Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Cinema | O Preto, de Ivo Mabjaia | Opinião

Dentre as artes que possam existir, e dentre as que são mais populares, a cinematográfica tem a fama de ser a que menos deixa interrogações quando terminada. E, isso não é algo que se deva denotar inferioridade, pois há fusão de muitos elementos que deixa claro do que se trata; entre as falas, os personagens, o tempo e espaço, o ambiente etc. Todos os elementos funcionam como pontos em que se costura uma intersecção para a ver o tema em questão. Porém, Ivo Mabjaia, director cinematográfico, em “O Preto” leva um sentido contrário, prepara a curta-metragem como se de uma peça teatral se tratasse. Nessa curta-metragem, “O Preto” de doze minutos, Ivo Mabjaia provoca mais dúvidas do que afirmações. No final, o terreno no qual se pisa é movediço, e ninguém está realmente firme. Na curta-metragem aparecem pessoas dormindo no chão, num corredor estreito, e no canto do corredor há três pessoas sentadas, olhando os estatelados. Esta é a primeira divisão. Há os que dormem e os que controlam os que dormem. Os que dormem estão trajados casualmente, e os três sentados estão trajados formalmente. Entre estes, os que controlam os que dormem, levanta um e vai roubar pertences dos que dormem. Dentre os últimos, acorda um personagem e grita a muyivi ‘ladrão’, mas é-lhe dado um par de sapatos e cala-se. O caricato dá-se nesse momento: alguém grita, mas ninguém desperta e depois, corrompido, cala-se e volta a dormir. No fim é que todos os três trajados à formal levantam-se e roubam pertences, mas no final, quando os que dormiam acordam e começa a matança. A curta-metragem termina com pessoas sem pertences e peladas.

Mesmo depois da sinopse as dúvidas mantêm-se. De que a obra nos fala? Uma questão difícil. O título “O Preto” não é um ponto firme em que se pode parar para observar tudo calmamente. Talvez seja o comportamento do “preto” como povo, roubar e corromper, mas a corrupção é algo humano. Podemos usar, mesmo indevidamente, o que Rousseau disse sobre o homem ser bom naturalmente, mas o mundo é que o corrompe. Então, se é a corrupção o que é referido como “o preto”, há aqui algo por se endireitar no título, pois não concorre no conceitual a ideia de que o prego e refere a questões raciais.

Qual é a temática, no geral? O corredor estreito pode representar o caminho, talvez o processo. Pessoas estateladas representam mesmo pessoas que estão dormentes e, possivelmente, não têm noção da sua própria condição e de onde se encontram. As três pessoas sentadas podem representar o muro que impede a progressão normal e natural das pessoas no processo. Na verdade representam a estrutura no poder, e isso é reforçado pela forma em que estão trajados. Em algum momento do filme alguém dos três que representam o poder levanta, espalha o spray no ar, fazendo com que os dormentes acordassem e batessem as palmas. O spray é espalhado novamente e as pessoas voltam a dormir. Aqui há uma forte metáfora daquilo que controla as massas, talvez as “mentiras da verdade” constatadas por Azagaia, as quais os fazem pensar que sabem, mas não sabem. Traz-se a ilusão de que estão despertos, mas o mesmo spray que lhes desperta é o mesmo que lhes torna a dormir. O que pode fazer as pessoas pensarem que estão acordadas, mas em contrapartida, lhes tornar a dormir, colocá-las inconscientes? A média.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é sobre o sistema que entulha todos num único caminho, num único labirinto, que não lhes dá saída porque há obstáculos, pedras grandes, intransponíveis. Numa das paredes há um cartaz referente a álcool em gel, que nos remete à pandemia de COVID 19, o que pode ser interpretado como o estado do sistema — nesse caso, um sistema doente -que rouba das pessoas tudo o que tem de mais precioso e ficam nus, sem dignidade nenhuma. Isso é o que o filme de Ivo Mabjaia retrata no fundo: um sistema decadente, no qual nem os que despertam de vez em quando conseguem fazer algo. O primeiro tem vertigens, o segundo grita a muyivi, mas é corrompido e consente a exploração dos seus, e já quando todos tentam despertar e levantarem-se são mortos.

Ademais, Ivo Mabjaia segue pelo sentido contrário, mas este faz uma curta-metragem sem discurso; a única vez em que um personagem fala é quando grita a muyivi e, depois disso, não há mais nada. Silêncio. Como se o sistema fosse algo que opera num modo sorrateiro, sem movimentações bruscas e, por isso, não sentimos que andamos todos dentro desse sistema. Esse silenciamento das falas é um dado curioso porque, se por lado é um elemento fundamental de uma narrativa, por outro lado esse silenciamento cria suspenses e interrogações. Contudo, faz com que os personagens não sejam bem desenvolvidos. O discurso também ajuda nessa caracterização dos personagens. E isso traz um outro ponto: uma curta-metragem sem protagonista. Arrisco a dizer que o protagonista do filme é mesmo o sistema. As tensões, o suspense, o drama, a acção (esta que é quase inexistente) ficou ao encargo, na maior parte das vezes, da trilha sonora, que muda o ritmo da curta-metragem, ora um som como se fosse batimento cardíaco, ora um som mais brando, ora mais acelerado.

“O Preto”, de Ivo Mabjaia é uma curta-metragem difícil de sorver pela sua densidade e impenetrabilidade, mas traz uma reflexão profunda sobre o estado do sistema, as relações de poder, e a condição das massas que são controladas como se fossem “corpos dóceis” constatados por Foucault e são tirados tudo até a dignidade pelo lado que detém o poder no sistema. Essa reflexão também é reforçada pela fotografia. O preto e branco que aqui, diferente de “Nhinguitimo”, não remete ao passado, mas tem a função de proporcionar a falta de vida, de movimento, e propiciar a reflexão sobre o sistema.

Por Domingos Mucambe

Histórias

Ice North: O Amor em Extinção no País Mais Jovem do Mundo

Em Ice North, a revolução não traz megafones nem bandeiras.

Chega como o frio: devagar, cortante e, por isso mesmo, imparável.

Não é uma revolução. É uma substituição.

Silêncio no lugar do afecto.

Ausência no lugar do desejo.

Cálculo no lugar da paixão.

Tudo acontece assim:

primeiro vem a independência financeira.

Depois, o corpo.

Por fim, a alma.

As mulheres de Ice North conquistam tudo.

Ocupam posições de liderança. Criam rotinas de luxo. Mantêm corpos esculpidos.

Sustentam a auto-estima entre estética e disciplina.

A beleza não é vaidade.

É competência.

Rostos bem cuidados. Formas firmes.

Um estilo lapidado com precisão cirúrgica.

A estética é tanto um activo como um escudo.

O país prospera.

A taxa de desemprego mantém-se em apenas 2%.

Tudo funciona suavemente.

Eficientemente. Belamente.

E os homens?

Não desaparecem — apenas deixam de ser indispensáveis.

E, quando algo deixa de ser essencial… começa a desaparecer.

Hoje, em Ice North, há um homem para cada vinte mulheres.

E, nem todos estão disponíveis ou interessados.

Alguns tornam-se celebridades acidentais.

Outros, troféus emocionais.

Muitos simplesmente… retiram-se.

Não fisicamente, mas simbolicamente.

Um homem é um luxo emocional.

Ter um companheiro significa estatuto.

Ter uma relação significa vitória.

Lauren, Shelley, Madeleine

Lauren, 42 anos, executiva de tecnologia, lidera uma empresa global.

Ao jantar, serve duas taças de vinho. Uma fica intocada, como um brinde ao que não veio.

“És incrível. Mas não tenho energia para encaixar a tua vida na minha.”

Ele diz.

Ela ouve o golpe como quem ouve gelo a partir — não pelo som, mas pelo silêncio depois.

Shelley, 28 anos, consultora financeira, ajusta o perfume, a voz, os temas — tudo calibrado para criar ponte.

Cada encontro é uma negociação emocional.

Sai com a sensação de ter fechado um contracto. E, como sempre, o este não inclui amor.

Madeleine, 46 anos, ex-advogada, recusa o jogo.

Vive com duas amigas.

Adopta uma criança.

Constrói um lar com afecto, mas sem moeda de troca.

“Não é que não queiramos homens.

Simplesmente deixámos de acreditar que eles nos completem.”

Para a cidade, são rostos que passam na multidão.

Entre si, são um refúgio.

A economia do afecto

A escassez cria um mercado.

Consultoras de imagem emocional.

Estilistas do desejo.

Estrategas da sedução.

“A atracção é ciência.”

Manter um homem por seis meses dá manchete.

Alguns trabalham como acompanhantes de luxo.

Outros desaparecem.

Poucos ainda procuram amor.

A maioria gere a própria raridade com habilidade.

“Agora somos nós que escolhemos”, dizem.

E escolhem.

Ou recusam.

As que permanecem imóveis

Nem todas competem com charme ou estatuto.

Algumas voltam-se para dentro.

Meditam ao amanhecer.

Equilibram emoções não para impressionar, mas para permanecer inteiras.

Leem. Escrevem.

Cultivam presença mais do que aparência.

Num mundo treinado para gritar, tornam-se mestres do silêncio.

Entre os poucos homens que ainda procuram ligação,

a inteligência e a serenidade são magnéticas.

Não é o rosto mais afiado que atrai, mas o olhar mais calmo.

Não é a resposta perfeita, mas a pergunta feita com profundidade.

“Ela não tentou conquistar-me”, diz um homem.

Os 10%

Noventa por cento dos homens declaram estar satisfeitos com a sua vida emocional.

E os outros dez?

Dividem-se entre cansaço, desinteresse, timidez… ou simplesmente abandonam o jogo.

Samuel, 40 anos, gestor de  propaganda de produtos médicos e de beleza.

“Elas querem intensidade.

Eu só quero paz.

E, às vezes, paz significa estar sozinho.”

Um Lugar Chamado Depois

O amor ainda existe em Ice North.

Mas chega tarde, devagar como um comboio que já não tem pressa.

Às vezes aparece num gesto distraído.

Noutras, numa frase que não foi pensada.

Quase nunca onde foi prometido.

Agora, amar exige um tipo de entrega que poucos lembram como se faz.

Não é resistência: é deixar cair o cálculo, a estratégia, a pose.

Talvez o problema nunca tenha sido a ausência de homens.

Talvez tenha sido a ausência daquilo que, antes de sermos marcas e métricas,

nos fazia humanos.

E se o maior acto de todos for amar… sem planear?

Em Ice North, poucos tentam.

Mas os que tentam,

mesmo que por um instante,

fazem o frio recuar.

Por Roberto Júnior

Versão inglesa publica no Medium em:

Ice North: Love in Extinction. “Ice North: the country where love and… | by The Cysne | Jul, 2025 | Medium

Opiniões, Resenhas

RELAÇÕES LÍQUIDAS EM “RIVAIS”, DE TWENTY FINGERS

Olhando para o ano transacto na arena musical, e procurando aquilo que poderia ter sido a criação musical que teve mais aceitação pelo público, lembramo-nos da composição pop que exibe o título sugestivo e provocativo “Rivais”, do cantor Twenty Fingers. A aceitação do público pode ter dois viesses. Numa sociedade com gostos primitivos no que toca a apreciação e a degustação das artes, a qual está propensa e tende a compartilhar para ridicularizar, é uma tarefa para os próprios artistas pensarem a sua condição de sucesso e fama, pois pode ser uma aceitação pela negativa. A aceitação de Twenty Fingers como artista é o reflexo da sua qualidade artística, apesar de ser um artista pop fazendo arte pop e que, como muitos artistasdesse ramo, cria para agradar o público. Nesse tipo de sociedade dos streamings a qualidade da obra é, às vezes, confundida com o número de likes, streamings e compartilhas (shares) que a mesma arte terá em relação a própria arte. Se Dionísio Bahule questionou sobre a redefinição da arte quando disse que havia certos movimentos artísticos os quais transformam qualquer coisa humana em arte só porque está exposta num determinado lugar, ou seja, tudo o que é exposto numa galeria X, apesar de ser apenas uma colher, é arte só porque foi exposto ali – então também posso afirmar que na era digital e tecnológica tudo pode ter selo de qualidade artística se obtiver mais gostos, streamings, e compartilhas.

“Rivais” é uma composição musical que retrata uma mulher que convida as amantes do seu marido para um dedo de conversa pacífico e aconselhador; exemplo da passagem em que o eu lírico enuncia “Só te vou dizer que ele não te vai cuidar bem” (Rivais, Twenty Fingers, Mp4). E anterior a essa questão em particular da rivalidade aceite, surge a constatação da arte musical moçambicana. Por muito tempo os artistas limitaram-se em escrever sobre amor, relacionamento, casamento, traição e tudo o que advém desse âmbito. É muito amor que se canta e se escreve para uma sociedade que, pelos vistos, desistiu do amor e do romance. Ligando esse ponto e a temática da composição trazida por Twenty fingers surge a constatação sociológica de Zygmunt Bauman sobre modernidade líquida, amor líquido e relacionamentos líquidos. No livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Ed., 2004, trad.), Bauman refere que a modernidade troca a ideia de relacionamento por rede, pois enquanto um significa durabilidade o outro é flexível. “Ele [a conectividade/desconectividade trazida pelo conceito de rede] promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (Ibidem). Em poucas palavras, a concepção rede traz a ideia de que pode ser conectado e desconectado, ligado e desligado, basta que o desejo comece e/ou acabe.

Provavelmente é essa a base teórica com a qual se pode analisar a sociologia dessa música. A questão, aqui, não é a moralidade conceitual da composição, onde iremos analisar sobre o bem e o mal da proposta para a sociedade, mas um veículo para ver o comportamento da mesma. Nesse caso, partindo da música “Rivais” e aliando a constatação de Bauman, a nossa sociedade vive em tempos líquidos, onde relacionamentos não duram como antes. E isso tem levantado debates. Nesses tempos, há incerteza sobre relacionamentos e medo, mas, mesmo assim, as pessoas não resistem e não desistem ao todo de entrar num, o que desemboca nesse meio-termo: um relacionamento líquido com slogans populares como “o que ninguém sabe ninguém estraga”, “solteira sim, mas sozinha nunca”, e mais. Nesses relacionamentos, é tão fácil entrar e sair num tanto quanto é fácil conectar e desconectar-se de uma rede qualquer (imagine wi-fi sem senha).

Contudo, Bauman apenas explica a flexibilidade dos relacionamentos e o quão são superficiais, onde ninguém mais entra num relacionamento por completo; “é só carne e não coração”, mas não toca nessa questão central da música “Rivais”. O autor afirma que as pessoas entram numa rede, perdem o tesão e saem da mesma correndo para uma outra, e a permanência em uma mas, ao mesmo tempo, procurando outras para o mesmo objectivo- penso eu…

Essa, por sua vez, é uma questão respondida por Luís Batalha nos seus estudos antropológicos sobre o matrimónio na era moderna. Para este, “nas sociedades tradicionais monogâmicas sempre existiu uma poligamia informal não institucionalizada por detrás de uma fachada social monogâmica” (pag. 125). Se nas sociedades onde a monogamia é muito mais cultural, tradicional e institucionalmente antiga, o que falar das sociedades africanas actuais, confusas ao nível cultural e tradicional quanto a tudo e, em especial, ao casamento? Em Moçambique, por exemplo, a institucionalização da monogamia não é antiga e culturalmente somos polígamos. Na união dessas duas realidades antagónicas só pode haver essa disparidade e caos, onde se renega a poligamia, mas pratica-se de maneira informal. E, é nesse prisma epistemológico e cultural em que toda a música se insere: num contexto onde a poligamia não é aceita a céu aberto, mas bem no fundo de todos aceita-se. A aceitação dessa poligamia verifica-se quando o eu lírico, uma das mulheres do homem com várias mulheres ocultas, convida as suas rivais para um bate-papo sem confusão, mas com aconselhamentos. Das nove mulheres, nenhuma parece estar apta a abrir mão do homem, todas aceitam essa realidade.

A poligamia parece ser um facto. Além dessa forma informal de poligamia, que é a forma que mais perto está da poligamia formal, há a poligamia em série (Batalha, 2004:134), onde pessoas se casam sucessivamente durante a vida toda. Casam com um, separam-se, tem um outro relacionamento, voltam a se casar e assim anda. Ou pode acontecer que namoram esse, noutro tempo namoram aquele, e depois disso namoram um terceiro. Nesse caso, rodam namorados/parceiros durante a vida toda estando naquilo que apelido de poligamia rotativa, esse que muitos moçambicanos estão inseridos nele. Esse é o espelho que a música nos traz. Uma sociedade líquida, principalmente nas cidades, em que, por um lado, a incerteza e insegurança nos relacionamentos resulta em negação de relacionamentos profundos e duradouros e, por outro lado, revela-nos uma sociedade que nega a poligamia a céu aberto, mas aceita-a na informalidade.

por Domingos Mucambe

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| A Substância | Opinião

Título: A Substância

Direcção: Coralie Fargaet

Género: terror corporal (body horror)

Elenco: Demi Moore; Margaret Qualley; Dennis Quaid

Ano: 2024

“A beleza é um enigma que não pode ser totalmente desvendado.”

Umberto Eco

Coralie Fargeat, cineasta francesa, depois da sua realização de estreia, “Vingança” (2017), retorna com “A Substância” (2024), sua segunda realização que, mantendo a mesma postura feminista, desafia as indústrias e os seus consumidores. A ideia de um corpo perfeito e mais jovem a cada medida que a idade avança, tem sido desde a era dos sex symbols de Hollywood, uma tendência com que as indústrias cinematográficas e cosméticas propõem os seus padrões de beleza. O filme “A Substância” retrata de forma surrealista a busca insaciável pela perfeição no universo das celebridades. A obra é marcada por uma abordagem visceral e perturbadora das tendências humanas, mergulhando no desespero da protagonista Elizabeth Sparkle, que vê sua carreira de ginasta de televisão a terminar por conta da idade e, em última instância, busca rejuvenescer a qualquer custo. A fragilidade da identidade, o desejo de permanecer relevante no olhar público, levam Elizabeth a fazer escolhas desesperadas e, por fim, trágicas.

A trama faz intervenções extremas na medida que constrói um retrato distorcido da obsessão pela perfeição física e pela manutenção da beleza, criticando a superficialidade da fama e a pressão que as celebridades enfrentam para se manterem “relevantes” às audiências. A proposta é clara: Fargeat utiliza o body horror para expor a efemeridade da beleza da mulher, sua fragilidade e a inquietante transformação do corpo em algo cada vez menos atraente.

Elizabeth Sparkle (interpretada por Demi Moore), inicialmente famosa e admirada, simboliza as protagonistas de muitas histórias de Hollywood que, com o passar do tempo, tornaram-se invisíveis e solitárias aos olhos do público. A decadência da fama e a tentativa de ressurgir com uma aparência renovada, ainda que artificial, tornam-se os motores da trama. Aqui, o desejo de Elizabeth pela reconquista de sua beleza é um reflexo da sociedade que valoriza a imagem e o eterno culto à juventude. Fargeat apresenta o processo de transformação de Elizabeth em “Sue” (interpretada por Margaret Qualley), como uma série de escolhas perigosas, das quais ela não pode mais escapar. As intervenções que ela faz em seu corpo não são apenas físicas, mas também psicológicas, já que ela passa a se ver como um produto que precisa ser constantemente aprimorado.

Ao longo da trama, o corpo de Elizabeth, agora transformada em “Sue”, torna-se num território de constante metamorfose, onde o body horror é explorado de maneira crua e gráfica. As cenas que retratam as transformações corporais não são apenas viscerais, mas também metafóricas, explorando o impacto psicológico que a obsessão pela aparência pode ter sobre a identidade de um ser humano. O corpo de Elizabeth fragmenta-se, desintegra-se e, em muitos momentos, degenera-se de maneira grotesca. Através dessa perspectiva, Fargeat apropria-se de um dos principais elementos do género body horror: o corpo que se transforma de maneira incontrolável, sugerindo o desespero e a perda de controle.

O filme não poupa o espectador de imagens desconfortáveis, mas faz isso com um propósito claro: mostrar que o corpo, quando manipulado de maneira excessiva e irresponsável, pode-se tornar um campo de guerra contra si mesmo. A transformação física de Elizabeth em “Sue” intensifica-se à medida que ela se aproxima de seu ponto de não retorno, criando um paralelo com a perda de controle sobre sua própria identidade e a pressão constante de ser perfeita. Cada intervenção que ela faz em seu corpo é uma tentativa de se manter visível e jovem, mas também é uma metáfora para o quanto ela perde da sua humanidade nesse processo. A desumanização é clara; especialmente quando se observa que “Sue” se torna numa fachada de si mesma, uma construção superficial e fragmentada.

A Substância vai além do género de terror físico para se tornar numa reflexão crítica sobre a sociedade contemporânea, onde a juventude e a aparência são frequentemente colocadas como as únicas qualidades que definem o valor de uma pessoa. O filme coloca em questão até onde uma pessoa está disposta a ir para manter-se no topo, e como isso pode ser prejudicial para a saúde física, mental e emocional.

Coralie Fargeat, que também é responsável pelo roteiro, é hábil ao combinar as convenções do body horror com uma crítica social bem articulada. O filme é visualmente impactante, com uma direcção que faz uso de uma estética limpa, mas que vai se tornando cada vez mais desconfortável à medida que a história avança. O uso da luz e da câmera contribui para uma atmosfera de crescente claustrofobia, onde o corpo de Elizabeth não é mais apenas uma prisão física, mas também mental. O ritmo do filme é imersivo, e a trama é conduzida de forma a deixar o espectador com uma sensação de desconforto e reflexão, sem perder a tensão que o género exige.

Resenha de Denilson Monjane

Opiniões, Resenhas

A Celebração do Estilo Hip-Hop da Costa Oeste em “GNX”, de Kendrick Lamar

Por Denilson Monjane

A lot of times, when people say hip-hop, they don’t know what they’re talking about. They just think of the rappers. When you talk about hip-hop, you’re talking about the whole culture and movement. You have to take the whole culture for what it is.

Afrika Bambaataa

Com o lançamento surpresa de “GNX”, Kendrick Lamar abala a comunidade Hip-Hop com uma abordagem mais clara e simples. É o seu projecto mais objectivo em comparação aos seus álbuns anteriores. Conhecido por suas explorações complexas de temas sociais e culturais, Kendrick presta, desta vez, tributo ao estilo hip-hop da Costa Oeste, homenageando suas raízes musicais e culturais. Ao invés de suas narrativas densas e intrincadas, Kendrick apresenta uma proposta de exaltação e celebração da cultura na periferia californiana, destacando as sonoridades clássicas e as rivalidades regionais de forma mais acessível e informativa.

Comecemos pelo título: “GNXé um acrónimo de ”Grand National Experimental”, um modelo de carro da marca “Buick”, aderido ao fim de uma turnê, sendo este o mesmo modelo de carro que seu pai Kenneth viria a transportar o futuro rapper a saída do hospital após o seu nascimento.

Logo na faixa de abertura de “Wacced out Murals”, Kendrick estabelece o tom do álbum com uma batida minimalista sustentada por um fragmentado discurso melódico em espanhol, cantado pela mexicana Deyra Barrera, que se vai completando ao longo do projecto:Siento aquí tu presencia/ La noche de anoche/Y nos ponemos a llorar… ‘Sinto sua presença aqui/A noite passada/E nós começamos a chorar…’ Isto, lembrando a famosa declamação fragmentada do poema “Another Nigga, que se ia completando ao longo do seu terceiro álbum “To Pimp a Butterfly (2015). O som é pesado, sem pretensões de sofisticação excessiva, sem um contraste deliberado e muito menos complexamente narrativo como “To Pimp a Butterfly” ou “Good Kid, M.A.A.D. City”. A simplicidade das batidas e o uso de estilos vocálicos característicos do gangster rap da Califórnia fazem com que o ouvinte se sinta imediatamente transportado para as ruas de Los Angeles e seus bairros, onde a violência e a rivalidade de gangues coexistem com um senso de comunidade, pertencimento e estilo de vida.

Essa abordagem minimalista é consistentemente explorada ao longo do álbum. Faixas como “Squabble Up”, “Hey Now” e “Peekaboo”aprofundam a imersão na realidade das ruas com Kendrick, abordando questões como lealdade, a luta pelo respeito e as tensões entre as diferentes facções, mas honrando a cultura da Costa Oeste. As letras são directas, sem perder a força emocional, e as produções ressoam com uma autenticidade que reverbera o legado de figuras como Snoop Dogg e Tupac Shakur, mas com uma sensibilidade mais contemporânea.

Com “GNX”, Kendrick Lamar se reafirma como um defensor do legado musical que ajudou a definir o hip-hop nos anos 90, a era considera como Golden Age Hip-Hop ou Era de Ouro de hip-hop. A faixa “Reincarnated” é uma clara homenagem a essa tradição, utilizando uma batida pesada combinada com piano e um baixo marcante, reminiscente das produções de Johnny J, então produtor da canção controversa “Hit Em’ Up”, de Tupac Shakur. Em “Dodger Blue”e “Heart pt. 6”. As canções são uma verdadeira viagem pelas ruas de Los Angeles, com suas referências ao dia-a-dia da cidade e à cultura local, mas também um reflexo do espírito resiliente da Costa Oeste, onde a música se torna uma ferramenta para a sobrevivência e para a construção de identidade.

As faixas “Luther”e “Gloria’, outras das faixas de destaque, uma fusão perfeita entre a modernidade e a tradição do hip-hop da Costa Oeste. As batidas, com seus ritmos pulsantes, são ao mesmo tempo dançantes e introspectivas, e as letras celebram a resistência das comunidades ao som único da região. Kendrick usa a música como um veículo para contar histórias de superação, resistência e identidade, trazendo um senso de orgulho à cultura da Costa Oeste, mas sem ignorar suas complexidades e contradições.

Um dos aspectos mais notáveis de “GNX” é como Kendrick Lamar propõe a união entre gangues rivais, isso já ressoando desde “Good Kid M.A.A.D City”e “To Pimp a Butterfly”, que são os projectos que minimamente dialogam com “GNX”. Essa ideia se reflecte especialmente em “GNX”, a faixa homónima do álbum. O som é agressivo, com um ritmo pausado e versos que evocam um senso de luta colectiva. Em suma, Kendrick Lamar sugere que, em vez de continuar as disputas violentas, as gangues poderiam usar sua energia para construir algo maior, como uma rede de apoio mútuo e resistência contra as adversidades. O álbum transmite tanto um desejo de união na medida em que dá crédito a relevância dos dois lados, propondo uma reflexão mais ampla sobre como as ruas da Califórnia podem unir-se em torno da música, cultura e comunidade.

Com “GNX”, Kendrick Lamar reafirma o Gangster Rap da Costa Oeste. As faixas como exploram uma realidade e uma visão de união usando a música como ponto de convergência. Kendrick, com seu talento único, consegue equilibrar a celebração da cultura hip-hop da Califórnia com uma mensagem poderosa de resistência e solidariedade.

Ao escolher esse caminho, Kendrick não apenas homenageia o legado da Costa Oeste, mas também solidifica a sua relevância dentro dessa tradição, contribuindo para um novo capítulo na história do hip-hop. “GNX” é um álbum que não só reafirma a importância de Kendrick Lamar no cenário musical, mas também propõe um diálogo urgente sobre união, identidade e transformação social, utilizando a música como um veículo para a mudança.

Opiniões, Resenhas

A Exploração Rítmica de Khruangbin: Sobre A La Sala

Por Denilson Monjane

“All great music is in one way or another psychedelic.”

Genesis P-Orridge

O trio texano Khruangbin, formado por Laura Lee (baixo), Mark Speer (guitarra) e Donald “DJ” Johnson (bateria), tem-se destacado ao longo da última década por sua sonoridade única, que mescla influências de funk psicodélico, soul, música tailandesa, maliana, jazz e ritmos do Oriente Médio. A banda tem, de forma gradual, consolidado um estilo que mistura e reinventa fronteiras musicais, mantendo sempre um fluxo de experimentação. Com o lançamento de A La Sala (2024), Khruangbin se afasta, em parte, de seus lançamentos anteriores e adentra um novo território sonoro, que transita entre o groove e a introspecção, com uma estética que remete a fusão de uma ambiência visual nostálgica e de espaços abertos.

Em comparação com os trabalhos anteriores como “The Universe Smiles Upon You” (2015), “Con Todo El Mundo” (2018), “Mordechai”(2022) e “Ali”(2022), que se baseavam fortemente em influências psicodélicas e elementos de músicas do mundo, “A La Sala” apresenta uma sonoridade mais consistente e contemplativa. As composições no novo álbum tendem a ser mais introspectivas e sutis, sem perder o groove inconfundível que se tornou marca registada da banda. A transição para um som mais atmosférico e refinado não é uma ruptura, mas uma evolução natural do trabalho do grupo.

Uma das características mais evidentes neste álbum é a atmosfera espacial e etérea que predomina em várias faixas. A combinação da guitarra suave de Speer, com a linha de baixo pulsante de Laura Lee e a batida hipnótica de Donald Johnson cria paisagens sonoras que mais evocam uma sensação de deslocamento no espaço do que uma construção de uma narrativa linear. A música parece funcionar como uma espécie de espaço entre o real e o imaginário, com momentos de leveza e transcendência.

O álbum abre com a “Fifteen Fifty-Three”, que inicia com uma estrutura de groove suave e se dissolve em camadas sonoras vibrantes do baixo, bateria e guitarra, criando um clima que é, ao mesmo tempo, cativante e melancólico. A textura sonora da banda é mais refinada aqui, com o baixo pulsando de forma quase hipnótica, enquanto a guitarra de Speer desliza por linhas melódicas que lembram tanto o soul dos anos 70 quanto os sons experimentais da música global.

Em “May Ninth”, a fusão entre o psicodélico e o electrónico se torna ainda mais pronunciada, com a introdução de batidas minimalistas e um toque de jazz, enquanto a voz de Laura Lee, mesmo que presente de forma contida, adiciona uma certa sensualidade ao ambiente sonoro. Já em “Ada Jean”, o uso de percussões mais orgânicas e um trabalho de guitarra mais focado na repetição cria um loop quase hipnótico, que leva o ouvinte a um estado de imersão. A escolha de deixar a guitarra mais esparsa nas composições também permite que a instrumentação se sobressaia, o que dá uma sensação de espaço e liberdade.

“Farolim de Felgueiras”é outra peça-chave no álbum. Com uma pegada mais directa, a faixa é um jogo entre o groove e o minimalismo, algo que Khruangbin já havia explorado, mas aqui de forma mais subliminar. A faixa traz uma melodia etérea que poderia facilmente ser um tributo aos sons melancólicos latinos mas, ao mesmo tempo, é suficientemente original para não cair na simples repetição de estilos. A banda consegue equilibrar referências com inovação, criando algo familiar e ao mesmo tempo novo. “Pon Pón” mostra que o Khruangbin também é capaz de explorar sons mais bailados sem perder a característica de criar atmosferas envolventes. A faixa parece um interlúdio, sendo menos sobre o ritmo a ouvir e mais sobre a sensação que deixa no ouvinte a vontade de dançar. E depois volta-se ao ritmo relaxado e pausado com “Todavía Viva”, com a voz suave de Laura Lee melodicamente acompanhando as cordas da guitarra de Speer.

Uma das grandes virtudes do álbum “A La Sala” é justamente a sua habilidade de criar complexidade dentro da simplicidade. A banda continua a demonstrar um domínio impressionante do uso do espaço e da dinâmica musical. O modo como as texturas sonoras se intercalam ao longo do álbum oferece ao ouvinte uma experiência sensorial mais do que intelectual. Não é um álbum que exige grandes análises ou interpretações complexas, mas sim uma experiência que pode ser sentida e vivida. Em muitas faixas, há a sensação de que a música é mais um estado de espírito do que uma expressão convencional de composição.

Essa abordagem é evidente em faixas como “Luego y Nubes”, que utiliza uma percussão repetitiva e uma linha de baixo discreta para criar uma sensação de movimento lento e constante. A melodia da guitarra é sempre sutil, quase imperceptível, mas ao mesmo tempo essencial, contribuindo para a construção da atmosfera substancial do álbum. O minimalismo apresenta-se como uma escolha estética onde menos é mais, e a repetição torna-se uma ferramenta poderosa para criar um estado meditativo.

“A La Sala” não é apenas um passo à frente na carreira do Khruangbin; é uma reflexão sobre como a banda pode continuar a expandir suas influências enquanto mantém sua identidade intacta. Em vez de se basear em fusões óbvias e fórmulas repetitivas, o trio dedica-se a explorar novas formas de criar e compartilhar sua música. É um trabalho que ressoa com as qualidades imersivas que sempre foram a marca da banda, mas com uma ênfase maior no amadurecimento e na experimentação sonora. O álbum, por fim, confirma o lugar de Khruangbin no cenário musical contemporâneo, enquanto oferece aos fãs um convite para se perderem em suas paisagens sonoras.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Conheça os Heelers ou A Televisão Animada como Meio de Educação Familiar – O exemplo de Bluey

I would like to make a film to tell children it’s good to be alive.

                                                                                                                              Hayao Miyazaki

Um dos aspectos mais marcantes das infâncias que foram, que são e que virão a ser de qualquer ser humano são, sem dúvidas, os desenhos animados. Aquelas cores, os movimentos desafiadores da física, os sons engraçados, as piadas que nos faziam e ainda fazem-nos contorcer à gargalhadas despertando nostalgia, são das memórias mais agradáveis que qualquer ser humano pode ter. Ainda, fazem-nos dizer que a vida vale a pena. Porém, nem todos os desenhos animados que marcaram a nossa infância tinham um carácter educativo e dignos de serem assistidos na presença dos pais; alguns contêm até piadas compreensíveis a partir de certa idade. Mas, nos últimos anos, as produções de séries animadas têm almejado alcançar um vasto público composto por espectadores de várias faixas etárias que podem desfrutar em família de uma série animada mais envolvente.

A série animada Bluey, criada na Austrália pelo animador, realizador e roteirista Joe Brumm, rapidamente se destacou como uma das produções infantis mais aclamadas da actualidade. Lançada em 2018, transmitida pela ABC Kids, na Austrália,  CBeebies (o BBC da pequenada), no Reino Unido e Disney Júnior Porto, em Portugal, a série é centrada na personagem homónima Bluey, uma cachorrinha da raça Blue Heeler, que vive com sua família em Brisbane, na Austrália. A narrativa é simples, minimalista mas cheia de nuances, abordando temas como a importância da imaginação, a dinâmica familiar e o crescimento emocional a cada episódio.

Um dos pontos mais fortes de Bluey é sua habilidade em capturar as complexidades das interacções familiares e sociais. Cada episódio, com uma duração de 7 minutos, aborda situações quotidianas que reflectem a vida real das crianças e suas famílias. Desde brincadeiras no parque até conversas sobre sentimentos, a série apresenta lições valiosas sobre empatia, resolução de conflitos e a importância de brincar. A trama é sempre envolvente, equilibrando humor e aprendizado de maneira leve e acessível aos espectadores.

A série também se destaca por sua representação diversificada. Bluey e sua família são representações fiéis da sociedade global contemporânea, mostrando uma variedade de famílias e culturas. A presença de personagens secundários com diferentes características sociais e étnicas contribui para uma narrativa inclusiva, permitindo que muitas crianças se vejam reflectidas na tela. Essa diversidade não é apenas visual; os roteiros também exploram diferentes dinâmicas familiares, promovendo uma visão mais ampla das experiências infantis.

A animação de Bluey é um outro aspecto considerável. Com um estilo visual vibrante e colorido, a série utiliza uma paleta que capta a essência da infância. Os cenários são detalhados, proporcionando um ambiente rico que estimula a imaginação. A direcção artística, sob alçada da Ludo Studio, combina simplicidade e expressividade, fazendo com que as emoções dos personagens sejam facilmente compreendidas pelo público infantil e adulto. Essa estética visual, aliada a uma trilha sonora encantadora, contribui para a imersão dos espectadores da série.

Um dos maiores triunfos da série animada é sua capacidade de tocar em temas universais que ressoam tanto em crianças quanto em adultos. A série não hesita em abordar emoções complexas como a frustração, a tristeza e a alegria em contextos que os pequenos conseguem entender. Episódios como “Sleepytime”, onde a Bingo- irmã mais nova da Bluey- enfrenta a dificuldade de dormir e, auxiliada pela Mãe, a série traz ao de cima a ansiedade e a necessidade do apoio da família. Essa abordagem permite que pais e filhos assistam juntos, gerando conversas significativas e momentos de conexão.

A recepção de Bluey é um testemunho de seu impacto na cultura contemporânea. A série foi amplamente elogiada por críticos e educadores, recebendo diversos prémios, incluindo cinco AACTA Awards consecutivos de 2019 a 2023 e o International Emmy Kids Award em 2019. Seu sucesso não se limita apenas ao público infantil, pois muitos pais destacam a relevância das mensagens transmitidas, além de sua capacidade de ensinar valores essenciais e educativos enquanto entretêm.Bluey é mais do que uma simples série animada para crianças. É uma obra que combina humor, empatia e aprendizado de maneira excepcional, conseguindo atingir tanto o público jovem quanto os adultos que a acompanham. Sua abordagem sensível e inclusiva aliada à qualidade da animação e aos temas universais que aborda, fazem dela uma referência no género. Bluey não apenas entretém como também educa, tornando-se uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento emocional, intelectual e social das crianças. É uma série que merece ser vista e discutida não apenas por seu valor como entretenimento, mas também por suas contribuições para a formação de cidadãos mais empáticos e conscientes de si e do seu meio. Estes elementos tornam a sérienuma das maiores obras-primas da animação infantil no século XXI.

Por Denilson Monjane

Desabafo de uma qawwi

#Inédito# Partículas de Tamarino

Narrado por Lindiwe

De vez em quando é preciso recuar, parar o ponteiro, por forma a fazer o relógio seguir. É o que sempre dizia o meu  avô. Hoje, a pressão de descontinuar, desandar, voltar a sentir, não é apenas esmagadora. É real.

– Então? Se pudesses revisitar alguma época, qual escolherias? – pergunta-me Linan.

Não titubeio.

– Maputo, anos 90, alvoroço das primeiras eleições multipartidárias, minha juventude, baixa da cidade, por favor.

– Ok, Lindiwe! Dá-me o braço. De resto, sabes o que fazer.

Respiro fundo. Estou curiosa para saber se de facto, estas tais partículas de lua verde de tamarino vão funcionar em mim, mera mortal. Medo. Este não me falta. Nem sequer razões. Linan foi muito específica quanto ao mecanismo desta sua tecnologia, porém, o meu intuito é desobedecer.

Seja como for, fecho os olhos, conecto-me ao aparelho e permito que ela esfregue no meu braço o pó prateado. Num instante, mergulho no escuro. E num clic, divido-me.

Sou duas dentro de mim. Sou ontem e amanhã. Estou sólida e gasosa, tanto quanto verde e madura. A minha pele rejuvenescida, as mirabas novinhas, as lágrimas nos olhos apertados, brilham no espelho do meu quarto de outrora. Mas a minha metade, a gémea nunca nascida, que mira a outra no espelho, já traz consigo as marcas e a confiança cobrada pelos anos. Tem características de uma mulher que amadureceu.

Limpo as lágrimas. Afinal de contas, elas pertencem à outra Lindiwe, a Lindiwe jovem, dos anos 90, que chorava por tudo e por nada. Que venerava o drama doce-amargo próprio da idade.

A melancólica “end of the road” chega ao fim e o gravador dispara. Teria de me inclinar sob a cómoda empoeirada, para virar a cassete para o lado B. Mas apenas me rio. A outra metade de mim já conhece a era digital. Desaprendeu a manusear fitas de cassete.

Um telefone em madeira e metal desperta no corredor. Trim trim. Parecem ecos medonhos que querem assombar. E o sentimento de pavor repete-se, no passado, no presente. Trim trim. Como dois consecutivos golpes na alma. Trim Trim.

Abro a porta, sabendo perfeitamente o que vai acontecer: o meu pai aproxima-se do telefone e levanta o auscultador:

– Alô! Sim? Quem quer falar? Fatinha está muito ocupada, não pode vir ao telefone. Aconselho a não telefonar mais!

O telefone tomba no gancho.

Trim trim.

– Olhe menina, já não lhe avisei para parar de telefonar? A Lindiwe não pode fazer mais parte do grupo. Não, não podes falar com ela, nem por três minutos, nem por três segundos! Certíssimo!

O telefone volta a tombar no gancho.

“Pai, por favor, a Ana apenas quer despedir-se, ela vai-se embora da cidade”.

Tu não vais manter amizade com essa moça, Lindiwe! E enquanto estiveres debaixo deste tecto, terás de obedecer-me!

Teria sido assim a conversa que se seguiria entre mim e o meu pai. Mas as palavras já não existem dentro de mim. Tenho pressa, preciso mudar o rumo dos cometas. Decido não enfrentar o meu pai
e deix-o afastar-se, com o corpo pejado de fortes convicções.

As memórias queimam na minha pele. Pois que naquela noite, eu ainda não sabia que um dia seria adulta, livre. Apenas conhecia o desespero. Apenas sabia-me presa aos desígnios de ter nascido
mulher. Ainda que Pedrito fosse mais novo, era ele quem dava as ordens. Não podia passear se ao mano mais novo não apetecesse acompanhar-me. Naquela altura eu era tida por um animal indomesticado, por gostar tanto de cuba libre, de sair com as amigas e de amanhecer a dançar.

O meu braço comicha, o efeito das partículas de tamarino está a terminar e o meu tempo de viagem a esgotar-se. O peito se me dilata.  Espreito pela janela do quarto. Lá está, o menino da barraca! Continua naquela praça, vendendo sonhos, amendoins e matoritori, entre as luzes intermitentes, no pulsar da noite que parece estar somente a acordar. Era sempre assim, especialmente às Sextas, quando o “tumbai” jorrava das colunas do minigolfe e sacudia as saias das moças que trepavam grades para irem às escondidas, abanar os corpos na famigerada boate.

O meu coração bate mais depressa. Não tarda para Inilda, Ana e Matilde estacionarem. Naquela noite, naquele exacto minuto, a outra Lindiwe estaria a vestir as suas boca de sino verdes, os
tacões favoritos, pintando os lábios de vermelho e metendo uns quantos quilos de audácia na bolsa, para mais uma aventura com as amigas. Não desta vez.

Ouço a buzina prolongada e reconheço o código.

Com o medo a escorrer-me pelos dedos da alma, avento-me no ar gelado e apresso-me ao carro. Ao contrário do que fiz no passado, detenho-me somente à janela.

– Meninas, devem todas voltar para casa, agora mesmo!

– Mas Lindiwe…

– É importante, Ana! Se formos à festa… uma de nós vai, vai…o resto da locução perde-se no vácuo dos meus próprios múrmuros.

Pasma, a minha amiga de outrora desce do carro.

– Isso tudo é por causa dos teus cotas? É a minha despedida, sabes que tão depressa não volto para Maputo, não sabes?

Ana não fazia a remota ideia. Nem poderia.

– É por querer ver-te bem, minha amiga! Tudo vai…

Não consigo completar a frase, pois o mundo esvanece numa neblina fresca, a medida em que os carros, o luar e a alegre cidade desaparecem num rodopio para dentro do impiedoso tempo. Os ponteiros seguem. Sonoros tic tac, tic tac, anunciando o meu presente. As pálpebras pesam quando abro os olhos. A minha blusa cola-se-me ao peito de tão encharcada. Pouco reconheço ao meu redor. Somente ela, Linan.

– Onde estamos?

– É a tua casa, Lindiwe. Como é que foi a viagem?

Percorro atabalhoadamente tudo em que esbarro, até encontrar um telemóvel. O meu.

– Linan! – balbucio vasculhando a vasta lista de contactos – acho que consegui! – já ouço o longínquo toque conectando o número de Ana. A voz do outro lado, que quase nada mudou nos últimos anos, confirma-me o impossível. Arranca-me sem freio uma lágrima.

– Ela está viva, Linan – anuncio – A Ana vive! O acidente não aconteceu! O meu passado é outro!

– Hey, calma ai – Linan parece estarrecida – eu disse-te para teres cuidado. Não é assim que as partículas funcionam… elas…

– Shiu, Linan! – enfio-me depressa num casacão grande – está tudo perfeito! Sou-te tão grata! Vamos sair, para comemorar?

Source Image: DigitalArtInspiration

Resenhas

#34 | De volta ao começo: partículas de tamarino

Por Will

Faço esforço para levantar o rosto, apenas por um instante, para que o ar possa penetrar, já que tenho os pulmões carregados de chumbo. A claridade da lua, num céu tão veludo como o desta noite, pouco me diz. Trago comigo este chumbo que galga devagar para cima, como areia movediça. Trava-me pelos joelhos e derruba-me por terra.

– Por favor, alguém ajude! Ambulância!

A mulher da minha vida, com um bebé de apenas três meses no ventre, continua estirada.

– Desculpa irmão, ela foi-se – ouço alguém dizer.

O peso agora sobe até os meus olhos e explode em átomos que cristalizam-se em violentas lágrimas. Levanto um pé, não consigo andar.

– Não – deve ser um pesadelo, penso comigo trémulo – ela não pode estar morta…

Procuro outra resposta, em outro lugar, mas a verdade é que não há resposta diferente.

Engulo o choro. Sufoco o grito. Sinto o meu rosto paralisado.

Não tenho a certeza de o ter visto chegar. Também não sei explicar como foi que, de repente, a pequena multidão se dissipou, deixando-me a sós, com ele.

– Lamento, Will – a sua voz carrega a seriedade da noite e sem nem aperceber-me, coloco-me em posição de combate.

– O que você fez?

– O que eu fiz, não, o que eu vou fazer!

A rigidez do meu corpo aumenta, mas ele ergue a mão, como quem demanda ordem.

– Linan ainda é importante para a missão, Will. Se realmente a amas, vais ajudar-me a trazê-la de volta. Preciso dela viva!

Vallen. O único qawwi que conheço, além de Linan. Um qawwi que desprezo, e que entretanto, quero abraçar. Graças a ele perdi Linan uma vez. Foi ele quem a transformou, num acto de mera vingança, em humana. Mas quem de nós dois estará mais perto de realizar o milagre?

A necessidade desafia-me por inteiro, rasga-me o peito em dois e obriga-me a implorar:

– Faz o que for preciso, o que quiseres. Ela tem que voltar a viver.

Vallen sacode o seu casaco, encurta a distância. Algo doirado relampeja na sua mão.

– Estende-me o braço, Will.

Obedeço sem pestanejar.

O qawwi passa um pó pela minha pela, que acende como ouro, por alguns segundos, antes de voltar à normalidade.

– São partículas de lua verde de tamarino – explica sucinto – Isto vai levar-te de volta ao passado, algum momento antes do acidente. Tens de manter Linan viva, é só isso que te peço. Se falhares, regressarás até mim, até este momento.

Movo a minha mão, mas Vallen trava-me com um gesto ameaçador.

– Não terás muito tempo. Agora vai. Pensa em algum momento antes do acidente… esfrega o braço e…

Caio.

Pelo menos é a sensação que tenho. E continuo a cair.

Dou por mim em casa. No jardim. Lembro-me deste dia. Andava exausto, rabugento. Se tivesse sabido que teríamos um acidente, não teria perdido tempo a ser um idiota. Procuro-a por toda a casa, mas ela não está. Ligo-lhe, mas não atende. Recordo-me de que foi à consulta. Depois de tanto pensar, só me ocorre uma coisa: deixar um recado por escrito. Antes que o tempo acabe. Sento-me no sofá, pego numa caneta e começo a escrever.

De novo caio. E continuo a cair.

Lá está o sujeito. A cidade deserta. A minha vida sem cor.

– O que houve?

– Se estás aqui, significa que falhaste. Linan continua morta. Não temos muitas chances, rapaz. Vá… volte!

De novo estou em queda escura.

Agora ouço uma música. O tinido de taças. Estou ao pé da porta, sentindo um paladar de chocolate. Bolo que Érica e eu fizemos, para o aniversário da mãe. O que é isto, na minha mão? Julgo que acabo de recolher o gel desifenctante do carro, depois de saber dos perigos que causa estar exposto ao sol.

A dúvida atravessa o meu peito. E se isto for uma armadilha? Um desengano? E se estiverem a pregar uma partida com o meu cérebro? De qualquer forma, não podia permitir o acidente. Que entrássemos no maldito carro, e…

Vasculho um auxílio na cozinha, marcho rapidamente para a garagem e começo a furar um pneu, até que ouço a voz da minha filha.

– Pai! O que estás a fazer?

Tenho a boca e garganta secas.

– Chama a mãe, filha, chama a mãe… – urjo seguindo-a pela cozinha. Preciso contar à Linan, ela saberá o que fazer.

E de novo me abraça a escuridão.

– Não, não pode ser! – balbucio ao dar de caras com os olhos frívolos de Vallen

– Escuta bem, rapaz: talvez haja apenas uma chance. Uma! Use melhor o tempo. Desta vez vou dar-te a flor de dijon, para que tenhas mais tempo e preserves a memória até ao fim. Vai haver modificações no teu corpo, mas é por uma boa causa. É importante que te recordes.

– Vou recordar-me, Vallen.

– Vá, salva a Linan.

Levanto-me da cama, com o coração descompassado. A conversa com Vallen baila na minha cabeça, tenho o peito molhado, os dentes apertados.

Como um raio de luz, as mãos suaves dela percorrem-me para acalmar-me.

– Tiveste um pesadelo?

Quero dizer-lhe. Mas travo-me. Temo que o meu pensamento, por si só, possa levar-me de volta a Vallen. Tudo o que quero é ficar com ela. E não sei como impedir o futuro.

– Abraça-me, Linan – tento buscar conforto no seu corpo, sem pretensão de afastar-me. Agarro-me com tanta força, que venço. Permaneço ao lado dela. Sinto as partículas do tempo abandonarem-me, esgotando-se, autorizando-me a continuar. E permaneço.