Livros, Opiniões

Literatura |”Em busca do mar certo” de Cri Essencia|Opinião

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Título: Em Busca do Mar Certo

Autora: Cri Essência

Editora: Alcance

http://www.alcanceeditores.co.mz

Sinopse

 “Após a morte da mãe, ainda que sem dinheiro para continuar com os estudos, decidiu não voltar para Moçambique. Preferiu navegar por marés desconhecidas, em busca do pico mais alto da sua existência. Sabia que voltar para casa era um dado adquirido, mas tencionara adiar tal regresso, para que não tivesse de se confrontar com o irmão, na luta pela herança que a mãe deixara. Longe do luxo a que se habituara, ajoelhando-se para limpar casas de banho de outrem, encontrou amor próprio numa nova dimensão.”

Opinião:

Uma capa esmerada é meio caminho para se conquistar um leitor. Esta premissa funcionou bem na ilustração desta capa, a qual captou de imediato a nossa atenção na prateleira da livraria. O romance (semi-biográfico), traz-nos a história de Paula Chonguene, uma corajosa moçambicana de coração aberto e malas cheias de esperanças, que decide aventurar-se pela Europa, experimentado os caminhos incertos de um imigrante. Desde a feitiçaria como motivo de desavenças familiares, até aos preconceitos e choques entre culturas quentes e frias, a autora confronta com honestidade crua, os dramas e os buracos negros dentro das nossas sociedades.

Há muitos personagens que compõem o mundo de Paula Chonguene, mas alguns  acabam por tornar-se silenciosos ou distantes ao longo da trama. Miguel e James são  exemplos. Todavia, o afastamento de James (par romântico de Paula) parece servir para permitir o desenvolvimento da protagonista.

Durante a narrativa, percebem-se também algumas pausas em que a protagonista mergulha em reflexões e analisa do seu ponto de vista a condição de quem vive na diáspora e os desafios que enfrenta, a condição de uma mulher que busca independência, e por fim, a condição do próprio ser humano. As reflexões fazem uma incursão pela história dos países europeus que a protagonista visitou, o posicionamento destes com relação aos estrangeiros, rumando à debates teológicos e de ideologias sobre o comunismo vs individualismo. Embora estes momentos desviem-se um pouco do foco principal do romance, não comprometem a leitura, pois estão inseridos no contexto e no ambiente íntimos à protagonista.

Faltou uma melhor diagramação na obra, mas tirando isso, adoramos conhecer Paula Chonguene, uma mulher inteligente, difícil, amorosa e batalhadora, que aprecia vinhos, e que tem uma bagagem valiosa por partilhar (sem falar do final surpreendente do romance, licorzinho para aquecer o coração dos leitores mais românticos como nós).

Sobre a autora: Cri Essência nasceu em Maputo e estudou na Escola Secundária Francisco Manyanga. É jurista pela Universidade de Lisboa, mestrada pela University of Groningen e actualmente residente em Londres.

A nossa pontuação: 4 em 5 estrelas.

(A tripulação de Linan)

Histórias

Ice North: O Amor em Extinção no País Mais Jovem do Mundo

Em Ice North, a revolução não traz megafones nem bandeiras.

Chega como o frio: devagar, cortante e, por isso mesmo, imparável.

Não é uma revolução. É uma substituição.

Silêncio no lugar do afecto.

Ausência no lugar do desejo.

Cálculo no lugar da paixão.

Tudo acontece assim:

primeiro vem a independência financeira.

Depois, o corpo.

Por fim, a alma.

As mulheres de Ice North conquistam tudo.

Ocupam posições de liderança. Criam rotinas de luxo. Mantêm corpos esculpidos.

Sustentam a auto-estima entre estética e disciplina.

A beleza não é vaidade.

É competência.

Rostos bem cuidados. Formas firmes.

Um estilo lapidado com precisão cirúrgica.

A estética é tanto um activo como um escudo.

O país prospera.

A taxa de desemprego mantém-se em apenas 2%.

Tudo funciona suavemente.

Eficientemente. Belamente.

E os homens?

Não desaparecem — apenas deixam de ser indispensáveis.

E, quando algo deixa de ser essencial… começa a desaparecer.

Hoje, em Ice North, há um homem para cada vinte mulheres.

E, nem todos estão disponíveis ou interessados.

Alguns tornam-se celebridades acidentais.

Outros, troféus emocionais.

Muitos simplesmente… retiram-se.

Não fisicamente, mas simbolicamente.

Um homem é um luxo emocional.

Ter um companheiro significa estatuto.

Ter uma relação significa vitória.

Lauren, Shelley, Madeleine

Lauren, 42 anos, executiva de tecnologia, lidera uma empresa global.

Ao jantar, serve duas taças de vinho. Uma fica intocada, como um brinde ao que não veio.

“És incrível. Mas não tenho energia para encaixar a tua vida na minha.”

Ele diz.

Ela ouve o golpe como quem ouve gelo a partir — não pelo som, mas pelo silêncio depois.

Shelley, 28 anos, consultora financeira, ajusta o perfume, a voz, os temas — tudo calibrado para criar ponte.

Cada encontro é uma negociação emocional.

Sai com a sensação de ter fechado um contracto. E, como sempre, o este não inclui amor.

Madeleine, 46 anos, ex-advogada, recusa o jogo.

Vive com duas amigas.

Adopta uma criança.

Constrói um lar com afecto, mas sem moeda de troca.

“Não é que não queiramos homens.

Simplesmente deixámos de acreditar que eles nos completem.”

Para a cidade, são rostos que passam na multidão.

Entre si, são um refúgio.

A economia do afecto

A escassez cria um mercado.

Consultoras de imagem emocional.

Estilistas do desejo.

Estrategas da sedução.

“A atracção é ciência.”

Manter um homem por seis meses dá manchete.

Alguns trabalham como acompanhantes de luxo.

Outros desaparecem.

Poucos ainda procuram amor.

A maioria gere a própria raridade com habilidade.

“Agora somos nós que escolhemos”, dizem.

E escolhem.

Ou recusam.

As que permanecem imóveis

Nem todas competem com charme ou estatuto.

Algumas voltam-se para dentro.

Meditam ao amanhecer.

Equilibram emoções não para impressionar, mas para permanecer inteiras.

Leem. Escrevem.

Cultivam presença mais do que aparência.

Num mundo treinado para gritar, tornam-se mestres do silêncio.

Entre os poucos homens que ainda procuram ligação,

a inteligência e a serenidade são magnéticas.

Não é o rosto mais afiado que atrai, mas o olhar mais calmo.

Não é a resposta perfeita, mas a pergunta feita com profundidade.

“Ela não tentou conquistar-me”, diz um homem.

Os 10%

Noventa por cento dos homens declaram estar satisfeitos com a sua vida emocional.

E os outros dez?

Dividem-se entre cansaço, desinteresse, timidez… ou simplesmente abandonam o jogo.

Samuel, 40 anos, gestor de  propaganda de produtos médicos e de beleza.

“Elas querem intensidade.

Eu só quero paz.

E, às vezes, paz significa estar sozinho.”

Um Lugar Chamado Depois

O amor ainda existe em Ice North.

Mas chega tarde, devagar como um comboio que já não tem pressa.

Às vezes aparece num gesto distraído.

Noutras, numa frase que não foi pensada.

Quase nunca onde foi prometido.

Agora, amar exige um tipo de entrega que poucos lembram como se faz.

Não é resistência: é deixar cair o cálculo, a estratégia, a pose.

Talvez o problema nunca tenha sido a ausência de homens.

Talvez tenha sido a ausência daquilo que, antes de sermos marcas e métricas,

nos fazia humanos.

E se o maior acto de todos for amar… sem planear?

Em Ice North, poucos tentam.

Mas os que tentam,

mesmo que por um instante,

fazem o frio recuar.

Por Roberto Júnior

Versão inglesa publica no Medium em:

Ice North: Love in Extinction. “Ice North: the country where love and… | by The Cysne | Jul, 2025 | Medium

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema| Pedro Páramo | Opinião

Por Zaiby Manasse

Fonte imagem: heavenofhorror

Título: Pedro Páramo

Direcção: Rodrigo Prieto

Género: drama; realismo mágico

Ano: 2024

Plataforma: Netflix

Opinião

Tenho tentando explorar mais o mercado cinematográfico fora dos Estados Unidos que de uns tempos para cá nos brinda com a mesmisse como se não existissem mais ideias. Foi nessa senda que me deparei com esta produção mexicana dirigida por Rodrigo Prieto, adaptando de forma directa o livro homônimo escrito por Juan Rulfo e lançado originalmente em 1955 com o mesmo título do filme, Pedro Páramo.

A trama se passa na cidade de Comala, no estado de Colima. A época não é explicitada precisamente, mas há indicações de ser contemporânea à Revolução Mexicana e à Guerra Cristera (informação tirada no Google). A história é narrada em uma mistura de primeira e terceira pessoas, com alternância dos personagens na voz da primeira pessoa o que faz o filme ficar um pouco confuso, mas a medida que avança vai explicando alguns acontecimentos já vistos. O filme vai e volta, dentro do passado vai ao futuro desse passado e também, muitas vezes, volta para o passado desse passado para explicar algum personagem ou um determinado acto do filme do tempo em questão. O carácter de Pedro Páramo, figura central do filme, é deslindado pouco a pouco por meio desses discursos múltiplos, fragmentados, desordenados e muitas vezes contraditórios. É estranho que essa contradição vai prendendo (a mim prendeu, como se estivesse a ser sugado por uma espiral). O filme começa com Juan Preciado, que após a morte da mãe, volta à cidade de Comala para procurar o pai, Pedro Páramo. Logo que chega, fica a saber que este já havia morrido há anos. Em Comala entra em contacto com diversos moradores, todos, de alguma forma, ligados ao falecido pai. Aos poucos, pequenas contradições e absurdos vão-se sucedeendo: ouvem-se fantasmas, borram-se os limites entre o real e o sobrenatural, sono e vigília, passado e presente, até que se entende que todos, inclusive os diversos narradores, que se alternam, estão mortos. Apesar de não estarem conscientes do seu próprio estado, os habitantes do lugar percebem que os demais estão mortos.

Ao ver o filme pensei no livro de Gabriel Garcia Marques, 100 anos de solidão que dás cinco vezes que li, não terminei devido a complexidade do mesmo que é para mim, causada pela densidade do livro. Penso eu, que se tivesse lido o livro Pedro Páramo teria tido a mesma dificuldade. Se um filme tende a diluir as coisas e este estava denso, não quero imaginar o livro. Sempre achei que o livro de Gabriel Garcia Marques daria um óptimo filme ou série. Recomendo o filme para aqueles que não têm preguiça de pensar e que gostam do género Realismo Mágico.

Zaiby Manasse

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões

Apologia de um remorso, em “Oppenheimer”, de Christopher Nolan

 

“Agora me tornei a Morte, a destruidora de Mundos”

Bagavadeguitá

“Cometi um grande erro na minha vida quando assinei uma carta ao presidente Roosevelt, recomendando que as bombas atómicas fossem feitas.” Albert Einstein

“Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu ao Homem. Por isto, foi acorrentado a uma pedra e torturado para a eternidade.”É com este excerto, de um dos mais conhecidos mitos gregos que começa o maior evento cinematográfico de 2023: “Oppenheimer”, realizado pelo cineasta anglo-americano Christopher Nolan, adaptado do livro American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, de Kai Bird e Martin J. Sherwin.

Trata-se de um filme que, embora necessário para o debate em torno do cenário global actual perante a indústria bélica, empreendida no fabrico de armas nucleares é, fundamentalmente, como o título sugere, uma submersão na psique do seu protagonista Julius Robert Oppenheimer, então físico teórico americano, vivamente interpretado pelo actor irlandês Cillian Murphy. Através dele, seguimos a trajectória de Oppenheimer, partindo de um jovem conturbado e estudante de química em Cambridge a um empenhado físico doutorado em Gottingen, determinado a realizar as suas ambições científicas. Numa narrativa paralela entre passado e presente, somos submetidos a experimentar, na primeira pessoa, a degradação psicológica de um homem convencido de saber o que fazia enquanto dirigia o seu remoto laboratório em Los Alamos, EUA.

A bomba atómica torna-se num coadjuvante ao longo do filme e, em algum momento, para-se de prestar atenção na bomba em si, e foca-se no próprio Oppenheimer. Uma observação curiosa, nos primórdios da civilização humana até a idade média, antes da descoberta da pólvora pelos chineses, que viria a revolucionar o fabrico de fogos de artifício; ou de Alfred Nobel inventar o dinamite, as guerras eram então universalmente combatidas corpo-a-corpo, com recurso ao que formalmente chamam de armas brancas: espadas, flechas, lanças, machados, etc. E, em meio as atrocidades sangrentas cometidas pelo Homem ao próprio Homem, ainda não havia surgido a ciência humana que estudaria os efeitos mentais da guerra. Ou seja, e digo isto de forma quase cómica, os vikings, por exemplo, assim como os romanos, ou uma outra civilização que se achava no direito de se sobrepor a outra, invadiam territórios, matavam homens, estupravam mulheres e tomavam estas e suas crianças como suas escravas ou as matavam. Mas, não se pode provar que o Homem destes tempos, após cometer tais atrocidades, voltava psicologicamente transtornado. Pelo contrário: celebrava! Fazia-se um banquete e tocavam-se instrumentos, vangloriando a proeza dos homens que voltaram sujos de sangue e victoriosos.

Oppenheimer provavelmente nunca esteve em território japonês quando em vida. Mas, após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi tomado por um remorso que, depois de um discurso vazio sobre o sucesso das explosões, ao ser convidado a casa branca para celebrar com o então presidente Franklin Roosevelt, interpretado por Gary Oldman de forma sublime, não hesitou em proferir as palavras que confirmaram o início da sua degradação mental: “Sr. Presidente, sinto que tenho sangue nas minhas mãos…” ao que o presidente respondeu, friamente: “Tu achas que Hiroshima ou Nagasaki se importam de saber quem fez a bomba? Eu é que deixei cair a bomba, não tu!” Prometeu, na mitologia grega, deu o fogo ao Homem, impulsionando o seu desenvolvimento mas, será que ele, acorrentado a uma pedra com a águia de Zeus a lhe comer o fígado eternamente, estará arrependido? Será que está alegre com o que a humanidade fez com o fogo?

Em uma de suas conversas, Albert Einstein levanta a seguinte pergunta: “O homem inventou a bomba atómica. Mas, me diz que rato no mundo construiria a própria ratoeira?” Bem, com o fogo o Homem também acendeu o cigarro e J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, após dar à humanidade o maior empreendimento do fogo que o mundo já viu, foi morto por uma porção deste fogo na ponta de um cigarro, com um cancro na garganta.

A actuação do elenco de elite deste projecto ambicioso de Nolan prende a quem assiste durante 180 minutos que passam em contáveis piscares de olhos. Para além do personagem homónimo e director do laboratório de Los Alamos, notam-se papéis marcantes da esposa comunista e obcecada Katherine Oppenheimer, interpretada por Emily Blunt, a femme fatale Jean Tatlock, psiquiatra e também comunista interpretada por Florence Pugh, o general e engenheiro do exército Leslie Groves, interpretado por Matt Damon, que dirigiu o Manhattan Project e Lewis Strauss, membro de topo da Comissão de Energia Atómica dos EUA. A direcção cinematográfica do colaborador frequente de Nolan, o holandês-sueco Hoyte van Hoytema, é de despertar um encanto visual e ambicioso, sem mencionar a excitante trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que nos possui a medida que compreendemos a aplicabilidade da física e o seu lado obscuro. Oppenheimer não é apenas um filme: é um evento histórico no cinema dos últimos dez anos, desde a virada para o século XXI e revelante para o debate sobre o cenário político e científico global.

Denilson Monjane

SOBRE O AUTOR

Denilson Monjane, natural de Maputo, é licenciado em Tradução de Inglês-Português pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. É tradutor e intérprete, fascinado pelas artes e escrita sobre as mesmas.

Outras maravilhas humanas, Resenhas

Recensão Crítica à Exposição A Pente Fino, de Filipe Branquinho

Fonte da imagem: Diário económico

Filipe M. de Carvalho Branquinho é formado em Arquitectura pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo (Moçambique), e pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná (Brasil). Actualmente, trabalha como fotógrafo em Maputo. Após estudar Arquitectura, desenvolveu dupla função: fotógrafo e artista visual.

Recentemente, Branquinho disponibilizou retratos e esculturas da sua última obra no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 20 de Agosto. Este trabalho surge em oposição ao anterior In Gold We Trust (trocadilho de “In God We Trust”, lema nacional dos Estados Unidos, adoptado em 1956), publicado por Branquinho, em 2019, com a intenção de revelar e denunciar que o dólar propaga costumes de uma sociedade “alheia” aos valores afectivos. Na exposição A Pente Fino[1], Branquinho traz elementos de representação e valorização da cultura moçambicana, bem como elementos que recordam um passado remoto (algumas imagens remetem para situações ocorridas no tempo colonial) em que os senhores colonos, todos engravatados, surgem acompanhados de prostitutas negras, com as suas carapinhas e penteados afros. Ainda neste âmbito, o autor traz uma imagem da bandeira de Moçambique esvoaçando estendida, para simbolizar o progresso, além de trazer a imagem de um homem, exibindo as mãos com correntes quebradas, sugerindo liberdade do homem negro para retornar aos seus valores e à sua identidade. Entre vários outros elementos de valorização cultural, Branquinho traz imagens de homens e mulheres fazendo danças típicas de África e também imagens de muitos penteados afros, feitos por mulheres negras. Os penteados agradam à vista, valorizam e exaltam a mulher negra; entretanto, não são penteados que as mulheres negras (moçambicanas) fazem para as realidades do seu quotidiano, não são penteados que as mulheres negras fazem para se apresentarem nos seus locais de trabalho ou outros lugares que estas frequentam, à excepção de “XIKWENETA” (designação do Ronga), que é o único penteado que Branquinho traz e que faz parte do dia-a-dia das mulheres negras. Os outros penteados são feitos de vez em quando, para festas de gala, desfiles de moda e perfis de fotógrafos e modelos, e já não representam o que o dólar não pode comprar, mas, pelo contrário, “o que se compra com o dólar”. Para ilustrar “o que o dólar não pode comprar”, Branquinho podia ter trazido para a exposição penteados do tipo “peter tosh”, “mirabas” simples viradas para atrás, as “xindlandlalatanas” e ainda as “dreads”, pois estes são penteados que realmente fazem parte do dia-a-dia das mulheres, assim como dos homens negros, sobretudo as “dreads” para estes últimos.

Por: Yuny Ndava

SOBRE A AUTORA

Yuny Wilson Ndava, 21 anos, é estudante do curso de Licenciatura em Ensino de Português, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Participou no 33.º curso de Literatura de Língua Portuguesa, subordinado ao tema “Ler Camões, Hoje”, oferecido pelo Centro Cultural Português-Camões. Interessa-se por Literatura, Linguística e Didáctica do Português. Fora da academia, actua como modelo fotográfica e é entusiasta musical.


[1] Disponível em https://www.ccfmoz.com/events/exposicao-a-pente-fino-de-filipe branquinho/.com. Acesso: 1/10/2024.

Opiniões, Resenhas

A Transcendência nas aguarelas de Aldino Languana, na procura de “Esmolas”

Por Domingos Inácio Mucambe

A grandeza dos anseios do ser humano levou, ao longo da história, a sua criação de forma mais poderosa, de forma a adquirir força para tudo, saber o indecifrável sobre os enigmas da vida, estar em qualquer lado e, acima de tudo, a benevolência que é raridade entre a humanidade. Languana, de forma magistral, estampa nas nossas caras a obsessão com o ‘além nós’ na obra “Esmola”, aguarela sobre papel com as dimensões 55 x 68 cm, ano 2024. Esta obra faz parte da exposição “Jardins de sonhos”, inaugurada no dia 03 de Julho de 2024, na Fundação Fernando Leite Couto, e que esteve em exibição até 03 de Agosto do corrente ano.

Languana (n. 1972) pintou-nos as vistas com as suas aguarelas mágicas que revelam muito mais do que o formalismo artístico. Uma exposição recheada de cores que reverberam nas almas dos espectadores, e são obrigados a uma jornada entre “Jardins e Sonhos”. Depois de consumidas as obras, despertamos de um profundo sonambulismo e questionamo-nos: onde estávamos?

Pela qualidade das obras, a textura aliada à leveza e translucidez, convém-nos especular que o artista tem Winsor & Newton como marcadores predilectos (o que só pode ser confirmado pelo próprio artista). A paleta de cores inclui skin tones, que personificam certas figuras. Temos, ainda, a ocean blue; o azul é a marca- parece- do artista. Contudo, usado nas medidas certas, sem o esbanjar. O berry red transparent e a neutral grey trazem profundidade adicionada. 

A neutral grey está entrelaçada nas tonalidades cinzas e algumas aguareladas pretas, que podem significar desde ser negro até profunda melancolia, desespero e avidez de alguma “esmola”. Temos, ainda, um tom amarelo dourado ou golden yellow, que nos oferece possibilidades de degustação e interpretação distintas rasgando, numa primeira vista, o quadro em dois: talvez o material e a transcendência. Vêem-se dois planos separados por uma linha visível e ténue, porém forte o suficiente para deixar a marca de dualidade dimensional, sem que haja um ponto singular onde há interceptação. Isso é visível num quadro em que nem as mãos do pedinte transpõem o véu laranja, nem o pássaro, nem a face humana e nem os três grãos invadem o mesmo véu amarelo.

A mesma cor também parece uma incessante labareda: aquele laranja dourado arde nos nossos corações, provoca chama dentro das nossas almas. A terra, assim, revela-se incandescente. Ou por outra, a vida na terra está em brasa provocando um sofrimento perpétuo como se fosse o próprio lago do fogo.

O ser humano no mundo material está numa posição de consternação. A ausência de pés retratada na imagem simboliza o desmoronamento dum mundo, a falta de chão e o rastejar nesses espaços divididos com figuras que possuem formas estranhas, ou mesmo demónios. Além de cortados os pés, borra-se a face, oculta-se a identidade.

Ou será o caso de não ser um indivíduo e sim um colectivo, uma povo ou toda humanidade.

A figura humana representada na pintura apresenta mãos estendidas para o céu, pedindo esmolas aos seres sobrenaturais. A aguarelada traça um humano em súplicas, pedidos, talvez prantos, que conseguimos ouvir bem no fundo dos nossos corações, mesmo no silêncio das cores de Languana.

Do ponto de vista metafísico, caem as respostas em migalhas de pássaro. Estas caem do bico, e denotam a efemeridade em procurar alento em seres superiores para acabar com o sofrimento do mundo. Isso espelha a incessante luta em pedir a tranquilidade. Mas, na realidade, enganamos a nós mesmos porque a vida segue as suas correntezas que trazem sofrimento e dor, com pouca felicidade e bem-estar. Esse pouco é bem representado por três migalhas ou grãos de bonança.

A pomba geralmente representa paz e tranquilidade- talvez sejam grãos de paz e tranquilidade. O pássaro parece ser uma extensão da face humana, ou pelo menos conecta-se a ela. A face é a divindade na qual o humano vê-se como “medida de todas as coisas” (Nieztsche, 1886), significando que cria ele deuses à sua imagem e semelhança. Que Deus é esse? A pomba oferece identidade ao mesmo Deus da paz e tranquilidade.

“Esmola” presenteia-nos com essa dura realidade, tratando-se de dois mundos: o de sombras e assombrados, e o de paz e harmonia, revelada pela serenidade da face do divino; uma contradição presente. Entre apertos de chamas da vida, roga-se às entidades superiores por felicidade, mas ela sempre chega em migalhas, grãos que não chegam a saciar as dores do mundo.

O ciclo da vida continua assim: um eterno sofrimento possibilitado pela procura de um bem maior fora do próprio humano, uma felicidade transcendental que nos cai em migalhas- pequenas esmolas, na ilusão de um futuro totalmente tranquilo. 

SOBRE O AUTOR

Domingos Inácio Mucambe nasceu a 25 de Setembro de 2000, na cidade de Maputo. É finalista no curso de Licenciatura em Ensino de Inglês na Universidade Eduardo Mondlane. É escritor e crítico de artes, além de um amante das mesmas, principalmente escritas. Como crítico de artes participou numa oficina de escrita na fundação Fernando Leite Couto, no ano em curso, onde aprendeu a ter uma visão crítica sobre as diversas artes. Teve textos publicados no jornal “O País” e no blog “Tenacidade das Palavras”.

Opiniões, Resenhas

Literatura| Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa| Opinião

Autor: Ungulani Ba ka Khosa

Editora: Alcance

Idioma: Português

Sinopse

Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, mambo (rei) de uma região à norte do rio Zambeze acaba de morrer. Durante o “choriro”, todos pretendem saber se o desejo de Nhabezi se irá concretizar: transformar-se em espírito de mpodoro, como acontece com todos os chefes da região.

Opinião:

O romance histórico, por natureza, faz uma reflexão acerca de uma realidade histórica entremeada com elementos ficcionais. As personagens ficcionais se misturam a personagens históricos “ficcionalizados” na estrutura da narrativa. Muitas vezes, tambem, o romance histórico questiona e problematiza a própria história.

Choriro é um exemplo deste tipo de obra. Ao retratar o passado, numa versão imaginada pelo autor, o livro não só contribui para a reconstrução da memória cultural, como também interpreta para o leitor, a experiência humana dessa época. A palavra Choriro significa dor, ou também, o período de três dias de luto, durante os quais o morto é preparado para a cerimónia de enterro.

Segundo Marcelo Panguana, que escreveu uma crítica sobre Choriro, no livro “conversas de fim do mundo”, antes da publicação de Choriro, alguns pormenores do livro, no entender do autor, ainda não o convenciam. “Considerava o título da obra estático, sem a agressividade e a capacidade de sedução pretendidos. O substantivo choriro remetia a um cenário calmo e apático que poderia desmobilizar a curiosidade de eventuais leitores”. Um bom título tem sempre a capacidade não só de atrair o leitor, mas também a de ajudá-lo a descobrir o livro, o que este título, acabou por fazer com mestria.

Com um rico nível de detalhe e extremo rigor na pesquisa, o autor ambientou este romance no Vale do Zambeze, mais precisamente em Tete e na Zambézia, no século XIX. A história centra-se em Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, ou como o mambo (rei) da região. Nhabezi é um invasor português que acaba por adaptar-se e apropriar-se dos costumes e tradições locais, tornando-se curandeiro, tendo várias mulheres e muitos filhos. Nhabezi, ou Gregódio, introduziu também novas práticas na região.

O livro faz incursões sobre figuras históricas, como David Livingston, explorador inglês, Kaniemba ou Matequenha, nomes de guerra de dois senhores de prazo, da época, e até Ignácio de Jesus Xavier, mais conhecido por Kalizamimba, figura cuja história foi abordada recentemente por Isabel Ferrão, no seu romance Kalizamibma.

Sendo um livro com diversas histórias secundárias muito interessantes, algumas ficaram por aprofundar. Queríamos ter conhecido com mais  detalhes a história de Nfuca, de João Alfai, da Dona Josefina e também dos luanes de Quelimane, os prazos da época, com uma estrutura diferente da dos descritos em Tete.

O autor constrói vários personagens no livro, uns mais cinzentos que outros, mas todos certamente com características únicas. Pela quantidade de dados a assimilar, e por reflectir o contexto de um importante período histórico, que certamente traz elementos que moldam o actual contexto, é um livro que deve ser lido sem pressa e com bastante atenção.

A nossa pontuação: 5 de 5 estrelas.

Livros, Opiniões, Resenhas

Literatura | O Estranho, de Ad Chaves – Opinião

Autor: Ad Chaves

Editora: Tribo das Letras / Amazon

Idioma: Português

Sinopse

“Dez anos são suficientes para que a verdade venha à tona? Neste suspense, os personagens terão as suas vidas presas numa vertiginosa trama onde a traição, o amor e o ódio se fundem numa tentativa desesperada para manter, sob camadas de mentiras, a verdade. Júlia, após descobrir que perdera anos num casamento por interesse, com um renomado advogado, vê a sua vida colocada de cabeça para baixo quando, numa noite chuvosa, o encontro com um estranho, num hotel de beira de estrada, a leva para um inesperado caminho. Impelida pela imprevista atraccão pelo misterioso desconhecido, ela vê-se arrastada para um trilho onde a vingança é o norte, e a vítima e o culpado se alternam, fazendo-a questionar-se, sobre quem, de faco, é o Estranho na sua vida.

Opinião

Já há muito tínhamos curiosidade de conhecer a obra de Ad Chaves, autor da editora Brasileira Selo Jovem, e por essa razão, a leitura de “o Estranho”, livro de estreia deste autor, foi das mais ávidas este ano. A Selo Jovem tem trazido trabalhos muito promissores de vários autores e Ad Chaves não é a excepção. Entretanto, a obra aqui em alusão, foi piblicada pela Tribo de Letras e encotra-se de igual forma disponível na Amazon.

Com uma escrita de fácil acesso e muito concisa, Ad Chaves nos conduz por uma narrativa bastante fluida, de suspense, à volta de uma trama sobre vingança, amor e injustiças.

Narrado na terceira pessoa, cada capítulo inicia com uma citação da protagonista Júlia, cujo contexto é explicado no final do livro.

Julia, a semelhança de algumas mulheres do quotidiano, casou-se com André, pelas razões erradas, e com o passar do tempo, as consequências desse acto, resultam num casamento infeliz, com contornos inesperados.

Relativamente à construção de algumas personagens, embora no geral estejam a maioria, bem construídas, não conseguimos ter grande empatia para com a Julia, talvez pela certa superficialidade na sua personagem, o que poderia, porventura, ter sido colmatado com um pouco mais de desenvolvimento psicológico à volta da mesma. Em compensação, somos apresentados com alguns personagens, como Clara, Jorge e o próprio “Estranho”, que tem um background mais interessante de descortinar.

O autor impressiona também pela óptima capacidade de criar tensão e fazer com que o leitor prenda-se à leitura, desde o início ao fim, devorando as páginas num ápice. Um ponto fraco, entretanto, é que, o narrador, enquanto omnisciente, revela-nos alguns aspectos da trama de forma bastante depressa e directa, frustrando em alguns momentos as expectativas do leitor. Apecto, que todavia, acaba por ser compensado pela boa técnica em apresentar-nos sem demoras reviravoltas de impacto.

Em resumo, para um livro de estreia, é um óptimo livro, com uma trama de grande sensibilidade, muito suspense para quem gosta deste género, e que facilmente poderia ser adaptada para um roteiro de cinema.

Sobre o autor

“Ademilson Chaves é mineiro e como todo mineiro gosta de contar histórias. Muito cedo descobriu que gostava de livros tornando-se um leitor voraz. Formou-se na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Nas horas vagas descobriu um grande prazer, criar e escrever histórias capazes de prender o leitor ávido por uma boa trama.”

A nossa classificação: 4 de 5 estrelas

Livros, Resenhas

Literatura| Madalena – o tradicional casamento sem amor| Opinião

Autor: Hosten Yassine Ali

Edição: 2013

Editora: Edições Esgotadas

Idioma: Português

Compre aqui: Edições Esgotadas

Este livro é uma joia na literatura moçambicana e tu uma pérola de autor: dizer mais é querer dizer o que escreveste, com dignidade, frontalidade, com moçambicanidade

Eduardo White in Madalena, o tradicional casamento sem amor

Opinião:

Que tal começarmos pelo título: Madalena, o tradicional casamento sem amor.

Ora, ora, nós do diário de uma qawwi, leitores teimosos que às vezes levam as coisas ao pé da letra, começamos a percorrer as páginas, à espera de… hum. Talvez uma história que abordasse um casamento forçado, numa sociedade tradicional? Ou então, um casamento de alguma forma “tradicional”?

Bom, a trajectória não é assim tão óbvia. Ao chegarmos à história de Lena (Madalena) e Filipe, deparamo-nos com a primeira de muitas surpresas (se calhar reviravoltas) que nos aguardavam nesta trama. Porquanto o relacionamento entre Madalena e Filipe (assumidos então como casal protagonista) não é desprovido de amor. Pelo contrário, os dois se amam bastante. O problema é outro: Filipe é obrigado a lobolar (ou seja, casar com) Madalena, depois de a mesma estar morta.

Narrando um pouco a trama (mil perdões, caros leitores, pelo pequeno spoiler): Madalena, muito nova, engravida de Filipe, e o seu rigoroso pai a expulsa de casa. Sem tecto, ela vai viver com o namorado Filipe, os dois tentam ser felizes, mas essa tentativa é interrompida quando Madalena morre durante o parto. O pai, que deixara de falar com a filha, retorna o contacto com o genro, e avisa-o que, para que reine a paz entre as famílias, Madalena não poderá ser enterrada, sem que antes Filipe respeite a tradição e oficialize a relação. Desta forma, melindrado pela própria tradição, e pelo sentimento forte que sente por Madalena, Filipe concorda em lobolar a rapariga, mesmo estando esta morta. Eis uma passagem do dilema narrado pelo protagonista:

Não sei realmente o que estou a pensar: na verdade, busco uma solução para que satisfaça ou não a família de Lena e lhes dê o casamento de uma filha morta. Custa-me acreditar que me vou casar com um cadáver, alguém que não fala, que não comerá o bolo de casamento, não beberá espumante, não fará discurso de noiva e, pior que tudo, não me aceitará como as mulheres aceitam os maridos

Avante, o livro não retrata apenas algumas tradições que vincam em algumas famílias moçambicanas. Pelas vozes de outras personagens que vão sendo inseridas na narrativa, ficamos a conhecer histórias e realidades, que fazem parte do cotidiano moçambicano, mas por vezes despercebidas ou até mesmo desconhecidas. É a história do próprio Filipe, forçado a casar em tais circunstâncias. Ou por exemplo, a história daquela titia que revelou grandes segredos da sua intimidade durante a cerimónia que antecede o casamento da sobrinha. É a história de um filho que após tornar-se “doutor”, vira as costas à mãe deixando-a na miséria, e tantas outras peripécias que tornam esta leitura uma experiência única.

O livro torna-se confuso em alguns momentos, em que o narrador, na 1ª pessoa, afasta-se de si, e passa a olhar-se como uma entidade não participante. Nada, entretanto, que atrapalhe o nosso mergulho na distinta escrita de Hosten Ali.

Encontramos também neste livro, uma das diagramações mais bonitas e aconchegantes que já vimos, com a silhueta de uma mulher africana (parecida à capa do livro), dividindo cada capítulo.

Posto isto, convidamos o leitor e embarcar nesta leitura e a descobrir o que trata, de facto, este “casamento tradicional.”

Sobre o autor: Hosten Yassine Ali é moçambicano, natural de Maputo. Abraçou a carreira de official da Marinha no ano de 2008, através da formação na Escola Naval Portuguesa. Publicou o romance Madalena e o livro de crónicas Kurhula, crónicas da cidade de Maputo, sob a chancela das Edições Esgotadas. É fundador dos projectos de acção social “Pequenos Gestos Moçambique” e “Universidade e Rua Moçambicana”. É mestre em ciências Militares Navais e especializado em Administração Naval.

A nossa pontuação: 4.5 em 5 estrelas.

Outras maravilhas humanas, Resenhas

Maravilhas humanas | A Vingança do Mítico Pangolim

Por Jorge Ferrão

Os nexos que se estabelecem entre os animais selvagens, em vias de extinção, e os esforços para sensibilizar sobre a importância de sua conservação, têm conduzido os organismos internacionais e as principais agências responsáveis pela gestão da fauna, a estabelecerem datas especiais para celebrar os pequenos sucessos na preservação destes animais. Todavia, parece cada vez mais evidente a existência de uma preocupação em relacionar o consumo de diferentes espécies de animais, nomeadamente, cobras, morcegos, ratos, escorpiões, lagartos e pangolins, com as várias epidemias e pandemias, que criam um desassossego às economias e às sociedades, um pouco por todo mundo.

O pangolim (Manis Temminckii) tem, também, agora um dia especial, 15 de Fevereiro. Deste modo, Moçambique e o mundo celebram os poucos pangolins, ainda vivos, e os milhares que foram sacrificados e que deixaram de dar o seu contributo aos diferentes ecossistemas e às economias agrícolas familiares.

Desde o começo desta semana, especialistas, estudantes, amantes da fauna, curiosos e, até, leigos, tem a oportunidade de visitar um dos mais míticos e cobiçados animais da nossa fauna, por vezes tão descuidada e perseguida, outras vezes, tão relegada ao abandono e ao seu próprio destino. Estamos em festa e celebramos o pangolim.

Pangolim, a espécie mais ameaçada do mundo

Em 1999, a legislação moçambicana estabeleceu o pangolim (Manis Temminckii) como uma das espécies protegidas, e cujo consumo e venda foi vedado. Entretanto, esta proibição apenas foi decretada pelo CITES (Convenção sobre o Comercio Internacional das espécies em perigo de Extinção) em 2017. O pangolim tem sido uma das espécies que, à semelhança dos elefantes e dos rinocerontes, tem sido, invariavelmente, traficado e já colocado como uma espécie em vias de extinção no país. O pangolim caminha, assim, para um precipício iminente e sem retorno.

O comércio ilegal do pangolim aumentou consideravelmente desde 2008 em África e, um pouco por todos os relatórios mundiais de preservação da fauna, os dados confirmam o tráfico de, pelo menos, um milhão (1.000.000) de pangolins para China e Vietnam, os países que mais consomem e influenciam o contrabando dessa espécie na ultima década, porém, este numero foi já ultrapassado apenas num único ano, isto é, em 2019 com cerca de mais de 1.200.000. Aliás, as mesmas redes de contrabando que operam no tráfico de marfim, cornos de rinoceronte e madeira, são as que, aproveitando-se de esquemas de suborno e corrupção, traficam pangolim vivo, congelado ou as suas escamas as toneladas.

Estas redes melhoraram, inclusivamente, o seu modus operandi, através do uso de redes sociais como o Facebook, para anunciar a venda de seus produtos e estabelecer cadeias de preço.

O tráfico se justifica e intensifica pelo facto de as escamas serem utilizadas para o “tratamento” e prevenção de várias doenças e patologias, nomeadamente, a disfunção sexual, as doenças cardíacas, câncer e até as deficiências de lactação da mulher. Os médicos mesmo na China rejeitam estas propriedades mas as farmácias continuam a vender aos seus clientes. Não obstante, as crenças continuam mais fortes do que as evidências científicas e o número de usuários não pára de crescer.

Se, por um lado, temos estas pouco provadas e testadas evidências de propriedades medicinais, que geram alta demanda, por outro lado, continua preocupante o consumo da carne do pangolim, muito apreciada na restauração, nos principais restaurantes de luxo na Ásia. Em determinados restaurantes, o prato de pangolim, pode chegar a um custo aproximado de 500 dólares norte americanos ou equivalente. Aliás, nestes locais, o animal é vendido ainda vivo, e é degolado na presença do cliente para que este possa também comer ou beber o sangue.

Entre a superstição e a verdade

Ao longo de milhares de anos, foram identificadas oito (8) espécies de pangolim nos continentes asiático e africano. O pangolim é um mamífero escamoso da ordem Pholidota, por sinal a única espécie existente, também, designada Manidae, que possui três géneros.

Na Ásia, o pangolim está quase extinto e em alguns países desapareceu ainda no século passado. Em África, ainda, são encontradas quatro (4) espécies de Manis, nomeadamente, Phataginus, Smutsia, Tricuspis e Temminckii, espalhadas um pouco por todo o continente. A espécie Temminckii, eventualmente a mais representativa, pode ser encontrada na África Austral, Oriental e até na região do Corno de África, para além do Norte de África. As restantes encontram-se na África Central e Ocidental.

Estes mamíferos chegam a pesar entre 1,5 quilos até os 20, 25 quilos ou mesmo 35 quilos. Porém, em média, eles possuem entre 3,5 a 10 quilos, e podem ser encontrados em todo Moçambique, próximo das termiteiras e ou em locais cuja presença de formigas seja abundante.

O pangolim consome cerca de 190 mil formigas, por dia, o equivalente a 70 milhões de formigas, por ano. Lento, e que vive enrolado no interior destas termiteiras, o pangolim é considerado, pelos agricultores, como o mais eficaz controlador de pragas e térmitas que devastam os campos agrícolas do sector familiar.

Com a língua que é mais comprida que o próprio corpo, o pangolim tem um vasto conjunto de benefícios para o ecossistema e reduz, igualmente, os habitantes dos morros de muchém, que são devastadores para os agregados familiares, que sofrem com os efeitos das térmitas até no espaço habitacional, apodrecendo, de forma precoce, os aros das portas, das janelas e até as estruturas das casas.

O pangolim é mítico e gera sentimentos obscurantistas e da mais pura ignorância. No nosso país, ele tem diferentes nomes. No norte do país, o Pangolim é designado Ekha, na região de Tete o nome é Xiphalualo, no centro, Manica e Sofala é conhecido por Xikwari e, no sul, por Halakavuma. O seu surgimento suscita controvérsias e diferentes interpretações. Acima de tudo, ele é o mensageiro e tanto pode anunciar a desgraça, como a bonança. No Norte de Moçambique, a chegada do pangolim representa uma época de chuvas regulares, excelentes colheitas e um ano de muita prosperidade. No Centro, Idem. Porém, no sul, a chegada do pangolim anuncia desgraças, períodos de cheias, secas e várias pandemias. São os curandeiros, regra geral, aqueles que são chamados para interpretar a mensagem e comunicar os conteúdos ao resto da população.

Se, por um lado, o pangolim sofre do obscurantismo e de ignorância, por outro, é vítima de arrogância e de ganância desenfreada. As pessoas tem medo de se aproximar e de segurar as suas escamas, e são educadas a nunca olhar de frente para este animal. Aliás, continua célebre a preocupação de que tocando no animal, os casais terão três filhos.

Mas tem sido a ganância o maior mal de que o mamífero sofre. 2019 foi o pior ano no tráfico do pangolim, em Moçambique e no mundo. Em Hong Kong foram descobertas 8 toneladas de escamas e mais de 1000 pontas de marfim, enquanto na Malásia foram descobertos 3 mil toneladas de pangolim congelado e mais de 400 quilos de escamas. Em Singapura, mais de 24 toneladas de escamas foram descobertas, de forma sucessiva. Todo este volume se destinava à China e ao Vietnam.

As rotas envolviam diferentes intermediários e diferentes países. Em média, 159 rotas diferentes foram usadas pelos traficantes entre 2010 e 2015, com médias anuais de 24 toneladas, ou seja, 1,5 milhão de pangolins abatidos.

A Vingança do pangolim

A vingança do Pangolim poderia ser o nome de um filme de ficção, com um roteiro previamente estruturado e com películas gravadas em diferentes sites e continentes. Porém, não é ficção e nem pura e ingénua imaginação. É uma tragédia anunciada. Estudos mais recentes, ainda em fase de pesquisa, conclusivos ou não, indicam que o consumo do pangolim pode estar associado ao mortífero vírus do corona, que desgraça a China e retira o sono e o sossego de todo mundo.

Caso se confirme que o pangolim é o verdadeiro hospedeiro do coronavírus, uma nova atitude e postura terá que surgir em relação ao pangolim. Importa referir que estes e outros animais selvagens são portadores de diferentes vírus e que novas estirpes podem desenvolver, escapando-se das defesas do organismo humano e apanhando de surpresa o pacato cidadão. Ultrapassa a fasquia dos 1000, o número de vítimas e, já se superou o número de vítimas do vírus das aves (SASR) que teve o seu epicentro na Ásia e que, por sorte, não gerou efeitos mais devastadores no continente africano.

Enquanto isso, celebremos o pangolim e todo o misticismo que ele representa nas nossas vidas e nos nossos espíritos.