Outras maravilhas humanas

PEDRO PEREIRA LOPES: UM ARTESÃO DAS PALAVRAS NA PROSA CONTEMPORÂNEA

Maiane Pires Tigre[1]

1. Maiane Tigre – Para além de uma produção literária destinada ao público infanto-juvenil, você também é estudado por possuir publicações dirigidas para o público adulto. Dono de uma escrita versátil, abrangendo a poesia, o conto, e, por fim, incluindo-se o romance, consideramo-lo um escritor multifacetado, primeiro porque é capaz de investir na hibridez dos gêneros, além disso, possui uma rica capacidade de inovar ao aderir às mais atuais tendências da prosa contemporânea. Comente tais inovações na linguagem, verificadas, por exemplo, nas obras Mundo Grave (2018) e A invenção do cemitério (2019), afinal predomina o completo abandono das regras gramaticais, no tocante ao registro de nomes próprios com letras minúsculas, no início dos títulos, dos parágrafos, e após o uso do ponto de continuação. Haveria, pois, uma estratégia estilística adotada à la Oswald de Andrade, resultante de um diálogo intertextual, na tentativa de reafirmar o seu ultramodernismo?

Pedro Pereira Lopes As primeiras versões de “mundo grave” e “a invenção do cemitério” obedeciam ao convencionalismo tradicional, isto é, à gramática da língua portuguesa como a estudei, como a assimilei. Acontece que durante a minha estadia em Pequim, onde estudava, eu redescobri parte da minha africanidade, o meu lugar num mundo fora de Moçambique, fora da África, onde eu era “o outro”. Esta tentativa de aproximação com a África fora de mim me fez partir em busca de uma ancestralidade que, por inocência, eu acreditava que a detinha, como algo que se pode possuir. É a coisa de Saramago de sair da ilha para conhecer a ilha.

Eu gosto de crer que, em termos de técnicas empregues na série (que chamei de “trilogia absurda das minúsculas” – envolve, ainda, o livro de poesia “mundo blue”), a base foi este “disruptivo” e grosseiro “regresso às origens”, à origem da literatura africana, à oratura. Então, o processo de narração funcionaria em um esquema instintivo, quase um fluxo de consciência, onde o narrador chega a duvidar de si e comete erros durante o processo de contação (acontece em “mundo grave”), ao mesmo tempo em que a linguagem se transforma em um instrumento abstracto e subjectivo dentro do livro, no papel, sem obedecer às normas da gramática. Assim, a mancha gráfica, os elementos da pontuação e a maiusculização, por exemplo, obedeceriam a uma espécie de democracia ou liberdade natural da narratividade, em que se estabelece a oratura. À volta da fogueira, não temos como distinguir um Pedro capitalizado de um “pedro” em caixa baixa. Do mesmo modo que não a história pode ter múltiplos narradores, ser interrompida, ser comentada ou não usar o formato tradicional de contação.

            De qualquer das formas, eu não inventei a roda, fui o primeiro em Moçambique a escrever três livros em caixa baixa, claro. Mas tens o Suleiman Cassamo, por exemplo, que domestica a língua portuguesa em “O regresso do morto”. Há o Saramago, o Valter Hugo Mãe e o Rui Nogar, cujo único livro em vida, “Silêncio escancarado”, é feito de minúsculas. E em nada isso anula a sua poesia única.

2. Maiane Tigre – Por que você decidiu seguir a proposta de ruptura no gênero, ao adotar o romance policial como forma estética sobressalente no tecido narrativo da obra mundo grave (2018), e o gênero microcontos em O livro do homem líquido? (2021). Quais são as suas fontes/influências, nacionais e estrangeiras?

Pedro Pereira Lopes Eu nunca me considerei prosador ou poeta. Questiono até essa coisa de “escritor”. Eu vivo em uma relação com as palavras, com a língua, com o exercício literário. Hoje, considerando a moda dos conceitos, eu diria que vivo numa “relação tóxica” com a coisa de escrever. Eu gosto de escrever. É uma relação sadomasoquista, de prazer e dor, o deleite de escrever e a dor pela busca do texto perfeito. Assim, fruto de tal inquietude, de tal desafio em busca desse preenchimento que resulta do prazer e da dor, eu nunca me contentaria em escrever somente um género literário. Eu costumo dizer que não sou bom em nada como não se pode ser bom em tudo. A ser escritor, no lugar dos extremos baseados em géneros, eu prefiro ser um “escritor experimentalista”, uma espécie em trânsito constante, em direcção ao inalcançável. No fim, gosto da surpresa, da possibilidade do impossível, da descoberta e da tentativa.

“mundo grave” começou como uma novela e fui perdendo o controle. Desenvolveu-se como um fungo. Eu queria criar um personagem como o “Jaime Bunda” do angolano Pepetela ou qualquer outro que eu tinha conhecido com Ruth Rendell, Conan Doyle ou uma história como as Sidney Sheldon. O resultado foi algo que eu chamo de uma mescla de policial com o insólito maravilhoso, meio noir, meio horror. E isso era algo nunca antes escrito em Moçambique. Eu sempre admirei o conto e já tinha publicado alguns. O conto é uma espécie de haicai do romance. E isso faz do microconto uma espécie de haicai do conto. E eu tenho uma paixão pelo haicai. Então, um dia eu pensei em escrever contos-haicais, que seriam pequenos contos escritos em três parágrafos, mesmo a imitar o haicai, que tem três versos. Foi quando descobri o microconto ou a micro-narrativa. Achei, dentro desse encanto, “O livro dos abraços”, do uruguaio Eduardo Galeano, e fiquei fascinado. Depois de mostrar um rascunho dos microcontos ao escritor António Cabrita, ele recomendou-me a leitura de “Histórias de Cronópios e de Famas”, de Julio Cortázar, que está disposto como um conjunto de pequenas narrativas. Assim nasceu “O livro do homem líquido”. Eu acho que, no final, imitei sem copiar. 

3. Maiane Tigre – A obra mundo grave (2018) é uma forte evidência de quanto você sonda, entre as fendas da miséria social, as intercorrências de um grave mundo, subitamente revelado no homicídio, pela corrução do caráter, na fraqueza do espírito de pessoas más. No enredo, o insólito, a violência e o trágico se cruzam nas encruzilhadas da urbe, que se retroalimentam da falência das instituições. Nesse ínterim, demonstra-se, com notável vivacidade, as periclitantes faces da cidade flagradas pelos olhos atentos do narrador, os quais transformam um simples acontecimento em um crime macabro, repleto de suspense e envolto em brumas de mistério. Quais são os verdadeiros papéis da cidade, do insólito e do grotesco nessa narrativa?

Pedro Pereira Lopes Sou fruto tanto do ambiente rural como da cidade. A minha vida adulta, em particular, é uma vida de cidades, de trânsitos. Diferente do campo, a cidade parece um organismo mecânico, um formigueiro de homens e edifícios e movimentos. Não estou a querer dizer que há mais vida na cidade, mas nela a vida é um produto processado, os comportamentos e as ideias são fruto de um sistema utilitário que se parecem com os supermercados. A cidade, a sua fluidez, a sua frieza e a padronização, está mais próxima da metáfora da composição “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd, ou da modernidade líquida, de Bauman. Mas todos nós gostamos das cidades, mesmo os que nela não habitam. Então, a cidade acaba por fazer parte das nossas vidas, como parceiras, como amantes. Deve ser por isso que costumamos fazer músicas e hinos para as nossas cidades. No meu livro, a cidade em si, a cidade de Maputo, é a personagem principal, uma personificação de Sodoma e Gomorra. O Valete, músico português, diz que “a cidade é o cemitério dos vivos”. E eu concordo.

O insólito e o grotesco compõem o maravilhoso moçambicano. Por exemplo, existem relatos de determinados falecidos que foram avistados a vender pão nas ruas de cidades que não eram as de sua proveniência; ter que fazer uma cerimónia aos espíritos dos antepassados na inauguração de uma estrada ou ponte, para que não aconteçam [muitos] acidentes; a perseguição e decapitação de indivíduos albinos para o seu uso em rituais de enriquecimento, entre outras situações. E fica a questão, qual é a diferença entre o real e o imaginário? Em contexto moçambicano, não é fácil ter conclusões. A noção de realidade ou de ficção acaba por ser uma conclusão relativa. A Paulina “explora” isso em alguns dos seus livros. Em o “mundo grave”, não fica claro o que é real ou fantástico. O leitor [moçambicano], na base do que acredita, decide como interpretar o que lê, ou seja, não existe nada de positivo no romance.

4. Maiane Tigre – A coletânea de contos a invenção do cemitério (2019) demonstra a sua ampla predileção por temas voltados ao hiper-realismo social, calibrando, em sua contística, a confluência do trágico, referente a situações vividas, com a poesia extraída do cotidiano. Portanto, a arquitetura dos contos é construída mesclando a linguagem ornamentada da prosa poética ao gume cortante da palavra, expressando a tensão prevalecente no âmbito das hierarquias de poder. Além disso, outra tendência na prosa contemporânea é a flagrante permanência de problemas sociais que atingem as camadas populares, e certos atores ainda reféns da violência urbana ou da distribuição desigual de poder na contemporaneidade. Nesse ínterim, poderíamos afirmar que o elenco de personagens que participam deste jogo ficcional constitui a representação do povo moçambicano que se equilibra entre o hiper-realismo e o sonho?

Pedro Pereira Lopes O Professor Etelvino Guila, da Universidade Eduardo Mondlane, diz que sim, que representa. Mas eu não sei se concordo ou discordo, não discuto com académicos. A minha proveniência é humilde. “Humilde” é uma palavra eufemística que significa pobre. Ela é usada em contextos em que o ex-pobre parece ter pejo de usar a palavra pobre ou pobreza. Eu não nego. A minha família era pobre. Onde cresci, onde me adentrou a escrita, existia apenas pobreza. Então, tudo o que conheço melhor é gente pobre, é a penúria, é a fome, gente pouco ou não escolarizada, a crença no divino, que ocasionaria uma vida melhor; a luta constante, a descriminação económica e a ausência de oportunidades. São essas as minhas representações. Uma outra professora escreveu que os meus personagens eram os que viviam “à margem da sociedade”, os marginalizados. Não existe isso de viver “à margem da sociedade”, a sociedade é uma e única, mas estratificada, dual, desigual. Eu jamais escreveria sob o ponto de vista de um personagem rico ou branco, por exemplo, porque escrevo o que é real, o que conheço. Se o que conheço é o que vivi, o que vivo – o sonho, a esperança –, então escreverei sobre isso, não importa o contexto, pode até ser em ficção científica. Esta é a minha forma de protesto.

5. Maiane Tigre – Como você percebe a importância  de O livro do homem líquido, finalista do prêmio Oceanos 2022, para o conjunto de sua obra,  e extensivamente, para consolidar o quadro da literatura moçambicana contemporânea? De que modo ela pôde projetá-lo no cenário literário internacional e, por tabela, também permitir à literatura de Moçambique reconhecimento além-mar?

Pedro Pereira Lopes Fui também o editor de “O livro do homem líquido”, pela Gala-Gala Edições, editora que fundei em 2020. Era apenas um livro de cansaço, de descanso, fruto do meu “experimentalismo”, que eu queria editar. Não achei que fosse a chegar tão longe, que fosse a ser, de alguma forma, importante. Não tenho a mania de gostar ou desgostar dos meus livros, talvez por serem sempre diferentes um do outro. Este “O livro do homem líquido” fez o seu próprio percurso. Talvez vá representar alguma coisa, mas nos últimos tempos, não costumo criar ilusões, gosto de ver o curso das coisas. O meu maior medo é perder a habilidade de escrever. Já tive ambições de ser conhecido internacionalmente, mas hoje só quero escrever, escrever para os moçambicanos, que é o meu público primário, e para quem aprecia o que já escrevi.

Por conta do Oceanos, escreveu-me uma agência de escritores de Londres, interessados no livro, pode ser que dê em alguma coisa. Mas antes da nomeação eu já tinha sido contactado, também, por tradutores para o inglês e francês. Passam-se anos, não devem ter gostado. Tenho, ainda, livros editados em Portugal e Brasil. Já sou internacional, para a minha mãe. Se o livro, finalista que foi, fizer o seu percurso, estarei satisfeito. Por enquanto, está somente disponível em Moçambique.

6. Maiane Tigre – Quem é o poeta Pedro Pereira Lopes? Como foi a experiência de ter publicado o livro “fatia fresca de lua nova (2023)” em parceria com um dos mitos da poesia moçambicana, o poeta Armando Artur? Por que a escolha do gênero de poesia japonesa, haicai, para escrever retratos da vida e da natureza de Moçambique?

Pedro Pereira Lopes Não existirá um poeta Pedro Pereira Lopes. Não compro a ideia. Existe um escritor que escreve poesia. Foi através da poesia que entrei na literatura, os primeiros textos que escrevi. Naquele tempo, sim, queria ser poeta. Mas depois vi que existiam muitos poetas em Moçambique. E se fosse para ser “poeta”, que fosse para fazer alguma diferença. Então decidi fazer poesia para crianças, pois não tínhamos poetas para crianças. Conheci a Cecília Meirelles por via disso. O Quintana. E existia um livro muito bonito do Rogério Manjate, “A casa em flor”. Fiz dois livros de poesia infanto-juvenil. Eu sei escrever poesia e fiz alguma poesia bonita e mágica para os pequenos.

O poeta Armando Artur é um amigo que fiz no último ano. Estamos muito próximos e veja que o convívio entre escritores, em Moçambique, ficou uma coisa horrível. Somos ambos da Zambézia, e não se trata de regionalismo, mas os escritores, sendo seres isolados, preferem não jantar com o inimigo. Um dia, à mesa do bar – ando sempre a bolar ideias – perguntei ao Armando, tendo como referência alguns dos textos de seus livros, se tinha consciência do haicai. E ele me disse que sim. Perguntei-lhe se os tinha em número suficiente para compormos um livro às meias. E gosto bastante desta coisa de dois autores de gerações diferentes estarem a colaborar em algo.

Eu achei o haicai por acidente, pela mão do Paulo Leminski, e percebi que existia, na sua composição e espontaneidade, um exercício necessário para a minha madureza como artista. O Armando acha o mesmo, que algo de supremo reside na simplicidade do haicai. É um livro de pequenos poemas, mas imenso na sua intenção.


[1] Doutoranda em Letras: Linguagens e Representações (UESC). Bolsista FAPESP. Membro do Grupo de Pesquisa GpAFRO: Literatura, História e Encruzilhadas epistemológicas. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2240-325X. E-mail: maiane.tigre@hotmail.com. Esta entrevista é o resultado parcial da minha tese de doutoramento orientada pela profa Dra. Inara de Oliveira Rodrigues (UESC) e co-orientada pela profa Dra Sara Jona Laisse (Universidade Católica de Moçambique – extensão de Maputo).

Autor Pedro Pereira Lopes

Outras maravilhas humanas

ALDINO MUIANGA: O ESCRITOR DAS GENTES ENTRE A TRADIÇÃO E A SUBVERSÃO FICCIONAL

Maiane Pires Tigre[1]

1.Maiane Tigre – Poderia classificar o conjunto da sua obra em fases, entre a produção de contos, crônicas e romances, considerando a preponderância de temas, estilos, e as marcas da tradição ou de ruptura presentes em seus livros, de acordo com o período abordado, estendendo-se da década de 80 até 2022?

Aldino MuiangaComo em tudo, há sempre uma fase incipiente no início de qualquer empreendimento. Existe uma fase debutante, de timidez e receio de fazer “as coisas mal”. Sabido que é que uma primeira obra pode ser a perdição do seu autor, sempre usei de cautela, no início da minha carreira literária.  Esta começou como já o disse, por diversas ocasiões, com a produção de poesia. O projecto frustrou-se, porque toda a minha produção se perdeu em inundações, que assolaram o bairro onde residia. Era uma espécie de aviso que o meu caminho real não era o da poesia.

    Até 1987, nada escrevi que se chamasse literatura. O meu empenho residia em leituras, em exercícios de leitura, quase doentios. Queria escrever “bem”, veicular as minhas mensagens, de modo claro, profundo, penetrante e dissuasor. Durante as minhas leituras, apercebi-me que na literatura “moçambicana”, em geral, as referências que se faziam em relação à nossa cultura africana e (moçambicana em particular) eram, diria, exóticas, folclóricas, como curiosidades para consumo de turistas e curiosos. Isso causava-me muita estranheza e tristeza ao mesmo tempo. Pouco ou quase nada mesmo se escrevia sobre “nós próprios”, o que estava na essência cultural do ser moçambicano e africano.

     Obviamente que antes da declaração da independência do nosso país produziram-se obras de muita relevância, mensagens de protesto e de clamor pela autonomia nacional, pela afirmação de uma identidade que era sonegada pelo colonialismo. Foram obras que marcaram o nosso panorama literário até à independência nacional, como já o afirmei. Tive o privilégio de crescer num meio suburbano e de exercer actividades clínicas em meios rurais. A experiência que adquiri naqueles universos conferiu-me o caudal de informações de que necessitava para iniciar uma carreira literária que seria, em simultâneo, uma simbiose do que aprendera dos livros, e do que seriam os meus próprios conhecimentos sobre as culturas regionais e tradições específicas do indivíduo moçambicano e, por extensão do africano. Era um trabalho de pesquisa que decorria de um modo espontâneo, porque era natural. Absorvia as informações que colhia de diversas fontes: dos meus pacientes, de chefes e médicos tradicionais, companheiros de trabalho e demais fontes derivadas de convívios. Encontrava-me face a face com a verdadeira cultura do meu país, a vertente ignorada e escamoteada da nossa identidade.

     Assim surgiu a necessidade de proceder a uma rotura com as linhas oficias de fazer literatuta. Eu tinha a minha “literatura” por fazer, aquela que se fundamentava no real, isto é, na vida verdadeira do povo verdadeiro. Quis distanciar-me dos paradigmas correntes e seguir uma linha original: a de ser um porta-voz das estórias do povo, sem que isso signifique petulância ou complexo de superioridade. Sentia-me na obrigação de fazer “diferente”, e essa diferença começou a manifestar-se nas minhas primeiras publicações.

     Durante aquela fase incipiente consultei e partilhei alguns dos meus contos com autoridades na esfera literária de Moçambique. As primeiras impressões foram de espanto e de encorajamento. Todos diziam:  “explora esse veio”, “os temas são originais”, “a voz das nossas avós está presente nesses contos”, “os teus contos são autênticos nkaringanas”. Não tinha como vacilar. Prossegui a produção de contos com vigor, imbuído pela certeza de que as mensagens tinham eco entre o público leitor; e não só, que havia representatividade nos anseios dos leitores em “encontrarem-se, identificarem-se e interagir” naquelas narrativas. Eram afinal, e finalmente, as suas próprias estórias. E, aqui, residia a rotura de que falas, a quebra de convenções, a percepção de que a Literatura era um domínio do Ocidente, e privilégio para consumo de castas “cultas e civilizadas”.  A minha era a recusa e combate ao estereótipo ocidental de que tudo o que é “africano é folclore”.

Como já o afirmei, os meus primeiros escritos foram contos. Assim o fiz, porque por algumas razões: a primeira sendo porque a experiência me ensinava que o conto é o gênero primordial e muito eficaz na veiculação de uma mensagem, de uma estória. Nós, africanos, somos contistas natos, por excelência. Isso está timbrado na nossa matriz genética. Comunicamos uns com os outros, através de estórias curtas, argumentamos através de exemplos quotidianos, de adágios, transmitimos conhecimentos através dos nkaringanas. Essa é a nossa forma de estar, de ser e de comunicar. 

      A segunda razão pela opção do conto era meramente pessoal: não tinha experiência de escrita que me colocasse à-vontade para a elaboração de textos longos. Tinha “medo” de escrever. Embora tivesse aquele arcabouço de leituras, não me sentia em terreno seguro escrevendo novelas ou romances. Preferi textos curtos, com mensagens condensadas. Um leitor ou analista atento pode verificar que nos meus primeiros contos não há diálogos, mas apenas descrições. Sentia-me retraído a colocar os protagonistas a dialogar, tecnicamente falando, encontrava-me manietado pelo medo de errar. Felizmente, com o tempo e com a aprendizagem fui vencendo aquele impedimento até chegar à novela e ao romance.   

   As temáticas sobre as periferias, assim designadas para inferir rural e subúrbios, são dominantes na minha escrita  por razões que têm a ver com a afirmação identitária de grupos sociais marginalizados. Ninguém fala do camponês ou do suburbano como indivíduo com carácter e dignidade. Procuro identificar os valores desse indivíduo e colocá-lo na tribuna de um cidadão,  que possui uma história, que detém valores das suas tradições e tem uma cultura que não é inferior a nenhuma outra. Vou-lhe dar um exemplo: em todas as sociedade existem narrações de violência doméstica e pública. Em Lourenço Marques as havia. Os autores desses eventos eram (os de violência pública, em particular) eram os chamados mabandido. Esses eram jovens que provinham do campo, (majoritariamente de Gaza e Inhambane)  e trabalhavam como empregados domésticos dos colonos, vítimas diárias de abusos físicos e verbais dos patrões. Outros eram operários de construção civil, trabalhadores das fábricas  ou casas de pasto, também vítimas de semelhantes abusos. Todos eram catalogados de incivilizados, criminosos à margem da Lei e das normas de civismo. Não me recordo de ter lido, vez alguma, algum relatório de investigação que tenha revelado a razão profunda, para a disseminação de episódios de violência protagonizados por aqueles indivíduos, em público, e nas suas residências. Havia um problema de desajustamento social, conflitos de culturas, para os quais não havia autoridade ou psicólogo atento em decifrar aqueles desnivelamentos socioculturais. Acreditava que existia (e sempre existirá) um território onde residem valores culturais no indivíduo, que as sociedades ignoram e repudiam como obsoletas e obscurantistas. São esses valores que em muitos dos meus contos procuro trazer à tona. É talvez, por essa razão, que alguns analistas consideram a minha obra em geral, como voltada para o tradicional. Não o nego, porque é aí onde reside a essência dos meus escritos: chamar a atenção para o respeito pelos valores que cada um de nós detém, independentemente da sua origem social, da sua cultura e das suas tradições. Os procedimentos daqueles ditos “criminosos”, mais não eram do que uma sublimação à carga de violência que lhes era infligida pelos seus patrões, pertencentes a uma “civilização superior e diferenciada”. Neste considerando, aconselho a leitura atenta do conto “Operação Djodjo”, do livro O galo ruivo (2022).

     Creio que para um melhor entendimento de uma estória, o estilo e a linguagem devem ser as mais adequadas e apropriadas à mensagem que se pretende veicular. O próprio cenário é fundamental para colocar o leitor no ambiente certo, pretendendo apresentar a estória no universo onde os eventos decorrem. Claro que, ao longo desta experiência, ocorreu uma evolução no uso da linguagem. Aprendi e aperfeiçoei determinadas técnicas da narração que me permitem usá-las como instrumentos para maior eficácia na passagem das mensagens. A escrita é um acto dinâmico: quanto mais se escreve, mais se aprende, e menos erros se cometem. O meu lema é: para cada estória o seu estilo e a  sua linguagem. Isto é fundamental, porque evita-se o ridículo do uso de uma fraselogia longa, desnecessária e desconexa para descrever um acto simples, e tornar complexo o entendimento de um evento. Gostaria de dar um exemplo: se hoje escrevesse o livro “Xitala Mati” fá-lo-ia com aquela simplicidade e aquele encanto que o livro desperta? Se tivesse escrito o romance  Contravenção (de 2008), em 1987, teria conseguido conferir-lhe aquela acutilância que hoje tem? Penso que o momento histórico e a experiência ajudam a definir as técnicas de elaboração do texto, o estilo e a linguagem em simultâneo, sem esquecer o momento espiritual e emocional do autor. Ainda iremos falar sobre isto um dia.

   A minha escrita não de limita a narrações de estórias sobre os meios rurais e suburbanos. Não há dúvidas de que aquelas são dominantes, mas não exclusivas. Temos o exemplo do romance “Contravenção”. Considero-me um escritor multifacetado, mas com timbre marcado pela tradição, pelo suburbano e pelo rural. Tenho crónicas publicadas em revistas nacionais e internacionais sobre temas que nada têm a ver com publicações semelhantes a contos ou novelas. E seria contraproducente fechar-me numa redoma, feito curandeiro de cubata a velar espíritos de antepassados e, nesse exílio, deixar a vida fluir no universo do mundo em que vivo. Não! Estou atento ao que me rodeia, ao que me preocupa e, sobretudo, qual o contributo moral e social que posso prestar à sociedade em que vivo, que mensagem posso transmitir sobre os valores de que cada um de nós é portador, e como usá-los para um melhor e mútuo entendimento e tolerância cultural. Sou um idealista por natureza e por formação.

2.Maiane Tigre – Do risível à profusão de temas utilizados, quais as distintas faces do escritor Aldino Muianga, isto é, o Aldino continua o mesmo da década de 80, com o seu livro de estreia Xitala-mati, de 1987, ou há uma substancial diferença entre a escrita do charrueiro Khambira Khambiray e o prosador inserido no cerne da literatura contemporânea?

Aldino MuiangaTem de haver diferença. Neste caso, uma grande diferença. Afirmei antes que o processo de escrita sofre gradações, existe uma evolução nos processos de redacção dos textos, na selecção dos temas e seu tratamento. Aqui, volto a dizer, os momentos emocionais também variam e determinam a qualidade do produto final, que é a narrativa (conto, novela ou o que for). De 1987 até hoje, beneficiei-me de uma transformação na visão do mundo e do universo em geral. As sociedades evoluíram em vários sentidos. E eu, como membro de uma sociedade, tive de me ajustar àquelas transformações e conceber uma nova visão do mundo. E é nesse mundo onde me inspiro e fotografo as minhas narrativas, com uma linguagem renovada, actualizada, e ao entendimento do leitor que me leia. Considero-me parte de uma sociedade que se transforma. É esse o meu posicionamento, o de não ficar por detrás da História.

     O charrueiro Khambira Khambiray foi o cartão de apresentação de um autor que pretendia estabelecer uma rotura dos preconceitos no modo de fazer Literatura, pela temática e pelo tratamento da linguagem, com tonalidades e impregnações do conto tradicional. Aquele “morreu”, e seu lugar nasceu o Aldino Muianga do “Xitala Mati”, autêntico, detentor de uma vontade de dar a conhecer ao mundo a verdadeira face da nossa identidade, como moçambicanos e africanos. Esse tem sido o estandarte na minha jornada, como um Escritor comprometido com o seu povo, com a valorização das suas tradições, da sua cultura, da sua identidade, no que isso significa, em termos de respeito e reconhecimento daquilo que sou na totalidade, no meu lugar de nascimento, na lingua que falo, nas minhas crenças, nos modos de inserção na sociedade e no modo como concebo o mundo e o universo.

  Repare que o que escrevo, de modo algum, pode ser considerado uma frente de confrontação contra quem quer que seja, ou contra os ditames doutras culturas. Longe de mim tal ideia. O que proponho nos meus escritos é apenas, e isso somente, respeito e reconhecimento das culturas populares, sejam elas rurais, suburbanas ou urbanas, meios que nos conduzam a uma harmonização e equilíbrio nas sociedades em que todos somos chamados a compartilhar experiências, sem pejos, nem descriminações.  Isso somente.    

     Nós, moçambicanos, somos uma sociedade multicutural, com uma riqueza e um colorido étnico e racial singular. Se, no meu caso, optei pela via de exploração do veio rural e suburbano, existem outros escritores que terão optado por outras vias, que é salutar. Todos contribuímos, cada qual dando o melhor de si, para fazer deste nosso país culturalmente multifacetado, um lugar onde cada um dos seus cidadãos se sinta parte e parcela de uma Nação da qual se orgulhe.    

3.Maiane Tigre –  Qual a relevância da cultura moçambicana no conjunto da sua obra? O conto é a pedra de toque de sua prolífica atuação literária. De acordo com Can (2015, p.11),“faz do gênero […] um lugar de permanente reinvenção.”  Como se dá essa reinvenção e de que modo consegue evitar a repetição ao longo dos anos, já que é dono de uma vasta produção, em torno de 19 livros, entre romances e coletâneas de contos, dentre os quais se destacam: O domador de burros e outros contos, (2015), A noiva de Kebera, contos (2016), Asas quebradas, romance (2019)?

Aldino Muianga – De acordo com muitos analistas literários, a minha obra tem sido uma referência em pesquisas sobre vários aspectos, nomeadamente, a simbiose entre o conto tradicional e o conto clássico. Naquele contexto, o conto é a forma mais eficaz de expressão popular, em uso nas comunidades, desde os tempos seculares. Como poderia eu inverter esse processo, senão seguir as suas dinâmicas e modernizar os meios de narrar? Para o povo, o conto é um estandarte na comunicação social. De passagem, posso dizer que em muitas aldeias do campo remoto existem competições de contos tradicionais. Assim se perpetua uma tradição secular baseada na formação de peritos no que tange à transmissão e perpetuação da História dessas comunidades.  O conto, sim, é uma pedra angular, o fulcro onde se articula a oralidade. Foi desta que as comunidades conheceram eventos do passado, dos conflitos entre etnias, de todos os eventos seculares arquivados na memória dos povos. Sem os benefícios dos registos grafados em arquivos históricos, aquelas memórias ter-se-iam perdido e esquecido nos túmulos, onde jazem os seus protagonistas e suas  testemunhas.    A criatividade é essencial em qualquer área de produção artística. A repetitividade instala-se onde não existe criatividade. Penso que existem sempre formas de criar novas situações, novos enredos, invenção de novos protagonistas, com diversas intervenções no texto. Isso é o que cria esse dinamismo no processo de escrita do autor. Este não pode ser estanque, à espera que os acontecimentos lhe cheguem à mão. A busca, a pesquisa de novas estórias é primordial na obra de qualquer criador artístico. Um Escritor é um artista por excelência. Nessa qualidade, ele capta sensibilidades e memórias; reinventa e reproduz, sonha e concretiza. Esse é o processo de reinvenção que em mim decorre ao longo da minha produção literária.  Gosto de dizer que um Escritor tem seis sentidos, sendo, o sexto, o da reinvenção do real.

4.Maiane Tigre – O mítico, a espiritualidade, o sobrenatural, a dimensão telúrica, a presença de espíritos convivendo com os vivos, são alguns dos ingredientes fundamentais na composição de suas narrativas. Portanto, qual seria a hermenêutica ou linha de leitura mais conveniente para interpretar as histórias dessas gentes, melhor dizendo, qual seria a sintaxe do sonho utilizada na arquitetura dos seus textos?

 Aldino Muianga – Nas culturas africanas, e a moçambicana não foge como excepção, a relação entre vivos e defuntos é intrínseca, presente e concreta. Existe, entre nós, a concepção de que os defuntos estão presentes na vida de cada um e determinam de modo subtil o deselance de eventos do quotidiano. São exemplos correntes nas famílias, e em indivíduos, em particular, a atribuição de fatalidades, de doenças prolongadas, de desemprego, de infertilidade e outros malefícios como sinais de intervenção de defuntos.

     A relação à que me refiro, manifesta-se pelo empenho dos vivos, em práticas de rituais de apaziguamento dos defuntos, aos quais os vivos se submetem e imploram pelo sua intervenção, para uma vida isenta de perturbações. O uso de amuletos, os rituais de invocação nos túmulos, os exorcismos nas cabanas dos magos, as práticas de autoprotecção contra o mau-olhado, são algumas das inúmeras práticas que o africano, de um modo geral, recorre para estabelecer aquela ponte entre si e os seus defuntos.

   Na minha prática clínica, testemunhei casos desta relação entre os meus pacientes, com os seus defuntos. Cito apenas alguns exemplos, que ilustram aquele compromisso entre vivos e mortos. Para mais detalhes, remeto o leitor ao livro “Hospital, contar clinicando, Volume I” a ser publicado em breve.

5.Maiane Tigre – Você acredita que poderia ser considerado um escritor da tradição, cuja escrita se circunscreve a um momento histórico específico do pós-independência, diretamente vinculada à Geração Charrua, um escritor da ruptura, que subverte o próprio estilo, ou se classificaria, justamente, como a intersecção desses dois momentos, tornando-se um prosador atemporal, que está além de fechamentos ou reducionismos estanques?

Aldino Muianga – Na minha obra está vincado o compromisso de seguimento de uma linha que se pauta pela narração de eventos ligados às culturas e tradições  nas comunidades do meu país. As tradições, as culturas, os mitos e todos os valores de espiritualidade sempre existiram, e são perenes. O que narro só pode deixar de ser novidade para quem anda desatento às dinâmicas das sociedades periurbanas e rurais. A literatura que ficção fundamenta-se nisso, no revolver da História das comunidades, independentemente do tempo onde ela (a História ou as estórias) possa ter lugar. Repare que no livro “A Noiva de Kebera” se descrevem eventos do período pré-colonial, como prova da atemporalidade da minha escrita. Não me cinjo a espaços estanques, como já o afirmei anteriormente. O que informa os meus escritos são fundamentalmente as culturas, as suas intercepções, os conflitos que esses cruzamentos geram, as soluções achadas para a conciliação destes universos aparentemente contraditórios. A rotura apresenta-se como a abertura de uma página inédita na linha temática, que privilegia o subúrbio e o campo como cenários onde desfilam protagonistas doutras culturas, que não as convencionais e catalogadas como  “superiores”.

6.Maiane Tigre – A figura da prostituta possui significativa centralidade no âmbito da produção literária moçambicana. Em Meledina ou a história de uma prostituta (2010), observa-se um retorno ao tempo colonial, na condição de romance histórico. Qual o enquadramento dessa obra, do ponto de vista da História de Moçambique? Este romance possui elementos que sedimentam a tradição literária do país, face ao papel transgressor desempenhado pelas prostitutas representadas na pena dos escritores da nova geração, como Rabhia, de Lucílio Manjate, e Shonga, de Pedro Pereira Lopes, personagens modelares da subversão?

Aldino Muianga – No livro em referência, a figura da protagonista Meledina simboliza o nível de degradação da Mulher, ela é a porta-estandarte de um exército de oprimidos pelo colonialismo na frente da exploração sexual. Naquele espaço e tempo colonial, a prostituição dir-se-ia institucionalizada, sindicalizada, um “bem de consumo oficial”, para as elites coloniais. “Meledina “ constitui-se como um valor que se assume como um simbolismo de dignidade como Mulher, mãe, e porque não? Esposa virtual do seu próprio opressor. A prostituição é um mal das sociedades, com desigualdades socioeconômicas, e Moçambique não foge a esse desiderato. Vivemos numa sociedade viciada onde impera a lei-do-mais-forte, na qual a Mulher assume um papel de serva, de sub-cidadã, de um instrumento avassalado por uma sociedade patriarcal.  É nesta corrente que alguns escritores do meu país focam algumas das suas produções sobre aquele problema e o seu impacto na sociedade. São sinais de protesto (e este é um dos papéis da Literatura) que, espero, tenham algum eco nos ouvidos de quem tem a responsabilidade de consertar os desconcertos deste País. 

7. Maiane Pires – Comente sobre a recente publicação do livro O galo Ruivo (2022), destacando as principais inovações, além de mencionar o mote primordial dessa narrativa. Quais são os projetos futuros voltados para sua carreira literária?

Aldino Muianga – “O galo ruivo” é uma colectânea de contos, que retrata o perfil sociocultural e económico dos habitantes do cosmos suburbano da cidade de Lourenço Marques e dos meios rurais. Naquela compilação, as narrativas denotam  uma nova dinâmica  na estruturação  dos textos, que se podem considerar como uma exploração doutros veios de ficção narrativa. Em alguns contos, o uso de metáforas e de trocadilhos confere um pendor poético original na linha de escrita a que habituei o leitor. Às vezes me pergunto se a poesia não estaria a ressuscitar dentro de mim… Continuo a escrever, tanto quanto possível, sempre à busca de novos elementos, com que enriqueça os meus escritos. Para o ano corrente, projecto publicar um romance, uma novela e uma colectânea de contos. Os livros já foram entregues ao Editor, para as protocolares valiações e processamento das burocracias pré-publicação.

Grato pela atenção.

Aldino Muianga

Pretória, 20 de Janeiro de 2023


[1] Doutoranda em Letras: Linguagens e Representações (UESC). Bolsista FAPESP. Membro do Grupo de Pesquisa GpAFRO: Literatura, História e Encruzilhadas epistemológicas. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2240-325X. E-mail: maiane.tigre@hotmail.com. Esta entrevista é o resultado parcial da minha tese de doutoramento orientada pela profa Dra. Inara de Oliveira Rodrigues (UESC) e co-orientada pela profa Dra Sara Jona Laisse (Universidade Católica de Moçambique – extensão de Maputo).

Fonte da imagem: Plataforma Mbenga

Lançamentos!, Outras maravilhas humanas

CHAMADA PARA A ANTOLOGIA DE CONTOS “LENDAS URBANAS E CONTOS DE MORRER DE MEDO”

Quem não se lembra da história [ou estória] dos “Tatá papá tatá mamã”, da “xipoko xa ma mecha” (fantasma de mechas), do fantasma que apanhava boleia, das serpentes voadoras de Goba, dos Anapaches, dos mitos dos maridos/esposas da noite, do estrangeiro que seduzia mulheres novas e avarentas, para depois infectá-las de doenças medonhas, ou ainda da “Maria bheri ubhozi” (“Maria de uma mamã”)? O imaginário social vive de lendas urbanas e mitos rurais, que, de tempos em tempos, surgem e desaparecem, desempenhando, como advogam alguns especialistas, um papel importante nas sociedades.

Moçambique e as suas diversas regiões não ficam de fora. Quando o assunto é debatido, várias histórias são contadas, muitas delas pequenas, breves, de carácter fantástico ou sensacionalista, divulgada de forma oral. Serão elas verdadeiras, baseadas em factos reais? Ou constituem, somente, parte do folclore (tradicional e moderno)?

A Gala-Gala Edições pretende lançar uma antologia baseada nas lendas urbanas (e mitos rurais) de Moçambique, fazendo uma homenagem ao imaginário popular e/ou folclore moderno do país. A chamada é extensiva, também, para escritos de terror (sobrenatural ou não, psicológico, suspense e outros subgéneros) que tenham Moçambique como cenário. Serão escolhidos 13 contos, em referência ao número 13, obviamente amaldiçoado, segundo a crença popular.

Os textos deverão ser enviados entre os dias 25 de Julho e 25 de Setembro. Cada autor poderá enviar apenas um conto, com um limite de 15 páginas (veja o regulamento). O livro contará com a curadoria dos escritores Lucílio Manjate e Pedro Pereira Lopes.

Esta iniciativa conta com o apoio da Casa do Professor, da plataforma Mbenga – artes e reflexões, do Diário de uma Qawwi, do sarau Palavras são Palavras e do Clube de Leitura de Quelimane.

Para mais detalhes veja o cartaz da chamada e o regulamento.

Regulamento


1 Participação


1.1 A chamada destina-se a escritores moçambicanos. Os participantes devem ser maiores de 18 anos e residentes em Moçambique. Podem participar escritores com e sem obra publicada.

1.2 A inscrição é gratuita e nenhum valor será cobrado aos inscritos em nenhuma fase do projecto.

 
2 Orientações


2.1 Só publicados contos inéditos. Aos autores seleccionados será exigido um termo de responsabilidade e autoria.

2.2 Os textos deverão ser encaminhados para o e-mail galagalalivros@gmail.com, com a seguinte epígrafe no assunto: LENDAS URBANAS E CONTOS DE TERROR. No mesmo documento, a seguir ao texto, deverá ser apresentada uma breve nota biográfica, de até 8 linhas.

2.2.1 Os textos deverão ser enviados em formato Word (não aceitaremos PDF), espaçamento 1,5 entre linhas; fonte Times New Roman (12); O conto precisa ter o título e o nome do autor  (nome que irá aparecer no livro) no início do documento; O conto deve ter um máximo de 15 laudas.

2.2.2 Para os diálogos, deverá ser utilizado o símbolo de travessão.

2.2.3 Inscrições e textos que não obedecerem o formato serão automaticamente desclassificados.

2.3 Cada autor poderá inscrever só 01 (um) conto.
2.4 Não serão aceitos contos que incitem, glorifiquem, defendam ou demonstrem de forma positiva: estupros, uso de drogas, racismo, LGBTfobia e preconceitos no geral.

3 Publicação


3.1 A antologia terá até 13 (treze) contos participantes. Dentre os quais, aqueles escritos pelos autores seleccionados através desta chamada, podendo haver a participação de autores convidados pela Gala-Gala Edições.

3.2. A selecção final dos textos inscritos será da responsabilidade dos escritores e contistas Lucílio Manjate e Pedro Pereira Lopes.

4 Direitos autorais

4.1 Todos os autores receberão dois exemplares do livro impresso podendo, também, adquiri-lo com desconto de 30%.

5 Disposições finais

5.1 Nos limitamos a não justificar o motivo da não selecção do conto.

5.1.1 O(a) participante se responsabiliza por responder isoladamente em caso de plágio e afins.

Histórias

O Capricho das Borboletas, por Daniel da Costa

Depois do ciclone, o relógio da natureza é assaltado pelos demónios da lentidão e do desânimo. O pescador tem mais tempo para ruminar em silêncio o azar que lhe bateu à porta. Desde o nascer-do-sol ao baile das estrelas, ele abandona-se a um canto do seu vasto quintal, debaixo da única árvore que a fúria dos ventos não arrancou pelas raízes.

Liva foi cuspido para a depressão, uma espécie de varanda do suicídio. Num abrir e fechar de olhos escapou-se-lhe por entre os dedos o sentido da vida, uma vida inteira dedicada à mulher e às artes da pesca. E sem filhos.

A fúria dos ventos não só lhe roubou a esposa. Tirou-lhe o telhado da casa e a esperança que florescia na machamba. A maior parte das cabeças de gado foi devorada pela corrente do rio, com troncos disformes à mistura, umas tantas galinhas cafreais e incontáveis utensílios domésticos.

Agora não consegue tirar o olhar das borboletas que interpretam uma coreografia de cores divinas no seu quintal cercado de plantas espinhosas. As borboletas dão piruetas à volta das flores que teimam em espreguiçar-se com esplendor, exactamente no lugar onde antes o pescador gostava de conversar com a esposa.

Dentro do corpo, da sua alma e do pensamento, tudo continua a doer por inteiro. Ele parece ausente, numa pose de quem fumou soruma, proveniente do planalto. Se calhar, porque o passado lhe acena somente com duas bandeiras: a fiel companhia de um cão rafeiro e uma canoa cujo casco reclama um conserto de pequena monta.

Liva esboça o primeiro plano para evitar o naufrágio nas borboletas da nostalgia, indo pelo atalho mais fácil. De garrafa em punho, passa a encharcar-se de álcool, de domingo a domingo.

Isto, com um agravante. Nos quintais onde o pombe impera, abundam amigos ruidosamente solidários, dispostos a pagar ao pescador uma dúzia de copos do que quer que seja.

Com improvisados sopros de flauta feita de bambú, as sessões são animadas. É quase sempre num estado andrajoso que o pescador acaba por acertar com o portão de casa, auxiliado pelos extraordinários dotes do seu cão rafeiro.

Mesmo assim, Liva tenta subir a fasquia. Da bebida para as saias, vai só um metro. É o bêbado no seu melhor. Mas aí esbarra com a falta de dinheiro para se fazer rodear de mulheres, independentemente da categoria.

Espicaçados pela crise, os prostíbulos também reviram em alta o preço da oferta. O único serviço acessível destina-se a garotos com um pé na puberdade. São as matinées.

As prostitutas içam a capulana para que, num lampejo, os garotos consigam espreitar as suas partes íntimas, preferencialmente sem roupa interior. A partir desse fugaz golpe de vista, os garotos dão asas à imaginação, viajando excitados para bem longe do prostíbulo e da vigilância dos pais.

A dona do sítio não vai dar ao pescador o tratamento concedido aos garotos, mesmo sabendo que as suas finanças não gozam de boa saúde e que, desde a passagem do maldito ciclone, a sua virilidade segue a rota da desgraça.

Mas Liva pertence a uma casta com pouco mais de sessenta anos. Apesar dos constrangimentos sociais e biológicos, merece o respeito da dona do prostíbulo. Por isso, ela propõe um arranjo generoso. Excepcionalmente, o pescador pode frequentar a sua casa, fora das horas de expediente.

Tem direito a uma sessão de matinée, vamos lá dizer, reforçada. A partir da janela da casa de banho, está autorizado a contemplar as suas curvas, durante os banhos. Embora ela não possua a frescura de uma donzela, a oferta não lhe parece má. Para um leão velho, pensa o pescador, é sempre melhor do que nada.

Há, entretanto, um preço para o arranjo. Nesta vida, há sempre um preço a pagar. A troco desta investida essencialmente platónica, Liva deve entregar à dona do prostíbulo uma parte do peixe que capturar durante a faina.  

Selado o insólito acordo, o cão rafeiro passa a ser visto com frequência na varanda da generosa senhora, em dias fixos e à mesma hora. O quadrúpede denuncia o paradeiro de Liva que, nesta altura, já se tornou demasiado dependente dos remendos platónicos.

Os meses voam e, a pouco e pouco, ele consegue passar de simples cliente a amigo. É costume o tempo pregar partidas.

Podes vir almoçar comigo este domingo?

O pescador aceita o convite, agradecido. É a primeira vez que recebe um convite a sério, um convite de mulher, desde que o ciclone despenteou a sua vida, e o deixou na implacável dependência de álcool e das migalhas atiradas pela janela da casa-de-banho.

A muito custo, claro, conserva-se sóbrio. Na data marcada, Liva até sai de casa mais cedo do que o costume, a cantarolar uma letra popular, memorizada numa bebedeira qualquer. É um hino à felicidade.

Desce animadamente em direcção ao rio, atravessando um espesso nevoeiro que não o deixa ver um metro além do achatado nariz. O despertar dos pássaros encontra-o no meio do rio a verificar a eficácia das armadilhas.

Apanha dois peixes, enormes. Retira-lhes as vísceras e lava-os, de forma adequada. Escolhe o mais bonito para o almoço e destina o outro para a venda no cais. Liva arruma a canoa num lugar seguro e vai ao banho, necessariamente demorado.

É aí onde nota que o céu está repleto de borboletas. Intriga-o que, depois do banho, elas o sigam até à sua casa, recentemente reconstruída por voluntários de uma organização não-governamental.

Centenas de borboletas do rio juntam-se à dança entre as flores de casa. Boquiaberto, Liva contempla aquele invulgar espectáculo de cores em movimento.

Perto da hora agendada, mete-se por um caminho que bem conhece. Para não se atrasar, encurta a distância. Não vá o diabo tecê-las. A nuvem gigante de borboletas que o persegue deixa atónitos todos os adultos com os quais se cruza na rua. As crianças, maravilhadas. 

Sem que se aperceba, ao longo do trajecto, as suas rugas vão caindo, uma a uma. As mágoas e os cabelos brancos, também. Liva sente os passos a desenharem no chão pegadas mais firmes, a coluna a endireitar-se e o corpo a despir-se do vício e da fadiga.

Ainda cortejado pelas bailarinas de asas delicadas, o homem chega ao destino e bate à porta, suavemente.

Ao abri-la, a anfitriã fica pasmada. O quintal está deslumbrantemente colorido e o pescador untado pela frescura sedutora de um príncipe retirado de uma fábula.

O que é que se passa aqui, amigo? pergunta ela. 

Liva não consegue encontrar no dicionário palavras para lhe explicar aquele capricho da natureza. Limita-se a segurar o peixe numa mão, enquanto tenta, com a outra, acalmar o cão que, desde o rio, não pára de ladrar para as borboletas.

Nada voltou a ser como antes entre o pescador e a dona dos prazeres.

Conto da Antologia “Espíritos Quânticos”

Revisão por Leo Cote

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Lançamentos!, Livros, Resenhas

Lançamentos: 12 sugestões para este Natal (em prosa e poesia)

Com o natal ao virar da esquina, vale a pena recordar que o livro é sempre um dos melhores presentes. Os livros estimulam a nossa imaginação e às vezes transformam as nossas vidas. Ao oferecermos um livro, acabamos também, por de certa forma, subscrever uma escolha para o leitor, uma escolha que de outra forma pode ser difícil, perante tantos livros e propostas disponíveis no mercado.

E por falar em tantos livros, em Moçambique os últimos meses foram repletos de novidades e lançamentos!

Preparámos a lista abaixo, contendo alguns livros novos, como sugestão para este Natal. Confira:

Prosa

  1. As Raízes do Rei, de Susana Machamale

Foi lançado no dia 9 de Dezembro de 2021, em Maputo, “As Raízes do Rei”, livro de estreia de Suzana Machamale. Este é o primeiro volume de uma tetralogia chamada “Príncipes Sangrentos”.

Durante o lançamento, a autora relatou o processo de publicação do livro, tendo dito que no início não acreditava ser possível a publicação em Moçambique deste seu primeiro trabalho, inclusive pela temática que aborda. Com mais de 290 páginas, o livro sai pela chancela da Kulera Editores.

Eis uma breve passagem da sinopse: “Dois reinos, quatro cabeças, mas apenas duas coroas. O carismático Ânjor e a ambiciosa Hanjy Karavejo são filhos da rainha de Taravin. mas, por serem gémeos, só pelo voto do povo pode-se definir qual dos dois será o primeiro na linha de sucessão ao trono. A angelical Yasy e a perversa Yagui Dantaze são filhas do reu Nunny.

Segundo o apresentador da obra, o professor Daúde Amade, “o livro retrata uma história de membros da mesma família que disputam a sucessão ao trono, chegando, até, a odiar-se. Entre os irmãos que disputam o trono e os reinos que se opõem pelo poder, forjam-se falsos sorrisos, traições, mortes e muito sangue mancha a história de uma família que, caso fosse possível, daria tudo pela permanência de um passado sossegado e sem conflitos”.

2. Gole de Lâminas, de Alberto Dalela

Fonte de imagem: Vymaps

Foi lançado no dia 24 de Novembro de 2021, “Gole de Lâminas”, livro de estreia de Albert Dalela, chancelado pela Ethale Publishers. Segundo a nota do blog Mbenga, esta é uma proposta que consiste em apresentar o sub-mundo da cidade de Maputo, ou seja, reflectir em torno da complexidade de conceitos e ideias da questão de ser e estar nas zonas suburbanas e na cidade.

3. O Abismo aos Pés, de Elton Pila e Eduardo Quive (organizadores)

Fonte de imagem: Amazon

Este livro, chancelado pela Editora Literatas, foi publicado em finais de 2020, tendo sido em Novembro de 2021 apresentado no Instituto de Camões, em Maputo, numa conversa com os organizadores, Elton Pila e Eduardo Quive. Contendo 232 páginas em entrevistas efectuadas a 25 escritores lusófonos, “O Abismo aos Pés” reflecte sobre a iminência do fim do mundo e oferece uma das leituras mais instigantes e inquietantes de todos os tempos.

4. No Verso da Cicatriz, de Bento Baloi

Fonte de imagem: Almedina

Um dos livros mais interessantes publicados este ano é sem dúvida “No Verso da Cicatriz”, romance que narra a história de Bernardo (e sua Helena). A trama é ambientada nos primeiros anos após a independência de Moçambique, iniciando com o protagonista Bernardo sendo afastado da amada, pelo Governo, que o leva de Maguaza (sua zona de origem) a Carico, sob a falsa acusação de ser uma Testemunha de Jeová.

Conforme se lê numa matéria da RFI, para além do conflito armado, Bento Baloi também aborda a operação durante a qual, nos anos 80, milhares de pessoas se viram forçadas a ir trabalhar em meio rural, longe das suas zonas de origem.”

O livro foi lançado em Agosto de 2021, simultaneamente em Moçambique e em Portugal, pela Editora Índico e pela Alêtheia Editores, respectivamente.

5. Histórias do outro mundo, de Carlos dos Santos

Fonte da imagem: Alcance

Nós do Diário de Uma Qawwi, amantes da ficção especulativa, não poderíamos, obviamente, deixar de mencionar o novo livro de Carlos dos Santos. Editado pela Alcance Editores e com cerca de 112 páginas, o livro reúne oito contos nos géneros ficção científica e fantástico, acompanhados de belíssimas ilustrações. Imperdível!

6. Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão

Por último, no género da prosa, fazemos menção, com muita alegria, à “Sina de Aruanda”, romance lançado no dia 8 de Dezembro de 2021, terceiro obra da administradora do Diário de Uma Qawwi. Num dos momentos mais marcantes da cerimónia, o apresentador do livro, o professor Albino Macuácua, mencionou que Sina de Aruanda “é um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico, ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, do “verdadeiro” amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.”

O livro sai pela chancela da Fundação Fernando Leite Couto em Maputo, e será publicado em 2022 pela Editora Malé, do Brasil.

Poesia

7. O Lugar das Ilhas

“O Lugar das Ilhas” é o novo livro da poeta Sónia Sultuane.

Sobre a obra, o apresentador do livro, o professor de literatura Nataniel Ngomane, explicou que as ilhas retratadas no novo livro de Sónia Sultuane não são necessariamente geográficas (Ilha de Moçambique, Cuba e as ilhas da Grécia), são ilhas que existem na forma de pensar humana”. In OPais

8. O Escutador de Silêncios, de Ricardo Santos

Também foi lançado recentemente um livro de poesia, de Ricardo Santos.

Os textos em “O Escutador de Silêncios” foram escritos na sua quase totalidade entre 2016 e 2019. Sobre esta obra, diz-nos o escritor Leo Cote, que “o prosaismo que esta poesia reflecte e sugere, resulta da vontade de contar histórias, muito ao jeito da tradição oral, e de construir um discurso que seja a ficção do hodierno e do simples, atingindo o natural e o espontâneo. Não é por acaso que o poema “Ânfora” faz alusão a isso.” In Mbenga.

9. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos, de Énia Lipanga

Este livro foi lançado no dia 12 de Novembro de 2021 e é a segunda obra de poemas de Énia Lipanga.

Segundo a Editora que chancela a obra, a Gala Gala Edições, “as vozes deste livro são femininas, ora inteiras, ora nada, ora em pedaços, para cantar os seus gozos e alegrias, e também as suas feridas e cicatrizes. “Talvez, por isso, chovam gotas íntimas em seus versos que escorrem fios e fiapos de prazer e, quiçá, de amor, travestidos de incertezas, poeiras, nuvens, sombras e desejos que incitam dores, emoções, saudades, menos regressos e mais recomeços”, escreve a professora Ana Rita Santiago.” In Gala Gala Edições

10. Calvário e a Cruz, de Jeconias Mocumbe

Recentemente lançado, em edição do autor, o livro de Jeconias Mocumbe (pseudónimo de Edilson Sostino Mocumbe) é uma antologia de poemas. Segundo Elísio Miambo, o apresentador do livro, a obra “apresenta-se como um exercício de exploração dos limites da metáfora, havendo, nesse processo, momentos em que ela própria (a metáfora) são lhe apresentados os seus vícios enquanto forma de codificação discursiva. De facto: se por um lado existem livros que tomam o leitor como imbecil a ponto de fornecerem informação desnecessária e que se resvala pela prolixidez, por outro, livros há que ou sobrevalorizam o leitor ou o seu autor não liga a mínima para uma possibilidade de haver alguma interatividade entre o leitor e a obra, correndo assim o risco de se tornarem incompreensíveis.”

Prosa em Infanto Juvenil

11. A Estranha Metamorfose de Thandi

Lançado no dia 24 de Novembro de 2021, o novo livro de Mauro Brito apresenta o conto “A estranha metamorfose de Thandi”, e é ilustrado pelo artista plástico Samuel Djive.

José dos Remédios, no OPais, descreve-o como “uma história de amor entre mãe e filha, Mbali e Thandi, personagens agrestes que constantemente enunciam lições universais, atinentes às circunstâncias domésticas e até mesmo comunitárias.”

A estranha metamorfose de Thandi levar-nos-á pelos meandros do interdito, do destino e da libertação, numa linguagem onde a narrativa e a poesia, o real e o imaginário, o presente e o passado se cruzam num espaço sem fronteiras distintas.

12. As Aventuras de Manuelito, de João Baptista Caetano Gomes

Esta foi uma das obras vencedoras do concurso Literário “Nó de Gaveta”, promovido pela Associação cultural Nkariganarte, em parceria com a Kuvaninga cartão d’arte. João Baptista venceu pela zona centro de Moçambique, ao lado de Cleyde Pamela (com o texto “O Sonho de Chinguana”) e Laliana Mahumane (com o texto “O outro lado das flores”), das zonas Norte e Sul, respectivamente. O autor participou da antologia Memórias do Idai, uma colecção de crónicas literárias que resultou de um concurso promovido pela Editora Fundza. Participa em antologias nacionais e internacionais. Em 2021, seu texto “Os vendedores de sol e lua” foi um dos 12 selecionados para a Oficina de Ficção Narrativa organizado pela Fundação Fernando Leite Couto. Tem escrito prefácios de livros e tem apresentado obras literárias de alguns escritores emergentes da Literatura Moçambicana.

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Cantinho da Qawwi

Um conto de (a tale by) Mélio Tinga

“Era um miserável, um pobre apaixonado atrapalhado. Basmeu de Castro Luis nunca antes se vira controlado por um amor tão ardente. A moça pisava o chão com serenidade, a luz do sol transformava-a em flor agigantada no meio de tantas outras. Basmeu apaixonara-se ao vê-la passar repetidas vezes. Certa feita, viu-a passar de um vestido que lhe roçava os joelhos, viam-se as coxas lisas e claras com o ecoar leve do vento de final de tarde.”

“He was a miserable, poor fumbling lover. Basmeu de Castro Luis had never found himself dominated by such passionate love. The girl stepped coolly on the ground, the sunlight changing her into a giant flower among so many others. Basmeu had fallen in love with her when he saw her passing by, again and again. On one occasion, he saw her walk by in a dress that brushed her knees, her smooth, clear thighs visible with the light echo of the late afternoon wind.”

Passagem de “O Pobre e os seus amores”, conto de Mélio Tinga. Leia este e outros contos em “O Voo dos Fantasmas”,

                                                                Livro Publicado pela Ethale Publishing, 2018

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Melita Metsinha

Medo

Morrer de amor

Esse que não mata

Por quem matamos?

É fuga impedida

O voo sem horizonte.

Um sonho sem ti.

Fear

To die of love

That which does not kill

For whom do we kill?

Its a hindered flight

The flight with no horizon.

A dream without you.

Poema de Melita Matsinhe – In Ignição dos Sonhos

                                                                Livro publicado pela Fundação Fernando Leite Couto, 2017

Cantinho da Qawwi

Um verso de (one verse by) Nick do Rosário

Fronteira do Silêncio

No teu rosto

teus dedos tristes

fronteira do silêncio

The Silence’s Edge

By your face

your sad fingers

The silence’s edge

Poema de Nick do Rosário – in Gaveta de Cinzas: Solilóquios

                                                                Livro publicado pela Gala Gala Edições, 2021

Livros, Resenhas

Literatura| Na terra dos sonhos, de Agnaldo Bata | Opinião

Autor: Agnaldo Bata

Editora: Alcance Editores

Idioma: Português

Sinopse

Na terra dos sonhos conta a história de Ângela, uma mulher que nasceu numa pequena localidade do distrito de Manjakaze. Ainda nova, Ângela apercebeu-se dos desafios que a sua condição social (Mulher e Órfã) lhe impunham e quando todos pensavam que “sonhar” era o maior insulto que ela podia proferir, contra a moral social que a cercava, Ângela mostra ser forte e com o apoio dos amigos que os espíritos lhe enviam (Gabriel, Sitoe e Edson) dá o máximo de si para vencer cada desafio, sempre movida pela justiça, determinação e a eterna vontade de ver os seus sonhos realizados, o incontornável anseio de chegar à terra dos sonhos.

Opinião:

Justamente quando achávamos que tópicos destes (histórias a volta do êxodo rural, por exemplo) já estavam esgotados, eis que surge um romance com potencial para acrescentar algo mais à discussão. Sobretudo se estivermos a falar de uma história que tem como palco e contexto, o cenário Moçambicano. Mais do que nunca, é importante reflectir sobre os desafios actuais, ter esperança, e sonhar com um futuro melhor. Foi esta a mensagem que nós, como leitores, captamos do livro de Bata.

Através da história de Ângela, e com uma pena visivelmente sensível, o autor mostra-nos a realidade que infelizmente ainda é vivida por grande parte das mulheres moçambicanas, sem acesso à educação, pela sua condição e estatuto de mulher. Ângela, é assim, a grande heroína que nos abraça e nos inspira nesta jornada.

A narrativa socorre-se de uma técnica interessante, um diálogo constante e cruzado, entre os vários narradores que apresentam os seus pontos de vista, desde o médico que cuidou da gravidez da mãe da Ângela, tendo deixado relatos escritos para a rapariga, Ângela, a protagonista e Gabriel, que acaba tornando-se muito próximo de Ângela.

Apreciamos também o facto de o autor ter trazido à discussão questões sociais, como os direitos dos trabalhadores domésticos, o assédio sexual, a desigualdade e o acesso à justiça, e mais ainda, de alguns protagonistas, no final, terem se mostrado extremamente humanos, nas suas virtudes e falhas. Mais fácil, assim, de nos relacionarmos. Ah, e por falar em final, para nós este é o ponto forte do livro. Apesar da certa previsibilidade relativamente ao destino dos protagonistas, o autor trouxe um desfecho inusitado, futurístico, que revela aquilo que é (e se não é, devia ser) o sonho de qualquer moçambicano.

Já a diagramação, é um senão. As folhas largas e a letra pequena tornam a leitura um pouco desconfortável. Nada, porém, que perturbe a experiência e o mergulho na escrita de Agnaldo Bata.

Kudos, por mais oportunidades para todas as “Ângelas”.

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas.

Livros, Resenhas

Literatura| Madalena – o tradicional casamento sem amor| Opinião

Autor: Hosten Yassine Ali

Edição: 2013

Editora: Edições Esgotadas

Idioma: Português

Compre aqui: Edições Esgotadas

Este livro é uma joia na literatura moçambicana e tu uma pérola de autor: dizer mais é querer dizer o que escreveste, com dignidade, frontalidade, com moçambicanidade

Eduardo White in Madalena, o tradicional casamento sem amor

Opinião:

Que tal começarmos pelo título: Madalena, o tradicional casamento sem amor.

Ora, ora, nós do diário de uma qawwi, leitores teimosos que às vezes levam as coisas ao pé da letra, começamos a percorrer as páginas, à espera de… hum. Talvez uma história que abordasse um casamento forçado, numa sociedade tradicional? Ou então, um casamento de alguma forma “tradicional”?

Bom, a trajectória não é assim tão óbvia. Ao chegarmos à história de Lena (Madalena) e Filipe, deparamo-nos com a primeira de muitas surpresas (se calhar reviravoltas) que nos aguardavam nesta trama. Porquanto o relacionamento entre Madalena e Filipe (assumidos então como casal protagonista) não é desprovido de amor. Pelo contrário, os dois se amam bastante. O problema é outro: Filipe é obrigado a lobolar (ou seja, casar com) Madalena, depois de a mesma estar morta.

Narrando um pouco a trama (mil perdões, caros leitores, pelo pequeno spoiler): Madalena, muito nova, engravida de Filipe, e o seu rigoroso pai a expulsa de casa. Sem tecto, ela vai viver com o namorado Filipe, os dois tentam ser felizes, mas essa tentativa é interrompida quando Madalena morre durante o parto. O pai, que deixara de falar com a filha, retorna o contacto com o genro, e avisa-o que, para que reine a paz entre as famílias, Madalena não poderá ser enterrada, sem que antes Filipe respeite a tradição e oficialize a relação. Desta forma, melindrado pela própria tradição, e pelo sentimento forte que sente por Madalena, Filipe concorda em lobolar a rapariga, mesmo estando esta morta. Eis uma passagem do dilema narrado pelo protagonista:

Não sei realmente o que estou a pensar: na verdade, busco uma solução para que satisfaça ou não a família de Lena e lhes dê o casamento de uma filha morta. Custa-me acreditar que me vou casar com um cadáver, alguém que não fala, que não comerá o bolo de casamento, não beberá espumante, não fará discurso de noiva e, pior que tudo, não me aceitará como as mulheres aceitam os maridos

Avante, o livro não retrata apenas algumas tradições que vincam em algumas famílias moçambicanas. Pelas vozes de outras personagens que vão sendo inseridas na narrativa, ficamos a conhecer histórias e realidades, que fazem parte do cotidiano moçambicano, mas por vezes despercebidas ou até mesmo desconhecidas. É a história do próprio Filipe, forçado a casar em tais circunstâncias. Ou por exemplo, a história daquela titia que revelou grandes segredos da sua intimidade durante a cerimónia que antecede o casamento da sobrinha. É a história de um filho que após tornar-se “doutor”, vira as costas à mãe deixando-a na miséria, e tantas outras peripécias que tornam esta leitura uma experiência única.

O livro torna-se confuso em alguns momentos, em que o narrador, na 1ª pessoa, afasta-se de si, e passa a olhar-se como uma entidade não participante. Nada, entretanto, que atrapalhe o nosso mergulho na distinta escrita de Hosten Ali.

Encontramos também neste livro, uma das diagramações mais bonitas e aconchegantes que já vimos, com a silhueta de uma mulher africana (parecida à capa do livro), dividindo cada capítulo.

Posto isto, convidamos o leitor e embarcar nesta leitura e a descobrir o que trata, de facto, este “casamento tradicional.”

Sobre o autor: Hosten Yassine Ali é moçambicano, natural de Maputo. Abraçou a carreira de official da Marinha no ano de 2008, através da formação na Escola Naval Portuguesa. Publicou o romance Madalena e o livro de crónicas Kurhula, crónicas da cidade de Maputo, sob a chancela das Edições Esgotadas. É fundador dos projectos de acção social “Pequenos Gestos Moçambique” e “Universidade e Rua Moçambicana”. É mestre em ciências Militares Navais e especializado em Administração Naval.

A nossa pontuação: 4.5 em 5 estrelas.