
No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.
“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”
Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.
Classificação: 5 em 5 pontos
Por Virgília Ferrão
