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Literatura | Flashforward – e se pudéssemos ter uma visão do futuro? – opinião

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Autor: Robert J. Sawyer

Edição: 2010

Editora: Saída de Emergência

 

 

 

Sinopse

“Em Flashforward, é iniciada uma experiência científica que conduz ao inesperado: o mundo inteiro cai inconsciente por instantes e todas as mentes são projectadatas vinte anos no futuro. Quando a humanidade desperta, o caos impera por todo o lado: carros arruinados, cirurgias falhadas, quedas, destruição em massa e um elevado número de mortes. Mas esse é apenas o início. Passado o choque das visões, cada indivíduo tentará desesperadamente evitar ou assegurar o seu próprio futuro vislumbrado”

Opinião

O que o ser humano faria se tivesse uma visão do seu próprio futuro? Esta é a premissa básica que guia o enredo de Flashforward, romance que aborda uma experiência científica que acaba por provocar um desastre mundial, num cenário onde todos os seres humanos perdem a consciência durante cerca de 2 minutos. Nesse curto espaço, a humanidade faz um salto temporal e cada um dá por si a vislumbrar como será o futuro dali a 20 anos. Alguns ficam felizes. Outros, nem por isso.

Flashforward pode não ter a melhor escrita, mas o conceito proposto é dos mais brilhantes. O autor consegue facilmente prender a atenção do leitor. Sendo uma obra essencialmente de ficção científica, o tema é explorado de vários ângulos, inclusive na vertente do suspense, quando o personagem Theo Procopides, por exemplo, inicia uma incansável investigação para saber quem é o desgraçado que dali a 20 anos o vai matar.

A narrativa causa várias provocações filosóficas. Afinal de contas, podemos mudar o nosso destino? Ou o futuro já está traçado pelo universo e pelas leis da física? O que é que um governo normal faria se pudesse prever o futuro?

Flashforward foi adaptado para a televisão, numa das melhores séries de sempre, a qual carrega o mesmo nome. A série, contrariamente ao habitual, consegue em alguns aspectos ser melhor que o livro, ao explorar com mais profundidade o impacto deste conceito (previsão do futuro) nos relacionamentos e na vida pessoal. O livro o faz, mas superficialmente e com menos emoção.

A série, de igual modo, toma um rumo diferente do livro ao colocar Mark Benford (Joseph Fiennes), agente do FBI, como protagonista. No livro, os protagonistas são Llyod Simcoe e Theo Procopides, os dois cientistas responsáveis pelo evento. Na adaptação cinematográfica, as pessoas vem o seu futuro dali a 6 meses e não 20 anos, como no livro.

A diagramação e a paginação do livro são confortáveis e a leitura flui depressa. Recomendamos tanto o livro, como a série (já agora, pode conferir no link abaixo o trailer):

A nossa pontuação: 4 de 5 estrelas

Cinema (Filmes / Séries), Opiniões, Resenhas

Cinema | Bandersnatch – assista, mas com cautela | Opinião

 

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Título: Banrdersnatch

Direcção: David Slade

Elenco Principal: Fionn Whitehead; Will Poulter; Asim Chaundhry; Craig Parkinson; Género: Ficção interativa

Ano: 2018

 

Imagem via Netflix

Sinopse:

No ano de 1984, um jovem problemático começa a questionar a realidade ao seu redor, à medida em que tenta adaptar um livro para vídeo game, e começa a enfrentar questões perturbadoras.

Opinião:

O entusiasmo foi enorme quando a Netflix divulgou o trailer de Bandersnatch em finais de Dezembro de 2018, um filme baseado na série Black Mirror. A película começa com uma breve explicação ao telespectador, de que este terá 10 segundos para tomar decisões ao longo do filme, findo o qual, será feita uma decisão aleatória em seu lugar. Após este estimulante introdutório, seguimos a história de Stefan, um jovem programador que está a tentar adaptar um livro-jogo chamado Bandersnatch, para um vídeo-game. E vamos fazendo escolhas em nome do protagonista.

O percurso do longa é de cerca de 90 minutos, que pode, entretantoo, variar dependendo das decisões que o telespectador toma, com diferentes resultados. Apesar deste enigmático conceito, onde um filme torna-se vídeo-game e vice-versa, sentimos que Bandersntach caí num limbo, sem chegar necessariamente a ser um filme, nem um video game. Uma imprecisão que não retira a inovação da proposta. Aliás, a ideia de misturar os dois elementos e de envolver o telespectador num papel de um ente superior, lidando com temas como destino vs livre arbítrio, é fantástica.

Para quem, contudo, esperava sentir-se, digamos, desafiado (coisa facilmente de acontecer com Black Mirror) pode ficar desapontado, já que esta é uma proposta muito mais suave que o habitual. Por certo, Black Mirror conseguiu distanciar-se do que era previsível.

Recomedamos, entretanto, toda a cauetla nas respostas que você, como telespectador, vai dar durante o filme. Muitas das perguntas que são feitas têm um cunho ético e mesmo que seja para efeitos de mero entretenimento, a Netflix terá acesso as respostas dos telespectadores e ao perfil dos mesmos. Não queremos por descuido, deixar o rastro de um perfil de “psicopata” na base de dados da Netflix, pois não?

Tirando este senão, é uma experiência aceitável, e foi um bom presente da Netflix para os amantes de Black Mirror que encerraram 2018, na grande expectativa do que 2019 trará para esta série.

A nossa pontuação: 3.0 em 5 estrelas.

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=XM0xWpBYlNM

Desabafo de uma qawwi

#6| Negaton – Acidente Tecnológico

3 mins de leitura

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Lá se vão quase dois anos desde que cheguei ao planeta terra. Desespero-me por ainda não ter conseguido cumprir a minha missão, mas já estou mais acostumada. Capacitei-me na arte mágica de transformar cebolas em caril. Aprendi a fazer refeições diárias, a dar valor ao dinheiro, pese embora o abomine. Porém, continuo sem perceber a natureza do ser humano: é luz ou é treva? Perversidade ou amor? Inconciliável hibridez. Assim parece ser o ser humano.

Por bem da minha missão, decidi evitar ao máximo contacto com eles, mas julgo estar a falhar tal desiderato. A verdade é que cada vez mais fascino-me por esta espécie. Até fui acometida por alguns dos seus hábitos: passo muitas noites a dormir, e pelas manhãs bebo café, enquanto leio o jornal. É vergonhoso confessar, mas adoro o café. Quanto ao jornal, só o faço por necessidade. Há que procurar pistas da minha missão. O que incomoda-me é a moribunda e inglória tecnologia de imagem estática.

Estava eu sentada na esplanada dos tolos, à espera de um galão, quando li a notícia. Os meus lábios secaram. Será que eu tinha dado o tiro? Causei tamanha tragédia? Conheci a Gabriela naquela esplanada. Uma mulher simpática e apressada. De vez em quando esticávamos conversa e lembro-me perfeitamente do dia em que ela, cabisbaixa, contou-me o sucedido:

– Fui demitida Linan, estou desempregada.

Vale ressaltar que fiquei com pena. É que o assunto de emprego é muito sério para os humanos. É o sustento do seu dia a dia.

– Lamento, Gabi.

– Se eu pudesse mostrar aos meus chefes – Gabriela limpava uma lágrima sorrateira – se tivesse uma câmera naquele dia e filmado o que aconteceu, eles iam pedir-me desculpa!

Pobres humanos… ainda dependiam das lentes de câmeras fotográficas para registar as suas memórias. Comovida, abri a minha sacola e procurei a salvação para o problema de Gabriela: Negaton. Tecnologia do meu planeta que permite registar memórias a partir do próprio cérebro. Bastava unir o dedo indicador à lente, para começar a gravar. Ou então invocar recordações do passado e tudo transferia-se para o mundo exterior, em formato físico.

– Funciona de verdade?

– Certamente.

Numa assustadora inércia, Gabriela apenas lançara-me um olhar de desdém.

– É mentira! Se tivesses uma tecnologia capaz disso, estarias a vender e não a oferecer-me!

Contive uma risada. Toda a tecnologia que existe no meu planeta tem o único propósito de optimizar os qawwis. Nada mais. Nós não comercializamos o conhecimento. Mas tal parecia difícil de ser compreendido pela Gabriela.

– Quero apenas ajudar-te Gabi, és uma boa pessoa. Usa o negaton para resgatar a tua dignidade e o teu emprego. Mas guarda segredo! Não mostres a ninguém, e muito menos digas quem é que to deu!

Dias depois, Gabriela telefonara-me a agradecer. Experimentara o negaton, conseguira extrair do cérebro as suas memórias, e pôde exibi-las em formato de vídeo. Resultado: recuperara o emprego. A partir desse momento não parei de receber novidades. Gabriela clamava que negaton havia revolucionado a sua vida. Podia reviver quanto quisesse as suas recordações mais preciosas. Perder um churrasco na casa da sogra ou uma festa na escola dos filhos já não era um problema. Usava o negaton no marido e nos filhos. Fotos e filmagens no celular? Tudo ultrapassado. Com negaton, o cérebro passara a ser a câmera fotográfica. Até de madrugada, Gabriela telefonava.

– Linan, amigaaa!! Porque é que estás a perder tempo? Com esta tecnologia podias ficar rica, andar num BMW e não a pé! Negaton é a melhor coisa da vida! Porquê esconder?!

O incontrolável êxtase fez-me perceber que Gabriela estava a fazer uso excessivo daquela tecnologia. Aliás, quando deixei de receber notícias suas, devia ter desconfiado que algo descarrilara. Agora estava tudo explicado:

Jornal o Besteiral

Insólito: homem dispara contra a esposa por causa de um filme

O caso ocorreu na madrugada de segunda-feira. Os vizinhos relatam que o agressor, Mário dos Galhos, já revelava um comportamento bastante possessivo com relação a esposa. A vítima Gabriela das Inocências, 35 anos, foi baleada pelo marido que a surpreendeu a assistir um filme o qual, segundo ele, era prova de infidelidade da esposa. O agressor diz que foi incapaz de controlar o acesso de ciúmes, já que a esposa estava a reviver memórias com outro homem do passado, gravadas através de um dispositivo chamado Negaton, tecnologia de ponta com a capacidade de reproduzir memórias humanas. “Errei, sim senhor, mas não nasci para ser chifrudo” – desabafou o autor do crime. As autoridades estão agora a investigar a veracidade dos factos, a possível existência de uma tal tecnologia nestes moldes e a respectiva origem.

 Respirei fundo e fechei o jornal. Foi então que dois polícias entraram na esplanada. Visto que o meu radar de qawwi avisou que eles vinham atrás de mim, juntei os braços em frente ao corpo e teletransportei-me para outro lugar. Os humanos não estão prontos para isto.

Linan

(Inspirado na série black mirror)