
Amin já foi um homem feliz. Contabilista, metódico, respeitado. Casou-se como mandava a tradição muçulmana, com uma mulher da mesma fé, também contabilista, com quem partilhava valores, contas e amanhãs. Ambos trabalhavam, tinham estabilidade, eram organizados. Um casal que prometia.
Com o tempo, compraram a primeira casa. Ampla, com espaço suficiente para os filhos que já idealizavam. Os pais e sogros estavam orgulhosos. Eram o espelho do sucesso dentro da comunidade. Casaram oficialmente, com muitas bênçãos.
O primeiro filho foi uma menina. Esperta, curiosa, com queda natural para os números como o pai e a mãe. Era motivo de orgulho. Uma criança brilhante. Tudo parecia caminhar como planeado.
Depois nasceu Izam. A continuação do apelido. A alegria foi ainda maior. Agora sim, tinham um casal. Uma menina e um menino. A casa enchia-se de vida, fotografias, de devaneios para o futuro.
Izam, ao início, era um bebé calmo, observador. Porém, com o tempo começaram a notar que algo estava fora do normal. Não olhava nos olhos. Reagia pouco ao nome. Repetia movimentos. Chorava sem explicação.
Aos três anos veio o diagnóstico: uma síndrome rara do espectro do autismo.
A notícia abalou o chão do casal. Procuraram os melhores médicos, terapeutas, apoios. Tinham recursos e esperança. Mas os progressos não apareciam. Pelo contrário, Izam parecia afastar-se mais a cada dia.
Alguém tinha de ficar em casa. A esposa ganhava melhor. Amin era mais calmo com o filho e tinha mais paciência. Ficou com ela a responsabilidade. Deixou a contabilidade e passou a cuidar de Izam a tempo inteiro. Trocou a rotina profissional pelo lar, pela medicação, pelas terapias.
Ao início, acreditava que seria por pouco tempo. Mas os minutos e os dias foram passando, e a nova rotina tornou-se prisão.
As tarefas acumulavam-se. A mulher passou a vê-lo não como o homem de antes, mas como o responsável por manter tudo em ordem. Esperava-se que, além de cuidar de Izam, a casa estivesse sempre impecável: comida feita, roupa lavada, limpeza feita, horários cumpridos. E, mesmo que tudo estivesse feito, havia sempre algo por criticar.
As conversas desapareceram. Os gestos carinhosos sumiram e deram lugar a discussões sem fim. Passaram a dormir em quartos separados. Amin já não era marido, nem contabilista. Era apenas o homem que ficou.
Izam cresceu. Hoje, com 18 anos, continua dependente. Tem crises e fugas constantes. Amin sai à procura dele, já sem pânico, como quem cumpre mais um dever, mais uma rotina. O traz para casa. Sempre em silêncio.
Num desses dias sem cor, a mulher aparece no quarto dele, senta-se. Não falam muito; talvez seja cansaço. Talvez memória do que já foram. Dormem juntos. Nessa noite, ela engravida do terceiro filho.
Amin nem se ilude. Mais uma criança, mais noites sem dormir. Mais fraldas, mais tarefas. E, mais uma vez, tudo cai sobre ele. Leva o mais novo ao infantário, cuida de Izam, cozinha, limpa, corre atrás do filho mais velho quando desaparece. No infantário, já todos conhecem a sua história, que ele não esconde de ninguém. Basta olhar-lhe para a cara, não é preciso perguntar.
Amin já pensou em sair, em recomeçar, em vender a casa. Mas, isso não é opção. Hoje, com 50 anos, três filhos, um com dependência total, não há para aonde ir. E, sem rendimento fixo, a liberdade é só uma palavra; está preso. Não por escolha, mas por falta dela.
Amin vive numa casa que ajudou a pagar, mas onde já não manda. Já foi contabilista. Já foi marido. Agora é o homem que cuida, o que embala calado.
Todos no colégio dizem: “É um bom pai.”
Mas ninguém diz: “É um homem feliz.”
É o homem que ficou. O que segurou tudo quando tudo caiu. O que desapareceu para que os outros pudessem continuar.
Por Roberto Junior (The Cysne)

Muito fixe
Muito obrigada pela leitura e pela visita 🙂