Histórias, Outras maravilhas humanas

As Terras Esquecidas Onde Também Nascem Sonhos

Por Roberto Júnior

“A grandeza não tem código postal.
E os sonhos não pedem licença para nascer.”

A aldeia de Lionde não é um lugar turístico.
Não porque esteja escondida nos mapas, mas porque não há ali nada de turístico para se ver.
Fica longe de tudo, longe do hospital, longe da capital, longe das promessas.

O que há em Lionde?
Há pó.
Há silêncio.
Há machambas secas e postes que não acendem à noite.
Raras vezes chove… e quando chove, a chuva estraga tudo.
Às vezes transforma-se em cheias, e as pessoas têm de abandonar as suas casas, muitas das vezes, perdem tudo.
Outras vezes, a chuva falta. E a seca extrema destrói tudo o que o povo semeou — arroz, tomate, esperança. Mas há água potável. A melhor água natural que já bebi na vida.
Vem limpa, fresca, viva, nasce do próprio coração da terra.

Às vezes, bastava o barulho das motorizadas e dos carros com matrícula sul-africana para fazer os meninos delirar. Eram como relâmpagos metálicos a cruzar as estradas esburacadas de Lionde. O rugido dos motores ecoava como promessa de um mundo maior. As crianças corriam para ver — olhos brilhantes, pés descalços, corações a sonhar alto.

Mas há também o que ninguém vê:
Gente forte. Crianças com olhos grandes. Jovens com sede de futuro.

Em Lionde, muitos meninos deixam a escola cedo.
Não por falta de vontade — mas por falta de pão.

Trocam o caderno pela enxada, trocam a mochila pela escola da vida — trocam a escola pelo esforço físico no campo, pela luta diária sob o sol — onde vão cortar cana, colher milho, pescar ou trabalhar em nome da sobrevivência.

Outros partem para a África do Sul, ainda adolescentes, com a roupa do corpo e a esperança no bolso.
Vão de forma clandestina.
Sem passaporte. Sem garantias de regresso.
Atravessam fronteiras por caminhos de mato, arriscando a vida por um pouco de futuro.
Trabalham nas minas, nas obras, nas lojas.
Mandam dinheiro quando podem.
Voltam quando dá.
Sonham quando sobra.

E quem fica… espera. E às vezes desespera.

A escola primária de Lionde ainda existe.
É simples, de paredes cansadas e chão gasto.

Quando chove, a água invade tudo.
A escola fica rodeada por poças e lama.
As crianças arregaçam as calças.
Entram com a água pelos joelhos — mas entram.

Faltar não é opção.
Não desistem.
A vontade de aprender é maior do que a enchente.

Apesar da fome, das roupas rasgadas, dos professores que chamaram algumas crianças de burrinhos, alguns meninos e meninas de Lionde foram até ao fim.

Um tornou-se engenheiro em Maputo.
Uma menina que andava descalça hoje é médica em Xai-Xai.
Outro foi estudar fora e voltou com ideia, não com vergonha da sua terra, mas com orgulho de ter vindo de onde poucos acreditam sair.
E um dos Diretores-Geral da Saúde foi formado ali mesmo, na Escola Primária de Lionde.

Alguns destes mesmos jovens, hoje adultos, voltaram para reabilitar a escola primária de Lionde. Com esforço, ajuda e memória, conseguiram dar nova cara às salas onde um dia aprendemos a escrever o nosso nome sentados no chão, porque as carteiras só chegaram nos anos 90. Ali, entre o pó e o silêncio, nasceram letras tortas e sonhos direitos.

O posto de saúde continua a funcionar uma vez por semana apenas.
O hospital mais próximo fica a 10 quilómetros, no distrito, e muitos não têm como chegar até lá.
As ambulâncias praticamente não existem.
E os chapas não esperam por quem não tem com que pagar.

Mas nem isso demove o povo de Lionde de continuar a acreditar.

Reflexão Final

Lionde não tem hospital.
Lionde não tem estradas sem buracos.
Lionde não tem refeitório na escola, nem biblioteca, nem rede de apoio real.

Mas Lionde tem talento.
Tem alma.
Tem futuro, se o deixarem florescer.

Este texto é um aviso.
É um retrato.
É um grito educado.

Ao governo.
À sociedade.
A todos os que se esqueceram de que os grandes homens e mulheres, também nascem em aldeias pequenas.

Não importa onde nasceste.
Não importa se em casa havia só salada no prato ou só silêncio à mesa.
O que importa é saber onde queres chegar, e nunca parar de caminhar.

Lionde é apenas um exemplo entre tantas aldeias esquecidas de Moçambique.
E também nelas, todos os dias, nascem crianças com coragem e futuro.

Que este texto sirva de abre-olhos para a sociedade. E de luz para as crianças que hoje vivem no interior, sem esperança.
Saibam: a esperança é a última a morrer.
E ela existe.
O sítio onde nasceste não define quem tu és.

Porque Lionde também é Moçambique.
E nos seus campos esquecidos, nascem sementes de esperança todos os dias.

Cada estrangeiro que pisa as terras de Lionde traz consigo uma pequena esperança. Cada investidor que ali aparece — o que é raro — nós vemos como um sinónimo de esperança. Ou talvez sejamos nós a querer ser vistos assim: como sementes de um futuro possível.

Hoje, algumas dessas crianças já têm acesso à internet, muitas vezes através de um telemóvel partilhado, velho ou emprestado.
Se um dia cruzarem este texto com os olhos curiosos da juventude,
que nele encontrem mais do que palavras, que encontrem esperança.

Obrigado por leres com carinho,
Roberto Júnior

2 opiniões sobre “As Terras Esquecidas Onde Também Nascem Sonhos”

  1. Interessante reflexão. De facto, este texto é um espelho da realidade que muitos moçambicanos vivem.
    Mas uma grande lição, não há obstáculo que obstruam a vontade de vencer.

    1. De facto, uma grande reflexão que o Roberto nos trouxe e que nos faz pensar sobre a importância das origens e de se olhar para o país como um todo! Muito obrigada pela leitura e por deixar este comentário querido Luís!

Leave a Reply