Opiniões, Resenhas

A Celebração do Estilo Hip-Hop da Costa Oeste em “GNX”, de Kendrick Lamar

Por Denilson Monjane

A lot of times, when people say hip-hop, they don’t know what they’re talking about. They just think of the rappers. When you talk about hip-hop, you’re talking about the whole culture and movement. You have to take the whole culture for what it is.

Afrika Bambaataa

Com o lançamento surpresa de “GNX”, Kendrick Lamar abala a comunidade Hip-Hop com uma abordagem mais clara e simples. É o seu projecto mais objectivo em comparação aos seus álbuns anteriores. Conhecido por suas explorações complexas de temas sociais e culturais, Kendrick presta, desta vez, tributo ao estilo hip-hop da Costa Oeste, homenageando suas raízes musicais e culturais. Ao invés de suas narrativas densas e intrincadas, Kendrick apresenta uma proposta de exaltação e celebração da cultura na periferia californiana, destacando as sonoridades clássicas e as rivalidades regionais de forma mais acessível e informativa.

Comecemos pelo título: “GNXé um acrónimo de ”Grand National Experimental”, um modelo de carro da marca “Buick”, aderido ao fim de uma turnê, sendo este o mesmo modelo de carro que seu pai Kenneth viria a transportar o futuro rapper a saída do hospital após o seu nascimento.

Logo na faixa de abertura de “Wacced out Murals”, Kendrick estabelece o tom do álbum com uma batida minimalista sustentada por um fragmentado discurso melódico em espanhol, cantado pela mexicana Deyra Barrera, que se vai completando ao longo do projecto:Siento aquí tu presencia/ La noche de anoche/Y nos ponemos a llorar… ‘Sinto sua presença aqui/A noite passada/E nós começamos a chorar…’ Isto, lembrando a famosa declamação fragmentada do poema “Another Nigga, que se ia completando ao longo do seu terceiro álbum “To Pimp a Butterfly (2015). O som é pesado, sem pretensões de sofisticação excessiva, sem um contraste deliberado e muito menos complexamente narrativo como “To Pimp a Butterfly” ou “Good Kid, M.A.A.D. City”. A simplicidade das batidas e o uso de estilos vocálicos característicos do gangster rap da Califórnia fazem com que o ouvinte se sinta imediatamente transportado para as ruas de Los Angeles e seus bairros, onde a violência e a rivalidade de gangues coexistem com um senso de comunidade, pertencimento e estilo de vida.

Essa abordagem minimalista é consistentemente explorada ao longo do álbum. Faixas como “Squabble Up”, “Hey Now” e “Peekaboo”aprofundam a imersão na realidade das ruas com Kendrick, abordando questões como lealdade, a luta pelo respeito e as tensões entre as diferentes facções, mas honrando a cultura da Costa Oeste. As letras são directas, sem perder a força emocional, e as produções ressoam com uma autenticidade que reverbera o legado de figuras como Snoop Dogg e Tupac Shakur, mas com uma sensibilidade mais contemporânea.

Com “GNX”, Kendrick Lamar se reafirma como um defensor do legado musical que ajudou a definir o hip-hop nos anos 90, a era considera como Golden Age Hip-Hop ou Era de Ouro de hip-hop. A faixa “Reincarnated” é uma clara homenagem a essa tradição, utilizando uma batida pesada combinada com piano e um baixo marcante, reminiscente das produções de Johnny J, então produtor da canção controversa “Hit Em’ Up”, de Tupac Shakur. Em “Dodger Blue”e “Heart pt. 6”. As canções são uma verdadeira viagem pelas ruas de Los Angeles, com suas referências ao dia-a-dia da cidade e à cultura local, mas também um reflexo do espírito resiliente da Costa Oeste, onde a música se torna uma ferramenta para a sobrevivência e para a construção de identidade.

As faixas “Luther”e “Gloria’, outras das faixas de destaque, uma fusão perfeita entre a modernidade e a tradição do hip-hop da Costa Oeste. As batidas, com seus ritmos pulsantes, são ao mesmo tempo dançantes e introspectivas, e as letras celebram a resistência das comunidades ao som único da região. Kendrick usa a música como um veículo para contar histórias de superação, resistência e identidade, trazendo um senso de orgulho à cultura da Costa Oeste, mas sem ignorar suas complexidades e contradições.

Um dos aspectos mais notáveis de “GNX” é como Kendrick Lamar propõe a união entre gangues rivais, isso já ressoando desde “Good Kid M.A.A.D City”e “To Pimp a Butterfly”, que são os projectos que minimamente dialogam com “GNX”. Essa ideia se reflecte especialmente em “GNX”, a faixa homónima do álbum. O som é agressivo, com um ritmo pausado e versos que evocam um senso de luta colectiva. Em suma, Kendrick Lamar sugere que, em vez de continuar as disputas violentas, as gangues poderiam usar sua energia para construir algo maior, como uma rede de apoio mútuo e resistência contra as adversidades. O álbum transmite tanto um desejo de união na medida em que dá crédito a relevância dos dois lados, propondo uma reflexão mais ampla sobre como as ruas da Califórnia podem unir-se em torno da música, cultura e comunidade.

Com “GNX”, Kendrick Lamar reafirma o Gangster Rap da Costa Oeste. As faixas como exploram uma realidade e uma visão de união usando a música como ponto de convergência. Kendrick, com seu talento único, consegue equilibrar a celebração da cultura hip-hop da Califórnia com uma mensagem poderosa de resistência e solidariedade.

Ao escolher esse caminho, Kendrick não apenas homenageia o legado da Costa Oeste, mas também solidifica a sua relevância dentro dessa tradição, contribuindo para um novo capítulo na história do hip-hop. “GNX” é um álbum que não só reafirma a importância de Kendrick Lamar no cenário musical, mas também propõe um diálogo urgente sobre união, identidade e transformação social, utilizando a música como um veículo para a mudança.

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