Desabafo de uma qawwi

#14|Como um defensor do ambiente propôs-me em casamento

ambientalista

A sesta depois do almoço apenas serviu para trazer-me pesadelos. Vi um bando de ikras liderados pelo qawwi Vallen, invadindo a terra e destruindo os qlubs. Ainda bem que foi só um sonho. Enquanto conseguir manter-me escondida aqui na Nova Zelândia, Vallen não poderá interferir com a minha missão. Para afastar o pesadelo, decido tomar um banho. Estico o braço na direcção da toalha pendurada na cadeira e, num segundo, ela salta para a minha mão.

Já mais fresca, percorro a casa. O silencio é atípico. Érica não está a correr, nem a ver desenhos animados. O que andará ela a fazer?

– Coloquei-a de castigo, portou-se mal outra vez – explica-me Will, que está na varanda a pintar um móvel. Parece-me uma peça nova.

O sol desce na linha de horizonte, sobre a baía oriental. Os últimos raios acendem a cidade, deixando-a num esplendoroso doirado. Vistos do lado da costa, os edifícios parecem estar tão somente a acordar. É como se o próprio planeta terra dançasse uma valsa, em homenagem àquele humano que mudou as minhas convicções.

– Chega perto, Linan – pede-me Will – Vê se gostas disto.

Observo o móvel. É feito de papelão e pintado de esferas azuis, a minha cor favorita.

– O que é isto?

– Precisavas de uma cómoda nova e decidi fazer uma para ti. É de material reciclável. Agrada-te?

Humm. Este Will tem muita classe. Não me refiro a forma sedutora como ele dobra as mangas da camisa. Falo das suas ideias. De como ele as comunica, do entusiasmo no seu olhar. Tudo nele atrai-me. Incluindo as suas manias e os seus defeitos. Will é teimoso, é atrapalhado, mas é também equilibrado. Se há humanos que ainda podem salvar os qlubs, ele é um deles. O seu amor por animais, por exemplo. É enternecedor. Assim como é a sua paixão pelo mar. Will preocupa-se com o ambiente. Em casa, decretou que quem deixar as luzes acesas sem necessidade, pagará uma multa. Incluindo a pequena Erica. Ele ensina a filha a não desperdiçar água. Recorda-nos sempre de desligar as tomadas e os aparelhos quando não estão a ser usados. Anda de bicicleta, não apenas por fazer bem e ser económico, mas por ajudar a reduzir a poluição. E é ele quem está a incentivar-me a abandonar certos hábitos alimentares. Quem diria! Eu, uma qawwi, a cair nas armadilhas dos apetites mundanos. Lastimável. Facto é, que a comida que se consome neste planeta e a forma como ela é produzida determina a saúde tanto dos humanos como desta terra. Se os humanos não começarem a comer mais fruta e vegetais do que carne e açúcar, será impossível alimentar uma população que vai crescer até 10 biliões no ano de 2050 (se até lá os qlubs ainda existirem).

Olho de novo para a cómoda ecológica  de papelão.

– Oh Will, não existem dois como tu!!

– É só uma prenda simbólica para comemorar o dia de hoje, meu amor.

– O dia de hoje? – o  coração salta-me uma batida – é meu aniversário?

Eu só comecei a celebrar os anos por causa de Will. Em Stefanotis estas coisas são diferentes e eu nem sequer sabia o dia em que tinha nascido. Todavia, há outras datas em que os humanos trocam presentes. Perante o olhar decepcionado de Will, sinto o estômago contrair. Oh. Será que esqueci de alguma coisa? Será que…

– Faz dois anos hoje desde que nos conhecemos, Linan.

Se a vergonha é um arco íris, o meu rosto adquiriu todas as suas cores. Como pude esquecer-me? Foi há dois anos que o vi pela primeira vez, acreditando que ele fosse um sem abrigo. Neste planeta vivemos rodeados de pessoas, de amigos, de festas. Mas Will ensinou-me que é bom ter alguém com quem contar, quando as festas terminam. Com ele aprendi a sentar no banco de um jardim, ao lado de alguém, apenas para respirar, sem ser preciso falar, apreciando somente o silêncio do amor.

E mais tarde descobrimos a verdade. Ambos. Ele não era um sem abrigo. E eu, não era uma humana. Para Will, a verdade foi mais esmagadora, mas o amor acabou por convence-lo  a aceitar-me. E embora ele jure querer-me por perto, percorre-me sempre um grande receio: eu não estou a conseguir ser humana o suficiente para o corresponder.

– Perdão, Will – apetece-me chorar – não me lembrei e não preparei nada especial para oferecer-te, mas… vou improvisar. Que tal um super delicioso jantar, com mariscos, como tu gostas!

O seu sorriso malicioso preocupa-me.

– Eu sei muito bem como podes compensar. Mas vá, experimenta aí as gavetas da cómoda, vê se te agradam e se funcionam bem.

Abro-as de par em par.

– Funcionam, claro, até porque…

Ao deparar-me com uma caixinha veluda na terceira gaveta, fico muda. Contenho-me. Segundo a seguir, escancaro-a.

A primeira vez que Will colocou um anel à minha frente, causou-me pânico. O sentimento continua. Mas agora é acompanhado por uma espécie de agradável surpresa. Fascinação, para bem dizer.

– Will! Continuas com esta ideia? Mesmo que…

– Sempre. Tu e a Érica são a minha família. Vamos oficializar isso de acordo com as leis da minha terra e do meu coração, por favor. Dá-me esse presente.

– Will…

– Eu sei. Linan, eu sei.

Ele sabe. Sabe que eu sou uma qawwi, e que tenho o poder de controlar a mente humanas. Tem noção de que a qualquer momento posso teletransportar-me para outro lugar. Que ao contrário dele, vou demorar séculos a envelhecer. Que tenho uma missão. Que corro perigo. E que ele também, ao meu lado, corre perigo.

– Eu sei – repete – Somos diferentes e enfrentaremos dificuldades. Haverá alturas em que lutaremos contra forças maiores. Mas o derradeiro fim da vida é o amor Linan, e eu não vou abrir do nosso. Enquanto respirar, vou estar ao teu lado.

Então, avança para um beijo terno, mas a minha indecisão impede-me de corresponder. Mesmo que a minha missão seja um sucesso, como fico eu, se daqui a 100 anos tiver de perder este humano? Sou uma qawwi, mas saberei algum dia voltar a estar no universo sem ele?

Will insiste no beijo. Então, a mensagem penetra. Quer dizer, ela não penetra. Ela já lá estava. Os beijos apenas ajudam a mostrar os sentimentos adormecidos, cuja a intensidade as vezes esquecemos. A ânsia e a confiança que nos apertam nesse instante parecem maiores do que o próprio universo.

– Casa comigo – repete ofegante, depois que separa os seus lábios dos meus, o anel encontrando um lugar confortável no meu dedo.

O gesto é como um golpe para a cratera romper e impulsionar uma força nos meus olhos. Sinto o meu rosto molhado. Não há outra opção para salvar-me daquela gigantesca onda, senão responder:

– Sim, Will. Mil vezes, sim.

Desabafo de uma qawwi

# 4| O Apocalipse dos Corais

(4 mins de leitura)

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Após mergulhar na faixa com milhares de recifes e de ilhas continentais, permito-me uma pausa para que o cérebro absorva com clareza as cores do fundo do mar, luzentes como uma aurora boreal. Os corais vivem em colônias e fazem barreiras que sustentam o lar de diversos seres vivos. Será que os humanos compreendem a importância e a magnitude dos amiguinhos que habitam nestas águas? Sem pressa, percorro as avenidas e autoestradas marinhas, esbarrando com tartarugas e golfinhos, peixes e serpentes marinhas. Carlota baleia, incontestável rainha das águas, desliza na sua majestosa grandeza em busca de comida, enquanto dugongos acasalam pelos cantos recônditos do mar. Então, inesperadamente, caio num abismo. A maré torna-se escura, domada por gemidos. Criaturas moribundas, esbranquiçadas, soltam graves queixumes, numa lenta agonia. Baby-coral é um desses seres. Tão pequeno, está gravemente doente e os seus gritos não passam de apelos de socorro que se perdem nos ecos das ondas espirais do oceano. Ao lado de Baby-coral, jazem centenas de corais que sucumbiram à violência do calor.

– Nem sempre foi assim! – confessa Baby-coral tristonho, órfão de pai e mãe. Aos prantos, mostra-me através de um registo gravado no seu DNA, uma memória dos tempos em que vivia em ambiente de festa, quando eram todos saudáveis, antes da tragédia abater-se em suas vidas.

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Fonte: https://airis.life/bleaching-threats-to-the-great-barrier-reef/

Baby-coral era ainda pequeno quando a sua família e quase toda a geração foi saqueada durante uma captura ilegal. Os que restavam, se não estavam a morrer, rogavam aos deuses dos oceanos, por um milagre que os salvasse do apocalipse que descera sobre os recifes. É que nos últimos dois anos, metade dos corais haviam passado pelo processo de branqueamento (perda de pigmentos e de algas associados aos tecidos) e hoje, só sobravam pálidas sombras do que eles tinham sido um dia.

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Fonte: https://airis.life/bleaching-threats-to-the-great-barrier-reef/

Baby-coral e outros corais vivem em permanente pesadelo. Graças a queima de combustíveis fosseis e de outras coisas pouco sensatas, vieram as alterações climáticas que acabaram conduzindo ao aquecimento das águas e por fim, a catástrofe que agora dizima em massa os corais.

– Pobre Baby-coral. A minha alma se compadece. Que posso fazer por vocês?

Tem de haver alguma forma de reverter a situação. Sou recém-chegado ao planeta terra, mas ouvi dizer que alguns líderes comprometeram-se a reduzir as emissões de CO2, pese embora alguns presidentes como Ronald Trunfão, contra a lógica razoável, não querem este acordo.

E se eu pedisse aos meus superiores para intervirem? Não, não poderia, tal seria contra os princípios do meu planeta.

Baby-coral engole as lágrimas e tenta tranquilizar-me:

– Espere senhor, há outros humanos como você, que querem ajudar. Temos recebido visitas de pesquisadores, rumores correm de que estão a preparar e a testar laboratórios que poderão nos socorrer – é a primeira vez que noto alguma esperança na voz de Baby-coral – e se as temperaturas baixarem, quem sabe? Talvez haja um futuro para nós. Vá meu amigo, fale com os outros, interceda por nós! É possível encontrar um equilíbrio!

Anuo e deixo-o com uma promessa silenciosa, antes de começar a nadar de regresso à Terra. Sim, há uma chance de eles sobreviverem, se todos os humanos, biólogos, cientistas, líderes, organizações e pessoas individuais, fizerem a sua parte para amenizar os efeitos das alterações climáticas. Nado com a urgência da questão bailando nas falsas barbatanas dos meus pés.

Linan, a qawwi

Nota sobre este texto:

A Grande Barreira de Coral da Austrália, património mundial da UNESCO, sofreu um “colapso catastrófico” de corais durante uma vaga de calor em 2016, “uma ameaça à diversidade da vida marinha. Um terço dos corais de superfície da Grande Barreira morreu devido ao aumento das temperaturas. A Grande Barreira de Coral é o maior complexo de recifes de coral do mundo. Os recifes de coral representam menos de 1% do ambiente marinho da Terra, mas abrigam cerca de 2% da vida marinha. Se não se limitar a subida de temperatura estabelecido no Acordo de Paris “a Grande Barreira de Coral corre mesmo o risco de desaparecer” – In Diário de Notícias, 19 de Abril de 2018.

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