Desabafo de uma qawwi

#29 | Metade do coração

Quando fazemos a transicção, todo o nosso redor se ilumina. É o que dizem os qawwis mais experientes. Vejo com clareza. Aquilo que não vi antes, atropelando os meus próprios instintos. Até o primeiro sinal escapara-me. Na tarde quente em que encontrara Will adormecido no sofá. Lembro perfeitamente do papel amarfanhado na sua mão, da calada inquietação que desconjunturou os meus ossos ao ler o que ele escrevera:

Linan, quando a dor vier, teremos que arranjar outra forma. Não podemos guiar…”

– Estavas a escrever-me uma carta, Will? Um poema…?

O inchaço nos olhos, as dobras no alto da testa disseram-me o quão distante estava de compreender a minha linguagem.

– Poema? – atirou um olhar perdido para o papel – não sei, não lembro.

– Parece que tentavas dizer-me algo…

– Droga, Linan, se disse que não me lembro é porque não lembro, devo ter adormecido, só isso! – no meio do silêncio amargo e pulverulento de hostilidade, surgiu no ar a frase que já havia se tornado habitual nos últimos dias:

– Desculpa. Ando tenso, desculpa.

Sim, ele andava irritado, agitado, desdizendo da sorte, praticando o verbo da desconfiança e da destemperança. Ser humana não arrancou de mim as vontades de qawwi. Não gosto de ficar “em repouso”. A minha alma precisa do vibrar do universo, para sentir-me viva. E Will detesta isso, pois vai contra as orientações do médico. Foi assim que os atritos começaram. Em colisão com estas aflições deflagradas no centro do coração, Will vivia obstinado em controlar-me e a confiscar o destino. Esta atitude levou-o a um profundo estado de “ansiedade”, que culminou com o verbalizar da dúvida sobre a paternidade da criança que vinha. Não fiz caso. Will era o que era. Apenas um humano, uma simples manifestação fenomenológica de existência, cheia de falhas.

Ao surgimento do segundo sinal da “surtez” de Will, devia ter desconfiado. Aconteceu no meu aniversário. Ele insistira que recebêssemos alguns amigos, embora eu tivesse preferido um dia mais sossegado. Acabávamos de fazer um brinde quando Érica puxou-me depressa pelo braço

– Mãe… o pai está a chamar-te. Ele está muito esquisito…

Segui Érica até à cozinha.

Havia desordem, ferramentas espalhadas por todo o lado, pegadas de lama pelo chão. Ao pé da bancada, Will segurava uma grande faca, as mãos cobertas de fuligem.

– Will? Onde é que estavas, o que é isso…?

Ele pestanejou.

– Will?

Então, a faca caiu. Ele voltou a cabeça para baixo, admirado com o cenário, com o seu aspecto.

– Will?

Seus olhos brilharam de medo.

– Preciso estar só.

– Will, vá lá, fala comigo…

Mas ele fechou-se no quarto durante um bom par de horas. Se eu fosse inteiramente humana, certamente também ficaria assustada com o facto de, de repente, não ter controle sobre os meus neurónios. Will estava apavorado, acreditando que os repentinos ataques de pânico, os lapsos de memória, podiam colocar-nos em perigo. Quantas vezes a noite caiu, e a cabeça Will voou para rondar solitária o seu mundo isolado, entretendo-se com a ideia do amanhã e dos medos que o cercavam? Não é possível dividir a vida dessa forma, viver com um pé no presente e outro futuro. Viver assim, é ter metade do coração no ritmo, e outra metade parada. Eu percebia, e lamentava que ele optasse por encerrar tanto peso dentro de si.

Quando finalmente o futuro bateu-nos à porta, entendi os porquês. Honestamente, era burrice que eu não tivesse percebido antes. Mas era tarde demais.

– Respira, meu amor, respira – pedia Will carregando-me ao colo. – Ajuda a mãe minha filha, ajeita a cabeça dela…

Colocaram-me no carro e apesar das lancinantes dores, sentia-me orgulhosa da bravura da minha filha, verdadeiramente mocinha, que firme permanecia ao meu lado.

– Mãe, estamos quase, fica tranquila, mãe, fica acordada…!

Segurei a mão da minha filha.

E por mais que Will tivesse se esforçado para levar-me ao hospital e manter-me salva, não foi possível manobrar nas rodas da viatura a tinta indelével que ditaria outra coisa.

O céu incendiou-se e desabou por cima de mim, como a cortina do palco que desce no último acto de um actor. Um camião sem freio esmagou o lado esquerdo da viatura, exactamente onde eu estava, arrancando-me, assim, a minha última respiração na terra.

Desabafo de uma qawwi

#32|O equilíbrio quebradiço da vida

Sinto um gosto horrível na boca. Perdura no meu paladar desde ontem, o dia em que que soube estar a gerar-se dentro de mim uma vida nova. O sabor amargo ampliou esta manhã. Saía eu da casa de uma aluna, quando vi um menino. Devia ter treze, catorze anos, no máximo. Atirado nas escadas escuras do prédio, isolado, tentava esconder as lágrimas. Os seus olhinhos estreitos mexiam-se acanhados ao ritmo do medo. À medida que os seus ombros agitavam-se sobre o seu corpo em soluços, penetrava este azedume na minha boca. Qualquer um podia ouvir os gritos horripilantes da flat do rés do chão. Os pais do menino agrediam-se verbalmente. E qual força maior para agredir um coração, senão aquela? O menino não tinha uma casa. Tinha um inferno. Como podem, dois seres humanos, trazer uma criança ao mundo para a torturarem daquela forma?

Aquilo tudo forçou-me a voltar a questionar o significado de ser mãe, de ser pai. Talvez pela minha origem distante, pela minha inegável condição de aliegena, eu jamais compreenda, e por consequência, nunca me sentirei preparada para acolher esta semente que brotou em mim. Não neste mundo em particular. E quando nascer, o que vai ser ele? ou ela? Um humano? Um qawwi? Uma criatura híbrida e perdida? A ideia causa-me uma incontrolável pontada no peito. Seja qual for a sua natureza, esta criança já é um pedaço de mim, pedaço que deverei entregar às garras deste planeta tão maltrado, tão dominado de sombras e tão necessitado de ajuda. É justo para a criança? Ou para o próprio planeta? Provavelmente não exista uma resposta clara e julgo que seja pouco óbvio para os próprios humanos. É errado duvidar? Afinal de contas, ser pai acarreta decisões que não se devem impor. Significa abdicar de quaisquer modos egoístas e dedicar toda a energia ao filho, pelo resto dos dias. Significa ficar falido, se preciso for, pela educação dos ditos cujos. Em última análise, significa dar a vida, se for isso que custa. Sou absolutamente livre de o querer… ou não.

Pese embora tenha feito a decisão, o conflito dentro de mim não cessa.

A médica disse-me que devo ter cuidado. Chamou o meu estado de “gravidez de risco”. Pelo que entendi, pode estar em perigo a vida do bebé, ou a minha. Quando é que eu poderia imaginar um fenómeno assim? O corpo degradando-se e sofrendo de tal forma, que enfrenta o risco do apagão? Ode às mulheres humanas, por saberem viver neste equiílibrio quebradiço da vida.

O risco de eu vir a desaparecer deste corpo e desta terra após o nascimento do meu filho, não me assusta. Sei melhor do que ninguém, que a morte é uma das formas de eu voltar ao meu planeta. E o fim do ser humano, é regressar às origens. Aliás, este é um dos pontos cruciais da minha missão.

Porém, de olhos bem vendados, de mente humana que ainda não se abriu para conhecer a sua verdadeira origem, Will não é capaz de compreender quando digo que vai tudo correr bem. Que a morte não é definitiva. Para Will, a ideia do futuro incerto encheu o nosso redor de sombras, de problemas. A dúvida adoeceu-lhe a alma. E quando o espírito adoece assim, vai-se a sanidade da mente. Wil começou a perder o juízo. Pelo menos foi isso que à princípio, pareceu.

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema | Living with yourself – Série |– Opinião

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Foto: noticiasetecnologia

Premisa

Living with Yourself conta a história de um homem, que após um estranho tratamento num “SPA”, que garante uma vida melhor, acaba por acordar e descobrir que foi substituído por um clone.

Opinião

No que se refere ao quesito humor, ninguém melhor que Paul Rudd e suas imperdíveis expressões, para arrancar algumas gargalhadas. Nesta produção da Netflix, Paul Rudd encarna um papel duplo, com grande habilidade e mestria. Mas, ao contrário do que se possa pensar, não se trata apenas de uma comédia. Living with yourself consegue retratar de forma comovente, um drama bastante provável na vida de qualquer um de nós.

Já alguém desejou experimentar uma mudança drástica, seguir um caminho diferente, ser outra pessoa? Bem, Miles é um homem insatisfeito e farto da rotina que leva. Nesse contexto, é atraído para um “SPA” que promete transformá-lo numa melhor versão de si mesmo, dando-lhe a promessa de uma vida mais feliz. O que Miles desconhece, entretanto, é que o SPA cria clones, matando os originais. Para o bem da série, Miles original sobrevive.

A princípio, o clone acaba sendo útil para Miles original, pois fica com a rotina mais chata (como por exemplo ir ao serviço) enquanto Miles original deixa-se estar em casa, entretido nas coisas que já não tinha tempo para fazer (como por exemplo, escrever o seu romance). Parece promissor, mas as consequências de haver uma única vida, para duas pessoas, são bastante previsíveis e depressa começam a pesar no Miles original (mais uma vez, ilações sobre consequências inesperadas da tecnologia, como em “Black Mirror” são aqui salientadas).

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Imagem: Hollywoodreporter

Esta série tem o mesmo conceito apresentado na película brasileira “um homem só”, estrelando Vladimir Brichta, todavia, diferente do tom mais escuro do filme, Living with yourself consegue abordar a crise existencial e de um casamento a afundar, sem entretanto tornar-se pesada. A actuação, tanto de Paul Rudd (por sinal brilhante), como de Aisling Bea, é bastante plausível, e o final da primeira temporada deixa as portas abertas para um interessante seguimento. São oito episódios assistiveis numa sentada, com uma narrativa dinâmica que mantém o constante interesse pela perspectiva múltipla dos personagens, e os saltos cronológicos entre o passado e o futuro.

Uma série que vale a pena conferir.

A nossa classificação: 3.5 de 5 estrelas

Desabafo de uma qawwi

#31|Milagre a dois

No planeta dos seres humanos há várias teorias sobre os pesadelos. Esta espécie de delírio que penetra o nosso subconsciente durante o sono, arrancando-nos graves suspiros de medo. Há quem diga que os pesadelos evoluíram para tornar os humanos mais alerta sobre possíveis ameaças. Outros, que este tipo de alucinação não passa de uma reacção a algum estímulo exterior. É um fenómeno, que, enfim, extravasa todas estas tentativas de entendimento. Mas o que descobri, recentemente, parece incontestável: de alguma forma, os pesadelos preparam-nos para o futuro.

Naquela noite, Will levantou-se com o coração descompassado, o peito molhado e os dentes apertados de tanto pânico. As estrelas pareciam derreter nos seus olhos aflitos. Amparei-o, tentando acamá-lo.

– Will? Tiveste um pesadelo?

– Acho que sim, não lembro… abraça-me, Linan – pediu depressa, buscando conforto no meu corpo, querendo-me com o desejo de um alcoólatra que procura o seu alento numa garrafa.

Sim, tivera um pesadelo. Mas qual era o alerta que o seu instinto tentava activar?

Beijei-o até o alvorecer. Normalmente o beijo conseguia sarar onde mais doía. E disso era feita a nossa rotina diária, após aquele tempo todo separados. Quando um estivesse em apuros e não pudesse chegar lá, o outro carregava. Nem que fosse nas costas mancas e nuas. Compreensão, e sobretudo, cumplicidade. Era o que precisávamos. E éramos felizes, mesmo quando surgissem pedras. Só que um dia tropeçamos. Afinal, o que era certeza, também sabia ser angústia, construindo por fim o início da queda.

– Deve ser uma comida que não caiu bem, ou estás doente outra vez – constatou Will preocupado, ao ver-me vomitar já pela segunda vez naquela semana. Não quis ao ir médico. O meu gigante apetite andava ampliado, por isso julguei que fosse apenas uma indigestão. Mas as náuseas repetiram-se. Quando veio o torpor, a sensação do estômago queimado e por fim o sangue escuro vertendo de dentro de mim, aceitei ir ao hospital.

Alguns exames terráqueos depois, tive o diagnóstico. Nunca, em hipótese alguma, havíamos previsto a notícia:

– A senhorita está grávida. E vai precisar de alguns cuidados… – avançou a doutora, sem pudores.

É assim meus amigos, sabem que muitas vezes perdi-me, durante esta aprendizagem, de ser humana. Nunca como naquele instante. Deixei de ouvir a médica. Apertei a mão de Will, como se o gesto fosse tapar o abismo que se abria entre nós, deixando espreitar segredos e temores que se empilhavam à superfície, ameaçando rebentar as amarras que uniam a nossa confiança.

– Tem a certeza, doutora? – a voz de Will estava por um fio.

– Sem sombra de dúvidas. Já conta com dois meses.

A elucidação da médica arrepiou-me. Não havia preparo para aquilo. Eu não queria ser mãe, nem pensar. Não num mundo que tenho por certo estar à beira do fim.

Por outro lado, percebi que a alma de Will havia ficado engasgada. Como se, de repente, um cavalo se atrelasse às suas costas. Não sabia se era um milagre ou uma maldição. Se se permitia vibrar ou se procurava perdão para o assassino dentro de si, sequioso de cortar-me em duas. De dividir-me em qawwi e em humana. Pois quem sabe assim, encontrasse alguma explicação plausível para o que acabava de ouvir.

– Linan – voltou a falar quando já estávamos em casa. Custava-lhe. Como se um frio severo, desses que seca o sangue, congelasse os seus lábios – Sabes que… eu não posso ter filhos, é impossível. Será que – outra sustenida pausa – será que – e mais outra – é por seres qawwi, é pelo teu corpo, os teus poderes… é isso?

A resposta que borbulhava na minha boca preocupava-me até aos fios do cabelo.

– O meu corpo tornou-se humano. Sou uma pessoal normal como tu, Will, não tenho poderes nenhuns. Nem sei o que pensar.

O pulsar da notícia, a ausência de uma resposta, ganhou força nos contornos do rosto de Will. A pergunta continuou gritando, em silêncio. Poderia ser o derradeiro milagre? Ou a dúvida ia começar a penetrar por caminhos que julgávamos outrora veemente fechados?

Desabafo de uma qawwi

#2# O Hotel

 

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Estou sentada à beira da passagem. Observo. Tento compreender. Outrossim, não tenho para onde ir. Esta cidade é repleta de luzes artificiais. Painéis desnecessários. Reclames e sinais hediondos. Obsoletos por todos os cantos. Sistematizada e paralelamente desorganizada. Existem, por exemplo, casas ordenadas por categorias. Umas onde apenas se come. Outras, dedicadas exclusivamente à poluição sonora.

O edifício diante de mim, entretanto, enche-me de fascinação. Chama-se “Hotel”.

Segundo pude entender, a casa hotel oferece guarida a quem não tem onde dormir. Criaturas azaradas como eu, que se aventuraram pelo universo sem o mínimo de preparo.

Estou neste banco há pelo menos dois dias. Já começo a sentir frio. Nós qawwis geralmente não temos necessidade de dormir. Mas a viagem de Stefanotis até ao planeta terra, consumiu tanta energia, que neste momento não me vejo a fazer outra coisa se não repousar um bocado, num lugar quente e coberto. Isso ajudaria a preparar-me melhor para a minha missão.

Posto isto, o hotel é de facto uma invenção genial. Não faria muito sentido no meu planeta, onde dormimos somente por diversão, em lugares bem diferentes dos que aqui se configuram.

Tento entrar no hotel, mas acabo enxotada. Dizem que não recebem mendigos (ainda estou a tentar perceber o que isso significa). Que sem dinheiro, não posso ter lá guarida.

Dinheiro…

Volto para o banco. O meu estômago dói horrores. A ponto de deixar-me impossibilitada de utilizar os meus poderes de travessia. Naquela manhã havia comido algumas rosas e cravos, mas estou novamente com fome. Mais a mais, as comidas espalhadas pelas ruas, não só tem um aspecto intragável, como não estão disponíveis. Não são oferta da natureza. Se no meu planeta basta-me “accionar” para poder comer o que bem quiser, nesta terra tenho de “pagar”.

Está visto. Este planeta gira em torno do famoso dinheiro. Se ao menos eu soubesse como ele é, ou onde ir buscá-lo…

– Senhor! – levanto-me às pressas para abordar o homem que atravessa a rua.

Ele olha-me com desconfiança.

– Senhor… – murmuro com alguma cautela – procuro a fonte do dinheiro. Pode dizer-me qual é a mais próxima?

A desconfiança dele dá lugar a um sorriso incompreensível.

– E quem é que não procura, meu amor? Mas para começar, você podia sair das ruas e ir trabalhar, não é verdade? É linda e jovem demais para perder-se nestas coisas.

– Quais coisas?

O homem não me ouve. Embrenha-se na rua e prossegue a caminhada.

– Estás com graves problemas moça – murmura uma humana que acaba de aproximar-se. Conheço-a. Tem estado sentada numa tenda de metal e papelão, exibindo pelo chão objectos que eu nunca vi na vida. Desenrola a ponta do tecido na cintura que lhe cobre até os pés, e do tecido retira um pedaço de papel.

– Consegui vender umas bijus hoje. Toma. Compra pão e vai para casa. Não fiques na rua.

Recebo o papel, viro-o de cima para baixo. Repito o movimento.

– O que é isto?

– Dinheiro que sobra para apanhares chapa.

– Dinheiro é isto?? – Imaginei todas as possibilidades, menos aquela – Quanto deste papel é necessário para eu poder dormir ali? – aponto para o vasto edifício.

– Naquele hotel? Moça… com esses trapos? – ela abana a cabeça como se combalida – bem bem, terias de multiplicar essa nota por pelo menos mais cem.

– Multiplicar? – permaneço na dúvida – É só isso?

Massinguita, juro! Dinheiro não cai do céu, mãe, vai para casa!

Estas jovens pa! Tão bonitas e tão drogadas” – pensa a humana voltando à sua tenda. Como qawwi, tenho a habilidade de ler o pensamento dos humanos. Entretanto, o conselho da senhora parece fácil de executar. “Multiplicar”.

Aperto o dinheiro na mão, procuro um lugar isolado, e em pouco tempo reproduzo uns tantos papéis. Volto a observar o hotel. Decido que é melhor estar vestida como os humanos que estão a aventurar-se a lá entrar. Apresso-me a uma casa de vestuário. Há várias naquela rua.

– Quantos papéis você quer para deixar-me levar esta roupa? – pergunto atirando no balcão várias notas, apontando para a primeira peça que vi na vitrine. A humana do outro lado do balcão lança-me um olhar fixo e demorado.

– O conjunto custa sete mil.

Depois de me estrear no mundo da “compra”, troco de roupa e tento novamente entrar no hotel. Para o meu espanto, não sou escorraçada. Parece magia. Os humanos recebem-me com simpatia.

É assim, nestas circunstâncias, que descubro o significado do termo “pessoa”. Vem de persona. Ou seja, máscara. O humano veste várias personas e se molda às circunstâncias. O humano dissimula a sua real natureza. E o faz muito bem. Enquanto eu estava vestida de origami rasgado, sem dinheiro, recebia maus tratos e era indigna de entrar no hotel. Depois de ter colocado uma máscara, uma nova roupa, e ter mostrado uma realidade que não é minha, fui aceite. Louvor à ilusão. Para mim, é um grande absurdo!

No quarto do hotel, consigo finalmente repousar e organizar as ideias.

Dissimular. Disfarçar. Arranjar uma persona. É com isso que sonho durante o descanso.

Ao acordar, já tenha traçado um plano perfeito. Precisava tornar-me um deles. Misturar-me no meio dos humanos. Caso o contrário, colocaria em risco a minha missão. Todavia, arranjar um disfarce humano, ainda que temporário, tinha os seus prós e contras. A vantagem seria passar despercebida, protegendo a minha identidade. O problema, entretanto, é que não teria controle sobre esse processo. A troca de corpos é altamente contingente. Leva-nos a lugares desconhecidos. Sem mencionar o facto de que, enquanto eu estivesse num corpo alheio, o corpo original ficaria momentaneamente suspenso, noutra dimensão.

– Que seja – digo comigo mesma.

Respiro fundo. Pela minha missão, tudo vale a pena.

Fecho os olhos.

Estrelas cobrem-me como um manto de penas. Elas transportam-me para um corpo humano. Amanhã, estarei noutro destino, a experimentar a vida de um humano, algures no planeta terra. Que a sorte me acompanhasse.

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema | 3 por cento – temporada 3 – Opinião

Opinião

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Imagem via Netflix

Quem acompanhou as temporadas anteriores de 3% por cento, irá facilmente compreender os motivos de muitos considerarem esta série como a versão brasileira de hunger games. De facto, num universo tão distópico quanto o da referida produção americana, 3º por cento apresentou-se forte e estabeleceu um alto padrão de qualidade, capaz de satisfazer tanto o público alvo, como o menos comum

A 3ª temporada mantém os temas do início. Apesar da ligeira desaceleração e da ausência de algumas personagens chaves, há desenvolvimento de novas narrativas, com uma dinâmica fresca, colmatando estas ausências. Nesta nova fase, Michelle (Bianca Comparato), criou a concha, um sistema alternativo ao do Mar Alto e ao do Continente. O sistema tinha tudo para dar certo, até começar a descarrilar, por causa da natureza humana.

A discussão sobre valores morais, a miséria e a divisão de mundos continua premente. Porém, nesta temporada, onde os personagens são assaz voláteis, somos capazes de ver, de forma interessante, até que ponto a fome é capaz de transformar as personalidades, aflorando o nosso lado mais negro. Se isto é um ponto positivo, deve admitir-se também que houve algum exagero, pois alguns personagens acabam passando a impressão de ter excessiva ambiguidade. Rafael (Rodolfo Valente) e Marco (Rafael Lozano) cresceram bastante nesta fase. Já Joana (Vaneza Oliveira), continua consistente ao que já nos habituou.

Apesar do acréscimo no orçamento para este ano, julgamos que a nível estético os cenários poderiam estar melhor. Já a música seguiu original.

Esta temporada, por certo, mostra um amadurecimento da produção e abre espaço para a continuação da exploração destes temas que tendem a mostrar-se cada vez mais relevantes no mundo actual.

Confira o trailer:

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Cinema (Filmes / Séries), Resenhas

Cinema |La casa de papel – temporada 3 -Opinião

Opinião

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Imagem via Netflix

Finalmente foi lançada (a 19 de Julho) na Netflix, a nova temporada de La casa de Papel (Money Heist) tão aguardada pelos fãs. Esta sequela não entra de forma tão arrebatadora como as predecessoras, mas depressa amadurece nos episódios seguintes, arrancando o fôlego do telespectador.

A nova temporada centra-se na saga desta corajosa e adorada gangue, que tenta  resgatar Rio, cativo pela Polícia. Para tal, embarcam num novo plano de assalto, liderado pelo Professor (Álvaro Morte).

 A nova temporada também abre as portas para novas personagens, que incrementam a dinâmica do grupo. É feito um incrível trabalho com os flashbacks. Aliás, esta técnica, que permite que a história não siga necessariamente uma sequência, foi sempre bem conseguida nesta produção. A boa notícia é que, por esta via, Berlim (Pedro Alonso) está mais vivo do que nunca.

A trama não difere muito da que foi apresentada antes, com a ferrenha batalha entre a polícia e os ladrões no foco, coadjuavada pelo drama que nasce dos relacionamentos entre os personagens.

O assalto e as motivações, fazem desta a mais cínica e audaciosa das séries. Causa impressão a forma como são retratadas as autoridades, para que o roteiro funcione e haja empatia com relação aos anti-heróis (caso para pensar que a nova inspectora, Alicia Sierra (Najwa Nimri), fria e destemida, ainda vai dar o que falar).

Destaque vai para Nairobi (Agatha Jimenez), que ganhou mais força nesta nova fase e continua com uma sólida interpretação. Denver (Jaime Lorente), o mais emotivo de todos, também segue a brilhar. Temas como empoderamento e o género seguem evidentes nesta nova temporada.

Se você gostou das temporadas anteriores, vai apreciar esta continuação, pese embora possa ficar com uma certa sensação de angústia, visto que, muito ao seu estilo, na história desta gangue, tudo pode dar errado. Nada que um bom desfecho não resolva, aquando da 4ª temporada, ainda sem data prevista para o lançamento.

Confira o trailer:

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas.