
O doutor Harmistrong acordou tarde, despertado pelos raios solares que atravessavam a janela.
— Afinal… — suspirou. — Consegui dormir.
Não acreditava que isso fosse possível quando, às quatro da madrugada, ainda se revirava na cama sem pregar o olho. “Quando a mente está perturbada, o corpo não encontra paz”, dizia a si mesmo, consciente dessa condição desde que habitava um corpo humano.
Notou que o telemóvel não estava por perto, mas não sentiu falta dele. Imaginava que só encontraria mensagens dos alunos a perguntarem se teriam aulas de Física Nuclear — como se estivessem realmente interessados — ou chamadas da secretária, sempre preocupada com o seu paradeiro.
Depois de alguns minutos espreguiçando-se na cama, criou ânimo para um banho frio que o despertasse por completo. Decidiu que, ao menos, fingiria que estava tudo bem. E isso significava ignorar o facto de Vallen estar no planeta Terra, colocando em risco a vida que tanto prezava.
— E quem não estaria? — murmurou diante do espelho.
Professor numa das mais conceituadas universidades do mundo; agente secreto de inteligência da maior potência do planeta; diversos títulos honoríficos; prestes a entrar para a história como um dos maiores cientistas de Física Nuclear.
— O próprio Harmistrong, seja lá onde a sua consciência vague, deve estar orgulhoso — concluiu, observando no espelho o reflexo que, com o passar dos anos, já lhe parecia realmente seu.
Hoje era mais Harmistrong do que Baltoq, um simples quawwi de quinta categoria em Stefanotis- o seu planeta de origem. Mas, a presença de Vallen lembrava-lhe essa condição ingrata.
— Chega de pensamentos negativos! — disse com firmeza.
Tomou café em silêncio, evitando ligar a televisão. Sabia que estaria repleta de notícias sobre a “explosão misteriosa” numa cela policial de Boston ou de líderes mundiais, trocando acusações com discursos inflamados de conspiração. Não valia a pena.
Quando, finalmente, pegou no telemóvel, assustou-se: vinte chamadas não atendidas.
— Nem alunos, nem secretária… — disse, admirado.
O número era o mesmo em todas: Lauton, outro quawwi.
— Alguma coisa grave deve ter acontecido — pensou.
Não estava enganado. Assim que atendeu, ouviu a voz aflita do amigo:
— É o Crown!
— O que tem ele?
— Foi expurgado.
— Merda! — gritou Harmistrong. Todo o peso dos maus pensamentos regressou de imediato, misturado com maus presságios.
— É pior do que a morte… — murmurou.
Naquela tarde, encontrou-se com Lauton, que trazia um envelope selado.
— Descobri-o em casa do Crown, depois de ele ignorar todas as minhas chamadas. Tem uma carta. Achei suspeito.
— O que diz a carta? — perguntou Harmistrong, impaciente.
— Por um momento, temi que tivesse acontecido o mesmo contigo, já que também não atendias…
— O que diz a carta?! — interrompeu, aos gritos.
Lauton abriu o envelope. Dentro, apenas uma palavra:
— Bingo!
Seguiu-se um silêncio denso, quase insuportável, como se aquela palavra guardasse múltiplos significados.
— O que é que isto quer dizer?
— Nada… — respondeu Harmistrong. — Ele só está a gozar connosco.
— Quer dizer que escreveu para nós?
— Claro. Sabia que encontraríamos a carta.
— Maldito! — brandiu Lauton.
— Ele é caçador. Está só se divertindo antes de… — não terminou a frase, mas Lauton compreendeu.
De regresso a casa, Harmistrong sentia-se resignado. Sabia que Vallen não estava para brincadeiras. Expurgar um quawwi era a pena máxima em Stefanotis — pior que a morte, reservada apenas para crimes capitais. Aqui, Vallen fazia-se juiz e carrasco. E, nem o próprio rei Kosi o poderia impedir.
Foi com esses pensamentos que entrou em casa, foi directo para o quarto e deitou-se com os olhos fixos no teto. Dormir seria impossível. Revirava-se inquieto quando sentiu algo a incomodar-lhe as costas. Virou-se e encontrou um envelope.
Dentro, uma pequena carta com uma única palavra:
— Bingo!
Vallen
