Desabafo de uma qawwi, Histórias

Caídos do Céu

Back view of a young man drinking beer while while sitting at the bar counter

Fonte imagem: Envato

Era uma noite agitada de sexta-feira, e ele se encontrava diante do bartender da boate “Caídos do Céu”, isto depois de imobilizar o segurança que, além do ticket, exigia que deixasse o seu arco e flechas — sua arma mais poderosa. O nome “Caídos do Céu” atraiu-o àquele lugar, na esperança de encontrar pistas sobre sua missão. Mas ali só encontrou luzes coloridas piscando, som alto, homens e mulheres seminuas dançando com uma alegria que, para um mundo prestes a acabar, não se justificava.

Ocorreu-lhe perguntar ao bartender sobre os tais “Caídos do Céu”. Mas conteve-se, pois estava farto de fazer perguntas que aos outros pareciam ridículas.

O bartender serviu-lhe um copo e, ante o olhar de espanto do cliente, avisou:

Isto derruba até um alienígena!

A ele, soou como um desafio. E ele não era de fugir a desafios. Aliás, foi mesmo graças aos desafios que se tornara uma lenda viva entre os seus e braço direito do Rei Kosi.

Espreitou o líquido, mas seus sensores de perigo não detectaram absolutamente nada.

Se derruba um alienígena, certamente não um qawwi como eu.

— O quê? — perguntou o bartender, curioso.

Em seus olhos pairou alguma hesitação. Certamente, não era uma boa ideia revelar sua identidade por aí. Isso poderia interferir negativamente na missão.

Dá cá isto! — disse, arrancando bruscamente a garrafa das mãos do bartender.

Bebeu de um só trago. Não tinha sabor de nada e não lhe lembrava absolutamente nada que já tivesse tomado.

Desafio patético — pensou, pousando a garrafa na mesa.

Heeeeeeeeeeeeee!!!! — rejubilaram-se os demais que presenciaram a cena.

Os gritos inflaram seu ego, gostava de ser o centro das atenções.

Mais uma garrafa! — Disse. E os aplausos foram efusivos.

Esta é por minha conta, meu rei! — gritou alguém.

Em vários meses de recuperação e adaptação, desde sua aterrissagem inglória num dos desertos do planeta, era a primeira vez que alguém se dirigia a ele com alguma dignidade.

Contorceu os lábios, ensaiando um sorriso. Certamente o Rei Kosi não ia gostar nada daquilo. Mas Kosi estava distante, em outro planeta.

Aqui — gritou, tomando a garrafa das mãos do bartender — Vallen é rei!!!!

E, assim, estava feita a apresentação.

E houve uma ovação enquanto ele consumia toda a bebida. Todos haviam deixado seus lugares para se acercarem do Vallen.

Por aqueles instantes, havia se esquecido completamente da missão e da obsessão em encontrar Linan.

Vallen! Vallen! Vallen!… — gritava a multidão, eufórica.

E quanto mais garrafas ele consumia, mais total era a festa.

Despertou na madrugada seguinte, no chão de uma cela fedorenta. Estava com fortes dores de cabeça. E, pior, não conseguia se lembrar do resto da noite passada, nem de como fora parar em uma cela.

Pois então — disse para si mesmo, — derruba até um qawwi!

Vallen, o qawwi

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