
Olhando para o ano transacto na arena musical, e procurando aquilo que poderia ter sido a criação musical que teve mais aceitação pelo público, lembramo-nos da composição pop que exibe o título sugestivo e provocativo “Rivais”, do cantor Twenty Fingers. A aceitação do público pode ter dois viesses. Numa sociedade com gostos primitivos no que toca a apreciação e a degustação das artes, a qual está propensa e tende a compartilhar para ridicularizar, é uma tarefa para os próprios artistas pensarem a sua condição de sucesso e fama, pois pode ser uma aceitação pela negativa. A aceitação de Twenty Fingers como artista é o reflexo da sua qualidade artística, apesar de ser um artista pop fazendo arte pop e que, como muitos artistasdesse ramo, cria para agradar o público. Nesse tipo de sociedade dos streamings a qualidade da obra é, às vezes, confundida com o número de likes, streamings e compartilhas (shares) que a mesma arte terá em relação a própria arte. Se Dionísio Bahule questionou sobre a redefinição da arte quando disse que havia certos movimentos artísticos os quais transformam qualquer coisa humana em arte só porque está exposta num determinado lugar, ou seja, tudo o que é exposto numa galeria X, apesar de ser apenas uma colher, é arte só porque foi exposto ali – então também posso afirmar que na era digital e tecnológica tudo pode ter selo de qualidade artística se obtiver mais gostos, streamings, e compartilhas.
“Rivais” é uma composição musical que retrata uma mulher que convida as amantes do seu marido para um dedo de conversa pacífico e aconselhador; exemplo da passagem em que o eu lírico enuncia “Só te vou dizer que ele não te vai cuidar bem” (Rivais, Twenty Fingers, Mp4). E anterior a essa questão em particular da rivalidade aceite, surge a constatação da arte musical moçambicana. Por muito tempo os artistas limitaram-se em escrever sobre amor, relacionamento, casamento, traição e tudo o que advém desse âmbito. É muito amor que se canta e se escreve para uma sociedade que, pelos vistos, desistiu do amor e do romance. Ligando esse ponto e a temática da composição trazida por Twenty fingers surge a constatação sociológica de Zygmunt Bauman sobre modernidade líquida, amor líquido e relacionamentos líquidos. No livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Ed., 2004, trad.), Bauman refere que a modernidade troca a ideia de relacionamento por rede, pois enquanto um significa durabilidade o outro é flexível. “Ele [a conectividade/desconectividade trazida pelo conceito de rede] promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (Ibidem). Em poucas palavras, a concepção rede traz a ideia de que pode ser conectado e desconectado, ligado e desligado, basta que o desejo comece e/ou acabe.
Provavelmente é essa a base teórica com a qual se pode analisar a sociologia dessa música. A questão, aqui, não é a moralidade conceitual da composição, onde iremos analisar sobre o bem e o mal da proposta para a sociedade, mas um veículo para ver o comportamento da mesma. Nesse caso, partindo da música “Rivais” e aliando a constatação de Bauman, a nossa sociedade vive em tempos líquidos, onde relacionamentos não duram como antes. E isso tem levantado debates. Nesses tempos, há incerteza sobre relacionamentos e medo, mas, mesmo assim, as pessoas não resistem e não desistem ao todo de entrar num, o que desemboca nesse meio-termo: um relacionamento líquido com slogans populares como “o que ninguém sabe ninguém estraga”, “solteira sim, mas sozinha nunca”, e mais. Nesses relacionamentos, é tão fácil entrar e sair num tanto quanto é fácil conectar e desconectar-se de uma rede qualquer (imagine wi-fi sem senha).
Contudo, Bauman apenas explica a flexibilidade dos relacionamentos e o quão são superficiais, onde ninguém mais entra num relacionamento por completo; “é só carne e não coração”, mas não toca nessa questão central da música “Rivais”. O autor afirma que as pessoas entram numa rede, perdem o tesão e saem da mesma correndo para uma outra, e a permanência em uma mas, ao mesmo tempo, procurando outras para o mesmo objectivo- penso eu…
Essa, por sua vez, é uma questão respondida por Luís Batalha nos seus estudos antropológicos sobre o matrimónio na era moderna. Para este, “nas sociedades tradicionais monogâmicas sempre existiu uma poligamia informal não institucionalizada por detrás de uma fachada social monogâmica” (pag. 125). Se nas sociedades onde a monogamia é muito mais cultural, tradicional e institucionalmente antiga, o que falar das sociedades africanas actuais, confusas ao nível cultural e tradicional quanto a tudo e, em especial, ao casamento? Em Moçambique, por exemplo, a institucionalização da monogamia não é antiga e culturalmente somos polígamos. Na união dessas duas realidades antagónicas só pode haver essa disparidade e caos, onde se renega a poligamia, mas pratica-se de maneira informal. E, é nesse prisma epistemológico e cultural em que toda a música se insere: num contexto onde a poligamia não é aceita a céu aberto, mas bem no fundo de todos aceita-se. A aceitação dessa poligamia verifica-se quando o eu lírico, uma das mulheres do homem com várias mulheres ocultas, convida as suas rivais para um bate-papo sem confusão, mas com aconselhamentos. Das nove mulheres, nenhuma parece estar apta a abrir mão do homem, todas aceitam essa realidade.
A poligamia parece ser um facto. Além dessa forma informal de poligamia, que é a forma que mais perto está da poligamia formal, há a poligamia em série (Batalha, 2004:134), onde pessoas se casam sucessivamente durante a vida toda. Casam com um, separam-se, tem um outro relacionamento, voltam a se casar e assim anda. Ou pode acontecer que namoram esse, noutro tempo namoram aquele, e depois disso namoram um terceiro. Nesse caso, rodam namorados/parceiros durante a vida toda estando naquilo que apelido de poligamia rotativa, esse que muitos moçambicanos estão inseridos nele. Esse é o espelho que a música nos traz. Uma sociedade líquida, principalmente nas cidades, em que, por um lado, a incerteza e insegurança nos relacionamentos resulta em negação de relacionamentos profundos e duradouros e, por outro lado, revela-nos uma sociedade que nega a poligamia a céu aberto, mas aceita-a na informalidade.
por Domingos Mucambe
