Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | A Confissão da Leoa, de Mia Couto | Opinião

No âmbito do simpósio sobre os 50 anos da literatura moçambicana, organizado pela CESA e a Universidade Eduardo Mondlane, visitei dois livros que considero dialogarem com a eco ficcão “Arca de Não É” de Bento Baloi, e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, publicado em 2018, sobre o qual gostava de deixar algumas impressões. Conforme explica o autor na nota introdutória da obra, a ideia surgiu no contexto do seu trabalho como biólogo, numa expedição no Norte de Moçambique em 2008. Embora o mote da obra seja o conflito homem animal (mais concretamente humanos e leões), o romance aprofunda questões marcantes e importantes, dentre elas, o modo como as mulheres, num contexto marcado pela tradição, enfrentam a perda do seu espaço e do seu próprio eu, simbólico e real. O romance, que é inspirado em eventos e em pessoas reais, decorre na aldeia de Kulumani, em Cabo Delgado, a qual é assolada por ataques de leões que tem devorado as pessoas, particularmente mulheres. O romance também dá visibilidade a tópicos como a saúde mental e violência doméstica, mostrando que a brutalidade não vem apenas das feras que rondam a aldeia, mas muitas vezes das relações íntimas e familiares. A narrativa tem dois protagonistas: o caçador Arcanjo Baleiro, convocado para exterminar os leões assassinos; e Mariamar, uma jovem da aldeia que perdeu a sua irmã Silencia no meio destes ataques. Ambos narram na primeira pessoa, cada um nos dando a sua versão dos acontecimentos.

“Todos acreditam que são leões machos que ameaçam a aldeia. Não são. É esta leoa, delicada e feminina como uma dançarina, majestosa e sublime como uma deusa, é esta leoa que tanto terror tem espalhado em todas as vizinhanças” (Couto, M, p. 42). Entre as personagens secundárias do livro, destaca-se Gustavo Regalo, escritor convidado a relatar os acontecimentos na aldeia. Este personagem, parece-me funcionar como uma espécie de avatar, uma caricatura de si mesmo que Mia Couto insere no enredo. É difícil não ler este personagem como um gesto autoirónico do Mia, rindo-se de si próprio, do lugar que ocupa enquanto escritor moçambicano com projeção internacional. Outrossim, a narrativa tem várias personagens femininas que debatem as forças contraditórias que há pouco mencionei: o poder feminino e a opressão sistemática desse mesmo poder. Conforme relata a personagem de Mariamar, “Em Kulumani, muitos se admiram da minha habilidade de escrever. Numa terra em que a maioria é analfabeta, causa estranheza que seja exactamente uma mulher que domina a escrita”. Ao que o avô da Mariamar comenta “cuidado, minha neta. Escrever é perigosa vaidade. Dá medo aos outros” (Couto, M. p.66). A narrativa prossegue reflectindo sobre a limitação da mulher que ainda hoje se se sente, no que se refere à sua participação activa em espaços de decisão e de deliberação comunitária, ilustrado pelas palavras de Mariamar “Na noite anterior, em nossa casa, a ordem tinha sido ditada: as mulheres permaneceriam enclausuradas, longe dos que iriam chegar. Mais uma vez, nós eramos excluídas, apartadas, apagadas.”

Naftalinda, esposa do administrador em Confissão da Leoa, surge como uma personagem que desafia frontalmente o paradigma de exclusão e o silenciamento feminino. Ela expõe a violência sofrida pelas mulheres, reivindicando a devida justiça. A sua presença simboliza uma ruptura nas estruturas patriarcais, revelando que a literatura pode também encenar possibilidades de resistência. Mia Couto emprega neste livro uma narrativa que dialoga com a poesia, e termos próprios, uma técnica a qual já nos habituou em outros trabalhos. Uma leitura fácil e agradável.

Classificação: 5 em 5 pontos

Por Virgília Ferrão

Resenhas

“O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza”, que Revela Usando Armas Desactivadas

Por Domingos Mucambe

No Centro Cultural Franco Moçambicano caiu a noite, longa e lenta, enquanto minuto a segundo tecia-se o momento em que se daria a inauguração. A maior parte das coisas acontecem de noite, e não seria diferente para os adivinhos. Aliás, acredita-se que as noites servem mesmo para isso. Enquanto entrava a noite adentro, muito mais dentro nós ficávamos cada vez mais ansiosos por uma exposição que levou tempo a mais para dar iniciada. Mas, isso é só um caso a se esquecer, no final do dia, principalmente quando a exposição foi, finalmente, inaugurada. Entre adivinhações e suspiros, algo foi-nos revelado.

Dentro do Centro Cultural há lá mostras que fazem parte da exposição, como o “Trono dos Reis” e outras esculturas. Aqui começa o ponto. Mabunda traz esculturas interessantes as quais, de longe, são apenas ferro e soldadura. Um trabalho que desafia muito os olhos dos visitantes. Mas de perto nota-se que não é apenas ferro como tal, mas engenhos de armas desactivadas como matéria-prima que originou várias formas como o trono dos reis, que representa, acima de tudo, o lugar ou a instituição em que o poder se concentra. De certo modo, há aqui uma contradição com o que Foucault pensa sobre o poder. Certamente com essas esculturas, com essa exposição, o poder não é disperso, mas concentrado num único trono. É esse tipo de mensagem que está por detrás da exposição no geral, e em algumas obras em particular.

E, no interior da exposição sente-se a violência, mesmo que suspensa, a sua iminência, ou algo perto. Olhando de trás para frente a exposição tem uma coerência espectacular. Todas as obras ali expostas dialogam umas com as outras como se fossem os búzios do adivinho que nos revelam os “fabricantes da pobreza”. Como também há esse partido de significados em que há, por ali espalhado, os destroçados pelo poder e os que são os detentores do mesmo poder. É uma via de mão dupla.

A exposição “O Adivinho dos Fabricantes da Pobreza” traz algumas respostas de perguntas suspensas, ou que nunca foram feitas. Há aqui as armas como os fabricantes de toda a pobreza que assola o mundo. Mas, aqui a pobreza não é só ao nível económico. Vai a fundo: trata-se de pobreza ao nível espiritual, moral e, acima de tudo, sobre a condição humana que é decadente. Em changana, a palavra pobre não tem uma única tradução, tem usiwana e Usweti. A primeira pode ser entendida como pobreza a nível económico, mas o segundo vai também para o desamparo; é muito mais amplo que o primeiro. A pobreza exposta tem detalhes da segunda tradução pelo seu aspecto, e também pelo que a guerra sempre traz; não é só morte ou fome, mas tudo que faz as pessoas serem verdadeiramente pobres e desgraçadas pela vida.

Portanto, nessa exposição há todo esse aparato que sempre nos traz calafrios na pele de dentro. Há helicópteros que nos sobrevoam e tronos, tudo feito com armas desactivadas. Uma coisa espectacular, que também reforça o legado do próprio Mabunda. Essa exposição é uma continuação de um caminho só por ele traçado que, usando a soldadura, traz a violência, as relações de poder e a pobreza, num sentido lato.

Livros, Opiniões, Resenhas

O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini | Opinião

Autor anónimo

Primeira obra do escritor afegão Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas conta a história de dois meninos de etnias diferentes: um era Patswns e o outro Hazara. Esse último era filho do criado da casa, e amigo fiel do seu patrão.

Os dois foram criados como irmãos. Amir era frágil e gostava de ler, enquanto que Hassan, o Hazara, era um analfabeto e gostava de ouvir as histórias que seu amigo lia para ele. Foram, durante muito tempo, grandes amigos, até que num dia em que havia um torneio de pipas, Amir vence. Mas, para legitimar a sua victória tinha que ter a pipa vencida.

Hassan foi atrás, e ele era bom em caçar pipas. Porém, quando finalmente achou a pipa ele é cercado por um grupo de meninos que não gostavam dele e nem do Amir, o qual já lhes havia ameaçado antes. Esse grupo encurralou o Hassan e abusou-o sexualmente. Enquanto isso, o Amir assistia escondido num beco.

Esse acto macabro mudou drasticamente a relação que existia entre os dois.

Amir vivia com peso na consciência e já não conseguia olhar para o Hassan sem que o sentimento de culpa viesse à tona.

Então, ele afastou-se e fez de tudo para que o pai os mandasse embora, só para não ter que cruzar com ele pelos corredores. Depois, armou uma armadilha, meteu dinheiro e um relógio novo nas coisas de Hassan para que este fosse acusado de roubo. Até porque o pai de Amir estava disposto a perdoar. Mas, Hassan e seu pai preferiram abandonar a casa.

Depois de um tempo veio a guerra, Amir e seu pai acabam se refugiando nos Estados Unidos da América. Amir casou-se com Soraya, que depois de tantas tentativas não conseguiu engravidar. Ele passou a viver da escrita, pois tinha, até aquela época, tendo lançado 4 romances.

Amir recebeu um telefonema de um antigo amigo do seu já falecido pai, que se encontrava em Paquistão. Este contou-lhe que o Hassan e sua esposa tinham sido mortos pelos talibãs e que  tinham deixado uma criança, de nome Sohrab.

Amir teve que enfrentar a guerra dos talibãs para resgatar Sohrab e levá-lo consigo para os EUA.

Ele e Soraya adoptaram o menino, e esse acto todo serviu para que Amir se perdoasse e tirasse o peso que tinha nas costas de tudo o que acontecera em Cabul entre Hassan e ele.

Em linhas gerais, a obra é sensacional. Ela vem descortinar aspectos de descriminação étnica e de género.

À semelhança do que o autor nos apresenta na obra A cidade do Sol em relação ao tratamento que é dado a mulher em Cabul, nesta obra ele traz a figura de Soraya, que passou anos sendo apontada o dedo por um erro que cometeu no passado e, em contrapartida os homens podiam meter-se com mulheres sem que ninguém dissesse nada.

O pai de Amir envolveu-se com a esposa do seu empregado e dessa relação nasceu Hassan, filho este que o pai não teve coragem de assumir. Na figura da Mãe de Soraya, também o autor traz-nos a mulher submissa, sem vontade própria que só pode agir de acordo com as vontades de seu marido.

Mas, o mais impactante foi a descriminação feita aos Hazaras. É lamentável o facto de alguém ser condenado à morte só por ser de uma determinada etnia.

Contudo, é uma história cativante e com elementos que nos fazem saber um pouco mais sobre os hábitos do povo afegão.

Num país em guerra podem haver muitas crianças mas, poucas delas têm infância.

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Apologia de um remorso, em “Oppenheimer”, de Christopher Nolan

 

“Agora me tornei a Morte, a destruidora de Mundos”

Bagavadeguitá

“Cometi um grande erro na minha vida quando assinei uma carta ao presidente Roosevelt, recomendando que as bombas atómicas fossem feitas.” Albert Einstein

“Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu ao Homem. Por isto, foi acorrentado a uma pedra e torturado para a eternidade.”É com este excerto, de um dos mais conhecidos mitos gregos que começa o maior evento cinematográfico de 2023: “Oppenheimer”, realizado pelo cineasta anglo-americano Christopher Nolan, adaptado do livro American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, de Kai Bird e Martin J. Sherwin.

Trata-se de um filme que, embora necessário para o debate em torno do cenário global actual perante a indústria bélica, empreendida no fabrico de armas nucleares é, fundamentalmente, como o título sugere, uma submersão na psique do seu protagonista Julius Robert Oppenheimer, então físico teórico americano, vivamente interpretado pelo actor irlandês Cillian Murphy. Através dele, seguimos a trajectória de Oppenheimer, partindo de um jovem conturbado e estudante de química em Cambridge a um empenhado físico doutorado em Gottingen, determinado a realizar as suas ambições científicas. Numa narrativa paralela entre passado e presente, somos submetidos a experimentar, na primeira pessoa, a degradação psicológica de um homem convencido de saber o que fazia enquanto dirigia o seu remoto laboratório em Los Alamos, EUA.

A bomba atómica torna-se num coadjuvante ao longo do filme e, em algum momento, para-se de prestar atenção na bomba em si, e foca-se no próprio Oppenheimer. Uma observação curiosa, nos primórdios da civilização humana até a idade média, antes da descoberta da pólvora pelos chineses, que viria a revolucionar o fabrico de fogos de artifício; ou de Alfred Nobel inventar o dinamite, as guerras eram então universalmente combatidas corpo-a-corpo, com recurso ao que formalmente chamam de armas brancas: espadas, flechas, lanças, machados, etc. E, em meio as atrocidades sangrentas cometidas pelo Homem ao próprio Homem, ainda não havia surgido a ciência humana que estudaria os efeitos mentais da guerra. Ou seja, e digo isto de forma quase cómica, os vikings, por exemplo, assim como os romanos, ou uma outra civilização que se achava no direito de se sobrepor a outra, invadiam territórios, matavam homens, estupravam mulheres e tomavam estas e suas crianças como suas escravas ou as matavam. Mas, não se pode provar que o Homem destes tempos, após cometer tais atrocidades, voltava psicologicamente transtornado. Pelo contrário: celebrava! Fazia-se um banquete e tocavam-se instrumentos, vangloriando a proeza dos homens que voltaram sujos de sangue e victoriosos.

Oppenheimer provavelmente nunca esteve em território japonês quando em vida. Mas, após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi tomado por um remorso que, depois de um discurso vazio sobre o sucesso das explosões, ao ser convidado a casa branca para celebrar com o então presidente Franklin Roosevelt, interpretado por Gary Oldman de forma sublime, não hesitou em proferir as palavras que confirmaram o início da sua degradação mental: “Sr. Presidente, sinto que tenho sangue nas minhas mãos…” ao que o presidente respondeu, friamente: “Tu achas que Hiroshima ou Nagasaki se importam de saber quem fez a bomba? Eu é que deixei cair a bomba, não tu!” Prometeu, na mitologia grega, deu o fogo ao Homem, impulsionando o seu desenvolvimento mas, será que ele, acorrentado a uma pedra com a águia de Zeus a lhe comer o fígado eternamente, estará arrependido? Será que está alegre com o que a humanidade fez com o fogo?

Em uma de suas conversas, Albert Einstein levanta a seguinte pergunta: “O homem inventou a bomba atómica. Mas, me diz que rato no mundo construiria a própria ratoeira?” Bem, com o fogo o Homem também acendeu o cigarro e J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, após dar à humanidade o maior empreendimento do fogo que o mundo já viu, foi morto por uma porção deste fogo na ponta de um cigarro, com um cancro na garganta.

A actuação do elenco de elite deste projecto ambicioso de Nolan prende a quem assiste durante 180 minutos que passam em contáveis piscares de olhos. Para além do personagem homónimo e director do laboratório de Los Alamos, notam-se papéis marcantes da esposa comunista e obcecada Katherine Oppenheimer, interpretada por Emily Blunt, a femme fatale Jean Tatlock, psiquiatra e também comunista interpretada por Florence Pugh, o general e engenheiro do exército Leslie Groves, interpretado por Matt Damon, que dirigiu o Manhattan Project e Lewis Strauss, membro de topo da Comissão de Energia Atómica dos EUA. A direcção cinematográfica do colaborador frequente de Nolan, o holandês-sueco Hoyte van Hoytema, é de despertar um encanto visual e ambicioso, sem mencionar a excitante trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que nos possui a medida que compreendemos a aplicabilidade da física e o seu lado obscuro. Oppenheimer não é apenas um filme: é um evento histórico no cinema dos últimos dez anos, desde a virada para o século XXI e revelante para o debate sobre o cenário político e científico global.

Denilson Monjane

SOBRE O AUTOR

Denilson Monjane, natural de Maputo, é licenciado em Tradução de Inglês-Português pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. É tradutor e intérprete, fascinado pelas artes e escrita sobre as mesmas.

Outras maravilhas humanas, Resenhas

Recensão Crítica à Exposição A Pente Fino, de Filipe Branquinho

Fonte da imagem: Diário económico

Filipe M. de Carvalho Branquinho é formado em Arquitectura pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo (Moçambique), e pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná (Brasil). Actualmente, trabalha como fotógrafo em Maputo. Após estudar Arquitectura, desenvolveu dupla função: fotógrafo e artista visual.

Recentemente, Branquinho disponibilizou retratos e esculturas da sua última obra no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 20 de Agosto. Este trabalho surge em oposição ao anterior In Gold We Trust (trocadilho de “In God We Trust”, lema nacional dos Estados Unidos, adoptado em 1956), publicado por Branquinho, em 2019, com a intenção de revelar e denunciar que o dólar propaga costumes de uma sociedade “alheia” aos valores afectivos. Na exposição A Pente Fino[1], Branquinho traz elementos de representação e valorização da cultura moçambicana, bem como elementos que recordam um passado remoto (algumas imagens remetem para situações ocorridas no tempo colonial) em que os senhores colonos, todos engravatados, surgem acompanhados de prostitutas negras, com as suas carapinhas e penteados afros. Ainda neste âmbito, o autor traz uma imagem da bandeira de Moçambique esvoaçando estendida, para simbolizar o progresso, além de trazer a imagem de um homem, exibindo as mãos com correntes quebradas, sugerindo liberdade do homem negro para retornar aos seus valores e à sua identidade. Entre vários outros elementos de valorização cultural, Branquinho traz imagens de homens e mulheres fazendo danças típicas de África e também imagens de muitos penteados afros, feitos por mulheres negras. Os penteados agradam à vista, valorizam e exaltam a mulher negra; entretanto, não são penteados que as mulheres negras (moçambicanas) fazem para as realidades do seu quotidiano, não são penteados que as mulheres negras fazem para se apresentarem nos seus locais de trabalho ou outros lugares que estas frequentam, à excepção de “XIKWENETA” (designação do Ronga), que é o único penteado que Branquinho traz e que faz parte do dia-a-dia das mulheres negras. Os outros penteados são feitos de vez em quando, para festas de gala, desfiles de moda e perfis de fotógrafos e modelos, e já não representam o que o dólar não pode comprar, mas, pelo contrário, “o que se compra com o dólar”. Para ilustrar “o que o dólar não pode comprar”, Branquinho podia ter trazido para a exposição penteados do tipo “peter tosh”, “mirabas” simples viradas para atrás, as “xindlandlalatanas” e ainda as “dreads”, pois estes são penteados que realmente fazem parte do dia-a-dia das mulheres, assim como dos homens negros, sobretudo as “dreads” para estes últimos.

Por: Yuny Ndava

SOBRE A AUTORA

Yuny Wilson Ndava, 21 anos, é estudante do curso de Licenciatura em Ensino de Português, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Participou no 33.º curso de Literatura de Língua Portuguesa, subordinado ao tema “Ler Camões, Hoje”, oferecido pelo Centro Cultural Português-Camões. Interessa-se por Literatura, Linguística e Didáctica do Português. Fora da academia, actua como modelo fotográfica e é entusiasta musical.


[1] Disponível em https://www.ccfmoz.com/events/exposicao-a-pente-fino-de-filipe branquinho/.com. Acesso: 1/10/2024.

Livros, Opiniões, Resenhas

Três Maneiras de Exclusão nos Três “Diamantes Pretos no Meio de Cristais”

Por Domingos Inácio Mucambe

Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).

A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.

O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.

Juno em Kansas (1856)

No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.

Anna na Cidade do Cabo (1961)

Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.

Elvira em Maputo (2001)

Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.

Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.

A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?

Opiniões, Resenhas

Literatura| Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa| Opinião

Autor: Ungulani Ba ka Khosa

Editora: Alcance

Idioma: Português

Sinopse

Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, mambo (rei) de uma região à norte do rio Zambeze acaba de morrer. Durante o “choriro”, todos pretendem saber se o desejo de Nhabezi se irá concretizar: transformar-se em espírito de mpodoro, como acontece com todos os chefes da região.

Opinião:

O romance histórico, por natureza, faz uma reflexão acerca de uma realidade histórica entremeada com elementos ficcionais. As personagens ficcionais se misturam a personagens históricos “ficcionalizados” na estrutura da narrativa. Muitas vezes, tambem, o romance histórico questiona e problematiza a própria história.

Choriro é um exemplo deste tipo de obra. Ao retratar o passado, numa versão imaginada pelo autor, o livro não só contribui para a reconstrução da memória cultural, como também interpreta para o leitor, a experiência humana dessa época. A palavra Choriro significa dor, ou também, o período de três dias de luto, durante os quais o morto é preparado para a cerimónia de enterro.

Segundo Marcelo Panguana, que escreveu uma crítica sobre Choriro, no livro “conversas de fim do mundo”, antes da publicação de Choriro, alguns pormenores do livro, no entender do autor, ainda não o convenciam. “Considerava o título da obra estático, sem a agressividade e a capacidade de sedução pretendidos. O substantivo choriro remetia a um cenário calmo e apático que poderia desmobilizar a curiosidade de eventuais leitores”. Um bom título tem sempre a capacidade não só de atrair o leitor, mas também a de ajudá-lo a descobrir o livro, o que este título, acabou por fazer com mestria.

Com um rico nível de detalhe e extremo rigor na pesquisa, o autor ambientou este romance no Vale do Zambeze, mais precisamente em Tete e na Zambézia, no século XIX. A história centra-se em Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, ou como o mambo (rei) da região. Nhabezi é um invasor português que acaba por adaptar-se e apropriar-se dos costumes e tradições locais, tornando-se curandeiro, tendo várias mulheres e muitos filhos. Nhabezi, ou Gregódio, introduziu também novas práticas na região.

O livro faz incursões sobre figuras históricas, como David Livingston, explorador inglês, Kaniemba ou Matequenha, nomes de guerra de dois senhores de prazo, da época, e até Ignácio de Jesus Xavier, mais conhecido por Kalizamimba, figura cuja história foi abordada recentemente por Isabel Ferrão, no seu romance Kalizamibma.

Sendo um livro com diversas histórias secundárias muito interessantes, algumas ficaram por aprofundar. Queríamos ter conhecido com mais  detalhes a história de Nfuca, de João Alfai, da Dona Josefina e também dos luanes de Quelimane, os prazos da época, com uma estrutura diferente da dos descritos em Tete.

O autor constrói vários personagens no livro, uns mais cinzentos que outros, mas todos certamente com características únicas. Pela quantidade de dados a assimilar, e por reflectir o contexto de um importante período histórico, que certamente traz elementos que moldam o actual contexto, é um livro que deve ser lido sem pressa e com bastante atenção.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas.

Outras maravilhas humanas, Resenhas

A Bright Flashlight Ahead: the New Narratives Programme (EN/PT)

By Virgília Ferrão, 30 August 2022

The ties between Africa and the United Kingdom are well known. Today, the two maintain cooperation strategies that redefine different narratives in various spheres: art, culture, and education. Indeed, the relevance of international relations and the role each individual plays in these relations are unquestionable.

What may be questionable, however, is how the complex singularities and contexts of each people are interpreted in the course of intercultural dialogues. As the popular saying goes, truth is in the eye of the beholder. In this case, what is truth? Are the African stories known in the UK those with which Africans related to? Are the narratives representative of the UK known in African countries?

These questions are thought-provokingly reflected in the British Council’s research, conducted through M&C Saatchi World Services for a five-year programme called New Narratives. The initiative aims to help update African and UK narratives, stimulating dialogue and promoting more beneficial collaborations between young people across both places.

In this opinion piece, I intend to assess to what extent the research from the British Council is effective for a “new narratives” programme. Particular focus goes to what has been designated as “Narrative Touchpoints”, which refer to the interaction of sources and the conditions that shape common narratives. Four have been identified:these are direct, bridging, mediated, and iconic touchpoints.

Direct touchpoints refer to experiences where young people come in contact with people from the other place. Bridging touchpoints, on the other hand,are platforms that involve people from both places. Examples include the English Football Premier League, with many leading players from African countries.Mediated narrative touchpoints, for its part, include actors, TV, advertising, and news media representations of one or the other. Some portrayals are positive in how they communicate another place, but other representations present a more trivial image.

Iconic narrative touchpoints are interesting in that they refer to individuals, places, and buildings that are identified with either the UK or countries of Africa. Examples include the British royal family and William Shakespeare (UK), as well as images of Nelson Mandela or Kilimanjaro (Africa).

British Council’s research indicates that the dominant narrative, from the perspective of young Africans, is that the UK embodies a diverse range of positive values, being seen as a world leader, academically or economically. At the same time, there is concern about racism and elitism.  From the perspective of young people from the UK, however, the African continent, as a whole, is imagined according to two extremes: idealized for the romantic view on landscape and wildlife, or demonized for corruption and poverty. Nuance is heavier on the African side of the imaginative pool, and more lacking from the British end of the view. Surely, more nuance would be expected in engaging a continent of well over fifty countries spread across three time zones and eight distinct geographical regions, indicating a problem.

The research highlights not only the above-mentioned narrative touchpoints but also narratives that young people from African countries and the UK would like the other to have access to, as well as what aspects of the narratives should be amplified and/or avoided. Interestingly, on the one hand, it is concluded that latent colonial and neo-colonial tropes, cultural appropriation, and the expression of fragility are to be avoided. On the other, influential voices and African diversity are aspects to be magnified. If this were to happen, in my view, there would be a positive impact on the dialogues between people and the development of nations, especially in African countries.

Still on the subject of diversity, inclusion and pluralism, I am of the opinion that new African voices need to be amplified and heard, particularly those we might consider the ‘minority’, for example Lusophones. Despite the language barrier, Lusophone African countries play a major role… role in art, culture, and education, shaping these relations. These countries are often left behind on some interactions that enhance the ties of African countries and UK. As such, translation initiatives from both, so that English audiences from UK and Africa can have access to Lusophone African creations and vice-versa is crucial. On that regard, Mozambique is one of the countries that has been providing great contributions. One example is the work by publisher Trinta Zero Nove, recognized through the Award for Literary Translation Initiative at the London Book Fair of 2021 and the PEN Translates Award (awarded to Sandra Tamele and Jethro Soutar), in 2022, for the translation to English of the book “Tchanaze, a donzela de Sena”, by Carlos Paradona. Initiatives for inclusion may also include foster opportunities for cultural and learning exchange.

Another aspect that can be attained from the methodology employed by the M&C Saatchi-produced research regards fundamental tools for real change in the current narratives. First, interaction and listening to individual voices, especially those of young people. While the role of government and institutions to steer the flywheel is essential in order to achieve desired outcomes, attention must be paid to people, as individuals, and their choices. Likewise, recognizing the multiple and complex realities of each country seems crucial. Understanding, for example, the good, bad, and, above all, the real features about each place – without falling into kneejerk pessimistic or unsupported optimistic theories – is fundamental to the effective implementation of a New Narratives programme. 

By highlighting the touchpoints that shape common narratives, the research makes the importance of dismantling stereotypes obvious. No birds of a feather. Stereotypical habits allow us to strike blows that jeopardize individual, as well as intrinsic inter-institutional relationships. Better opportunities can be achieved if people better understand the myriad cultural characteristics of theirs and other places. Young Africans and young people from the UK may feel that environments or places are against them, when in reality, it is just a matter of clashing views. By stressing this particularity, this long overdue programme shades a new light and view on how this relationship can be successfully built.

Speaking of opportunities, it cannot be ignored that an understanding of the narratives that construct African countries and the UK will lead to greater social inclusion. Such a concept relies on the pro-activity of states in addressing inequalities, however, it is also a complex concept because it encompasses many different realities. The research is a first, foundational step to facilitating understanding of the said differences.

As an author from a Lusophony African country, I am happy to see this research and programme, with the potential to foster dialogue and cooperation between my diverse continent and the UK. In this context, the big lessons to be retained are: rather than the complex realities about individual peoples and places being feared, they should serve for better engagement between peoples; It is time to say goodbye to stereotypes and prejudices. Strictly speaking, it is time for us to rediscover the truth through the eyes of those who are in countries of Africa and the UK.

To access the full report of the research click HERE or visit the link https://www.britishcouncil.org/society/new-narratives/insights/research

Uma brilhante lanterna à vista: o programa Novas Narrativas

Por Virgília Ferrão, 30 de Agosto de 2022

Os laços entre África e Reino Unido são sobejamente conhecidos. Actualmente, o continente e o país mantêm estratégias de cooperação que redefinem diferentes narrativas em várias esferas: arte, cultura e educação. De facto, a relevância das relações internacionais e o papel que cada indivíduo desempenha nessas mesmas relações é inquestionável.

O que pode ser questionável, contudo, é como as complexas singularidades e os contextos de cada povo são interpretados no decurso de diálogos interculturais. Como diz o ditado popular, a verdade está nos olhos de quem a vê. Neste caso, o que é a verdade? As histórias africanas conhecidas no Reino Unido são aquelas com as quais os africanos se identificam? Será que as narrativas representativas do Reino Unido são conhecidas nos países africanos?

Estas questões são reflectidas, de forma instigante, na pesquisa da British Council, por intermédio da M&S Saatchi World Services, para um programa de cinco anos, designado “Novas Narrativas”. A iniciativa visa contribuir para actualizar as narrativas africanas e do Reino Unido, estimulando o diálogo e promovendo colaborações mais benéficas entre os jovens dos dois lugares.

Nesta resenha, pretendo avaliar até que ponto a pesquisa da British Council é eficaz para o programa “Novas Narrativas”. O enfoque particular vai ao que foi designado “os pontos de contacto da narrativa”, que se referem à interacção das fontes e às condições que moldam as narrativas comuns. Foram identificados quatro pontos de contacto da narrativa: 1) directo, 2) ponte, 3) mediático e 4) icónico.

Os pontos de contacto directo referem-se a experiências em que os jovens entram em contacto com pessoas de outros lugares. Já as pontes, por outro lado, são plataformas que envolvem pessoas de ambos os lugares. Exemplos de pontes incluem a Liga de Futebol Inglesa, com muitos jogadores dos países africanos. Os pontos de contacto mediáticos, por sua vez, incluem actores, televisão ou publicidade e representações na midia de um ou outro. Algumas representações são positivas na forma como comunicam o outro o lugar, mas outras apresentam uma imagem mais trivial.

Os pontos de contacto icónicos são interessantes dado que referem-se a indivíduos, lugares ou edifícios que são identificados, quer com o Reino Unido, quer com a África. Exemplos incluem a família real britânica e William Shakespeare (Reino Unido), assim como Nelson Mandela ou o Kilimanjaro (África).

A pesquisa da British Council indica que a narrativa dominante, pela perspectiva dos jovens africanos, é que o Reino Unido encarna uma gama diversificada de valores positivos, sendo visto como líder mundial, em termos académicos ou económicos. Ao mesmo tempo, existe uma preocupação com o racismo e o elitismo.  Na perspectiva dos jovens do Reino Unido, entretanto, o continente africano, como todo, é imaginado de acordo com dois extremos: idealizado pelas visões românticas da natureza e da vida selvagem, ou demonizado pela corrupção e pobreza. As nuances é são mais pesadas do lado africano no campo da imaginação, e mais ausentes do ponto de vista do lado britânico. Certamente, esperava-se muito mais detalhes no envolvimento de um continente com mais de cinquenta países espalhados por três fusos horários e oito regiões geográficas distintas, o que indica um problema.

A pesquisa vai além ao destacar não só os pontos de contacto narrativos mas também as narrativas que os jovens de países africanos e do Reino Unido gostariam que o outro tivesse acesso, bem como que aspectos das narrativas deveriam ser amplificados e/ou evitados. Curiosamente, por um lado, conclui-se que as tropas coloniais latentes e neo-coloniais, a apropriação cultural e a expressão da fragilidade são para ser evitados. Por outro, as vozes influentes e a diversidade africana são aspectos por ampliar. Se isso acontecesse, haveria um impacto positivo nos diálogos entre os povos e no desenvolvimento das nações, especialmente nos países africanos.

Ainda sobre o tema da diversidade, inclusão e pluralismo, sou de opinião que as novas vozes africanas precisam de ser amplificadas e ouvidas, particularmente aquelas que poderíamos considerar a “minoria”, por exemplo, dos países lusófonos. Apesar da barreira linguística, os países da África lusófona desempenham um papel importante, na arte, cultura e educação, moldando estas relações. Estes países são frequentemente deixados para trás em algumas interacções que reforçam os laços dos países africanos e do Reino Unido. Como tal, as iniciativas de tradução de ambos, para que o público inglês do Reino Unido e de África possa ter acesso às criações africanas lusófonas e vice-versa, é crucial. A este respeito, Moçambique é um dos países que tem dado grandes contribuições. Um exemplo, é o trabalho da editora Trinta Zero Nove, reconhecida através do Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária na Feira do Livro de Londres em 2021, e do Prémio PEN Translates Award (atribuído à Sandra Tamele e a Jethro Soutar), em 2022, pela tradução para o inglês da obra “Tchanaze, a donzela de Sena”, de Carlos Paradona. As iniciativas de inclusão poderiam também incluir a promoção de oportunidades de intercâmbio cultural e de aprendizagem.

Outro aspecto que pode ser percebido a partir da metodologia empregada pela pesquisa da British Council é referente a ferramentas fundamentais para uma mudança real nas narrativas actuais. Primeiro, a interacção e a escuta de vozes individuais, especialmente dos jovens. Embora seja essencial o papel do Governo e das instituições para orientar o volante, de modo a atingir-se os resultados desejados, deve ser dada atenção às pessoas, como indivíduos, e às suas escolhas. Da mesma forma, o reconhecimento das realidades múltiplas e complexas sobre cada país parece crucial. Compreender, por exemplo, as características boas, más e, sobretudo, as reais sobre cada lugar – sem cair em precipitadas teorias pessimistas ou optimistas sem suporte – é fundamental para a implementação eficaz do programa “Novas Narrativas”.  

Ao destacar os pontos que moldam as narrativas comuns, a pesquisa torna óbvia a importância do desmantelamento de estereótipos óbvios. Não se é farinha do mesmo saco. Os hábitos estereotipados permitem-nos golpes que põem em risco as rotinas diárias individuais e as relações mais intrínsecas interinstitucionais. Melhores oportunidades podem ser alcançadas se as pessoas compreenderem melhor as características culturais dos locais onde se inserem. Os jovens africanos e os jovens do Reino Unido podem sentir que os ambientes ou os lugares estão contra eles, quando, na realidade, é apenas uma questão de mistura de génios e de visões do mundo. O destacamento desta particularidade é um excelente diferencial para o sucesso do programa.

Por falar em oportunidades, não se pode ignorar que uma compreensão das narrativas que constroem os países africanos e o Reino Unido conduzirá a uma inclusão social. Este conceito assenta na pró-actividade dos Estados na abordagem das desigualdades, no entanto, é também um conceito complexo porque engloba muitas realidades diferentes. A investigação facilita a compreensão das diferenças.

Como jovem autora de um país africano lusófono, estou feliz por ver esta pesquisa e este programa com potencial para fomentar o diálogo e a cooperação entre o meu continente e o Reino Unido. Neste contexto, as grandes lições a serem retidas são: ao invés de as realidades complexas sobre cada um dos povos e lugares serem temidas, devem servir para um melhor engajamento entre os povos; as vozes que podem moldar as novas narrativas devem ser ampliadas e as suas ideias podem contribuir para diferentes políticas em ambos lugares. É tempo de dizer adeus aos estereótipos e aos preconceitos. Em bom rigor, é tempo de redescobrirmos a verdade pelos olhos de quem está nos países de África e do Reino Unido.

Para conhecer o relatório da pesquisa na íntegra, clique AQUI ou visite o link https://www.britishcouncil.org/society/new-narratives/insights/research

Lançamentos!, Livros, Resenhas

Lançamentos: 12 sugestões para este Natal (em prosa e poesia)

Com o natal ao virar da esquina, vale a pena recordar que o livro é sempre um dos melhores presentes. Os livros estimulam a nossa imaginação e às vezes transformam as nossas vidas. Ao oferecermos um livro, acabamos também, por de certa forma, subscrever uma escolha para o leitor, uma escolha que de outra forma pode ser difícil, perante tantos livros e propostas disponíveis no mercado.

E por falar em tantos livros, em Moçambique os últimos meses foram repletos de novidades e lançamentos!

Preparámos a lista abaixo, contendo alguns livros novos, como sugestão para este Natal. Confira:

Prosa

  1. As Raízes do Rei, de Susana Machamale

Foi lançado no dia 9 de Dezembro de 2021, em Maputo, “As Raízes do Rei”, livro de estreia de Suzana Machamale. Este é o primeiro volume de uma tetralogia chamada “Príncipes Sangrentos”.

Durante o lançamento, a autora relatou o processo de publicação do livro, tendo dito que no início não acreditava ser possível a publicação em Moçambique deste seu primeiro trabalho, inclusive pela temática que aborda. Com mais de 290 páginas, o livro sai pela chancela da Kulera Editores.

Eis uma breve passagem da sinopse: “Dois reinos, quatro cabeças, mas apenas duas coroas. O carismático Ânjor e a ambiciosa Hanjy Karavejo são filhos da rainha de Taravin. mas, por serem gémeos, só pelo voto do povo pode-se definir qual dos dois será o primeiro na linha de sucessão ao trono. A angelical Yasy e a perversa Yagui Dantaze são filhas do reu Nunny.

Segundo o apresentador da obra, o professor Daúde Amade, “o livro retrata uma história de membros da mesma família que disputam a sucessão ao trono, chegando, até, a odiar-se. Entre os irmãos que disputam o trono e os reinos que se opõem pelo poder, forjam-se falsos sorrisos, traições, mortes e muito sangue mancha a história de uma família que, caso fosse possível, daria tudo pela permanência de um passado sossegado e sem conflitos”.

2. Gole de Lâminas, de Alberto Dalela

Fonte de imagem: Vymaps

Foi lançado no dia 24 de Novembro de 2021, “Gole de Lâminas”, livro de estreia de Albert Dalela, chancelado pela Ethale Publishers. Segundo a nota do blog Mbenga, esta é uma proposta que consiste em apresentar o sub-mundo da cidade de Maputo, ou seja, reflectir em torno da complexidade de conceitos e ideias da questão de ser e estar nas zonas suburbanas e na cidade.

3. O Abismo aos Pés, de Elton Pila e Eduardo Quive (organizadores)

Fonte de imagem: Amazon

Este livro, chancelado pela Editora Literatas, foi publicado em finais de 2020, tendo sido em Novembro de 2021 apresentado no Instituto de Camões, em Maputo, numa conversa com os organizadores, Elton Pila e Eduardo Quive. Contendo 232 páginas em entrevistas efectuadas a 25 escritores lusófonos, “O Abismo aos Pés” reflecte sobre a iminência do fim do mundo e oferece uma das leituras mais instigantes e inquietantes de todos os tempos.

4. No Verso da Cicatriz, de Bento Baloi

Fonte de imagem: Almedina

Um dos livros mais interessantes publicados este ano é sem dúvida “No Verso da Cicatriz”, romance que narra a história de Bernardo (e sua Helena). A trama é ambientada nos primeiros anos após a independência de Moçambique, iniciando com o protagonista Bernardo sendo afastado da amada, pelo Governo, que o leva de Maguaza (sua zona de origem) a Carico, sob a falsa acusação de ser uma Testemunha de Jeová.

Conforme se lê numa matéria da RFI, para além do conflito armado, Bento Baloi também aborda a operação durante a qual, nos anos 80, milhares de pessoas se viram forçadas a ir trabalhar em meio rural, longe das suas zonas de origem.”

O livro foi lançado em Agosto de 2021, simultaneamente em Moçambique e em Portugal, pela Editora Índico e pela Alêtheia Editores, respectivamente.

5. Histórias do outro mundo, de Carlos dos Santos

Fonte da imagem: Alcance

Nós do Diário de Uma Qawwi, amantes da ficção especulativa, não poderíamos, obviamente, deixar de mencionar o novo livro de Carlos dos Santos. Editado pela Alcance Editores e com cerca de 112 páginas, o livro reúne oito contos nos géneros ficção científica e fantástico, acompanhados de belíssimas ilustrações. Imperdível!

6. Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão

Por último, no género da prosa, fazemos menção, com muita alegria, à “Sina de Aruanda”, romance lançado no dia 8 de Dezembro de 2021, terceiro obra da administradora do Diário de Uma Qawwi. Num dos momentos mais marcantes da cerimónia, o apresentador do livro, o professor Albino Macuácua, mencionou que Sina de Aruanda “é um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico, ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, do “verdadeiro” amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.”

O livro sai pela chancela da Fundação Fernando Leite Couto em Maputo, e será publicado em 2022 pela Editora Malé, do Brasil.

Poesia

7. O Lugar das Ilhas

“O Lugar das Ilhas” é o novo livro da poeta Sónia Sultuane.

Sobre a obra, o apresentador do livro, o professor de literatura Nataniel Ngomane, explicou que as ilhas retratadas no novo livro de Sónia Sultuane não são necessariamente geográficas (Ilha de Moçambique, Cuba e as ilhas da Grécia), são ilhas que existem na forma de pensar humana”. In OPais

8. O Escutador de Silêncios, de Ricardo Santos

Também foi lançado recentemente um livro de poesia, de Ricardo Santos.

Os textos em “O Escutador de Silêncios” foram escritos na sua quase totalidade entre 2016 e 2019. Sobre esta obra, diz-nos o escritor Leo Cote, que “o prosaismo que esta poesia reflecte e sugere, resulta da vontade de contar histórias, muito ao jeito da tradição oral, e de construir um discurso que seja a ficção do hodierno e do simples, atingindo o natural e o espontâneo. Não é por acaso que o poema “Ânfora” faz alusão a isso.” In Mbenga.

9. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos, de Énia Lipanga

Este livro foi lançado no dia 12 de Novembro de 2021 e é a segunda obra de poemas de Énia Lipanga.

Segundo a Editora que chancela a obra, a Gala Gala Edições, “as vozes deste livro são femininas, ora inteiras, ora nada, ora em pedaços, para cantar os seus gozos e alegrias, e também as suas feridas e cicatrizes. “Talvez, por isso, chovam gotas íntimas em seus versos que escorrem fios e fiapos de prazer e, quiçá, de amor, travestidos de incertezas, poeiras, nuvens, sombras e desejos que incitam dores, emoções, saudades, menos regressos e mais recomeços”, escreve a professora Ana Rita Santiago.” In Gala Gala Edições

10. Calvário e a Cruz, de Jeconias Mocumbe

Recentemente lançado, em edição do autor, o livro de Jeconias Mocumbe (pseudónimo de Edilson Sostino Mocumbe) é uma antologia de poemas. Segundo Elísio Miambo, o apresentador do livro, a obra “apresenta-se como um exercício de exploração dos limites da metáfora, havendo, nesse processo, momentos em que ela própria (a metáfora) são lhe apresentados os seus vícios enquanto forma de codificação discursiva. De facto: se por um lado existem livros que tomam o leitor como imbecil a ponto de fornecerem informação desnecessária e que se resvala pela prolixidez, por outro, livros há que ou sobrevalorizam o leitor ou o seu autor não liga a mínima para uma possibilidade de haver alguma interatividade entre o leitor e a obra, correndo assim o risco de se tornarem incompreensíveis.”

Prosa em Infanto Juvenil

11. A Estranha Metamorfose de Thandi

Lançado no dia 24 de Novembro de 2021, o novo livro de Mauro Brito apresenta o conto “A estranha metamorfose de Thandi”, e é ilustrado pelo artista plástico Samuel Djive.

José dos Remédios, no OPais, descreve-o como “uma história de amor entre mãe e filha, Mbali e Thandi, personagens agrestes que constantemente enunciam lições universais, atinentes às circunstâncias domésticas e até mesmo comunitárias.”

A estranha metamorfose de Thandi levar-nos-á pelos meandros do interdito, do destino e da libertação, numa linguagem onde a narrativa e a poesia, o real e o imaginário, o presente e o passado se cruzam num espaço sem fronteiras distintas.

12. As Aventuras de Manuelito, de João Baptista Caetano Gomes

Esta foi uma das obras vencedoras do concurso Literário “Nó de Gaveta”, promovido pela Associação cultural Nkariganarte, em parceria com a Kuvaninga cartão d’arte. João Baptista venceu pela zona centro de Moçambique, ao lado de Cleyde Pamela (com o texto “O Sonho de Chinguana”) e Laliana Mahumane (com o texto “O outro lado das flores”), das zonas Norte e Sul, respectivamente. O autor participou da antologia Memórias do Idai, uma colecção de crónicas literárias que resultou de um concurso promovido pela Editora Fundza. Participa em antologias nacionais e internacionais. Em 2021, seu texto “Os vendedores de sol e lua” foi um dos 12 selecionados para a Oficina de Ficção Narrativa organizado pela Fundação Fernando Leite Couto. Tem escrito prefácios de livros e tem apresentado obras literárias de alguns escritores emergentes da Literatura Moçambicana.

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