Desabafo de uma qawwi, Dia a dia de uma qawwi, Dicas

#29 | artigos que não podem faltar em casa (e no coração) de um ser humano – casos de emergência

 

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Imagem: rutagourment

Sonolenta, deambulo pelas vastas esquinas do centro comercial. Porque é que estas tais “lojas” tem de ser tão grandes? Por outro lado, tivesse eu dormido na cama, teria evitado as dores nas costas. Todavia, adormeci no sofá da sala, a ver na tv as notícias sobre ciclones tropicais. Por conta disso, a primeira coisa que fiz ao acordar na manhã seguinte, antes de ir ao cartório, foi verificar os armários, e compilar uma lista de compras. Neste planeta, tudo é possível, especialmente nos últimos dias, em que as mudanças climáticas fazem valer a sua definição. Desastres naturais são imprevisíveis e inevitáveis. Em caso de emergência, um pouco de preparação e alerta, pode significar a linha ténue entre a vida e a morte.

Começo a recolher da prateleira os itens da minha lista. O primeiro é a água. Os humanos julgam que este bem está disponível a todo o tempo. Por causa da minha missão, posso garantir com toda a segurança, que não é o caso. Até porque pode ocorrer de ficarmos sem sistema de abastecimento, ou simplesmente impedidos de sair de casa. Regra de ouro: ter boas reservas de água potável. 4 litros por pessoa, por dia, deve ser suficiente.

Item número dois: medicamentos. Apesar de recorrer a eles só em última instância, é sempre bom ter um kit com pelo menos paracetamol. E no meu caso, já que agora qualquer ferimento precisa de cuidados (ja não cicratizo automaticamente), um kit de primeiros socorros também ajuda.

O terceiro item são velas. Corrente eléctrica pode falhar. Manter um conjunto de velas e um pacote de fósforos pode salvar do escuro durante esses períodos incertos.

Quarto item: comida não perecível. A cruz vermelha recomenda ter sempre comida para pelo menos duas semanas em caso de nos encontrarmos retidos em casa ou à espera de evacuação. Não é necessário que se acumule somente enlatados de feijão. Podemos ter comida não perecível que na verdade vamos gostar de comer, numa situação destas.

Por último, vou atrás de pilhas. Desde que estejamos bem preparados, telemóveis e computadores (essas ferramentas que tornaram-se um só com os humanos), podem continuar a funcionar, mesmo se a electricidade for abaixo. É sempre bom manter power banks carregados, baterias carregáveis e pilhas para os paraelhos que funcionam a essa base. Assim mantemos contacto com os mais próximos em caso de emergência.

– Linan?

As pilhas quase caem no chão. Não creio nos meus olhos.

– Fatinha…!

Recebo dois ardentes beijos no rosto. O calor deixa-me embaraçada. O que faço com esta vontade de abraçar Fatinha? À medida que o tempo sarou-me, senti a sua falta. Da sua amizade. Enquanto em conflito comigo mesma, não fui capaz de perceber que havia sido algo injusta com ela. Ensaio dentro de mim as desculpas. Mas limito-me a comentar:

– Há muito que não te via, Fatinha.

– Mudei de cidade. Linan, sinto-me tão culpada por tudo o que aconteceu…

– Fatinha…

– Deixa-me falar, por favor. Nunca tivemos oportunidade.

– E nem é preciso…

– Para mim é – interrompe com firmeza – Fiquei para morrer quando tu e Will terminaram. Estávamos arrasados pelo teu desaparecimento e talvez tenha sido esse desespero que acabou levando-nos a cometer aquele deslize. Porque foi só isso, um deslize. Algo passageiro, numa noite de bebedeira e de lágrimas. Depressa nos apercebemos que tinha sido um erro. Will é um homem especial, e não vai amar outra que não tu. E sinceramente, nunca perdoei-me por ter perdido a tua amizade.

As palavras entalam-se na língua. Dou por mim envolvida pela lembrança da visita ao cartório naquela manhã. Tinha sido com o propósito de assinar os papéis do divórcio. Não foi uma experiência agradável. A sala quente guardara uma gelada agonia. Uma tensão parecida a do ambiente que espera um caçador abater a presa. É um processo doloroso por natureza. Pouco humano. Will e eu assináramos a certidão, sem trocarmos muitas palavras. No fim, ele foi-se embora. Nem sequer lembro-me de ter visto o seu rosto. Parte de mim ficou derrubada ao saber que “oficialmente”, passáramos a ser nada um para o outro. Mas assim era. A reciclagem humana. O varrer e o despejo dos cacos.

– Não guardo ressentimentos Fatinha, e honestamente, peço desculpas se tratei-te mal. Na verdade o Will e e eu acabamos de assinar o divórcio.

– Oh não. Linan…

– Va la Fatinha – os meus lábios curvam-se num leve sorriso e então abraço-a. – não te sintas mal. Compreendo. Passa lá por casa um dia destes.

– Passo sim – concorda Fatinha

É incrível como tudo passa. Quem diria. Neste momento, nada do que tinha acontecido importava. Eram apenas marcas e recordações, como a foz que desaguou no mar.

Confiro os itens no cesto. Está completo. E dentro de mim, como a ponta de uma vela, acende-se uma estrela, clareando o sentimento renovado de tranquilidade e reconciliação. Coisas indispensáveis para o coração de um ser humano.

Desabafo de uma qawwi

#27| Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia da sua vida

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Imagem: The International Educator

Nos últimos meses, encarar a vida como humana parece-me uma tarefa mais aceitável. Às vezes ando pelas ruas, absorta nos meus pensamentos, ardendo na tal melancolia, esse manto que se agarra a quem caminha só. Outras vezes, caminho mais atenta. À procura de sinais escondidos da missão que falhei. Quem sabe haja algo no semáforo fechado, na mulher de mão estendida, ou no andaime suspenso.

Há momentos em que busco tão-somente um rosto amigo. Nessas alturas, sou capaz de ver Will. No rosto do vendedor de jornais da esquina, por exemplo. Ou no simpático vizinho que dispensa alguns segundos das suas manhãs para cantar-me os bons dias. À medida que o tempo passa, eu aprecio esta memória viva dentro de mim. Aceito-a.

Todavia, há outros aspectos da vida humana que são praticamente insuportáveis. Não poder teletransportar-me é angustiante. Não tolero andar de carro, por isso a bicicleta acaba sendo um meio termo. Custa-me habituar-me as estranhezas do corpo humano. Quantas vezes acordo a meio da noite, com impetuoso calor? Que dizer então quando acomete-me uma terrível dor de cabeça? Ah, a dor de cabeça. Essa espanstosa novidade.

Em momentos de ansiedade, deixo-me sentar ao luar, entre as árvores do quintal. É assim que resolvo os meus conflitos. A olhar para estrelas, sem pressa. Permitindo-me lembrar que além delas, há muito mais. Um dia, quem sabe, eu volte ao meu planeta. É essa esperança que me consola.

A dor de cabeça começa a ceder. O stress por causa do deadline desaparece. A situação, subitamente, parece-me ridícula. Eu, Linan, stressada por causa de trabalho? Solta-se de mim uma morna gargalhada.

Algo que causou-me admiração logo que cá cheguei, foi o tempo reduzido dos humanos. 70 entre 80 anos. Essa é a média geral de vida. E mesmo assim, esta espécie passa a maior parte do tempo a trabalhar. Eu até compreendo. O sistema não permite que seja diferente. E ter um trabalho, chega a ser uma grande dávida. O que eu não compreendo, entretanto, é como tantos humanos deixam que o trabalho os frustre, sugue a vitalidade. Onde está benefício nisto? Como é que milhares de pessoas conseguem estar ao serviço de empresas e de empregadores que não valorizavam o seu esforço, nem o seu tempo? Como é que conseguem trabalhar em algo que abominam? É aterrador. E sabem porquê? Porque hoje, como humana, não tenho outra opção senão trabalhar. No princípio, achei que não fosse capaz. Mas aos poucos, a solução desvelou-se. Lenta e infalível.

Eu falo muitas línguas. Mais de quinze. Assimilei-as como quem bebe água, quando ainda era qawwi. O que eu não sabia, é que isso podia converter-se em dinheiro. Foi uma boa surpresa descobrir que ensinar outros humanos, é um trabalho comum neste planeta!

Comecei por trabalhar com crianças. Estar com elas era quase como regressar a Stefanotis. E não demorou muito para depressa começarem a surgir vários pedidos distintos. Queriam que ensinasse adultos. Que trabalhasse com umas tais “instituições”. Passei a oscilar entre “intérprete”, tradutora” e “educadora”. É engraçado como no planeta terra podemos ser várias coisas ao mesmo tempo. Isso fascina-me. O novo trabalho obriga-me a viajar com frequência. Quer dizer, andar pelo mundo e conhecer pessoas, experimentando a terra com olhos de humana, não é de todo uma obrigação. Quando muito, um acto de diversão.

“Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia da sua vida”. Disse Confúcio, um pensador e filósofo. Colei esta frase na parede do meu escritório em casa. É a prova da sabedoria humana.

O mais importante não é o dinheiro que estou a ganhar. As utilidades para ele não são tantas. A forma como o trabalho está a transformar-me sim, é fabulosa. Diminui os vácuos dentro mim, transformando-os em luminosos jardins. Em suma, o trabalho faz-me sentir, pela primeira vez, curiosidade, e até uma pontinha de alegria em ser humana.

– Oh mãe, tenho mesmo de ir? – pergunta uma voz firme e meiga. Érica surge na varanda. Coloca a pomposa mochila às costas, lança-me um olhar desgostoso – raramente estou contigo… um fim de semana é muito pouco!

Levanto-me da grama e ajeito a gola do casaco da minha filha.

– Por mim ficavas aqui o ano todo meu amor, só que o teu pai vai chatear-se se eu não for deixar-te. E se no próximo feriado formos passear? Podíamos ir acampar na praia, como fizemos na páscoa, o que achas?

Érica agita-se com os olhos saltitantes de excitação.

– O pai também vai?

– Só nós duas, meu amor.

Indignada, e como forma de protesto, ela saca os headphones cor de rosa do bolso e os mete nos ouvidos.

– Tu e o papá são uns chatos…

Acompanho a minha filha até a casa do pai. De táxi, a rota demora cerca de 15 minutos.

No portão da vivenda, Will está com uma mulher. Ela despede-se dele de forma bastante afectuosa, antes de enfiar-se num vistoso mercedes.

O meu coração bate mais depressa. Faz tanto tempo que não vejo aquele homem. Deixou a barba crescer. Parece mais velho. Tal como eu, ele também tem um trabalho. Sempre teve, pese embora eu só agora compreenda esse fenómeno na sua plenitude.

– Entra, Linan.

Mal reconheço a sua voz. Há alguns meses eu disse que queria o divórcio. Longe de imaginar que com isso, abriria as portas para a chegada de um estranho. Como quando uma árvore caí. A raiz, quem sabe, reaaproveite-se. Mas ela, jamais será a mesma.

– Senhorita Érica, depressa a lavar as mãos para vir jantar, faça o favor…

– Sim paizinho, mas não te esqueças que não tenho mais seis anos, faça o favor você também! – reclama Érica correndo pelas escadas, as botas de couro ressoando pelo soalho.

– Anda cá uma reclamona… – comenta Will, debruçando-se sobre a mesa onde estão espalhadas várias folhas gigantescas, réguas e esquadrões. Will procura algo. Se calhar o lápis encaixado na sua orelha.

– Will…

– Sim? – ele ergue a cabeça. Nos seus olhos já não há o brilho que a qawwi em mim conheceu um dia. Neles, somente uma interrogação – ah… a papelada. O advogado prometeu que até para semana finalizamos tudo, não te preocupes, estamos quase.

– Não era isso – respondo constrangida. – O lápis… – faço um gesto indicando a orelha.

Will encontra o lápis. A gargalhada que deixa escapar, floresce como uma primavera, e deixa-me mais à vontade para concluir:

– És um pai exemplar Will. Estás a fazer um bom trabalho com a Érica, ela é uma menina incrível. É isso que queria dizer.

Ele parece confuso.

– Estamos os dois, certo?

Respiro, anuo e levanto a mão.

– Bom Will, até outro dia.

Ele parece um pouco apreensivo quando pergunta-me se quero ficar para jantar.

– Se não tiveres outro compromisso, já que – ele parece cada vez mais incerto – sei perfeitamente que tens estado ocupada mas… – acaba por travar – bom, o que estou a tentar dizer é que és bem-vinda a ficar. A jantar connosco.

Observo-o de novo. Sinto-me tão insegura. Que vontade de ficar. Mas sei que não posso. Tampouco sou capaz de entender se ele de facto o quer. Os seus olhos castanhos costumavam ser a janela da sua alma. Todavia, eles carregam agora a densidade da matéria. São os olhos da diplomacia.

– Gostaria de ficar, Will, mas acho que não posso, tenho um prazo para fechar esta noite.

– Imaginei. Mas fico feliz por saber que estás a gostar do teu trabalho. Da tua nova vida.

O meu peito quebra-se em duas partes. Metade fica naquela sala, batendo acelerado. A outra metade segue comigo, controlado. Sim, o gostar de viver às vezes não é mais senão do que saber ser-se humano por si próprio. Saber que o amor pode distanciar, mas que a vida seguirá.

Desabafo de uma qawwi, Resenhas

#26|Quero o divórcio (essa faca de dois gumes)

Fonte imagem: istock

Apareceu à minha porta sem avisar. Trazia um ramalhete de flores. Mas a visão não me agradou. Evocou-me antes, a memória do beijo. E de repente desejei que tanto ele como Fatinha tivessem os seus corações violentamente quebrados. Queria que Will estivesse tão miserável quanto parecia. Que se arrependesse por ter destruído a nossa união. Confesso que odiava-me sentir-me daquele jeito. Mas sentia. Era o que eu era, a minha nova entidade. E essa nova entidade, raivosa como um bicho ferido, fez-me fechar-lhe a porta na cara. Na verdade, só tinha aceite dar-lhe o meu endereço porque queria continuar perto de Érica.

– Não vou embora sem falar contigo, Linan! – os golpes na porta permaneciam altos.

Respirei fundo. Tentei abafar os meus gemidos, a angústia agressiva, os ciúmes insuportáveis. Se por um lado não me lembrava de ter experimentado tais sentimentos enquanto qawwi, na condição de humana parecia que neles naufragava.

– Sê breve – pedi num fio de voz, deixando-o entrar. Ao inalar o aroma das flores, espirrei.

– Meu Deus – admirou-se Will ao notar a reacção – São as tuas favoritas!

Para mim também era novidade. A humana em mim era alérgica a antúrios. Peguei no ramalhete e atirei no balde de lixo, sem um pingo de remorsso. Will apenas seguiu-me silencioso.

– Eu amo-te, Linan.

Operou-se uma confusão instantânea na minha mente. Voltei-me bruscamente.

– Não foi um beijo aquilo que vi entre ti e a Fatinha?

O rosto dele voltou-se para baixo.

– Sim, mas…

– Fizeste amor com ela?

O gargalo de Will inchou enquanto claramente engolia uma resposta azeda.

– Não é como estás a pensar, Linan.

-Ah não? Como podes alegar amar-me e ao mesmo tempo fazer amor com ela? Elucida-me, por favor – empurrei a mão dele. O toque não ia aclarar as ideias. Precisava de algo mais forte que isso.

– Em primeiro lugar, tu não estavas aqui!

Fiquei perplexa. Morrendo de overdose daquela ideia estapafúrdia.

– Ah! Então quando nos ausentamos, ausenta-se também o amor?

Will ficou lívido. Parecia tão incrédulo e surpreso quanto eu.

– Nunca deixei de amar-te. Tu é que me abandonaste! Trouxeste a nossa filha de volta, e de seguida sumiste. Eu vi! Deste as mãos a Vallen, de livre vontade, e evaporaste. Sem um único adeus. Dois anos. E eu sem saber se estavas morta, ou se de repente tinhas saído deste planeta. O teu telemóvel, entretanto, chamava. A secretária electrónica às vezes era de França. Outras, de Cabo Verde. Tailândia. Bora Bora. E a última vez, de Sydney. E tu nunca. Nunca deste um sinal, nunca respondeste às minhas mensagens!

– Porra Will, foi por vocês! Para proteger-te, para proteger a Érica! Eu não podia entrar em contacto pois estava a fingir ter deixado tudo para trás. Era a única forma que tinha para poder voltar para vocês.

– Para mim não foi fingimento. Despedaçaste-me por inteiro, Linan. Fatinha só chegou tão perto, porque também estava arrasada e tentava convencer-me de que ia tudo ficar bem. Ela ajudou-me a cuidar de Érica, mas não era…

– Era a minha melhor amiga. E tu a puseste no meu lugar. Foi isso.

Will calou-se. Sacudiu os ombros.

– Lamento imensamente que estejas a ver assim. Eu não estou com ela. Nunca faria isso. Queria apenas que entendesses que nos últimos meses… a minha cabeça estava em todos os lugares. Não fazes ideia!

– Tu também não! – Naquele instante os nossos corpos estavam muito próximos, mas os corações, distantes como o sol e o mar. Por isso gritavamos para que nos ouvissemos – não fazes ideia do quanto perdi para poder voltar para ti!

– Desculpa – os olhos de Will escureceram – Ao contrário de ti, sou humano. O meu corpo está sujeito a essa condição, e às vezes comete atrocidades. Mas o meu coração é e sempre foi teu.

Desejei ardentemente que nem eu, nem ele, fossemos humanos. Que soubéssemos ser unidos de corpo, alma e coração. A dissociação havia nos estilhaçado. E no reflexo dos escombros, brilhavam as nossas falhas. O coração, sem o corpo, é uma cegueira. E o corpo sem coração, é uma mutilação. Não havia metáfora possível para suavizar a realidade.

– Por favor – Will engolia as lágrimas – por favor – repetia consecutivamente – perdoa-me e deixa-me explicar.

– Escuta Will, não condeno-te por teres colocado a minha melhor amiga no meu lugar, ou por teres sido um idiota ao duvidar que eu iria cumprir a minha promessa. Tão pouco por teres esquecido que eu amava-te infinitamente. E sim, aceito as tuas desculpas.

Ele tremia quando perguntou muito baixo:

– Aceitas, mas não vais voltar para mim, é isso?

Reflecti durante alguns segundos. Ele estava correcto.

– Exacto, não vou voltar. Voltar para ti agora significaria desrespeitar os meus sentimentos. Ir contra mim mesma. Estou cansada disso e sinceramente, preciso ser mais benevolente comigo mesma.

– Algo em ti, mudou, meu amor.

– É o que acontece, Will. O universo muda constantemente.

Não tinha vontade de confessar que agora era humana. Que sacrificara os meus poderes, a minha essência, por ele. Uma força amarga e poderosa dentro de mim impedia-me disso.

– E pretendes abandonar-nos de novo? Vais teletransportar-te e sumir pelo mundo? E a nossa filha?

Suspirei. Até há pouco não me imaginava a fazer aquilo sem ele. A ser humana. Mas agora compreendia. Era uma jornada exclusivamente minha. Enfrentar os medos, a solidão, é o que faz de nós, nós. Precisava de um tempo sozinha, para entender-me comigo própria.

– Ouve-me com atenção, Will. jamais abandonarei a Érica, não tens de preocupar com isso. Mas o que quero agora é estar só.

– Percebo – Ele tentou aproximar-me, mas ao ver-me retesar, retrocedeu – ainda tenho fé no nosso casamento. Vou dar-te espaço, até que estejas pronta para perdoar-me.

– Acerca disso – rodei o anel no dedo – eu quero aquela coisa.

Ele franziu as sombras.

– Não sei se compreendo.

– Quero aquela coisa Will – retirei o anel, ao mesmo tempo que tentava desesperadamente recordar-me do termo certo – o divórcio. Eu quero o divórcio.

Desabafo de uma qawwi

#25|Infinitamente humana

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Imagem: Chobir Doka. Fonte

O comboio estava em movimento há mais de três horas. E eu verificava cada minuto. Logo eu, que o tempo nunca precisei controlar. O que passei a ser, senão um ser reduzido àquela tragédia? Estava severamente limitada pelo tempo. Pelo espaço. Pelo meu próprio corpo. Corpo este vulnerável, cheio de cortes e de feridas que demoravam cicatrizar. Havia tanto em mim, naquela nova condição de humana, que ainda não compreendia.

A assistente de bordo trouxe o almoço, acompanhado de um cálice de vinho. A cabine era confortável. Estava ambientada ao som de Beethoven e exalava a morango. Tossi e apertei os punhos. Tudo aquilo incomodava-me. Os aromas, a música, a raiva misturavam-se nas minhas veias, realçando o que corria dentro de mim. Só que a corrida era em queda livre. O meu peito tornara-se um poço sem fim. Batia três vezes mais rápido.

– Com licença – murmurou um homem alto que passava pelo corredor, fumando um charuto. Já ia à distancia, mas mesmo assim, as minhas narinas continuaram a captar o tabaco. Quase vomitei. O motor do comboio soava tão alto, que parecia estar dentro do meu estômago. O simples som do cálice assentando na mesinha dobrável, assemelhava-se ao estrondo de uma bomba.

Transpirei. 20 graus neste corpo em transformação, parecia a temperatura de uma sauna. Tudo. Absolutamente tudo estava amplificado dentro de mim. Os sons, os cheiros, a energia, os meus medos. Quis fugir deste destino, mas agora estava acorrentada. Até o dia em que finalmente morresse. Talvez sem deixar um legado ou uma herança. Que conceito melancólico era esse, da herança. Viver e construir para um momento em que não existiremos. Que lógica havia nisso? Aliás, a minha vida inteira parecia ter perdido o sentido. Olhar para o almoço pousado à minha frente, deixava-me deprimida. Comer já não era uma opção. Era um ultimato.

Em suma, eu havia trocado a possibilidade de voltar para as galáxias, por um assento de comboio. Uma vida plena, por um estômago constantemente faminto. Seria capaz de conviver com isso?

Uma mão pousou no ombro. Virei-me para o lado esquerdo e dei de caras com uma mão estendida para mim, segurando um copo de água. Os músculos do rosto do jovem estavam contritos. Ele continuou calado, oferecendo-me o copo.

– Desculpe – consegui murmurar depois de engolir um gole de água. – tive um momento, mas já passou – tentei justificar-me, limpando as ousadas lágrimas que haviam vencido. É isto que acontece com os humanos quando confrontados com as suas limitações. Esta triste manifestação que arrebata como um inevitável ciclone. É isto… que é ser humano.

– Seja o que for, moça – balbuciou o jovem com cautela – vais ficar bem. No fim, vais ficar bem.

Observei-o. Os olhos cheios de luz, que rondavam-me preocupados a tentar dizer “estou aqui para qualquer coisa”, e o sorriso desajeitado, lembraram-me Will. A lembrança foi como um leve alvorecer. Uma esperança que brotava do vácuo e começava a alçar o meu peito à vida.

Will, Érica. A minha família. Sinónimo de amor. O derradeiro privilégio de se ser humano.

– Também acredito que vai ficar tudo bem, obrigada.

E agarrei-me ao pensamento. À minha família. Aos meus amigos. Eles esperavam por mim, tanto quanto eu por eles. Eles é que tornariam a minha jornada como humana mais leve. É assim que os humanos aguentam a sua condição. Com amizade e com amor.

Will e Érica não suspeitavam que era hoje, dois anos depois, que voltaríamos a estar juntos. Quando eu chegasse em casa, a luz a escuridão, os beijos e as lágrimas seriam um só. Morreríamos de amor, para tornar a viver. Este pensamento manteve-me acordada durante a viagem inteira. E foi ele o motor para o meu corpo fraco, correr sem cansar-se. Não dava para esperar.

Quando cheguei ao pé da varanda, senti-me estupidamente viva. O meu rosto, os meus lábios, devagarinho abriram-se num longo esgar. Acho que estava a sorrir. Era a primeira vez que o fazia desde que havia perdido os meus poderes.

Pelas cortinas, vi-os na sala. E o peito vibrou com estertor.

Will colocava um bule na mesa, onde Érica concentrava-se a volta de cadernos. Como a minha filha tinha crescido!

Mas o meu sorriso, depressa marmorizou-se, nos lábios subitamente frios. Uma mulher apareceu na sala e meteu os braços a volta de Will. Parecia ser a minha amiga Fatinha. Will voltou-se de costas, e ela, tão depressa, beijou-o nos lábios.

Nesse instante, Will levantou os olhos e viu-me pela janela. O copo que segurava tombou e estilhaçou-se.

O meu primeiro instinto foi desaparecer, como tantas vezes fiz quando era qawwi. Mas permaneci ali. Não conseguia teletransportar-me, tão pouco impedir aquela dor, aquela perplexidade, de dominarem o meu corpo. Era tudo o que restava-me. A amarga admiração, e o corpo forasteiro, coberto de pânico, atarracado ao pé daquela janela, de olhos muito abertos, sem poder mexer-se. Deparava-me com a minha nova realidade. Infinitamente humana.

Desabafo de uma qawwi, Dia a dia de uma qawwi

#24 |O preço da liberdade

Uma lua plena dominava o céu escuro de Sydney, a cidade escolhida para a nossa última paragem. A janela do apartamento com vista para uma linha férrea, parecia o espelho do mundo. Comboios traziam chegadas e partidas, como quem traz ar para dentro e fora dos pulmões.

Sentada numa cabeceira tão pequena quanto a minha liberdade, lutava para terminar a tarefa. Era quase como tentar vencer o espaço. Restavam-me cinco minutos. A cabeça latejava, os braços tremiam. Agora tinha apenas dois minutos. Levei a mão ao rosto e limpei uma gota de suor. Sacudi a gola da camisola, decidida a controlar o meu destino. Mais um toque, um gemido de dor, e a pedra abriu-se. A luz que explodiu de dentro dela, irradiando todo o meu ser, não era outra coisa senão o meu coração em jubilo. Suspirei, aliviada. A partir daquele momento, caso a minha teoria estivesse certa, tudo o que eu tinha feito desde que chegara ao planeta terra, tudo o que havia tocado com a força dos meus poderes, permaneceria intacto. Acontecesse o que acontecesse. Isso significava que já podia voltar para casa. Após dois anos de ausência, a correr pelo mundo com Vallen, a fingir abraçar uma causa que não era minha, iria tornar a abraçar a minha família humana.

Nervosa e sem tempo, deambulei pelo apartamento. As janelas nuas entregavam-se solenemente aos reflexos do luar. Em desespero, procurei o oitavo qlub. Não podia deixar que Vallen ficasse na posse do objecto. É claro que ele consideraria o meu acto uma afronta, uma traição. Mas não existiam outras opções. Eu ia voltar para casa, e carregaria comigo as chances do inimigo destruir o planeta terra. Deparei-me, por fim, com o objecto. Vallen não se esforçara para o esconder.

Contei cada um dos meus medos, por forma a que pudesse medi-los. Primeiro os mais pequenos: medo de a minha teoria falhar. De não ser capaz de conviver com isso. Depois os maiores: medo de não recuperar a minha família. De ser apanhada por Vallen e perder os meus poderes. Porém, o medo de um mal, só leva à um mal ainda maior.

Meti o objecto no bolso.

– Aonde é que vais com o qlub, Linan?

Sabia que a voz às minhas costas pertencia ao meu maior medo. Vallen se tinha materializado dentro do quarto. Talvez estivesse a vigiar-me há muito tempo. Virei-me para ele buscando força em cada fibra do meu corpo. Disso dependia o meu futuro como qawwi. Arremessei-o para longe, mas Vallen regressou como tempestade. Todas as peças no quarto levitaram e vieram disparadas na minha posição. Desviei-me e atirei flechas quentes. A minha pontaria andava tão certeira quanto o meu desejo de voltar para casa. Vallen caiu no chão. Uma fecha despontava vitoriosa no seu ombro. Julgava eu ter vencido a batalha, mas tal pensamento desvaneceu-se quando dei por mim, parada no mesmo local, incapaz de teletransportar-me. A luz do luar relampejava pelo quarto inteiro.

– Eu sou um qawwi de palavra, Linan – Vallen lançava-me um olhar decepcionado, ao mesmo tempo que erguia-se, com uma mão pousada no ombro em cicatrização. Tinha os olhos vermelhos quando ergueu o braço na minha direcção – por ordens do Rei Réon que dá-me poderes e autoridade para isto.

– Não – murmurei lívida de pânico, sem conseguir mover-me.

– Vais sair daqui sim, Linan, mas não como qawwi.

E então percebi, quão alto era o preço da liberdade. Não era capaz de o pagar.

– Vallen, por favor, não.

Ele meteu a mão na minha cara. Senti os meus olhos acuarem-se, num misto de súplica e ira. Vallen transpirava. Sentia dor. Custava-lhe. Mas ainda assim não se deteve. Gritei, pois parecia que me cortavam à faca. A minha pele adquiria um tom acinzentado, sangue corria-me pelo nariz, e o meu rosto começou a esticar-se, como se quisesse abandonar o corpo. A minha essência de qawwi libertava-se, para sempre, do meu ser.

Vallen baixou a mão e eu tombei para o lado.

Ele agachou-se, vasculhou-me os bolsos e tirou o oitavo qlub.

– Aí tens. Tira bastante proveito dos dias que te restam na reles vida que escolheste como humana.

E desapareceu do quarto.

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Imagem: TVD – canal CW – Fonte Theodysseyonline

Desabafo de uma qawwi, Dia a dia de uma qawwi

#21| Leva contigo o meu coração

Apesar da grandeza do Rio de Janeiro, consegui localizá-lo. Mais rápido do que previ. Rondava pelo telhado do prédio, quando finalmente vi o meu inimigo. Aterrei no pulo de um gato e comecei a disparar várias flechas contra ele. Os qawwis só perecem se atingidos no peito ou na cabeça. Todavia, o ferimento que causei, embora fosse cicatrizar automaticamente, servira para o neutralizar. Lancei bolhas de energia e de seguida atirei-me sobre o seu pescoço.

– Devolve a humana, agora!

Vallen grunhiu.

– Ai sim? Se não o quê? – Apesar de sufocada, a voz abafada daquele qawwi vil continuava eivada de afronta. Isso irritou-me e fez-me cercá-lo com muito mais força.

– Se não eu mato-te e vou sozinha atrás dela. Vou encontrá-la, Vallen, demore o que demorar.

Podia ser pelo facto de ter passado as últimas noites em claro. Ou então, por apenas há alguns dias, eu ter casado e perdido a família. Numa única noite. Mas a verdade é que eu tinha sede daquele confronto. Sentia a morte no ventre. E não duvidava que um de nós fosse sucumbir. Estava na hora.

Vallen fez um novo grunhido. Uma gargalhada confinada.

– Tu não me vais matar, Linan.

– Qual seria a razão para não o fazer?

– É simples – as suas veias pulsavam como um vulcão em erupção – matas-me e estarás também a matar a tua querida humaninha. A minha vida está atada à dela, minha cara, portanto, tudo o que fizeres comigo, será sentido por ela.

Imediatamente tirei o braço. Sabia que o que ele dissera era possível, e portanto, havia todas as chances de ser verdade.

– Ai minha doce Linan…- Vallen ajeitou a camisa e cruzou os braços – Pelo Rei Réon tu já terias sido permanentemente banida de Stefanotis. Eu trago autorização dele para extirpar-te dos teus poderes. Só não o fiz porque ainda tenho esperança em ti. Estou ao teu lado, Linan.

– Faz-me rir. Se tivesses o poder de extirpar-me, já o terias feito…

– Acontece que preciso de ti com os teus plenos poderes. Da-me o oitavo qlub.

– Não sei nada sobre o oitavo qlub. Ainda estou a meio da minha missão.

Vallen adquiriu um brilho nos olhos.

– Eu sei. Mas acredito nas tuas habilidades, Linan. Ajuda-me a encontrar o oitavo qlub, e eu dou a minha palavra que não rei extirpar-te. Se não me obedeceres, executo a decisão do rei Réon agora mesmo.

O meu sangue gelou. Ser extirpado significa perder a essência. É um dos piores castigos no meu planeta. E só Reon, qawwi supremo, podia aplicar tal medida. Um qawwi extirpado deixa de ter os seus dons, fica imune às doenças e não demora a envelhecer. Em outras palavras, torna-se humano. Algo que eu, nem sequer, conseguia cogitar. Então quais eram as minhas opções? Pôr-me em primeiro lugar e salvar-me? Ajudar Vallen na destruição do planeta terra? Era isso que eu devia fazer?

– Prefiro morrer a juntar-me à ti, Vallen.

O brilho nos seus olhos desapareceu e ele avançou.

Na rapidez de um cometa, senti-me mergulhar num buraco negro. Ia deixar de ser uma qawwi.

Então, subitamente, Vallen retrocedeu. Parecia admirado:

– Preferes mesmo ser extirpada, do que obedecer o rei Réon? De facto deves amar bastante essa tal humanidade. O que é que eles fizeram por ti? – o vinco na testa dele desapareceu e o sorriso jocoso regressou – mas seja feita a tua vontade, Linan. Lembra-te apenas de uma coisa: os teus poderes e dons vão desaparecer para sempre e tudo o que fizeste antes será anulado. Eu faço-te a vontade…

– Espera!

Ergui o braço em defesa. Percebi nesse instante que não estava preparada para tamanha crueldade. Não queria deixar de ser uma qawwi. Essa revelação pesou ainda mais, ao lembrar-me de que eu tinha usado os meus poderes para curar Will de uma doença fatal. Se os meus poderes desaparecessem, era provável que tudo voltasse ao estado original. Will podia morrer. Coisa normal neste mundo que eu tanto queria abraçar. No entanto, não era capaz.

– Eu faço o que queres, Vallen. Vou contigo procurar o oitavo qlub – ele rompeu num urro de vitória, que tratei de interromper. – mas tem uma condição: temos de devolver a menina ao pai.

– Trato feito, minha amiga! Devolvemos a menina, e seguimos a nossa viagem.

Pouco depois, estávamos em frente de casa. Vallen permitiu que me despedisse de Will. Entretanto ao vê-lo de longe, pelo vidro da varanda, não tive coragem de entrar. Will esperava ardentemente pelo nosso regresso. Eu sentia-o. Mas se chegasse perto, não teria força para abondona-lo.

Ajoelhei-me em frente de Érica e arranjei-lhe a gola do vestidinho. Até os canários do jardim percebiam a minha tristeza.

– Quero que corras para casa, minha filha. Vai dar um abraço ao pai.

– Mãe… tu não vens?

Olhei mais uma vez para a varanda envidraçada. Will ainda não tinha dado pela nossa presença. Afaguei o cabelo de Érica.

– Venho mais tarde – era a primeira vez que mentia para a minha filha – Diz ao pai que a mãe ama muito vocês, e vai amar para sempre. Sê uma boa menina.

– Está na hora de partirmos Linan. – advertiu Vallen.

Abracei Érica com muita força.

– Corre, vai dar um abraço ao pai!

Ela correu. E com ela levou o meu coração.

Vallen estendeu-me a mão. Era como se a gravidade e os astros se tivessem feito ausentes. Precisava de recuperar o equilíbrio, e agarrei-me ao apoio mais próximo. A mão de Vallen. Foi nesse instante que Will abriu a porta para Érica e viu-me. Poucos segundos antes de Vallen e eu desparecermos pela noite preta.

Desabafo de uma qawwi

#20|Soneto de fidelidade – Meu casamento, meu pesadelo

É a minha pequena Érica quem lidera o cortejo. Entusiasmada com a tarefa, ela saltita pela trilha de areia, cercada de candeeiros e velas. As suas mãos vão largando pétalas vermelhas. A ínfima quantidade que os seus dedinhos conseguem tirar do cestinho.

Sigo atrás dela, acompanhada pelo pai de Will. Os meus pés descalços estão cobertos pelo longo cetim do vestido cor da lua. O mar e as estrelas, quietos, tentam disfarçar os risos, mas certamente estão espantados. Afinal, conheço Will há quê…? Três anos do planeta terra? Todavia, vendo-o ali, parado, trémulo, sorridente, pronto para jurar-me amor eterno num altar coberto de flores e de sonhos, fico com a impressão de que é a primeira vez que o vejo. E é uma visão que deixa-me muda. Inunda-me os olhos. Quando Will toma-me pela mão, o meu peito transborda. De infinito contentamento.

Caríssimos irmãos – inicia o tal “padre”. O ritual é bastante estranho. Mas na sua estranheza, sinto as palavras tornarem-se uma ponte de cristal, a reflectir a verdade que arde dentro de mim, quando chega a vez de dizer os votos:

– Will: contigo aprendi o que há de melhor nos seres humanos. Aprendi que amar é ter no outro o nosso lar, a nossa alma. Que o verdadeiro amor não vê diferenças, mesmo num universo vasto como este. Eu prometo, perante todos, que vou amar-te com força maior que a da gravidade. Cada segundo em que viver neste planeta.

Will mantém o seu olhar fixo no meu, deixa escapar um leve suspiro, e revela:

– Linan: até há algum tempo atrás, precisamente há três anos, o que eu queria era desaparecer. Despedir-me e esquecer-me de tudo. Mas acabei encontrando-te à ti, e contigo não há despedidas. Agradeço-te, infinitamente, por existires. Sobre o meu amor por ti, confesso com a ajuda de Vinícius de Moraes:

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

O jantar no restaurante da praia parece estar ao agrado dos 12 convidados. Isso tranquiliza-me. Enquanto dançámos ao som de “Janeiro à Janeiro”, sinto uma mãozinha puxar a cauda do meu vestido.

– Mãe… a tia Fatinha não deixa-me comer o bolo!

Carrego-a ao colo e dou-lhe um leve beijo.

– Daqui a pouco a tia Fatinha deixa, tens de ter paciência, está bem?

Para a minha surpresa, já que é uma criança persistente, Érica acena, desce do colo, e volta a estar com Fatinha, a minha grande amiga, agora também madrinha.

Will encosta a sua testa a minha. Parece esbaforido quando sussurra:

– Se pudesse, casava-me contigo todos os dias, Linan.

Uma falha na corrente eléctrica não permite que responda ao comentário. No minuto a seguir, a escuridão impera. E o meu coração acelera como um raio.

– Érica – é tudo o que consigo murmurar.

– O quê?

– Ele está lá fora. Vallen. Com ela!

A corrente é restabelecida mas eu já lancei-me à porta, sem nem perceber que Will corria na direcção oposta. Lá fora, uma brisa sopra na minha direcção, trazendo a visão que veste a forma do meu pior pesadelo: Vallen. Segurando Érica ao colo. A minha filha está dominada pela influência do poder de um qawwi.

– Linan, Linan… falta de educação não convidar os amigos ao casamento, não achas?

Levanto as mãos e faço emergir várias camadas de energia. Mas preciso encontrar a melhor de atacar, sem ferir Érica. É nesse momento que Will junta-se a mim. Para o meu espanto, vem munido de um arco e de flechas quentes.

Ergue uma das flechas:

– Larga a minha filha!

As sombras de Vallen curvam-se:

– A sério Linan? Tiveste o atrevimento de ensinar um humano a usar as nossas armas?

– Por favor – decido que não quero arriscar a vida de Érica – é a mim que queres, deixa a menina ir.

– Com certeza, Linan – Vallen agarra-se mais à Erica – Podes vir buscá-la quando quiseres. Localizei o qlub da esperança. Saberás muito bem onde encontrar-nos.

E em menos de segundos, tanto ele como a minha filha tinham desaparecido. Vallen acabara de fazer algo que poucos qawwis conseguem: teletransportar-se com um humano.

Os olhos de Will toldam-se de sombras. Ele está lívido. Nunca o vi tão transfigurado. O seu rosto é a moldura acesa do desespero. Da dor, e da fúria. É como se o amor e a vida tivessem secado naqueles poucos segundos.

– Não… eu não posso perder a minha filha!

– A nossa filha, Will. – corrijo com pesar – A nossa filha. Vou trazê-la de volta.

Ele encara-me, rígido.

– Leva-me contigo. Temos de ajudar a nossa filha… leva-me contigo!

Então, uma lágrima cai no meu rosto. Quem me dera ter a capacidade de teletransportar-me para tão longe, levando-o comigo. Mas não posso. Mesmo que pudesse, seria o equivalente a assinar a sua sentença de morte.

– Prometo que a terás de volta, sã e salva. Tão breve, meu amor. Confia em mim.

Fatinha, apercebendo-se do movimento, viera atrás de nós. Ela despe a camisola que traz e coloca-a sobre os meus ombros. Não percebe nada, mas de alguma pressente o terrível destino que me espera. A busca por Érica será longa. E o meu vestido de cetim, não é necessariamente o melhor traje para uma viagem destas.

Despeço-me deles. E dos dias de calor e de amor que tanto ansiamos mas que agora serão substituídas por noites geladas, numa estrada solitária. Olho para as estrelas, em busca de força.

– Linan – Will parece derradeiramente assustado quando segura-me pelo braço – não posso perder ambas. imploro.

Devolvo o olhar. Vejo os aneis nos nossos dedos. E com isso, teletransporto-me.

tenor-3

Imagem: TVD – do canal CW