Desabafo de uma qawwi

#32|O equilíbrio quebradiço da vida

Sinto um gosto horrível na boca. Perdura no meu paladar desde ontem, o dia em que que soube estar a gerar-se dentro de mim uma vida nova. O sabor amargo ampliou esta manhã. Saía eu da casa de uma aluna, quando vi um menino. Devia ter treze, catorze anos, no máximo. Atirado nas escadas escuras do prédio, isolado, tentava esconder as lágrimas. Os seus olhinhos estreitos mexiam-se acanhados ao ritmo do medo. À medida que os seus ombros agitavam-se sobre o seu corpo em soluços, penetrava este azedume na minha boca. Qualquer um podia ouvir os gritos horripilantes da flat do rés do chão. Os pais do menino agrediam-se verbalmente. E qual força maior para agredir um coração, senão aquela? O menino não tinha uma casa. Tinha um inferno. Como podem, dois seres humanos, trazer uma criança ao mundo para a torturarem daquela forma?

Aquilo tudo forçou-me a voltar a questionar o significado de ser mãe, de ser pai. Talvez pela minha origem distante, pela minha inegável condição de aliegena, eu jamais compreenda, e por consequência, nunca me sentirei preparada para acolher esta semente que brotou em mim. Não neste mundo em particular. E quando nascer, o que vai ser ele? ou ela? Um humano? Um qawwi? Uma criatura híbrida e perdida? A ideia causa-me uma incontrolável pontada no peito. Seja qual for a sua natureza, esta criança já é um pedaço de mim, pedaço que deverei entregar às garras deste planeta tão maltrado, tão dominado de sombras e tão necessitado de ajuda. É justo para a criança? Ou para o próprio planeta? Provavelmente não exista uma resposta clara e julgo que seja pouco óbvio para os próprios humanos. É errado duvidar? Afinal de contas, ser pai acarreta decisões que não se devem impor. Significa abdicar de quaisquer modos egoístas e dedicar toda a energia ao filho, pelo resto dos dias. Significa ficar falido, se preciso for, pela educação dos ditos cujos. Em última análise, significa dar a vida, se for isso que custa. Sou absolutamente livre de o querer… ou não.

Pese embora tenha feito a decisão, o conflito dentro de mim não cessa.

A médica disse-me que devo ter cuidado. Chamou o meu estado de “gravidez de risco”. Pelo que entendi, pode estar em perigo a vida do bebé, ou a minha. Quando é que eu poderia imaginar um fenómeno assim? O corpo degradando-se e sofrendo de tal forma, que enfrenta o risco do apagão? Ode às mulheres humanas, por saberem viver neste equiílibrio quebradiço da vida.

O risco de eu vir a desaparecer deste corpo e desta terra após o nascimento do meu filho, não me assusta. Sei melhor do que ninguém, que a morte é uma das formas de eu voltar ao meu planeta. E o fim do ser humano, é regressar às origens. Aliás, este é um dos pontos cruciais da minha missão.

Porém, de olhos bem vendados, de mente humana que ainda não se abriu para conhecer a sua verdadeira origem, Will não é capaz de compreender quando digo que vai tudo correr bem. Que a morte não é definitiva. Para Will, a ideia do futuro incerto encheu o nosso redor de sombras, de problemas. A dúvida adoeceu-lhe a alma. E quando o espírito adoece assim, vai-se a sanidade da mente. Wil começou a perder o juízo. Pelo menos foi isso que à princípio, pareceu.

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