Por Domingos Inácio Mucambe

“Para mim, para este homem velho, um sonho é direito de todo homem; para nós, é uma forma de escape” (Maya Ângela, 2022).
A vida está repleta de ervas que levam a desvarios. A literatura tece um véu sobre a esperança anómala consumida por esses desvarios. Nesse conflito entre passado e presente, o escritor busca apaziguar com os seus instrumentos de ofício: o papel e a caneta. Assim o faz Maya Ângela Macuácua, que em “Diamantes pretos no meio de Cristais” dá voz a um narrador o qual nos apresenta três estórias distintas de mulheres negras que transcendem tempos e lugares, mas têm em comum a experiência do racismo e da exclusão.
O livro, vencedor do Prémio Fernando Leite Couto 2022, traz na capa o rosto de uma mulher negra. É uma imagem que sugere uma reflexão sobre as expectativas e esperanças que ela carrega. A autora disseca essa imagem com três estórias, que revelam a vida de mulheres de tempos, lugares, contextos e lutas diferentes: Juno, Anna e Elvira, cujas histórias- embora singulares- compartilham o peso da opressão racial e social.
Juno em Kansas (1856)
No prelúdio da Guerra Civil dos Estados Unidos, Juno vive o drama de ser negra em uma sociedade esclavagista. Seus sonhos de liberdade impulsionam-na a desafiar leis e costumes que garantem o domínio dos brancos. A personagem luta contra a realidade tóxica que a cerca buscando igualdade, embora constantemente procurem desmerecê-la. A narrativa de Juno explora as complexidades da luta pela liberdade, onde o sonho de igualdade não é apenas racial, mas profundamente humano.
Anna na Cidade do Cabo (1961)
Anna, uma mulher negra e pobre, vive em Langa, um dos primeiros bairros de lata construídos sob o apartheid sul-africano. Sua vida divide-se entre os mundos segregados dos brancos e dos negros. Trabalhando como empregada doméstica, Anna sofre humilhações diárias de um sistema que a trata como inferior. A segregação é brutal, desde o transporte público até ao sistema de saúde. A exclusão e a limitação baseadas na sua cor são o seu prato do dia-a-dia; toda vez lia e relia a mesma escritura- quase bíblica- de que o lugar de negros é o assento traseiro no transporte público. Numa outra passagem, devido a sua condição racial, ela é impedida de entrar no hospital enquanto acompanhava a sua patroa. A narrativa reflecte sobre a crueldade de um regime que perpetua a desigualdade racial, apesar das pequenas esperanças de um futuro melhor.
Elvira em Maputo (2001)
Elvira, vivendo em Maputo, descobre que é seropositiva. Expulsa de casa pelo pai, ela enfrenta a marginalização e a pobreza. Sem apoio familiar, vê-se empurrada para a prostituição como meio de sobrevivência. A história de Elvira é nova e actual, trazendo ao de cima o estigma social associado ao HIV, especialmente entre mulheres. A narrativa levanta questões sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem ao contrair a doença, e o facto de a mulher ser vista como impura e sem valor. Nessa narrativa, o narrador oferece-nos uma oportunidade ímpar de reflectir sobre como seria a história da Elvira se de um homem se tratasse. Haveria tamanho alvoroço, desde a violência física à psicológica? Tudo isso perante o olhar impávido da mãe, ao nível de expulsão e exclusão, enquanto advertem-na para esquecer que um dia teve família.
Nessas histórias espalhadas indiscriminadamente durante o livro, às vezes chega-nos um desejo inconfessável de procurar uma ligação muito mais profunda, além somente o facto de serem mulheres negras como o elo entre elas. A exclusão e o preconceito acompanham essas mulheres ao longo das suas vidas. Do mesmo modo que fica difícil encontrar um conflito no enredo da Juno e Anna, imagina-se que o narrador não nos quis trazer um conflito que colocasse as suas vidas de pernas para o ar mas, quis trazer nas entrelinhas uma peculiaridade na diegese cuja inexistência de um evento singular conflituoso significasse que as vidas dessas personagens fossem o próprio conflito. Essa ausência de conflito, ou a pouca evidência do mesmo, faz com que as histórias sejam mais realistas.
A Juno, a Anna e a Elvira são mulheres diferentes numa realidade anacrónica. Distantes umas das outras, o narrador dá-nos, de três maneiras diferentes, visões de sociedades regidas por normas jurídicas e morais exclusivistas. É partindo daqui que se levanta um tema para análise: até que ponto pode uma sociedade ser considerada, de facto, inclusiva?
