Eu sou uma espécie de comandante deste navio que se chama ‘Sob Placas Tectónicas’ e vou empurrá-los ao alto-mar desta história que cruza dois jovens: Bruno Mondlane e Denise Cossa e de lá vamos viajar em torno das peripécias que se fragmentam por hilariantes 30 capítulos que perfazem 218 páginas e algumas reticências. Sim, um livro robusto, não só pela quantidade de folhas, obviamente.
Estamos perante um romance, isso não vejo porquê esconder, é a coisa mais fácil de perceber logo que estamos diante do livro. Não pelo título obviamente, mas pela extensão do livro e sua mancha gráfica e quem mergulhar nele, claro, absorve o quão intensas são as estórias.
A trama é única e bem definida pela autora: o amor entre Denise e Bruno. Bom, dizer o amor já é complexo e profundo, tendo as febres que perseguem este sentimento, mas posso ir mais longe, porque Lilly Maxwell fala deste amor na sua própria dose, com as suas peripécias, que não são poucas; com os seus dramas, com os seus conflitos e circunstâncias de cortar o fôlego.
Vamos a história, por pouco tempo, claro: o livro apresenta-nos um casal de jovens, na emergência de uma fase adulta, embora coloque a Denise com dois anos a mais que o Bruno, sendo ele com 28 anos. Conheceram-se num bar, na noite de uma sexta-feira e um beijo fugaz no estacionamento marcou o encontro, antes de se reverem no trabalho da Denise, acidentalmente, quando este, empreendedor, ia prestar serviços que acabara de ser adjudicado. E o encontro circunstancial do bar transformou-se num propósito para Bruno, que via Denise se esforçando para fugir das suas garras e, quando acreditou que usasse o seu principal trunfo, o facto de não poder conceber, pudesse abafar as intenções do rapaz, eis que foi traída, pois ele continuava mais interessado que nunca, mostrando-a um perfil incomum e, mais do que isso, um senso amável e respeitoso pelas insuficiências do outro.
Na verdade, este é o motor para a condução desta história, é o enredo que o narrador usa para conduzir a narrativa.
Para além disso, há pequenos galhos de estórias que fazem a história maior, onde se narram peripécias, por exemplo, entre a irmã de Denise, Neide, com Jonas, amigo e sócio de Bruno, um amor de infância que sobrevive a tempestades.
A bebé que Denise encontra largada na rua, e que perde a chance de adopta-lá, também faz outro fragmento da trama, divide opiniões e sentimentos, acelera uma AVC na mãe de Bruno, dá as maiores transformações ao enredo, colocando Bruno a viajar para Beira por sete meses, mas também amputa crises entre as duas famílias.
Como se vê, Lily sugere-nos um livro sobre o amor, mas também sobre a vida urbana e convida-nos a atravessar na nossa própria rotina, marcada por nuances diversas, onde a família joga um papel crucial para nos levantar, bem como para nos arruinar; onde a amizade pode ser fundamental para o nosso crescimento profissional, mas também para um universo de intrigas, onde os ciúmes e a inveja são sentimentos que sempre desfilam a classe. A Lilly não deixa, entretanto, de cutucar alguns fenómenos sociais como a corrupção, ao confrontar uma assistente social que propõe adopções ilegais. E nisto, a autora propõe, também, a discussão da esterilidade, um tabu na nossa sociedade até aos dias que correm e motivo de adultério senão de separações.
Na verdade, a Lilly não nos mostra uma face diferente do que os outros livros e filmes de amor nos sugerem, apenas nos coloca uma visão local, onde é possível discutir os nossos próprios assuntos, as nossas próprias pessoas e os nossos próprios tempos. É um livro deveras actual, que se concentra no agora, ao descrever a cidade de Maputo como ela é, um bónus turístico ao leitor, que reconhece a baixa da cidade, exactamente às imponências da Rua dos Desportistas, às garagens humildes do Alto-Maé e o bairro da Polana. Ou seja, é um livro da cidade, de pessoas da cidade, de problemas da cidade, mas não uma cidade qualquer, uma cidade africana, onde o facto de não poder ter filho não está na moda, onde a mulher que se relaciona com um homem mais novo é vista como cobra, onde um empreendedor ainda não tem trabalho decente se não poder uma grande obra.
Este livro não deixa de exaltar e promover a mulher, colocando a Denise e a Neide, embora com uma renhida rivalidade em quase toda a narrativa, em posições empoderadas, sendo elas donas de si e dos seus percursos, sem qualquer dependência masculina.
Diríamos, sem qualquer dúvida, que estamos perante um discurso feminista – pois, no final, ele se impõe às tempestades machistas. É um narrador que conhece a mulher, e a sua descrição minuciosa não nos engana. É um narrador que se coloca na terceira pessoa, omnisciente, por isso nos oferece uma visão ampla dos eventos e sentimentos, percepções e opiniões. Usa uma linguagem informal, mesmo a nos convidar para um palco do cotidiano, das nuances diárias, tal como sugere esta narrativa. É um narrador que vale pelo seu poder descritivo, de locais, situações, sentimentos e atitudes, mas, mesmo assim, abre espaço para que o leitor identifique momentos através dos diálogos, bem cruzados, assumo, e, por isso, intensos.
É uma escrita continuamente convidativa, penetrante e enigmática, com uma voz certeira sobre assuntos femininos. Não é uma escrita difícil de digerir, tem as palavras soltas e com os seus significados destapados, mas rica em adjectivações. É um romance que nos deixa descobrir, mas não nos oferece tudo. E quando finalmente nos revela os factos, surgem novos paradigmas.
Este jeito de Lilly Maxwell contar-nos a história é singular, pois ela finge nos saciar, para, depois, nos apunhalar com verdades jamais imaginárias. Quem diria que os escritórios onde Bruno iria propor um projecto trabalharia a Denise? Quem diria que quem iria tirar a Denise da esquadra seria o seu pai? E quase todo o livro é revestido desse “quem diria”. É uma história que gira sob placas tectónicas, como o título nos sugere, ou seja, grandes blocos rochosos semirrígidos que compõem a crosta terrestre. A Terra divide-se em quatorze principais placas tectónicas, as quais se movimentam sobre o manto de forma lenta e contínua, podendo aproximar-se ou se afastar umas das outras. Lilly abusa desta metáfora de forma formidável, ao colocar o rebuliço entre os protagonistas como sendo uma placa tectónica. Aliás, A movimentação das placas resulta na formação de montanhas, fossas oceânicas, actividades vulcânicas e terramotos. E não é mais do que isso que esta obra nos mostra. É deveras interessante, porque não, que uma funcionária bancária busque um conhecimento da geologia para arrumar a sua trama e bem conseguido, porque, afinal, as placas tectónicas implicam tensão e potencial para causar grandes mudanças, a mesma tensão em que Bruno e Denise sempre sofreram e as mudanças que dela advêm.
The butterfly was still perched on Nuru’s hand, flapping its wings at the same speed as the cloud from a laser. He tried to focus, ignoring the snorts of the dinosaur sleeping in the garden.
“And the nothing, would become all.”
Nuru closed his eyes. No. That made no sense. Still, the message continued to slowly ripple through him. Like a raindrop in the river. He observed the surroundings. Stefanotis’ valley was still dotted with sparkling lakes, generous waterfalls descending the sunny slopes, flocks in the sky forming a vast v.
“Are you ready to dive in?”
Faced with the urgency, he allowed the butterfly to disappear, and merged with the earth. Crossed cables, water tables, until reached the castle. He then sprouted from the ground, in his original form. Sweating all over, as the molecules of the earth were all twitchy, burning as lava. Nuru pushed open the heavy doors of the noble hall of the sea, with an invisible tug.
The music ceased to play and everyone bowed before the king.
“Please, proceed”. He did not intend to interrupt the party. Although he feared that they were running out of time. For now, he was just going to get his brother Kosi.
“You have to come with me, Kosi”, Nuru had put an arm around his brother shoulder “Right now. Haven’t I seen Oderek around here …? Oderek!”
Oderek, an administrator famous for his bad mood and for the pragmatic way in which he resolved matters related to the Council, heard the call, and walked quickly towards the king.
“Your Highness?”
“Gather some members of the Council and issue an alert of level 1.”
“Level 1?”, Kosi repeated doubtfully, but Nuru continued to pass his instructions.
“A phenomenon is about to happen, on the other side of the white curtain. All are expected to hibernate, immediately, for the rest of the day. Oderek, please circulate this news, urgently.”
“Understood, your highness.”
Oderek towed himself with agility typical of his twenty-year-old physique, although the weight of his age was evident in the hard expression of his eyes.
Kosi followed his brother, the cloak of his origami dangling in the air.
“Hibernate? What kind of phenomenon are we talking about here? It seems as Stefanotis itself is going to resound!”
“Have no questions about that, my brother”, Nuru accelerated his steps, “Everything is about to resound! And we both have a sensitive task ahead. Let’s go to the lab!”
Outside, they stopped for a while and observed the sky as the weather changed. Warm, reddish clouds covered the triangular and lilac moon, lighting up the gold of Stefanotis’ arches and pyramids. Giraffes and elephants began to flee to the woods. A fleet of six horses, carrying members of the Unit Council, passed in a uniform trot. The statue erected in the middle of the capital, with the image of King Kosi and King Nuru, holding the autumn arrows, shone brightly. It was an astounding work of art, that symbolized an important milestone in Stefanotis’ history: the victory against NKunkumba Sea.
A strong qawwiwas mounted on the last horse, holding, and blowing a trombone. The sound spread everywhere. At the same time, telepathic messages were broadcasted: “Alert of Level 1! All qawwis must hibernate immediately. Predictions of rare phenomenon, over the white curtain.”
King Kosi crossed his arms:
“How do you want to go to the lab? through the caramel, or we just go?”
Several guards approached, waiting for instructions, but King Nuru dismissed them.
“We just go, Kosi! The two of us. There is no time to waste”.
Kosi’s wrinkled brow fell apart and his tone became warm.
“You never let me down, brother, so I will trust you on this. Let’s do it!”
The two disappeared across the land, as raw energy, transporting themselves through Stefanotis’ viscera. The laboratory resembled a helipad, and was built in the clouds, a few feet away, on the castle’s radar.
Two sparks crossed the air, giving way to Kosi and Nuru. In the middle of the atrium, a flickering bubble emerged, becoming the figure of a tall, dark qawwi, in uniform with an armor. He waited for the two to approach.
“Renowned master Godido”, greeted Kosi, happy “It is so good to see you, my brother!”
The other nodded slightly.
“The honor is all mine, Your Highness”, he then looked worried “I received the alert, Your Highness. A phenomenon over the white curtain? Is that right?”
“A phenomenon that will change our history, forever!”
Godido took a step back and made a blanket arise in the air. He stirred it towards the laboratory and some pink particles carried the encryptions to the entry. The gate, with a blue glass embedded in the wall, and two leaves of a few tons each, opened automatically in all its height, revealing its vast interior.
Nuru and Kosi moved forward, although Kosi was already uneasy and confused.
“I still haven’t realized what is this spectacular event that leads us in such a hurry!”
Nuru, however, had disappeared through one of the laboratory compartments.
The place was not just a park for the ship. It kept objects of extreme importance for the kingdom, and protected the only gateway to the NKunkumba Sea, a region inhabited by ikras, creatures sleeping in shadows. And that should remain isolated.
The metal and glass ceiling covering the gigantic helipad, contained several rows of reflectors arranged in circles. Same focused on the silver pavement and on the closed black glove-shaped nave, parked in the center.
Kosi became more apprehensive when he saw his brother returning from department B, carrying some pods.
“Essences? What do you need them for, Nuru?”
“I think we will have a new project, Kosi”
“Oh…”, realizing that his brother was just smiling, Kosi added impatiently “Enough already, don’t leave me with my “ohs”! Expand the details on this subject, my brother!”
With a very slight mechanical noise, the ship’s door slid upward. The voice of the electronic security system gave permission to enter, and the two moved forward, crossing the vast corridor to the cockpit.
“Let’s go to the space”.
“Sounds good to me” replied Kosi, curiously “but… where is that?”
Nuru raised his finger, pointed it upwards.
“There. Outside Stefanotis”
Kosi burst in laughs.
“Outside Stefanotis! Are you losing it, brother? Although separate, the NKunkumba Sea is within our dome! What “outside” that would be?”
“You’re wrong”, snapped Nuru, sitting in the pilot’s seat, staring excitedly at his brother, “I mean, you will soon be wrong. Can’t you feel how hot we are? The outside of the curtain is infinitely hot. Everything boils.”
“Outside of the curtain, hot?”, flabbergasted, Kosi almost missed his seat. Was Nuru referring to the same curtain he knew? The barrier that surrounded Stefanotis? That was impossible. The same had been created during the battle against the NKunkumba Sea. It was the only way found to separate Stefanotis from the other region, thus avoiding contact or invasion. It was a barrier made of wasps, particles of great elasticity when used in concentrate. The two brothers had managed to make the curtain impermeable.
But outside the curtain… well. It was a non-existence. An absolute nothingness. Not even a vacuum. How could Nuru now claim that its exterior was “infinitely hot”?
Nuru began to operate the ship’s commands, smiling. Kosi was about to have much more to question, very soon.
“It may not make any sense now, but… wait and see. It will be great.
“I think…”
Kosi went silent. He already felt it. For heaven’s sake, now he could feel it! They were about to expand.
Would it hurt?
Nuru looked at him. He did the countdown. Although time felt frozen.
Sixteen hours, two minutes, zero seconds.
Sixteen hours, two minutes, zero seconds.
Sixteen hours, two minutes, zero seconds.
Sixteen hours, two minutes, one second. Swoosh.
Part II
Sitting at the window of the ship’s small compartment, Kosi observed the great novelty. Space. The ship was sliding along the invisible edge of the elastic barrier. The white curtain protecting Stefanotis had broken into infinite portions. And everything expanded. Very quietly. For there could be no sound in the void. After the explosion, what did not exist before, continued to expand for fractions of a second. In a sudden impulse, Nuru and Kosi stopped the inflation.
Kosi was as amazed as he was frightened by the rain of matter and radiation. What a great way to test their strength! He knew he was very powerful, but combining forces with Nuru, they were just unshakable.
Sometime later, they discovered a giant atomic cloud, which collapsed and gave rise to a new system outside Stefanotis domain. Nuru was obsessed with the idea that there, in that domain, would be a suitable structure for his new project. He had asked his brother for help in creating a temporary portal.
It was on the 7th day of observations that Nuru confirmed his suspicions. At the sound of the harp of the sun, their favorite tune, he turned to his brother and held out a small mirror to him. Kosi observed reluctantly. Reluctance turned to curiosity, as the mirror reflected a cluster of luminous globes.
“Well, well, if I don’t have to bite my tongue”.
Nuru crossed his arms.
“I told you. Now hurry up with that portal, Kosi!”
“Agreed”, in an upright position, Kosi floated to his work area inside the ship, followed by Nuru.
Inside a shelf, a white sphere hovered and spun. Nuru slid it into his hands. The object reflected various colors, like a flashing light bulb. Leaning on the shelf, Nuru projected a replica of the new sun, next to the sphere. The brilliant numerical combination twirling around the sun, went down Nuru’s chest like a cool dew. He couldn’t help but laugh. Not just because he was fascinated by mathematics. But because that was what the message said. Maths would be the key to the future.
“Hey, what are calculating?”
“I am looking for the right frequency”.
“And what’s so funny about that?”
“It is very funny indeed, Kosi. Because we are going to be known as the singularity.
“Singularity”?
“Well, never mind. Now listen, we need everything ready in two days at the latest.”
“The idea is still to make a parallel launch?
“That’s correct, Kosi. And of course, to use some of our essences, for the qlubs”
Kosi snatched the sphere out of Nuru’s hands.
“Let me guess”, he closed his eyes, “all our species, I see… all our structures… good, settled. Wait. Is one of the essences the abundance?”
Nuru nodded. Kosi closed his eyes again.
“And happiness?”
Nuru nodded again, knowing in advance that Kosi would get all the essences right. And so, he did. The new qlubs would contain dreams, happiness, abundance, peace, trust, hope, and finally, love. The most exquisite essence of all.
“Why love, my brother? Why not hope?”
“Think, Kosi. What else would be more absorbing? Other than gravity?”
Kosi shrugged his shoulders. He popped up in his hand a tiny white capsule that looked like a pill. Soon after, two tubes appeared. One was transparent, as if empty, the other contained a brown substance.
“I have a few suggestions.”
Last Part
The harp of the sun continued to resound in space, now filled with galaxies.
“I hope you have a comfortable trip”, Nuru murmured, patting the chief crewman on the back. They were suspended, floating between the lab-ship and the travel pod. One almost parallel to the other. Nuru liked the vehicle very much. It was more resilient than he had expected.
The chief crewman floated close to the king, in amazement.
“It is an honor, Your Highness, to be one of the firsts, part of your new project”.
“I have to agree, it is a special event”
The captain and the other two, were in new uniforms, helmets, and carried a fair amount of oxygen. Even though the qawwis were somehow like Nuru and Kosi, they did not deal in the same matter with space conditions.
Nuru levitated to stand facing the ship.
“Kosi, my brother…!”, it was the second time he had called him.
Maybe space was getting monotonous and Kosi was bored. But would he miss the launch? None of it had any meaning without his brother.
He floated back to the capsule. Helped the crew members aboard. Once they were settled, Nuru positioned himself at the lead crewman’s window. He fastened a button on his suit and held out a golden scroll to him.
“The device on your suit is a second alternative for communication. And here is the list of everything you will need to know and check in the new home. I’ll seal the capsule for security reasons, but I figure the process won’t take long. As soon as the launch is over, it will open. Kosi and I have to get back to Stefanotis, we have been away for a long time, but we want to hear from you soon”.
The crewman nodded. Nuru continued:
“The new curtain has a grille. It will remain open. You already know the coordinates, but if for some unlikely reason you find it closed, or you can’t locate it at all, rely on these instructions”.
“Very good, Your Highness, all noted”, the crewman tucked the parchment in his uniform pocket.
“I will seal the capsule. Good luck!”
“See you soon, Your Highness”.
Opening his hands towards the capsule, Nuru began to use his strength to seal the vehicle. A few seconds later, he lowered his arms, relieved. They were safe. Now, the final touch. The vital part of the project. He floated to the entrance of the ship, to fetch the sphere. Then walked back to the capsule to attach it to the rear of the vehicle. He was about to leave the ship, when had to stop.
What was wrong with the sphere?
Taking a few seconds to analyze the problem, he realized it was the project. All of it.
It was altered.
He stepped back, his pulse racing. Kosi had introduced new components, without his consent. The changes… looked appalling. The qlubs, once grouped in one field, as in Stefanotis, now seemed to be separated. Kosi had included the so-called eighth qlub, bare, and so many other elements which…
“Kosi!”, the scream made the ship shudder.
“You called, brother?” Kosi had reappeared quickly.
Nuru turned and saw Kosi, just as unsmiling as him.
“Have you lost your mind?”
Kosi continued to glare at him, his expression unchanged.
“Of course. In the moment I believed you had any regard for our bond and our collaboration. This isn’t your project, it’s ours. But you seem to have forgotten”.
Two days earlier, while they were discussing the sphere, Kosi had suggested the inclusion of a very strong pulsating element in the essences: the white capsule.
“With this, my brother”, Kosi explained at the time “figs will no longer be just for fun. This, in the new home, will make the qawwis need to feed”.
“What do you mean? Are you suggesting that when we go down there, we won’t be able to shut it? A kind of… hunger?”
“That’s right. Hunger. Wouldn’t that be stimulating? I also suggest we create an eighth, undefined qlub. Let the vessel fill itself.
Nuru cautiously had picked the brown tube. He felt the essence and its iotas. It was one of the strongest. He was familiar with it, although he had mixed feelings about it.
“What do you think of my suggestions, brother?”
“I’m afraid we might create an imbalance”, responded Nuru “Empties are dangerous, you never know what they will seek to fill themselves.
“But Nuru, don’t you trust the…”
“I prefer to keep it simple, Kosi, true to Stefanotis.”
Kosi could have argued, but at the time he had preferred to keep quiet. It was useless.
Nuru now comprehended that he had been so focused on designing the project, that he forgot to tell his brother the entirety of the message.
“Kosi, I will explain it to you, this is bigger than us, but first I have to reposition everything”.
Lights and liquids bubbled from the sphere, tubes whirled around it, faster and faster, like propellers of a fan, while Nuru fumbled and tried to set it down on the metal bracket. The sphere disappeared from his hands. And in the same second it fell into Kosi’s.
“Stop it”, Nuru’s veins were all bulging “this is not the time!”
Kosi held the sphere persistently.
“You want to work? Well, then work. But not on the sphere. On our relationship. Respect and trust my decisions! This is just an experiment, what’s the big deal? And you know what? It is by mere chance that you are the king of Stefanotis. Not because you are better than me! We were both made to rule. We both have the power and the duty to lead all this!”
Kosi had noticed that his brother’s ego was on fire. Maybe it was because he always got some of the most interesting things and experiments to be done around there. Always him. Now, that project too. Kosi was sure that if he had been in the same circumstances, in the same position, he would have been chosen by the fortuitous. But he had seemed out of touch with such phenomena. Chance.
“Kosi”, Nuru’s voice came out half muffled, “Kosi, my brother, without you, neither Stefanotis nor I are anything. You know that. Now, give me back the sphere, please, we’re out of time.”
“Prove it.”
“Kosi, don’t you dare!”, he tried to move forward to stop the other from attaching the sphere to the capsule, but could not. It was as if his feet, hands, and body were bound by handcuffs. He felt unable to use his strength. With a cynical grin, Kosi displayed his open palm, oriented toward his brother. Hurt, Nuru realized that his brother had just thrown a little grayish ball at him, which had unfolded into dark chains that leaped at him like catfish and disappeared within his body.
Nuru tried to hide his dismay.
“How long do you think you will hold me here?”
He was taking very small steps, like a baby learning to walk.
“Time enough to proceed with the launch, my brother”.
“Kosi, no. Please!”
After docking the sphere, he smiled jovially and showed his thumb to the crewmen inside the capsule. Then pressed the red button. An extensive beam of light erupted, and made a long traverse, covering the capsule, into the distant star system.
Nuru took another step. A flickering jump. Extremely fast, but wobbly. His arm had stretched out towards the capsule. It was at this instant that the crew members realized that something was not right. They tried unsuccessfully to get out. Kosi already had his finger on the second button. He pressed it, causing the capsule to shoot out.
Still not understanding what had happened, Nuru tried to stabilize. He found himself dizzy, on the edge of the lever. And stumbled at the threshold of the portal.
The portal was still open. Kosi saw his brother suspended, struggling against the force of the lightning, his arm raised. He knew he would not be able to climb. He was not able to use his powers.
“Kosi, brother, give me your hand!”, he tried in vain to float upward, his hands slipping from the invisible support.
“No. You brought this to yourself” there was no complacency in his voice. Just a simple remark “Good-bye, brother”.
Before the portal even closed, Nuru fell and was sucked up like dust by a vacuum cleaner, until he was out of sight. The harp of the sun stopped playing.
The portal, a few minutes later, closed, restoring the dark void.
Kosi took a deep breath, straightened his origami, and closed the ship’s door.
After he flew away and entered through the white curtain, he parked.
Now that he had come that far, he had to go all the way. No one, except the two of them and the crew, knew that the new white curtain had an opening. He exited the ship and floated to the invisible grille. Raising his hands, he sealed the grating, leaving his brother in the unforeseen depths of space.
Originally published in “Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa (volume 1)”, 2022
Ancient stone portal with a staircase illuminated by a mysterious light.
At the end of the 21st century, a group of young people began a sequence of clandestine meetings on Mount Chinhamapere in Manica. They climbed the path at dawn, with the stars overhead as their only witnesses. They often followed in single file, singing ancestral songs, wielding torches that looked like reverberating comets. Every morning they would rise from the top of the mountain and descend the gorge quietly. The beaming faces seemed to reborn into a new existence. After that, they would sneak to their homes. And this was repeated almost every day.
One day, when they went to the mountain, they were surprised by a police contingent. The entire area surrounding Chinhamapere was fenced off. Had anyone died? Gondo, the leader of the group, approached and enquired the head of the contingent.
“We are here by instructions of the administrator”, the agent in charge said. “And you, what business do you have here?”
Gondo did not deign to answer. He turned his back and, along with his group, descended the gorge, leaving behind, at the top of the hill, a dozen suspicious agents.
The administrator was surprised by the unexpected visit when the sun rose in the district of Manica. It was his daughter, Narita, accompanied by a good-looking young man.
“Welcome!”, he said, still unable to disguise his surprise.
They moved into the spacious office. The administrator was gesturing vibrantly, happy to see his daughter, so he wanted to know:
“To what do I owe the honour of this pleasant visit, dear? And who is he?”
“He’s Gondo.” Narita replied.
The father raised his eyebrow. That name rang on the walls of his consciousness like an unwanted palpitation. He sat down slowly. The cheerful semblance that had just nourished his countenance disappeared. The administrator was aware that Gondo was the leader of the gang that was plotting in Chinhamapere, threatening the tranquillity of the entire District. He was startled to see his daughter in such company. Without holding back, he asked her:
“And you, daughter, what are you doing with him?”
“Gondo is my mentor”, Narita replied bluntly.
A nervous smile invaded his pursed lips: with which then, his little girl was also part of that gang. This thought made him rise abruptly from his comfortable seat and make his way to Gondo.
“A good opportunity to have you arrested.”
The administrator could not hide the gesture of disapproval, the disgust he felt for that uncomfortable presence, so he ordered:
“Get out of here now, before I have you arrested.”
“But you don’t even know what I’ve come for.”, Gondo said calmly.
The dialogue continued, without reaching a consensus. Gondo demanded the constitutional right to assembly, and the administrator countered by saying that the time at which such meetings took place was suspicious, and that if they really wanted to do so, they would have to do it in broad daylight, always observing the respect due to that sacred space.
“It will be as you say”, Gondo agreed.
“By the way, what do you guys do there? Do you pray?”, the administrator wanted to know.
“That too.”, Gondo replied, without hesitation. “But most of the time, we eat and chat.”
“Chatting in the mountains, like lepers…”, the administrator joked. Since, Chinhamapere, comes from the term Mapere, which means leprosy in Cimanyka, for that mountain, in times gone by, served as a refuge for lepers.
Because it comes in threes, and nothing can stop an obstinate will, the next day the young people gathered on Mount Chinhamapere at noon. But they were followed by the same police contingent as the other time. That’s when the unusual event took place, which would bring the entire administration to a nervous breakdown. It so happened that, once they reached the top of the mountain, the group of young men disappeared without a trace.
Then, in the administrator’s office, the atmosphere was one of tension and distrust. The officers couldn’t believe what their own eyes had experienced. It was inexplicable. Incredulous, the administrator looked deep into the eyes of the head of the operation – asking for confirmation.
“It’s true, Your Excellency”, the head of operations said. “We couldn’t figure it out, the fact is that we were following the elements and we were right behind them, but as soon as they reached the top of Chi, there was a flash that blinded us, and soon after, they disappeared.”
“You mean they were swallowed by the rock, is that what you’re saying?”, the administrator commented sarcastically.
“We have no explanation for what happened, they just vanished”, the officer concluded.
“They were abducted?”, the administrator insisted.
“I’d say they’ve broken the concept of space and time, that’s all I can say.”
“A travel through time! That is the last straw.”
The administrator asked for the telephone, his hands trembled, because his daughter was also on that expedition, not least because attempts to persuade her to move away from that group had fallen on deaf ears. He called the capital.
Immediately, help arrived from Maputo: archaeologists, physicists, historians, philosophers, mathematicians and a number of journalists; accompanied by a Zimbabwean and South African entourage with strange machinery. Quickly, they placed a tent in Chinhamapere and the place went from a simple secluded plateau to a center of scientific research.
They made excavations, used various measuring instruments and capturing sound, light, movement, heat; They searched molecule by molecule, but found no trace of human presence or passage through those days. At the top of Chinhamapere, researchers stared in amazement at the cave paintings: made of vermilion and orange, there was the art of hunters and gatherers; displaying scenes of hunting and combat, and other signs of praise and admiration for nature and life. The researchers were outraged: had the primitives imprinted on the images a kind of spell or a secret or a hyper-advanced technology?
They listed all kinds of theories, from the most realistic: a door, a window, a canal, a secret tunnel, any hole that would allow circulation in that room; to the most fantastic: electromagnetic fields, illusionism, black magic… but, of all the hypotheses raised, the one that had the most adherents was that of the existence of an invisible time portal.
So, they assumed that there was little to do but wait for the return of the hikers, who were the only ones capable of clearing up the contraption behind the whole paradox.
* * *
Meanwhile, Gondo, Narita, and the other thirty-one members stood before a large crowd of people of different tribes, ethnicities, and races. They were in a valley that was crossed by a multi-coloured river. A sun released delicate rays that gently flooded the space. Suddenly, familiar faces began to appear.
“Wonderful!”, Gondo exclaimed, enraptured.
The fascination of those present was remarkable, as those who appeared were none other than the most resonant faces of African blackness: Eduardo Mondlane, Samora Machel, Kwame Nkrumah, Tomas Sankara, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Agostinho Neto, among others. Meanwhile, one of the elders took the lead in a kind of pulpit and softly began to speak.
“Children of the earth, I greet you, our mission is far from over. Today, more than ever, you are called to resume our struggle: to completely liberate the African continent. Freedom!”
The voice echoed on the vast plain and among the innumerable stars in the vault of that sky. Then the thousands of guests responded in chorus: freedom, freedom, freedom. Everyone shouted, sang and danced in tremendous joy.
After that feast, and receiving the proper guidance, the groups that were formed were taken by a kind of epiphany, from which a body of knowledge was incorporated into them. In the end, everyone went to their respective portals, it was time to return, they couldn’t even tell how many hours, or days, or weeks or months they had spent in that mysterious place.
* * *
In Manica, more precisely in Chinhamapere, rays of light set the room on fire with an intense glow, momentarily sparking those present. Thus, they were unable to see the re-emergence of the group of young people who, after literally being spat out by the mountain, walked serenely beyond the Chinhamapere plateau.
Originally published in “Espíritos Quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa (volume 1)”, 2022
“Quando Audrey e Nomssa ultrapassaram a distância que mantinham nos primeiros encontros, rompendo a barreira turva da indecisão – as suas conversas passaram para lá da simples vida académica. Puseram de lado o jargão escolar. Já falavam das suas próprias vidas aberta e intimamente. A amizade consolidava-se a olhos vistos”
Duas grandes amigas.
Um homem apaixonado.
E uma decisão que muda dois destinos.
Opinião
Encontro em Rosebank é o mais recente trabalho do autor Lex Mucache, publicado pela editora Fundza, cujo lançamento está previsto para o dia 28 de Fevereiro de 2023, na cidade de Maputo. A narrativa tem como foco uma história de amor, mas não só. O empreendedorismo, a amizade e o crescimento pessoal são explorados nesta deliciosa história onde um homem em busca de um sonho, acaba se reinventado e descobrindo as suas verdadeiras ambições pessoais.
Por um lado, temos a história de amizade entre as sul africanas Audrey e Nomssa e por outro, temos a trama do protagonista moçambicano Hermes. Fascinado desde sempre pela famosa académica e bloguista Nomssa G’qola, Hermes decide um dia viajar para a África do Sul, com o objectivo de participar numa palestra ministrada por Nomssa, na esperança de poder conhecer pessoalmente esta mulher que tanto admira à distância. Algum tempo depois, em meio a várias peripécias, Hermes e Nomssa iniciam um romance virtual. No decurso deste processo, Hermes acaba também criando outros novos vínculos que pesam no seu desenvolvimento pessoal. O autor impressiona pela criatividade ao elaborar uma trama tão dinâmica quanto surpreendente no caminho encetado pelos protagonistas.
Sobre o espaço que ambienta a narrativa de “Encontro em Rosebank”, o autor que tem uma forma peculiar de pintar as paisagens com as palavras, nos apresenta um bom retrato da vida académica e de alguns debates que visam explorar a importância da história dos heróis africanos. O autor apresenta também uma imagem viva da cidade de Maputo e de algumas cidades sul africanas, abordando o quotidiano, a rotina das pessoas que viajam entre os dois países vizinhos, incluindo o drama de quem exerce o comércio informal, também conhecido como “mukheru”, caraterizado pela travessia das fronteiras para África do Sul, onde os comerciantes compram bens para revender nos mercados de Maputo. A propósito disto, o núcleo composto por Kiwanga e a família desta, desenvolve um papel relevante na narrativa, evidenciado a importância do empreendedorismo na vida dos moçambicanos. É de forma que podemos dizer que personagens como Kiwanga e Hermes, nesta ficção, trazem-nos uma certa representação do povo moçambicano.
A escrita de Lex Mucache revela-se leve e concisa, com diálogos bem construídos, embora em alguns momentos certas descrições pareçam demoradas. É uma leitura rápida e prazerosa, auxiliada pelo lindo e excelente trabalho de diagramação feito pela editora Fundza.
Em resumo, Encontro em Rosebank é um bom livro para sorrirmos e que vale a pena ser lido, pela mensagem que nos traz sobre o amor, a amizade e o desafio de nos tornarmos e nos fazermos humanos melhores.
❝e o que era a juventude sem esperança?❞
Sobre o autor
Lex Mucache é pseudónimo de Heráclito Alexandre Mucache. Nasceu na cidade de Maputo no ano de 1980. É professor e desenvolve actividades de leitura e escrita criativa nas escolas primárias. Autor do livro de contos «Asas Decepadas» (Kulera, 2020), obra finalista do Prémio 10 de Novembro de 2019. Tem obra dispersa em vários jornais e revistas.
1. MaianeTigre – Para além de uma produção literária destinada ao público infanto-juvenil, você também é estudado por possuir publicações dirigidas para o público adulto. Dono de uma escrita versátil, abrangendo a poesia, o conto, e, por fim, incluindo-se o romance, consideramo-lo um escritor multifacetado, primeiro porque é capaz de investir na hibridez dos gêneros, além disso, possui uma rica capacidade de inovar ao aderir às mais atuais tendências da prosa contemporânea. Comente tais inovações na linguagem, verificadas, por exemplo, nas obras Mundo Grave (2018) e A invenção do cemitério (2019), afinal predomina o completo abandono das regras gramaticais, no tocante ao registro de nomes próprios com letras minúsculas, no início dos títulos, dos parágrafos, e após o uso do ponto de continuação. Haveria, pois, uma estratégia estilística adotada à la Oswald de Andrade, resultante de um diálogo intertextual, na tentativa de reafirmar o seu ultramodernismo?
Pedro Pereira Lopes – As primeiras versões de “mundo grave” e “a invenção do cemitério” obedeciam ao convencionalismo tradicional, isto é, à gramática da língua portuguesa como a estudei, como a assimilei. Acontece que durante a minha estadia em Pequim, onde estudava, eu redescobri parte da minha africanidade, o meu lugar num mundo fora de Moçambique, fora da África, onde eu era “o outro”. Esta tentativa de aproximação com a África fora de mim me fez partir em busca de uma ancestralidade que, por inocência, eu acreditava que a detinha, como algo que se pode possuir. É a coisa de Saramago de sair da ilha para conhecer a ilha.
Eu gosto de crer que, em termos de técnicas empregues na série (que chamei de “trilogia absurda das minúsculas” – envolve, ainda, o livro de poesia “mundo blue”), a base foi este “disruptivo” e grosseiro “regresso às origens”, à origem da literatura africana, à oratura. Então, o processo de narração funcionaria em um esquema instintivo, quase um fluxo de consciência, onde o narrador chega a duvidar de si e comete erros durante o processo de contação (acontece em “mundo grave”), ao mesmo tempo em que a linguagem se transforma em um instrumento abstracto e subjectivo dentro do livro, no papel, sem obedecer às normas da gramática. Assim, a mancha gráfica, os elementos da pontuação e a maiusculização, por exemplo, obedeceriam a uma espécie de democracia ou liberdade natural da narratividade, em que se estabelece a oratura. À volta da fogueira, não temos como distinguir um Pedro capitalizado de um “pedro” em caixa baixa. Do mesmo modo que não a história pode ter múltiplos narradores, ser interrompida, ser comentada ou não usar o formato tradicional de contação.
De qualquer das formas, eu não inventei a roda, fui o primeiro em Moçambique a escrever três livros em caixa baixa, claro. Mas tens o Suleiman Cassamo, por exemplo, que domestica a língua portuguesa em “O regresso do morto”. Há o Saramago, o Valter Hugo Mãe e o Rui Nogar, cujo único livro em vida, “Silêncio escancarado”, é feito de minúsculas. E em nada isso anula a sua poesia única.
2. Maiane Tigre – Por que você decidiu seguir a proposta de ruptura no gênero, ao adotar o romance policial como forma estética sobressalente no tecido narrativo da obra mundo grave (2018), e o gênero microcontos em O livro do homem líquido? (2021). Quais são as suas fontes/influências, nacionais e estrangeiras?
Pedro Pereira Lopes – Eu nunca me considerei prosador ou poeta. Questiono até essa coisa de “escritor”. Eu vivo em uma relação com as palavras, com a língua, com o exercício literário. Hoje, considerando a moda dos conceitos, eu diria que vivo numa “relação tóxica” com a coisa de escrever. Eu gosto de escrever. É uma relação sadomasoquista, de prazer e dor, o deleite de escrever e a dor pela busca do texto perfeito. Assim, fruto de tal inquietude, de tal desafio em busca desse preenchimento que resulta do prazer e da dor, eu nunca me contentaria em escrever somente um género literário. Eu costumo dizer que não sou bom em nada como não se pode ser bom em tudo. A ser escritor, no lugar dos extremos baseados em géneros, eu prefiro ser um “escritor experimentalista”, uma espécie em trânsito constante, em direcção ao inalcançável. No fim, gosto da surpresa, da possibilidade do impossível, da descoberta e da tentativa.
“mundo grave” começou como uma novela e fui perdendo o controle. Desenvolveu-se como um fungo. Eu queria criar um personagem como o “Jaime Bunda” do angolano Pepetela ou qualquer outro que eu tinha conhecido com Ruth Rendell, Conan Doyle ou uma história como as Sidney Sheldon. O resultado foi algo que eu chamo de uma mescla de policial com o insólito maravilhoso, meio noir, meio horror. E isso era algo nunca antes escrito em Moçambique. Eu sempre admirei o conto e já tinha publicado alguns. O conto é uma espécie de haicai do romance. E isso faz do microconto uma espécie de haicai do conto. E eu tenho uma paixão pelo haicai. Então, um dia eu pensei em escrever contos-haicais, que seriam pequenos contos escritos em três parágrafos, mesmo a imitar o haicai, que tem três versos. Foi quando descobri o microconto ou a micro-narrativa. Achei, dentro desse encanto, “O livro dos abraços”, do uruguaio Eduardo Galeano, e fiquei fascinado. Depois de mostrar um rascunho dos microcontos ao escritor António Cabrita, ele recomendou-me a leitura de “Histórias de Cronópios e de Famas”, de Julio Cortázar, que está disposto como um conjunto de pequenas narrativas. Assim nasceu “O livro do homem líquido”. Eu acho que, no final, imitei sem copiar.
3. Maiane Tigre – A obra mundo grave (2018) é uma forte evidência de quanto você sonda, entre as fendas da miséria social, as intercorrências de um grave mundo, subitamente revelado no homicídio, pela corrução do caráter, na fraqueza do espírito de pessoas más. No enredo, o insólito, a violência e o trágico se cruzam nas encruzilhadas da urbe, que se retroalimentam da falência das instituições. Nesse ínterim, demonstra-se, com notável vivacidade, as periclitantes faces da cidade flagradas pelos olhos atentos do narrador, os quais transformam um simples acontecimento em um crime macabro, repleto de suspense e envolto em brumas de mistério. Quais são os verdadeiros papéis da cidade, do insólito e do grotesco nessa narrativa?
Pedro Pereira Lopes – Sou fruto tanto do ambiente rural como da cidade. A minha vida adulta, em particular, é uma vida de cidades, de trânsitos. Diferente do campo, a cidade parece um organismo mecânico, um formigueiro de homens e edifícios e movimentos. Não estou a querer dizer que há mais vida na cidade, mas nela a vida é um produto processado, os comportamentos e as ideias são fruto de um sistema utilitário que se parecem com os supermercados. A cidade, a sua fluidez, a sua frieza e a padronização, está mais próxima da metáfora da composição “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd, ou da modernidade líquida, de Bauman. Mas todos nós gostamos das cidades, mesmo os que nela não habitam. Então, a cidade acaba por fazer parte das nossas vidas, como parceiras, como amantes. Deve ser por isso que costumamos fazer músicas e hinos para as nossas cidades. No meu livro, a cidade em si, a cidade de Maputo, é a personagem principal, uma personificação de Sodoma e Gomorra. O Valete, músico português, diz que “a cidade é o cemitério dos vivos”. E eu concordo.
O insólito e o grotesco compõem o maravilhoso moçambicano. Por exemplo, existem relatos de determinados falecidos que foram avistados a vender pão nas ruas de cidades que não eram as de sua proveniência; ter que fazer uma cerimónia aos espíritos dos antepassados na inauguração de uma estrada ou ponte, para que não aconteçam [muitos] acidentes; a perseguição e decapitação de indivíduos albinos para o seu uso em rituais de enriquecimento, entre outras situações. E fica a questão, qual é a diferença entre o real e o imaginário? Em contexto moçambicano, não é fácil ter conclusões. A noção de realidade ou de ficção acaba por ser uma conclusão relativa. A Paulina “explora” isso em alguns dos seus livros. Em o “mundo grave”, não fica claro o que é real ou fantástico. O leitor [moçambicano], na base do que acredita, decide como interpretar o que lê, ou seja, não existe nada de positivo no romance.
4. Maiane Tigre – A coletânea de contos a invenção do cemitério (2019) demonstra a sua ampla predileção por temas voltados ao hiper-realismo social, calibrando, em sua contística, a confluência do trágico, referente a situações vividas, com a poesia extraída do cotidiano. Portanto, a arquitetura dos contos é construída mesclando a linguagem ornamentada da prosa poética ao gume cortante da palavra, expressando a tensão prevalecente no âmbito das hierarquias de poder. Além disso, outra tendência na prosa contemporânea é a flagrante permanência de problemas sociais que atingem as camadas populares, e certos atores ainda reféns da violência urbana ou da distribuição desigual de poder na contemporaneidade. Nesse ínterim, poderíamos afirmar que o elenco de personagens que participam deste jogo ficcional constitui a representação do povo moçambicano que se equilibra entre o hiper-realismo e o sonho?
Pedro Pereira Lopes – O Professor Etelvino Guila, da Universidade Eduardo Mondlane, diz que sim, que representa. Mas eu não sei se concordo ou discordo, não discuto com académicos. A minha proveniência é humilde. “Humilde” é uma palavra eufemística que significa pobre. Ela é usada em contextos em que o ex-pobre parece ter pejo de usar a palavra pobre ou pobreza. Eu não nego. A minha família era pobre. Onde cresci, onde me adentrou a escrita, existia apenas pobreza. Então, tudo o que conheço melhor é gente pobre, é a penúria, é a fome, gente pouco ou não escolarizada, a crença no divino, que ocasionaria uma vida melhor; a luta constante, a descriminação económica e a ausência de oportunidades. São essas as minhas representações. Uma outra professora escreveu que os meus personagens eram os que viviam “à margem da sociedade”, os marginalizados. Não existe isso de viver “à margem da sociedade”, a sociedade é uma e única, mas estratificada, dual, desigual. Eu jamais escreveria sob o ponto de vista de um personagem rico ou branco, por exemplo, porque escrevo o que é real, o que conheço. Se o que conheço é o que vivi, o que vivo – o sonho, a esperança –, então escreverei sobre isso, não importa o contexto, pode até ser em ficção científica. Esta é a minha forma de protesto.
5. Maiane Tigre – Como você percebe a importância de O livro do homem líquido, finalista do prêmio Oceanos 2022, para o conjunto de sua obra, e extensivamente, para consolidar o quadro da literatura moçambicana contemporânea? De que modo ela pôde projetá-lo no cenário literário internacional e, por tabela, também permitir à literatura de Moçambique reconhecimento além-mar?
Pedro Pereira Lopes – Fui também o editor de “O livro do homem líquido”, pela Gala-Gala Edições, editora que fundei em 2020. Era apenas um livro de cansaço, de descanso, fruto do meu “experimentalismo”, que eu queria editar. Não achei que fosse a chegar tão longe, que fosse a ser, de alguma forma, importante. Não tenho a mania de gostar ou desgostar dos meus livros, talvez por serem sempre diferentes um do outro. Este “O livro do homem líquido” fez o seu próprio percurso. Talvez vá representar alguma coisa, mas nos últimos tempos, não costumo criar ilusões, gosto de ver o curso das coisas. O meu maior medo é perder a habilidade de escrever. Já tive ambições de ser conhecido internacionalmente, mas hoje só quero escrever, escrever para os moçambicanos, que é o meu público primário, e para quem aprecia o que já escrevi.
Por conta do Oceanos, escreveu-me uma agência de escritores de Londres, interessados no livro, pode ser que dê em alguma coisa. Mas antes da nomeação eu já tinha sido contactado, também, por tradutores para o inglês e francês. Passam-se anos, não devem ter gostado. Tenho, ainda, livros editados em Portugal e Brasil. Já sou internacional, para a minha mãe. Se o livro, finalista que foi, fizer o seu percurso, estarei satisfeito. Por enquanto, está somente disponível em Moçambique.
6. Maiane Tigre – Quem é o poeta Pedro Pereira Lopes? Como foi a experiência de ter publicado o livro “fatia fresca de lua nova (2023)” em parceria com um dos mitos da poesia moçambicana, o poeta Armando Artur? Por que a escolha do gênero de poesia japonesa, haicai, para escrever retratos da vida e da natureza de Moçambique?
Pedro Pereira Lopes – Não existirá um poeta Pedro Pereira Lopes. Não compro a ideia. Existe um escritor que escreve poesia. Foi através da poesia que entrei na literatura, os primeiros textos que escrevi. Naquele tempo, sim, queria ser poeta. Mas depois vi que existiam muitos poetas em Moçambique. E se fosse para ser “poeta”, que fosse para fazer alguma diferença. Então decidi fazer poesia para crianças, pois não tínhamos poetas para crianças. Conheci a Cecília Meirelles por via disso. O Quintana. E existia um livro muito bonito do Rogério Manjate, “A casa em flor”. Fiz dois livros de poesia infanto-juvenil. Eu sei escrever poesia e fiz alguma poesia bonita e mágica para os pequenos.
O poeta Armando Artur é um amigo que fiz no último ano. Estamos muito próximos e veja que o convívio entre escritores, em Moçambique, ficou uma coisa horrível. Somos ambos da Zambézia, e não se trata de regionalismo, mas os escritores, sendo seres isolados, preferem não jantar com o inimigo. Um dia, à mesa do bar – ando sempre a bolar ideias – perguntei ao Armando, tendo como referência alguns dos textos de seus livros, se tinha consciência do haicai. E ele me disse que sim. Perguntei-lhe se os tinha em número suficiente para compormos um livro às meias. E gosto bastante desta coisa de dois autores de gerações diferentes estarem a colaborar em algo.
Eu achei o haicai por acidente, pela mão do Paulo Leminski, e percebi que existia, na sua composição e espontaneidade, um exercício necessário para a minha madureza como artista. O Armando acha o mesmo, que algo de supremo reside na simplicidade do haicai. É um livro de pequenos poemas, mas imenso na sua intenção.
[1] Doutoranda em Letras: Linguagens e Representações (UESC). Bolsista FAPESP. Membro do Grupo de Pesquisa GpAFRO: Literatura, História e Encruzilhadas epistemológicas. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2240-325X. E-mail: maiane.tigre@hotmail.com. Esta entrevista é o resultado parcial da minha tese de doutoramento orientada pela profa Dra. Inara de Oliveira Rodrigues (UESC) e co-orientada pela profa Dra Sara Jona Laisse (Universidade Católica de Moçambique – extensão de Maputo).
1.MaianeTigre – Poderia classificar o conjunto da sua obra em fases, entre a produção de contos, crônicas e romances, considerando a preponderância de temas, estilos, e as marcas da tradição ou de ruptura presentes em seus livros, de acordo com o período abordado, estendendo-se da década de 80 até 2022?
Aldino Muianga– Como em tudo, há sempre uma fase incipiente no início de qualquer empreendimento. Existe uma fase debutante, de timidez e receio de fazer “as coisas mal”. Sabido que é que uma primeira obra pode ser a perdição do seu autor, sempre usei de cautela, no início da minha carreira literária. Esta começou como já o disse, por diversas ocasiões, com a produção de poesia. O projecto frustrou-se, porque toda a minha produção se perdeu em inundações, que assolaram o bairro onde residia. Era uma espécie de aviso que o meu caminho real não era o da poesia.
Até 1987, nada escrevi que se chamasse literatura. O meu empenho residia em leituras, em exercícios de leitura, quase doentios. Queria escrever “bem”, veicular as minhas mensagens, de modo claro, profundo, penetrante e dissuasor. Durante as minhas leituras, apercebi-me que na literatura “moçambicana”, em geral, as referências que se faziam em relação à nossa cultura africana e (moçambicana em particular) eram, diria, exóticas, folclóricas, como curiosidades para consumo de turistas e curiosos. Isso causava-me muita estranheza e tristeza ao mesmo tempo. Pouco ou quase nada mesmo se escrevia sobre “nós próprios”, o que estava na essência cultural do ser moçambicano e africano.
Obviamente que antes da declaração da independência do nosso país produziram-se obras de muita relevância, mensagens de protesto e de clamor pela autonomia nacional, pela afirmação de uma identidade que era sonegada pelo colonialismo. Foram obras que marcaram o nosso panorama literário até à independência nacional, como já o afirmei. Tive o privilégio de crescer num meio suburbano e de exercer actividades clínicas em meios rurais. A experiência que adquiri naqueles universos conferiu-me o caudal de informações de que necessitava para iniciar uma carreira literária que seria, em simultâneo, uma simbiose do que aprendera dos livros, e do que seriam os meus próprios conhecimentos sobre as culturas regionais e tradições específicas do indivíduo moçambicano e, por extensão do africano. Era um trabalho de pesquisa que decorria de um modo espontâneo, porque era natural. Absorvia as informações que colhia de diversas fontes: dos meus pacientes, de chefes e médicos tradicionais, companheiros de trabalho e demais fontes derivadas de convívios. Encontrava-me face a face com a verdadeira cultura do meu país, a vertente ignorada e escamoteada da nossa identidade.
Assim surgiu a necessidade de proceder a uma rotura com as linhas oficias de fazer literatuta. Eu tinha a minha “literatura” por fazer, aquela que se fundamentava no real, isto é, na vida verdadeira do povoverdadeiro. Quis distanciar-me dos paradigmas correntes e seguir uma linha original: a de ser um porta-voz das estórias do povo, sem que isso signifique petulância ou complexo de superioridade. Sentia-me na obrigação de fazer “diferente”, e essa diferença começou a manifestar-se nas minhas primeiras publicações.
Durante aquela fase incipiente consultei e partilhei alguns dos meus contos com autoridades na esfera literária de Moçambique. As primeiras impressões foram de espanto e de encorajamento. Todos diziam: “explora esse veio”, “os temas são originais”, “a voz das nossas avós está presente nesses contos”, “os teus contos são autênticos nkaringanas”. Não tinha como vacilar. Prossegui a produção de contos com vigor, imbuído pela certeza de que as mensagens tinham eco entre o público leitor; e não só, que havia representatividade nos anseios dos leitores em “encontrarem-se, identificarem-se e interagir” naquelas narrativas. Eram afinal, e finalmente, as suas próprias estórias. E, aqui, residia a rotura de que falas, a quebra de convenções, a percepção de que a Literatura era um domínio do Ocidente, e privilégio para consumo de castas “cultas e civilizadas”. A minha era a recusa e combate ao estereótipo ocidental de que tudo o que é “africano é folclore”.
Como já o afirmei, os meus primeiros escritos foram contos. Assim o fiz, porque por algumas razões: a primeira sendo porque a experiência me ensinava que o conto é o gênero primordial e muito eficaz na veiculação de uma mensagem, de uma estória. Nós, africanos, somos contistas natos, por excelência. Isso está timbrado na nossa matriz genética. Comunicamos uns com os outros, através de estórias curtas, argumentamos através de exemplos quotidianos, de adágios, transmitimos conhecimentos através dos nkaringanas. Essa é a nossa forma de estar, de ser e de comunicar.
A segunda razão pela opção do conto era meramente pessoal: não tinha experiência de escrita que me colocasse à-vontade para a elaboração de textos longos. Tinha “medo” de escrever. Embora tivesse aquele arcabouço de leituras, não me sentia em terreno seguro escrevendo novelas ou romances. Preferi textos curtos, com mensagens condensadas. Um leitor ou analista atento pode verificar que nos meus primeiros contos não há diálogos, mas apenas descrições. Sentia-me retraído a colocar os protagonistas a dialogar, tecnicamente falando, encontrava-me manietado pelo medo de errar. Felizmente, com o tempo e com a aprendizagem fui vencendo aquele impedimento até chegar à novela e ao romance.
As temáticas sobre as periferias, assim designadas para inferir rural e subúrbios, são dominantes na minha escrita por razões que têm a ver com a afirmação identitária de grupos sociais marginalizados. Ninguém fala do camponês ou do suburbano como indivíduo com carácter e dignidade. Procuro identificar os valores desse indivíduo e colocá-lo na tribuna de um cidadão, que possui uma história, que detém valores das suas tradições e tem uma cultura que não é inferior a nenhuma outra. Vou-lhe dar um exemplo: em todas as sociedade existem narrações de violência doméstica e pública. Em Lourenço Marques as havia. Os autores desses eventos eram (os de violência pública, em particular) eram os chamados mabandido. Esses eram jovens que provinham do campo, (majoritariamente de Gaza e Inhambane) e trabalhavam como empregados domésticos dos colonos, vítimas diárias de abusos físicos e verbais dos patrões. Outros eram operários de construção civil, trabalhadores das fábricas ou casas de pasto, também vítimas de semelhantes abusos. Todos eram catalogados de incivilizados, criminosos à margem da Lei e das normas de civismo. Não me recordo de ter lido, vez alguma, algum relatório de investigação que tenha revelado a razão profunda, para a disseminação de episódios de violência protagonizados por aqueles indivíduos, em público, e nas suas residências. Havia um problema de desajustamento social, conflitos de culturas, para os quais não havia autoridade ou psicólogo atento em decifrar aqueles desnivelamentos socioculturais. Acreditava que existia (e sempre existirá) um território onde residem valores culturais no indivíduo, que as sociedades ignoram e repudiam como obsoletas e obscurantistas. São esses valores que em muitos dos meus contos procuro trazer à tona. É talvez, por essa razão, que alguns analistas consideram a minha obra em geral, como voltada para o tradicional. Não o nego, porque é aí onde reside a essência dos meus escritos: chamar a atenção para o respeito pelos valores que cada um de nós detém, independentemente da sua origem social, da sua cultura e das suas tradições. Os procedimentos daqueles ditos “criminosos”, mais não eram do que uma sublimação à carga de violência que lhes era infligida pelos seus patrões, pertencentes a uma “civilização superior e diferenciada”. Neste considerando, aconselho a leitura atenta do conto “Operação Djodjo”, do livro O galo ruivo (2022).
Creio que para um melhor entendimento de uma estória, o estilo e a linguagem devem ser as mais adequadas e apropriadas à mensagem que se pretende veicular. O próprio cenário é fundamental para colocar o leitor no ambiente certo, pretendendo apresentar a estória no universo onde os eventos decorrem. Claro que, ao longo desta experiência, ocorreu uma evolução no uso da linguagem. Aprendi e aperfeiçoei determinadas técnicas da narração que me permitem usá-las como instrumentos para maior eficácia na passagem das mensagens. A escrita é um acto dinâmico: quanto mais se escreve, mais se aprende, e menos erros se cometem. O meu lema é: para cada estória o seu estilo e a sua linguagem. Isto é fundamental, porque evita-se o ridículo do uso de uma fraselogia longa, desnecessária e desconexa para descrever um acto simples, e tornar complexo o entendimento de um evento. Gostaria de dar um exemplo: se hoje escrevesse o livro “Xitala Mati” fá-lo-ia com aquela simplicidade e aquele encanto que o livro desperta? Se tivesse escrito o romance Contravenção (de 2008), em 1987, teria conseguido conferir-lhe aquela acutilância que hoje tem? Penso que o momento histórico e a experiência ajudam a definir as técnicas de elaboração do texto, o estilo e a linguagem em simultâneo, sem esquecer o momento espiritual e emocional do autor. Ainda iremos falar sobre isto um dia.
A minha escrita não de limita a narrações de estórias sobre os meios rurais e suburbanos. Não há dúvidas de que aquelas são dominantes, mas não exclusivas. Temos o exemplo do romance “Contravenção”. Considero-me um escritor multifacetado, mas com timbre marcado pela tradição, pelo suburbano e pelo rural. Tenho crónicas publicadas em revistas nacionais e internacionais sobre temas que nada têm a ver com publicações semelhantes a contos ou novelas. E seria contraproducente fechar-me numa redoma, feito curandeiro de cubata a velar espíritos de antepassados e, nesse exílio, deixar a vida fluir no universo do mundo em que vivo. Não! Estou atento ao que me rodeia, ao que me preocupa e, sobretudo, qual o contributo moral e social que posso prestar à sociedade em que vivo, que mensagem posso transmitir sobre os valores de que cada um de nós é portador, e como usá-los para um melhor e mútuo entendimento e tolerância cultural. Sou um idealista por natureza e por formação.
2.Maiane Tigre – Do risível à profusão de temas utilizados, quais as distintas faces do escritor Aldino Muianga, isto é, o Aldino continua o mesmo da década de 80, com o seu livro de estreia Xitala-mati, de 1987, ou há uma substancial diferença entre a escrita do charrueiro Khambira Khambiray e o prosador inserido no cerne da literatura contemporânea?
Aldino Muianga– Tem de haver diferença. Neste caso, uma grande diferença. Afirmei antes que o processo de escrita sofre gradações, existe uma evolução nos processos de redacção dos textos, na selecção dos temas e seu tratamento. Aqui, volto a dizer, os momentos emocionais também variam e determinam a qualidade do produto final, que é a narrativa (conto, novela ou o que for). De 1987 até hoje, beneficiei-me de uma transformação na visão do mundo e do universo em geral. As sociedades evoluíram em vários sentidos. E eu, como membro de uma sociedade, tive de me ajustar àquelas transformações e conceber uma nova visão do mundo. E é nesse mundo onde me inspiro e fotografo as minhas narrativas, com uma linguagem renovada, actualizada, e ao entendimento do leitor que me leia. Considero-me parte de uma sociedade que se transforma. É esse o meu posicionamento, o de não ficar por detrás da História.
O charrueiro Khambira Khambiray foi o cartão de apresentação de um autor que pretendia estabelecer uma rotura dos preconceitos no modo de fazer Literatura, pela temática e pelo tratamento da linguagem, com tonalidades e impregnações do conto tradicional. Aquele “morreu”, e seu lugar nasceu o Aldino Muianga do “Xitala Mati”, autêntico, detentor de uma vontade de dar a conhecer ao mundo a verdadeira face da nossa identidade, como moçambicanos e africanos. Esse tem sido o estandarte na minha jornada, como um Escritor comprometido com o seu povo, com a valorização das suas tradições, da sua cultura, da sua identidade, no que isso significa, em termos de respeito e reconhecimento daquilo que sou na totalidade, no meu lugar de nascimento, na lingua que falo, nas minhas crenças, nos modos de inserção na sociedade e no modo como concebo o mundo e o universo.
Repare que o que escrevo, de modo algum, pode ser considerado uma frente de confrontação contra quem quer que seja, ou contra os ditames doutras culturas. Longe de mim tal ideia. O que proponho nos meus escritos é apenas, e isso somente, respeito e reconhecimento das culturas populares, sejam elas rurais, suburbanas ou urbanas, meios que nos conduzam a uma harmonização e equilíbrio nas sociedades em que todos somos chamados a compartilhar experiências, sem pejos, nem descriminações. Isso somente.
Nós, moçambicanos, somos uma sociedade multicutural, com uma riqueza e um colorido étnico e racial singular. Se, no meu caso, optei pela via de exploração do veio rural e suburbano, existem outros escritores que terão optado por outras vias, que é salutar. Todos contribuímos, cada qual dando o melhor de si, para fazer deste nosso país culturalmente multifacetado, um lugar onde cada um dos seus cidadãos se sinta parte e parcela de uma Nação da qual se orgulhe.
3.Maiane Tigre – Qual a relevância da cultura moçambicana no conjunto da sua obra? O conto é a pedra de toque de sua prolífica atuação literária. De acordo com Can (2015, p.11),“faz do gênero […] um lugar de permanente reinvenção.” Como se dá essa reinvenção e de que modo consegue evitar a repetição ao longo dos anos, já que é dono de uma vasta produção, em torno de 19 livros, entre romances e coletâneas de contos, dentre os quais se destacam: O domador de burros e outros contos, (2015), A noiva de Kebera, contos (2016), Asas quebradas, romance (2019)?
Aldino Muianga – De acordo com muitos analistas literários, a minha obra tem sido uma referência em pesquisas sobre vários aspectos, nomeadamente, a simbiose entre o conto tradicional e o conto clássico. Naquele contexto, o conto é a forma mais eficaz de expressão popular, em uso nas comunidades, desde os tempos seculares. Como poderia eu inverter esse processo, senão seguir as suas dinâmicas e modernizar os meios de narrar? Para o povo, o conto é um estandarte na comunicação social. De passagem, posso dizer que em muitas aldeias do campo remoto existem competições de contos tradicionais. Assim se perpetua uma tradição secular baseada na formação de peritos no que tange à transmissão e perpetuação da História dessas comunidades. O conto, sim, é uma pedra angular, o fulcro onde se articula a oralidade. Foi desta que as comunidades conheceram eventos do passado, dos conflitos entre etnias, de todos os eventos seculares arquivados na memória dos povos. Sem os benefícios dos registos grafados em arquivos históricos, aquelas memórias ter-se-iam perdido e esquecido nos túmulos, onde jazem os seus protagonistas e suas testemunhas. A criatividade é essencial em qualquer área de produção artística. A repetitividade instala-se onde não existe criatividade. Penso que existem sempre formas de criar novas situações, novos enredos, invenção de novos protagonistas, com diversas intervenções no texto. Isso é o que cria esse dinamismo no processo de escrita do autor. Este não pode ser estanque, à espera que os acontecimentos lhe cheguem à mão. A busca, a pesquisa de novas estórias é primordial na obra de qualquer criador artístico. Um Escritor é um artista por excelência. Nessa qualidade, ele capta sensibilidades e memórias; reinventa e reproduz, sonha e concretiza. Esse é o processo de reinvenção que em mim decorre ao longo da minha produção literária. Gosto de dizer que um Escritor tem seis sentidos, sendo, o sexto, o da reinvenção do real.
4.Maiane Tigre – O mítico, a espiritualidade, o sobrenatural, a dimensão telúrica, a presença de espíritos convivendo com os vivos, são alguns dos ingredientes fundamentais na composição de suas narrativas. Portanto, qual seria a hermenêutica ou linha de leitura mais conveniente para interpretar as histórias dessas gentes, melhor dizendo, qual seria a sintaxe do sonho utilizada na arquitetura dos seus textos?
Aldino Muianga – Nas culturas africanas, e a moçambicana não foge como excepção, a relação entre vivos e defuntos é intrínseca, presente e concreta. Existe, entre nós, a concepção de que os defuntos estão presentes na vida de cada um e determinam de modo subtil o deselance de eventos do quotidiano. São exemplos correntes nas famílias, e em indivíduos, em particular, a atribuição de fatalidades, de doenças prolongadas, de desemprego, de infertilidade e outros malefícios como sinais de intervenção de defuntos.
A relação à que me refiro, manifesta-se pelo empenho dos vivos, em práticas de rituais de apaziguamento dos defuntos, aos quais os vivos se submetem e imploram pelo sua intervenção, para uma vida isenta de perturbações. O uso de amuletos, os rituais de invocação nos túmulos, os exorcismos nas cabanas dos magos, as práticas de autoprotecção contra o mau-olhado, são algumas das inúmeras práticas que o africano, de um modo geral, recorre para estabelecer aquela ponte entre si e os seus defuntos.
Na minha prática clínica, testemunhei casos desta relação entre os meus pacientes, com os seus defuntos. Cito apenas alguns exemplos, que ilustram aquele compromisso entre vivos e mortos. Para mais detalhes, remeto o leitor ao livro “Hospital, contar clinicando, Volume I” a ser publicado em breve.
5.Maiane Tigre – Você acredita que poderia ser considerado um escritor da tradição, cuja escrita se circunscreve a um momento histórico específico do pós-independência, diretamente vinculada à Geração Charrua, um escritor da ruptura, que subverte o próprio estilo, ou se classificaria, justamente, como a intersecção desses dois momentos, tornando-se um prosador atemporal, que está além de fechamentos ou reducionismos estanques?
Aldino Muianga – Na minha obra está vincado o compromisso de seguimento de uma linha que se pauta pela narração de eventos ligados às culturas e tradições nas comunidades do meu país. As tradições, as culturas, os mitos e todos os valores de espiritualidade sempre existiram, e são perenes. O que narro só pode deixar de ser novidade para quem anda desatento às dinâmicas das sociedades periurbanas e rurais. A literatura que ficção fundamenta-se nisso, no revolver da História das comunidades, independentemente do tempo onde ela (a História ou as estórias) possa ter lugar. Repare que no livro “A Noiva de Kebera” se descrevem eventos do período pré-colonial, como prova da atemporalidade da minha escrita. Não me cinjo a espaços estanques, como já o afirmei anteriormente. O que informa os meus escritos são fundamentalmente as culturas, as suas intercepções, os conflitos que esses cruzamentos geram, as soluções achadas para a conciliação destes universos aparentemente contraditórios. A rotura apresenta-se como a abertura de uma página inédita na linha temática, que privilegia o subúrbio e o campo como cenários onde desfilam protagonistas doutras culturas, que não as convencionais e catalogadas como “superiores”.
6.Maiane Tigre – A figura da prostituta possui significativa centralidade no âmbito da produção literária moçambicana. Em Meledina ou a história de uma prostituta (2010), observa-se um retorno ao tempo colonial, na condição de romance histórico. Qual o enquadramento dessa obra, do ponto de vista da História de Moçambique? Este romance possui elementos que sedimentam a tradição literária do país, face ao papel transgressor desempenhado pelas prostitutas representadas na pena dos escritores da nova geração, como Rabhia, de Lucílio Manjate, e Shonga, de Pedro Pereira Lopes, personagens modelares da subversão?
Aldino Muianga – No livro em referência, a figura da protagonista Meledina simboliza o nível de degradação da Mulher, ela é a porta-estandarte de um exército de oprimidos pelo colonialismo na frente da exploração sexual. Naquele espaço e tempo colonial, a prostituição dir-se-ia institucionalizada, sindicalizada, um “bem de consumo oficial”, para as elites coloniais. “Meledina “ constitui-se como um valor que se assume como um simbolismo de dignidade como Mulher, mãe, e porque não? Esposa virtual do seu próprio opressor. A prostituição é um mal das sociedades, com desigualdades socioeconômicas, e Moçambique não foge a esse desiderato. Vivemos numa sociedade viciada onde impera a lei-do-mais-forte, na qual a Mulher assume um papel de serva, de sub-cidadã, de um instrumento avassalado por uma sociedade patriarcal. É nesta corrente que alguns escritores do meu país focam algumas das suas produções sobre aquele problema e o seu impacto na sociedade. São sinais de protesto (e este é um dos papéis da Literatura) que, espero, tenham algum eco nos ouvidos de quem tem a responsabilidade de consertar os desconcertos deste País.
7. Maiane Pires – Comente sobre a recente publicação do livro O galo Ruivo (2022), destacando as principais inovações, além de mencionar o mote primordial dessa narrativa. Quais são os projetos futuros voltados para sua carreira literária?
Aldino Muianga – “O galo ruivo” é uma colectânea de contos, que retrata o perfil sociocultural e económico dos habitantes do cosmos suburbano da cidade de Lourenço Marques e dos meios rurais. Naquela compilação, as narrativas denotam uma nova dinâmica na estruturação dos textos, que se podem considerar como uma exploração doutros veios de ficção narrativa. Em alguns contos, o uso de metáforas e de trocadilhos confere um pendor poético original na linha de escrita a que habituei o leitor. Às vezes me pergunto se a poesia não estaria a ressuscitar dentro de mim… Continuo a escrever, tanto quanto possível, sempre à busca de novos elementos, com que enriqueça os meus escritos. Para o ano corrente, projecto publicar um romance, uma novela e uma colectânea de contos. Os livros já foram entregues ao Editor, para as protocolares valiações e processamento das burocracias pré-publicação.
Grato pela atenção.
Aldino Muianga
Pretória, 20 de Janeiro de 2023
[1] Doutoranda em Letras: Linguagens e Representações (UESC). Bolsista FAPESP. Membro do Grupo de Pesquisa GpAFRO: Literatura, História e Encruzilhadas epistemológicas. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2240-325X. E-mail: maiane.tigre@hotmail.com. Esta entrevista é o resultado parcial da minha tese de doutoramento orientada pela profa Dra. Inara de Oliveira Rodrigues (UESC) e co-orientada pela profa Dra Sara Jona Laisse (Universidade Católica de Moçambique – extensão de Maputo).
Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, mambo (rei) de uma região à norte do rio Zambeze acaba de morrer. Durante o “choriro”, todos pretendem saber se o desejo de Nhabezi se irá concretizar: transformar-se em espírito de mpodoro, como acontece com todos os chefes da região.
Opinião:
O romance histórico, por natureza, faz uma reflexão acerca de uma realidade histórica entremeada com elementos ficcionais. As personagens ficcionais se misturam a personagens históricos “ficcionalizados” na estrutura da narrativa. Muitas vezes, tambem, o romance histórico questiona e problematiza a própria história.
Choriro é um exemplo deste tipo de obra. Ao retratar o passado, numa versão imaginada pelo autor, o livro não só contribui para a reconstrução da memória cultural, como também interpreta para o leitor, a experiência humana dessa época. A palavra Choriro significa dor, ou também, o período de três dias de luto, durante os quais o morto é preparado para a cerimónia de enterro.
Segundo Marcelo Panguana, que escreveu uma crítica sobre Choriro, no livro “conversas de fim do mundo”, antes da publicação de Choriro, alguns pormenores do livro, no entender do autor, ainda não o convenciam. “Considerava o título da obra estático, sem a agressividade e a capacidade de sedução pretendidos. O substantivo choriro remetia a um cenário calmo e apático que poderia desmobilizar a curiosidade de eventuais leitores”. Um bom título tem sempre a capacidade não só de atrair o leitor, mas também a de ajudá-lo a descobrir o livro, o que este título, acabou por fazer com mestria.
Com um rico nível de detalhe e extremo rigor na pesquisa, o autor ambientou este romance no Vale do Zambeze, mais precisamente em Tete e na Zambézia, no século XIX. A história centra-se em Luis António Gregódio, também conhecido por Nhabezi, ou como o mambo (rei) da região. Nhabezi é um invasor português que acaba por adaptar-se e apropriar-se dos costumes e tradições locais, tornando-se curandeiro, tendo várias mulheres e muitos filhos. Nhabezi, ou Gregódio, introduziu também novas práticas na região.
O livro faz incursões sobre figuras históricas, como David Livingston, explorador inglês, Kaniemba ou Matequenha, nomes de guerra de dois senhores de prazo, da época, e até Ignácio de Jesus Xavier, mais conhecido por Kalizamimba, figura cuja história foi abordada recentemente por Isabel Ferrão, no seu romance Kalizamibma.
Sendo um livro com diversas histórias secundárias muito interessantes, algumas ficaram por aprofundar. Queríamos ter conhecido com mais detalhes a história de Nfuca, de João Alfai, da Dona Josefina e também dos luanes de Quelimane, os prazos da época, com uma estrutura diferente da dos descritos em Tete.
O autor constrói vários personagens no livro, uns mais cinzentos que outros, mas todos certamente com características únicas. Pela quantidade de dados a assimilar, e por reflectir o contexto de um importante período histórico, que certamente traz elementos que moldam o actual contexto, é um livro que deve ser lido sem pressa e com bastante atenção.
No dia 22 de Setembro de 2022, foi publicada a terceira edição da revista Verzia.
A revista Verzia publica na Eslováquia traduções de literatura contemporânea de todo o mundo e esta sua terceira edição é centrada na literatura fantástica/ficção especulativa escrita em português. A compilação das histórias esteve a cargo de Lucia Halová, Silvia Slaničková e Lenka Cinková.
Segundo Lucia Halová, que assina a nota editorial desta edição, encontrar ficção especulativa escrita em português foi uma aventura. As grandes livrarias online de Portugal e do Brasil oferecem principalmente livros deste género traduzidos e não obras produzidas localmente, razão pela qual foi extremamente difícil encontrá-los. Entretanto, na busca de obras portuguesas, Lenka Cinková foi ao terreno e pesquisou directamente nas livrarias em Lisboa, onde frequentemente perguntava se havia alguma obra local deste género. Descobriu assim, que não só estavam obras a ser publicadas, como várias conferências sobre ficção especulativa estavam a ser organizadas naquele país. A Verzia efectuou mais tarde, contacto com a editora portuguesa Divergência, especializada neste tipo de ficção.
A pesquisa da Verzia levou ainda a descoberta do movimento Afrofuturismo, um movimento abordado nesta edição por Waldson Sousa, escritor brasileiro e um dos principais expoentes da literatura afrofuturista no Brasil.
Por fim, a busca sobre a ficção especulativa nos países africanos de língua portuguesa, conduziu a Verzia ao Diário de Uma Qawwi e à chamada de publicação para a antologia Espíritos Quânticos: Uma Jornada por Histórias de África em Ficção Especulativa.
Para o Diário de Uma Qawwi, foi uma honra receber o contacto da Verzia. Durante o processo, o Diário de Uma Qawwi partilhou com a revista o conjunto de textos da antologia, dos quais, três foram seleccionados para a tradução e integração na edição da revista.
Desta forma, no seu todo, a terceira edição da Verzia engloba contos traduzidos de português para eslovaco, de autores de Portugal, Brasil e de Moçambique, incluindo, entre outros, os autores Julia Durand, Waldson Sousa, Nikelen Witter, Mia Couto, Suleiman Cassamo e Virgília Ferrão. Cada conto tem uma ilustração desenhada para a história e estas belíssimas ilustrações foram feitas pela talentosíssima artista eslovaca Kamila Kuricová.
Ilustração de Kamila Kuricová
Conto: “O dia em que Fabião foi engolido por uma caixa automática”, do escritor Suleiman Cassamo, traduzido por Jana Benková Marcelliová.
Os textos de cada país são acompanhados por artigos introdutórios sobre a ficção especulativa nesse país, sendo que o ensaio sobre a ficção especulativa produzida nos países africanos de língua portuguesa, foi escrito por José dos Remédios e traduzido por Zuzana Greksáková.
Por fim, a edição conta com uma secção de recomendações de tradutores tradicionais, onde o leitor pode saber não apenas sobre novos livros, como também sobre o processo da tradução destes textos.
Quem não se lembra da história [ou estória] dos “Tatá papá tatá mamã”, da “xipoko xa ma mecha” (fantasma de mechas), do fantasma que apanhava boleia, das serpentes voadoras de Goba, dos Anapaches, dos mitos dos maridos/esposas da noite, do estrangeiro que seduzia mulheres novas e avarentas, para depois infectá-las de doenças medonhas, ou ainda da “Maria bheri ubhozi” (“Maria de uma mamã”)? O imaginário social vive de lendas urbanas e mitos rurais, que, de tempos em tempos, surgem e desaparecem, desempenhando, como advogam alguns especialistas, um papel importante nas sociedades.
Moçambique e as suas diversas regiões não ficam de fora. Quando o assunto é debatido, várias histórias são contadas, muitas delas pequenas, breves, de carácter fantástico ou sensacionalista, divulgada de forma oral. Serão elas verdadeiras, baseadas em factos reais? Ou constituem, somente, parte do folclore (tradicional e moderno)?
A Gala-Gala Edições pretende lançar uma antologia baseada nas lendas urbanas (e mitos rurais) de Moçambique, fazendo uma homenagem ao imaginário popular e/ou folclore moderno do país. A chamada é extensiva, também, para escritos de terror (sobrenatural ou não, psicológico, suspense e outros subgéneros) que tenham Moçambique como cenário. Serão escolhidos 13 contos, em referência ao número 13, obviamente amaldiçoado, segundo a crença popular.
Os textos deverão ser enviados entre os dias 25 de Julho e 25 de Setembro. Cada autor poderá enviar apenas um conto, com um limite de 15 páginas (veja o regulamento). O livro contará com a curadoria dos escritores Lucílio Manjate e Pedro Pereira Lopes.
Esta iniciativa conta com o apoio da Casa do Professor, da plataforma Mbenga – artes e reflexões, do Diário de uma Qawwi, do sarau Palavras são Palavras e do Clube de Leitura de Quelimane.
Para mais detalhes veja o cartaz da chamada e o regulamento.
Regulamento
1 Participação
1.1 A chamada destina-se a escritores moçambicanos. Os participantes devem ser maiores de 18 anos e residentes em Moçambique. Podem participar escritores com e sem obra publicada.
1.2 A inscrição é gratuita e nenhum valor será cobrado aos inscritos em nenhuma fase do projecto.
2 Orientações
2.1 Só publicados contos inéditos. Aos autores seleccionados será exigido um termo de responsabilidade e autoria.
2.2 Os textos deverão ser encaminhados para o e-mail galagalalivros@gmail.com, com a seguinte epígrafe no assunto: LENDAS URBANAS E CONTOS DE TERROR. No mesmo documento, a seguir ao texto, deverá ser apresentada uma breve nota biográfica, de até 8 linhas.
2.2.1 Os textos deverão ser enviados em formato Word (não aceitaremos PDF), espaçamento 1,5 entre linhas; fonte Times New Roman (12); O conto precisa ter o título e o nome do autor (nome que irá aparecer no livro) no início do documento; O conto deve ter um máximo de 15 laudas.
2.2.2 Para os diálogos, deverá ser utilizado o símbolo de travessão.
2.2.3 Inscrições e textos que não obedecerem o formato serão automaticamente desclassificados.
2.3 Cada autor poderá inscrever só 01 (um) conto. 2.4 Não serão aceitos contos que incitem, glorifiquem, defendam ou demonstrem de forma positiva: estupros, uso de drogas, racismo, LGBTfobia e preconceitos no geral.
3 Publicação
3.1 A antologia terá até 13 (treze) contos participantes. Dentre os quais, aqueles escritos pelos autores seleccionados através desta chamada, podendo haver a participação de autores convidados pela Gala-Gala Edições.
3.2. A selecção final dos textos inscritos será da responsabilidade dos escritores e contistas Lucílio Manjate e Pedro Pereira Lopes.
4 Direitos autorais
4.1 Todos os autores receberão dois exemplares do livro impresso podendo, também, adquiri-lo com desconto de 30%.
5 Disposições finais
5.1 Nos limitamos a não justificar o motivo da não selecção do conto.
5.1.1 O(a) participante se responsabiliza por responder isoladamente em caso de plágio e afins.
Noémia de Sousa, a “Mãe dos poetas moçambicanos”, no seu icónico poema “Súplica”, grita: “Tirem-nos tudo/ mas deixem-nos a música!” E se a Noémia tivesse dito POESIA? É evidente que música também é poesia. Voz densa e afiada, que representa a resistência da mulher moçambicana [e negra e africana], Noémia inspirou e continua a inspirar poetas de várias gerações. Moçambique, “Pátria de poetas”, ainda fez nascer e ouvir as vozes de Glória de Sant’anna, Clotilde Silva, Sónia Sultuane, Lica Sebastião, Emmy Xis, Rinkel e, mais recentemente, Hirondina Joshua e Énia Lipanga, entre pouquíssimas outras.
Esta chamada, iniciativa da Gala-Gala Edições, visa dar a conhecer o trabalho de novas vozes da poesia escrita por mulheres em Moçambique, para quem, a poesia e a música fizeram sempre parte do seu quotidiano, mas não antes tiveram a oportunidade de publicar em livro. Por isso “BlasFêmeas”, pois queremos que este seja um acto de heresia, de emponderamento, de liberdade, de pôr as novas poetisas [ou mesmo poetas] a declamarem sobre os seus amores, as suas liberdades, lutas e direitos.
O subtítulo, “Sangue e verbo”, é igualmente inspirado em Nóemia [“Sangue negro”], que faleceu aos 76 anos, em 2002, e presta-lhe homenagem. A antologia publicará 2 poemas de 38 novas autoras, em edição imprensa, entre Dezembro de 2022 e Março de 2023. Para tal, cada autora deverá enviar 2 poemas de, no máximo, 4 páginas. A selecção final das contempladas será escrutinada pelas poetisas Sónia Sultuane e Emmy Xis, que assinam a curadoria.
Os textos deverão ser enviados para o e-mail galagalalivros@gmail.com, com a epígrafe no assunto: ANTOLOGIA BLASFÊMEAS. No mesmo documento, a seguir os poemas, deverá ser apresentada uma breve nota biográfica, de até 8 linhas.
A chamada é somente válida para autoras que ainda não publicaram livros. Podem ainda participar poetisas anteriormente antologiadas. As autoras seleccionadas serão comunicadas por correio electrónico e receberão duas cópias do livro.
Os materiais poderão ser enviados entre os dias 20 de Julho e 20 de Setembro, dia de nascimento de Noémia de Sousa. Não serão consideradas inscrições fora deste prazo.
Esta iniciativa conta com o apoio da Casa do Professor, da plataforma Mbenga – artes e reflexões, do Diário de uma Qawwi, do sarau Palavras são Palavras e do Clube de Leitura de Quelimane.