Por Domingos Inácio Mucambe

A grandeza dos anseios do ser humano levou, ao longo da história, a sua criação de forma mais poderosa, de forma a adquirir força para tudo, saber o indecifrável sobre os enigmas da vida, estar em qualquer lado e, acima de tudo, a benevolência que é raridade entre a humanidade. Languana, de forma magistral, estampa nas nossas caras a obsessão com o ‘além nós’ na obra “Esmola”, aguarela sobre papel com as dimensões 55 x 68 cm, ano 2024. Esta obra faz parte da exposição “Jardins de sonhos”, inaugurada no dia 03 de Julho de 2024, na Fundação Fernando Leite Couto, e que esteve em exibição até 03 de Agosto do corrente ano.
Languana (n. 1972) pintou-nos as vistas com as suas aguarelas mágicas que revelam muito mais do que o formalismo artístico. Uma exposição recheada de cores que reverberam nas almas dos espectadores, e são obrigados a uma jornada entre “Jardins e Sonhos”. Depois de consumidas as obras, despertamos de um profundo sonambulismo e questionamo-nos: onde estávamos?
Pela qualidade das obras, a textura aliada à leveza e translucidez, convém-nos especular que o artista tem Winsor & Newton como marcadores predilectos (o que só pode ser confirmado pelo próprio artista). A paleta de cores inclui skin tones, que personificam certas figuras. Temos, ainda, a ocean blue; o azul é a marca- parece- do artista. Contudo, usado nas medidas certas, sem o esbanjar. O berry red transparent e a neutral grey trazem profundidade adicionada.
A neutral grey está entrelaçada nas tonalidades cinzas e algumas aguareladas pretas, que podem significar desde ser negro até profunda melancolia, desespero e avidez de alguma “esmola”. Temos, ainda, um tom amarelo dourado ou golden yellow, que nos oferece possibilidades de degustação e interpretação distintas rasgando, numa primeira vista, o quadro em dois: talvez o material e a transcendência. Vêem-se dois planos separados por uma linha visível e ténue, porém forte o suficiente para deixar a marca de dualidade dimensional, sem que haja um ponto singular onde há interceptação. Isso é visível num quadro em que nem as mãos do pedinte transpõem o véu laranja, nem o pássaro, nem a face humana e nem os três grãos invadem o mesmo véu amarelo.
A mesma cor também parece uma incessante labareda: aquele laranja dourado arde nos nossos corações, provoca chama dentro das nossas almas. A terra, assim, revela-se incandescente. Ou por outra, a vida na terra está em brasa provocando um sofrimento perpétuo como se fosse o próprio lago do fogo.
O ser humano no mundo material está numa posição de consternação. A ausência de pés retratada na imagem simboliza o desmoronamento dum mundo, a falta de chão e o rastejar nesses espaços divididos com figuras que possuem formas estranhas, ou mesmo demónios. Além de cortados os pés, borra-se a face, oculta-se a identidade.
Ou será o caso de não ser um indivíduo e sim um colectivo, uma povo ou toda humanidade.
A figura humana representada na pintura apresenta mãos estendidas para o céu, pedindo esmolas aos seres sobrenaturais. A aguarelada traça um humano em súplicas, pedidos, talvez prantos, que conseguimos ouvir bem no fundo dos nossos corações, mesmo no silêncio das cores de Languana.
Do ponto de vista metafísico, caem as respostas em migalhas de pássaro. Estas caem do bico, e denotam a efemeridade em procurar alento em seres superiores para acabar com o sofrimento do mundo. Isso espelha a incessante luta em pedir a tranquilidade. Mas, na realidade, enganamos a nós mesmos porque a vida segue as suas correntezas que trazem sofrimento e dor, com pouca felicidade e bem-estar. Esse pouco é bem representado por três migalhas ou grãos de bonança.
A pomba geralmente representa paz e tranquilidade- talvez sejam grãos de paz e tranquilidade. O pássaro parece ser uma extensão da face humana, ou pelo menos conecta-se a ela. A face é a divindade na qual o humano vê-se como “medida de todas as coisas” (Nieztsche, 1886), significando que cria ele deuses à sua imagem e semelhança. Que Deus é esse? A pomba oferece identidade ao mesmo Deus da paz e tranquilidade.
“Esmola” presenteia-nos com essa dura realidade, tratando-se de dois mundos: o de sombras e assombrados, e o de paz e harmonia, revelada pela serenidade da face do divino; uma contradição presente. Entre apertos de chamas da vida, roga-se às entidades superiores por felicidade, mas ela sempre chega em migalhas, grãos que não chegam a saciar as dores do mundo.
O ciclo da vida continua assim: um eterno sofrimento possibilitado pela procura de um bem maior fora do próprio humano, uma felicidade transcendental que nos cai em migalhas- pequenas esmolas, na ilusão de um futuro totalmente tranquilo.
SOBRE O AUTOR

Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.
