês o que aconteceu com esse coraçãozinho, pois não?

– Do que é que estás a falar?

Tsk, tskvem para casa que conversaremos!

Desliguei o telemóvel e pousei a mão na madeira do banco. Foi então que acolheu-me uma súbita vontade de chorar. Por acaso as lágrimas mudariam aquele vazio? E porque é que tinha de entristecer-me assim, se Wilson não passava de um humano?

– Linan?

Apercebi-me tarde da repentina presença. Era uma das meninas que trabalhava na esplanada perto do parque.

– Sim?

– Trago uma carta para si.

– Carta?

– Exacto. Do moço que costuma estar aqui consigo. O engenheiro Wilson – esclareceu, antes de dar meia volta, deixando-me com o misterioso envelope na mão. Engenheiro Wilson?

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#7|Sonda-M – sinais de um homem player

 

A simpática humana com quem divido a casa, finalmente convenceu-me a sair para conhecer a “noite”. A música soava alta, os balcões abarrotavam de bebidas, e um adocicado fumo serpenteava pelos corredores. O recinto mais parecia uma gruta de segredos. As luzes minimalistas lá dentro faziam os diversos trajes cintilarem.

Considero-me uma qawwi razoavelmente inteligente e tenho assimilado com rapidez os hábitos humanos. Mas aquele cenário deixou-me abestalhada:

– Oh Fatinha, porque é que estas moças vestem pijamas?

Referia-me ao grupo de jovens semi-nuas que abanavam freneticamente os corpos, bem no centro do recinto. A contradição melindrava-me por completo.

– Disseram-me que este tipo de vestuário serve somente para a intimidade do sono, não para o convívio público! Afinal era mentira?

Fatinha reprimiu uma gargalhada, pese embora eu não tivesse percebido a piada.

Sentamo-nos num canto, e enquanto Fatinha fazia gestos no ar, eu ajustava o Sonda-M na orelha. O pequeno dispositivo permitia-me captar sinais dos qlubs, objectos importantes para a minha missão.

De seguida devolvi a atenção ao ambiente. Como é que as moças conseguiam respirar, sem sufocar em tecidos tão apertados? Infinito mistério, pois os sorrisos indicavam prazer descomunal no possível sofrimento. A meu ver, as jovens pareciam safiras à superfície, encontradas sem garimpo. E os homens à volta, ostentando sequiosos olhares, avaliadores dos potenciais tesouros. Muito estranho…

– A maioria destes gajos são pais de família que deixaram as esposas em casa, garanto-te – sussurrou Fatinha ao meu ouvido, antes de ausentar-se para atender uma chamada. Estava eu ainda a tentar alcançar o significado daquilo, quando um homem aproximou-se. Para nós qawwis, a estética nos traços dos humanos é neutra, mas pelo que percebi, podia dizer-se que aquele era um humano “atraente”. Captava muitos olhares femininos, à medida que deixava um rastro de aroma de basil e de origami lavado. Os seus olhos escuros faiscaram quando encostou-se ao sofá.

– Sou o Marcos. – informou, pedindo-me a mão para depositar um beijo – posso oferecer-te uma bebida?

– Não faço muita questão, mas agradeço.

O telemóvel no bolso do casaco do tal Marcos não parava de apitar. Ele sacou o aparelho e tratou de responder à uma mensagem antes de voltar a cravar-me o denso olhar, como quem afunda na imensidão do universo.

– Desculpa a curiosidade. Não és desta cidade, pois não?

– De facto. Nem sequer sou deste planeta.

Chegou-me aos ouvidos a sua gargalhada macia como algodão.

– Sem dúvidas! Linda como és, só podes ter vindo do céu. Um verdadeiro anjo!

Arregalei o sobrolho, contrariada.

– Anjo não! Quando muito uma qawwi.

– Qawwi? O que significa isso?

– Porquê importa?

– Importa porque és divertida e sexy demais.

O telemóvel dele continuava a afincar-se em nervosos bips.

– Não seria melhor atender as chamadas?

– Não é ninguém importante.

Foi nesse instante que senti um doloroso estampido no ouvido. O Sonda-M estava com uma anomalia. Ao invés de detectar pistas dos qlubs, estava a captar sinais de mentiras. Marcos inclinou-se, de modo a encurtar a distância que nos afastava e sussurrar:

– Neste momento estou a fazer algo muito mais interessante.

– E o que seria tão mais interessante? – perguntei ajeitando o minúsculo aparelho no meu ouvido – lançar-me essas suas observações generalistas?

Ele soltou mais uma gargalhada.

– Também sei ser bem específico. Olha, está muito barulho aqui, conheço um lugar mais tranquilo, gostavas de vir?

– Para quê?

– Para conversarmos mais à vontade e nos conhecermos melhor, só isso.

O Sonda-M voltou a dar um estalido, acusando a nova mentira. Farta das dores no ouvido, levantei-me e rodei nos calcanhares.

Fatinha, que, entretanto, já havia regressado, puxou-me para um canto.

– Homens players não, Linan. Esses são os piores!

– Desculpa?

– Está escrito na testa daquele tipo que é um player! Não viste a aliança no dedo?

Não tinha visto. Nem sequer entendia o que era uma aliança ou qual era o seu fim. Mas percebia que o termo “player” referia-se a jogador.

– Ele não disse-me que era jogador. Joga quê?

Fatinha riu-se admirada.

– Quanta inocência, filha! Não conheces o jogo da caça e do caçador? Da encruzilhada amorosa? Linan! O Player joga com o teu tempo, com o teu coração e com a tua paciência. Sabes aquele homem que tem uma, mas quer todas? Que roda pela cidade como um cão vadio, e faz da simplicidade do amor um jogo psicológico? Esse é o player. Fica longe dele, Linan! Há homens mais sérios por aí.

De facto, por aquele prisma, o tal homem player era uma criatura mais perigosa que os ikras do meu planeta. Todavia o cuidado de Fatinha era desnecessário. Sei que ela tinha esperanças que eu me interessasse por alguém, mas uma extraterrestre em missão de serviço como eu, não se dá à esses luxos. Pelo contrário. Abandona o qawwi que ama e não volta a apaixonar-se. Muito menos por um humano, espécie que sente volúpia pela desonestidade. Seria mais fácil o sol e saturno colidirem, do que eu envolver-me com um humano.

– Não te preocupes Fatinha – murmurei passando a mão pelo seu ombro. – Ficarei longe da espécie.

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Imagem via Pinterest

Desabafo de uma qawwi

#3| Os rapazes da fraternidade

A luz de um abajur perfurou-me a retina quando abri os olhos. Na cabeceira, a moldura de um retrato. Rolei pela cama, em busca de aconchego, e foi então que apanhei um susto de morte.

– Acordado, meu amor?

Pus-me em pé, num pulo. As pernas, de repente, estavam muito musculosas. Todavia, o mais preocupante era aquela situação. Uma humana, feminina, a chamar-me “meu amor”? O que diria o meu amado qawwi, se me visse agora, através de um satélite fónico? Para agravar os nervos, disparou pelo quarto uma ligeira e monocórdica melodia.

– Calma meu amor, é só o teu celular… atende.

Procurei o aparelho com urgência, como se dependesse do mesmo, a minha integridade. Encontrei-o encafuado entre as almofadas da cama.

– Alô?

– Até que enfim, Diego! Estavas a flutuar em cima de alguém, ou o quê?

– Hã? – o meu cérebro deu um nó – em cima? O que acontece com a gravidade?

Em resposta, gargalhadas.

– Deixa-te de tretas, bro! Já estamos perto daí. Podes descer?

A humana veio enroscar-se no meu pescoço, toda semi-nua. Tal obrigou-me a agarrar-me ao celular como se fosse uma bóia de salvação.

– Sim, estou a descer, até já! – vestida apenas da cintura para baixo, abandonei o quarto. A humana veio atrás, gritando-me coisas que não fiz questão de perceber.

– Vista mas é uma roupa, criatura! – implorei antes de embrenhar-me na fuga até alcançar a saída do edifício.

Na rua, um elegante jovem observou-me cima abaixo e gritou para quatro outros dentro de uma viatura:

– O nosso bro já está bem pedrado! Vens ou não?

Notei que os quatro dentro do carro, eram os mesmos da moldura na cabeceira. Decidi entrar e pedi-lhes que voássemos para longe, antes que a humana ressurgisse para capturar-me.

– A fugir da Vanessa, bro? – questionou um deles, engasgando-se de rir – ela é das moças mais cobiçadas pela nossa fraternidade, sabias? Hey Pete, passa lá um casaco antes que o nosso bro fique constipado.

Enquanto cobria o tronco, olhei-me num espelho. Afinal, eu também era um dos jovens da moldura! Era membro de uma “fraternidade”, e tinha Peter, Simon, Jamal e Noah, como “melhores amigos”.

Estacionamos num local escuro cheio de gente, poluído de luzes psicadélicas, e música muito alta. Havia tanta fumaça, que era quase impossível respirar. Um copo cheio de álcool na mão, parecia naquele ambiente, uma questão de sobrevivência.

– Olá, trago aqui uma preciosidade – disse-me alguém, cutucando-me nas costas – Só 50.

Pronto, lá estava a linguagem dos números.

– 50? Você está a tentar vender-me algo?

– É coisa das boas! Uma pedrinha, por exemplo, e garanto-te que terás a melhor experiência da tua vida!

Curiosa, tentei desvendar a oferta, mas não foi preciso nem sequer experimentar, para o meu radar de qawwi detectar o perigo. Aquilo iria causar-me um severo dano ao corpo. Experiência maravilhosa? No meu planeta experiência maravilhosa é saltar galáxias. Que raio de boa experiência é essa, que promove a automutilação? Mas afinal, o que se passa neste planeta?

– Diga-me algo, senhor, você já experimentou essa tal maravilha? – o silêncio dele confirmou o que eu temia: o sujeito estava a vender-me um mundo, que nem ele próprio tinha.

Entretanto, Simon chegou e aceitou a oferta.

– Não te armes, bro! – resmungou, enrolando o conteúdo num curioso aparato, que produzia fumo expelido pelas vias respiratórias – Estou a divertir-me, como todos os outros!

Fiquei especado, o choque assombrando-me o rosto.

– Bro – continuou Simon, expelindo mais fumo das narinas – conheço-te desde criança, muito antes da fraternidade. És um chato de nascença, nem sei como és o meu melhor bro, mas hoje, tu não estás em ti! Conta lá, o que é que se passa?

Fomos interrompidos por repentinos gritos, seguidos de total algazarra. Polícias terráqueos haviam invadido o recinto. Embora eu desconhecesse o crime que tinha cometido, percebi que estava em sérios apuros, e nem sequer podia teletransportar-me, já que estava fora do meu corpo de qawwi.

– Bro, bro fica tranquilo, vai dar tudo certo – murmurou Simon assustado, quando a polícia começou a revistar-nos. Tentou desculpar-se, porém, os homens da lei não ficaram satisfeitos com o que encontraram nos seus bolsos.

– Membros da fraternidade ómega à direita, hein? Vocês podiam ter um futuro brilhante, sabiam? Mas talvez as barras da cela ajudem a dar uma refrescada nestes cérebros, não é? Rob, recolhe todos eles!

– Sr. agente, ele não. – suplicou Simon debatendo-se quando um policial capturou-me – O Diego não fez nada, é um palerma, mas é bom rapaz. Não há nada com ele, podem ver, deixem-no ir, por favor!

Depois de uma forte revistadela e talvez convencidos pelo apelo de Simon, eles largaram-me.

– Fica tranquilo bro, eu eide safar-me! E sei que tu estás comigo, bro! – balbuciava Simon, enquanto era conduzido para onde a liberdade passaria a ser uma quimera. Havia algo no olhar de Simon, além do medo, disfarçado de coragem. Acabei por experimentar uma esquisita melancolia, pois o último acto de Simon colhera-me de supresa. Ele gostava de mim. Aquilo que eu vislumbrara nos olhos dele, era o verdadeiro sentido da “fraternidade”. Afinal, havia um sentimento tão bonito como aquele entre os humanos?

– Estou contigo, bro! – devolvi, sentindo umas gotas quentes entre as pálpebras. – estou contigo e vou ajudar-te!

Linan

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Crédito imagem: http://blog.trashness.com/prep-boys-on-a-mission