Opiniões, Resenhas

A Exploração Rítmica de Khruangbin: Sobre A La Sala

Por Denilson Monjane

“All great music is in one way or another psychedelic.”

Genesis P-Orridge

O trio texano Khruangbin, formado por Laura Lee (baixo), Mark Speer (guitarra) e Donald “DJ” Johnson (bateria), tem-se destacado ao longo da última década por sua sonoridade única, que mescla influências de funk psicodélico, soul, música tailandesa, maliana, jazz e ritmos do Oriente Médio. A banda tem, de forma gradual, consolidado um estilo que mistura e reinventa fronteiras musicais, mantendo sempre um fluxo de experimentação. Com o lançamento de A La Sala (2024), Khruangbin se afasta, em parte, de seus lançamentos anteriores e adentra um novo território sonoro, que transita entre o groove e a introspecção, com uma estética que remete a fusão de uma ambiência visual nostálgica e de espaços abertos.

Em comparação com os trabalhos anteriores como “The Universe Smiles Upon You” (2015), “Con Todo El Mundo” (2018), “Mordechai”(2022) e “Ali”(2022), que se baseavam fortemente em influências psicodélicas e elementos de músicas do mundo, “A La Sala” apresenta uma sonoridade mais consistente e contemplativa. As composições no novo álbum tendem a ser mais introspectivas e sutis, sem perder o groove inconfundível que se tornou marca registada da banda. A transição para um som mais atmosférico e refinado não é uma ruptura, mas uma evolução natural do trabalho do grupo.

Uma das características mais evidentes neste álbum é a atmosfera espacial e etérea que predomina em várias faixas. A combinação da guitarra suave de Speer, com a linha de baixo pulsante de Laura Lee e a batida hipnótica de Donald Johnson cria paisagens sonoras que mais evocam uma sensação de deslocamento no espaço do que uma construção de uma narrativa linear. A música parece funcionar como uma espécie de espaço entre o real e o imaginário, com momentos de leveza e transcendência.

O álbum abre com a “Fifteen Fifty-Three”, que inicia com uma estrutura de groove suave e se dissolve em camadas sonoras vibrantes do baixo, bateria e guitarra, criando um clima que é, ao mesmo tempo, cativante e melancólico. A textura sonora da banda é mais refinada aqui, com o baixo pulsando de forma quase hipnótica, enquanto a guitarra de Speer desliza por linhas melódicas que lembram tanto o soul dos anos 70 quanto os sons experimentais da música global.

Em “May Ninth”, a fusão entre o psicodélico e o electrónico se torna ainda mais pronunciada, com a introdução de batidas minimalistas e um toque de jazz, enquanto a voz de Laura Lee, mesmo que presente de forma contida, adiciona uma certa sensualidade ao ambiente sonoro. Já em “Ada Jean”, o uso de percussões mais orgânicas e um trabalho de guitarra mais focado na repetição cria um loop quase hipnótico, que leva o ouvinte a um estado de imersão. A escolha de deixar a guitarra mais esparsa nas composições também permite que a instrumentação se sobressaia, o que dá uma sensação de espaço e liberdade.

“Farolim de Felgueiras”é outra peça-chave no álbum. Com uma pegada mais directa, a faixa é um jogo entre o groove e o minimalismo, algo que Khruangbin já havia explorado, mas aqui de forma mais subliminar. A faixa traz uma melodia etérea que poderia facilmente ser um tributo aos sons melancólicos latinos mas, ao mesmo tempo, é suficientemente original para não cair na simples repetição de estilos. A banda consegue equilibrar referências com inovação, criando algo familiar e ao mesmo tempo novo. “Pon Pón” mostra que o Khruangbin também é capaz de explorar sons mais bailados sem perder a característica de criar atmosferas envolventes. A faixa parece um interlúdio, sendo menos sobre o ritmo a ouvir e mais sobre a sensação que deixa no ouvinte a vontade de dançar. E depois volta-se ao ritmo relaxado e pausado com “Todavía Viva”, com a voz suave de Laura Lee melodicamente acompanhando as cordas da guitarra de Speer.

Uma das grandes virtudes do álbum “A La Sala” é justamente a sua habilidade de criar complexidade dentro da simplicidade. A banda continua a demonstrar um domínio impressionante do uso do espaço e da dinâmica musical. O modo como as texturas sonoras se intercalam ao longo do álbum oferece ao ouvinte uma experiência sensorial mais do que intelectual. Não é um álbum que exige grandes análises ou interpretações complexas, mas sim uma experiência que pode ser sentida e vivida. Em muitas faixas, há a sensação de que a música é mais um estado de espírito do que uma expressão convencional de composição.

Essa abordagem é evidente em faixas como “Luego y Nubes”, que utiliza uma percussão repetitiva e uma linha de baixo discreta para criar uma sensação de movimento lento e constante. A melodia da guitarra é sempre sutil, quase imperceptível, mas ao mesmo tempo essencial, contribuindo para a construção da atmosfera substancial do álbum. O minimalismo apresenta-se como uma escolha estética onde menos é mais, e a repetição torna-se uma ferramenta poderosa para criar um estado meditativo.

“A La Sala” não é apenas um passo à frente na carreira do Khruangbin; é uma reflexão sobre como a banda pode continuar a expandir suas influências enquanto mantém sua identidade intacta. Em vez de se basear em fusões óbvias e fórmulas repetitivas, o trio dedica-se a explorar novas formas de criar e compartilhar sua música. É um trabalho que ressoa com as qualidades imersivas que sempre foram a marca da banda, mas com uma ênfase maior no amadurecimento e na experimentação sonora. O álbum, por fim, confirma o lugar de Khruangbin no cenário musical contemporâneo, enquanto oferece aos fãs um convite para se perderem em suas paisagens sonoras.

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